Legionários de Cristo: reforma, contradições e êxodo.

Por Andrés Beltramo Álvarez | Tradução: Fratres in Unum.com* – A reforma interna dos Legionários de Cristo avança em meio a grandes tribulações. Velasio de Paolis, o “interventor” designado por Bento XVI para purificar a congregação, quer fechar este capítulo o mais rápido possível. Parece interessado apenas na criação de novos estatutos e em manter um certo equilíbrio interno, ainda que frágil. Porém, nos últimos 4 anos, a Legião perdeu 20 por cento de seus membros, resultado de uma crise fadada a se aprofundar.

Na manhã de segunda-feira, dia 27 de maio, o cardeal De Paolis se encontrou com Francisco durante 45 minutos. Pela 1ª vez, o novo Papa recebeu um relatório pormenorizado sobre o processo de renovação neste instituto religioso. Um programa que começou em 2010, depois de uma auditoria imposta por Ratzinger e  que levou a Santa Sé a reconhecer a nefasta influência exercida por Marcial Maciel Degollado, fundador imoral responsável por abusos sexuais a menores.

A Jorge Mario Bergoglio, o purpurado ofereceu sua versão: os superiores herdeiros de Maciel foram exonerados, as perdas de membros foram limitadas (e inevitáveis, considerada a situação) e o novo quadro de comando seria fruto de uma “operação de limpeza”. Porém, os fatos não acompanham essa visão adocicada.

Nos últimos 5 anos a Legião tem sofrido um êxodo sistemático de integrantes. As estatísticas oficiais o confirmam. Desde o final de 2008, aproximadamente 123 sacerdotes deixaram  a congregação de maneira definitiva, enquanto outros 48 estão fora de suas comunidades em diversas etapas de discernimento. Uma perda relativa de 171 homens, equivalente a 18 por cento de um total de 953 padres legionários.

A diminuição se manifestou em todos os níveis de formação, porém, o fato mais preocupante se refere ao êxodo de sacerdotes. Ao final de 2008, o total de integrantes (incluindo seminaristas menores e maiores) eram de 3389, enquanto que, no início deste ano, era de 2830, 559 a menos. Se a isto subtraírem-se os 48 “exclaustrados”, os integrantes reais seriam 2782.

Tratam-se de cifras destinadas a se reduzirem ainda mais, porque as últimas estatísticas datam 31 de dezembro de 2012 e não incluem os primeiros 3 meses de 2013. Ainda que a explicação oficial dos superiores tente minimizar a amplitude da crise, os dados não mostram um aumento de vocações, e sim o contrário. Em apenas 4 anos, mais de mil membros abandonaram a congregação, uma tendência difícil de reverter a curto prazo.

O capítulo dos superiores tem provocado não poucas tensões. É certo que já não se encontram no vértice da congregação os diretores impostos por Maciel em 2005, quando o Vaticano o obrigou a renunciar a seu posto de diretor geral. Porém nenhum deles foi exonerado. Muito pelo contrário,  eles tiveram saídas mais que decorosas. O superior Álvaro Corcuera obteve um “ano sabático” por problemas de saúde e o vigário Luis Garza Medina foi transferido para o posto de responsável para a América do Norte.

Não poucos legionários se queixaram, interna e externamente, da lentidão com que trabalhou Velasio de Paolis. Eles foram taxados de “dissidentes” e condenados ao ostracismo. A maioria já está fora. Agora sorriem quando ouvem falar de “operação limpeza”.

Apesar das dificuldades, muitos tem preferido permanecer, esperançosos por uma reforma de verdade. Eles tem sido envolvidos em discussões sistematizadas sobre cada um dos pontos que contemplam os novos estatutos. Durante meses, houveram debates em pequenas comunidades e suas conclusões foram submetidas a uma comissão.

Este grupo analisará as propostas e redigirá as novas Constituições. Um documento que deverá ser aprovado em um capítulo geral previsto para o início de 2014. Uma vez aprovado o texto, De Paolis apresentará sua renúncia e deixará, finalmente, um cargo que tem lhe dado uma enorme dor de cabeça.

Enquanto isso, os superiores acabam de mandar uma carta a todos os membros tanto da Legião, como do Regnum Christi.  Nela, reconheceram que somente a reforma dos estatutos não basta. Encorajaram a “transformar as mentes e corações”,  a “fazer  a verdade sobre nossas vidas”, a “ir ao encontro daqueles que se sentem feridos” e a cultivar “o desejo de aprender a perdoar e a humildade de pedir perdão para não viverem presas do rancor”.

* O Fratres agradece a uma pequena amiga e leitora que, graciosamente, realizou esta tradução para o blog.

15 Comentários to “Legionários de Cristo: reforma, contradições e êxodo.”

  1. Deve ser muito difícil para um religioso continuar em uma congregação cujo fundador cometeu tamanhos erros. Em geral é o fundador que inspira um ideal que move a instituição. Seria mais natural migrar os membros para outra congregação com perfil próximo. Ter um fundador abominado pela sociedade é um tiro no pé de qualquer ideal de vida religiosa.

  2. N tem alicerce vai pra vala.

  3. Quem ficou ou é conivente com a bandalheira (se a conheceu) ou (talvez ingenuamente) espera uma mudança e não crê que a instituição em si seja ruim (apenas que seus gestores tenham agido mal). Difícil saber.

  4. Meu nome é Raul, assiduo leitor do Fratres. SOu legionario de Cristo, e sem dúvida me preocupa a noticia, pois sei que nao há má intençao, mas dados númericos(que sao os menos importantes) e sobretudo opinoes internas que nao todas correspondem. Sei que há ainda muito por melhorar, mas os legionarios que permanecemos na Congregaçao queremos cumprir a Vontade de Deus, perseverando nesta vocaçao. Convido a todos a conhecer melhor essa realidade antes de qualquer juizo injusto, e de opinar a ajudar-nos a melhorar, ao invés de puras criticas. Obrigado ao Fratres pela noticia. Deus lhes abençoe.
    O meu e-mail é :rlansing@legionaries.org. e vivo em Roma.

  5. O pe. legionário Peter Byrne escreveu recentemente uma carta aos legionários em que, entre outras coisas, afirma:

    “Nos últimos 3 anos, pedi pública e privadamente 6 coisas:
    1. Justiça e reconciliação com as vítimas do pe. Maciel.
    2. Conformidade com o Evangelho e com um verdadeiro serviço das almas.
    3. Transparência no governo e nas finanças da congregação.
    4. Co-responsabilidade e prestação de contas (accontability).
    5. Investigação e publicação da verdadeira história do pe. Maciel e da Legião.
    6. Exclusão dos elementos perversos que Maciel e seu grupo introduziram na cultura legionária (racismo, mentiras, enganação, uso de pessoas como meio para alcançar um fim, exclusão do debate e do pensamento crítico, proibição da liberdade de expressão, etc…).”

    este padre legionário constata que essas coisas não mudaram/não foram feitas. Enquanto a LC persistir em ignorar as vítimas (não só do pederasta fundador, mas também das tantas pessoas escandalizadas e feridas pelo “método legionário”), enquanto insistir na “cultura legionária” denunciada pelo padre Byrne e por tantos outros padres e membros do LC/RC, NADA MUDARÁ. E os números continuarão mostrando o que falo há anos: uma diminuição lenta, porém contínua, nos números de membros desta congregação

    Em Cristo,
    Patricia Medina

  6. Esqueci o link para a carta do pe. Byrne:

    http://www.life-after-rc.com/2013/04/the-same-old-legion.html

  7. Muito obrigado por esta tradução. tenho acompanhado por este site esta questão melindrosa deste movimento. Tudo indica a mais que provável dissolução do mesmo. Veremos

  8. Los hijos n tem como melhorar nada, n se pode apagar um fato concreto: o fundador era pedófilo e outras cositas e morreu impenitente. A árvore má gerou bons frutos. Mudou até as palavras Bíblicas e nós que fazemos críticas injustas? Fim do mundo!

  9. Não há ninguém que derrame sua alma aos pés dos falsos profetas e saia alimentado de figos, pois não se pode colher figos dos abrolhos e nem uvas dos espinheiros. Ana Maria tá certissima! As pessoas às vezes levadas pelo orgulho ou pela teimosia insistem em algo que é contrário à vontade de Deus. Teimam em contrariar o conselho evangélico: Ninguém cose remendo de pano novo em vestido velho; de outra forma o remendo novo tira parte do velho, e torna-se maior a rotura. Ninguém põe vinho novo em odres velhos; de outra forma o vinho fará arrebentar os odres, e perder-se-á o vinho, e também os odres. Pelo contrário vinho novo é posto em odres novos. (Marcos 2:18-22)
    Esqueçam o “degolado”, o impenitente e desgraçado e comecem tudo de novo, em outros moldes e principalmente SOB NOVA DIREÇÃO.

  10. Se a Santa Sé julgou que a Legião tem possibilidade de reforma, restauração ou correção quem somos nós para falar o contrário? Além do mais o carisma é fruto do Espírito Santo e não da santidade do fundador… Carisma existe, o Espírito Santo está por detrás e a Igreja reconhece. Qualquer palavra além disso é fruto de ignorância da doutrina sobre a vida religiosa na Igreja. ah, e quem é o fundador dos capuchinhos senão um frei que depois virou apóstata? E os capuchinhos existem e há muitos santos do meio deles. “Qui potest capere, capiat”

  11. Caro Rogério Mesquita.

    O fundador dos capuchinhos foi o fr. Mateus de Bascio. Se lhe disseram que “o fundador dos capuchinhos virou apóstata”,, dando a entender que há outro fundador pecador como o padre abusador, fundador dos LC, lhe informaram errado. Uma rápida pesquisa sobre a fundação capuchinha explica a suposta apostasia do frei.
    Cito algumas fontes:
    1)
    Seu iniciador e precursor involuntário foi frei Mateus de Bascio, um observante das Marcas que, desejoso de seguir S. Francisco na vida de pobreza, na pregação itinerante e na própria maneira de vestir, fugiu do convento de Montefalcone para ir pedir ao papa essa autorização. Tudo deixa entender que a conseguiu, mas apenas oralmente, sem um documento que desse fé, e isto o deixou em maus lençóis.

    Voltando às Marcas, seu provincial, João de Fano, o encarcerou como apóstata no convento de Forano. Tudo isto acontecia nos primeiros meses de 1525. Foi libertado do cárcere por intervenção da duquesa de Camerino, Catarina Cybo, que tivera ocasião de admirar a sua caridade no serviço aos doentes durante a peste de 1523. A ele se apresentou, no verão de 1525, o frei Ludovico de Fossombrone que, junto com seu irmão de sangue, frei Rafael, queria associar-se a ele no estilo de vida empreendido. Mas Mateus não os acolhe, porque não tinha faculdade para isso e, quem sabe, também porque os dois Fossombrone pensavam em levar uma vida eremítica morando num lugar solitário, e não em viver sem morada fixa, como era intenção de frei Mateus.

    Os dois primeiros documentos da Santa Sé referentes aos iniciadores da reforma capuchinha são da primeira metade de 1526; com o primeiro, de 8 de março, o papa ordena a captura dos apóstatas Ludovico, Rafael e Mateus; com o segundo, de 18 de maio, o cardeal Lourenço Pucci autoriza os mesmo frades a viverem independentes dos superiores da Observância, sob a proteção do bispo de Camerino. Foi o que fizeram Ludovico e Rafael, finalmente livres para viver num eremitério “pobrezinho” , o de são Cristóvão de Arcofiato, a cerca de três quilômetros de Camerino. Aí Ludovico amadureceu o projeto de dar vida a uma nova reforma franciscana, enquanto estava todo entregue ao serviço de Deus, e também dos homens, ao menos durante o flagelo da peste que se abateu sobre Camerino pela metade de 1527. Catarina Cybo e Ludovico encontraram-se com o Papa Ludovico, em seu nome e no de seu irmão natural frei Rafael, apresentou ao papa uma humilde súplica em que pedia para:

    usarem a barba e o hábito que vestiam;

    poderem viver em lugares solitários sob a proteção dos conventuais, cujo ministro os pudesse visitar uma vez por ano e ao qual eles também deveriam cada ano apresentar-se;

    ·poderem eleger um custódio;

    · poderem receber quem quer que fosse, clérigos ou religiosos de qualquer Ordem. Inicialmente os novos reformadores foram chamados de “frades menores de vida eremítica”.

    2) Outra fonte, esclarece:

    Em fins de 1525, apresentavam-se ao mesmo provincial os irmãos de sangue fr. Ludovico e fr. Rafael de Fossombrone, pedindo permissão para retirar-se a um eremitério com outros companheiros, para observar a Regra em toda a sua pureza. Com a negação, eles fugiram e foram refugiar-se entre os conventuais de Cingoli. O provincial apressou-se em conseguir um breve pontifício, declarando apóstatas Mateus de Bascio e os dois irmãos. Eles pediram alojamento no eremitério dos Camaldulenses de Massaccio. Para prevenir-se contra novas investidas, Frei Ludovico, julgou mais conveniente passar para a dependência dos conventuais, com a mediação da influente duquesa. O Geral dos conventuais os recebeu deixando-lhes livres para viver conforme suas aspirações.

    Catarina Cibo, apresentou uma petição de Ludovico e Rafael a seu tio, Clemente VII, quando este se encontrava em Viterbo. Depois de prudente exame, o Papa expediu a bula “Religionis Zelus” à 3 de julho de 1528, que dava existência jurídica à nova fraternidade. A Ordem Capuchinha estava fundada. A duquesa fez publicar imediatamente o documento, na praça pública de Camerino, e em todas as igrejas de seus domínios. A bula era dirigida a Ludovico e Rafael de Fossombrone e continha os seguintes pontos: faculdade para levar vida eremítica, seguindo a Regra de São Francisco, para usar barba e o hábito com capuz piramidal e para pregar ao povo; os reformados ficavam sob a proteção dos superiores conventuais, porém sob o governo direto de um superior próprio com autoridade semelhante aos dos provinciais; estavam autorizados a receber noviços, tanto clérigos como leigos.

    Com a bula “Religionis Zelus” um grande número de observantes e alguns noviços foram unir-se aos Capuchinhos; foi preciso multiplicar os eremitérios e pensar numa organização mais planejada. Em abril de 1529, convocou-se o primeiro Capítulo (assembléia), formado por doze religiosos, com o fim de eleger os superiores e redigir as Constituições. Realizou-se no eremitério de Albacina. Ali foram escritas, à luz da oração e da letra da Regra, as primeiras Constituições,

    ……..

    Ou seja, Rogério, uma breve leitura da história capuchinha, faz entender que o que aconteceu com o fr. Mateus lembra o episódio do encarceramento de são João da Cruz que, por ser reformador da sua Ordem, atraiu a ira dos não reformadores.

    Não sei se vc ouviu essa justificativa dos legionários, Rogério. Afinal, é um argumento que não procede. Não dá. nem de longe, para comparar os dois fundadores em questão. E quanto ao carisma, congregações NASCEM com carisma, que lhe é dado pelo Espírito Santo ao fundador….. e não o tentam descobrir por meio de documentos, palestras. pesquisas de opinião, quando se descobre que o fundador, tido até então como santo, é uma fraude, estuprador de crianças.

    O tempo fará a limpeza da congregação. Muitos estão saindo. O tempo de Deus não é o nosso tempo.

  12. Patricia, não eu não me referia a Matteo da Bascio (não canonizado, ainda, né), e sim a Bernardino Ochino, um co-fundador, que sim foi apóstata e inclusive fez com que a Igreja tirasse o direito de pregar dos capuchinhos por algum tempo. Por falta de uma melhor fonte deixo aqui o link da famosa wikipedia http://en.wikipedia.org/wiki/Order_of_Friars_Minor_Capuchin Pois é, mas não procede também, Patricia, que os legionários estão tentando descobrir o carisma deles, já que carisma como disse bem, nasce com a Congregação ou vice-versa. A Legião já nasceu, já tem carisma, basta tirar o pó e o que ficou marcado do fundador enquanto pessoa e não enquanto instrumento de Deus à comunidade fundacional. A Igreja assim o pensa e é claro desde o comunicado da Sala de Imprensa do dia 1 de maio de 2010. Espero que ajude a reflexão. Obrigado.

  13. Caro Rogério,

    Bernardino Ochino se transferiu para a Ordem capuchinha DEPOIS que ela já estava fundada. Vide breve biografia:

    http://en.wikipedia.org/wiki/Bernardino_Ochino

    Ele se transferiu para os capuchinhos em 1534 e se tornou superior em 1538. Os capuchinhos não tiverem um fundador pecador como vc defende. Lamentável.

    Quanto ao carisma, é só fazer uma breve pesquisa, aqui pelo FRATRES mesmo, sobre os legionários. O próprio Cardeal de Paolis, ao lhe perguntarem qual o carisma dos LC, respondeu: “Boa pergunta”. Perdoe-me, mas estou sem tempo para lhe indicar os links apropriados (tenho 6 filhos para cuidar).

    Na minha época, os LC usavam o exemplo de Dom Bosco (“ele também foi perseguido caluniado, etc, etc). O tempo passa, o tempo voa, mas certas coisas não mudam….

    Me despeço deste diálogo,
    em Cristo,
    Patricia Medina

  14. Outra coisa, o 1o capítulo geral da congregação capuchinha foi em 1529. O apóstata por vc indicado entrou na congregação em 1534. A congregação já tinha o carisma então.

    Abs.
    em Cristo,
    Patricia

  15. Entre Fratres in unum e Vatican.va, acho que prefiro o segundo, Patricia. Parabéns pelo testemunho em ter 6 filhos e ainda se preocupar com a Igreja e uma congregação como a dos legionários… O resto deixamos para o Papa, um blog não é lugar para decidirmos a história da Igreja, afinal o Espírito Santo já está encarregado disso, não é mesmo? Saudações e parabéns pela pequisa não lamentável, mas louvável. Estranho que o apóstata ainda seja chamado cofundador…
    ;)