Roma locuta, causa finita?

A revista Notitiae é uma publicação surgida em 1965 sob a égide do Consilium ad Exsequandam Constitutionem de Sacra Liturgia, comissão de peritos encarregada pela Santa Sé para elaborar as normas de aplicação da Constituição Sacrosanctum Concilium do Concílio Vaticano II. Este órgão foi posteriormente unido à Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, que até hoje mantém a publicação de Notitiae, apresentando nela suas respostas oficiais às dúvidas encaminhadas por católicos do mundo inteiro.

De difícil acesso ao grande público, algumas das edições dessa revista começam a ser digitalizadas e podem ser encontradas em sua versão latina original e em tradução inglesa aqui.

Selecionamos e traduzimos algumas das respostas (os destaques são nossos):

Questionada em 1966 sobre a distribuição de missais aos fiéis, respondeu a Congregação para o Culto Divino:

“Por vezes são difundidas notícias sobre uma iminente reforma do Ordinário da Missa ou uma definitiva restauração de todo o Missal; isso carece seriamente de fundamento. A restauração litúrgica necessita de mais esforços e anos de estudo. Portanto, os pequenos missais, se baseados no critério da reforma moderna e organizados com alguma flexibilidade e variedade, estarão aptos a ser usados por alguns anos”.

Notitiae 2 (1966), 32, p. 97.

Três anos depois, seria imposto o novo missal de Paulo VI.

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Questionada em 1978 sobre sobre a possibilidade de se usar as formas de incensação previstas no missal precedente (São Pio V) em celebrações mais solenes segundo o missal de Paulo VI:

Não se deve nunca esquecer que o Missal do Papa Paulo VI, do ano de 1970, substituiu aquele que é impropriamente chamado “o missal de São Pio V” e ele o fez integralmente, seja quanto aos textos como às rubricas. Onde as rubricas do Missal de Paulo VI nada ou pouco dizem especificamente em alguns lugares, não se deve, portanto, inferir que o antigo rito deva ser seguido. Consequentemente, os muitos e complexos gestos de incensação do antigo Missal (cf. Missale Romanum, T. P. Vaticanis, 1962: Ritus servandus VII et Ordo Incensandi, pp. LXXX-LXXXIII) não devem ser repetidos.

Notitiae 14 (1978), 301–302, n. 2.

De fato, a resposta apenas repetia o “Magistério Vivo” de então:

“É em nome da Tradição que pedimos a todos os filhos, a todas as comunidades católicas, que celebrem, com dignidade e fervor, a Liturgia reformada. A adoção do Novo “Ordo Missæ” não é deixada certamente ao arbítrio dos padres ou fiéis: e a instrução de 14 de junho de 1971 previu a celebração da Missa na antiga forma, com a autorização do ordinário, apenas para padres idosos ou doentes que oferecem o Divino Sacrifício sine populo. O Novo Ordo foi promulgado para substituir o antigo, após madura deliberação, depois das instâncias do Concílio Vaticano II. Não diversamente o nosso santo predecessor Pio V fez obrigatório o Missal reformado sob sua autoridade após o Concílio Tridentino. (Paulo VI, Consistório para nomeação de Vinte Cardeais, 24 de maio de 1976)

Em 2007, Bento XVI afirmará que o missal de São Pio V nunca fora ab-rogado.

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Questionada também em 1978 se a comunhão « self service » estaria permitida:

Absolutamente não. O gesto realizado por Cristo na instituição da Eucaristia é mais conveniente e dignamente expresso quando o pão consagrado é verdadeiramente dado aos fiéis. […] A Santa Igreja preferiu que os ministros extraordinários da Sagrada Comunhão se multiplassem, sejam homens ou mulheres, do que tolerar que o gesto bíblico fosse abandonado.

Notitiae 14 (1978), 301–302, n. 2.

De fato, os ministros (e sobretudo as ministras) se multiplicaram desde então, a ponto de, em 2004, a mesmíssima Congregação para o Culto Divino restringir sua “preferência pela multiplicação”:  “Só aonde a necessidade o requeira, os ministros extraordinários podem ajudar ao sacerdote celebrante, de acordo com as normas do direito” (Redemptionis Sacramentum, 88). Já o “self service” continua se multiplicando, apesar da proibição reafirmada no mesmo documento.

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Analisando as respostas como um todo, e para nos limitarmos apenas ao campo da liturgia, não se pode deixar de notar que a “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”, criticada pelo Papa em seu discurso à Cúria Romana para o Natal de 2005, goza não só “da simpatia dos mass media e também de uma parte da teologia moderna”, como afirmou Bento XVI, mas igualmente da Cúria Romana. Apreço que, embora decadente, sobrevive até hoje graças ao partido “montiniano”, que costuma ser o primeiro a sabotar as medidas do atual pontificado em direção ao seu objetivo de implementar uma “hermêutica da reforma na continuidade”.

7 Comentários to “Roma locuta, causa finita?”

  1. Por que ninguém diz que essa reforma contou com a ajuda de 06 pastores protestantes. Onde há o dedo dos filhos de Lutero, há divisão. A Igreja tá colhendo o que plantou.

  2. “O Novo Ordo foi promulgado para substituir o antigo, após madura deliberação, depois das instâncias do Concílio Vaticano II. Não diversamente o nosso santo predecessor Pio V fez obrigatório o Missal reformado sob sua autoridade após o Concílio Tridentino.”

    O que houve de diverso nisto é que São Pio V proibiu modificações essenciais no Ordo Missae para o futuro. Com astúcia maligna, os arquitetos do CV II conseguiram driblar esta ordem sem juridicamente transgredi-la, CRIANDO um novo rito, e não modificando o rito dâmaso-gregoriano-tridentino. É um tanto equivocado dizer que o Vaticano Segundo “modificou” a Missa: ele criou a “nova missa” sem conexão com a Tradição dos Padres (com o pretexto de que a oração eucarística II remonta a uma antiga Anáfora de Santo Hipólito e blá-blá-blá) paralela ao Rito Romano de sempre. Se nos documentos conciliares não houve exigência para o abandono do legítimo rito romano, na prática este foi perseguido e constrangido, juntamente com os que o celebravam, e o texto da revista confessa o desejo de substituição e abandono do Rito Antigo, que os veneráveis documentos conciliares não disseram com clareza.

  3. Vejam como são unidos e felizes, haja primavera.

  4. Mas Pelogia, e o missale romanum de Paulo VI, que no seu final diz o seguinte:

    “Tudo o que aqui estabelecemos e ordenamos queremos que seja válido e eficaz, agora e no futuro, não obstante a qualquer coisa em contrário nas Constituições e Ordenações Apostólicas dos nossos predecessores, e outros estatutos, embora dignos de menção e derrogação especiais.”

    Essa derrogação se referia a que? Ao rito codificado por são Pio V?

    E quando Bento XVI diz que ambas as formas de celebração são duas formas do mesmo rito, não indicaria isso que as alterações feitas seriam exatamente para substituir a forma antiga?

    Enfim, eu só queria entender essa confusão toda.

  5. ROMA LOCUTA, CAUSA FINITA. ISTO ERA ANTES DO CVII.

  6. Xará Pedro, acho que a confusão é minha… Tentarei me explicar melhor.

    Eu não estou defendendo o Concílio Vaticano II (longe de mim isto): estou dizendo que o Concílio deu o tapa e escondeu a mão, isto é, nada disse oficialmente no sentido de abolir o Rito de Sempre, mas AGIU de todas as maneiras para que isto acontecesse. O Concílio criou uma nova liturgia, antropocêntrica e modernista, não reformou a anterior. Assim, seus mentores se preveniram das acusações de que estariam descumprindo as exigências da “Quo primum tempore” e do Concílio de Trento: “Ora, mas não modificamos a Missa, apenas criamos outra”…

    Em suma: no papel o Concílio quis ficar em dia com a Tradição bimilenar (mas nem tanto), mas a prática foi bem outra – ruptura com a Tradição e pirateamento da Fé.

  7. pirateamento da Fé.
    Essa foi boa!