Carta de Dom Di Noia aos membros da Fraternidade São Pio X.

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com

Excelência e caros irmãos Padres da Fraternidade São Pio X,

Nossa recente declaração (28 de outubro de 2012) afirmou em público e com autoridade que as relações da Santa Sé com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X permanecem abertas e esperançosas. Até agora, com exceção de seus pronunciamentos oficiais, a Santa Sé, por diversas razões, absteve-se de corrigir certas afirmações imprecisas a respeito de sua conduta e competência nestas relações. Aproxima-se rapidamente, no entanto, a hora em que, em benefício da verdade, a Santa Sé será obrigada a tratar de algumas dessas imprecisões. São particularmente dolorosas as afirmações que impugnam o múnus e a pessoa do Santo Padre e que, em algum momento, demandariam alguma resposta.

Declarações recentes de pessoas que ocupam posições significantes de autoridade dentro da Fraternidade não podem deixar de causar preocupação sobre as possibilidades reais de reconciliação. Pode-se pensar, em particular, nas entrevistas dadas pelo Superior do Distrito da Alemanha (16 de outubro de 2012), e um recente sermão do Superior Geral (1 de novembro de 2012). O tom e o conteúdo destas intervenções deram causa a uma certa perplexidade sobre a seriedade e, de fato, a própria possibilidade de conversações francas entre nós. Enquanto a Santa Sé espera pacientemente por uma resposta oficial da Fraternidade, alguns de seus superiores empregam uma linguagem, em comunicações extra-oficiais, que a todo o mundo dá a impressão de rejeitar as próprias condições, assumidas como ainda em estudo, que são exigidas para a reconciliação e regularização canônica da Fraternidade dentro da Igreja Católica.

Ademais, uma revisão da história de nossas relações desde a década de 70 nos leva à preocupante compreensão de que os termos de nossa divergência acerca do Concílio Vaticano II permaneceu, com efeito, inalterada. Com autoridade magisterial, a Santa Sé tem sistematicamente sustentado que os documentos do Concílio devem ser interpretados à luz da Tradição e do Magistério, e não vice versa, enquanto a Fraternidade tem insistido que certos ensinamentos do Concílio são errôneos e não são, portanto, suscetíveis de uma interpretação em linha com a Tradição e o Magistério. No decorrer dos anos, esse impasse permaneceu mais ou menos em vigor. Os três anos de diálogos doutrinais recém concluídos, embora tenham permitido uma frutuosa exposição de pontos de vistas sobre assuntos específicos, não alterou fundamentalmente essa situação.

Nessas circunstâncias, enquanto a esperança permanece forte, é claro que algo novo deve ser inserido em nossas conversações se não quisermos parecer, diante da Igreja e do público em geral, e, de fato, a nós mesmos, como que engajados em um intercâmbio de boas intenções, mas interminável e estéril. Algumas novas considerações de natureza mais espiritual e teológica são necessárias, considerações que transcendem as importantes, mas aparentemente intratáveis divergências sobre a autoridade e interpretação do Concílio Vaticano II que agora nos divide, considerações que focam antes em nosso dever de preservar e cultivar a divinamente desejada unidade e paz da Igreja.

Parece oportuno que eu vos deva apresentar essas novas considerações na forma de uma carta pessoal para o Advento, assim como aos membros da Fraternidade Sacerdotal. Nada menos que a unidade da Igreja está em jogo.

A Preservação da Unidade da Igreja

Neste contexto, as palavras de São Paulo vêm à mente: “Exorto-vos, pois, – prisioneiro que sou pela causa do Senhor -, que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, com toda a humildade e amabilidade, com grandeza de alma, suportando-vos mutuamente com caridade. Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Sede um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados pela vossa vocação a uma só esperança. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que atua acima de todos, por todos e em todos” (Efésios 4:1-6).

Com estas palavras, o Apóstolo Paulo nos admoesta a manter a unidade da Igreja, unidade que é dada pelo Espírito e que nos une ao único Deus “que atua acima de todos, por todos e em todos” (Ef. 4:1-6). A verdadeira unidade é um dom do Espírito, não algo que nós mesmos fazemos.

Todavia, por nossas ações e decisões somos capazes de cooperar na unidade do Espírito, ou agir contra as sugestões do Espírito. Portanto, São Paulo nos exorta a “uma vida digna da vocação à qual fostes chamados” (Ef. 4:1), a viver de forma que possamos preservar este precioso dom da unidade.

A fim de perseverar na unidade da Igreja, Santo Tomás de Aquino observa que, segundo São Paulo, “quatro virtudes devem ser cultivadas, e seus quatro vícios opostos evitados” (Comentário à Carta aos Efésios §191). O que se põe no caminho da unidade? Orgulho, cólera, impaciência e zelo desordenado. Segundo Santo Tomás de Aquino, “o primeiro vício que [S. Paulo] rejeita é o orgulho. Quando uma pessoa arrogante decide governar outros, e outros indivíduos não querem se submeter, surge a dissensão na sociedade e a paz desaparece… A cólera é o segundo vício. Pois uma pessoa encolerizada é inclinada a impor a injúria, verbal ou física, da qual ocorre as perturbações… O terceiro é a impaciência. Ocasionalmente, alguém que pessoalmente é humilde e suave, privando-se de causar problemas, todavia, não suportará, pacientemente os males, efetivos ou tentados, feitos contra si… Um zelo desordenado é o quarto vício. Desordenadamente zeloso sobre tudo, os homens emitem juízos sobre tudo o que vêem, não esperando o tempo e o lugar adequado; e a confusão surge na sociedade” (ibid).

Como superaremos estes vícios? Diz São Paulo: “com toda a humildade e amabilidade, com grandeza de alma, suportando-vos mutuamente com caridade” (Ef. 4:2).

Segundo Santo Tomás, a humildade, ao reconhecer a bondade nos outros e conhecendo perfeitamente nossas próprias forças e fraquezas, nos ajuda a evitar disputas em nossas relações com outros. Mansidão “abranda argumentos e preserva a paz” (Comentário à carta aos Efésios, §191). Ela nos ajuda a evitar demonstrações desordenadas de ira aos nos dar a serenidade de fazer o que somos chamados em espírito de tranquilidade e paz. A paciência nos permite suportar o sofrimento quando necessário para o bem que buscamos, especialmente no caso de um bem difícil e árduo ou quando as circunstâncias externas militam contra a realização do objetivo. A caridade expulsa o zelo desordenado ao nos permitir suportar uns aos outros na caridade, “suportando-vos mutuamente com caridade” (ibid). Santo Tomás aconselha: “Quando alguém cai, não deve ser corrigido imediatamente — exceto se for o tempo e o lugar para tal. Com misericórdia, eles devem ser aguardados, uma vez que a caridade suporta todas as coisas (1 Cor 13:7). Não que essas coisas sejam toleradas por negligência ou consentimento, nem familiaridade ou amizade carnal, mas por caridade… Agora, nós que somos mais fortes devemos suportar as enfermidades dos fracos” (Rom 15:1).

O conselho prudente de Santo Tomás pode nos ser útil se nos permitirmos ser formados por sua sabedoria. Nos últimos quarenta anos, houve, por vezes, uma falta de humildade, mansidão, paciência e caridade em nossas relações mútuas?

Consideremos estas palavras que o Papa Bento XVI escreveu a seus irmãos bispos para explicar por que ele promulgou o Motu Proprio Summorum Pontificum : “Olhando para o passado, para as divisões que no decurso dos séculos dilaceraram o Corpo de Cristo, tem-se continuamente a impressão de que, em momentos críticos quando a divisão estava a nascer, não fora feito o suficiente por parte dos responsáveis da Igreja para manter ou reconquistar a reconciliação e a unidade; fica-se com a impressão de que as omissões na Igreja tenham a sua parte de culpa no facto de tais divisões se terem podido consolidar. Esta sensação do passado impõe-nos hoje uma obrigação: realizar todos os esforços para que todos aqueles que nutrem verdadeiramente o desejo da unidade tenham possibilidades de permanecer nesta unidade ou de encontrá-la de novo”  (Carta de 7 de julho de 2007).

Como as virtudes da humildade, mansidão, paciência e caridade podem moldar nossos pensamentos e ações? Primeiro, no esforço de reconhecer a bondade que existe nos outros com quem podemos divergir, mesmo em assuntos aparentemente fundamentais, nós podemos abordar os assuntos contestados em um espírito de abertura e boa-fé. Segundo, ao praticar a verdadeira mansidão, podemos manter um espírito de serenidade, evitando a introdução de um tom divisivo ou afirmações imprudentes que ofenderão, em vez de promover a paz e a compreensão mútua. Terceiro, pela verdadeira paciência reconheceremos que em nossos esforços pelo árduo bem que procuramos, nós devemos desejar, quando necessário, aceitar o sofrimento na espera. Finalmente, mesmo quando ainda sentimos a necessidade de corrigir nossos irmãos, deve-se fazê-lo com caridade, no momento e lugar adequados.

Na vida da Igreja, todas essas virtudes são buscadas ao preservar “a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef. 4:3). Se nossas relações são marcadas pelo orgulho, cólera, impaciência e zelo desordenado, nossa busca desenfreada pelo bem da Igreja não levará a nada senão à amargura. Se, por outro lado, pela graça de Deus nós crescemos na verdadeira humildade, mansidão, paciência e caridade, nossa unidade no Espírito será mantida e cresceremos profundamente no amor a Deus e ao nosso próximo, cumprindo toda a lei de Deus para nós.

Colocamos tal ênfase na unidade da Igreja porque ela reflete e é constituída pela comunhão da Santíssima Trindade. Como nós lemos em um sermão de Santo Agostinho: “Tanto o Pai como o Filho desejaram que tivéssemos comunhão tanto com eles como com nós mesmos; por este dom que ambos possuem como um, eles desejaram nos reunir e fazer de nós um, isto é, pelo Espírito Santo que é Deus e o dom de Deus” (Sermão 71.18).

A unidade da Igreja não é algo que alcançamos por nós mesmos, por nossas próprias forças, mas um dom da divina graça. É reconhecendo este dom que Agostinho pode dizer: “Mas aquele que é inimigo da unidade não tem parte no amor de Deus. Aqueles, portanto, que estão fora da Igreja não têm o Espírito Santo”.  (Epístola 185 §50). São palavras assustadoras: quem é inimigo da unidade se torna inimigo de Deus, pois rejeita o dom que Deus nos concedeu. “Que prova existe de que amamos a fraternidade?”, pergunta Santo Agostinho. “Que não rompamos a unidade, porque nós mantemos a caridade” (Homilia sobre a Primeira Carta de João, 2.3). Ouçamos o que Agostinho tem a dizer àqueles que dividem a Igreja: “Vós não tendes caridade porque, por vossa honra, causais divisões na unidade. Compreendei disso, então, que o espírito é de Deus… Vós estais vos retirando da unidade universal, estais dividindo a Igreja com cismas, estais despedaçando o corpo de Cristo. Ele veio na carne de modo a uni-lo; vós estais gritando de modo a dispersá-lo” (ibid. 6.10).

E quanto àqueles com quem a companhia é difícil? Ouçamos Santo Agostinho: “Amai vossos inimigos de tal forma que queirais que eles sejam irmãos; amai vossos inimigos de tal modo que eles sejam trazidos à vossa companhia” (ibid. 1.9). Para Agostinho, essa forma autêntica de amor apenas pode vir como dom de Deus: “Pedi a Deus que possais amar uns aos outros. Vós deveis amar a todos, mesmo os vossos inimigos, não porque são vossos irmãos, mas para que eles possam se tornar vossos irmãos, de modo que possais sempre estar incendiados de amor fraternal, seja para com aquele que se tornou vosso irmão ou para com o vosso inimigo, para que amando-o ele possa se tornar vosso irmão” (ibid. 10.7).

O exemplo de amar os nossos inimigos de modo que eles possam se tornar nossos amigos vem, em última análise, do próprio Cristo: “Amemos, pois ele nos amou primeiro (4:19). Pois como amaríamos se ele não houvesse nos amado primeiro? Por seu amor fomos feitos seus amigos, mas ele nos amou como inimigos a fim de que nos tornássemos amigos. Ele nos amou primeiro e nos concedeu os meios de amá-lo” (ibid. 9.9).

Para Santo Agostinho, então, a unidade da Igreja provém da comunhão da Santíssima Trindade e deve ser mantida se quisermos permanecer em comunhão com o próprio Deus. Pela graça de Deus, devemos preservar esta unidade com grande determinação, mesmo que isso envolva sofrimento e paciente tolerância. “Toleremos o mundo, toleremos as tribulações, toleremos os escândalos das provações. Não nos desviemos do caminho. Mantenhamo-nos na unidade da Igreja, mantenhamo-nos em Cristo, mantenhamo-nos na caridade. Não nos desliguemos dos membros de sua esposa, não nos desliguemos da fé, para que possamos nos gloriar em sua presença e permaneçamos seguros nele, agora pela fé e depois pela visão, cuja promessa temos como dom do Espírito Santo” (ibid. 9.11).

O lugar da Fraternidade Sacerdotal na Igreja

O que, então, é pedido da Fraternidade Sacerdotal na atual situação? Não abandonar o zelo de seu fundador, Dom Lefebvre. Longe disso! Antes, é pedido que renove a chama de seu zelo ardente de formar homens no sacerdócio de Jesus Cristo. Certamente, chegou a hora de abandonar a retória áspera e contraproducente que emergiu nos últimos anos.

O carisma original confiado a Dom Lefebvre deve ser recuperado, o carisma da formação de padres na plenitude da Tradição Católica pelo bem de assegurar um apostolado aos fiéis que flui dessa formação sacerdotal. Este era o carisma que a Igreja discerniu quando a Fraternidade Sacerdotal São Pio X foi primeiramente aprovada em 1970. Nós nos recordamos do juízo favorável do Cardeal Gagnon sobre o vosso seminário de Écône em 1987.

O carisma autêntico da Fraternidade é formar padres para o serviço do povo de Deus, não o usurpar o ofício de julgar e corrigir a teologia ou disciplina de outros dentro da Igreja. Vosso foco deve ser inculcar a sã formação filosófica, teológica, pastoral, espiritual e humana em vossos candidatos, a fim de que eles possam pregar a palavra de Cristo e agir como instrumentos da graça de Deus no mundo, especialmente pela celebração solene do Santo Sacrifício da Missa.

Deve-se prestar, certamente, atenção às passagens do Magistério que parecem difíceis de reconciliar com o ensinamento magisterial, mas essas questões teológicas não devem ser o foco de vossa pregação ou formação.

Com respeito à competência de corrigir, podemos bem levar em conta o exemplo de São Pio X e suas intervenções sobre a questão da música sacra. Em 1903, São Pio X promulgou o famoso motu proprio Tra le sollecitudini, promovendo por toda a Igreja uma reforma da música eclesiástica. Este documento, contudo, era em certo sentido a culminância de duas iniciativas anteriores do então Giuseppe Sarto: um votum sobre a música sacra escrita a pedido da Congregação dos Sagrados Ritos, em 1893, e uma carta pastoral sobre a reforma da música sacra à Igreja de Veneza, publicada em 1895.

Estes três documentos continham, essencialmente, a mesma mensagem, e embora o primeiro tenha sido uma sugestão à Cúria Romana, o seguinte foi uma instrução aos fiéis sob sua jurisdição como Patriarca de Veneza, e o terceiro uma ordem à Igreja universal. Enquanto Papa, São Pio X gozava da autoridade para tratar de abusos na música eclesiástica em todo o mundo, enquanto que como bispo ele podia apenas intervir dentro de sua diocese. São Pio X pôde abordar os problemas na Igreja, no âmbito universal, em suas prescrições disciplinares e doutrinais, precisamente por causa de sua autoridade universal.

Mesmo quando estamos convencidos de que nossa perspectiva sobre uma determinada questão disputada é aquela verdadeira, não podemos usurpar o ofício do pontífice universal ao presumir publicamente a correção de outros dentro da Igreja. Nós podemos propor e procurar exercer influência, mas não devemos desrespeitar ou agir contra as legítimas autoridades locais. Nós precisamos respeitar o foro próprio dos diferentes tipos de assunto: é a fé que deve ser pregada de nossos púlpitos, não a última interpretação do que consideramos problemático sobre um documento magisterial.

Tem sido um erro fazer de todo ponto difícil na interpretação teológica do Vaticano II uma matéria de controvérsia pública, tentando influenciar aqueles que não são teologicamente esclarecidos a adotar um ponto de vista particular acerca de questões teológicas sutis.

A Instrução Donum Veritatis, sobre a Vocação Eclesial do Teólogo (Congregação para a Doutrina da Fé 1990) afirma que um teólogo “pode levantar questões sobre a conveniência, a forma, e mesmo os conteúdos das intervenções magisteriais (§24), embora “a disposição de se submeter lealmente ao ensinamento do Magistério sobre matérias em si não irreformáveis deva ser a regra”. Mas o teólogo não deve “apresentar suas próprias opiniões ou hipóteses divergentes como se fossem conclusões não-discutíveis. O respeito pela verdade, assim como pelo Povo de Deus, requer esta discrição (cf. Rom 14:1-15; 1 Cor 8; 10: 23-33). Pelas mesmas razões, o teólogo se absterá de dar inoportuna expressão pública a elas” (§27).

Se, após uma profunda reflexão teológica da parte do teólogo, as dificuldades persistirem, ele “Se, apesar de um leal esforço, as dificuldades persistem, é dever do teólogo fazer saber às autoridades magisteriais os problemas suscitados pelo ensinamento em si mesmo, pelas justificações que lhe são propostas, ou ainda pela maneira com a qual é apresentado. Ele o fará com um espírito evangélico, com um profundo desejo de resolver as dificuldades. As suas objeções poderão contribuir, então, para um real progresso, estimulando o Magistério a propor o ensinamento da Igreja de uma maneira mais aprofundada e melhor argumentada. Nestes casos o teólogo evitará recorrer aos « mass-media » ao invés de dirigir-se à autoridade responsável, porque não é exercendo, dessa maneira, pressão sobre a opinião pública, que se pode contribuir para o esclarecimento dos problemas doutrinais e servir a Verdade.” (§30).

Essa parte do ofício do teólogo, agindo com um espírito leal, animado pelo amor à Igreja, pode, por vezes, ser uma provação difícil: “Para um espírito leal e animado pelo amor à Igreja, uma tal situação pode certamente representar uma prova difícil. Pode ser um convite a sofrer, no silêncio e na oração, com a certeza de que, se a verdade está de fato em questão, ela terminará necessariamente por impôr-se.” (§31).

No entanto, o empenho crítico em relação a atos do Magistério nunca deve se tornar uma espécie de “magistério paralelo” dos teólogos (cf. §34), pois este deve ser submetido ao juízo do Soberano Pontífice, que tem “o dever de guardar a unidade da Igreja, com a preocupação de oferecer a todos a ajuda para responder no modo oportuno a esta vocação e graça divina” (Carta Apostólica Ecclesiae Unitatem, §1).

Assim, nós podemos ver que há, para aqueles que na Igreja têm o mandato canônico ou a missão de ensinar, espaço para um compromisso verdadeiramente teológico e não-polêmico para com o Magistério. Intelectualmente falando, contudo, nós não podemos nos satisfazer meramente com o gerar e sustentar controvérsias. Os problemas teológicos difíceis só podem ser adequadamente tratados pela analogia da fé, isto é, a síntese de tudo o que o Senhor nos revelou. Nós devemos ver cada doutrina e artigo de fé como sustentador de outros, e aprender a compreender a íntima conexão entre cada elemento de nossa fé.

Para um comprometimento no estudo da teologia, devemos ter uma adequada formação cultural, bíblica e filosófica. Penso, por exemplo, na passagem do Código de Direito Canônico de 1917 impressa na introdução da edição Benzinger em inglês, de 1947, da Summa Theologiae: “Os religiosos que já estudaram humanidades devem se dedicar por dois anos, no mínimo, à filosofia, e por quatro anos à teologia, seguindo o ensinamento de Santo Tomás de acordo com as instruções da Santa Sé”. (CIC 1917, can. 589).

Consideremos a sabedoria expressa nesta diretriz: a teologia deve ser empreendida apenas por aqueles que foram adequadamente formados, tanto em humanidades como em filosofia. Recentemente, a Congregação para a Educação Católica exigiu que o estudo da filosofia continue por três anos durante a formação sacerdotal. Sem esta amplitude de aprendizado, nossa pesquisa teológica não terá o rico solo da cultura no qual a fé se enraíza e que é indispensável para compreender plenamente tanto os conceitos filosóficos e os termos que fundamentam as formações da Igreja.

Se nos concentramos apenas nas questões mais difíceis e controversas — que, certamente, precisam receber cuidadosa atenção — podemos, com o tempo, perder um senso da analogia da fé e começar a ver a teologia principalmente como uma espécie de dialética intelectual de afirmações concorrentes, em vez de um compromisso de sabedoria com o Deus vivo que se revelou a nós em Jesus Cristo e que inspira os nossos estudos, a nossa pregação, o nosso zelo pastoral pelo Espírito Santo.

Conclusão

O Papa Bento XVI, em seu magnânimo exercício do munus Petrinum, tem se esforçado em superar as tensões que existem entre a Igreja e a vossa Fraternidade. Uma plena reconciliação eclesial traria um fim imediato às suspeitas e maus sentimentos que temos experimentado?  Talvez não imediatamente.

Mas o que estamos buscando não é obra humana: estamos buscando a reconciliação e a cura pela graça de Deus sob a amorosa direção do Espírito Santo. Recordemos os efeitos da graça articulados por Santo Tomás: curar a alma, desejar o bem, levar a cabo o bem proposto, perseverar no bem e, finalmente, alcançar a glória (cf. Summa theologiae 1a.2ae, 111, 3).

Nossas almas precisam primeiro ser curadas, ser purificadas da amargor e do ressentimento que vem de trinta anos de suspeitas e aflição de ambos os lados. Nós precisamos rezar para que o Senhor possa nos curar de qualquer imperfeição que surgiu precisamente por conta das dificuldades, especialmente do desejo de uma autonomia que está, de fato, fora das formas tradicionais de governo da Igreja. O Senhor nos dá a graça de desejar certos bens, neste caso o bem da plena unidade e comunhão eclesial. Este é um desejo que muitos de nós compartilham, humanamente falando, mas o que precisamos do Senhor é que Ele permita que este desejo permeie nossas almas, para que possamos desejar com o mesmo desejo de Cristo ut unum sint.

Só então a graça de Deus nos permitirá realizar o bem proposto. É Ele quem nos estimula à reconciliação e nos leva a completá-la.

Este é o momento de extraordinária graça: abracemo-la com todo o nosso coração e mente. Enquanto nos preparamos para a vinda do Salvador do mundo durante este tempo do Advento no Ano da Fé, rezemos e esperemos corajosamente: não podemos também antecipar o anseio pela reconciliação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X com a Sé de Pedro?

O único futuro imaginável para a Fraternidade Sacerdotal se encontra no caminho da plena comunhão com a Santa Sé, com a aceitação de uma completa profissão de fé em sua plenitude, e então com uma vida eclesial, sacramental e pastoral propriamente ordenada.

Tendo recebido do Sucessor de Pedro o encargo de ser um instrumento na reconciliação da Fraternidade Sacerdotal, ouso fazer minhas as palavras do Apóstolo Paulo ao nos encorajar “que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, com toda a humildade e amabilidade, com grandeza de alma, suportando-vos mutuamente com caridade. Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz”.

Sinceramente vosso em Cristo,

+ J. Augustine Di Noia, O.P.

* Sugestões e correções são bem-vindas.

28 Comentários to “Carta de Dom Di Noia aos membros da Fraternidade São Pio X.”

  1. Prezados do Fratres,

    A tradução é esta mesmo? Apenas do preâmbulo?

    Com orações

    Ze Carlos

  2. Um zelo desordenado é o quarto vício. Desordenadamente zeloso sobre tudo, os homens emitem juízos sobre tudo o que vêem, não esperando o tempo e o lugar adequado; e a confusão surge na sociedade.

    Essa foi na medida para muitos pseudos-tradicionalistas.

    Eu tenho uma cachorrinha, filhote ainda menos de um ano, que toda vez que vou lhe servir a ração ela começa a pular que sem louca, a salivar, a latir, etc… e só se acalma quando coloco o pote de ração no chão e ela então enche a barriga.

    Alguns trads são assim. Quando surge a mínima chance de se oporem, ficam que nem cães enlouquecidos, salivando todo seu ódio e rancor, só se tranquilizando quando descarregam toda sua artilharia desconexa contra o alvo da vez. E quando alguém tem uma visão diferente, logo a pessoa é taxada de modernista.

    E quando a questão envolve a fsspx, por essa não ter agido no tempo que essas pessoas gostariam, logo ela é taxada, principalmente o seu superior, de traídores.

    Aguardar a tradução terminar para um melhor juizo. Mas logo se pode concluir que é impossível concordar com tudo nessa carta, A questão da unidade é vista mais pelo lado místico. A questão jurídica, onde o Papa exerce o controle magisterial da Revelação para preservar a unidade, é ignorada ou diminuida.

    Como condenar as posições da fraternidade?

  3. Ouçamos o que Agostinho tem a dizer àqueles que dividem a Igreja: “Vós não tendes caridade porque, por vossa honra, causais divisões na unidade. Compreendei disso, então, que o espírito é de Deus… Vós estais vos retirando da unidade universal, estais dividindo a Igreja com cismas, estais despedaçando o corpo de Cristo. Ele veio na carne de modo a uni-lo; vós estais gritando de modo a dispersá-lo”

    Bastaria a Igreja repetir isso aos protestantes e cismáticos, e um dos problemas – o ecumenismo – já cairia por terra.

  4. Salve Maria!

    Não se trata de orgulho e nem prepotência por parte da FSSPX. A existência dessa Fraternidade está diretamente ligada ao verdadeiro amor a verdade. Desde o seu nascimento o que move o coração de seus padres é a verdadeira unidade.

    Dom Marcel Lefebvre empreendeu todos os esforços possíveis para que a Santa Sé retomasse a barca de Pedro em seu curso normal.

    Creio que é oportuno relembrarmos alguns fatos históricos onde veremos claramente os resultados de um acordo prático. O que aconteceu com Campos (RJ) talvez seja uma boa lição para refletirmos.

    Disponibilizo um vídeo com a leitura de “alguns extratos de uma conferência de Dom Marcel Lefebvre. A dita conferência tem várias qualidades. Além de tratar com profundidade da questão da visibilidade de Igreja em meio à crise terrível que atravessamos, traz o pensamento autêntico de Dom Marcel Lefebvre, tal como ele o expôs aos seus padres pouco tempo depois de Dom Gérard Calvet ter feito seu acordo com o Vaticano, respondendo a alguns argumentos teológicos que este desenvolveu numa publicação do jornal Présent do dia 18 de agosto de 1988. Mesmo se em determinadas cartas, como é natural, S. Exa. tenha falado com maiores cuidados na esperança de mover os adversários a compreender e aceitar a Tradição, não resta dúvida de que seu pensamento estava longe de aceitar o Vaticano II ou a Missa de Paulo VI. Dom Lefebvre responde, assim, com antecedência aos argumentos que tentam justificar a atual posição de Campos.”

    (Retirada da revista Fideliter 66 de novembro/dezembro de 1988, p. 27-31).

  5. Falácias, falácias, falácias.
    Uma verborragia estéril que só encontra eco em ouvidos complacentes. Se o arcebispo di Noia representa Roma, então está mais uma vez EVIDENTE que Roma continuará multiplicando as palavras e falando de tudo, mas NÃO SE DEBRUÇARÁ SOBRE A QUESTÃO DOUTRINAL.
    As inúmeras demonstrações da ruptura do Vaticano II com a Igreja de sempre não terão resposta. Monsenhor, basta destas cortinas de fumaça. Seria muito mais proveitoso para todos se a carta fosse escrita para elucidar a questão do ecumenismo, da liberdade religiosa, da colegialidade episcopal, da missa nova!
    Vocês são constrangidos diariamente a responder os argumentos da FSSPX! Quantos e quantos livros, como A Candeia debaixo do Alqueire, quantas e quantas demonstrações históricas da fraude de Bugnini, do sequestro do Concílio nas mãos dos modernistas, das contradições gritantes entre o que os papas ensinavam antes e depois… Porque nesta carta não se tratou do pacto de Metz, porque não se tratou do silêncio em consagrar a Russia?
    Porque, arcebispo, porque você se cala? Porque gasta tanta energia em ludibriar os cristãos, mas não dá uma solução para esta avalanche de problemas?
    Porque tenta transparecer estes problemas gravíssimos como se fossem disputas secundárias?
    Monsenhor Gherardini está sem resposta. Nós estamos sem respostas. E suas palavras adocicadas não condizem com o que praticam. Esse irenismo romântico se baseia em que? Na VERDADE?
    Não. Vocês crêem no ecumenismo, na liberdade religiosa, na santidade da missa que Bugnini fez com os hereges que negam a Renovação do Sacrifício do Calvário.
    Nós não cremos em nada disso.
    Quer se unir a nós baseados em que? Se não é na verdade, querem o que? A unidade pela unidade?
    Falácias, falácias, falácias.
    Quando vocês inauguraram as práticas abomináveis do ecumenismo, e o encontro de Assis, não foram condenados pela FSSPX. Pio XI já os condenou. Quando disseram sim para a liberdade religiosa, não foram censurados pela FSSPX. Pio IX já os condenou também.
    Renunciem ao liberalismo, hierarcas da Igreja. Renunciem à verdade hegeliana de formar sínteses a partir de realidades opostas e contraditórias. Não há união entre a luz e as trevas, não há união entre Cristo e Belial, seja vosso sim, sim, e vosso não, não! Não se pode servir a dois senhores! Não nos peça para abandonarmos a rocha do ensino perene e nos misturarmos convosco e com vossas desastrosas práticas. Dai a César o que é de César, dai a Deus o que é de Deus! Vocês querem nos agradar, mas querem agradar os judeus, o islã, os governos, os inúmeros e suspeitos grupelhos que deformam a igreja.
    Tentam nos lisonjear com tanto palavreado inútil, mas do Vaticano II não mencionam um só jota. Como podem vir falar em fazer a vontade de Deus nomeando um cardeal do cabedal de Muller para a defesa DA FÉ?????? E quem dera fosse apenas ele!!!! Quantos modernistas receberam o chapéu e a mitra de Bento XVI? Quantos Brás de Avis, etc etc etc?

    Ai de nós que estamos desamparados! Onde estão as sentinelas da FSSPX que permitem um proselitismo descarado chegar aos sacerdotes via Menzingen? Que conluio é este? Como podem permitir que tantos padres sejam particularmente tentados desta maneira? O que acontece, D. Fellay, se os padres resolvem simplesmente acatar este absurdo? Vai repetir de novo a resignação do ano passado, e dizer que se Roma quiser mesmo, não haverá mais como se opor?

    O arcebispo exortou a FSSPX a abandonar a retórica contraproducente, e não vi um padre se levantar contra isso! Estão anestesiados??? Então agora a FSSPX admite que isso é verdadeiro? Porque estes escrúpulos mundanos? O que a FSSPX têm a perder se Roma – sem suprimir as doutrinas novas – simplesmente perder as estribeiras?

    Quando vier o filho do Homem, achará Fé sobre a Terra? Deus não nos pede a vitória, mas nos pede O COMBATE! Se Di Noia fez uma carta cheia de verdades, mas não solucionou as questões que contradizem o ensino constante, então sua carta não serve para os católicos.
    E se não serve para nos confirmar, melhor que volte para onde veio, ao invés de nos tentar. E para quem deseja se misturar com quem não crê no que sempre foi ensinado, lembrai-vos das Escrituras: “Quem ama o perigo, nele perecerá”.

  6. “Tem sido um erro fazer de todo ponto difícil na interpretação teológica do Vaticano II uma matéria de controvérsia pública, tentando influenciar aqueles que não são teologicamente esclarecidos a adotar um ponto de vista particular a respeito de matérias teológicas sutis.”

    “To engage in the study of theology, we must have adequate cultural, biblical, and philosophical training.”

    Muito pertinentes estas frases de Dom DiNoia. Se formos analisar os comentários postados e muitos outros que, com certeza ainda o serão, não passam de meras opiniões, sem qualquer nexo com a realidade. São puros flatus vocis. Antes se não fossem proferidos….

  7. Obrigado Fratres, porque sem receber nada em troca, trabalham pelo nosso bem. Escrevo isso porque entre tantas pauladas, há quem é realmente grato. Há publicações que não concordo, mas nunca reclamei, afinal, de longe, o Fratres é o melhor blog da internet católica. Sem selo, sem concurso “top blog”, sem shows de falsos bom mocismos, isso é o Fratres.

    Grato!

  8. Minha primeira postagem refere-se exclusivamente nas relações entre católicos tradicionais e autoridades do Vaticano.

    Não diz respeito a legítima oposição aos males que ocorrem na Igreja e que devem ser denunciados para o bem das almas, nem a um servilismo em relação as autoridades romanas.

    No mais, para alguns legitimarem uma oposição canil à fsspx, é preciso sustentar que toda essa desviou-se do seu caminho, não só seu Superior, como os outros dois bispos e todos os superiores distritais.

    Não temos nada a ensinar à Fraternidade. É mais legítimo supor que a obra de Dom Marcel Lefebvre tenha sido abrigo de sede-vacantistas infiltrados, que agora retiraram as mascaras, do que o abrigo de modernistas prontos a cederem aos pontos que sempre foram defendidos pelo heróico bispo.

  9. O problema anterior a tudo dito é um só: o problema é que são inimigos de Deus ou da Verdade antes de serem inimigos nossos ou da nossa Fé. Aí, a Caridade muda de lugar, pois não pode haver Caridade sem o zelo pela Verdade. O tão citado São Paulo responde plenamente ao Cardeal como respondeu a Timóteo na II Tim 3 (segunda a Timóteo capítulo três e mais o capítulo quatro até o verso cinco, se preferirem alongar mais um pouco). Quando a briga é contra Deus em primeiro lugar, temos de tomar o partido de Deus ou vamos querer amar mais do que o Amor ou como pretende Roma, vamos querer unir toda a terra num único rebanho, o que só o Pastor e Rei pode fazê-lo e sem deixar de reinar e sem enganar ou trair a Verdade, não contradizendo a Ele mesmo.

  10. Eu vejo pelo menos um ponto positivo nessa carta de Dom Di Noia, quero dizer, dois. Primeiro, o reconhecimento da obra do Bispo Marcel Lefebvre como um dom de Deus. Em todas as crises da Igreja, Nosso Senhor suscita homens e mulheres para as vencerem. Nesses tempos, a FSSPX seria o principal instrumento de Deus para combater o neomodernismo que se instalou no seio eclesial. Segundo, a vontade da Santa Sé de continuar as conversações com a Fraternidade.
    Agora vêm os problemas. Por que os dicastérios da Igreja possuem esse tratamento tão rigoroso com a Fraternidade, a respeito da unidade, da necessidade da união com a única Igreja de Cristo, com o Sucessor de Pedro, quando essas mesmas palavras não são ao menos citadas nos diálogos com os cristãos não-católicos e com os não-cristãos? Di Noia cita Santo Agostinho: “Fora da Igreja não há ação do Espírito Santo”. Então Dom Di Noia, que está certo? Agostinho com a Tradição da Igreja ou o Concílio Vaticano II ensinando que fora da Igreja existem muitos elementos de santificação e verdade?
    Por que as discussões da FSSPX devem ser às ocultas e não às claras? Medo de desacreditar o Concílio perante os protestantes e os membros de outras religiões, perante o mundo, perante os modernistas? Medo de desacreditar o Magistério pós-conciliar? São muitas perguntas e nenhuma resposta da hierarquia da Igreja.
    Eu admiro muito o Santo Padre e sua coragem em realizar diversas mudanças na Igreja. O próprio ensino da hermenêutica da continuidade já é muito corajoso. Ele está rodeado de lobos. Claro, ele não abre mão do Concílio. Mas ele também já o criticou e muito, principalmente quando cardeal. Sem falar de suas palavras severas sobre a reforma litúrgica pós-conciliar. Que Deus nos ajude.

  11. o Fratres é o melhor blog da internet católica. Sem selo, sem concurso “top blog”, sem shows de falsos bom mocismos, isso é o Fratres.

    Grato!
    Concordo plenamente!

  12. Parabéns ao Bruno Santana pelo comentário.

    Eu vejo a carta como a história do sujeito que para aparecer, para uma briga de dois e com uma mão na lapela e a outra com o dedo para o alto, faz um belo discurso com palavras pacificadoras, é logo vaiado e expulso do ringue e a briga continua.
    Teve seu momento.

  13. Sr. Pedro Henrique,
    Salve Maria!

    O senhor poderia explicar a sua afirmação ao dizer: “É mais legítimo supor que a obra de Dom Marcel Lefebvre tenha sido abrigo de sede-vacantistas infiltrados, que agora retiraram as mascaras…”

    1. Em que se debruça tal afirmação?
    2. Quem são eles? O senhor os conhece pessoalmente?
    3. Tem certeza de que é verdade?
    4. Qual foi o fator determinante para essa conclusão?

    Em Jesus, Maria e José,

  14. Luiz, Deus lhe pague! Todas as correções já foram feitas.

  15. Prezado sr. Cândidido

    Creio que o sr. não compreendeu bem o que escrevi, pois são muitas exigências de respostas para uma SUPOSIÇÃO. Tratando-se, pois de uma hipótese, o sr. não tem o direito de exigir tais respostas.

    Fazemos hipóteses e suposições com aquilo que os fatos já conhecidos nos revelam e nos permitem deduzir certas consequências.

    Não sou eu quem fez ou faz uma afirmação categórica. São os opositores de Dom Fellay, e por consequência de toda a FSSPX fiel a seu superior (incluindo os outros dois bispos), que afirmam categoricamente que a FSSPX é ou está se tornando modernista, rotulando-a acintosamente de neo-fsspx.

    Isso são fatos. Não inventei nada.

    Sabemos que os superiores na Igreja Católica tem uma grave obrigação. Mas essa grave obrigação não os torna imune ao pecado e ao erro.

    Há uma grande diferença entre uma correção fraterna e pedidos de explicações quando alguma coisa não ocorre como deveria, para uma oposição obsitinada e ferrenha, resultado de um movimento revolucionário na fsspx cujo objetivo é derrubar o Superior e impor a própria linha.

    Tratam os bispos da fraternidade e os superiores de distritos já como inimigos. O argumento de que o fiel tem o direito de opor a seus superiores quando a fé está em perigo é apenas um canto de sereia. Uma falácia.

    E para justificar tal movimento sem cair no rídiculo, só resta mesmo a afirmação de que a fraternidade declinou de sua missão e traiu seu fundador. O exagero é a marca dos enganadores, meu caro. Teve uma pentelha aí na esgotosfera pseudo-tradicionalista que até deu um pito num dos outros dois bispos, afirmando que esse tinha noção equivocada de obediência. Quanta arrogância, não?!

    Aí criam uma falsa divisão. Ou seja, de um lado os revolucionários que pintam a si próprios como os mais fieis discipulos de D. Lefebvre e defensores da Tradição, justificando todo tipo de oposição, e do outro lado os traidores da Tradição e seguidores de D. Fellay, que bobinhos, não agem como deveriam e nem com o grau de firmeza (diria eu hostilidade) que os revolucionários gostariam. Verdadeiros iluminados. Isso é absolutamente falso. Cria um estereótipo que não corresponde a realidade para quem discorda desse grupo e justifica a própria ação com um conjunto de mentiras.

    É lógico que é permitido divergir do Superior, mas sem negar-lhe as prerrogativas. Discordar de uma linha de conduta nem sempre significa que os fieis correm perigo em sua fé. Uma proposição errônea proferida num momento de infelicidade não significa a traição da obra de D. Lefebvre.

    A Igreja é indestrutível. Seus inimigos podem tentar destrui-la e corrômpe-la em sua fé, mas jamais terão êxito. E os fieis membros dessa Igreja são edificados apenas sobre a autoridade do Romano Pontífice. Não sou eu quem diz. É Cristo, cuja palavra realiza infalivelmente o que significa em todas as época.

    E sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.

    A Igreja continua Santa e sem mácula ainda hoje e continuará assim até o fim dos tempos.

    E é por isso que é de louvar todo o esforço da Fraternidade em buscar a união com a Santa Sé sem trair a tradição católica. A Igreja recusou-se a excomungar, por exemplo, que sustentasse uma proposição contrária a contida no documento sobre a liberdade religiosa.

    Já me prolonguei demais.

    Resumindo, apenas levando em conta os acontecimentos recentes e declarações daqueles que se opõem a ‘atual’ fsspx, o que é mais legítimo SUPOR:

    Que a fsspx tenha se tornado, ao longo dos anos, abrigo de sede-vacantistas disfarçados ou de modernistas?

    Lógico que o ambiente alí era mais propício para abrigar os primeiros. Os segundos se preocupam em destruir e ocuparem cargos oficiais na Igreja Católica. Não num movimento que eles já consideram vencido e cuja batalha não demandaria tantos esforços, já que estes ocupam cargos privilegiadíssimos na Igreja.

  16. Por nada, Ferretti!

    No que eu puder colaborar, conte comigo.

    Um abraço,
    Luiz Fernando
    BH – MG

  17. A leitura desta carta, desperta um questionamento sumamente angustiante :
    Se a voz clamante da Fraternidade tanto tem causado incômodo à Roma modernista, por que ao invés de tão empenhadamente, a todo custo, tentar silenciar este clamor, estas autoridades eclesiásticas não se preocupam em verdadeiramente sanar aquilo que tão urgentemente demanda necessidade de correção na Igreja ?
    Em toda esta omissão ( e cumplicidade ) , por parte destes dignatários da Igreja, ao longo destes 50 anos, para com esta incontrolável e crescente ” bola de neve ” das consequências nefastas advindas a partir do Concilio Vaticano II, é que reside, de fato, a gênese da ruptura com a Unidade da Igreja . Aqueles que levantam suas vozes em oposição a tais erros, distorções e inverdades, não são os que conspiram contra esta Unidade, mas sim os que heroicamente se empenham em manter o que resta dela
    .
    Agora, quanto às tentativas de restringir o Carisma de Dom Lefebvre, tão somente ao âmbito da formação sacerdotal, nada melhor do que antepor a leitura da coletânea de seus escritos e conferencias, intitulada : Do Liberalismo à Apostasia – a Tragédia Conciliar . Acessível gratuitamente, em português, aqui :
    http://www.saotomas.com/livros/Portugues/Doliberalismoaapostasia.pdf

  18. Só mais um pequeno detalhe:

    A fraternidade não pode impedir que a Ecclesia Dei lhe envie uma carta.

    A carta foi enviada a poucos dias. Exigir que a fraternidade responda prontamente a cada declaração de Roma chega a ser infantil.

    E é falso que ela vem se omitindo. Só entrar no site do distrito americano que as últimas questões envolvendo a fsspx foi respondia. A questão do judaismo, com um trabalho de john vennari publicado no site. A questão da heresia em relação ao CV II com um trabalho de 4 partes.

    Além dos diversos congressos que estão realizados.

    Sem falar do livro do Abbé Jean-Michel Gleize sobre questões disputadas do CV II. O mesmo que respondeu a monsenhor Ocariz.

    Calma, bicho… a carta foi enviada há alguns dias.

    Antes de cuspirem nas autoridades “que silenciam”… aguardem um tempinho para ver qual atitude será tomada.

  19. Agradeço a pronta tradução dos editores do blog. Que a Virgem derrame copiosas graças em todos aqueles que levam esse apostolado sobre os ombros. Só um comentário: pedem que a FSSPX seja fiel ao carisma de D. Lefevbre, mas não se pode esquecer que lá atrás ele foi suspenso “a divinis” por seguir seu carisma…

  20. Bem, estou com todos que elogiaram sabiamente o Fratres. A este blog meus elogios e minhas gratidões.
    Concordo, como sempre, com o Bruno Luís Santana, Deus o torne santo!

    Só avaliando um trecho interessante:
    “[...] é claro que algo novo deve ser inserido em nossas conversações se não quisermos parecer, diante da Igreja e do público em geral, e, de fato, a nós mesmos, como que engajados em um intercâmbio de boas intenções, mas interminável e estéril.”
    Engraçado que, evidentemente não é este o contexto, mas esse trecho define tão perfeitamente essas relações “ecumênicas” de Roma com os hereges e cismáticos. É, de fato, “um intercâmbio de boas intenções, mas INTERMINÁVEL e ESTÉRIL”!

    Deus nos guarde!

  21. Caros FRATRES;
    Nada de se espantar, vindo da Nova Roma.
    Quanto ao Mons. Fellay e seus auxiliares, seria muito bom, rever, repensar e reavaliar a possibilidade de “diálogo”.
    Ao que o texto indica, o “diálogo” seria apenas a “versão romana”, que seria “democraticamente imposta” à FSSPX.
    Pelo pouco que leio e estudo da Obra de Mons Lefebvre, acredito que não seria essa a atitude do Atanásio do século XX.
    Ao contrário, Mons. Lefebvre não aceitou as “condições” que lhe foram “sugeridas”.
    Fidelidade a Deus e à Obra de Mons. Lefebvre, senhores, somente isso pedimos: Fidelidade.
    Afinal, é com essa gente modernista e apóstata que o Mons Fellay quer se unir?
    Hummm…
    Rezemos!

  22. Off topic, visitem http://www.padrerodolfokomorek.blogspot.com e conheçam a vida deste santo sacerdote que viveu e se doou pelo nosso povo através do ministério das confissões e uma vida de piedade, penitência, zelo litúrgico e amor a Nossa Senhora.

  23. Eu fico espantado com comentários do tipo: Por que a FSSPX não se pronuncia? Parece que perdeu o fervor! É engraçado como as pessoas não tem um pingo de paciência e prudência. Acham que o superior da FSSPX tem que dar satisfações imediatamente para confortar o afobamento de um pequeno grupo. Calma, calma afobados “setenciadores” de plantão. Queria ver um de vocês na pobre pele do Superior Geral com o mundo explodindo em suas cabeças. Aprender a fazer silêncio, esperar, refletir ninguém quer, não é? Claro, é mais gostoso vir aqui e “descer a língua”.

    Pelos comentadores e setenciadores profissionais, miserere nobis!

  24. A encruzilhada da Santa Sé é bem mais séria que mera doutrina. E é isso que deve ser focado. Por que ela não resolve logo suas questões doutrinárias dúbias? Porque precisa dele, enquanto meio de convencer certos não-cristãos pragmaticamente.

    Explico. A Santa Sé, com o Vaticano II interpretado da maneira semi-modernista (alguns chamam de neocon, mas isso é excessivamente injusto para com neoconservadores americanos), consegue fazer 1) uma atividade diplomática feroz (tal como aconteceu no Rio ano passado, chutando as feministas, por exemplo); 2) consegue ter algum tipo de aceitação entre grupos de inimizades históricas, permitindo uma aceitação mais “fácil” (veja a Mongólia, que agora permitiu o catolicismo em seu país, ou alguns países islâmicos na década de 60 e 70, antes da vinda do fundamentalismo); 3) consegue soar mais palatável para não-cristãos. Nisso ela perde obviamente 1) o seu império próprio, já que esses contatos relativizam de facto posições católicas irrenunciáveis; 2) a doutrina, já que a sensação de transformação do ser católico em mero fato de origens históricas, puro, ao invés da contínua busca da perfeição cristã pela virtude teologal da caridade, faz com que esmoreçam na busca de ser como Cristo; e 3) transforma o posicionamento doutrinal católico em certas questões como mera opção.

    A grande confusão para estar no último 3), porque os ditos católicos dissidentes utilizam da ausência de posição dogmática em relação ao Magistério Ordinário para restringir-lhe o âmbito.

    A Santa Sé precisa saber que a posição do primeiro ponto durou em efetividade meros 30 anos. Agora ela já não convence ninguém, e só leva pessoas para o Inferno com mais facilidade. A Santa Sé não precisa mais dessa dubiedade, pois isso já se mostrou falso até aos nossos inimigos.

    Mas nunca nos esqueçamos que nós devemos colocar nossos corações em Nosso Senhor Jesus Cristo, para sermos perfeitos e exigirmos o devido respeito dos membros da Igreja em geral à nossa participação imerecida na divindade de Nosso Salvador, cujo Céu que nos foi prometido é a nossa única Esperança… A dor nos purga, mas ela é bela, porque permite que o Consolador venha e, pelos dons do Espírito Santo, faça em nós a suavidade de senti-lo agir sobrenaturalmente por nós. Nós, por resistirmos à modernidade, aos seus enganos, aos seus melindres, com toda a violência que sofremos, mostra que o Espírito Santo vem agindo continuadamente sobre seus membros. Amemos nosso sofrimento, pois ela é a razão dos santos dons!

    Um abraço,

    Pedro Henrique Quitete Barreto

  25. Quando vier o filho do Homem, achará Fé sobre a Terra? Acho dificil porque até os que se dizem “defensores da Fé” parecem ter perdido ha muito tempo a fé naquelas palavras de Jesus: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.”( Mt 28, 20) e Mateus 16:18 Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
    Não se defende aquilo que você mesmo não tem. Pra essa gente a Igreja acabou ( ecclesia vacantistas), a barca de Pedro afundou ( Sede vacantistas ainda que neguem) e agora chegou a hora de pular em barquinhos de gente de idoneidade pra lá de duvidosa, teóricos de conspiração e semeadores de divisão que agem exatamente como os protestantes que eles dizem condenar, fundando seitas a pretexto da defesa da Fé.
    Que Fé é essa que ao invés de dar esperança aos fiéis os conduzem a esse “espírito de rinha”? Fé é uma virtude que conduz à Esperança e essa por sua vez se transforma em Caridade.
    Onde foi parar a caridade cristã? Estão como os fariseus gritando pra Jesus: BLASFEMOU!!! Aqui a ordem do dia é: APOSTATOU!!! Senhores, façam as apostas!! Querem apostar quanto que a FSSPX vai apostatar, vai trair a Tradição, vai cair no modernismo!
    Quanto ao Papa, o que a gente ouve nas conferencias do Bispo rebelde Dom Williamson é que o Papa e agora até Dom Fellay são agentes do demônio levando as almas para o inferno. Pelo menos essas foram suas palavras na homilia da cerimonia de confirmação que ele deu em Toronto no último dezembro de 2012 ( Youtube).
    O que eu tenho notado nos diversos posts dos seguidores de Dom Williamson pela net é que todos eles sem excessão estão incorporando o mesmo espírito sarcástico, zombador e caluniador do mestre que ajuntaram para si. E pra esse tipo de gente eu dou o mesmo conselho do Apóstolo Paulo: Afasta-te porque as palavras dessa gente ferem como gangrena.

  26. É isso aí!!! Dom Di Noia tem razão: Cada qual no seu quadrado!!!