Já era noite. Depois de horas de viagem, sobrevoando aquela imensidão de campos e pequenos povoados, cheguei ao destino. Já estavam me esperando. O que eu não contava é que ainda havia mais uma hora de carro até o destino final. Uma conversa agradável num caminho agradável, mas num longo caminho.
Era quase o fim do dia quando entrei naquela propriedade. O automóvel subia lentamente curvas sinuosas envoltas por grandes árvores, e estas estavam umedecidas pelo orvalho da noite. A paisagem mais parecia saída de um romance ou dum belo filme épico. Parecia-se um castelo, ou uma fortaleza, ou sabe-se lá o que de tão magnífico.
Naquele casarão majestoso, de grossas paredes de pedras, fui dormir num quarto repleto de livros muito importantes, pertencentes e lidos por gente muito importante. E dali, daquele quartel-general, meu pensamento voou por todo o Orbe, e recordei-me que estávamos numa grande guerra, tão imperceptível quanto mortífera, e também de que necessitamos mobilizar nossas tropas.
O mundo quer devorar nosso Reino, os inimigos se amotinam ante nossas portas, já invadiram nossos flancos, destroçaram nossos altares, assassinaram nossas famílias e ainda ridicularizam nossos doentes, afrontam nossos generais, desacatam e odeiam nosso Rei…
Basta já de tudo isso! Pois que é isso, meu Senhor e meu Deus? Ou dai fim ao mundo, ou remediai tão gravíssimos males, que não há coração que o sofra, mesmo os nossos que somos tão ruins…
Estes homens amigos que me abrigam, estão dando sua vida pela defesa da única Causa que vale realmente à pena: o Reinado de Cristo nas almas e na sociedade! Lembrei-me então de outros cavaleiros e de outras legiões, todas lutando pelo mesmo ideal. E descobri que outrora muitas delas chegaram a combater juntas contra o inimigo comum; e, ainda hoje, os mais novos espadachins são devedores daquele tempo de comunhão de ideais e de lutas.
O que se passou? Por que não combatem mais juntos? Por que, entre algumas legiões, combatem-se entre si? Não sei todas as respostas, mas conheço algumas histórias. De todos os lados sobram razões, dissensos e intrigas e, em algum que outro caso, injustiças. Vivo entre estes exércitos, perpasso por estas tropas que não se cruzam mais, perambulo por terrenos de quase inimigos, e saio ileso até hoje, e saio amigo. Aqui de onde estou, vejo a bravura na luta e o brio no ideal. Quero ajudá-los e espero deles a ajuda que um cruzado espera de seu irmão: Luta contra os inimigos e auxílio à Santa Igreja!
Necessitamos por isso mesmo de uma legião incontável de cruzados – que tais novos São Luiz – sejam homens que só queiram saber da Glória de Deus e da Exaltação da Santa Madre Igreja.
Naquela significativa Sede aprendi um fato belíssimo: Clóvis, Rei dos Francos, convertera-se à verdadeira fé e São Remígio, Bispo de Reims, dava a ele e a seu exército o Catecismo sobre a Paixão de Nosso Senhor; enquanto o santo bispo narrava as atrocidades da Paixão, Clóvis e os seus soldados batiam suas armas no chão com força, e ao fim, exalou o Rei-Catecúmeno, numa ardorosa manifestação de amor e desagravo a Deus, ainda que ingênua: Se eu e os meus francos estivéssemos ali, não haveria acontecido tudo isso, não o deixaríamos…
Que bela e inspiradora história. Qualquer que se apresente assim, com este ideal altruísta, já encontrou em mim, um aliado e um amigo. Só este ideal deve nortear nossas vidas, a dos novos cavaleiros destes novos tempos. Este ideal deve nos purificar sempre e a partir dele sempre devemos retificar nossas intenções pessoais ou grupais: Omnis Deo Gloriam, Ad Majorem Dei Gloriam!
Não creio ser a hora de desunir nossas tropas. Sei de fatos que merecem justiça, entendo as diferenças de estratégias e de interesses – carismas -, mas também sei que há orgulho ferido, e também soberba de sobra, além de argumentos reais e críticas legítimas. No entanto, em tempos de guerra contra o Império Cristão, os reinos devem suspender seus litígios e afrontar conjuntamente o inimigo comum que dominou a Terra Santa de Nosso Senhor!
Sei que não é fácil. As palavras ferinas já foram proferidas e o tempo da reconciliação não foi aproveitado. Por isso, conclamo para que a espada esteja junto à Cruz, o que luta seja o que reza, o corajoso cavaleiro seja um fiel cristão, submisso ao Pai comum de todos, a seu serviço e em sua defesa. A bravura e a caridade vão juntas. O herói e o penitente se identificam!
Juntemo-nos, irmãos! Lutemos juntos pela nossa Causa que é a do nosso Grande Rei! Deixem os litígios para quando vier o tempo de paz, e o Prelado esperado subir ao Sumo Pontificado, com Santidade e Força suficientes para arrasar os inimigos de dentro e pôr medo nos de fora! Sim, ele virá! Enquanto isso, ele espera de nós esta luta que preparará sua chegada. Com a Cruz, com a Espada e com a Fé, seremos vitoriosos.
Devemos defender aquele altar que fez nascer os mais esplendorosos monumentos da arquitetura e da arte, da verdadeira justiça e da verdadeira Civilização: a Cristandade! Eis a nossa missão: lutar para que se multipliquem as Missas em nossos altares e em terras de missão; lutar para que a vida que brota daquela ara se irradie na sociedade; lutar para defender a vida e as famílias generosas e grandes; a salvaguardar a inocência e a pureza dos infantes; a ajudar a que os sacerdotes voltem a amar e ter fé no dom que só eles receberam; a reverenciar estas madres piedosas e modestas, com seus hábitos compridos e véus longos; tudo isto para salvar da secularização este mundo decaído!
Suplico-Vos, pois, Padre Eterno, que não o sofrais já Vós: atalhai este fogo, Senhor, pois se quereis, podeis; algum meio há de haver, Senhor meu: aplique-o Vossa Majestade. Tende pena de tantas almas que se perdem, e favorecei vossa Igreja. Não permitais ainda mais danos à Cristandade. Senhor, dai já luz a estas trevas. Já, Senhor! Fazei que sossegue este mar; não ande sempre em tanta tempestade esta nave da Igreja. E salvai-nos, Senhor meu, que perecemos.
Eis então a nossa meta: Restaurar todas as coisas em Cristo – por meio de Maria, Rainha de todos os corações -, escutando sempre dos nossos maiores: Introíbo ad altare Dei, ad Deum qui laetificat juventutem meam!
Nuno de Santa Maria