A correção fraterna e o “buonismo” imperante.

Por Ricardo Dip, colunista convidado

1. Muitos de nós temos observado a frequência com que se dá a falta de reação aos males.

Isso não é nota apenas no mundo temporal de nossos tempos; há também um buonismo pós-conciliar que assola a Santa Igreja.

2. A propósito, faz algum tempo, lia um interessante escrito do dominicano Pe. GIOVANNI CAVALCOLI, em que ele se refere ao fundo luterano do buonismo, que aposta nas ideias de um Deus “misericordiosista” e nos efeitos de sua potência absoluta; ou seja, nas teses

Cristo corrige a Samaritana à beira do Poço de Jacó.

Cristo corrige a Samaritana.

(i) de que Deus não castiga (falsa fiducia nella divina misericordia) e

(ii) de que, extraindo Deus sempre o bem de não importa quais males, esses males são por isso mesmo um bem.

3. Contra a primeira tese, sua falsidade desponta ao correr dos olhos sobre textos dos Evangelhos (p.ex., S.Mateus 13, 41 et sqq. e 49 et sqq.; 25, 41 et sqq.; S.Marcos, 16, 15-6).

4. Contra a segunda, conspira a irrefutável asserção metafísica de que não há mal absoluto, nem falsidade absoluta. Logo, sempre há algo bom e verdadeiro no mal e no falso.

Abdicar de reagir contra o mal porque nele há algo inevitável de bom, remata, contudo, num absurdo, pois que já a coisa alguma caberia dirigir reprovação (uma vez que “tudo é bom”). Até o demônio, por ter uma natureza angélica, já não comportaria aversão.

5. O buonismo imperante hoje na Igreja é, de um lado, a breviatio manus de muitas autoridades que se recusam a punir os ilícitos ou os punem de maneira demasiado tardia ou com pasmosa brandura (cf., brevitatis causa, o excelente Iota unum de ROMANO AMERIO).

6. De outro lado, entre os leigos pós-conciliares domina uma surpreendente leniência. Tolera-se tudo, menos reagir diante de ilícitos, ainda que se trate de afrontas a direitos previstos expressamente nas leis divinas e eclesiais. Tudo em nome de uma paz na convivência humana.

Esse pacifismo a outrance é um obstáculo ao dever de correção fraterna.

Teme-se que já se tenham por extintas a valentia dos Cavaleiros e a fortaleza dos Cruzados.

Hoje é de recear que predomine a molície de católicos desfibrados, sem ânimo para defender a Fé.

Lembra-me, aqui, a elegante referência de GUSTAVO CORÇÃO a uma personagem do grande Chesterton, que quebrara a bengaladas as vidraças de um jornal ofensivo a Nossa Senhora, e a que Bernanos, na condição de camelot du Roi, também não poupara o uso da bengala em legítima defesa da honra.

Não corremos já agora de repetir essa epopeia: a bengala saiu de moda, junto com o latim e, parece, a vergonha.

7. Todavia, não percamos de vista, em contrapartida, que uma das possíveis vergonhas está que as correções não sejam fraternas.

Está bem que já não se reponham em uso as bengalas, mas seria muito bom, ao menos, que voltássemos ao tempo em que as exigíveis correções fraternas não eram ocasião para as injúrias ou outra sorte de denigração ad hominem.

Nossa língua −em que pese a ser pleine de péchés−, essa língua sobre a qual queremos depositar a Sagrada Forma, essa língua não há de ser a que difame, a que doesta, a que, em vez de uma correção fraterna, se lance a guerrear pelo só afã da guerra.

Quando se diz fortiter in re et suaviter in modo, o católico deve entender forte na verdade e caridoso na expressão.

10 Comentários to “A correção fraterna e o “buonismo” imperante.”

  1. Dr. Dip, excelente! Perdão se na minha burrice não entendi nada, mas penso que a espada da verdade é um instrumento que requer habilidade (não que eu a tenha), e creio que temos que ter cuidado ao usá-la, pois há quem para tentar matar erro, acaba aniquilando a alma. Triste desgraça essa que vemos na internet: sob o pretexto de defender a verdade, usam dos mais vis métodos e detrações. Isso é um anti-apostolado!

  2. Ótima abordagem!!

  3. Tenho a relatar um fato real ocorrido na minha paróquia, durante a missa. Isso foi relatado para mim pela minha esposa que viu tudo. Eu não vi, pois estava rezando após ter comungado. Segue o fato: Uma família, pai, mãe e duas filhas pequenas vão todos para a fila da comunhão (até aí tudo bem). A mãe ao receber a hóstia não a consome, leva nas mãos até o banco, e lá a divide e dá um pedacinho para cada filha, e uma delas diz: Papai, a mãe me deu um pedacinho… e a mãe : pssssssiu! ninguém pode saber!! Se eu tivesse presenciado isso, não garanto que teria coragem de abordar ela e dizer sobre o sacrilégio que cometeu. Outras pessoas devem ter visto, mas ninguém deve ter tido coragem de dizer… Isso é um exemplo claro e real do que vivemos hoje : Ninguém quer corrigir ninguém!!

  4. O problema aí não está no fato de sair dando bengaladas” mas saber pelo menos qual o alvo das bengaladas.
    Imagine a cena de um cego tentando dar bengaladas! Seria bem parecido com aquelas crianças que tentam dar pauladas numa piñata com os olhos vendados.
    No domingo passado, o Padre Mary falava exatamente sobre isso durante o sermão. Estamos vivendo um tempo em que a cegueira de muitos é o castigo profetizado na Carta aos Tessalonicenses: “por não terem cultivado o amor à verdade que os teria podido salvar, Deus lhes enviará um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro. Desse modo, serão julgados e condenados todos os que não deram crédito à verdade, mas consentiram no mal.
    Os Católicos que não se levantam contra o mal é porque vivem nessa cegueira, nesse relativismo moral e religioso onde só vêem mal nos que denunciam ou combatem o mal. Se tornaram cegos e guias de cegos.
    Esse é o resultado da apostasia, da destruição do Reinado Social de Jesus Cristo, dos sacrilégios e escândalos. Recordemos, as palavras proféticas de Monsenhor Pacelli e depois Papa Pio XII, ditas à luz da Mensagem de Fátima:
    “As mensagens da Santíssima Virgem a Lúcia de Fátima preocupam-me. Esta persistência de Maria sobre os perigos que ameaçam a Igreja é um aviso do Céu contra o suicídio de alterar a Fé na Sua liturgia, na Sua teologia e na Sua alma (.) Ouço à minha volta inovadores que querem desmantelar a Capela-Mor, destruir a chama universal da Igreja, rejeitar os Seus ornamentos e fazê-la ter remorsos do Seu passado histórico.
    Chegará um dia em que o Mundo civilizado negará o seu Deus, em que a Igreja duvidará como Pedro duvidou. Ela será tentada a acreditar que o homem se tornou Deus. Nas nossas igrejas, os Cristãos procurarão em vão a lamparina vermelha onde Deus os espera. Como Maria Madalena, chorando perante o túmulo vazio, perguntarão: “Para onde O levaram?”
    Para os que ainda guardam a Fé do Papa Pacelli, infelizmente esse dia ja chegou.
    .

  5. Excelente artigo: ótimo conteúdo e muito simples e objetivo.

    O ecumenismo e o diálogo inter-religioso não são também esse pacifismo horroroso?

    Ninguém quer corrigir, mas ninguém aceita ser corrigido: é o liberalismo de que “posso fazer o que eu quiser e, consequentemente, ninguém tem o direito de se intrometer nisso”. Então, todos os caprichos pessoais, erros, pecados, crimes estão permitidos.

    “Pode pecar à vontade porque Deus é muito misericordioso e sempre perdoa” é outro horror. O perdão de Deus presume um retorno a Ele pelo arrependimento (parábola do filho pródigo). Nem base bíblica tem, ao contrário do que os protestantes defendem.

    O protestantismo se infiltrou na mentalidade católica. Que horror!

    Ser católico é expor-se ao ódio do mundo e está explicado o motivo.

  6. Eu já vi de perto pessoas com uma realidade de vida objetivamente errada, causando escândalo, impertinente e cego…e quando alguém foi fazer uma correção fraterna afirmou: “Não podemos julgar ninguém!”

    Essa frase é quase mágica hoje em dia: “Não podemos julgar ninguém!Cada cabeça é um mundo!”

  7. Corrigir os erros e se corrigir dos erros faz parte da conversão permanente de todos nós que amamos Nosso Senhor Jesus Cristo e rezamos para que nos dê força e luz para vencer o pecado e ser cada vez mais um digno discípulo.

  8. Irenismo quer dizer pacifismo. É o contrário de polemismo.

    O irenismo era a atitude dos modernistas que defendiam ser errado lutar contra os erros e heresias, e que se deveria atrair os hereges com uma atitude pacifista, sem combatividade. Esse erro foi condenado na encíclica Mortalium Animos de Pio XI escrita em 1929 contra o modernista Dom Lambert Beauduin, por ter fundado o mosteiro beneditino de Amay na Bélgica, para promover o diálogo ecumênico e irênico com os ortodoxos.

    Resultado: os monges se tornaram cismáticos. Também a heresia dos Americanistas defendia o diálogo irênico e ecumênico com os hereges e promoveram o Congresso das religiões de Chicago, em 1894. O ecumenismo irenista dos americanistas foi condenado por Leão XIII na encíclica Testem Benevolentiae.

    O Concílio Vaticano II foi controlado pelos discípulos de Monsenhor Beauduin e dos modernistas e, por isso, defendeu, o mesmo ecumenismo irenista que se vê hoje por toda a parte e que tem produzido ZERO conversões ao Catolicismo e milhões de apostasias entre os católicos.

  9. Santo Agostinho, que não bajulou ou fez ecumenismo com os hereges de seu tempo, ensinou sobre a necessidade de corrigir os desvios do próximo: “Se descuidares de corrigir, te tornas pior que aquele que pecou” (apud Santo Tomás. Suma Teológica. Parte II-II, art. 33, a. 2).

  10. Li só agora, pois não se tratava de um fato ou notícia, mas um artigo. Muito bem escrito e concatenado. Profundo e sucinto, erudito ma non troppo. Poderíamos ser brindados por mais textos assim. Tocante, elucida, faz pensar e ao mesmo tempo é muitíssimo bom de se ler.