Gherardini responde a Ocariz. E o debate sobre o Vaticano II prossegue.

Por Disputationes Theologicae | Tradução: Fratres in Unum.com

Disputationes Theologicae solicitou a Monsenhor Brunero Gherardini uma contribuição sobre a noção de Magistério Autêntico e seus eventuais limites. O ilustre professor emérito da Universidade do Papa, decano da faculdade de teologia, que já interveio nestas colunas para qualificar o ensinamento constituído pelo Concílio Vaticano II, traz agora, com maior amplitude, de maneira ágil e profunda, certas precisões, chamando a atenção para distinções freqüentemente omitidas. Tal recordação está em consonância com o que havia sido observado a respeito da liberdade religiosa durante os anos 70 por Sua Excelência Reverendíssima Dom Antonio de Castro Mayer, à época Ordinário de Campos, na conclusão do estudo teológico sobre a liberdade religiosa enviado ao Papa Paulo VI (que não o condenou): há um caso específico no qual um ensinamento não é vinculante em consciência, embora sendo um ato do Magistério Autêntico:  quando há uma dissonância em relação ao que a Igreja já ensinou longamente.

A Redação

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Igreja-Tradição-Magistério

Por Monsenhor Brunero Gherardini

Começou a grande celebração cinqüentenária. Ainda não se ouve os tambores, mas percebe-se no ar. O cinqüentenário do Vaticano II deixará o caminho aberto ao que se poderá inventar de mais grandioso em matéria de juízos elogiosos. Da sobriedade que havia sido pedida como momento de reflexão e de análise para uma avaliação crítica e mais aprofundada do acontecimento conciliar, não se vê sequer a sombra. Já se atua desenfreadamente dizendo e repetindo o que se diz e repete há cinqüenta anos: o Vaticano II é o ponto culminante da Tradição e a sua própria síntese. Congressos internacionais sobre o maior e mais significante dentre todos os Concílios ecumênicos já estão programados; outros, de maior ou menor alcance, sê-lo-ão durante o período, e as publicações sobre o assunto crescem a cada dia. O Osservatore Romano, sem dúvida, faz a sua parte e insiste, sobretudo, na adesão devida ao Magistério (2/12/2011, p. 6): o Vaticano II é um ato do Magistério, logo… A razão aduzida é a de que qualquer ato do Magistério deve ser recebido como proveniente de pastores que, em razão da sucessão apostólica, falam com o carisma de verdade (DV 8), com a autoridade de Cristo (LG 25), à luz do Espírito Santo (ibid.).

Fora o fato de provar o Magistério do Vaticano II pelo Vaticano II, o que outrora se chamava petitio principia [ndr: “petição de princípio”: demonstrar uma tese partindo do princípio de que ela já é válida], parece evidente que tal maneira de proceder parte da premissa de um Magistério considerado absoluto, sujeito independente de tudo e de todos, exceto da sucessão apostólica e da assistência do Espírito Santo. Ora, se a sucessão apostólica é garantida pelo critério da legitimidade da sagrada ordenação, parece, em contrapartida, mais difícil estabelecer um critério que garanta a intervenção do Espírito Santo nos termos evocados.

Uma coisa, entre outras, está fora de discussão: nada no mundo, receptáculo das coisas criadas, tem o dom do absoluto. Tudo está em movimento, num circuito de interdependências recíprocas, e, por conseguinte, tudo é dependente; tudo teve um começo, tudo terá um fim: “Mutantur enim — dizia o grande Agostinho — ergo creata sunt”. A Igreja não é exceção; a sua Tradição e o seu Magistério também não. Certamente são realidades sublimes, situadas no topo da escala de todos os valores que pertencem à ordem criada, dotadas de qualidades que dão vertigens; mas permanecerão sempre “realidades penúltimas”. O eschaton, a realidade final, é Deus e só Ele. Com frequência se recorre a uma linguagem que abala este dado certo, e se atribui a essas sublimes realidades um alcance e um significado para além de seus confins: se lhes absolutiza. A conseqüência é que elas são expropriadas de seu estatuto ôntico, fazendo-se delas um pressuposto irreal, o que lhes faz perder a sublime grandeza de sua “realidade penúltima”.

Imersa no movimento trinitário que está na origem de sua estrutura, a Igreja é e opera no tempo como sacramento de salvação. O teandrismo, que dela faz uma continuação misteriosa de Cristo, não se discute; suas propriedades constitutivas (unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade) também não, nem mesmo sua estrutura e seu serviço; mas tudo isso permanece dentro de uma realidade deste mundo; qualificada para mediar sacramentalmente a presença divina, mas sempre como e enquanto realidade deste mundo, que, por definição,  exclui o absoluto.

De tal modo que Ela se identifica em sua Tradição, da qual extrai a continuidade consigo mesma, à qual deve a sua respiração vital, e pela qual é garantida de que o seu “ontem” se torne sempre o seu “hoje”, para preparar o seu “amanhã”. A Tradição, portanto, dá a ela o movimento interior que a impulsiona em direção ao futuro, salvaguardando o seu presente e o seu passado. Mas nem mesmo a Tradição é um absoluto: ela começou com a Igreja, terminará com ela. Só Deus permanece.

A Igreja exerce um verdadeiro controle sobre a Tradição: um discernimento que distingue o autêntico do não autêntico. Ela o faz com um instrumento, ao qual não falta “o carisma da verdade”, desde que não se deixe levar pela tentação do absoluto. Este instrumento é o Magistério, do qual são titulares o Papa, como sucessor do primeiro Papa (o apóstolo São Pedro) sobre a cátedra romana; e os bispos, como sucessores dos Doze no ministério ou serviço da Igreja, por toda a parte onde são a sua expressão local. Recordar as distinções do Magistério — solene, se for do Concílio Ecumênico ou do Papa, quando um ou outro define verdades de fé ou de moral; ordinário, se do Papa em sua função específica, ou dos bispos como um todo e em comunhão com o Papa — é coisa supérflua; bem mais importante é precisar em quais limites “o carisma da verdade” é garantido ao Magistério.

É necessário dizer, em primeiro lugar, que o Magistério não é uma super-igreja que imporia seus juízos e comportamentos à própria Igreja, nem uma casta privilegiada acima do povo de Deus, uma espécie de poder forte ao qual se deveria obedecer e ponto final. Ele é um serviço, uma diakonìa, mas é também um dever a cumprir, um múnus, o munus docendi, que não pode nem deve se sobrepor à Igreja, da qual nasce e pela qual trabalha. Do ponto de vista subjetivo, coincide com a Igreja docente (o Papa e os bispos a ele unidos), em vista da proposição oficial da Fé. Do ponto de vista operativo, é o instrumento pelo qual esta função é realizada.

No entanto, muito freqüentemente se faz do instrumento um valor em si, independente, e se recorre a ele para cortar toda discussão desde sua origem, como se ele estivesse acima da Igreja e como se  não houvesse diante de si o peso enorme da Tradição a acolher, interpretar e retransmitir em sua integridade e fidelidade. É precisamente aí que aparecem com evidência os limites que o salvaguardam da elefantíase e da tentação absolutista.

Não é o caso de nos determos sobre o primeiro desses limites, a sucessão apostólica. Não deveria ser difícil a ninguém demonstrar, caso a caso, a legitimidade e, portanto, a sucessão na posse do carisma próprio dos Apóstolos que dela decorre. É necessário, ao invés, dizer algumas palavras sobre o segundo, ou seja, sobre a assistência do Espírito Santo. O método apressado hoje estabelecido é mais ou menos o seguinte: Cristo prometeu aos Apóstolos, e, conseqüentemente, aos seus sucessores, ou seja, à Igreja docente, o envio do Espírito Santo e a sua assistência para um exercício do munus docendi na verdade; o erro, assim, estaria prevenido desde o início. Certamente, Cristo fez tal promessa, mas também indicou as condições de seu cumprimento. Ora, o que se passa é que nesta maneira de reivindicar a promessa se entrevê uma grave adulteração desta: ou não se cita as palavras de Cristo, ou, se são citadas, não se lhes dá o significado que têm. Vejamos do que se trata.

A promessa é relatada principalmente em dois textos do quarto evangelista: Jo 14, 16.26 e 16,13-14. Já no primeiro, um dos limites que mencionamos ressoa com extrema clareza: Jesus, com efeito, não pára na promessa “do Espírito da verdade” – destacado em itálico por causa do artigo “especificativo” thV, que se continua, de qualquer forma, a traduzir “de”, como se a verdade fosse um atributo opcional do Espírito Santo, quando é Ele quem a personifica –, mas anuncia sua função: recordar tudo que Ele, Jesus, havia antes ensinado. Trata-se, portanto, de uma assistência conservadora da verdade revelada, e não de uma integração nela de verdades outras ou diferentes das que foram reveladas, nem de verdades presumidas tais.

O segundo dos dois textos de São João, confirmando o primeiro, desce a precisões ulteriores: o Espírito Santo, com efeito, “ensinar-vos-á toda a verdade”; mesmo as verdades das quais Jesus não fala naquele momento, porque estavam acima da capacidade dos seus (16,12). Ao fazê-lo, o Espírito “não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir […] receberá do que é meu, e vo-lo anunciará”. Não haverá, portanto, outras revelações. A única Revelação se encerra com aqueles aos quais Jesus falava naquele momento. As suas palavras se apresentam com um significado unívoco, relativo ao ensinamento fixado por Ele, e apenas este ensinamento. Linguagem esta que não é codificada nem cifrada, mas límpida como o sol. Poder-se-ia levantar uma objeção sobre a perspectiva da aparente novidade em relação ao que Jesus não fala no momento e que será anunciado pelo Espírito Santo, mas a delimitação de sua assistência a uma ação de guia em direção à posse de toda a verdade revelada por Cristo exclui toda novidade substancial. Emergindo novidades, tratar-se-ão de significações novas e não verdades novas; de onde o justíssimo “eodem sensu eademque sententia” de S. Vincent de Lérins. Em suma, a pretensão de forçar à assistência do Espírito Santo não importa que farfalho, quero dizer, não importante que novidade, e especialmente as que querem redimensionar a Igreja às medidas da cultura dominante e da suposta dignidade da pessoa humana, não somente é um distúrbio estrutural da própria Igreja, mas é também uma formidável rejeição dos textos acima indicados.

E isso não é tudo. O limite da intervenção magisterial está também na sua própria formulação técnica. Para que ela seja realmente magisterial, em sentido definitório ou não, é necessário que a intervenção recorra a um conjunto de fórmulas já consagrado, do qual emerge, sem nenhuma incerteza, a vontade de falar como “Pastor e Doutor de todos os cristãos em matéria de Fé e Moral, em virtude de sua Autoridade Apostólica”, se aquele que fala é o Papa; ou que emerge com similar certeza, por parte do Concílio Ecumênico, por exemplo, através das fórmulas habituais da asserção dogmática, a vontade dos Padres Conciliares de ligar a Fé cristã com a Revelação divina e a sua transmissão ininterrupta. Na ausência de tais premissas, somente se poderá falar de Magistério em sentido lato: nem toda palavra do Papa, escrita ou pronunciada, é necessariamente Magistério; diga-se o mesmo dos Concílios Ecumênicos, dentre os quais um bom número não falou de dogma, ou não falaram dele exclusivamente; por vezes, alguns até enxertaram o dogma num contexto de diatribes internas e de litígios pessoais ou partidários, e uma pretensão magisterial dentro de tal contexto seria absurda. Ainda, um Concílio de indiscutível importância dogmático-cristológica como foi de Calcedônia, que dispensou a maior parte de seu tempo numa vergonhosa luta de personalismos, de precedências, de deposições e de reabilitações, suscita uma impressão claramente negativa; não é nisso que Calcedônia é um dogma. Assim como não o é a palavra do Papa quando declara de maneira privada que “Paulo não entendia a Igreja como instituição, como organização, mas como organismo vivo, no qual todos operam um para o outro e um com o outro, estando todos unidos a partir de Cristo”; é exatamente o contrário que é verdadeiro, e sabe-se que a primeira forma institucional, exatamente para favorecer o organismo vivo, foi estruturada por Paulo de maneira piramidal; o apóstolo no topo, e depois os episcopoi-presbuteroi, os hgoumenoi, os proistamenoi, os nouqetounteV, os diakonoi: trata-se de distinções de encargos e de ofícios ainda não exatamente definidos, mas são já as distinções de um organismo institucionalizado. Mesmo neste caso, que isso fique bem claro, a atitude do cristão é de respeito e, ao menos em linha de princípio, de adesão. Mas se a consciência de um crente não puder dar sua adesão à afirmação exposta acima, isso não comporta uma rebelião contra o Papa ou uma negação de seu Magistério: significa apenas que esta afirmação não é do Magistério.

Por fim, retornemos agora ao Vaticano II para nos pronunciarmos, se possível de modo definitivo, sobre a sua pertença ou não à Tradição e sobre a sua qualidade magisterial. Sobre esta última, não cabe nenhum questionamento, e esses laudatores que não se cansam nunca, há cinqüenta anos, de sustentar a identidade magisterial do Vaticano II, perdem seu tempo e fazem com que os outros percam o deles: ninguém o nega. Contudo, observadas as suas exuberâncias acríticas, um problema se impõe quanto à qualidade: de que Magistério se trata? O artigo de “L’Osservatore Romano” que citei acima, fala de Magistério doutrinal: e quem alguma vez o negou? Mesmo uma afirmação meramente pastoral pode ser doutrinal, no sentido em que pertence a uma dada doutrina. Mas se enganaria quem dissesse doutrinal no sentido de dogmático: nenhum dogma é creditado ao Vaticano II que, se tem um valor dogmático, apenas o tem por modo de reflexo, onde ele se refere a dogmas previamente definidos. Resumidamente, o magistério do Vaticano II, como se diz e rediz a todos os que têm ouvidos para ouvir, é um Magistério solene e supremo. Mais problemática é a sua continuidade com a Tradição: não porque não a tenha afirmado; mas porque, sobretudo, nos pontos chaves onde era necessário que tal continuidade fosse evidente, esta afirmação permaneceu sem demonstração.

9 Responses to “Gherardini responde a Ocariz. E o debate sobre o Vaticano II prossegue.”

  1. Nossa, queria muito ler logo o livro do Monsenhor!!

  2. Ferretti, qual foi o papa que disse que “Paulo não entendia a Igreja como instituição, como organização, mas como organismo vivo, no qual todos operam um para o outro e um com o outro, estando todos unidos a partir de Cristo”? Foi Bento XVI?

  3. É debate pra lá… é debate pra cá sobre o CVII….. enquanto isso….a IGREJA VAI DESCENDO LADEIRA ABAIXO.

  4. Parece me que o texto do Vigário geral do Opus Dei (ao qual Mons. Gherardini responde muito bem), se baseia (ou torna público) no próprio “preâmbulo” doutrinal, entregue a FSSPX, vejam:

    “Este preâmbulo enuncia alguns dos princípios doutrinais e os critérios de interpretação da doutrina católica necessários para garantir a fidelidade ao Magistério da Igreja e o sentire cum Ecclesia, deixando, ao mesmo tempo, abertos a uma legítima discussão o estudo e a explicação teológica de expressões ou de formulações específicas presentes nos textos do Concílio Vaticano II e do Magistério que o seguiu.” Comunicado do Vaticano

  5. Estou curioso para ler o livro de Monsenhor Gherardini.

  6. Prezado Osiris,

    De fato, a Igreja está ladeira abaixo, como você mesmo disse.
    Mas, não nos esqueçamos de que a vitória da Igreja é certa.
    Não militamos num partido político, num time de futebol, ou em outra associação qualquer.
    Militamos nas fileiras, cada um na sua condição (leigo ou clero), da Igreja que o próprio Deus fundou.
    E é garantia de Nossa Senhora: “Por fim, Meu Imaculado Coração triunfará”.
    A Vitória de Nossa Senhora é a Vitória de Cristo, Verbo Encarnado; é a Vitória de Sua Santa Igreja, formada por homens pecadores, mas Santa por ter Cristo como cabeça e fundamento maior.

  7. Os teólogos da modernidade tanto invocam o “Magistério Vivo”, e pretendem que ele seja um “Magistério Mutante” como os chimpanzés de Darwin. E invocam tanto o tal do “Magistério Vivo” (ou seja, o pós-conciliar), que chegam a personificá-lo, submetendo a Igreja e seus 2000 anos de tradição a essa personificação. Oportuníssimas as palavras do Monsenhor, dizendo que todo o Magistério deve estar a serviço da Igreja e não o contrário. Coisa semelhante ao que fazem os protestantes com relação à Bíblia, prestando um culto de adoração ao livro em si.

    É interessante como Monsenhor Gherardini não se deixou convencer ao longo destas cinco décadas, jovem que era na época do Concílio. Mesmo o então padre Ratzinger estava empolgado com o “vento novo e fresco que vinha do mundo”. Deus o preserve assim!

    Por falar em debates, no último domingo dom Charles Morerod foi ordenado Bispo de Lausanne e Genebra.

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