Guerra alemã.

Quase imediatamente após a sua renúncia ao governo da arquidiocese de Friburgo ser acolhida pelo Papa Francisco, o arcebispo Robert Zollitsch torna público um documento “pastoral” onde orienta os padres sobre a comunhão aos católicos divorciados e em segunda união. Poucas semanas depois o Prefeito da Doutrina da Fé, o também alemão Gerhard Müller, publicou um longo artigo no L’Osservatore Romano onde defende a atual posição católica de total inviolabilidade do casamento, desde que validamente celebrado. Agora Müller se dirige de forma direta ao arcebispo emérito Zollitsch, e aos demais bispos da Alemanha, revogando o documento “pastoral”. Abaixo a carta enviada por Müller.

* * *

A Sua Excelência!
Honorável Senhor Arcebispo!

Com o documento prot. N 2922/13, de 8 de outubro de 2013, o Nuncio Apostólico informou o projeto das diretrizes para o cuidado pastoral das pessoas separadas, divorciadas e recasadas civilmente na Arquidiocese de Friburgo, bem como a sua circular aos membros da Conferência Episcopal Alemã antes da publicação dessa carta, à Congregação para a Doutrina da fé. Uma leitura cuidadosa do rascunho do texto revela que ele contém ensinamentos pastorais muito corretos e importantes, mas não é claro em sua terminologia e não corresponde com o ensinamento da Igreja em dois pontos:

“As pessoas divorciadas e recasadas se colocam no caminho do seu acesso à Eucaristia”.
1. Em relação à recepção dos sacramentos por fiéis divorciados novamente casados ​​a proposta dos bispos da área de Oberrhein é novamente recomendada como uma direção pastoral: após um processo de discussão com os párocos, as pessoas interessadas podem chegar à conclusão de participar muito na vida da Igreja, mas a abster-se deliberadamente de receber os sacramentos, enquanto outras podem em suas situações concretas alcançar uma “decisão responsável de consciência” e serem capazes de receber os sacramentos do Batismo, a Sagrada Comunhão, Crisma, Reconciliação e Unção dos Enfermos, e esta decisão deve “ser respeitada” pelo padre e pela comunidade.

Ao contrário desta suposição, o Magistério da Igreja enfatiza que os pastores devem reconhecer bem  as diversas situações e devem convidar os fiéis afetados por elas a uma participação na vida da Igreja, mas também “reafirma a sua prática, que é baseada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística divorciados que voltaram a casar “(cf. João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris Consortio, de 22 de novembro de 1981, N. 84; também comparar a Carta desta Congregação de 14 de setembro de 1994 sobre a recepção da Comunhão por divorciados recasados fiel, que rejeita a proposta dos bispos Oberrhein, e Bento XVI, Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, de 22 de fevereiro de 2009, N. 29).

Esta posição do Magistério é bem fundamentada. Divorciados recasados estão no caminho de seu acesso à Eucaristia, na medida em que o seu estado de vida é uma contradição objetiva para a relação de amor entre Cristo e a Igreja, que se torna visível e presente na Eucaristia (razão doutrinária). Se estas pessoas pudessem receber a Eucaristia isso causaria confusão entre os fiéis sobre o ensinamento da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio (razão pastoral).

2. Além disso, um rito [service, no original em inglês, NdT] de oração para os fiéis divorciados que entram em um novo casamento civil é sugerido. Embora seja explícito que isso não é um “semi-casamento” e a cerimônia deve ser simples, mas ainda assim seria uma espécie de “rito”, com uma entrada, a leitura da Palavra de Deus, benção e entrega de uma vela, oração e conclusão.

Tais celebrações foram expressamente proibidas por João Paulo II e Bento XVI: “O respeito devido ao sacramento do Matrimônio, para os próprios casais e suas famílias, e também para a comunidade dos fiéis, proíbe qualquer pastor, por qualquer motivo ou pretexto mesmo de natureza pastoral, de realizar cerimônias de qualquer natureza para as pessoas divorciadas que se casam novamente. Estas dariam a impressão de celebração de novas núpcias sacramentais válidas, e que, assim, levariam as pessoas ao erro sobre a indissolubilidade do matrimônio contraído validamente “(Familiaris Consortio, n. 84).

Os fiéis afetados devem receber suporte, mas é preciso evitar que “cresça confusão entre os fiéis sobre o valor do matrimônio” (Sacramentum Caritatis, N. 29).

Devido às discrepâncias acima destacadas, o projeto de texto deve ser retirado e revisto, de modo que nenhuma direção pastoral seja sancionada que se oponha aos ensinamentos da Igreja. Porque o texto suscitou questões não só na Alemanha, mas em muitas partes do mundo, bem como levou à incertezas numa questão pastoral delicada, me senti obrigado a informar ao Papa Francisco sobre isso.

Após consulta com o Santo Padre, um artigo de minhas mãos foi publicado em L’Osservatore Romano em 23 de outubro de 2013, que resume o ensino vinculante da Igreja sobre estas questões. Essa contribuição também foi publicada na edição semanal do jornal do Vaticano.

Uma vez que um número de bispos que se voltou para mim e um grupo de trabalho da Conferência Episcopal Alemã está lidando com o tema, gostaria de informar que vou enviar uma cópia desta carta a todos os bispos diocesanos da Alemanha. Esperando que sobre esta questão delicada nós vamos por caminhos pastorais, que estão em pleno acordo com a doutrina da fé da Igreja, fico com cordial saudação e bênção no Senhor.

Gerhard L. Müller
Prefeito

  • Batalha 4 – Cardeal Marx [um dos purpurados membros do poderoso conselho de 8 cardeais erigido pelo Papa Francisco]: “O Prefeito da CDF não pode por fim à discussão”.

    Por Pray Tell | Tradução: Fratres in Unum.com - Na opinião do Cardeal Marx, de Munique, o debate sobre o tratamento dado pela Igreja Católica a divorciados recasados está completamente aberto. “O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé não pode colocar um fim na discussão”, declarou, na quinta-feira, na conclusão do encontro da Conferência Episcopal de Frisinga, noticiou Kathweb […]. “Veremos que isso é discutido muito amplamente; quanto ao resultado, não sei”. O Cardeal Marx afirmou que é o desejo expresso de Roma que haja uma ampla discussão por toda a Igreja em preparação para o sínodo especial sobre a família, em outubro de 2014 […]. Um grande número de fiéis não podem entender plenamente “que uma segunda união não seja aceita pela Igreja”. Ele crê ser inadequado falar de divórcio simplesmente como “uma falha moral”.

22 Comentários to “Guerra alemã.”

  1. Cardeal Marx? Nome sugestivo!
    Senhor, piedade de nós. Que tenhamos a força, que somente de vós emana, para jamais nos apartarmos de vós.

  2. É o desejo de Roma ou do conselho de 8 que isso seja amplamente discutido?

  3. Assistindo aqui ao julgamendo do mensalão e a impressão que eu tenho é que a Igreja está cheia de Lewandowskis…

  4. Estão de brincadeira. Só pode.

    Até mesmo o Catecismo amarelão proíbe a comunhão dos divorciados recasados:

    1650. Hoje em dia e em muitos países, são numerosos os católicos que recorrem ao divórcio, em conformidade com as leis civis, e que contraem civilmente uma nova união. A Igreja mantém, por fidelidade à palavra de Jesus Cristo («quem repudia a sua mulher e casa com outra comete adultério em relação à primeira; e se uma mulher repudia o seu marido e casa com outro, comete adultério»: Mc 10, 11-12), que não pode reconhecer como válida uma nova união, se o primeiro Matrimónio foi válido. Se os divorciados se casam civilmente, ficam numa situação objetivamente contrária à lei de Deus. Por isso, NÃO podem aproximar-se da comunhão eucarística, enquanto persistir tal situação. Pelo mesmo motivo, ficam impedidos de exercer certas responsabilidades eclesiais. A reconciliação, por meio do sacramento da Penitência, só pode ser dada àqueles que se arrependerem de ter violado o sinal da Aliança e da fidelidade a Cristo e se comprometerem a viver em continência completa.

  5. Nome sugestivo o desse Cardeal…

  6. Kyrie, eleison!!!

  7. Alguém está mentindo aí.

    Dom Müller diz que teve autorização do Papa para anular o ato diocesano. Já Cardeal Marx diz que “é o desejo expresso de Roma [Papa?] que haja uma ampla discussão por toda a Igreja”

  8. O que esperar da Alemanha depois do Protestantismo e Nazismo? Sabe que esse lugar nunca me chamou a atenção; não tenho menor intenção de visita-lo, e nem mesmo sou muito fiel ao estudo da língua apesar de acha-la mais bela que o inglês. Eu nem iria comentar, apesar de eu sempre haver comentado aqui com o nome de “Alex”, isto em 2012 eu acho… Mas não é possível haver tanta confusão por causa desta situação. A crise no clero é inevitavelmente catastrófica, como veio a ser há décadas, mas já está sendo ultrapassada pelos novos seminaristas que, com os meios de comunicação, principalmente a internet generalizada, estão cada vez mais atentos às novidades modernistas. Digo isto porque sou de uma diocese pobre, embora tenhamos uma das maiores abadias do Brasil, e a situação do clero (grande parte) aqui é caótica, mas temos mais de 10 seminaristas, e uns 5 vocacionados, e de todos estes, a grande parte é atenta, mesmo que mais ou menos, ao dano da Teologia da Libertação e do abuso litúrgico. Não temos missa na forma extraordinária, mas temos algumas aulas de latim. Nosso bispo também é bastante influenciador, e se não estamos pior, é graças a ele e a um monsenhor. Vejo que, a Alemanha ainda há o que sofrer, mas não temo pelo clero, que parece que há de dar uma revitalizada, mas sim pelos fieis que estão a cada dia a ir rumo a apostasia.

    Não há muito o que fazer… felizmente Deus deu prazo aos vivos, chamando-os de mortais.

  9. Muller, herege de Fé!

  10. Bom, na minha opinião se trata de um Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé fazendo o que deveria fazer e do outro lado modernistas fazendo o que modernistas fazem.

  11. Quando um Müller se torna o campeão da ortodoxia e quando um dos conselheiros do próprio Papa não tem pudores de destilar seu ranço contra a doutrina da Igreja, então temos a prova final da falência das estruturas montadas após o CVII.

    Diante deste quadro, sinto-me como os discípulos na barca que ameaçava afundar. Sinceramente, do fundo do meu coração, grito: “Senhor, não te importa que pereçamos?”.

    Alexandre.

  12. Nessa história toda, eu não sei quem é menos católico…

  13. Vivemos numa época tão terrível, que nos surpreendemos ao ver o Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé simplesmente cumprir com sua obrigação, de proteger e ensinar a Sã Doutrina. Ora, isso já não era de se esperar da parte do Prefeito? Seria se ele não fosse o Cardeal Müller. De toda forma, rezemos para que ele continue nesta direção (proteger e ensinar a Sã Doutrina) e ao fim, abandone aquilo que o deixou tão suspeito.

    Rezemos pela conversão dos pecadores e pela Santa Igreja.

    Cleber

  14. Pois que venha o CV III.. Para discutir – vejam só – os recasados, as mulheres, o “parlamento”, e quiçá as côngruas.. sem esquecer, é claro, da Igreja pobre para os pobres!

  15. “Muller, herege de Fé!”

    Ana, sinceramente eu estava com muitas saudades dos seus comentários curtíssimos e afiadíssimos.

    • Kleber Santos, por causa do estilo fuzilamento, meus amigos de Jacareí e até meu confessor precisam responder: Sim, ela existe. kkkkkkkkkkk que situação!!! abraços

  16. Poucos são os povos que se recuperam depois de cometerem graves erros. A queda de Roma é um exemplo. Mas a Alemanha conseguiu se recuperar. Portanto, há, sim, uma grandeza do povo alemão. Não podemos esquecer que enquanto metade da Alemanha continuou católica, especialmente o sul, o Império Britânico todo se fez cismático. Não podemos esquecer que enquanto Hitler demonicamente dominava a Alemanha existiam resistências heróicas como a do Cardeal Von Galen, o Leão de Münster. Portanto, embora não teuto, discordo do Alexandre. A crise católica não é alemã, mas universal. E pode-se esperar coisas boas da Alemanha, como do oficial israelense nascido na Alemanha filho de oficial nazista, como o dinheiro das indenizações pagas a quase todas famílias judias perseguidas pelo nazismo, como o maior aporte de alimentos para as Filipinas depois da recente desgraça, sem falar de Bach, Haendel ou Haydn, alem de BMWs e Mercedes… A Alemanha é uma das principais nações do mundo, e como acontece em todas desse tipo de lá sai de tudo, inclusive imprestáveis. Mas o que a Alemanha nos ofereceu de melhor nos últimos tempo foi Bento XVI.

  17. Sr.Watchman,grande comentario.Fique com Deus!!!

  18. Qualquer manualeco ‘aggiornato’ de Eclesiologia diz, ad nauseam, que a Igreja (que Roma, entenda-se) é muito centralista; diz também que o modelo “tridentino” e “vaticano (primeiro)” correspondem às contingências da época e que, hoje, o governo da Igreja deveria ser mais participativo etc.

    Mas que tipo de situação gerou essa paranoia participativa, colegial?

    Os Párocos temem o conselho de leigos; nas dioceses, os Bispos temem o conselho de presbíteros; Roma teme as conferências episcopais… Pois, longe de serem meras instâncias consultivas, tais “colégios” querem, grunhem e ganham cada vez mais maiores espaços deliberativos…

    Mas a Igreja católica não é congregacional* (a ‘congregação’ de fieis governa as paróquias); não é presbiteriana* (o colégio de presbíteros governa a diocese) e não é episcopal* (no sentido de que o colégio dos bispos governa a Igreja).

    * Essas três qualificações, todos sabemos, correspondem a três designações protestantes… Mero acaso?

    • Falou e disse. Parabéns a todos que estão nestes comentários,não os conheço,mas fiquei impressionado com o nível de entendimento e informações sobre a crise em nossa Santa Igreja.
      Gostaria de abraçar a todos mas isto é impossível,mas fica aqui o meu recado.
      “O meu sangue é da Igreja, já não temo a morte num possível martirio,sabendo que não estou sozinho,que tem gente que ainda pensa o melhor para a Santa Igreja,isto é um bon sinal,sinal de amor por Jesus Cristo e a Virgem Maria.
      – SALVE MARIA.

  19. Guerra de hereges! Senhor tende piedade de nós!