Padre Schmidberger: “Damos nossa relativa liberdade e a colocamos nas mãos do Papa”.

Apresentamos nossa tradução de uma entrevista concedida pelo Padre Franz Schmidberger, primeiro superior geral (1982 a 1994) e atual superior do distrito da Alemanha da Fraternidade São Pio X, publicada pelo jornal alemão Die Welt. 

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Padre Franz SchmidbergerEm Roma, há cada vez mais sinais de que uma reconciliação completa com a Fraternidade São Pio X pode finalmente ocorrer, e que esta deveria ter imediatamente a sua Prelazia Pessoal, status não diferente do que tem a Opus Dei. Dizem também, contudo, que as conversações entre o Vaticano e a Fraternidade fracassaram. O senhor poderia esclarecer esses rumores?

Em 14 de setembro de 2011, o Cardeal Levada apresentou a Dom Fellay, nosso superior geral, um “preâmbulo doutrinal”, cuja aceitação é a condição para um reconhecimento canônico da Fraternidade São Pio X. Fizemos amplas consultas sobre o texto e chegamos à conclusão de que não era aceitável. Finalmente, eu mesmo, no dia 1º de dezembro, levei a Roma a resposta do Superior Geral e, a pedido de Roma, entreguei um esclarecimento a tal resposta. Agora, esperamos com grande ansiedade a resposta da Congregação para a Doutrina da Fé.

O Papa disse que não teria aprovado o levantamento das excomunhões de seus bispos se tivesse conhecimento das declarações de Dom Williamson. O que acontecerá com Dom Williamson depois da reconciliação?

Não sou um profeta, mas creio que durante as discussões sobre uma estrutura canônica para a Fraternidade, que certamente não se darão em uma só sessão, os participantes poderão falar de Dom Williamson. Certamente, pode-se esperar que ele obedeça as instruções do Superior Geral.

Diz-se do Arcebispo Lefebvre, fundador da Fraternidade, que “aderiu à Roma eterna de todo o coração”. Os senhores não deveriam estar já reconciliados com este Papa que tanto estende sua mão?

As coisas não são tão fáceis. Durante a visita do Cardeal Gagnon, em 1987, Dom Lefebvre escreveu ao Cardeal uma carta já propondo uma estrutura canônica para a Fraternidade. Ao mesmo tempo, ele deixou muito claro que o ecumenismo atual, surgido sob o símbolo do relativismo religioso, a liberdade religiosa, cujo fruto é a laicidade de hoje, e a colegialidade, que paralisa completamente a vida da Igreja, são inaceitáveis para nós. Lamentavelmente, ainda hoje há diferenças com o Papa reinante quando se trata disso.

Quais são os argumentos razoáveis que a Fraternidade ainda tem contra a liberdade religiosa, cuja realização é fundamental para a paz no mundo atual?

A liberdade religiosa não é, em primeiro lugar, uma questão de prática, mas de doutrina. A condenação da liberdade religiosa pelos Papa não implica a vontade de obrigar os outros a aceitar a religião católica, mas que um Estado, no qual a maioria da população é católica, deveria reconhecer que a religião católica é a religião revelada por Deus. Ao mesmo tempo, pode tranquilamente tolerar as outras religiões e confissões, e inclusive estabelecer a tolerância na lei civil.

Obviamente, em tempos pluralistas como o atual, tal tolerância deveria encontrar uma aplicação ampla. Por outro lado, o erro não é um direito (natural). Quando se trata, no entanto, de uma pessoa que é capaz de conhecer a Deus com a luz da razão e de conhecer a verdadeira religião, então isso vale também para os estadistas, e é exatamente isso que os Papas, até Pio XII, mantiveram condenando a liberdade religiosa. Todo o demais é, em última instância, agnosticismo.

Os últimos Papas se empenharam todos no ecumenismo, mesmo para uma consolidação das confissões, segundo a palavra de Cristo, que diz: “que todos sejam um”, como rezou Jesus (Jo 17,32). O que o senhor argumentaria contra isso?

Todos os domingos os fiéis cantam: “Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica”. A oração de Cristo não se refere tanto ao fato de que eles antes devam se tornar um; de fato, no curso da história, os grupos se separaram da Igreja e várias vezes, por exemplo, os gregos no século XI e Lutero com seus seguidores no século XVI. Para todo cristão sincero, isso é uma dor e rezamos todos os dias para o retorno daqueles que se separaram da Igreja, da casa paterna.

Até hoje, toda seita declara presunçosamente estar correta, demonstrando-o à maioria com uma boa dose de arrogância. Dom Lefebvre era diferente. Ele sofreu muito pela divisão e pelo estado de emergência da situação indefinido da Fraternidade. Desde então, ocorreu que a Fraternidade se acostumou com o estado de emergência ou existe a consciência de uma seperação permanente ainda vista como um perigo?

Um caso de emergência é um caso de emergência, é anormal e aspira pela normalização. Como posso chegar a um acordo com os encontros de Assis que implicitamente (não explicitamente) afirmam que todas as religiões são caminhos de salvação? A nós, certamente, dói a situação atual, mas sofremos infinitamente mais por este indiferentismo religioso que leva um número incalculável de almas à perdição.

O Papa colocou em jogo a sua reputação (e a unidade de toda a Igreja), há três anos, para a reconciliação com a Fraternidade. O que a Fraternidade oferece pela reconciliação com a Igreja?

Uma vez reconhecida canonicamente, a Fraternidade trará um grande potencial religioso e uma grande força religiosa para o interior da Igreja. Vejo poucas comunidades eclesiais que tenham feito sua a causa da plena unidade entre a teologia dogmática, a espiritualidade e a liturgia, e que vivem disso. Trazemos um grande tesouro porque, desde o início, temos celebrado unicamente a magnífica liturgia antiga com seu carisma de fé e santidade.

Além disso, a Fraternidade será um grande apoio ao Papa para vencer o cisma latente que está presente em várias partes da Europa devido a forças centrífugas, por exemplo, na Áustria. Recentemente, um arcebispo na Alemanha me disse que também por aqui se espera a separação de grandes comunidades.

No entanto, não era essa a minha pergunta. Recordei o que o Papa arriscou para a reconciliação e pergunto novamente o que os senhores estariam dispostos a sacrificar.

Damos nossa relativa liberdade, que usamos até agora para a expansão mundial de nosso trabalho, e a colocamos nas mãos do Papa. De resto, não se trata de um acordo diplomático, mas do bem-estar da Igreja e da salvação das almas. O problema da Igreja não é a Fraternidade, mas os teólogos modernistas e o colapso progressivo que se deu na vida da Igreja depois do Concílio.

Agora, também os anglicanos encontram um lar na Igreja Católica. E o que lhes impediu de se sentir em casa na Igreja nas últimas décadas?

Na realidade, as mesmas tendências que fizeram os anglicanos fugir da Igreja Católica estão presentes desde quando o Concílio Vaticano II se desenvolveu dentro da Igreja Católcia e levou a uma devastadora perda de fé, a uma queda da moral e ao caos na liturgia. Quando se pensa só por um segundo nas missas-carnaval, que entram nas igrejas por todas as partes nestes dias. Veja, tenho aqui o discurso do Papa aos representantes do Comitê central dos católicos alemãos, de 24 de setembro de 2011. Neste discurso se diz: “a verdadeira crise da Igreja no mundo ocidental é uma crise de fé. Se não encontramos um modo de renovar realmente nossa fé, todas as reformas estruturais seguirão sendo ineficazes”. Através do Concílio não foi o espírito da Igreja quem entrou no mundo, mas pelo contrário: o espírito do mundo invadiu a Igreja.

Não digo nada novo quando indico a pequena parte no centro (ou à margem) da Fraternidade que não participará em uma reconciliação com o Papa. Estão preparados a fazer a reconciliação fracassar por esta parte, ou dispostos a se separarem dela?

Se as autoridades romanas exigirem nada da Fraternidade, para o reconhecimento canônico, que seja contrário ao ensinamento tradicional e à praxe da Igreja, então não haverá grandes dificuldades a respeito de uma regularização. No entanto, se Roma nos pedisse para aceitar incondicionalmente todo o Vaticano II, não vejo possibilidade de reconciliação.

Sobre a hipótese de reconciliação: como os senhores se distinguirão dos outros grupos que também estão comprometidos na Tradição? Depois de uma reconciliação bem-sucedida, restarão coisas que outros não têm?

Nosso carisma especial é a formação e o cuidado dos sacerdotes. Além disso, nós na Fraternidade nos especializamos na pregação dos Exercícios Espirituais, na administração das escolas, e também simplesmente no cuidado das paróquias, que hoje estão em um estado lamentável. Basta pensar no sacramento da Penitência que, por exemplo, aqui em Stuttgart, já não é administrado nas paróquias, com poucas e heróicas exceções. Com isso, a consciência do pecado e a necessidade de salvação estão desaparecendo, assim como a oração, a recepção dos sacramentos e o espírito de sacrifício.

Há vozes que falam que o trabalho do Papa por esta reconciliação não é senão um experimento para o ecumenismo como um todo. O senhor compartilha esta idéia, ou não teme?

Se o que vejo está correto, então isso pode se aplicar somente aos ortodoxos, mas não a todos os diferentes grupos de protestantes. Pois, no que diz respeito aos primeiros, o problema é sobre o reconhecimento do primado e a jurisdição do Papa, enquanto aos últimos existe, ademais, um desvio substancial do depósito da fé católica, assim como do ensinamento e da prática dos sacramentos. Nós não incorremos em nenhuma falta sobre estas duas modalidades, se bem que, baseados em argumentos de fé, tivemos de resistir a certas diretrizes – como a aceitação da nova liturgia.

Nenhum Papa foi tão amável com os senhores como Bento XVI. Em breve ele terá 85 anos. Não temem, às vezes, que o tempo possa se voltar contra os senhores?

É verdade que o Papa reinante nos mostra seu favor, e espero que encontremos uma solução durante o seu pontificado. Por outro lado, a situação da Igreja está assumindo formas cada vez mais dramáticas todos os dias, o Papa fala da perda de fé nas regiões de grandes dimensões. Isso não teria relação com algumas declarações do Concílio e com as reformas pós-conciliares? Em alguns prelados, parece despontar uma luz, e quanto mais tempo durar a crise, mais intensa será esta luz. E neste sentido, o tempo joga a nosso favor.

O que nos dá mais esperança de que o perigo de um novo cisma entre Roma e a Fraternidade possa ser abolido já na Páscoa?

A Fraternidade viu muitas crises e saiu de todas mais forte do que debilitada. Além disso, ela foi, juntamente com todos os seus membros e casas, consagrada e entregue à Mãe de Deus em 8 de dezembro de 1984. Me parece difícil acreditar que Deus permitiria que uma obra de sua Mãe fracassasse.

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