Arquivo para junho, 2010

junho 30, 2010

Uma questão de saúde pública?

Por Dom Aloísio Roque Oppermann

Joga-se muito com a desatenção do povo, ou até com sua suposta ignorância. O presidente Lula, em que pese sua promessa nebulosa aos Bispos em 2005, é decididamente a favor do aborto. Acompanham-no nesta sua postura, o  ministro da saúde, e é claro, sua presumida sucessora Dilma. Esta, para encantar o eleitorado católico, chegou a visitar oficialmente o Papa (sem ter convicção pessoal). O efeito foi conquistar os votos de clérigos, invadindo até seu  primeiro escalão. A vitória se delineia fácil, e por isso não se vê necessidade de ocultar coisa nenhuma. Tudo é dito às claras. A resistência ao secularismo governamental é nula. É uma submissão geral.  Os princípios cristãos que ainda vigem em nossa vida pública, deverão se retirar para a diáspora das consciências. Na frente de ouvintes qualificados Lula afirmou que a introdução da lei do aborto, “é uma questão de saúde pública em nosso país”. Lembramos o salmo: “Lembra-te do povo que redimiste como tua herança” (Sl 74,2).

É bom saber que existe muita manipulação de estatísticas, ao se falar sobre a taxa anual de abortos. Sobretudo são falsas as notícias sobre o número de mulheres mortas em decorrência de “abortos inseguros”. Segundo informações do DATASUS (2006), o número de mortes maternas  em decorrência dessa prática, nunca passou de 163 por ano.(Ver “Faça alguma coisa pela vida” N. 96) Por isso diz-se falsamente que a legalização, “evitaria milhões de mortes maternas”. Uma vez que o governo faz apologia da interrupção da gravidez, por qualquer motivo, as grandes redes de TV precisam entrar nessa linha. Caso contrário perdem as ricas inserções de propaganda do poder público. Sem as benesses do governo até a Globo fecha. Por isso, mais do que rapidamente, foi introduzida a  novela “Passione”, que procura fazer a cabeça do povo, a mando do governo. Vamos supor, por um exagero de fantasia, que o governo declarasse que o assalto às residências deve ser assunto de “saúde  pública”. Para tal efeito se publicariam estatísticas incrementadas de mortes de assaltantes, cujas investidas estariam sendo  feitas em condições inseguras. Para completar a hílare situação, o governo proporia legalizar o assalto, para que todo cidadão, rico ou pobre, pudesse realizar  um assalto seguro. Essa é a conversa que os líderes da nação fazem ao falar de aborto.

junho 30, 2010

Importantes nomeações: Oullet para os Bispos; Fisichella para a Nova Evangelização.

Como anunciamos anteriormente, o Santo Padre tornou públicas hoje as seguintes nomeações:

  • Do Cardeal Marc Ouellet, até agora arcebispo de Quebec, como prefeito da Congregação para os Bispos e Presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, em substituição ao Cardeal Giovanni Battista Re, que apresentou sua renúncia por motivo de idade. Todo o infeliz imbroglio que envolveu esta nomeação pode ser relembrado aqui, aqui e aqui.
  • Do Arcebispo Salvatore Fisichella como presidente do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização, órgão criado por Bento XVI visando recristianizar os países do ocidente e retirar Dom Rino Fisichella da presidência da Academia Pontíficia para a Vida, após sua queda em desgraça com o caso Recife. Um dossiê completo pode ser encontrado aqui. Espera-se que, no manual da “nova evangelização” proposto pelo novo conselho, não conste nenhuma apologia ao “aborto por misericórdia”…
  • De Monsenhor Ignacio Carrasco de Paula, substituindo Fisichela na Academia para a Vida e de Don Enrico dal Covolo, S.D.B, como reitor da Universidade Lateranense.
  • De Monsenhor Celestino Migliore como Núncio Apostólico na Polônia. Migliore era, até então, Observador Permanente da Santa Sé na ONU.
junho 29, 2010

“Santo Padre, coragem! Santo Padre, fale!”. Segunda carta aberta do Pe. João Batista ao Papa Bento XVI.

Padre João Batista - Consagração da Capela Santa Maria das Vitórias

Pe. João Batista - Consagração da Capela Santa Maria das Vitórias em Anápolis, GO.

Beatíssimo Padre.

Há mais de um ano dirigi-me a Vossa Santidade para expressar-lhe meu apoio diante dos ataques desfechados contra sua augusta pessoa por haver praticado um ato de justiça ao anular o decreto de excomunhão contra os quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

Agora dirijo-me com o propósito de encorajar Vossa Santidade a continuar sua obra iniciada apesar de toda ira e sanha que se levantam contra Vossa Santidade por parte dos inimigos da Igreja (internos e externos). Estão furibundos porque percebem que Vossa Santidade,  pouco a pouco, repõe a Igreja em seu devido lugar.

Permito-me, com todo respeito, compartilhar com Vossa Santidade algumas idéias que me acodem à mente diante de fatos recentes.

Em primeiro lugar, desejaria dizer a Vossa Santidade que estive em Roma em maio último (quando rezei especialmente por Vossa Santidade na Basílica de São Pedro) e ouvi de um prelado digno do maior respeito e confiança que os rumores sobre as conversações doutrinais entre a Santa Sé e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X são positivos, mas, ao que parece, Vossa Santidade não tem a intenção de pronunciar-se a respeito. Porque uma palavra de Vossa Santidade iria agravar a divisão  da Igreja. Vossa Santidade, disse-me o prelado, espera que se encontre uma saída honrosa para ambas as partes. Devo dizer-lhe que isto me parece muito dificultoso.

Mas sendo assim as coisas, é necessário aplicar um remédio para sarar uma ferida que gangrena a Igreja. Refiro-me à arbitrária supressão canônica da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, levada a efeito de forma ilegal, draconiana, à maneira como Stalin pôs fim às repúblicas bálticas.

Se as conversações entre a Fraternidade correm o risco de não se concluir com uma palavra do Papa que esclareça os problemas do Vaticano II (como, aliás, deseja o eminente teólogo Brunero Gherardini em sua importante obra Vaticano II, um disurso da fare), é necessário que ao menos a Santa Sé repare aquela tremenda injustiça cometida contra Mons. Lefebvre, sua obra e milhares de católicos apegados à tradição. Com efeito, sua obra foi brutalmente posta na ilegalidade porque ele dizia o que Vossa Santidade diversas vezes disse. Ele criticava a missa nova. Vossa Santidade também apóia uma crítica severa à reforma litúrgica, tal como no prefácio ao livro de Mons. Gamber, o qual disse que a reforma de Paulo VI foi mais radical que a de Lutero! Ele dizia que a missa tradicional jamais poderia ser abolida. Vossa Santidade disse a mesma coisa por ocasião do motu proprio.

Por outro lado, Vossa Santidade com freqüência enaltece a memória de seu predecessor João Paulo II, o qual ,devo dizer-lhe, teve diversas atitudes que me parecem chocantes e pasmosas como, por exemplo, o encontro de Assis, o beijo do Corão etc, etc. Pois bem. Uma das atitudes chocantes de João Paulo II foi quando no jubileu do ano 2000 pediu perdão público pelos pecados e erros cometidos pela Igreja ao longo de sua história. Um anacronismo censurado por intelectuais católicos respeitadíssimos como Paul Johnson (Quando Deus pedirá perdão por haver destruído Sodoma?, escreveu ele então) e por Romano Amério em Stat Veritas.

Se João Paulo II pediu tal perdão, porque não pedir perdão agora aos tradicionalistas da Fraternidade São Pio X por haver cometido contra eles uma abuso de poder ao decretar  extinção canônica da Fraternidade e restituir-lhes o estatuto jurídico que lhes compete conforme o melhor direito?

Ademais, desejaria dizer a Vossa Santidade que não me parece coerente um discurso que admite uma crítica à reforma litúrgica e ao mesmo tempo isenta o Vaticano II do desastre que vivemos na Igreja em todos os campos. Lex orandi, Lex credendi. O cardeal Benelli disse uma vez que a missa tradicional jamais poderia ser restabelecida na Igreja porque correspondia a uma eclesiologia ultrapassada. Agradeço-lhe a sinceridade mas não lhe perdôo a heresia.

Pelas palavras do cardeal, fica demonstrado que o Vaticano II tem seus problemas. A reforma litúrgica com tuas suas ambigüidades não nasceu do nada. Ela expressa uma nova teologia. De onde?

Santo Padre, coragem! Santo Padre, fale! São Pedro condenou à morte Ananias e Safira por haver fraudado a comunidade dos primeiros cristãos. Santidade, exerça sua autoridade: faça que a terra engula também os fraudadores, não de bens materiais, mas da doutrina sagrada, esses hereges que se recusam a obedecer-lhe não corrigindo, por exemplo, a forma da consagração do cálice na santa missa, conforme ordenado por Vossa Santidade há alguns anos já.

Para nossa tranqüilidade, Vossa Santidade tem reiteradas vezes condenado o relativismo hodierno. Mas devo dizer-lhe que, não obstante o discurso de Vossa Santidade, o ecumenismo e  o dialogo inter-religioso hoje praticados favorecem sobremaneira um clima de relativismo e indiferentismo em toda sociedade. Bispos e padres com a maior desfaçatez, dizendo-se acobertados por Vossa Santidade, promovem as mais escandalosas cerimônias em que se realiza abominável communicatio in sacris. O mal causado às almas é enorme, incalculável. Hoje, a quase totalidade dos católicos acha que todas as religiões são boas; que é uma discriminação e intolerância dizer que a única religião verdadeira é a Igreja Católica.

Por derradeiro, Santo Padre, como um filho que confia em seu pai, quero dizer-lhe que uma das coisas mais tristes que vivemos na Igreja hoje é a falta de amor à verdade. Ama-se tudo menos a verdade. Ama-se o poder, amam-se as vantagens materiais, cargos, prebendas, prestigio, adulam-se os poderosos, mas não se ama a verdade. Ama-se um falso amor pentecostal, mas não se ama a verdade. O dístico de Vossa Santidade, Cooperatores Veritatis, representa para mim um consolo.

Não sei o que me custará essa carta. Talvez nada, talvez passe despercebida. Talvez me custe a cabeça, como a meu santo e venerado patrono São João Batista. Mas cumpro meu dever de consciência. Não suporto ver a injustiça que se cometeu contra Mons. Lefebvre, o bispo que preservou minha fé no deserto da Igreja pós-conciliar.

Rogando a bênção de Vossa Santidade, asseguro-lhe minhas orações.

Cor Mariae Imaculatum, spes nostra esto.

Padre João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa

Anápolis, 28 de junho de 2010

Vigília de São Pedro e São Paulo

Fonte: Santa Maria das Vitórias

junho 29, 2010

O Papa na festa de São Pedro e São Paulo: “A nossa batalha, de fato, não é contra a carne e o sangue, mas contra os Principados e Potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso”.

Na primeira leitura é narrado um episódio específico que mostra a intervenção do Senhor para libertar Pedro da prisão; na segunda, Paulo, com base em sua extraordinária experiência apostólica, diz-se convencido de que o Senhor, que já o havia libertado “da boca do leão”, o libertará “de todo o mal” abrindo-lhe a porta do Céu; no Evangelho, por sua vez, já não se fala dos Apóstolos individualmente, mas da Igreja como um todo e de sua segurança com relação às forças do mal, entendidas em sentido amplo e profundo. De tal modo vemos que a promessa de Jesus – “os poderes do inferno não prevalecerão” sobre a Igreja — compreende sim a experiência histórica de perseguição sofrida por Pedro e Paulo e por outras testemunhas do Evangelho, mas vai além, querendo assegurar a proteção sobretudo contra as ameaças de ordem espiritual; como o próprio Paulo escreve na sua Carta aos Efésios: “A nossa batalha, de fato, não é contra a carne e o sangue, mas contra os Principados e Potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos do mal que habitam os lugares celestes” (Ef 6,12).

O Papa Bento XVI deixa a Basílica de São Paulo Fora dos Muros ao fim das primeiras vésperas, 28 de junho de 2010. AFP PHOTO / TIZIANA FABI

O Papa Bento XVI deixa a Basílica de São Paulo Fora dos Muros ao fim das primeiras vésperas, 28 de junho de 2010. AFP PHOTO / TIZIANA FABI

Com efeito, se pensarmos em dois milênios de história da Igreja, podemos observar que — como havia preanunciado o Senhor Jesus (cf. Mt 10,16-33) – não faltam nunca para os cristãos as provações, que em alguns períodos e lugares assumiram o caráter de verdadeiras e próprias perseguições. Estas, no entanto, apesar do sofrimento que causam, não constituem o mais grave perigo para a Igreja. O maior dano, de fato, ela sofre dos que corrompem a fé e a vida cristã dos seus membros e de suas comunidades, danificando a integridade do Corpo Místico, enfraquecendo a sua capacidade de profecia e de testemunho, obscurecendo a beleza de sua face. Esta realidade é atestada já no epistolário paulino. A Primeira Epístola aos Coríntios, por exemplo, responde a alguns problemas de divisões, de incoerência, de infidelidade ao Evangelho que ameaçam seriamente a Igreja. Mas também a Segunda Carta a Timóteo – da qual ouvimos um trecho — fala dos perigos dos “últimos tempos”, identificando-os com atitudes negativas que pertencem ao mundo e que podem contaminar a comunidade cristã: o egoísmo, a vaidade, o orgulho, o apego ao dinheiro, etc. (cf. 3,1-5). A conclusão do Apóstolo é reconfortante: os homens que fazem o mal — escreve ele – “não vão muito longe, porque a sua insensatez será manifesta a todos” (3,9). Há, portanto, uma garantia de liberdade assegurada por Deus à Igreja, liberdade seja dos laços materiais que procuram impedir ou coagir a missão, seja dos males espirituais e morais, que podem afetar sua autenticidade e credibilidade.

O tema da liberdade da Igreja, garantida por Cristo a Pedro, tem também uma ligação específica com o rito da imposição do Pálio, que hoje renovamos para trinta e oito arcebispos metropolitanos, aos quais dirijo a minha mais cordial saudação, estendendo-a com afeto a todos aqueles que quiseram acompanhá-los nesta peregrinação. A comunhão com Pedro e seus sucessores, na verdade, é a garantia de liberdade para os Pastores da Igreja e para as próprias comunidades a eles confiadas. O é sobre ambos os planos colocados em destaque nas reflexões anteriores. Sobre o plano histórico, a união com a Sede Apostólica assegura às igrejas particulares e às conferências episcopais a liberdade para com os poderes locais, nacionais ou supranacionais, que em certos casos podem dificultar a missão da Igreja. Além disso, e mais essencialmente, o ministério petrino é garantia de liberdade no sentido da plena adesão à verdade e à autêntica tradição, de modo que o Povo de Deus seja protegido dos erros concernentes à fé e à moral. O fato de que a cada ano os novos metropolitas venham a Roma para receber o Pálio das mãos do Papa deve ser compreendido em seu significado próprio como gesto de comunhão, e a questão da liberdade da Igreja nos oferece uma chave de leitura particularmente importante. Isso aparece claramente no caso das igrejas marcadas pela perseguição, ou sujeitas a ingerências políticas ou a outras duras provas. Mas isso não é menos relevante no caso de comunidades que sofrem a influência de doutrinas enganosas ou de tendências ideológicas e práticas contrárias ao Evangelho. O Pálio, portanto, torna-se, neste sentido, um penhor de liberdade, analogamente ao “jugo” de Jesus, que Ele convida cada um a tomar em seus ombros (cf. Mt 11:29-30). Como o mandamento de Cristo – embora exigente — é “suave e leve” e, em vez de pesar sobre quem o carrega, o alivia, assim o vínculo com a Sé Apostólica – embora exija empenho – sustenta o Pastor e a porção da Igreja confiada a seu cuidado, tornando-os mais livres e mais fortes.

Excerto da homilia do Santo Padre, o Papa Bento XVI, na festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo de 2010.

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junho 28, 2010

Linz é aqui! Missa discoteca desembarca no Rio de Janeiro com a chancela de Dom Orani!

Fotos do evento “O Banquete do Cordeiro”, que misturou vuvuzelas, teatro, dança, artistas da Canção Nova, adoração ao Santíssimo Sacramento e Missa.

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junho 28, 2010

Chamado à ordem: comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé a respeito da audiência concedida pelo Papa Bento XVI ao Cardeal Schonborn.

CIDADE DO VATICANO, 28 JUN 2010 (VIS) – A Sala de Imprensa da Santa Sé publicou o seguinte comunicado no início desta tarde:

“(1) O Santo Padre recebeu hoje em audiência o Cardeal Christoph Schonborn O.P., arcebispo de Viena e presidente da Conferência Episcopal Austríaca. O Cardeal pediu um encontro com o Soberano Pontífice pessoalmente a fim de relatar a atual situação da Igreja na Áustria. Em particular, o Cardeal Schonborn quis esclarecer o significado exato de suas recentes declarações a respeito de alguns aspectos de atual disciplina eclesiástica, e alguns de seus juízos acerca de posições adotadas pela Secretaria de Estado — e em particular pelo então Secretário de Estado do Papa João Paulo II — a respeito do finado Cardeal Hans Hermann Groer, arcebispo de Viena de 1986 a 1995.

“(2) O Cardeal Angelo Sodano, decano do Colégio dos Cardeais, e o Cardeal Secretário de Estado, Tarcísio Bertone S.D.B, foram convidados posteriormente a participar do encontro.

“Na segunda parte da audiência, certos equívocos difundidos foram esclarecidos e resolvidos, equívocos advindos parcialmente de certas declarações do Cardeal Christoph Schonborn, que expressou seu desagrado por interpretações dadas a suas palavras.

“Em particular:

“(a) Deve ser reiterado que, na Igreja, quando acusações são feitas contra um Cardeal, a competência cabe exclusivamente ao Papa; outras partes podem ter uma função consultativa, enquanto sempre mantém o devido respeito às pessoas.

“(b) A palavra ‘chiacchiericcio’ (fofoca) foi erroneamente interpretada como desrespeitosa às vítimas de abuso sexual, para com as quais o Cardeal Angelo Sodano nutre os mesmos sentimentos de compaixão e de condenação do mal, como expressado em várias ocasiões pelo Santo Padre. A palavra pronunciada durante a saudação de Páscoa ao Papa Bento XVI foi tomada literalmente da homilia pontifical do Domingo de Ramos e se referia à “coragem que não se deixa ser intimidada por fofocas de opiniões predominantes”.

“(3) O Santo Padre, recordando com grande afeto sua viagem pastoral à Áustria, envia através do Cardeal Christoph Schonborn seus cumprimentos e encorajamento à Igreja na Áustria, e a seus pastores, confiando à proteção da Santíssima Virgem, tão venerada em Mariazell, uma jornada a uma renovada comunhão eclesial”.

Fonte: Vatican Information Service

Nota do editor: É digno de nota a ausência de uma retratação por parte do senhor Cardeal C. Schonborn de declarações como :“deveríamos dar mais consideração à qualidade dos relacionamentos homossexuais” ou “um relacionamento estável certamente é melhor do que se alguém opta por ser promíscuo”. Outras polêmicas do mesmo Cardeal podem ser vistas aqui.

junho 28, 2010

Missa de Requiem pelo 7º dia de falecimento do Reverendíssimo Padre Hélio Buck Júnior.

No Priorado Padre Anchieta, em São Paulo, hoje, segunda-feira, às 19:30 horas. Rua Prof. Frontino Guimarães, 91 – Vila Mariana. Telefone para contato: (11) 3462-6223. Fonte: www.fsspx-brasil.com.br

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junho 27, 2010

O legado do Cardeal Godfried Danneels.

As investigações da polícia belga após denúncias de abuso sexual de menores por integrantes da Igreja Católica daquele país desencadearam uma crise diplomática entre o Vaticano e o governo de Bruxelas. Depois de uma megaoperação de busca e apreensão, a Santa Sé convocou ontem o embaixador belga junto ao Vaticano, Charles Ghislain, para transmitir sua revolta sobre o que classificou de ataques, e ainda o chamou para uma reunião com o secretário das Relações Exteriores da Santa Sé, Dominique Mamberti.

A notícia é do jornal O Globo, 26-06-2010.

Na quinta-feira, policiais revistaram a arquidiocese da capital, o escritório que apura casos de abuso sexual em Louvain, e a casa de um cardeal  (Danneels) que deixou o posto de arcebispo em janeiro.

Eles ainda foram à cripta da catedral Saint Rombout, em Malines, onde procuravam dossiê sobre pedofilia que estaria escondido em uma tumba.

Arcebispo compara operação com cena de filme

Ontem, o Vaticano se disse “surpreso” e “indignado” com as incursões direcionadas a tumbas e arcebispos. Em nota, a Secretaria de Estado exprimiu “vivo espanto pela modalidade com a qual foram feitas algumas buscas conduzidas pelas autoridades judiciárias belgas, e seu ressentimento pelo fato de que as tumbas dos cardeais Jozef-Ernest Van Roey e Léon-Joseph Suenens — falecidos arcebispos de Malines-Bruxelas — tenham sido profanadas”. O Vaticano ainda disse que qualquer abuso pecaminoso e criminoso a menores por membros da Igreja deve ser condenado. A nota também enfatizava que há uma necessidade de Justiça e reparação dos danos.

Na cripta da catedral Saint Rombout, em Malines, investigadores abriram as duas tumbas à procura de documentos que poderiam incriminar a Igreja, disse o porta-voz do Ministério Público de Bruxelas, Jean-Marc Meilleur.

O atual arcebispo da Bélgica, Andre-Joseph Leonard, condenou a busca, afirmando que a batida policial teve ares de cenas de “livros sobre crimes e (o filme) ‘O Código da Vinci’”.

Durante a operação, a polícia revistou a casa do ex-arcebispo Godfried Danneels, apreendendo documentos e seu computador.

A Igreja belga é uma das atingidas pela onda de denúncias de pedofilia envolvendo religiosos.

Em abril, o ex-bispo de Bruges Roger Vangheluwe teve sua renúncia aceita pelo Vaticano após enviar à Santa Sé uma carta na qual admitiu ter abusado sexualmente de uma criança durante anos. Também houve suspeitas de que Danneels, que chefiou a Igreja do país entre 1979 e 2009, ficara sabendo dos abusos cometidos nos anos 1990 por Vangheluwe.

Separadamente, foram apreendidos cerca de 500 documentos de um painel independente que investiga casos de abuso sexual por padres. As vítimas têm hoje entre 60 e 70 anos. O Vaticano condenou a ação, dizendo lamentar a violação de privacidade dos que sofreram abuso.

Vaticano reage a processo nos Estados Unidos

A notícia sobre a batida policial foi bem recebida pela ONG americana Rede de Sobreviventes de Abuso Sexual por Sacerdotes (Snap, na sigla em inglês).

“Membros do Vaticano que criticam a operação da polícia belga à hierarquia da Igreja de Bruxelas deveriam se envergonhar”, afirmou uma nota do grupo.

“Enquanto membros da Igreja falam sobre um fim aos abusos, a polícia da Bélgica age para acabar com eles.” Em outro episódio sobre pedofilia, o Vaticano pediu a um juiz federal que rejeite uma tentativa de interrogar o Papa Bento XVI sobre um processo de abuso sexual nos Estados Unidos.

A Santa Sé alega que não há provas de ligação de funcionários da instituição, e afirma que forçar o Pontífice — um chefe de Estado — a dar um depoimento, violaria o direito internacional.

O processo acusa a Santa Sé de orquestrar uma operação para encobrir padres que abusaram sexualmente de crianças em todos os EUA. Em março, o advogado de Louisville William McMurry pediu a deposição de Bento XVI e de outros funcionários do Vaticano.

A ação desta semana foi uma resposta da Igreja.

Fonte e destaques: IHU

junho 27, 2010

O Leão de Campos (VI): O bispo de Campos e o Magistério de Paulo VI.

Carta de Dom Antonio de Castro Mayer, bispo diocesano de Campos, ao Papa Paulo VI.

Campos, 25 de janeiro de 1974.

Beatíssimo Padre,

Prostrado respeitosamente aos pés de Vossa Santidade, peço vênia para submeter-lhe à consideração os estudos que seguem com a presente carta.

O envio destes estudos é feito em obediência à ordem de Vossa Santidade transmitida por carta do Eminentíssimo Cardeal D. Sebastião Baggio ao Eminentíssimo Cardeal D. Vicente Scherer, da qual este último me deu ciência oralmente em encontro que com ele tive no Rio de Janeiro a 24 de setembro próximo passado.

Em 15 de outubro último, tive a honra de escrever a Vossa Santidade, afirmando meu filial acatamento a tais ordens.

Entre estas, estava a de que, dada a eventualidade de “em consciência não estar eu de acordo” com “atos do atual Magistério Ordinário da Igreja”, “manifestasse livremente à Santa Sé” meu parecer. É o que faço com toda a reverência devida ao Augusto Vigário de Jesus Cristo, ao entregar a Vossa Santidade os três estudos anexos.

Com isto – digne-se Vossa Santidade notá-lo – não pratico outra coisa senão um ato de obediência à Sua veneranda determinação. As apreciações que neles externo, eu as formei ao longo de anos de reflexão e de oração. Não é minha intenção entregá-los ao público, certo de que minha reserva agradará a Vossa Santidade.

Eis que, Santo Padre, a obediência me obriga agora a comunicar a Vossa Santidade pensamentos que talvez lhe tragam pesar. Faço-o, no entanto, com paz de alma, pois estou na via da sinceridade e da obediência, na qual conto permanecer com a graça de Deus.

Mas, se está tranqüila minha consciência, ao mesmo tempo está triste meu coração.

Com efeito, toda a minha vida de Sacerdote e de Bispo vem sendo marcada pelo empenho de – no meu limitado ambiente de ação – ser, por meu devotamento irrestrito, e por minha obediência inteira, motivo de alegria para os vários Papas sob cuja autoridade tenho sucessivamente servido.

Ora, na presente conjuntura, o devotamento e a obediência me levam a contristar a Vossa Santidade.

Um episódio da História da França no século passado me acode ao espírito neste passo. Narra-o Chateaubriand nas “Mémoires d’Outre Tombe”. Certa vez o Rei Luís XVIII lhe solicitou a opinião sobre uma medida que o monarca acabava de tornar pública. A sinceridade impedia o escritor de elogiar tal medida. Mas o receio de contristar o Rei movia-o a calar-se. Esquivou-se, pois, de externar seu pensamento. Vendo isto, Luís XVIII mandou formalmente ao escritor que falasse com inteira franqueza. Este, atendendo ao nobre mandato, e antes de abrir-se a seu Rei, lhe dirigiu este pedido: “Sire, pardonnez ma fidélité”. É o que peço a Vossa Santidade: perdoe-me a fidelidade com que cumpro Suas ordens.

Suplico a Vossa Santidade compaixão para a obediência deste Bispo já septuagenário, que vive neste momento o episódio mais dramático de sua existência. E peço a Vossa Santidade que me dispense pelo menos uma parcela dessa compreensão e desse benevolência que tem tantas vezes manifestado não só em torno de si, como também com pessoas estranhas, e até inimigas do único redil do único Pastor.

Ao longo dos anos foi tomando corpo em meu espírito a convicção de que atos oficiais de Vossa Santidade não têm, com os dos Pontífices que o antecederam, aquela consonância que com toda a alma eu neles desejava ver.

Não se trata, é claro, de atos garantidos pelo carisma da infalibilidade. Assim, aquela minha convicção em nada abala a minha crença irrestrita e enlevada nas definições do Concílio Vaticano I.

Receando abusar do valioso tempo do Vigário de Cristo, dispenso-me de mais amplas considerações e limito-me a submeter à atenção de Vossa Santidade três estudos:

1.        Sobre a “Octogésima Adveniens”.

2.        Sobre a Liberdade Religiosa.

3.        Sobre o novo “Ordo Missae”.

(Esse último de autoria do advogado Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, a cujo conteúdo me associo).

Supérfluo será acrescentar, que neste passo, como já em outros de minha vida, darei cumprimento, em toda a medida preceituada pelas leis da Igreja, ao Sagrado dever da obediência. E neste espírito, com o coração de filho ardoroso e devotíssimo do Papa e da Santa Igreja, acolherei qualquer palavra de Vossa Santidade sobre este material.

De modo especial suplico a Vossa Santidade queira declarar-me:

a.        Se encontra algum erro na doutrina exposta nos três estudos anexos;

b.       Se vê na atitude assumida nos ditos estudos face aos documentos do Supremo Magistério, algo que destoe do acatamento que a estes devo como bispo.

Suplicando queira Vossa Santidade conceder-me, como à minha Diocese, o precioso benefício da Bênção Apostólica, sou de

Vossa Santidade

Filho humilde e obediente.

Antônio de Castro Mayer

Bispo de Campos

[Dom Antônio não obteve resposta a esta carta]

Fonte: FSSPX – Brasil

Outros posts da série “O Leão de Campos”:


junho 25, 2010

A curva de Padre Ratzinger a Bento XVI.

Resenha de Nicholas Lash – National Catholic Reporter

THEOLOGICAL HIGHLIGHTS OF VATICAN II [DESTAQUES TEOLÓGICOS DO VATICANO II]
Por Joseph Ratzinger
Publicado pela Paulist Press, $ 16,95

Após cada uma das quatro sessões do Concílio Vaticano II, Joseph Ratzinger, o jovem teólogo alemão que atuou como consultor perito do Cardeal Joseph Frings, de Colônia, na Alemanha, publicava um livreto informativo sobre a sessão recém concluída. Em 1966, um ano após o término do concílio, esses livretos foram recolhidos em forma de livro, tanto em inglês quanto em alemão. Agora este livro foi reeditado, com uma introdução feita pelo padre jesuíta Thomas Rausch.

Embora a primeira sessão do concílio não tenha produzido resultados concretos, de acordo com Ratzinger, ela foi excepcionalmente importante por dois motivos. Em primeiro lugar, ao recusar-se a endossar os materiais preparados pela Cúria Romana, “o colégio dos bispos” demonstrou que “era uma realidade em si”. O esquema preparatório sobre a revelação, por exemplo, foi “completamente um produto da mentalidade ‘anti-modernista’”, de acordo com Ratzinger. Será que a “negação quase neurótica de tudo o que era novo” continuaria? Ou será que a Igreja “viraria uma nova página, e seguiria em frente em um encontro novo e positivo com as suas próprias origens, com os seus irmãos, e com o mundo contemporâneo? Uma vez que uma clara maioria dos padres optaram pela segunda alternativa, podemos mesmo falar do concílio como um novo começo”.

Ao rejeitar o esquema da revelação, “o concílio tinha afirmado a sua própria autoridade magisterial. E agora, contra as congregações da Cúria, que servem a Santa Sé e as suas funções de unificação, o concílio fez com que a voz do episcopado fosse ouvida – não, a voz da Igreja universal”.

Em segundo lugar, o primeiro capítulo da Constituição sobre a Sagrada Liturgia “contém uma declaração que representa uma inovação fundamental para a Igreja latina”. A declaração em questão é a estipulação de que, dentro de certos limites, as conferências episcopais “disponham em seu próprio direito uma função legislativa definitiva”. Ratzinger enxerga isso como de importância fundamental: “Talvez se possa dizer que este pequeno parágrafo, que, pela primeira vez, atribui às conferências episcopais a sua própria autoridade canônica, seja mais importante para a teologia do episcopado e para o fortalecimento a muito desejado do poder episcopal do que qualquer coisa na própria Constituição sobre a Igreja”.

O Padre Joseph Ratzinger durante o Concílio Vaticano II em 1962 (CNS / KNA)

Pe. Ratzinger durante o Concílio Vaticano II em 1962 (CNS / KNA)

Considerando que os Papas anteriores haviam “considerado a cúria como um assunto pessoal no qual o Concílio não tinha o direito de interferir”, em razão do discurso de abertura do Papa Paulo VI na segunda sessão, “o tema da reforma da Cúria foi… no sentido oficialmente declarado aberto para o debate do concílio”. A noção de colegialidade estava no coração e no centro dos debates sobre o esquema da Igreja: “Assim como Pedro pertencia à comunidade dos Doze, para que o Papa pertença ao colégio dos bispos, independentemente do papel especial que exerce, não fora, mas dentro do colégio”. Uma discussão posterior do esquema sobre os bispos buscou de forma concreta implementar o conceito de colegialidade, descentralizando o poder para bispos e conferências episcopais, e propor formas adequadas de centralização através da criação de um “concílio episcopal em Roma”.

As reflexões de Ratzinger no que tange os debates sobre o ecumenismo, o esquema em que pode ser visto como “uma aplicação pastoral da doutrina no esquema sobre a Igreja”, contém uma interessante discussão sobre a relação entre “igrejas” e “a igreja”, na forma de uma resposta detalhada à eclesiologia protestante apresentada em outubro de 1963 em uma conferência em Roma por Edmund Schlink de Heidelberg, na Alemanha.

Esta sessão viu a promulgação dos dois primeiros textos conciliares, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia e o Decreto sobre os Meios de Comunicação Social. A fórmula de Paulo VI de aprovação rompeu com o costume, desde o final da Idade Média, de considerar as decisões conciliares como sendo postas em vigor como lei papal: “Paulo, bispo, servo dos servos de Deus, juntamente com os padres conciliares” (o meu itálico).

Em setembro de 1964, “o capítulo sobre a colegialidade dos bispos foi aprovado logo na primeira votação por uma maioria de dois terços”. Não é de surpreender que, o capítulo de Ratzinger sobre a terceira sessão, durante o qual a Constituição sobre a Igreja foi promulgada, concentre-se sobre a doutrina da colegialidade episcopal e sobre a questão estrutural não desconexa das relações entre o Papa e o concílio.

Na primeira, Ratzinger diz que a noção de que a Igreja, que consiste de comunidades adoradoras, é “consequentemente construída a partir de uma comunidade de bispos … é provavelmente a idéia central na doutrina de colegialidade do concílio”. Ele coloca o dedo sobre o que ele chama de “fraqueza real do debate sobre a colegialidade”: “Tanta energia foi concentrada na relação de colegialidade como a primazia de que os problemas intrínsecos do próprio princípio da colegialidade, sua complexidade, seus limites e suas variações históricas não eram mais vistos”.

No que tange as relações entre o Papa e o concílio, ele acredita que as intervenções papais em novembro de 1964, embora necessárias no interesse da mediação entre as forças opostas no concílio, revelou que “o Papado não tinha ainda encontrado uma forma para a formulação de sua posição”, que não seja, e não pareça ser, monárquica. Esta, ele acredita ser um problema prático e não teórico, no sentido de que a resolução vai levar tempo: “A paciência é necessária”.

A característica mais marcante do capítulo sobre a terceira sessão, no entanto, aparece em seu discurso de encerramento. Observando que “o episcopado tornou-se mais aberto, de ano para ano”, e que, à medida que os bispos, “a partir de inícios um pouco tímidos e hesitantes”, encontravam voz e coragem, faziam declarações corajosas que “há cinco anos seriam impensáveis”, Ratzinger dá a entender que o “evento verdadeiro” do concílio foi “o despertar da Igreja”. Alcançado em uma unidade de propósito mundial, “este despertar espiritual… foi o grande e irrevogável evento do concílio. Ele foi mais importante em muitos aspectos do que os textos que aprovou”.

O Papa Bento XVI chega para celebrar uma missa que marca o quinto aniversário da morte do Papa João Paulo II na Basílica de São Pedro, no Vaticano, 29 mar. (CNS / Paul Haring)

O Papa Bento XVI chega para celebrar uma missa que marca o quinto aniversário da morte do Papa João Paulo II na Basílica de São Pedro, no Vaticano, 29 mar. (CNS / Paul Haring)

Agora as coisas estão ficando realmente interessantes, pois esta é exatamente a avaliação feita pelo falecido Giuseppe Alberigo, em sua conclusão para o quinto e último volume da maciça História do Concílio Vaticano II, do qual foi editor geral. Há já vários anos, os funcionários da cúria romana vêm realizando uma campanha enérgica de polêmica e declarações errôneas contra essa história, em uma tentativa de desacreditar a história que ele diz (Examinei esta campanha nos últimos capítulos do meu livro Teologia para Peregrinos).

A pergunta surge, e é uma indagação muito mais ampla do que uma importância meramente acadêmica: Até que ponto o Papa Bento XVI concorda com o jovem padre Joseph Ratzinger?

A quarta e última sessão do concílio “teria de enfrentar os problemas mais difíceis, os problemas que tinham sido adiados por três anos” – a liberdade religiosa, o cristianismo e o judaísmo, e os problemas associados à produção de um tipo inteiramente novo de documento conciliar, o documento que se tornou Gaudium et Spes. “Apesar de todas as rejeições”, o texto da Constituição conservou “um otimismo progressista quase ingênuo que parecia ignorar a ambivalência de todo o progresso humano externo”.

É interessante observar que, ao discutir o Decreto sobre o Ministério e a Vida dos Sacerdotes, ele comenta sobre a questão do celibato sacerdotal: “Em vista da escassez de sacerdotes em muitas áreas, a Igreja não pode evitar rever esta questão silenciosamente. Esquivar-se disso é impossível, em vista da responsabilidade de pregar o Evangelho dentro do contexto do nosso tempo”. Quarenta anos mais tarde, a escassez de sacerdotes atinge o nível de crise, e ainda assim Bento parece ter conseguido continuar fugindo dela.

A Paulist Press está de parabéns por reeditar essas reflexões lúcidas, perspicazes e entusiasmadas sobre as quatro sessões conciliares. Como já mencionei mais de uma vez, eles levantam muito fortemente a questão da relação entre as opiniões do jovem peritus e àquelas do atual Papa.

Na sua introdução, o padre jesuíta Thomas Rausch afirma que “os próprios pontos de vista de Ratzinger, com algumas exceções, permaneceram notavelmente coerentes ao longo dos anos”. Sobre o qual, duas observações. A grande exceção, que ele menciona, é a liturgia. No entanto, não vejo nenhuma incoerência entre o entusiasmo de Ratzinger à Constituição sobre a Liturgia, por um lado, e, por outro lado, a sua avaliação cada vez mais crítica do que aconteceu na liturgia nas últimas décadas.

Em segundo lugar, algumas coisas se sobressaem mais fortemente deste livro que o apoio incondicional de Ratzinger para o projeto central do concílio: a saber, a elaboração e implementação da doutrina da colegialidade episcopal como a estrutura para, em suas palavras, o “fortalecimento do poder episcopal há muito tempo desejado”. Bento é obcecado pela importância de conciliar os cismáticos lefebvristas com a Igreja. É essa obsessão, creio eu, que explica dois de seus empreendimentos mais extraordinários: o motu proprio permitindo o uso geral do Missal de 1962 e a Constituição Apostólica que estabelece “ordinariatos” para anglicanos descontentes. O primeiro foi feito sem consultar os bispos, e contra os pontos de vista de um número considerável deles. O segundo foi ainda mais espantoso: uma das grandes inovações estruturais na Igreja foi promulgada sem consultar os outros bispos da Igreja Católica (para não falar de membros seniores da Comunhão Anglicana).

Parece-me que não se pode dizer que um Papa que tem capacidade para fazer essas coisas, da maneira que foram feitas, tenha um pingo de imaginação verdadeiramente colegial. Precisamos lembrar que, entre o jovem teólogo, Joseph Ratzinger, tão crítico da cúria romana e tão entusiasmado com a restauração do poder episcopal, e o Papa Bento XVI, ergue-se o Cardeal Ratzinger, há 24 anos o chefe da mais poderosa das congregações da Cúria.

[Nicholas Lash é professor emérito de teologia na Universidade de Cambridge, na Inglaterra.]

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