“É um tempo perigoso. Reze por nós”.

Nossa tradução das sempre inspiradas cartas de Roma de Robert Moynihan:

roma12Dirigindo por uma rua próxima ao Vaticano há cerca de duas horas, no fim da tarde de segunda-feira, quando começava a escurecer, vi alguém que eu reconheci, de pé esperando o sinal abrir para atravessar a rua.

Um Cardeal.

Eu o conhecia. Já havíamos conversado no passado.

“Vou parar e ir até ele”, disse a mim mesmo. “Talvez ele fale comigo”.

“Não”, pensei. “Vou deixá-lo em paz. Ele tem direito à privacidade. Ele estará num conclave amanhã; não há necessidade de segui-lo. Vou simplesmente deixá-lo ter a sua última caminhada tranquila antes do conclave”.

“Não”, disse, “há um motivo pelo qual ele está bem ali na esquina, apenas esperando o sinal abrir, assim como um motivo pelo qual estou aqui…”

“Ok, mas eu não irei perguntar nada a ele, só direi uma coisa. Uma única coisa, e só. Direi que eu amava o Papa Bento”.

Tomei a minha decisão.

Virei de uma vez o volante, parei o carro na beira da calçada, desliguei a chave, saí do carro, bati a porta, apertei o controle no chaveiro para trancar o carro e corri para o outro lado da rua a fim de que eu me encontrasse com ele quando ele atravessasse. Um motociclista quase me atropelou quando eu corria.

Cheguei ao outro lado, virei e olhei para trás. O cardeal ainda estava serenamente de pé do outro lado da rua. Em torno dele agora havia um pequeno grupo de jovens que visitavam Roma, no que parecia ser uma excursão escolar. Ele permanecia no meio deles. Eles não o reconheceram, pois ele estava vestido como um clérigo comum.

“Hmmm”, pensei, “pensando bem, eu não tenho certeza se ele tem mais ou menos de 80 anos — se ele irá votar ou não amanhã. Talvez eu pudesse questioná-lo sobre isso também”.

O sinal abriu e todo o grupo, cerca de 20 jovens com um ancião no meio, com pouco espaço ao lado dele, começou a atravessar a rua.

No meio do caminho, ele me viu e viu que eu olhava para ele. Tentei avaliar se ele estava de alguma forma incomodado por me ver, se estava evitando olhar nos meus olhos, para sinalizar que ele simplesmente queria ser deixado em paz. Mas ele olhou para os meus olhos diretamente.

“Ele me reconheceu”, pensei. “Não significa que ele irá discutir o conclave comigo — claro, ele manterá o sigilo — mas ele me cumprimentará”.

Então dei três passos em direção à rua e estendi minha mão. Eu ainda pensava se ele seria frio e relutante até em iniciar uma conversa. Mas fiquei surpreso. Ele estendeu a mão.

“Eminência”, disse.

Em seus olhos ele me dizia que não poderia responder a nenhuma pergunta.

Mas ele não estava excluindo toda conversa. Então me aventurei…

“Eu apenas queria dizer uma coisa ao senhor”, afirmei. “Que eu amava o Papa Bento”.

Ele ficou parado.

“Eu também, eu o amo”, disse o cardeal.

“E por isso fiquei perturbado e sem chão desde 11 de fevereiro”, disse.

E então, como se tomado por uma emoção repentina, vi a face do cardeal ficar vermelha e triste e ele dizer de maneira firme: “Eu o amo também, mas isso nunca deveria ter acontecido. Ele nunca deveria ter deixado o seu ofício”.

Fiquei em silêncio.

“É como um homem e a mulher, marido e esposa, mãe e o pai em relação aos filhos”, ele disse. “O que eles dizem?”. Parecia que ele me perguntava.

Fiquei em silêncio.

“Eles dizem, ‘até que a morte nos separe’! Eles ficam sempre juntos”.

Então compreendi que ele estava afirmando que o Sucessor de Pedro nunca deveria renunciar ao trono, não importasse o quanto saturado e cansado, mas sim deveria continuar até a morte.

Senti que as palavras que ele dizia eram as palavras de um argumento que poderia ter sido usado mesmo entre os cardeais, mas, é claro, poderia não ser o caso.

Mas vi que eu estava captando um reflexo de como ao menos um cardeal pensava sobre a renúncia do Papa.

“Eminência”, disse, “Eu me esqueci. O senhor tem mais de 80 anos ou não?”

“Ainda não tenho 80″, ele respondeu.

“Então o senhor irá votar amanhã”.

Ele respondeu que sim com a cabeça, e cruzei um olhar sobre os seus olhos que pareciam tomados de sombras e preocupações. Fiquei surpreso com a sua intensidade. Fiquei surpreso com toda a conversa.

Ele apertou a minha mão. “Há algo mais no que possa ajudar?”, perguntei.

“Reze por nós”, ele disse. “Reze por nós”.

Ele se virou como se precisasse ir.

“Tenho que ir”.

Deu um passo adiante e virou-se novamente.

“É um tempo perigoso. Reze por nós”.

Acho que devemos fazer como ele pediu.

16 Comentários to ““É um tempo perigoso. Reze por nós”.”

  1. Junto com o Fratres, as cartas do Moynihan têm sido parte das minhas leituras diárias. Eu recomendo muitíssimo, aos que sabem inglês, que leiam também a carta posterior a essa.

    Além disso, nas publicações anteriores dele, são desmistificadas algumas fofocas que a imprensa propaga e que muitos de nós, como patinhos, abraçamos.

    O Conclave começa, redobremos as orações.

  2. Parafraseando um velho ditado jurídico (ainda há juízes em Berlim): ainda há sacerdotes em Roma.

  3. ‘Terço na mão e joelho no chão’, como bem disse o meu pároco, um dos poucos santos sacerdotes que honram sua função.

  4. 13:31
    “Extra omnes”,

    Oremos!!

  5. Enquanto a minoria está o Terço na mão e joelho no chão, a MAIORIA está assistindo a novela da sete

  6. Como é que conseguem tantas declarações exclusivas?
    Manifestar tão imprudentemente o seu inconformismo com a renúncia do Papa e ainda por cima fazer uma analogia rasa ( a preferida da maioria dos anti-católicos ) com os deveres do Matrimônio?
    E num tom tão ridiculamente melodramático, mais parecendo ficção de quinta categoria?
    Notável também, que as declarações fora “puxadas” a partir do inconformismo e desalento do autor do texto. E, como se não bastasse, depois da afirmação do cardeal de que estava impedido de dar declarações….
    Rezo todos os dias para que o Senhor mantenha meus olhos abertos e os meus passos fiéis.
    Contudo, caso isso realmente tenha acontecido, estamos apenas diante de mais um sacerdote desobediente. Sem nenhum mérito.

  7. Desobediente por que, dona Marta? Porque expressou suas convicções em um assunto aberto a posições diversas? Menos, vai, menos… A senhora em um comentário só desmoralizou tanto o íntegro e respeitado (por décadas de trabalho bem-feito e reconhecido até pelos cardeais) Robert Moynihan como o sincero sentimento de um Cardeal…

    Reze mesmo para que o senhor abra efetivamente os seus olhos.

  8. “É um tempo perigoso. Reze por nós”. Devemos fazer como ele pediu, aliás, pela graça de Deus, já o estamos fazendo.

  9. Realmente, acabei de ler algumas cartas do Dr. em seu blog e são realmente impressionantes. Pena que uma colega sua jornalista, a par de todos os problemas do Vaticano, quer que o cardeal Schonborn seja escolhido Papa, porque os cardeais Sodano e Bertone não gostam dele, e porque viu em sua pessoa uma sinceridade e amor que encontrou em poucos prelados.

  10. Peço desculpas pelas palavras, talvez desnecessariamente enfáticas e quiçá agressivas.
    Peço desculpas também, se de alguma forma minhas palavras soaram como uma tentativa de desmoralização do mundialmente reconhecido autor. Ou mesmo da pessoa do cardeal , que nem sequer foi nomeado no artigo. Às vezes, como de diz – por conta da irreflexão – “passamos da conta” e não tenho nenhuma relutância em reconhecer isso.
    Contudo, mantenho as minhas palavras no tocante à estranheza de certos fatos. Espero ser capaz de refletir com isenção e humildade a respeito deles.
    Que o Senhor ilumine e proteja a todos.

  11. “É um tempo perigoso. Reze por nós”.
    Acho que devemos fazer como ele pediu.

    Essas palavras são muito fortes.
    Escutemos também o que Nossa Senhora diz em Medigorie: “Rezem! Rezem! Rezem!”

  12. Caro Padre Élcio, obrigada pelas suas sempre inspiradas palavras.
    Realmente, o melhor que podemos fazer é rezar muito por aqueles que estão nesse momento decidindo o futuro da Igreja. Que o Espírito Santo os ilumine !

  13. Prezado Osires Costa.
    Realmente, é uma triste realidade. Mas não nos cabe aqui julgar ninguém. Acho que nos cabe fazer a nossa parte. Deus não há de faltar à Sua própria promessa de não deixar a Barca de Pedro sem o timoneiro que nos confirme. Após a fumaça negra de hoje, redobremos a oração!

  14. Pois bem, onde há fumaça, há fogo!! A Santa Madre Igreja é infalível em seus ensinamentos, e a fumaça da Cappella Sistina não foge à regra. Então rezemos mesmo, porque as coisas lá dentro devem estar pegando fogo. Em minha cabeça, sempre me veem à mente um pensamento sem pé nem cabeça, de que os Cardeais votarão no Joseph Ratzinger para Papa, como numa forma de protesto pela sua renúncia. Fiquem todos com Deus e rezem pelos Cardeais que estão em Conclave.

  15. Marta, parabéns por sua segunda mensagem! Reconhecer, ainda mais publicamente, que podemos ter cometido um erro é algo raro de se ver hoje em dia. Na maioria das vezes, ou as pessoas fingem não haver pecados ou erros, ou então fingem ser perfeitas.

    Fábio Prates ri ao ler sua mensagem, pois isto também já passou por minha cabeça, mesmo sabendo que no mundo real em que vivemos isso jamais acontecerá! kkk

  16. Leandro Farias, grata pela aceitação de desculpas e pelas palavras bondosas. Acho que de certa maneira, todos nós andamos meio “nervosos” por esses dias…
    Que Deus o abençõe.