O Concílio Vaticano II, uma história nunca escrita (IV): Dissolvendo Roma. Com Roma.

Lançado em 2011 na Itália, a prestigiosa obra do Professor Roberto de Mattei, intitulada “O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita”, chega agora ao público lusófono. A Editora Caminhos Romanos, detentora dos direitos sobre a versão portuguesa do laureado livro — Prêmio Acqui Storia 2011 e finalista do Pen Club Italia — , concedeu ao Fratres in Unum a exclusiva honra de divulgar alguns excertos deste trabalho —  um verdadeiro marco na historiografia do Concílio Vaticano II.

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Ernesto Buonaiuti, modernista excomungado em 1925, foi companheiro de seminário de Angelo Roncalli, tendo, inclusive, a honra de ser seu "padrinho", ao ser convidado para acompanhar o futuro Papa João XXIII na concelebração durante sua ordenação sacerdotal.

Ernesto Buonaiuti foi companheiro de seminário de Angelo Roncalli, tendo, inclusive, a honra de ser seu “padrinho”, ao ser convidado pelo futuro Papa João XXIII para acompanhá-lo na concelebração durante sua ordenação sacerdotal. Mesmo excomungado por modernismo em 1925, Buonaiuti declarou-se até a morte um “filho da Igreja”.

Em face da condenação da Pascendi, a atitude dos modernistas foi análoga à dos jansenistas na sequência da condenação das proposições de Jansénio e da bula Unigenitus, de 1713: negaram reconhecer-se nas proposições condenadas, afirmando que o modernismo condenado na encíclica era uma quimera [1].

Um testemunho “de dentro” é o do ex-beneditino francês Albert Houtin, que relata que o plano do modernismo previa que os inovadores não saíssem da Igreja, nem sequer no caso de perderem a fé, mas nela permanecessem o mais tempo possível a fim de propagarem as suas ideias [2]. “Era neste sentido que em 1903 se concordava em dizer, e que ainda em 1911 se escrevia,  que um modernista a sério, fosse leigo ou sacerdote, não podia abandonar a Igreja ou a batina, porque se o fizesse deixaria de ser modernista no sentido mais elevado do termo [3]”; “A par da Delenda Carthago, pretendia-se praticar a Dissovenda [4]”.

Até hoje”, explicava, por sua vez, Ernesto Buonaiuti, “pretendeu-se reformar Roma sem Roma ou talvez até contra Roma. Ora, é necessário reformar Roma com Roma; fazer com que a reforma passe pelas mãos daqueles que têm de ser reformados. É este o método verdadeiro e infalível; mas é difícil. Hic opus, hic labor [5]”. O modernismo propunha-se, pois, transformar o catolicismo a partir de dentro, deixando intacto, nos limites do possível, o invólucro exterior da Igreja. Prossegue Buonaiuti: “O culto exterior permanecerá para sempre, tal como a hierarquia; mas a Igreja, enquanto mestra dos sacramentos e da respectiva ordem, modificará a hierarquia e o culto de acordo com os tempos: aquela tornar-se-á mais simples, mais liberal, e este tornar-se-á mais espiritual. Por sua via, a Igreja transformar-se-á num protestantismo, mas será um protestantismo ortodoxo e gradual, e já não um protestantismo violento, agressivo, revolucionário, insubordinado; será um protestantismo que não destruirá a continuidade apostólica do ministério eclesiástico, nem a própria essência do culto.”

O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita, Roberto de Mattei, Ed. Caminhos Romanos, 2012, p. 67.


[1] Buonaiuti aceita o paralelo e fala de “uma certa correspondência íntima que, num exame objetivo, faz aparecer estes dois movimentos como mais idealmente coligados do que poderia parecer à primeira vista” (E. Buonaiuti, Storia del cristianesimo, Dall’ Oglio, Milão, 1943, vol. III, p. 617).

[2] Cf. Albert Houstin (1867-1926), Historie du Modernisme catholique, in proprio, Paris, 1913, PP. 116-117.

[3] Ibid, p. 122

[4] Ibid, p. 116

[5] Cf. E. Buonaiuti, Il modernismo cattolico, Guanda, Modena, p 128.

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Roberto de Mattei nasceu em Roma, em 1948. Formou-se em Ciências Políticas na Universidade La Sapienza. Atualmente, leciona História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, no seu departamento de Ciências Históricas, de que é o director. Até 2011, foi vice-presidente do Conselho Nacional de Investigação de Itália, e entre 2002 e 2006, foi conselheiro do Governo italiano para questões internacionais. É membro dos Conselhos Diretivos do Instituto Histórico Italiana para a Idade Moderna e Contemporânea e da Sociedade Geográfica Italiana. É presidente da Fundação Lepanto, com sede em Roma, e dirige as revistas Radici Cristiane e Nova Historica e colabora com o Pontifício Comitê de Ciências Históricas. Em 2008, foi agraciado pelo Papa com a comenda da Ordem de São Gregório Magno, em reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à Igreja.

Onde encontrar:

Em Portugal – Nas maiores livrarias do país. Em Lisboa, nas livrarias Fnac e Férin (próxima ao Chiado, centro histórico). Em Porto, pelos telefones 936364150 e 911984862.

No Brasil -- Nas livrarias Loyola, da rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo, e Lumen Christi, do Mosteiro de São Bento, Rio de Janeiro. Pela internet, na Livraria Petrus e Editora Ecclesiae.

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9 Comentários to “O Concílio Vaticano II, uma história nunca escrita (IV): Dissolvendo Roma. Com Roma.”

  1. Já estou lendo o livro, faltam 50 páginas para acabar… conforme você avança na leitura, mais você compreende a origem das coisas… este livro poderia se chamar ‘A Grande Conspiração Contra a Igreja’

  2. Esse livro é fantástico! Realmente, trata-se de uma leitura indispensável a todos aqueles que amam a Igreja e querem trabalhar para a restauração da Fé Católica. É importante conhecer com mais detalhes o que foi realmente o modernismo condenado por São Pio X e como eles agiram nos movimentos biblicista, litúrgico, filosófico, teológico e ecumênico, bem como suas influências nas décadas subsequentes. Quem insiste em dizer que o modernismo foi um movimento isolado nas primeiras décadas do século passado e que morreu com a Pascendi ficará surpreso.

    De Mattei vai fundo e traça um perfil detalhado de cada expoente do modernismo, bem como a ligação deles com o Concílio e até mesmo a relação e influência que muitos tiveram com os próprios papas do Concílio.

  3. Caros FRATRES;
    Interessante perceber que existe um vínculo intrínseco entre o modernismo, excomungado por S. Pio X e o Concílio Vaticano II, convocado pelo papa Roncalli.
    Curioso também que existe uma semelhança ao que pretendiam os Carbonários, infiltrando seus membros na Igreja e provocando uma transformação naquela que durante séculos foi a defensora da Fé e da Cultura.
    Realmente a igreja conciliar tornou-se protestante.
    Portanto, ao iniciar o processo de bestificação, digo, beatificação do papa Montini, aquele mesmo senhor que promulgou a “missa” inventada pelo maçom Bugnini e “colaboradores” protestantes – hereges – ah, “irmãos separados”, abre-se caminho para que no ano de 2017, ao celebrar os 500 anos do heresiarca Lutero, este poderá ser até mesmo elevado a “doutor da igreja” – conciliar, evidentemente!
    Assim, as predições, tanto dos carbonários, quanto dos modernistas, concretizaram-se no “concílio das maravilhas”…
    Assistimos hoje a protestantização daquilo que outrora foi católico.
    O culto à Virgem, aos Santos e aos Anjos parecem ter quase se extinguido, não no coração dos fiéis, porém, nas igrejas, pouco se vê demonstrações filiais de amor à Virgem e aos Santos. Quando muito, algumas expressões sentimentais, repletas de uma falsa piedade, aprendida nas RC”C” da vida…
    Diante de toda essa realidade, ainda observamos muitos “católicos” elogiarem seus hierarcas, “defenderem” suas atitudes e até mesmo “elogiarem” discursos bonitos e sermões, digo homilias, com palavras doces e piedosas.
    Porém, quando algum Pastor tomará alguma atitude?
    Quando aquele que é o Sucessor de S. Pedro irá agir como um verdadeiro Pastor, expulsando os lobos do redil, que dilaceram e dispersam as ovelhas?
    Quando?
    Parece que essa gente lá da Roma Apóstata está num mundo distante da realidade. Parecem não querer observar que o mundo do “concílio das maravilhas” só existe em suas mentes deturpadas.
    Na realidade, nua e crua vemos uma igreja em escombros, protestantizada, os fiéis se dispersando rumos às seitas heréticas (os “irmãos separados”) ou para a indiferença, uma igreja com um culto herético, onde o ser humano substituiu o próprio Deus!!!
    E nada se faz, a não ser choramingos, beicinhos e discursos bonitos.
    Chega!!!
    Precisamos de ações concretas e não de doce palavrório!
    Acorda, Alice! Você não está no concílio das maravilhas!!!
    FRATRES, cada dia mais tenho a convicção do cumprimento daquela triste, porém verdadeira, Profecia da Santíssima Virgem em la Salette:
    “(…) e Roma perderá a Fé e tornar-se-á a sede do anticristo.”
    Rezemos muito e estudemos o Catecismo de S. Pio X !
    Preparemo-nos, pois cada dia mais vemos o que essa gente modernista e apóstata fez com a Igreja de Cristo!
    Mas, esses pérfidos modernistas, que tomaram de assalto a Igreja com seu maldito e demoníaco concílio, bem como todos os seus defensores, deveriam ler e meditar sobre o que lhes reserva o Altíssimo: Jeremias 25, 32-38.
    Supliquemos que o Senhor nos dê a força e a perseverança diante de toda essa triste e sombria realidade que nos cerca e, tal qual os Mártires Ingleses e os Cristeros Mexicanos, possamos testemunhar nossa Fé no Cristo Vive, vence e Reina eternamente!
    Viva Cristo Rei!!!

  4. Felipe Leão,

    o termo “irmãos separados” que o senhor tanto usou não é um termo pós-CVII, foi cunhado por São Pedro Canísio por ocasião da deforma protestante.

  5. Prezado FRATER, Sr. Pedro;
    Obrigado por esclarecer-me.
    De fato, não o sabia.
    Porém, ainda prefiro o nome real, HEREGES, ao eufemismo “irmãos separados”, tenha sido este termo usado por quem quer que fosse.
    O próprio Santo Inácio de Loyola dizia: “ao bem se chame de bem, ao mal se chame de mal, ao católico se chame católico e ao herege se chame herege.”
    Prefiro a dureza inaciana que os eufemismos adulcicados e com odores modernistas.
    Mesmo assim, agradeço-lhe o esclarecimento!
    Viva Cristo Rei!

  6. “Parece que essa gente lá da Roma Apóstata está num mundo distante da realidade.”

    A Igreja de Roma é apóstata???????

  7. Profecia da Santíssima Virgem em la Salette: “(…) e Roma perderá a Fé e tornar-se-á a sede do anticristo.”

    Promessa de Jesus Cristo: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela”.

  8. Estou lendo esta obra deste autor, que teve a coragem de escrever com tanta firmeza e argumentos. Que deixa qualquer pessoa de bom senso, convicto de tudo que sabemos e estudamos nos outros autores de obras semelhantes.
    Na minha opinião, esta obra está mais completa. Ela refuta toda a máfia que trabalhou dentro deste concílio. Ora que suas citações são inúmeras, mostrando com clareza e argumentos, toda malícia dos modernistas que não desistiram de continuar dentro da Igreja. Para trabalhar nesta alavanche de destruição. O autor foi muito feliz. Em sublinhar; que estes referidos modernistas ou hereges. ´Já vinham a anos trabalhando neste processo de destruição.
    Todo leigo, todo padre, todo bispo, todo cardeal e o Papa deveria ler esta obra. Para mellhor governar a Igreja. Seus argumentos são irrefutáveis. Quando alguém ler uma obra desta, deveria ler, como um bom advogado e um bom juiz. Vê os seus argumento, se são dignos de crédito.
    Joelson Ribeiro Ramos.

  9. Quando pego um livro do Prof. Roberto De Mattei, já prevejo uns dias de leitura densa, séria e bem documentada. Foi assim, dentre seus muitos livros, com a fantástica Pio IX e a com a estupenda biografia (a única existente até agora e também publicada só em Portugal) do grande prof. Plinio Corrêa de Oliveira, de quem ele é discípulo assumido.
    E pensar que tem católicos conservadores por aí que perdem tempo atacando seus companheiros de ideais…, eu me pergunto onde está neles o verdadeiro ideal do católico militante. O ótimo artigo de outro dia do Dr. Xavier da Silveira e este livro do Prof. De Mattei mostram de sobra que “os ideais nunca morreram” e que temos diante de nós muita luta contra nossos adversários, em defesa dos princípios perenes da Civilização Cristã.