O homem que tinha duas mães.

Por Marcela A. de Castro

Tal como um daqueles relatos bizarros saídos da imprensa austríaca, eis que recentemente nos deparamos com uma crônica curiosa: “HOMEM DESCOBRE QUE FORA ROUBADO NA MATERNIDADE HÁ 39 ANOS.”

Cristiano da Cruz (39), um médico residente no Flamengo, casado, pai de cinco filhos, descobre, casualmente, ao ouvir a conversa de suas tias na sala de jantar da casa de sua mãe, que esta a quem sempre julgara ser sua mãe biológica, na verdade, o seqüestrara ainda recém nascido, na maternidade.

De um momento para o outro o mundo desse médico vira de ponta-cabeça e mil perguntas lhe passam pela cabeça: Por quê? Como eu nunca desconfiei de nada? Quem é a minha mãe verdadeira? Onde ela está? E agora, como vou me comportar perante a mulher que me criou todos esses anos? Ela sempre me demonstrou tanto amor… Eu sempre a amei como a minha própria mãe… Será que vou deixar de amá-la?

*  *  *

Ecumênica sempre fora uma mulher moderna e extrovertida. Falava com todos na vizinhança e todos se sentiam eufóricos em sua presença. Detestava o silêncio e o recolhimento. Gostava mesmo era de estar no meio do povo, cantar e dançar, seus hobbies favoritos. Desde cedo, Ecumênica insistia com Cristiano que este deveria se abrir mais para o mundo e se adaptar às novas situações cotidianas. Cristiano sempre convivera no meio de mulheres fortes. Sua mãe e tias pareciam se importar muito com ele e o cercavam de toda sorte de paparicos, nunca permitindo que ele ficasse a sós consigo mesmo.

Assim, ao se dar conta da farsa em que vivera durante toda a sua vida, Cristiano resolve sair em busca da verdade. Primeiro, vai até o padre da igreja que freqüentava e conta-lhe tudo o que ouvira, pede-lhe um conselho e ouve o seguinte: “Meu filho, que coisa mais incrível!” “De fato, essa estória é inacreditável! Contudo, penso que você deve esquecer o passado. O que passou, passou. Os tempos são outros. Certamente, sua boa mãe teve seus motivos para fazer o que fez. Ela o ama e não faria nada para magoá-lo.”

Cristiano saiu de lá confuso e cabisbaixo. Como poderia esquecer o passado? Como poderia não conhecer aquela que lhe deu à luz, aquela que tivera seu filhinho roubado e que era a sua verdadeira mãe biológica? Inconformado, Cristiano decidiu procurar sua tia Prudência. Diferente das demais, tia Prudência era uma mulher ponderada, gostava da justiça e nunca se negava a falar a verdade, mesmo que não a vissem com bons olhos por causa disso.

Assim, Cristiano armou-se de coragem e contou tudo à tia Prudência. Esta olhou bem no fundo de seus olhos e lhe disse em voz calma: “Meu filho, eu sempre soube que um dia a verdade viria à tona.” “Tentei dissuadir Ecumênica de seqüestrá-lo na maternidade. Disse-lhe que isso era uma loucura e que um dia você acabaria por descobrir suas maquinações. Sofri muito ao tentar dissuadir sua mãe dessa idéia louca. Na verdade, creio que ela não fez por mal. Sua mãe sempre fora influenciada por uma vizinha esquisita chamada Anibalina, que não lhe deixava em paz. Não tive o apoio de suas outras tias. Todas elas me disseram para ficar de fora. Disseram-me que sua mãe estava fazendo o melhor por você, que sua mãe biológica já tinha muitos filhos, que era muito velha para criá-lo e que faria de você uma pessoa alienada do mundo”. “A cada argumento que eu apresentava, elas me atacavam com mais fúria”. “Meu filho, sempre fui mantida no ostracismo por suas tias. Elas temiam que um dia você me procurasse para saber a verdade”.

Cristiano ouvia tudo com grande perplexidade. “Titia, por favor, conte-me sobre a minha mãe verdadeira. Como ela é?”

Prudência então prosseguiu com voz calma e pausada: “Meu filho, sua mãe sempre foi uma mulher belíssima, muito digna e proba. Gostava que seus filhos estivessem reunidos ao redor de si e que vivessem completamente para o mistério do Amor, da Beleza e da Verdade. Apesar de ter morado nas mais ricas e belas casas e de vestir-se com elegância esmerada, recebia a todos, sem fazer distinção de classe social, tratando-os com mansidão e firmeza e nunca se furtando à verdade”. “Creio que chegou a hora de conhecê-la. Sim, Esperança ainda está viva! Soube há pouco tempo, através de um conhecido, que, atualmente, ela vive em uma casinha modesta no interior do estado”.

O coração de Cristiano quase saiu pela boca. Como reagiria ao conhecer sua mãe verdadeira? O que diria à mulher que lhe criou como filho?

*  *  *

No domingo seguinte pela manhã, ele e tia Prudência foram até uma cidadezinha próxima para a maior aventura de sua vida. Foram de carro, 2 horas de viagem até chegar a uma casa simples, mas muito digna. De longe podiam ouvir cânticos suaves e vozes harmoniosas. Ao entrar, percebeu que as paredes estavam repletas de imagens de santos. No centro havia uma grande cruz ladeada de belas imagens de Jesus e Maria, respectivamente. Todos podiam perceber claramente que aquele era um lar católico.

Cristiano e Prudência foram entrando sem cerimônia, visto que o portão da casa estava aberto. De repente, Cristiano se depara com aquela realidade impactante. Esperança e seus irmãos. Então, era verdade! Ela ainda existia! Lá estava sua mãe Esperança, a mulher mais bela que já vira na face da Terra, junto com seus irmãos, ao redor de uma grande mesa. Todos muito atentos ao que a mãe lhes dizia. Cada qual recebia um prato das mais finas iguarias servido de suas doces mãos maternas enquanto ela lhes falava das verdades perenes e de tudo o que é bom e belo. Lágrimas de felicidade rolaram dos olhos de Cristiano. Era como sempre a conhecesse. Prudência o conduziu para mais perto de sua mãe. Esta se levantou, olhou para Prudência como que agradecida. Depois fitou Cristiano e compreendeu instintivamente que aquele era o seu rebento tão amado e nunca esquecido. Olhou-o com o olhar mais amoroso do mundo. Era como se o mundo tivesse parado naquele momento. Mãe e filho – cara a cara. Abraçaram-se ternamente.

Desde então Cristiano não deixa de visitar sua verdadeira mãe semanalmente, mesmo que para isso tenha que viajar 4 horas somando ida e volta, todos os domingos.

Por enquanto, sentimentos confusos tomam contam de seu coração. Não sabe ainda se conta à sua mãe adotiva que já sabe de tudo. Não sabe se a repreende por tê-lo enganado durante tantos anos. Por um lado, sente-se grato à mulher que o nutriu, vestiu e cuidou durante toda a sua vida. Por outro, não consegue deixar pensar em tudo o que viu e ouviu de belo e verdadeiro na casa de sua verdadeira mãe e comparar com o barulho e confusão de seu lar de criação. Revolta-se; dá-se conta que uma grande injustiça fora perpetrada. Contudo, como poderia aceitar de uma hora para outra que Ecumênica é uma criminosa? Como poderia desprezá-la completamente, uma vez que mesmo de maneira questionável ela sempre fora como uma mãe para si? Entregá-la às autoridades não lhe parecia a melhor solução, pois isso poderia acabar afetando negativamente seus próprios filhos, já tão acostumados à vovô Ecumênica.

E assim Cristiano vive seu dilema – duas mães e uma decisão a tomar – seria possível partilhar a alegria da descoberta de sua verdadeira mãe, fazê-la conhecida e amada sem denunciar Ecumênica?

7 Comentários to “O homem que tinha duas mães.”

  1. Assim como em terra de cego quem tem olho é rei, também para bom leitor, pingo é letra!

    Sinto tanto falta de Ti Mãe! Que falta me faz Teu Altar! Já não consigo mais distinguir Tua Voz na multidão! Onde Te esconderam?

  2. Que texto lindo! Para bom entendedor…

    Acho que foi o melhor texto que li esta semana. Obrigada!

  3. “Sua mãe sempre fora influenciada por uma vizinha esquisita chamada Anibalina, que não lhe deixava em paz”.

    Não era somente esquisita, mas gostava de certas reuniõezinhas secretas…

  4. Bela metáfora, tocante. Parabéns à autora.

    É esta realidade das duas Mães que deixa a muitos de nós paralisados no dilema entre acorrer à Verdadeira Mãe, de quem fomos sequestrados, e não abandonar a Mãe que nos nutriu e cuidou nestes últimos 39 anos…

    A busca da Verdadeira Mãe é imperiosa, mas podemos abandonar a Mãe que nos acolheu desde pequenos?

    In Christo,
    Alex Fontes

  5. Termino de ler esta comovente tragédia da história cristiana. Conheci bem a velha Ecumênica, mulher de maus hábitos e de uma falsidade inominável. Quanto à terrível Anibalina, dela teria muito a dizer. Por falta de espaço e paciência, digo, apenas, que ela costumava reunir-se, nas noites de sábado, no porão de uma casa sinistra, onde entrava por uma fresta secreta, com cavalheiros também sinistros. Eu soube horrores dessas reuniões noturnas de sábado, entretanto, não tendo como prová-las, abstenho-me de comentá-las. Aliás, Anibalina, por inseminação artificial, concebeu uma filha muito feia, através de um método nada ortodoxo, ad experimentum, de seis pseudo-cientistas. Esta, coitada, nasceu com uma doença congênita incurável, espécie de atrofia cordiscerebral, e está com seus dias contados.
    É animador também que, há pouco, eu tenha conhecido a mãe de Cristiano, D. Esperança. De pronto vê-se que é uma digna senhora que reúne em torno de si, além se seus amados filhos, alguns ainda poucos amigos, porém fiéis. Mais que uma vez por semana, apresso-me em visitá-la. Ah! Antes que me esqueça, atesto que D. Esperança possui três filhas lindíssimas, creio que as mais belas: Aurora, Letícia e Vitória.

    P.S.: A velha Anibalina, vendo aproximar-se aquele dia terrível, pediu para ser enterrada muito, mas, muito abaixo mesmo, de sete palmos de terra. Não sei por quê.

    Rudolpho Wagner Filho
    Grupo de Oração e Estudo Santa Maria da Vitória.
    Maceió – AL

  6. Um conto fabuloso! Mas sem desmerecer a veia literária da irmã Marcela, penso que seria melhor dizer que Cristiano (e todos nós) aprendemos a amar nossa mãe, dona Ecumênica, mas sabendo que na verdade somos filhos da velha e boa dona Esperança; apenas a julgávamos MORTA e enterrada. No entanto, a sofisticação da dona Ecumênica, mulher chique, nos fez toda a vida repudiar dona Esperança, nobre, sincera e sem frescuras. Por um momento acordamos e sabemos que a mãe Esperança vive, e que a mãe Ecumênica, como toda mãe moderna, só nos educou para sermos maus, fúteis e fracassados.
    O conto é excelente. Paz e Bem!