Um ano mais tarde.

Por Côme de Prévigny – Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com –  Há mais de um ano, a Congregação para a Doutrina da Fé entregou ao Superior da Fraternidade São Pio X (FSSPX/SSPX) um documento apresentando três condições necessárias para o reconhecimento canônico da obra do Arcebispo Lefebvre, um documento famoso, que deveria pôr um fim a vários anos de discussões.

Algumas semanas antes, a imprensa inteira dava por certo a regularização da FSSPX. Andrea Tornielli, famoso vaticanista italiano, predisse: “A estrada que conduz a Fraternidade São Pio X, fundada pelo Arcebispo Lefebvre, à comunhão plena com Roma deve chegar ao fim em maio”. Henri Tincq, um jornalista do Le Monde, sabidamente não indulgente com a causa tradicional, cobre notícias religiosas há décadas. De acordo com ele, era apenas uma questão de dias: “não está mais em dúvida a iminência de um acordo que deve ser assinado entre o Vaticano e a Fraternidade de São Pio X, o bastião dos católicos integristas. Em 19 de abril, sua colega jornalista Bernadette Sauvaget, do Libération, escreveu: “Desde terça-feira, alguns vaticanistas têm afirmado que um acordo foi alcançado”. Todos os ecos que emanam dos Apartamentos Pontifícios permitiram a confirmação, sem muita adivinhação, que a declaração doutrinal proposta por Dom Fellay tinha sido aceita pelo Papa e já os observadores mais hostis consideravam que Roma havia concedido todo o terreno “aos integristas”. Por parte da Fraternidade, entretanto, a expectativa permanecia realista, insistindo no fato de que o mapa permanecia incerto. Diversos pontos relevantes, tanto doutrinais como canônicos, permaneciam abertos a esclarecimento e as discussões ainda não tinham terminado.

O texto devolvido a Roma era uma declaração datada de 15 de abril de 2012, proposta pela Congregação para a Doutrina da Fé e revisada pelo Superior Geral da FSSPX. Em suas linhas gerais, era uma cópia fiel do Protocolo de Acordo, de 5 de maio de 1988, que o Arcebispo Lefebvre havia rejeitado, não devido a sua base doutrinal, mas por causa de seu contexto (os pontos relacionados ao Romano Pontífice ou ao novo Código de Direito Canônico são os mesmos, por exemplo). O documento negociado vinte e quatro anos mais tarde tinha os seus pontos fracos e seus avanços que, por outro lado, contrabalançavam aqueles mesmos pontos fracos. Por exemplo, o texto fala das formulações conciliares que “não são reconciliáveis com o Magistério anterior da Igreja”, enquanto que o Protocolo de 1988 limitava-se a dizer que “somente com dificuldade eles são reconciliáveis com a Tradição”. Lá onde o documento assinado pelo Arcebispo Lefebvre indicava “uma atitude positiva de estudo e de comunicação” a respeito do Concílio, o que Dom Fellay tinha escrito era mais forte, porque ele neutralizava qualquer “interpretação dessas afirmações que possa levar a atual doutrina católica a se opor ou romper com a Tradição e com este Magistério”. Seja qual for o caso, essa contraproposta foi apresentada e diz-se nos corredores romanos que ela abriria o caminho para um reconhecimento iminente. A fim de provar que a busca por unidade iniciada pelo fundador não era vista como um ponto opcional, o Superior Geral da FSSPX não temeu as críticas públicas de seu confrade britânico ou a atitude rebelde de uma comunidade religiosa amiga.

Todavia, três novos pontos foram superpostos a essas alterações na reunião de 13 de junho, que, em poucas horas, arruinariam o processo iniciado muitos meses antes. Dentre essas condições era preciso reconhecer a continuidade dos textos conciliares em relação ao Magistério precedente, que contradizia a declaração doutrinal que mencionava, pelo contrário, o seu caráter não reconciliável. Além disso, as autoridades introduziram a necessidade de reconhecer a “licitude” da missa nova, uma expressão que havia sido, como se sabe, objeto de debates amargos. Isso nunca fora exigido, nem em 1988, nem dos diversos institutos regularizados até aquele momento. Essas novas exigências deixavam a impressão de que havia um desejo de interromper o processo de maneira muito elegante, bem como abrupta, através da introdução de pontos inadmissíveis.

Quais eram os motivos para essa reviravolta repentina que foi incongruente com a atitude adotada por Bento XVI durante tantos anos? Indubitavelmente, a influência de certas cabeças de dicastérios se opunha fortemente a esse reconhecimento, bem como pressões diplomáticas específicas, que exerceram a sua influência sobre a inclinação do papa. Alguns meses mais tarde, este renunciou a seu cargo no contexto turbulento do Vatileaks. Conforme observou corretamente um professor universitário francês, esses vazamentos cessaram como por passe de mágica desde que o papa Ratzinger parou de presidir o destino da Igreja. Será que isso significa que o dossiê de relações entre Roma e a FSSPX está morto e enterrado e que o mundo tradicional irá reviver esses dias de silêncio que foram os anos 90? É verdade que Bento XVI esteve pessoalmente muito próximo da questão. Contudo, o reinício das relações, no início de 2000, aconteceu no pontificado de João Paulo II. Na França, de qualquer maneira, a Fraternidade São Pio X havia obtido, em solo, mais por suas peregrinações locais de bispos supostamente distantes dela do que daqueles considerados conservadores. Dom Perrier, de Lourdes, durante anos abriu o seu santuário, emprestando objetos litúrgicos e ornamentos, enquanto a diocese de Versailles, dirigida por Dom Aumônier, que conheceu Dom Lefebvre bem nos primeiros anos de sua vida sacerdotal, nunca concedeu nada à obra que este fundou.

Além dessas considerações, a dinâmica do movimento tradicional, revigorada pela liberação da Missa e o levantamento das sanções que afetavam os bispos da Fraternidade, tornarão cada vez mais claro o caráter inevitável de grupos tradicionais. Parece que agora, dificilmente, se possa sustentar a ideia de ignorá-los.

8 Responses to “Um ano mais tarde.”

  1. Certamente, Bento XVI já marcou seu nome na história da luta do tradicionalismo na Igreja, somente pelo Motu Próprio de 2007. Mas, mesmo assim, houveram posturas para “agradar” também os liberais. E mesmo assim, ele foi odiado e boicotado pelos liberais na Igreja, pela mídia, pela imprensa geral.

    Ele não renúnciou somente por idade, nunca! Só um cego vê assim.

  2. Bem, quem segue a Fé de 50, 100, 200, 1000, 2000 anos que durma com a consciência tranquila, porque não importa quantos caiam à direita ou à esquerda. Quem permanece na fidelidade, trilhando os mesmos caminhos de outrora não pode se queixar.
    A Fé é inegociável, não é alvo de barganhas, nem se pode sequer colocar em questão. Se a Providência quer manter campos que NÃO DESEJAM A MESMA COISA andando de maneira diversa, alegremo-nos. Não por quem está no caminho liberal, mas pelas almas fracas, que por pouco não sucumbiram, o que é compreensível, afinal de contas quem quer ser católico quer ter uma ligação efetiva com o papado. Mas e quando o papado se esquece de si próprio? Quando Roma sai de Roma, vamos trilhar estes novos e anti-tradicionais caminhos?
    O remédio para quem está num panorama liberal não é a presença de quem não é liberal. O remédio é divino, e chama-se conversão, porque se uma pessoa é liberal, não adianta jogá-la num mosteiro de tradicionalistas, se ela interiormente não deixa cair as escamas e renuncia à sua posição. Antes persuadirá os que estão do outro lado a dar ouvidos às suas novidades.
    Se um lado diz que a Missa Nova que os protestantes tanto se aprazem, feita por Bugnini que revelou à franco-maçonaria que sobre ela havia feito o possivel para descatolicizá-la é boa, e o outro lado a combate, como conviver falsamente sobre o mesmo teto, se na prática os dois lados querem coisas diferentes e antagônicas?
    Um lado quer o ecumenismo e renuncia a sua origem divina por gestos, o outro lado repele as falsas religiões e reafirma o que desde sempre foi dito (conforme Bula Unam Sanctam) a respeito de que, fora da Igreja não há salvação. Como é que a união de dois blocos antagônicos no mesmo teto vai fazer com que um dos dois se converta?
    As posições dos dois lados são muito claras, muito precisas. Temos uma estrutura eclesiástica ocupada por clérigos que geralmente querem o que o mundo quer, e repelem fortemente a doutrina tradicional, e temos clérigos canonicamente irregulares, desprovidos de jurisdição e suspensos a divinis, mas que – embora digam que seus sacramentos são INVÁLIDOS, no entanto realizam estes mesmos sacramentos em conformidade ritualística ao que sempre foi feito, e tão ou mais importante que isso: com intenção fortemente de fazê-los seguindo a Fé Apostólica de todos os tempos, ligados a todos os santos padres, todos os concílios dogmáticos.

    Pois que, se dois lados querem coisas diferentes, um está certo e o outro errado. Se Roma atualmente está correta e nós estamos errados, então precisamos de uma luz especialíssima para nos tirar a venda dos olhos e nos mostrar que pecamos em não imitar os gestos do quase santificado João Paulo II e beijar os Alcorões que insultam a Cristo e a sua Igreja; precisamos promover a Missa que minimiza ao máximo o Santo Sacrifício, em concordância com os desejos maçônico-protestantes, precisamos apoiar os bispos e as conferências episcopais que se sobrepõem, transformando o papa num primeiro entre iguais, como desejam as igrejas cismáticas orientais.
    Mas se estivermos certos, nos esqueçam. Deixem-nos trilhar solitários, ou façam o que era feito até Pio XII.

    União aparente sem união de intenções é hipocrisia. Agradeçamos a Deus que apesar de tudo, a coerência parece estar voltando…

  3. Desfecho triste, mas esperado. Era evidente que com a saída de Bento XVI todos os esforços de regularização canónica iriam cessar. O clero modernista está demasiado enraizado na cultura neoliberal do CVII, enquanto que a FSSPX está cada vez mais firme na defesa da Tradição. Ambas as partes conseguem constatar a crise na Igreja, mas as soluções propostas para contornar a crise são completamente diferentes. Econe diz “regressemos à Tradição e a crise cessará”. Roma diz “vamos apostar na nova evangelização, porque temos de adaptar a forma de comunicar o evangelho ao mundo moderno”.
    O clero modernista está tão cego que não consegue ver que o problema não está na forma de transmitir o evangelho, mas como ele é transmitido e o exemplo dado por quem o transmite. Podemos usar facebook, twitter, encontros ecuménicos, JMJ’s, até fazer o pino com o evangelho.. Mas se os Padres continuam a “adoçar” a cruz que Cristo nos anuncia, e se não colocam em prática nas suas vidas o estilo de vida do evangelho, que tipo de credibilidade têm perante os fiéis? Como podemos acreditar em algo que nos anunciam, se nem os anunciantes acreditam nisso verdadeiramente? Que necessidade tenho eu de me converter a um Deus que afinal tudo perdoa sem reservas, sem que haja a necessidade de conversão de vida?
    As posições estão definidas, e só uma intervenção Divina nos pode salvar. Tenho alguma esperança nas comunidades Ecclesia Dei, que são uma luz nas trevas em que está mergulhada a Igreja. Estas comunidades, apesar de não estarerem 100% com a FSSPX, estão bem mais próximas da Tradição do que a Igreja pós conciliar, e podem ser um autêntico balão de oxigénio para os fiéis perplexos e aflitos com este rumo suicida que a Igreja prossegue.

  4. Caros FRATRES;
    Nosso irmão Bruno Luis Santana, de maneira clara, sucinta e bem pedagógica mostra a quem quer que seja, que nós apenas Guardamos a Fé que nos foi deixada pelos Apóstolos, não modificada pelas mãos humanas!
    No Judaísmo, que tanto encanta os últimos papas conciliares, há milênios a Fé de Abraão é guardada intacta. Ninguém fez um “cãocílio” para “adequar a Fé”, ou seja, para destronara a Deus e colocar em Seu lugar o ser humano!
    Caro FRATER Bruno Luis, Guardemos o que mais precioso o temos: a Santa Fé Católica, sem nenhuma intervenção do ser humano!
    Façamos como nos ensinou Nosso Senhor:
    “Pelos frutos os conhecereis”!
    Os frutos da Igreja Católica, a verdadeira Igreja, fundada pelo Cristo, testemunhada pelos Mártires, Virgens, Confessores e Doutores, pelos Santos há quase dois milênios demonstram de forma inequívoca a Verdade.
    A neo-igreja, aquela antropocêntrica, iniciada por Lutero e “confirmada” no Cãocílio das maravilhas tem aí seus frutos escandalosos, fétidos e pútridos…
    Como disse Nosso Senhor: “o pior cego é aquele que não quer enxergar”…
    Rezemos e guardemos nossa Santa Fé!
    Peçamos a Nossa Senhora que confunda os hereges e que possa este triste tempo pelo qual passa a Igreja ser mais abreviado, iniciando a Restauração do Sacrifício e da Fé Eternas!
    Viva Cristo Rei!
    Viva a Santíssima Virgem Maria!
    Viva a Igreja, santa, Católica e Apostólica!

  5. muito bom artigo! gostei muito de lê-lo! obrigado pela tradução.

  6. Antes [FSSPX] esquecida do que perseguida e odiada.

    Que venha o silêncio até a restauração da Igreja.

  7. Alguém sabe quem é este professor francês citado na matéria acima? Não que eu duvide do Fratres, só queria ler direto na fonte como subsídio.

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