Maximiliano Kolbe, um santo religiosamente incorreto?

De certa forma, todos os santos são politicamente incorretos por natureza. Mas, após o sopro ou “espírito” do Vaticano II, alguns agora são vistos dessa forma mais que outros, até aparecerem como “religiosamente incorretos”! Entre eles, aqueles que hoje estão, por assim dizer, “impedidos” de beatificação, como Pio XII ou Isabel, a Católica. Ou os que, apesar de tudo, foram beatificados ou canonizados, como Charles de Foucauld ou Maximiliano Kolbe, sobre o qual Philippe Maxence acaba de lançar uma biografia extremamente esclarecedora a esse respeito, pela editora Perrin.

Se o bem-aventurado Charles de Foucauld queria converter os muçulmanos com o apoio secular particularmente da colonização francesa, São Maximiliano Kolbe queria converter os francos-maçons com os meios modernos do jornalismo. Dois santos cujo “proselitismo” não está muito em moda! Dois testemunhos (muito?) zelosos por difundir sua fé e que morrerão ambos como “mártires da caridade”.

Mas a investigação sobre a vida e a morte de Charles de Foucauld tem mostrado que ele não foi morto, estritamente falando, por ódio à fé (embora tenha sido morto com violência como vítima de sua caridade para com seus irmãos), convindo, no entanto, os termos de “confessor da fé” para a sua beatificação por Bento XVI (em 13 de novembro de 2005). Enquanto que para Maximiliano Kolbe (condenado igualmente sem ódio ostensivo à fé) João Paulo II logrará (contra o parecer dos membros da comissão de investigação em vista da canonização) que se faça passar de “confessor da fé”, segundo os termos de sua beatificação Paulo VI (em 17 de outubro de 1971), a “mártir”, para sua canonização (em 10 de outubro de 1982, pelo próprio João Paulo II). Segundo André Frossard, autor de N’oubliez pas l’amour. La passion de Maximilien Kolbe (Robert Laffont, 1987): “Não há outro exemplo, no catálogo dos santos, de uma mudança de categoria de uma etapa a outra de uma canonização”.

E é exatamente esta mudança que “perturbou certos membros da Igreja Católica”, observa sobriamente Philippe Maxence. A santidade flagrante do mártir do amor, similar à de Charles de Foucauld ou à dos Monges de Tibhirine, não permitiria dessa forma evitar o problema da diferença, precisamente, que poderia haver entre a confissão a fé dos uns de ontem (Kolbe e Foucauld) e dos outros de hoje (mártires de Tibhirine)?

O objetivo da cavalaria espiritual que o santo franciscano lançará sob o nome de Milícia da Imaculada era inequívoco: “Procurar a conversão dos pecadores, hereges, cismáticos, judeus, etc., e, particularmente, dos francos-maçons; e a santificação de todos sob a direção e por intermediação da Bem Aventurada Virgem Maria Imaculada”.

Para ajudar a alcançá-la, fundará um jornal destinado a difundir seu espírito (com tiragem de um milhão de exemplares em 1938!). Em 1927, constrói um convento perto de Varsóvia, onde viverão quase 800 religiosos, e que abrigará uma casa de edição e uma estação de rádio, ambas dedicadas a promover a veneração da Virgem. Ardentemente missionário, procurará “exportar” esta extraordinária Cidade da Imaculada (Niepokalanow) para outros lugares, indo fundar notadamente no Japão.

Philippe Maxence comenta: “Propaganda. A palavra está livre. Maximiliano Kolbe foi também um propagandista da fé católica, não hesitando em lançar revistas e jornais, construindo mesmo um convento-gráfica a fim de ampliar o seu trabalho de apostolado pela imprensa. Em uma época mergulhada ao mesmo tempo no relativismo, que Pierre Mament chama de ‘um niilismo light’, e no terrorismo sob pretexto religioso, a figura do Padre Maximiliano Kolbe surpreende e incomoda (…). Incomoda pela certeza da veracidade desta fé, de sua preocupação constante de transmiti-la, de convencer, persuadir e salvar o outro. Esta figura possui tudo do cruzado e, no entanto, o Padre Kolbe nunca tocou em uma arma nem jamais cometeu atos de violência numa época que mergulhou com uma espécie de triste deleite na destruição de si”.

Com a proximidade de “Assis III”, esta figura polonesa (dotada ademais de um patriotismo igualmente zeloso) destoa um tanto, como ademais aquela de Charles de Foucauld. O que deu um sentido às suas vidas e às suas mortes é globalmente assumido pela pastoral pós-conciliar do diálogo inter-religioso? Alguns que evidentemente louvam suas mortes heróicas não estariam propensos hoje a julgar paradoxalmente suas vidas ligeiramente “católicas demais”, segundo a sentença nazi que condenou o Bem Aventurado Marcel Callo? O que diz a hermenêutica da continuidade, além da resposta clássica dos paradoxos do cristianismo? Questões que colocam implicitamente a muito densa e contundente biografia de Philippe Maxence, notável por sua explicação conjuntural dos acontecimentos da época e por sua descrição meticulosa do itinerário espiritual do Padre Kolbe.

JEAN COCHET

Artigo extraído do n° 7389, quarta-feira, 13 de julho de 2011, de Présent

Tradução: Fratres in Unum.com

21 Comentários to “Maximiliano Kolbe, um santo religiosamente incorreto?”

  1. Geralmente eles tem duas formas de justificar.
    Primeiro, inventam que as biografias contém muitas fábulas, e que não era bem assim…
    Segundo, dizem eles que os tempos são outros, e a realidade é outra… esquecem que Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre!!!

  2. Achei extremamente gratuita e preconceituosa essa acusação do autor do texto:

    “Alguns que evidentemente louvam suas mortes heróicas não estariam propensos hoje a julgar paradoxalmente suas vidas ligeiramente “católicas demais”, segundo a sentença nazi que condenou o Bem Aventurado Marcel Callo? O que diz a hermenêutica da continuidade, além da resposta clássica dos paradoxos do cristianismo?

    Nunca vi uma crítica ou análise sequer assemelhada a Kolbe…

    • Caro sr. Wagner, talvez o amigo não tenha entendido o que disse o autor. Primeiro, não se trata de uma acusação, mas de um questionamento. Segundo, o autor da resenha levanta uma questão muito pertinente: dos que hoje louvam a morte de S. Maximiliano, quantos não considerariam “católico demais” (expressão retirada da sentença do bem-aventurado Marcel Callo, como ele indica) o seu propósito de converter judeus, maçons, etc? Asseguro que MUITOS. A isso a hermenêutica da continuidade deveria responder: este propósito de S. Maximiliano e de outros santos foi assumido pela pastoral pós-conciliar?

  3. Caro, Wagner,

    A crítica não é a Kolbe, mas sim aqueles que querem imputá-lo o título de mártir para disfarçar sua posição totalmente contrária ao estilo de ecumenismo praticado no pós-concílio.

    RJ Oliveira

  4. Wagner, complementando o que foi dito acima pelo Ferretti e o R. Oliveira, dou um exemplo aqui do RJ. Há anos participei de um encontro de “cultura judaica” oferecido por uma freira responsável pelas vocações. Lá pelas tantas ela se vira e nos diz algo mais ou menos assim: “Antes do concílio nossa congregação rezava pela conversão dos judeus. Depois do Concílio vimos que a coisa não era bem assim. Então, passamos a rezar para que os judeus sejam melhores judeus”.

    Uma congregação mudou o seu moto para se alinhar com a mentalidade do concílio (ou do “espírito do Concílio” como preferem alguns).

    O texto não é uma crítica a São Maximiliano Kolbe, mas um elogio e também um questionamento de sua postura por parte da mentalidade moderna, que considera tabu falar em conversão dos não católicos.

    Se tiver um tempinho, alugue numa locadora o filme “O filho de Marian”. O filme é esteticamente lindo, mas se você reparar bem ele é um produto feito sob medida para atneder a essa agenda politicamente correta do diálogo inter-religioso. Naturalmente vendido pelas livrarias católicas e alugado com gosto pela tal pastoral vocacional.

  5. Quem são os mártires de Tibhirine? Qual a diferença entre eles e São Maximiliano Kolbe?

  6. “Então, passamos a rezar para que os judeus sejam melhores judeus”.

    Bem, se a moda agora é rezar não pela conversão dos gentios mas sua sua solidificação no erro, vejo mesmo que a solução para a crise é mais séria do que se pensava.
    Não rezemos pela conversão dos protestantes; antes, rezemos para que eles sejam “melhores protestantes(sic)”
    Fim do mundo…
    Olegario.

  7. Hermenêutica da continuidade é uma grande piada mesmo !!

    Qualquer um percebe que o CVII rompeu com a tradição, acabou com a apologética , deixou de se importar com a conversão dos judeus e dos protestantes . Vivem nessa ânsia maçônica por fraternidade e igualdade … etc etc .
    Os defensores do concílio admiram a vida de São Maximiliano Kolbe e Charles de Foucauld mas imitá-los seria politicamente e religiosamente incorreto .. e ainda querem qe a gente engula que não romperam com a tradição …acham que somos idiotas , só pode ser isso !!

  8. E falando em livraria católica (como citou a comentarista carioca Teresa), aqui em São Paulo é muito comum encontrar livros do Paulo Coelho alinhados com a biografia de santos.
    Obras de auto ajuda então, é moeda corrente.
    Os campeões de vendas é um tal livrinho do “descontraido” Pe Marcelo Rossi: Ágape, seguido pelos poemas açucarados do lindíssimo e sensual Pe Fábio de Mello em conluio com seu amigo -filósofo-doutor-politico -e chatinho, Chalita.
    Dias desses questionei à menina atendente se ela tinha alguma obra de Tomaz de Aquino…
    Pela “carinha” de curiosa que ela fez, entendi que estava falando grego.
    E isso não é culpa dela; livraria é um comércio como outro; e como tal tem de gerar lucro.
    Por isso, vende-se o que se consome.
    Extendendo mais o assunto, li hoje uma matéria na Folha, que em 1985 a CNBB apoiou incondicionalmente o novelista da Globo Dias Gomes – que era comunista – na elaboração fictícia de um tal “Padre Albano” da Novela Roque Santeiro, personagem que era explicitamente socialista e anti celibatário.
    A CNBB almejou na época o confronto deste “padre vermelho” contra o outro sacerdote interpretado pelo Paulo Gracindo, que usava batina e era – digamos – tradicional.
    A idéia da CNBB era – com os altos índices de IBOPE da novela – atingir o gosto do publico pela TL, massacrando com isso a ideia ultrapassada de uma Igreja conservadora, ali representada pelo ator Paulo Gracindo.
    Pois bem, a novela foi um estrondoso sucesso, terminou a 25 anos e hoje, ao que vemos, a CNBB continua a mesma…

    “Tô certo, ou tô errado?”

    Olegario.

  9. Contestar a canonização não seria heresia?

  10. Já li alguns escritos e biografia de Charles de Folcaud e nunca vi sobre que ele desejava converter os muçulmanos. Ele queria apenas mostrar pela CONVIVÊNCIA com estes o amor de Jesus Cristo oculto como na vida dele em Nazaré. Na verdade deseja fundar uma congregação que só se tornou realidade depois de sua morte. Os irmazinhos de Jesus e estes tem uma visão bem ecumênica no estilo amor ao próximo e ao outro mas sem nenhum tipo de proselitismo. Esclareçam se eu estiver enganada ou se esta foi a constatação que quiseram dar ao Beato Charles com citações do mesmo sobre converter muçulmanos a Cristo.

  11. Paulo Morse,

    Não se trata de contestar a canonização. Como disse o Ferretti, leia o artigo na íntegra.

  12. Caro Ferretti,

    Posso estar, evidentemente, enganado, mas parece-me claro que a pergunta do autor do texto é meramente retórica e o seu juízo está dado.

    Quanto à questão em si, posso dar meu testemunho de que conversões de judeus, protestantes, anglicanos, muçulmanos, ateus, etc ainda são buscados em todo o orbe católico. O fato de haver congregações, teólogos, bispos, sacerdotes, etc que pregam o contrário não implica que a doutrina foi alterada. Aliás, penso que o exemplo do Ordinariato anglicano ou o batizado de conversos muçulmanos, por exemplo, durante as celebrações da Semana Santa no Vaticano deveria ser suficiente para a resposta a esse questionamento.

  13. Francisco, os filhos de Charles de Foucauld e os ecumenistas atuais deturparam totalmente o seu pensamento. Veja, por exemplo:

    « En ce qui concerne l’Algérie, le Père de Foucauld écrivait en 1912 : “Priez pour tous les musulmans de notre empire nord-ouest africain, maintenant si vaste. L’heure présente est grave pour leurs âmes comme pour la France. Depuis 80 ans qu’Alger est à nous, on s’est si peu occupé du salut des musulmans qu’on peut dire qu’on ne s’en est pas occupé. Si les chrétiens de France ne comprennent pas qu’il est de leur devoir d’évangéliser leurs colonies, c’est une faute dont ils rendront compte, et ce sera la cause de la perte d’une foule d’âmes qui auraient pu être sauvées. Si la France n’administre pas mieux les indigènes de sa colonie qu’elle ne l’a fait, elle la perdra, et ce sera un recul de ces peuples vers la barbarie, avec perte d’espoir de christianisation pour longtemps.»

    A FSSPX-França organiza peregrinações ao deserto “nos passos do Padre de Foucauld”: http://www.laportelatine.org/international/activiteint/pelerin/2009/ChdeF0902/ChdeF.php

  14. Francisco, veja mais citações do site da FSSPX-França:

    Le Père de Foucauld écrivait : « Prière et pénitence, plus je vais, plus je vois là le moyen principal d’action sur ces pauvres âmes. Que fais-je au milieu d’elles ? Le plus grand bien que je fais est que ma présence procure celle du Saint Sacrement ».

    Tous les grands évêques missionnaires eurent à coeur de faire venir, dès que c’était possible, des religieuses contemplatives dans leurs terres de mission afin d’attirer les grâces de Dieu sur les âmes et de rendre fécondes les paroles des prédicateurs. Il nous faut également gagner la confiance des musulmans avec lesquels nous pouvons entretenir des relations. Le Père de Foucauld, qui pratiqua cette méthode auprès des Touaregs, nous enseigne : « Il faut nous faire accepter des musulmans, devenir pour eux l’ami sûr, à qui on va quand on est dans le doute et dans la peine ; sur l’affection, la sagesse et la justice duquel on compte absolument. Ce n’est que lorsqu’on est arrivé là qu’on peut arriver à faire du bien à leurs âmes ».

    « Si vous n’en faites pas des chrétiens, dans 50 ans ils vous mettront à la mer ».

  15. Oh não! Eu não sei nadinha de Frances. Apelo pra o Google tradutor? É o jeito claro. Mas obrigado. Tem grande admiração pelo Pe. Charles e admiro a coragem dele de inventar um habito de uma ordem que ele nem consegiuiu fundar.

  16. Uma congregação que tinha por principal escôpo buscar a conversão dos judeus era a dos padres e religiosas de Sion, fundados na segunda metade do século 19 pelos judeus convertidos Theodore Ratisbonne e por seu irmão Afonso Maria Ratisbonne (que foi agraciado com a aparição da Santíssima Virgem).

  17. Em Cidade Ocidenta-GO tem um Santuário dedicado à Nossa Senhora, que é guardado pelos OFM Conventuais (mesma ordem de S. Maximiliano) e a capela é dedicada à São Maximiliano Kolbe.
    É lá que é feita a Revista Cavaleiro da Imaculada.
    Em maio levei Dom Tomás de Aquino e o Irmão Plácido para conhecerem o local, onde tem um museu dedicado à obra do Pe. Maximiliano…
    Adivinhem o que encontramos lá?
    – Um quadro do I Encontro de Assis!!!

    Dom Tomás quase caiu pra trás… E eu todo envergonhado cobri o quadro com tijolos…

  18. Desculpem-me intervir tão brevemente, mas queria apenas citar o caso de um Sacerdote que disse-me claramente apoiar as reformas do livro “Imitação de Cristo” necessárias para a nova dinâmica da Igreja… Pobre Thomás de Kempis, pobre Imitação de Cristo, volume consagrado na vida de muitos santos…

  19. “A missão de Charles de Foucauld foi o inverso do proselitismo. Enquanto este quer conquistar o outro para fazê-lo entrar no mundo do conquistador, Charles, através de sua vida, revela Deus presente e completamente comprometido com os pobres.

    O que representa Charles de Foucauld para a vida missionária? É o homem que antecipou a primavera da Igreja, aquela espiritualidade do caminho que nos possibilita ver, de novo, o futuro da Igreja e de sonhar, de novo, com a presença do Reino no meio de nós.”http://irmaosdenazare.webs.com/quemcharlesdefoucuald.htm

    Gostaria de outros textos do Pe. Charles que mostrassem claramentte que não foi bem isso que ele quis pregar porque se colocar no site de busca só parece referencias ecumênicas como estas.