A carta do Papa a Fellay.

Vale recordar que o Fratres in Unum adiantou, por duas vezes, a informação de que a exigência acerca do Concílio Vaticano II era proveniente do próprio Papa: em maio, com a revelação, pelo “Vatileaks”, de uma ressalva do próprio punho do Pontífice ao comunicado, de 2009, da Secretaria de Estado; e na semana passada, com a entrevista do Padre Franz Schmidberger, na qual o superior alemão manifestava a existência da carta à qual se refere o artigo abaixo.

Por Andrea Tornielli | Tradução: Fratres in Unum.com

No último dia 30 de junho, Bento XVI enviou uma carta (escrita em francês) ao Superior Geral da Fraternidade São Pio X, o bispo Bernard Fellay. Este é o artigo que escrevi para o Vatican Insider. Quem revelou a existência da missiva – uma correspondência que deveria permanecer privada — foi um outro bispo lefebvrista, Bernard Tissier de Mallerais, durante uma conferência realizada em 16 de setembro, na França.

Após o encontro de 12 de junho entre Fellay e o Cardeal William Levada, no Palácio do Santo Ofício, quando foi entregue ao superior da Fraternidade São Pio X a última versão do preâmbulo doutrinal, acompanhado de uma proposta de solução canônica (uma prelazia pessoal), o chefe dos lefebvristas decidiu escrever diretamente ao Papa. E lhe pediu um encontro para explicar as dificuldades ainda existentes em relação ao texto do preâmbulo.

Bento XVI, que havia sido informado detalhadamente sobre as conversações doutrinais que duraram dois anos, bem como sobre os vários rascunhos do preâmbulo doutrinal e as discussões que ocorreram dentro da Congregação para a Doutrina da Fé, preferiu responder por escrito, com a carta de 30 de junho, na qual não faz menção ao pedido de um encontro expresso por Fellay. Ratzinger se limitou a exortar os lefebvristas a assinar o preâmbulo, explicando, como revelou Tissier de Mallerais, que “para ser reintegrados na Igreja, é necessário realmente aceitar o Concílio Vaticano II e o magistério pós-conciliar”.

As palavras usadas por Tissier de Mallerais, contrárias ao acordo e muito duras para com o Concílio, bem como para a Missa segundo o rito proveniente da reforma litúrgica pós-conciliar, expressam, mais uma vez, a divisão que existe dentro da Fraternidade. Em todo caso, não é dito, de modo algum, que a partida esteja definitivamente encerrada. A nova liderança da Congregação para a Doutrina da Fé e da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei acaba de se instalar: será necessário ver como procurarão chegar à conclusão do  processo que foi iniciado. Certamente, o caminho parece penoso.

33 Comentários to “A carta do Papa a Fellay.”

  1. Eu não estou surpreso: sempre soube que Bento XVI segue a linha da hermenêutica da reforma na continuidade e acredita piamente que isso é o suficiente para esclarecer e resolver todas as dificuldades que surgiram no pós-concílio.

    Todavia, eu tinha e ainda tenho esperança de que aceitar o Concílio Vaticano II signifique declarar que ele não é dogmático, que seus documentos não possuem o mesmo grau de assentimento, que suas inovações doutrinárias podem ser criticadas e confrontadas com o Magistério pré-conciliar e que embora o Novus Ordo Missae seja legítimo – devidamente aprovado pelas leis eclesiásticas -, ele não é imune a críticas e que um sacerdote pode celebrar exclusivamente a forma extraordinária do rito romano.

    Maria Imaculada, Medianeira de todas as graças, rogai por nós.

  2. Eu penso na mesma linha do Thiago. Acho que nem tudo está perdido. Falta esclarecer o que significa ‘aceitar’ nesse contexto. Ou seja, se aceitar significa apenas reconhecer que foi mais um na linha dos concilios da Igreja, que ele não é dogmático e que sua promulgação foi feita nos conformes jurídicos ou se significa que cada um dos parágrafos dos documentos concilares devem ser tidos como verdades de fé porque são bons para as almas.

    Enquanto esse termo não for esclarecido não poderemos nos posicionar.

  3. Seguir a hermenêutica da reforma na continuidade é não admitir que ERROU. É sofisma.

  4. Interessante a data: 30 de junho. Antes do Capítulo, portanto… E havia gente negando de pé juntos nesta época!!! Como o mundo dá voltas… E o que isso muda? “Essencialmente”, nada. Ainda bem que lá em cima estão olhando “quem diz o que” e “quem faz o que”. E é isso que importa. O resto, nem é perfumaria, é do demônio mesmo.

  5. Caro Osires, afirmar que o Concílio ERROU (para repetir as maiúsculas que você usa) é mais complicado. Errou em que e onde? O Concílio como um todo não pode errar, poríamos em dúvida a assistência do Espírito Santo à assembleia conciliar. Não se trata só de um problema de infalibilidade (até porque o Concílio não definiu dogma), mas de assistência ao Magistério ordinário e autêntico. Que tenha usado uma linguagem ambígua, que deu margem a abusos, é outra questão: está aí o Magistério autêntico para dar o seu real sentido. Erraram os que procuraram fundamentar no Concílio ideias alheias ao Depósito da fé (numa espécie de livre exame dos seus textos). Procure ler o livro do Mons. Brunero Gherardini (Concílio Vaticano II: um debate a ser feito). A hermenêutica da continuidade, como propõe o Papa, é o melhor meio de demonstrar que o Concílio pode (e deve) ser lido na linha dos anteriores para ter o seu verdadeiro valor explicitado na história da Igreja, sem riscos de ter de se admitir que foi alguma coisa esdrúxula, aberrante, que entraria em contradição com a divina assistência assegurada por Nosso Senhor e que serviria de combustível para os que, por outro lado, querem ver nele um superdogma que anularia tudo o que veio antes (apesar das várias manifestações do próprio texto do Concílio, em sentido contrário).

  6. Prezada Renata

    Citarei apenas 3 (três) – colegialidade, ecumenismo e liberdadade religiosa. Mas concordo com vc que linguagem é ambígua e que deram margem a abusos, heresias e sacrílegios etc.. etc.. etc.

  7. Seguindo a hermenêutica da continuidade em união com uma bela de uma reforma da reforma, se tem um Concílio Vaticano II de perfeição quase-inegável (dando aquela volta bem longa nas ‘liberdades’); mas para isso, é necessário admitir que ele foi mal expressado e mal entendido em sua proposta. Se ele foi dogmático ou pastoral não interessa, ele já aconteceu, o que interessa agora, é a reparação do mal que ele causou devido às más interpretações… Se a Fraternidade quer corrigir algo, ela certamente não poderá começar errando; mas sim, aceitando o ‘estorvo’ que é a ‘bendita primavera’, e procurando superá-los.

    Eu realmente acredito que esse lenga-lenga de Vaticano II vai durar ainda mais uns 50 anos, até que a era tridentina se encaixe de forma correta na contemporaneidade, e não no modernismo, até lá, sejamos pacientes.

  8. Basta entender o que o Papa disse: “para ser reintegrados na Igreja, é necesário realmente aceitar o Concílio Vaticano II e o magistério pós-conciliar”. Isso deve bastar para um católico coerente.

    Aproveito para recomendar os claros artigos de Pe. José Maria Iraburu sobre essa polêmica: http://www.apologeticacatolica.org/Descargas/filolefebvrianos.pdf.

  9. O Concílio Vaticano II foi pastoral em sua essência, mas dogmático nos aspectos relacionados a Fé e a Moral. O Vaticano II não possui nenhuma inovação doutrinária, mas contém inovações Pastorais. Colegialidade, ecumenismo, nova liturgia, liberdade religiosa são inovações pastorais que integram o magistério eclesiástico e devem ser aceitas obrigatoriamente por todos os fiéis e clérigos que desejam estar em comunhão com o Papa e com a Igreja. Lembrando que o magistério ordinário da Igreja (da qual o ministério pós-conciliar é parte integrante), nunca foi fixo e estático em relação as questões pastorais, pois é vivo e depende diretamente do Papa que conta com a assistência direta do espírito santo que sopra onde quer e como quer. Basta uma simples pesquisa no magistério pré conciliar para se constatar que o mesmo também era mutável em relação as questões pastorais. Assim sendo, embora diversos entre sí devido as questões relacionadas aos tempos histórico, lugares e circunstâncias, o ministério pós conciliar e o magistério pré-conciliar não possuem nenhuma divergência nos aspectos relacionados as questões da Fé e da Moral, questões imutáveis e invariáveis que não dependem dos tempos históricos, locais e circunstânciás.

  10. “colegialidade, ecumenismo e liberdadade religiosa…”

    [Intrometendo]

    Eu não compreendo muito bem sobre colegialidade, então, Osires, nada posso argumentar. Mas enquanto ao ecumenismo e liberdade religiosa, podem simplesmente serem aceitos desde que se leve em conta que fora da Igreja não há salvação. Há pessoas que não querem salvação, e nós não podemos obriga-las a aderir a Verdade. É ecumênico juntarmos com judeus, muçulmanos e pagãos para lutarmos pelo bem comum, como o direito à vida e a família. Isso não é errado e nem fere a Sã Doutrina, o que é errado é acharmos que todas as religiões são boas, e que todas elas levam a Deus. Isso é bem explicado no evangelho, “quem é por nós, não está contra nós”, defender a moral cristã, independentemente de quem, é lícito e plausível, ao contrário de querer inserir na Igreja elementos que ferem a Verdade, o que é heresia e apostasia.

    Eu vejo assim. No mais, temos o livre arbítrio, e devemos respeitar (infelizmente). Não podemos sair por aí querendo estrangular um só porque é herege, a Verdade está com a Santa Igreja, e não vai mudar por causa de ninguém; compete-nos apenas o reforço na evangelização a fim de salvar as almas que queiram salvação…

    O que há é uma visão de liberdade religiosa e ecumenismo errônea, que tende à maçonaria e ao teísmo. Não minto, porém, que essas ‘coisinhas’ do Vaticano II causaram danos trágicos, mas, infelizmente, elas JÁ causaram, cabe a nós apenas tentarmos reparar com a tal da hermenêutica da continuidade, e de preferência, em outro concílio (já que o clero gosta de supervaloriza-los).

    Esperar que o Concílio seja ‘excomungado’ é pura alienação; caiamos na real.

  11. Errata: JÁ causaram e “ainda causam”.

  12. F. L Alencar,

    Comecei a ler o texto que o senhor indicou mas depois desta frase, achei dificil continuar dando crédito:

    “-Y han sido siempre los Papas del postconcilio los testigos más firmes de la verdad católica, y quienes han combatido con más fuerza los errores y males de la Iglesia presente.”

    Onde esta a coerência desta afirmação com o que ocorre desde o Concilio? Ora, Por favor…

    É um posicionamento claramente “Ecclesiadeista” e para que eu acredito nele eu teria que fatalmente deixar de acreditar nas aparições de Fátima, sem escolha, ou se acredita em Fátima ou nessa linha de abafamento da crise.

    Em Fátima parece estar a chave do problema e ela é constantemente ignorada.

    Vladimir Sesar

  13. Que Nossa Senhora dê a coragem necessária a S.S. Papa Bento XVI para excomungar esse concílio que só males trouxe a Igreja.

  14. Pois é, todos devem ceder, não é crível esperar que Roma aceite quem diga que o Concílio errou, isso não vai acontecer. Todos sabem o que aconteceu, mas não podem dizer, ponto, já aconteceu e convivamos com isso. O Papa tem sido um mestre em equilibrar as coisas no Vaticano. Ele não pode simplesmente rasgar tudo e dizer que foi um erro. Para mim, o melhor caminho é aquele da conversão, assim como fez a Fraternidade Sacerdotal São Pedro, hoje eles têm seminários e paróquias pessoais pelo mundo inteiro (Brasil não) onde seguem o Rito Tridentino e estão em perfeita comunhão com Roma. Eles têm o mesmo pensamento da FSSPX, mas optaram por aceitar algumas condições e trabalhar quietos pela conversão. Basta fazer CATEQUESE, ensinar, evangelizar, tirar os preconceitos das pessoas… Em resumo, quando o Vaticano ver que as pessoas preferem a Missa de sempre, que ela está cada vez mais ganhando espaço no coração das pessoas e que quem é formado com a catequese e os sacramentos conforme o rito antigo são católicos melhores, tudo mudará. Tenhamos paciência, mas o trabalho é grande e depende também de nós.

  15. Nossa posição, de católicos fiéis a doutrina de sempre. Não podemos vacilar; nesta ou em outra posição.
    Precisamos estar sempre atento, naquilo que sempre foi dito pela Santa Igreja. Quando algo surge, diferente daquilo que foi sempre ensinado. Não podemos aceitar como verdadeiro.
    Olha só! O Concílio Vaticano II. Disse algo, em contradição com os demais Concílios dogmático. Logo não podemos aceitar como um “farol” para a nossa fé. Temos que ter reserva sobre o mesmo.
    Já foram escritos diversos livros sobre ele. Mostrando os erros infiltrados no seu conteúdo original. Quem quizer verificar, poder ler com reta intenção as obras de autores de base, para comprovar a veracidade dos seus argumentos.
    Nós, não devemos ficar muito apegado, a este acordo. Nossa posição de católicos, não estar subordinado a nenhum acordo. Afinal de conta. Nós temos uma Tradição, de vinte séculos de cristianismo.
    A Santa Igreja, não nos enganou. Ela, é o éco de Deus na terra.
    Joelson Ribeiro Ramos.

  16. F.L. Alencar, para ser um católico coerente é preciso saber a quem dar obediência: ao magistério infalível de Pio IX e sua decisão ex-catedra ou ao magistério pastoral do Vaticano II e sua declaração sobre a liberdade religiosa, qual você escolhe?

  17. Renata Ferreira, até aonde eu sei, Mons. Gherardini não aceita a solução da hermenêutica da continuidade. Em seu livro “Quaecumque Dixero Vobis” ele desafia quem defende a continuidade entre o magistério conciliar e o pré-conciliar, a passarem da afirmação a demonstração. Se não me engano, o livro é de 2010, e até hoje não obteve resposta. É muito fácil ficar afirmando a continuidade, mas demonstra-la, é outra coisa, e isso a própria Igreja depois do Concílio Vaticano II negligencia.

  18. Alguns textos que demonstram a impossibilidade da hermenêutica da continuidade:

    Fusão das fontes da Revelação com o absorvimento da Tradição pelas Sagradas Escrituras

    http://salveregina.altervista.org/fuso-das-fontes-da-revelao-com-o-absorvimento-da-tradio-pelas-sagradas-escrituras/

    Exercício de exegese da Tradição: De João Paulo II a Mons. Bernard Fellay

    http://salveregina.altervista.org/exerccio-de-exegese-da-tradio-de-joo-paulo-ii-a-mons-bernard-fellay-2/

    Liberdade religiosa e tradição apostólica

    http://salveregina.altervista.org/liberdade-religiosa-e-tradio-apostlica/

    CONDIÇÃO DA IGREJA OPOSTA AO ESTADO – Pe Matteo Liberatore

    http://salveregina.altervista.org/matteoliberatore1/

    A propósito da hermenêutica – Cardeal Siri

    http://salveregina.altervista.org/a-propsito-da-hermenutica/

    PAULO VI, JOÃO PAULO II E A HERMENÊUTICA DA CONTINUIDADE

    http://salveregina.altervista.org/paulo-vi-joo-paulo-ii-e-a-hermenutica-da-continuidade/

  19. O Concílio Vaticano II tentou afugentar , digamos, abelhas, vespas e aves de rapina.Seu silêncio sobre o comunismo deixou aos lobos toda a liberdade.
    Mas a evidencia dos fatos aponta, neste sentido, o CV II como uma das maiores calamidades , se não maior, da História ds Igreja.

    O superior de uma “Ordem religiosa ” que foi reconhecida a algum tempo pelo Vaticano, teve de assinar um documento renegando a afrimação acima. Segundo noticias não confirmadas, ele teria sofrido um avc,

    Este avc seria um “premio” por tal assinatura ?

  20. Novamente as lideranças eclesiásticas tentam formar uma falsa unidade baseada na manipulação semântica, querem que o consílio seja “aceito”, mas nunca definem o que significa ser aceito neste contexto.
    Se a fraternidade de bom grado aceitar o consílio poderia interpretar isso de inicio da forma que lhe seja conveniente, até altos prelados darem uma nova interpretação ao termo “aceito” e causarem um golpe dentro da fraternidade.
    A maneira honesta e mais eficaz de se resolver esta contenda, seria o papa escrever um documento ou condenando o consílio, ou condenando os erros de sua má interpretação. Infelizmente nem uma coisa nem outra é feita .
    Resta apenas aos meros tradicionalistas esperarem e rezarem por um ambiente propicio para o reconhecimento canônico.

  21. 50 anos? Duvido que o santo Padre, idoso e dodói do jeito que aparenta, dure mais 10… Seu sucessor bem que podia ser Müller, pq desgraça pouca é bobagem!!!

  22. Fico mais tranquilo em saber que o Santo Padre não jogará o tesouro do Vaticano II no lixo, apenas porque um determinado grupo assim o quer.

  23. O povo até parece que esquece (ou realmente não sabe) que a FSSPX aprova 95% do CVII. Aí ficam condenando todo o Concílio, qunado nem a própria FSSPX o faz. Diz-se que tem gente que gosta de ser mais papista que o Papa, podemos dizer que tem gente que quer ser mais “fraternista” que a FSSPX, rsrs.

  24. Gederson, Mons. Brunero Gherardini não só aceita a hermenêutica da continuidade como vê que é a única forma de integrar o Concílio Vaticano II na Tradição da Igreja – na qual o próprio Concílio pretendeu estar, conforme se vê nos seus textos, apesar de que sejam estes ambíguos em vários outros pontos e conceitos. O problema para ele é: não basta falar “hermenêutica da continuidade”, é preciso empreender um trabalho sério, documento por documento, para demonstrá-la e assim expurgar a leitura que se tem feito do Concílio ou do suposto “espírito” de Concílio nas últimas décadas. E é isso que ele pede ao Papa, na belíssima súplica com que faz ao final da obra: um ato explícito do Magistério que dê, finalmente, a interpretação autêntica do Concílio, no sulco da Tradição.

  25. Caro Victor,

    O problema é que a IGREJA está metida neste atoleiro justamente por causa desses 5%. Os 95% restantes é chover no molhado, entendeu?.

  26. Mackena Borges

    Eu não estou falando dos papas, mas sim do equívoco conciliar. Esperamos que até lá algum padre bom ou mais ou menos, possa restabelecer um pouco de ordem, como aquele padre Michel Rodriguez, ou até mesmo o padre Paulo Ricardo. Um pouco melhor nunca é demais.

  27. Renata Ferreira, fiquei surpreso com sua afirmação (é a primeira pessoa que vejo fazer esta defesa), mas Mons. Gherardini nunca defendeu e nunca defenderia esta tese, ele é o ultimo teólogo da escola romana (não é um teólogo moderno). Para ele não se trata de integrar o Concílio na Tradição da Igreja, mas primeiro de demonstrar a continuidade entre a tradição e o concílio. Ora, sem a demonstração desta continuidade, não é possível uma hermenêutica da continuidade, e uma vez demonstrada (se for possível), ele já estaria integrado na tradição.

    O jornal italiano Sim Sim Não Não, apresenta ao apresentar a súplica feita por Mons. Gherardini, a faz de um modo completamente diverso, ao que você apresenta, como podemos ler:

    “Mons. Gherardini em 2009 escreve um livro muito interessante, no qual exprimia as suas perplexidades sobre a continuidade efetiva [Não demonstrada pelo Papa ou por qualquer outro defensor do Concílio], e não apenas declarada [Como a oficial…], entre a Tradição apostólica e os ensinamentos do Concílio Vaticano II, pela qual perguntava ao Papa, na “Súplica” final do seu livro, de retirar qualquer ambiguidade dos textos “contestados” do Concílio pastoral através da intervenção do seu [b]Magistério dogmático e empenhando a infalibilidade pontifícia [/b] [Definitivamente, isto não tem nada haver com hermenêutica da continuidade ou integrar o Concílio na Tradição da Igreja]. Também dois Bispos, que são dois membros da “Igreja docente”, assinaram a acurada súplica ao Papa”. Concílio Vaticano. O discurso que falta. Apresentação do livro feita pelo Sim Sim Não Não e publicada pela Unavox – Tradução minha – http://www.unavox.it/Segnalazioni_Rete/Il_discorso_mancato.html

    Como pode se ver, a súplica de Mons. Gherardini, nada tem haver com a solução da hermenêutica da reforma (continuidade). Não adianta pedir a Igreja uma hermenêutica da reforma (da continuidade), quem tem que fazer isto é o próprio Papa: uma hermenêutica da reforma feita por teólogos, não seria uma hermenêutica oficial e não adiantaria fazer tal hermenêutica, enquanto a ambiguidade dos textos conciliares (fonte de todas as hermenêuticas) permanecer.

    Fique com Deus.

    Abraço

    Gederson

    P.S.: Quem quiser entender melhor o pensamento de Mons. Gherardini, pode ler os textos:

    Em italiano:

    L’ermeneutica della riforma: discontinuità del concilio nella continuità? Paolo Pasqualucci publicado na revista Divinitas (da qual Mons. Gherardini é diretor).
    Capítulo 1: http://www.internetica.it/continuit%C3%A0-discontinuit%C3%A0-Pasqualucci.htm
    Capítulo 2: http://www.internetica.it/continuit%C3%A0-discontinuit%C3%A0-Pasqualucci.htm#II
    Capítulo 3:http://www.internetica.it/continuit%C3%A0-discontinuit%C3%A0-Pasqualucci.htm#III
    Capítulo 4: http://www.internetica.it/continuit%C3%A0-discontinuit%C3%A0-Pasqualucci.htm#IV

    Quaecumque dixero vobis – Apresentação de livro homônimo de Mons. Gherardini feita pelo Sim Sim Não Não

    http://pascendidominicigregis.blogspot.com.br/2012/07/sisi-nono-quaecumque-dixero-vobis-mi-e.html

    Concilio Vaticano II. Il discorso mancato

    http://www.unavox.it/Segnalazioni_Rete/Il_discorso_mancato.html

    Il Vaticano II Alle radici di un equivoco – Mons. Gherardini

    http://www.unavox.it/Segnalazioni_Rete/Alle_radici_di_un_equivoco.html

    Le risposte di Brunero Gherardini a Karl Barth

    http://chiesaepostconcilio.blogspot.com.br/2012/04/le-risposte-di-brunero-gherardini-karl.html

    Em português:

    O “debate crítico” que a hierarquia não quer realizar. Recensão à obra “Concilio Vaticano II, il discorso mancato” de Monsenhor Brunero Gherardini.

    http://fratresinunum.com/2012/08/17/o-discurso-critico-que-a-hierarquia-nao-quer-fazer-ate-agora-recensao-a-obra-concilio-vaticano-ii-il-discorso-mancato-de-monsenhor-brunero-gherardini/

    “O Vaticano II – Às raízes de um equívoco”. Resenha de Cristina Siccardi ao novo livro de Monsenhor Gherardini.

    http://fratresinunum.com/2012/05/15/o-vaticano-ii-as-raizes-de-um-equivoco-resenha-de-cristina-siccardi-ao-novo-livro-de-monsenhor-gherardini/

    Índole pastoral do Vaticano II: uma avaliação.

    http://fratresinunum.com/2012/07/27/indole-pastoral-do-vaticano-ii-uma-avaliacao/

    Gherardini responde a Ocariz. E o debate sobre o Vaticano II prossegue.

    http://fratresinunum.com/2011/12/11/gherardini-responde-a-ocariz-e-o-debate-sobre-o-vaticano-ii-prossegue/

    “Concílio Vaticano II: um Debate que não aconteceu”, por Monsenhor Brunero Gherardini.

    http://fratresinunum.com/2011/09/22/concilio-vaticano-ii-um-debate-que-nao-aconteceu-por-monsenhor-brunero-gherardini/

    O futuro FSSPX: nem concessão, nem “statu quo” confortável.

    http://fratresinunum.com/2010/09/30/o-futuro-fsspx-nem-concessao-nem-%e2%80%9cstatu-quo%e2%80%9d-confortavel/

  28. La misa del NO es tan legal como la legalización del aborto. El aborto puede ser legalizado por un gobierno que abusa del poder, y el gobierno de la iglesia también puede haber abusado de su poder legalizando un rito en parte inventado.Es decir que puede ser legal la misa del NO pero de ahi que a Dios le agrade hay una gran distancia. Una solución seria que la fraternidad deje la respuesta en suspenso en espera de un Papa que no quiera disolver la Tradición Apostólica.

  29. Li esta indagação no Rorate e achei interessante:

    A FSSPX elaborou algum trabalho onde destaque quais seriam os pontos conflitantes
    (seriam esses 5% ?) e quais as soluções ou qual redação daria ?

    …………………………………………………………………………………………………………………………………..

    O fato de muitos dos problemas estarem ligados aos documentos chamados “Declarações”
    que tem peso menor do que uma Encíclica, não permitem outro tipo de postura ou reavaliação ?

    A FSSPX não explicíta aquilo que ela não concorda ?

    Tem algum documento a respeito disso (da FSSPX) ?

  30. Vanderley,

    O problema não é com a FSSPX, o problema é com Roma. Quando falamos em “interpretação do Concílio a luz da Tradição” ou em “continuidade entre o Concílio e a tradição”, nós (pelo menos a maioria aqui), não temos o mesmo entendimento de Roma. Bento XVI, entende a tradição apenas como a comunhão dos fiéis em volta dos legítimos Pastores no decorrer da história, ele a entende como uma experiência. Portanto, quando falamos em tradição, não estamos falando da mesma tradição e pelo conceito que ele expressa, não existe e não houve nenhuma ruptura, isso é apenas coisa da nossa cabeça, ela é impossível, visto que, o único critério para se demonstrar a veracidade da tradição apostólica, é a pertença a hierarquia da Igreja. Assim, nem mesmo a grande apostasia, será possível.

    Segue o conceito de tradição ensinado por Bento XVI:

    A comunhão no tempo: a tradição

    “A Tradição é a comunhão dos fiéis à volta dos legítimos Pastores no decorrer da história, uma comunhão que o Espírito Santo alimenta garantindo a ligação entre a experiência da fé apostólica, vivida na originária comunidade dos discípulos, e a experiência actual de Cristo na sua Igreja. Por outras palavras, a Tradição é a continuidade orgânica da Igreja, Templo santo de Deus Pai, erigido sobre o fundamento dos Apóstolos e reunido pela pedra angular, Cristo, mediante a acção vivificante do Espírito: “Portanto, já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. É nele que toda a construção, bem ajustada, cresce para formar um templo santo, no Senhor. É nele que também vós sois integrados na construção, para formardes uma habitação de Deus, pelo Espírito” (Ef 2, 19-22). Graças à Tradição, garantida pelo ministério dos Apóstolos e dos seus sucessores, a água da vida que saiu do lado de Cristo e o seu sangue saudável alcançam as mulheres e os homens de todos os tempos. Assim, a Tradição é a presença permanente do Salvador que vem encontrar-se connosco, redimir-nos e santificar-nos no Espírito mediante o ministério da sua Igreja, para glória do Pai.

    Concluindo e resumindo, podemos afirmar portanto que a Tradição não é transmissão de coisas ou palavras, uma colecção de coisas mortas. A Tradição é o rio vivo que nos liga às origens, o rio vivo no qual as origens estão sempre presentes. O grande rio que nos conduz ao porto da eternidade. E sendo assim, neste rio vivo realiza-se sempre de novo a palavra do Senhor, que no início ouvimos dos lábios do leitor: “E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 29, 20)”.

    http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2006/documents/hf_ben-xvi_aud_20060426_po.html

  31. Correção:

    “…visto que, o único critério para se demonstrar a veracidade da tradição apostólica, é a pertença a hierarquia da Igreja.”

    O certo é:

    “visto que, o único critério para se demonstrar a veracidade da experiência apostólica, é a pertença a hierarquia da Igreja”.

    Desculpem :)

  32. O problema não é o concílio em si. O concílio mandou tirar os confessionários da Igreja? O concílio mandou os padres a não usarem a batina? O concílio mandou que os leigos assumissem posições definitivas na liturgia como por exemplo dar a comunhão? Mandou tirar o Santíssimo do altar, do centro da Igreja? É claro que não, e vai por aí. De quem é o erro então?? E porque Sua Santidade não CORRIGE com rigor tais erros?? As respostas, tudo é muito tardio, demorado, causando a impressão quase que de abandono, que vivemos outra igreja aqui, desvinculada das NORMAS, DAS REGRAS, AS REGRAS TODAS!! Não há punição…

  33. Gederson, acho que entendi. Existem conceitos diferentes de Tradição (pelo menos em relação
    ao que o Papa disse nessa Audiência).
    Mas é isso que está sendo discutindo ou que está “emperrando” as discussões ?
    A questão não é apenas o CV II, é “como” entende-lo ou discuti-lo ?
    Ou seja, os conceitos/bases para interpreta-lo ?
    Mas quem tem que “interpreta-lo” não é o Magistério ?
    Não caberia a ele explicar as ambiguidades em relação às formulações anteriores ?

    Existe uma definição da Igreja, do que vem a ser Tradição ?
    Conheço o de Tradição apostólica, mas creio que nesse caso já não
    se aplicaria.
    Em que termos a FSSPX define a Tradição ou onde ela apoia-se ?

    Se puder explicar, agradeço.

    PS. o uso desse termo “experiência” dá margem a muita ambiguidade.
    Tem raízes no Modernismo. Embora não sei dizer se isto se aplica
    à fala do Papa.