FONTE – Monsenhor Brunero Gherardini – tradução de Fratres in Unum a partir da versão francesa do Padre Matthieu Raffray, do Instituto do Bom Pastor – 29 de setembro de 2010

Cônego da Basílica de São Pedro e postulante da canonização do Beato Pio IX, Monsenhor Gherardini é padre da diocese de Prato (Itália) e está a serviço da Santa Sé desde 1965, especialmente como professor na Universidade Lateranense.
Propomos aqui um texto sobre o futuro da Fraternidade São X que Monsenhor Brunero Gherardini nos pediu que traduzisse para o francês e publicássemos. Sua perspectiva realista, fundada sobre circunstâncias históricas que conhece bem por vários motivos, dá lugar a uma síntese teológica que novamente enfoca a vexata quaestio sobre a noção de “Tradição”.
Ele convida a trabalhar lucidamente na clareza teológica, sem temer iniciar um duro e longo trabalho, aberto às grandes colaborações e investigações aprofundadas sobre os documentos conciliares controversos, como já havia convidado em sua já famosa obra, Vaticano II, um discorso da fare. Nesta perspectiva, o acordo canônico desejado não seria o resultado de uma rápida confrontação ponto a ponto sobre o Vaticano II, mas, pelo contrário, o ponto de partida de um vasto programa de análises e de estudos que contaria com “a colaboração dos especialistas mais prestigiosos, seguros e reconhecidos de cada um dos âmbitos sobre os quais se articula o Vaticano II [e que daria lugar] a uma série de congressos ou a uma série de publicações sobre cada um dos diversos documentos conciliares” (B. Gherardini, “Súplica ao Santo Padre”, Ibid., ed. fr., p. 262).
Também nós nos inserimos nessa ótica, em especial, no que diz respeito a um sério renascimento do debate teológico, que deve comportar dos dois lados a revisão de “sensos comuns” não dogmáticos, no interesse supremo da Igreja universal, e não na busca de um statu quo que não visaria mais que cultivar os interesses particulares.
Padre Matthieu Raffray, IBP
Por ocasião de um encontro entre amigos, alguns deles me perguntaram qual poderia ser o futuro próximo da Fraternidade São X, ao fim das discussões em curso entre a referida fraternidade e a Santa Sé. Discutimos longamente e os pareceres estavam divididos. Por isso, expresso o meu por escrito, na esperança — sem nenhuma pretensão, Deus me livre — que possa ser útil não somente aos meus amigos, mas também aos que participam neste diálogo.
Tenho que dizer, antes de tudo, que ninguém é profeta, nem filho de profeta. O futuro está nas mãos de Deus. Às vezes é possível organizá-lo antecipadamente, ao menos em parte; noutros casos, ele nos escapa totalmente. É necessário, além disso, reconhecer às duas partes, que estão afinal trabalhando para encontrar uma solução ao problema dos “lefebvristas” que já durou muito, que elas, até agora, têm tido êxito em manter admirável e exemplarmente o silêncio que haviam prometido sobre os seus colóquios. Tal silêncio, no entanto, não ajuda a prever as saídas possíveis.
“Rumores”, em contrapartida, se fazem ouvir; e não pouco. Saber qual o seu fundamento é um enigma. Examinarei, então, algumas das opiniões expressas por ocasião da discussão mencionada, para posteriormente dar, de maneira clara, a minha.

Dom Fellay, Cardeal Hoyos e Papa - setembro de 2005
1 – Durante a discussão, alguns julgaram positivo o recente convite feito à Fraternidade de “sair do bunker [refúgio, abrigo] no qual se trancou durante o pós-concílio para defender a Fé contra os ataques do neomodernismo”. Era claro que dar uma opinião a esse respeito não era coisa fácil. Que a Fraternidade, durante algumas décadas, esteve fechada num bunker, é evidente; e, infelizmente, ainda permanece. Menos evidente é saber se ela entrou sozinha, se fizeram-na entrar, ou se os acontecimentos a empurraram para lá. Parece-me que, se realmente se quer falar de bunker, Monsenhor Lefebvre mesmo foi quem encarcerou a sua Fraternidade, em 30 de junho de 1988, quando — após duas advertências de João Paulo II e uma admoestação formal para que renunciasse ao ato “cismático” que planejava realizar — ordenou bispos quatro dos seus padres. O bunker foi isso: não o de um cisma formal, dado que se tratou apenas de uma “recusa de submissão ao Soberano Pontífice” (CIC 751, §2), não havia dolo nem intenção de criar uma anti-igreja; pelo contrário, este ato foi determinado mesmo pelo amor à Igreja e por uma espécie de “necessidade” urgente de assegurar a continuidade da verdadeira Tradição católica, seriamente comprometida pelo neomodernismo pós-conciliar. Mas foi um bunker: o de uma desobediência aos limites do desafio, uma via sem saída e sem a perspectiva de nenhuma abertura possível. E não aquele de salvaguardar valores comprometidos.
É difícil compreender em que sentido se possa propriamente dizer necessário “trancar-se num bunker” “para defender a Fé contra os ataques do neomodernismo”. Isso seria dizer: deixar o campo livre à invasão da heresia modernista? Não, dado que, de fato, a passagem da heresia foi incessantemente posta em dificuldade. Pois, embora numa situação de condenação canônica, e, portanto, fora das fileiras oficiais, mas com consciência segura de trabalhar por Cristo e a sua Igreja, una, santa, católica, apostólica e romana, a Fraternidade se ateve acima de tudo à formação dos padres, já que aí está o seu propósito específico; fundou e dirigiu seminários; promoveu e apoiou debates teológicos às vezes de alto nível; publicou livros de um valor eclesiológico notável; prestou contas de si mesma, publicando folhetos de informação internos e externos; e tudo isso às claras, demonstrando assim de qual força — infelizmente deixada à margem — a Igreja poderia se prevalecer para realizar a sua obra de evangelização universal. O fato de que os efeitos da presença ativa lefebvrista possam parecer modestos, ou que, realmente, não sejam muito aparentes, pode depender de dois motivos: por um lado, da condição canônica anormal na qual evolui; por outro, das suas dimensões: sabemos que “la mosca tira il calcio che può” (“a mosca dá o pontapé que pode”).
Mas estou profundamente convencido que é precisamente por isso que se faz necessário agradecer a Fraternidade: por ter mantido, e por manter ainda, bem alta a tocha da Fé e da Tradição, num contexto de secularização que já chega à beira de uma era pós-cristã, e isso apesar de uma antipatia não dissimulada para com a mesma.
2 – Por ocasião do debate em questão no início, alguém fez referência a uma conferência na qual a Fraternidade foi convidada a ter uma confiança maior no mundo eclesial contemporâneo, recorrendo, se necessário, a certas concessões, dado que a “salus animarum” exige — é um lefebvrista que teria dito – que se corra até esse risco. Sim, mas certamente não o risco “comprometer” sua salvação eterna, nem a de outro.
É provável que as palavras tenham traído as intenções. Ou que não se tenha atentado ao valor das palavras. Pois se há uma coisa que se deve evitar em matéria de fé é fazer concessões. E para a Fraternidade, o recordar para si o “sim, sim, não, não” de Mt. 5, 37, como todo fiel autêntico de Cristo, é a única resposta válida à perspectiva de concessão. O texto citado continua afirmando que “todo o resto vem do maligno”: portanto, também, e mais precisamente, a concessão. Pelo menos quando por ela se entende o renunciar aos seus próprios princípios morais e às suas próprias razões de ser.
Para dizer a verdade, desde que as discussões entre a Santa Sé e a Fraternidade começaram, chegou, também a mim, o rumor da possibilidade de uma concessão. Ou seja, de um comportamento indigno, ao qual o primeiro a recusar, imagino, seja a Santa Sé. Uma concessão sobre algo que não implique a autêntica confissão da Fé é possível, e mesmo plausível; mas nunca às custas de valores inegociáveis. Seria isso, sobretudo, uma contradição nos termos, pois que a concessão ela mesma é objeto de um “negotium” — e uma negociação de risco: risco do naufrágio da Fé. A própria idéia de que a Santa Sé possa propor e aceitar uma concessão me repugna: seria obter muito menos que um prato de lentilhas e endossaria então a responsabilidade de um delito gravíssimo. Igualmente, me repugna a idéia de que a Fraternidade, após ter feito da Fé sem concessões a bandeira da sua própria existência, possa escorregar na casca de banana da renúncia de sua razão de ser.
Acrescento que, a julgar por alguns indícios que talvez não sejam totalmente infundados, a metodologia colocada em ato por ambos os lados não parece abrir grandes perspectivas. É a metodologia do ponto contra ponto: Vaticano II “sim”, Vaticano II “não”, ou a rigor “sim, se…”. A condição de tal método é que de um lado ou do outro, ou dos dois, baixa-se a guarda. Uma capitulação sem condição? Para a Fraternidade, entregar-se nas mãos da Igreja seria o único comportamento verdadeiramente cristão, se não existisse a razão pela qual ela nasceu e que a levou a se retirar para o Aventin [ndt: uma das sete colinas de Roma]. A saber, este Concílio Vaticano II que, particularmente em alguns de seus documentos, é literalmente o oposto daquilo que ela crê e pelo que ela age. Com tal metodologia, nenhuma via média pode, então, ser entrevista: ou a capitulação, ou a concessão.

Bispos da Fraternidade nas exéquias de Dom Lefebvre
Tal saída poderia ser evitada se outra metodologia fosse seguida. O “punctum dolens” de todo o contencioso se chama Tradição. Uma e a outra parte não cessam de recordá-la, embora tenham uma noção claramente distinta. Em 1988, o Papa João Paulo II declarou oficialmente que a noção de Tradição defendida pela Fraternidade era “incompleta e contraditória”. Restaria demonstrar a razão de tal incompletude e contradição, mas o mais urgente é a necessidade de se chegar, para ambas as partes, a um conceito comum, isto é, bilateralmente compartilhado. Tal conceito se tornaria então o instrumento que permite desvendar o labirinto dos problemas. Não há questão teológica ou de problema eclesial que não encontre em tal conceito a sua solução. Se, então, continuarem a dialogar mantendo, de um lado e de outro, o seu ponto de partida, ou se dará lugar um diálogo de surdos, ou, para tentar provar que não se dialogou em vão, se dará livre acesso à concessão. Em particular, se fosse aceita a tese dos “contrastes aparentes”, que reduz as oposições não a causas de caráter dogmático, mas à interpretação sempre nova de fatos históricos, então a Fraternidade declararia o seu próprio fim, substituindo miseravelmente a sua noção de Tradição, que é a dos Apóstolos, pela noção vaga, inconsistente e heterogênea de Tradição viva dos neomodernistas.
3 – Em nosso colóquio amigável, abordamos enfim uma última questão, exprimindo aí mais esperança que previsões concretamente fundadas: a questão do futuro da Fraternidade. Sobre este assunto, já se inclinou o sítio http://cordialiter.blogspot.com, com uma antecipação idílica do feliz amanhã que poderia ocorrer à Fraternidade: um novo estatuto canônico — novo? Sim, porque por ora, nunca existiu –, significando o início do fim do modernismo, priorados abarrotados de fiéis, e pela Fraternidade transformada em “super-diocese autônoma”. Da minha parte, espero também muito da aproximação esperada e que está atualmente em curso, mas mantendo um pouco mais os pés no chão.
Tento lançar sobre essas coisas um olhar mais aguçado a fim de ver o que poderia ocorrer. A especificidade da Fraternidade, como já recordei, é a preparação ao sacerdócio e o cuidado das vocações sacerdotais. Portanto, não deveria se abrir para ela um terreno diferente do dos seminários, que é o seu verdadeiro campo de batalha: nos seus próprios seminários ou nos dos outros, aí, mais que em qualquer outro lugar, poderão se exprimir a natureza e a finalidade da Fraternidade.
Sob qual perfil canônico? Não é fácil prevê-lo. Parece-me, no entanto, que o fato de se tratar de uma fraternidade sacerdotal deveria sugerir o aspecto canônico sob forma de uma “sociedade sacerdotal”, colocada sob o governo supremo da “Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida apostólica”. Além disso, o fato de já possuir quatro bispos poderia sugerir, como solução, uma “Prelazia” que a Santa Sé, no momento oportuno, poderá precisar a configuração jurídica exata. Tudo isso não me parece, todavia, ser o problema principal. O que é bem mais importante, sem dúvida, é tanto a resolução dentro da Igreja de um contencioso incompreensível na época do diálogo com todos, como a liberação de uma força compacta unida à idéia e ao ideal da Tradição, para que possa operar não desde um bunker, mas à luz do sol e como expressão viva e autêntica da Igreja.
Brunero Gherardini
Roma, 27 de setembro de 2010
"Seja-vos Jesus na Eucaristia, como no passado e mais ainda, fonte constante de graças e energias, para não vos deixardes arrastar pela torrente de erros e vícios que alaga o mundo. Faça das vossas associações e das vossas famílias cópias vivas da Casa de Nazaré. Inspire-vos e sustente o zêlo do vosso apostolado, para que toda a grande família brasileira, unida em verdadeira paz, ordem e progresso e modelando-se pela Sagrada Família, se mostre digna de que sobre ela reine e espanda toda a munificência e carinhos de soberana Rainha e Mãe, Nossa Senhora de Nazaré, hoje solenemente coroada".







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… alegra-me dizer que me opus desde o começo a um grande mal. Durante trinta, quarenta, cinquenta anos, resisti com o melhor de minhas forças ao espírito do liberalismo na religião. Nunca a Santa Igreja necessitou de defensores contra ele mais urgentemente que agora, quando infelizmente é um erro que se expande como uma armadilha por toda a terra! E nesta ocasião, em que é natural, para quem está em meu lugar, considerar o mundo e olhar a Santa Igreja tal como está, e seu futuro, espero que não seja considerado fora de lugar se renovar o protesto que fiz tão frequentemente.


"... muitos dos que se dizem católicos ajudam os «revolucionários» . São esses, sempre «moderados», que estimam a «tranquilidade pública» como o bem supremo. Esses católicos tolerantes, condescendentes, brandos, doces, amáveis ao extremo com os maçons e furiosos inimigos de Jesus Cristo, guardam todo seu mal humor para os que gritam «Viva a Religião!» e a defendem sofrendo contínuas penalidades e expondo suas vidas. Para eles, esses últimos são «exagerados e imprudentes, que tudo comprometem com prejuízo dos interesses da Igreja» ".
Que tenho eu, Senhor Jesus, que não me tenhais dado?… Que sei eu que Vós não me tenhais ensinado?… Que valho eu se não estou ao vosso lado? Que mereço eu, se a Vós não estou unido?… Perdoai-me os erros que contra Vós tenho cometido. Pois me criastes sem que o merecesse… E me redimistes sem que Vo-lo pedisse… Muito fizestes ao me criar, muito em me redimir, e não sereis menos generoso em perdoar-me. Pois o muito sangue que derramastes e a acerba morte que padecestes não foram pelos anjos que Vos louvam, senão por mim e demais pecadores que Vos ofendem… Se Vos tenho negado, deixai-me reconhecer-Vos; Se Vos tenho injuriado, deixai-me louvar-Vos; Se Vos tenho ofendido, deixai-me servir-Vos. Porque é mais morte que vida, a que não empregada em vosso santo serviço… - Padre Mateo Crawley-Boevey