Como Delegado do Papa, o Arcebispo De Paolis tem plena autoridade sobre tudo e todos. Está selado o fim para Corcuera, Garza e outros chefes da congregação fundada por Marcial Maciel, todavia eles ainda resistem.
por Sandro Magister
ROMA, 30 de julho de 2010 – Os superiores dos Leginários de Cristo deram boas-vindas à chegada do Delegado Pontifício que se ocupará de reconstruir a sua Congregação desde o alicerce.
Mas eles sabem que perderam toda autoridade própria. O decreto vaticano que fixa os poderes do Delegado prevê, de fato, que eles poderão ser removidos de um momento para outro, “ad nutum Sanctæ Sedis”. Em todo caso, daqui em diante, todas as suas decisões serão válidas apenas se forem aprovadas pelo Delegado, a quem devem submeter-se em tudo.
O Delegado é o Arcebispo Velasio De Paolis, de 75 anos de idade. Bento XVI lhe confiou a tarefa em 16 de junho, mas a nomeação foi publicada em 9 de julho, porque até essa data o mesmo De Paolis esteve trabalhando no balanço contábil do Vaticano do ano de 2009, em sua qualidade de presidente da Prefeitura dos Assuntos Econômicos da Santa Sé.
Realmente, a competência administrativa é necessária para quem deverá tomar conta dos Legionários de Cristo. Além disso, De Paolis agrega outras competências não menos importantes para a tarefa que lhe foi confiada: em Direito Canônico e Civil, em Teologia Dogmática e Moral, matérias em que foi professor nas universidades pontifícias Gregoriana e Urbaniana. Não é só. De Paolis é também um religioso da Congregação dos Missionários de São Carlos Borromeo, chamada de “Scalabrinianos”, em referência ao nome do fundador, e foi Procurador Geral da mesma. Tem, então, também experência direta do que é uma Ordem Religiosa e de como governá-la.
Na carta de nomeação de 16 de junho, Bento XVI confiou ao Arcebispo De Paolis o governo em seu nome da Legião “pelo tempo que for necessário”, para reconstrui-la em sua totalidade, com uma nova Constituição e com um Capítulo Geral Extraordinário que assinale um novo começo.
Mas é no decreto posterior, emitido em 9 de julho pela Secretaria de Estado vaticana, que são fixados com mais precisão os poderes do Delegado.
Tais poderes são muito amplos, praticamente ilimitados. O Delegado tem autoridade direta sobre todos os superiores da Legião em seus níveis diversos — geral, provincial e local — e sobre todas as comunidades e indivíduos que as compõem.
Pode exercer sua autoridade também por iniciativa própria e derrogar as atuais Constituições da Ordem.
São esperadas algumas decisões em alguns âmbitos. Ao Delegado compete a admissão ao noviciado, à profissão religiosa e ao sacerdócio, a assunção, a transferência e o licenciamento dos dependentes, dos corpos diretivos das universidades, dos seminários e das escolas.
É o Delegado que decide em matéria de administração extraordinária ou de alienação dos bens.
Em síntese: o Delegado “tem o poder de intervenção onde quer que considere oportuno, inclusive no próprio governo interno do Instituto, em todos os níveis”.
É evidente que, com um Delegado dotado de tais poderes, não tem mais futuro o “sistema” que concentrava o controle da Legião nas mãos dos principais herdeiros do fundador Marcial Maciel, os padres Álvaro Corcuera e Luis Garza Medina, o segundo mais ainda que o primeiro.
O fim desse “sistema” implica também o fim desse corpo separado, patrimonial e administrativamente, em total e exclusiva dependência do Padre Garza, que é o Grupo Integer.
O Delegado se valerá de quatro assistentes pessoais externos — cuja nomeação se espera — a quem confiará tarefas específicas. Um deles se ocupará dos bens e da administração.
Ademais, o Delegado coordenará uma Visitação Apostólica suplementar ao movimento Regnum Christi, o ramo leigo da Congregação.
Uma passagem chave do decreto da Secretaria de Estado é a que estabelece que “todos têm livre acesso ao Delegado e todos podem tratar pessoalmente com ele”. Desde o momento em que o Arcebispo De Paolis assumiu o cargo, é realmente isso o que está começando a acontecer.
Mas ao mesmo tempo, a permanência dos antigos superiores em seus postos atua como freio. Muitos sacerdotes e religiosos da Legião seguem padecendo seu controle paralisante. E não saem à luz, mas se calam também diante do Delegado.
Por sua vez, este tem justamente a necessidade urgente de individualizar, dentro da Congregação, os homems e grupos mais idôneos, sobre os quais se basear para levar a cabo a renovação.
Nos primeiros dias de setembro, quando o Delegado entra efetivamente em ação, serão importantes seus primeiros movimentos.
Se rapidamente são levados a cabo atos concretos de ruptura do bloco de poder que governou até agora a Legião, é provável que a renovação se produza mais rapidamente, contando — como escreveu o Papa – com o “zelo sincero e a fervorosa vida religiosa” de tantos membros da Legião.