Arquivo para outubro, 2010

outubro 31, 2010

Foto da semana.

Ousadia sem precedente: no dia 4 de outubro, Dom Moacir Grechi, arcebispo de Porto Velho e anfitrião do último "intereclesial das CEBs", contrariando o protocolo da Santa Sé e diferentemente de todos os outros bispos, apresentou-se na visita Ad Limina Apostolorum desrespeitosamente à paisana, sem a veste talar. Pior: ele representou o grupo dos bispos dos regionais Norte 1 e Noroeste da CNBB, discursando para o Santo Padre! Foto: L'Osservatore Romano.

Ousadia sem precedente: no dia 4 de outubro, Dom Moacir Grechi, arcebispo de Porto Velho e anfitrião do último "intereclesial das CEBs", contrariando o protocolo da Santa Sé e diferentemente de todos os outros bispos, apresentou-se na visita Ad Limina Apostolorum desrespeitosamente à paisana, sem a veste talar. Pior: ele representou o grupo dos bispos dos regionais Norte 1 e Noroeste da CNBB, discursando para o Santo Padre! Foto: L'Osservatore Romano.

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outubro 31, 2010

A todos os homens se estende o domínio de Nosso Redentor.

Por outra parte, erraria gravemente quem negasse a Cristo-Homem o poder sobre todas as coisas humanas e temporais, posto que o Pai conferiu-Lhe um direito absolutíssimo sobre as coisas criadas, de tal sorte que todas estão submetidas a Seu arbítrio. Apesar disso, enquanto viveu sobre a terra se absteve inteiramente de exercitar esse poder, e assim como então desprezou a posse e o cuidado das coisas humanas, assim também permitiu, e segue permitindo, que os possuidores delas se utilizem.

Acerca do qual diz bem aquela frase: “Não retira os reinos mortais Aquele que dá os celestiais”. Portanto, a todos os homens se estende o domínio de nosso Redentor, como afirmam as palavras de nosso predecessor, de feliz memória, Leão XIII, que fazemos, com gosto, nossas: “O império de Cristo se estende não só sobre os povos católicos ou sobre aqueles que tendo recebido o batismo pertencem de direito à Igreja, ainda que o erro os tenha extraviado ou o cisma os separe da caridade, mas compreende também aqueles que não participam da fé cristã, de modo que sob a potestade de Jesus se encontra todo o gênero humano“.

[...]

Julgamos peste de nossos tempos o chamado laicismo com seus erros e abomináveis intenções; e vós sabeis, veneráveis irmãos, que tal impiedade não amadureceu em um só dia, que se incubava desde muito antes nas entranhas da sociedade. Começou-se por negar o império de Cristo sobre todas as gentes; negou-se à Igreja o direito, fundado no direito do mesmo Cristo, de ensinar ao gênero humano, isto é, de promulgar leis e governar os povos para conduzi-los à felicidade eterna. Depois, pouco a pouco, a religião cristã foi nivelada às demais religiões falsas e rebaixada indecorosamente ao nível destas. Submeteram-na logo ao poder civil e à arbitrária permissão dos governantes e magistrados. E se avançou mais: houve alguns destes que imaginaram substituir a religião de Cristo com certa religião natural, com certos sentimentos puramente humanos. Não faltaram Estados que creram poder passar sem Deus, e puseram sua religião na impiedade e no desprezo de Deus.

[...]

Ademais, para condenar e reparar de alguma maneira esta apostasia pública pelo laicismo, com tanto dano à sociedade, não parece que deve ajudar grandemente a celebração anual da festa de Cristo Rei entre todos os povos? Em verdade: quanto mais se oprime com indigno silêncio o suave nome de nosso Redentor, nas reuniões internacionais ou nos parlamentos, tanto mais alto há de se gritá-lo, e com maior publicidade há se de afirmar os direitos de sua real dignidade e potestade. [...] A celebração desta festa, que se renovará a cada ano, ensinará também às nações que o dever de adorar publicamente e obedecer a Jesus Cristo não só obriga aos particulares, mas também aos magistrados e governantes. A estes trará à memória o pensamento do juízo final, quando Cristo, não só por ter sido retirado do governo do Estado, mas também por ter sido ignorado ou menosprezado, vingará terrivelmente todas estas injúrias; pois sua dignidade real exige que a sociedade inteira se ajuste aos mandamentos divinos e aos princípios cristãos, seja ao estabelecer as leis, seja ao administrar justiça, seja finalmente ao formar as almas dos jovens na sã doutrina e na retidão dos costumes.

Pio XI, Carta Encíclica Quas Primas, sobre a Festa de Cristo Rei, de 11 de dezembro de 1925.

Publicado originalmente em 26 de outubro de 2008

outubro 30, 2010

Deus lo vult!

Já era noite. Depois de horas de viagem, sobrevoando aquela imensidão de campos e pequenos povoados, cheguei ao destino. Já estavam me esperando. O que eu não contava é que ainda havia mais uma hora de carro até o destino final. Uma conversa agradável num caminho agradável, mas num longo caminho.

Era quase o fim do dia quando entrei naquela propriedade. O automóvel subia lentamente curvas sinuosas envoltas por grandes árvores, e estas estavam umedecidas pelo orvalho da noite. A paisagem mais parecia saída de um romance ou dum belo filme épico. Parecia-se um castelo, ou uma fortaleza, ou sabe-se lá o que de tão magnífico.

Naquele casarão majestoso, de grossas paredes de pedras, fui dormir num quarto repleto de livros muito importantes, pertencentes e lidos por gente muito importante. E dali, daquele quartel-general, meu pensamento voou por todo o Orbe, e recordei-me que estávamos numa grande guerra, tão imperceptível quanto mortífera, e também de que necessitamos mobilizar nossas tropas.

O mundo quer devorar nosso Reino, os inimigos se amotinam ante nossas portas, já invadiram nossos flancos, destroçaram nossos altares, assassinaram nossas famílias e ainda ridicularizam nossos doentes, afrontam nossos generais, desacatam e odeiam nosso Rei…

Basta já de tudo isso! Pois que é isso, meu Senhor e meu Deus? Ou dai fim ao mundo, ou remediai tão gravíssimos males, que não há coração que o sofra, mesmo os nossos que somos tão ruins…

Estes homens amigos que me abrigam, estão dando sua vida pela defesa da única Causa que vale realmente à pena: o Reinado de Cristo nas almas e na sociedade! Lembrei-me então de outros cavaleiros e de outras legiões, todas lutando pelo mesmo ideal. E descobri que outrora muitas delas chegaram a combater juntas contra o inimigo comum; e, ainda hoje, os mais novos espadachins são devedores daquele tempo de comunhão de ideais e de lutas.

O que se passou? Por que não combatem mais juntos? Por que, entre algumas legiões, combatem-se entre si? Não sei todas as respostas, mas conheço algumas histórias. De todos os lados sobram razões, dissensos e intrigas e, em algum que outro caso, injustiças. Vivo entre estes exércitos, perpasso por estas tropas que não se cruzam mais, perambulo por terrenos de quase inimigos, e saio ileso até hoje, e saio amigo. Aqui de onde estou, vejo a bravura na luta e o brio no ideal. Quero ajudá-los e espero deles a ajuda que um cruzado espera de seu irmão: Luta contra os inimigos e auxílio à Santa Igreja!

Necessitamos por isso mesmo de uma legião incontável de cruzados – que tais novos São Luiz – sejam homens que só queiram saber da Glória de Deus e da Exaltação da Santa Madre Igreja.

Naquela significativa Sede aprendi um fato belíssimo: Clóvis, Rei dos Francos, convertera-se à verdadeira fé e São Remígio, Bispo de Reims, dava a ele e a seu exército o Catecismo sobre a Paixão de Nosso Senhor; enquanto o santo bispo narrava as atrocidades da Paixão, Clóvis e os seus soldados batiam suas armas no chão com força, e ao fim, exalou o Rei-Catecúmeno, numa ardorosa manifestação de amor e desagravo a Deus, ainda que ingênua: Se eu e os meus francos estivéssemos ali, não haveria acontecido tudo isso, não o deixaríamos…

Que bela e inspiradora história. Qualquer que se apresente assim, com este ideal altruísta, já encontrou em mim, um aliado e um amigo. Só este ideal deve nortear nossas vidas, a dos novos cavaleiros destes novos tempos. Este ideal deve nos purificar sempre e a partir dele sempre devemos retificar nossas intenções pessoais ou grupais: Omnis Deo Gloriam, Ad Majorem Dei Gloriam!

Não creio ser a hora de desunir nossas tropas. Sei de fatos que merecem justiça, entendo as diferenças de estratégias e de interesses – carismas -, mas também sei que há orgulho ferido, e também soberba de sobra, além de argumentos reais e críticas legítimas. No entanto, em tempos de guerra contra o Império Cristão, os reinos devem suspender seus litígios e afrontar conjuntamente o inimigo comum que dominou a Terra Santa de Nosso Senhor!

Sei que não é fácil.  As palavras ferinas já foram proferidas e o tempo da reconciliação não foi aproveitado. Por isso, conclamo para que a espada esteja junto à Cruz, o que luta seja o que reza, o corajoso cavaleiro seja um fiel cristão, submisso ao Pai comum de todos, a seu serviço e em sua defesa. A bravura e a caridade vão juntas. O herói e o penitente se identificam!

Juntemo-nos, irmãos! Lutemos juntos pela nossa Causa que é a do nosso Grande Rei! Deixem os litígios para quando vier o tempo de paz, e o Prelado esperado subir ao Sumo Pontificado, com Santidade e Força suficientes para arrasar os inimigos de dentro e pôr medo nos de fora! Sim, ele virá! Enquanto isso, ele espera de nós esta luta que preparará sua chegada. Com a Cruz, com a Espada e com a Fé, seremos vitoriosos.

Devemos defender aquele altar que fez nascer os mais esplendorosos monumentos da arquitetura e da arte, da verdadeira justiça e da verdadeira Civilização: a Cristandade! Eis a nossa missão: lutar para que se multipliquem as Missas em nossos altares e em terras de missão; lutar para que a vida que brota daquela ara se irradie na sociedade; lutar para defender a vida e as famílias generosas e grandes; a salvaguardar a inocência e a pureza dos infantes; a ajudar a que os sacerdotes voltem a amar e ter fé no dom que só eles receberam; a reverenciar estas madres piedosas e modestas, com seus hábitos compridos e véus longos; tudo isto para salvar da secularização este mundo decaído!

Suplico-Vos, pois, Padre Eterno, que não o sofrais já Vós: atalhai este fogo, Senhor, pois se quereis, podeis; algum meio há de haver, Senhor meu: aplique-o Vossa Majestade. Tende pena de tantas almas que se perdem, e favorecei vossa Igreja. Não permitais ainda mais danos à Cristandade. Senhor, dai já luz a estas trevas. Já, Senhor! Fazei que sossegue este mar; não ande sempre em tanta tempestade esta nave da Igreja. E salvai-nos, Senhor meu, que perecemos.

Eis então a nossa meta: Restaurar todas as coisas em Cristo – por meio de Maria, Rainha de todos os corações -, escutando sempre dos nossos maiores: Introíbo ad altare Dei, ad Deum qui laetificat juventutem meam!

Nuno de Santa Maria

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outubro 30, 2010

TSE rejeita acordo entre Canção Nova e PT para veiculação de direito de resposta a sermão-bomba de Pe. José Augusto.

(Conjur) O Tribunal Superior Eleitoral manteve, nessa sexta-feira (29/10), decisão da ministra Nancy Andrighi que julgou prejudicado [ndr: rejeitou] direito de resposta feito pela coligação que apoia a candidata do PT à presidência, Dilma Roussef. O pedido foi feito contra a TV Canção Nova, que transmitiu, no dia 5 de outubro, homilia em que o padre José Augusto dizia aos fiéis que não votassem na candidata no segundo turno.

A ministra Andrighi julgou prejudicado o pedido de homologação do acordo e, em consequência, o tempo firmado entre a fundação e a coligação para veicular o direito de resposta. Segundo ela afirmou na decisão, mantida hoje pelos demais ministros do TSE, “as partes se anteciparam à apreciação da matéria pelo Poder Judiciário” ao firmar o acordo.

A ministra Nancy Andrighi acrescentou que a própria coligação da candidata petista reconheceu “ter havido resposta institucional por parte da (emissora), que atende, em parte, o pleito (de direito de resposta)”. Segundo ela, a coligação não esclareceu em que medida o pleito foi atendido e o que ainda justificaria o direito de resposta no tempo combinado.

“As representantes (coligação e candidata) reconheceram expressamente que não houve a intenção de ofender e que ocorreu a retratação”, disse. Para ela, se a coligação entende que ainda há dano a ser reparado, isso poderá ser feito na propaganda eleitoral gratuita da coligação e da candidata petista, onde poderão ser divulgados “os esclarecimentos adicionais que entenderem necessários para refutar, de vez, as ofensas veiculadas”.

Após apresentar o pedido de direito de resposta no TSE, a coligação firmou acordo com Fundação João Paulo II, mantenedora da TV Canção Nova, que alegou não ter tido intenção de ofender a candidata e se comprometeu a dar 8 minutos de direito de resposta na programação da emissora. A coligação alegou que toda a homilia, que durou 15 minutos, seria ofensiva à candidata e ao PT. Com informações da Assessoria de Imprensa do TSE.

outubro 30, 2010

Queimando a língua.

Na verdade, além deste duplo valor do voto nesta eleição, ele tem uma terceira tarefa: reprovar de vez o intento de instrumentalizar a religião para fins eleitorais. Este também é um expediente que precisa ser extirpado do processo eleitoral brasileiro. É urgente rasgar as máscaras de muitos fariseus, que utilizam causas e posições religiosas para fins eleitorais, pretendendo-se detentores de poderes sagrados para manipular a consciência dos eleitores. Está mais do que na hora de abolir de vez este procedimento que já está ultrapassado há séculos”

Palavras de Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales, em artigo publicado três dias antes do discurso do Papa Bento XVI aos bispos do regional Nordeste V.

outubro 29, 2010

O Concílio [Pastoral] em questão.

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(Summorum Pontificum Observatus) De 16 a 18 de dezembro próximo, os Franciscanos da Imaculada organizam um colóquio de estudos em Roma sobre o Concílio Vaticano II (Concilio Ecumenico Vaticano II, Un Concilio Pastorale — Analise Storico-Filosofico-Teologica), no Instituto “Maria S.S. Bambina” (via Paolo VI, 21).

Apoiando-se sobre o histórico discurso do Papa sobre as duas hermenêuticas relativas ao Concílio Vaticano II, de 22 de dezembro de 2005, os Franciscanos da Imaculado se propõem a examinar o Vaticano II,  sua natureza e seu objetivo. Trata-se de estudar esta radical novidade que quis que, pela primeira vez, um concílio não proclamasse novos dogmas e ensinamentos definitivos, nem condenações, mas se apresentasse com uma finalidade meramente pastoral.

Notamos que a versão italiana da agência Zenit, sob o título ‹‹ Il Vaticano II, un Concilio “Rivoluzionario”? ›› publicou um artigo do Padre Serafino M. Lanzetta, padre professo do Instituto dos Franciscanos da Imaculada e cura da Igreja São Salvador em Ognissanti (Florença) desde 2004. Ele ensina teologia dogmática no Instituto Teológico “Imaculada Medianeira” (Cassino – Frosinone). Desde 2006, é diretor da revista teológica Fides Catholica. Colabora com diversas revistas de caráter cultural e teológico e dirigiu a realização de dois colóquios teológicos no Cenáculo do Ghirlandaio, Florença, bem como as publicações a respeito.

Observem que Dom Velasis de Paolis, já evocado neste blog a propósito da recente ordenação diaconal nos Franciscanos da Imaculada, encerrará este colóquio onde intervirão particularmente Mons. Gherardini, o professor Roberto de Mattei, Yves Chiron, Dom Schneider, Dom Marchetto, Mons. Nicola Bux, vários membros dos Franciscanos da Imaculada de universidades pontifícias e da cúria.

outubro 29, 2010

A reação do episcopado brasileiro ao discurso do Papa Bento XVI.

Folha de São Paulo

O pronunciamento do papa Bento 16 sobre a necessidade de engajamento político da igreja no Brasil mobilizou bispos do país.

Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, bispo de Guarulhos que encomendou folhetos anti-Dilma apreendidos pela Polícia Federal, disse sentir-se aliviado pela fala do pontífice:

“Essa posição que o papa assumiu foi, em parte ao menos, motivada pela situação que nós temos aqui. A situação que estamos vivendo no Brasil, principalmente durante a campanha política”.

Em reunião ontem com bispos brasileiros, o papa disse que os pastores têm o “dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas”.

Para o arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, dom Geraldo Majella Agnelo, o clamor de Bento 16 deve ser transmitido em missas, mas sem que se façam menções aos nomes de candidatos. “É preciso deixar o eleitor fazer sua opção.”

A disposição de divulgar o pronunciamento de Bento 16 é compartilhada por dom Roberto Francisco Ferreira, bispo auxiliar de Niterói. “Domingo, eu vou fazer ressoar a fala do papa. Certamente será uma motivação para pastorais esclarecerem cristãos”, afirmou.

Dom Roberto esteve em Roma em setembro com outros bispos de sua regional. O tema do encontro não foi aborto, mas ele conta que Bento 16 foi informado sobre a polêmica na disputa eleitoral.

Há, no entanto, quem tenha reagido com mais cautela. Dom José Belisário da Silva, da regional do Maranhão, integrante da comitiva que se encontrou ontem com Bento 16, disse que a fala “apenas reafirmou” posições da igreja.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não se pronunciou sobre o assunto.

outubro 29, 2010

Os informantes do Papa Bento.

José Maria Mayrink – O Estado de S.Paulo

O papa Bento XVI recomendou, ontem, aos bispos brasileiros, ao condenar a descriminalização do aborto e da eutanásia, que lembrem aos cidadãos “o direito, que é também um dever, de usar livremente o voto para a promoção do bem comum”. Os bispos, ressaltou, “têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas”, sempre que os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem.

“Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto ou da eutanásia, o ideal democrático é atraiçoado nas suas bases”, afirmou ontem Bento XVI, durante audiência a 14 bispos do Maranhão que participam da visita ad limina do Regional Nordeste 5, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A visita ad limina apostolorum é a viagem que os bispos fazem obrigatoriamente a Roma, a cada cinco anos, para prestar contas da administração de suas dioceses.

Embora falasse três dias antes da eleição de domingo, Bento XVI não ligou explicitamente seu discurso à polêmica levantada por bispos e grupos de católicos que cobraram uma posição dos presidenciáveis e vetaram, já no primeiro turno, candidatos e partidos supostamente favoráveis à descriminalização do aborto. A advertência do papa, porém, teria endereço certo, porque se basearia em informações recentes levadas ao Vaticano.

“O papa ouve e interroga os bispos sobre temas que possam ser tratados por ele”, observou ao Estado o cardeal d. Geraldo Majella Agnelo, arcebispo e Salvador e primaz do Brasil, ao ler, ontem de manhã, o discurso de Bento XVI aos membros do Regional Nordeste 5. “Como os bispos apresentam relatórios sobre problemas de suas dioceses, é provável que tenham levantado a questão do aborto“, acrescentou. O cardeal achou oportuna a palavra do papa e admite que ela tenha relação direta com o momento eleitoral.

Para o bispo de Guarulhos, d. Luiz Gonzaga Bergonzini, que tomou posição contra Dilma Rousseff, recomendando aos católicos que não votassem nela – “porque a candidata e o PT são favoráveis ao aborto” -, é possível que Bento XVI tenha sido alertado para a situação eleitoral no Brasil. “Dei conhecimento ao papa do que está acontecendo aqui, relatando minha atuação nesse caso, mas é preciso lembrar que ele é sempre bem informado e deve ter recebido relatos também de outras fontes“, revelou d. Luiz Gonzaga.

outubro 28, 2010

Papa aos bispos do Regional Nordeste V da CNBB em visita Ad Limina: « não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambigüidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo ».

Discurso pronunciado pelo Santo Padre, o Papa Bento XVI, aos bispos brasileiros do regional Nordeste V da CNBB em visita ad limina apostolorum:

Amados Irmãos no Episcopado,

«Para vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo» (2 Cor 1, 2). Desejo antes de mais nada agradecer a Deus pelo vosso zelo e dedicação a Cristo e à sua Igreja que cresce no Regional Nordeste 5. Lendo os vossos relatórios, pude dar-me conta dos problemas de caráter religioso e pastoral, além de humano e social, com que deveis medir-vos diariamente. O quadro geral tem as suas sombras, mas tem também sinais de esperança, como Dom Xavier Gilles acaba de referir na saudação que me dirigiu, dando livre curso aos sentimentos de todos vós e do vosso povo.

Como sabeis, nos sucessivos encontros com os diversos Regionais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tenho sublinhado diferentes âmbitos e respectivos agentes do multiforme serviço evangelizador e pastoral da Igreja na vossa grande Nação; hoje, gostaria de falar-vos de como a Igreja, na sua missão de fecundar e fermentar a sociedade humana com o Evangelho, ensina ao homem a sua dignidade de filho de Deus e a sua vocação à união com todos os homens, das quais decorrem as exigências da justiça e da paz social, conforme à sabedoria divina.

Entretanto, o dever imediato de trabalhar por uma ordem social justa é próprio dos fiéis leigos, que, como cidadãos livres e responsáveis, se empenham em contribuir para a reta configuração da vida social, no respeito da sua legítima autonomia e da ordem moral natural (cf. Deus caritas est, 29). O vosso dever como Bispos junto com o vosso clero é mediato, enquanto vos compete contribuir para a purificação da razão e o despertar das forças morais necessárias para a construção de uma sociedade justa e fraterna. Quando, porém, os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas (cf. GS, 76).

Ao formular esses juízos, os pastores devem levar em conta o valor absoluto daqueles preceitos morais negativos que declaram moralmente inaceitável a escolha de uma determinada ação intrinsecamente má e incompatível com a dignidade da pessoa; tal escolha não pode ser resgatada pela bondade de qualquer fim, intenção, conseqüência ou circunstância. Portanto, seria totalmente falsa e ilusória qualquer defesa dos direitos humanos políticos, econômicos e sociais que não compreendesse a enérgica defesa do direito à vida desde a concepção até à morte natural (cf. Christifideles laici, 38). Além disso no quadro do empenho pelos mais fracos e os mais indefesos, quem é mais inerme que um nascituro ou um doente em estado vegetativo ou terminal? Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto ou da eutanásia, o ideal democrático – que só é verdadeiramente tal quando reconhece e tutela a dignidade de toda a pessoa humana – é atraiçoado nas suas bases (cf. Evangelium vitæ, 74). Portanto, caros Irmãos no episcopado, ao defender a vida «não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambigüidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo» (ibidem, 82).

Além disso, para melhor ajudar os leigos a viverem o seu empenho cristão e sócio-político de um modo unitário e coerente, é «necessária — como vos disse em Aparecida — uma catequese social e uma adequada formação na doutrina social da Igreja, sendo muito útil para isso o “Compêndio da Doutrina Social da Igreja”» (Discurso inaugural da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, 3). Isto significa também que em determinadas ocasiões, os pastores devem mesmo lembrar a todos os cidadãos o direito, que é também um dever, de usar livremente o próprio voto para a promoção do bem comum (cf. GS, 75).

Neste ponto, política e fé se tocam. A fé tem, sem dúvida, a sua natureza específica de encontro com o Deus vivo que abre novos horizontes muito para além do âmbito próprio da razão. «Com efeito, sem a correção oferecida pela religião até a razão pode tornar-se vítima de ambigüidades, como acontece quando ela é manipulada pela ideologia, ou então aplicada de uma maneira parcial, sem ter em consideração plenamente a dignidade da pessoa humana» (Viagem Apostólica ao Reino Unido, Encontro com as autoridades civis, 17-IX-2010).

Só respeitando, promovendo e ensinando incansavelmente a natureza transcendente da pessoa humana é que uma sociedade pode ser construída. Assim, Deus deve «encontrar lugar também na esfera pública, nomeadamente nas dimensões cultural, social, econômica e particularmente política» (Caritas in veritate, 56). Por isso, amados Irmãos, uno a minha voz à vossa num vivo apelo a favor da educação religiosa, e mais concretamente do ensino confessional e plural da religião, na escola pública do Estado.

Queria ainda recordar que a presença de símbolos religiosos na vida pública é ao mesmo tempo lembrança da transcendência do homem e garantia do seu respeito. Eles têm um valor particular, no caso do Brasil, em que a religião católica é parte integral da sua história. Como não pensar neste momento na imagem de Jesus Cristo com os braços estendidos sobre a baía da Guanabara que representa a hospitalidade e o amor com que o Brasil sempre soube abrir seus braços a homens e mulheres perseguidos e necessitados provenientes de todo o mundo? Foi nessa presença de Jesus na vida brasileira, que eles se integraram harmonicamente na sociedade, contribuindo ao enriquecimento da cultura, ao crescimento econômico e ao espírito de solidariedade e liberdade.

Amados Irmãos, confio à Mãe de Deus e nossa, invocada no Brasil sob o título de Nossa Senhora Aparecida, estes anseios da Igreja Católica na Terra de Santa Cruz e de todos os homens de boa vontade em defesa dos valores da vida humana e da sua transcendência, junto com as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens e mulheres da província eclesiástica do Maranhão. A todos coloco sob a Sua materna proteção, e a vós e ao vosso povo concedo a minha Benção Apostólica.

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outubro 27, 2010

Dom Athanasius Schneider: 54 linhas para descrever como pode ser enriquecida a Nova Missa. Para a Missa Tradicional, 7…

Apresentamos um excerto da entrevista concedida por Dom Athanasius Schneider, ex-professor do seminário de Anápolis, GO, e hoje bispo auxiliar de Karaganda, no Cazaquistão, à Paix Liturgique.

No Motu Proprio que decretou, Summorum Pontificum, Bento XVI formulou um convite explícito ao recíproco enriquecimento das duas formas do único rito romano. Na opinião do Senhor Dom Atanásio, que de bom grado celebra nas duas formas do rito, em que aspectos poderia este enriquecimento manifestar-se de modo mais frutuoso?

AS: Temos de levar o Papa a sério. Não se pode continuar a agir como se ele não tivesse dito essa frase. Ou, aliás, como se ele não a tivesse escrito. Claro está que, mesmo sem que haja necessidade de rever os missais, há meios para proceder a uma aproximação das duas formas do rito.

Uma primeira ideia poderia ser a de celebrar versus Deum a partir do Ofertório, como de resto é previsto pelas rubricas do novo missal. Com efeito, o missal de Paulo VI indica claramente dois momentos em que o celebrante se deve voltar para o povo. Uma primeira vez, no momento do “Orate fratres”, e uma segunda, quando o sacerdote diz “Ecce Agnus Dei”, por altura da comunhão dos fiéis. Que significado dar a estas indicações senão a de que o sacerdote deverá estar voltado para o altar durante o Ofertório e o Cânon? Em Setembro de 2000, a Congregação para o Culto Divino e para a Disciplina dos Sacramentos publicou uma resposta relativa a um quesito sobre a orientação [posição] do sacerdote durante a Missa. Ao explicar que «a posição versus populum parece a mais cómoda na medida em que ela torna mais fácil a comunicação», ela precisava, no entanto, que «supor que a acção sacrificial deve ser orientada principalmente para a comunidade seria um grave erro. Se o sacerdote celebra versus populum, coisa legítima e frequentemente aconselhável, a sua orientação espiritual deve estar sempre voltada para Deus por Jesus Cristo».

Parece-me que, hoje e dia, esta resposta que vinha defender a celebração face ao povo poderia ser adaptada à nova realidade criada pelo MP Summorum Pontificum mediante uma recomendação no sentido de se celebrar voltado para o Oriente a partir do Ofertório.

No que toca à comunhão, a Santa Sé também poderia publicar uma recomendação universal a fim de lembrar o que está previsto na Instrução Geral do Missal Romano, no seu artigo 160°: «Os fiéis comungam de joelhos ou de pé, segundo a determinação da Conferência Episcopal. Quando comungam de pé, recomenda-se que, antes de receberem o Sacramento, façam a devida reverência, estabelecida pelas mesmas normas.» Cabe pois sublinhar que a primeira forma de comunhão a ser referida pelo texto oficial da Igreja destinado a comentar o Novus Ordo é a forma de comunhão de joelhos…

Uma outra possibilidade de enriquecimento da nova liturgia seria a de que as leituras da Bíblia Sagrada fossem feitas por homens em vestes litúrgicas e em caso algum por mulheres ou homens vestidos à civil. E isto porque as leituras são feitas no presbitério, um lugar que desde os tempos apostólicos é reservado ao sacerdote e aos ministros ordenados, aí se incluindo os clérigos com ordens menores. Só na falta destes últimos é que um leigo (homem) podia vir suprir. O serviço do altar, de leitor ou de acólito, não é um exercício do sacerdócio comum, fazendo antes parte do sacerdócio sagrado, em especial do diaconato. É por esta razão que, pelo menos a partir do século III, a Igreja concebeu as ordens menores como uma espécie de introdução às diferentes funções contidas no exercício do diaconato, como, por exemplo, a guarda do santuário e o chamamento dos fiéis à liturgia (ostiário), a leitura da palavra de Deus durante a liturgia (leitor), expulsar os espíritos malignos (exorcista), transportar a luz e servir ao altar (acólito). Assim, é-nos mais fácil compreender porque é que, tradicionalmente, a Igreja reservou a atribuição das ordens menores e a instituição de leitores ou de acólitos apenas a fiéis homens.

Neste sentido, bem se compreende que um dos enriquecimentos permitidos pela aproximação das duas formas litúrgicas consistisse em retornar à sã tradição de reservar o presbitério apenas aos homens: diáconos, acólitos, leitores e crianças de coro (ou coroinhas), todos eles devem ser do sexo masculino. De nada adianta que nos lamentemos do descalabro das vocações quando os rapazes deixam de ser chamados para o serviço do altar.

Por fim, a oração dos fiéis deve ficar reservada apenas aos diáconos, acólitos ou leitores, todos com hábitos litúrgicos. Até seria mais coerente com a tradição bimilenar da Igreja, tanto ocidental como oriental, que esta oração dos fiéis, ou oração universal, fosse proclamada, ou melhor ainda, cantada, unicamente pelo diácono, pois que antes ela recebia o nome de “oratio diaconalis”. Na falta de diácono, seria bom que fosse o próprio sacerdote a lê-la, como de resto acontece com o evangelho. O termo oração dos “fiéis” não significa que a sua proclamação seja uma função dos fiéis. Acreditar nisso seria um erro histórico e litúrgico. De facto, o que isso indica é que ela decorria ao início da missa dos fiéis, depois que tivessem saído os catecúmenos, e quando o diácono ou o sacerdote oferecia à Majestade Divina as intenções de toda a Igreja, e portanto de todos os fiéis, daí o seu nome.

7) E no que respeita à forma extraordinária? De que maneira poderia ela enriquecer-se ao contactar com a forma ordinária do rito romano?

AS: Eu diria que se poderia aplicar à forma extraordinária o espírito que anima os últimos elementos que citei a propósito do Novus Ordo. As leituras sagradas deveriam ser sempre acessíveis aos fiéis, logo, na língua local e não apenas em latim, salvo em ocasiões especiais. Assim, também nesta forma, as leituras poderiam ser feitas por um leitor ordenado ou instituído, isto é, um fiel homem em hábitos litúrgicos. Uma iniciativa bela e útil seria a introdução de alguns prefácios do novo missal, e o mesmo se diga da introdução de novos santos no calendário litúrgico tradicional.

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