Para debate: “Entre tradicionalistas e progressistas: a Santa Sé e seu discurso contínuo sobre a continuidade doutrinária do Vaticano II”.

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Por Guilherme Chenta, guilhermechenta.com

FILE PHOTO OF MEETING DURING SECOND VATICAN COUNCIL

Sessão do Concílio Vaticano II (1962 – 1965)

O discurso de 22 de dezembro de 2005, em que o Santo Padre Bento XVI preconizou a “hermenêutica da reforma na continuidade” como chave de leitura do Concílio Vaticano II, foi percebido como um ponto de inflexão no posicionamento da Santa Sé a respeito do concílio: a partir do novo pontificado, os textos conciliares, ao se reduzir o acento sobre o “aggiornamento”, deveriam ser interpretados em continuidade com a Tradição bimilenar da Igreja; analisando-se, porém, alguns documentos dos últimos papas, é possível constatar que a Santa Sé continuamente atestou que os textos do Vaticano II efetivamente não estão e não devem ser lidos em ruptura com a Tradição da Igreja, contrariando, dessa forma, duas correntes de católicos: a dos tradicionalistas, que não aceitam que seja possível interpretar alguns desses textos à luz da Tradição, e a dos progressistas, que não aceitam que se deva interpretá-los nesse sentido. O que se pretende, neste artigo, é demonstrar a continuidade desse discurso, pois se trata de um ponto fundamental para a compreensão da hodierna crise da Igreja, em que três correntes disputam entre si: a dos que defendem a continuidade do Vaticano II, a dos que promovem sua ruptura, e a dos que a denunciam.

João XXIII (1958 – 1963)

Embora não tenha assistido ao final do Concílio e ao surgimento do tradicionalismo e do progressismo, João XXIII foi claro ao afirmar que o Vaticano II não pretendia mudar a doutrina da Igreja. Suas palavras, no discurso de abertura do Vaticano II, em 11 de outubro de 1962, foram as seguintes:

[...]

V. Fim principal do Concílio: defesa e difusão da doutrina

1. O que mais importa ao Concílio Ecumênico é o seguinte: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz.

[...]

5. Mas, para que esta doutrina atinja os múltiplos níveis da atividade humana, que se referem aos indivíduos, às famílias e à vida social, é necessário primeiramente que a Igreja não se aparte do patrimônio sagrado da verdade, recebido dos seus maiores; e, ao mesmo tempo, deve também olhar para o presente, para as novas condições e formas de vida introduzidas no mundo hodierno, que abriram novos caminhos ao apostolado católico.

[...]

VI. Como deve ser promovida a doutrina

1. Isto posto, veneráveis irmãos, vê-se claramente tudo o que se espera do Concílio quanto à doutrina.

2. O XXI Concílio Ecumênico, que se aproveitará da eficaz e importante soma de experiências jurídicas, litúrgicas, apostólicas e administrativas, quer transmitir pura e íntegra a doutrina, sem atenuações nem subterfúgios, que por vinte séculos, apesar das dificuldades e das oposições, se tornou patrimônio comum dos homens. Patrimônio não recebido por todos, mas, assim mesmo, riqueza sempre ao dispor dos homens de boa vontade.

3. É nosso dever não só conservar este tesouro precioso, como se nos preocupássemos unicamente da antiguidade, mas também dedicar-nos com vontade pronta e sem temor àquele trabalho hoje exigido, prosseguindo assim o caminho que a Igreja percorre há vinte séculos.

4. A finalidade principal deste Concílio não é, portanto, a discussão de um ou outro tema da doutrina fundamental da Igreja, repetindo e proclamando o ensino dos Padres e dos Teólogos antigos e modernos, que se supõe sempre bem presente e familiar ao nosso espírito.

5. Para isto, não havia necessidade de um Concílio. Mas da renovada, serena e tranquila adesão a todo o ensino da Igreja, na sua integridade e exatidão, como ainda brilha nas Atas Conciliares desde Trento até ao Vaticano I, o espírito cristão, católico e apostólico do mundo inteiro espera um progresso na penetração doutrinal e na formação das consciências; é necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e exposta de forma a responder às exigências do nosso tempo. Uma coisa é a substância do “depositum fidei”, isto é, as verdades contidas na nossa doutrina, e outra é a formulação com que são enunciadas, conservando-lhes, contudo, o mesmo sentido e o mesmo alcance. Será preciso atribuir muita importância a esta forma e, se necessário, insistir com paciência, na sua elaboração; e dever-se-á usar a maneira de apresentar as coisas que mais corresponda ao magistério, cujo caráter é prevalentemente pastoral.

[...]

Paulo VI (1963 – 1978)

Morto João XXIII em 1963, foi Paulo VI que concluiu o Concílio Vaticano II em 1965. Este, embora tenha afirmado no discurso de encerramento que a Igreja, no Concílio, mais do que ninguém, tinha se tornado cultora do homem, também ele não deixou de frisar que não houve ruptura com a doutrina de sempre:

Veneráveis Irmãos

Concluímos hoje o Concílio Ecuménico Vaticano II e concluímo-lo na plenitude do seu vigor e da sua eficiência. [...] O Concílio, porém, não deixa apenas à posteridade a imagem da Igreja, mas também o património da sua doutrina e dos seus mandamentos, isto é, o depósito que Cristo lhe confiou; depósito que no decurso dos tempos os homens sempre meditaram, transformaram, por assim dizer, no próprio sangue e exprimiram de algum modo no seu viver; depósito que agora, aclarado em muitos pontos, foi estabelecido e ordenado na sua integridade. Este depósito, vivo pela divina virtude da verdade e da força que o constituem, deve ser considerado apto para vivificar todo o homem que o acate piedosamente e dele alimente a sua própria vida.

[...]

Podemos confessar que demos glória a Deus, que buscámos o seu conhecimento e o seu amor, que adiantámos no esforço da sua contemplação, na ânsia da sua celebração, na arte de o dar a conhecer aos homens que nos olham como Pastores e mestres dos caminhos do Senhor?

Acreditamos sinceramente que sim, até porque foi esta a intenção inicial e fundamental donde nasceu o propósito de celebrar o Concílio. Ressoam ainda, nesta Basílica de S. Pedro, as palavras pronunciadas no discurso inaugural do mesmo Concílio, pelo nosso predecessor de feliz memória, João XXIII, em quem, com toda a razão, podemos ver o autor deste Concílio Ecuménico. Dizia então aquele Pontífice: “O que mais importa ao Concílio Ecuménico é o seguinte: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz… O Senhor disse: “Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça”. Esta palavra “primeiro” exprime, antes de mais, em que direção devem mover-se os nossos pensamentos e as nossas forças” (1).

E o acontecimento correspondeu exatamente àquela ideia. Para o apreciarmos devidamente, é necessário recordar o tempo em que se levou a cabo este acontecimento: foi num tempo em que, como todos reconhecem, os homens estão voltados mais para a conquista da terra do que para o reino de Deus; foi num tempo em que o esquecimento de Deus se torna habitual, como se os progressos da ciência o aconselhassem; foi num tempo em que o ato fundamental da pessoa humana, mais consciente de si e da sua liberdade, tende a exigir uma liberdade total, livre de todas as leis que transcendam a ordem natural das coisas; foi num tempo em que os princípios do laicismo aparecem como a consequência legítima do pensamento moderno e são tidos quase como norma sapientíssima segundo a qual a sociedade humana deve ser ordenada; foi num tempo em que a razão humana pretende exprimir o que é absurdo e tira toda a esperança; foi num tempo, finalmente, em que as religiões étnicas estão sujeitas a perturbações e transformações jamais experimentadas. [...]

[...]

Mas não é lícito omitir algo que é da maior importância quando examinarmos o significado religioso deste Concílio: isto teve ele a peito perscrutar o mundo deste nosso tempo. Nunca talvez como no tempo deste Concílio a Igreja se sentiu na necessidade de conhecer, avizinhar, julgar retamente, penetrar, servir e transmitir a mensagem evangélica, e, por assim dizer, atingir a sociedade humana que a rodeia, seguindo-a na sua rápida e contínua mudança. Esta atitude, nascida pelo facto de a Igreja, no passado e sobretudo neste século, ter estado ausente e afastada da civilização profana, esta atitude, sempre inspirada pela essencial missão salvadora da Igreja, esteve presente eficaz e continuamente no Concílio. Por isso é que alguns suspeitaram que nos homens e nos atos do Concílio tinha dominado mais do que era justo e com demasiada indulgência a doutrina do relativismo que se encontra no mundo externo, nas coisas que passam fugazmente, nas novas modas, nas necessidades contingentes, nos pensamentos dos outros; e isto à custa da fidelidade devida à doutrina tradicional e com prejuízo da orientação religiosa que necessariamente é própria dum Concílio. Julgamos que não lhe deve ser atribuída esta atitude perniciosa, se bem atendermos às suas verdadeiras e misteriosas intenções e às suas autênticas manifestações.

Desejamos antes notar que a religião do nosso Concílio foi, antes de mais, a caridade; por esta sua declarada intenção, o Concílio não poderá ser acusado por ninguém de irreligiosidade, de infidelidade ao Evangelho, se nos lembrarmos que o próprio Cristo nos ensina que todos conhecerão que somos seus discípulos, se nos amarmos mutuamente (4); se deixarmos igualmente que estas palavras do Apóstolo se façam ouvir dentro das nossas almas: « A religião pura e imaculada junto de Deus Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e conservar-se imaculado neste mundo» (5); e mais estas: «Quem… não ama o seu irmão, a quem vê, como pode amar alguém que não vê? (6)

[...]

Mas convém notar uma coisa: o magistério da Igreja, embora não tenha querido pronunciar-se com sentenças dogmáticas extraordinárias sobre nenhum capítulo doutrinal, propôs, todavia, o seu ensinamento autorizado acerca de muitas questões que hoje comprometem a consciência e a atividade do homem. Por assim dizer, a Igreja baixou a dialogar com o homem; e conservando sempre a sua autoridade e a sua virtude, adoptou a maneira de falar acessível e amiga que é própria da caridade pastoral. Quis ser ouvida e entendida pelos homens. Por isso, não se preocupou só com falar à inteligência do homem, mas exprimiu-se no modo hoje usado na conversação corrente, em que o recurso à experiência da vida e o emprego dos sentimentos cordiais dão mais força para atrair e para convencer. Isto é, a Igreja falou aos homens de hoje, tais quais eles são.

Uma outra coisa julgamos digna de consideração: toda esta riqueza doutrinal orienta-se apenas a isto: servir o homem, em todas as circunstâncias da sua vida, em todas as suas fraquezas, em todas as suas necessidades. A Igreja declarou-se quase a escrava da humanidade, precisamente no momento em que tanto o seu magistério eclesiástico como o seu governo pastoral adquiriram maior esplendor e vigor devido à solenidade conciliar; a ideia de serviço ocupou o lugar central.

Tudo isto e tudo o mais que poderíamos ainda dizer acerca do Concílio, terá porventura desviado a Igreja em Concílio para a cultura atual que toda é antropocêntrica? Desviado, não; voltado, sim. Mas quem observa honestamente este interesse prevalente do Concílio pelos valores humanos e temporais não pode negar que tal interesse se deve ao carácter pastoral que o Concílio escolheu como programa, e deverá reconhecer que esse mesmo interesse jamais está separado do interesse religioso mais autêntico, devido à caridade que é a única a inspirá-lo (e onde está a caridade, aí está Deus), ou à união dos valores humanos e temporais com os especificamente espirituais, religiosos e eternos, afirmada e promovida sempre pelo Concílio; este debruça-se sobre o homem e sobre a terra, mas eleva-se ao reino de Deus.

[...]

Estaria, então, destinado este Concílio, que dedicou ao homem a sua principal e esforçada atenção, a propor de novo ao mundo moderno a libertação e a consolação a que gradualmente pode subir? Não será, em resumo, um modo simples, novo e solene de ensinar a amar o homem para amar a Deus? Amar o homem, dizemos, não como instrumento, mas como que primeiro fim, que nos leva ao supremo fim transcendente. Por isso, todo este Concílio se resume no seu significado religioso, não sendo outra coisa senão um veemente e amistoso convite em que a humanidade é chamada a encontrar, pelo caminho do amor fraterno, aquele Deus “de quem afastar-se é cair, a quem dirigir-se é levantar-se, em quem permanecer é estar firme, a quem voltar é renascer, em quem habitar é viver” (10).

Já em 24 de julho de 1966, o Cardeal Alfredo Ottaviani, então à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, enviou uma carta aos bispos e superiores de ordens religiosas do mundo inteiro na qual tratava dos erros que se espalhavam na Igreja devido a uma má interpretação do Vaticano II. Dom Lefebvre, então Superior Geral da Congregação dos Padres do Espírito Santo, recebeu esta carta:

[...]

Como o segundo concílio ecumênico do Vaticano, recente e felizmente encerrado, promulgou documentos muito sábios, seja em matéria doutrinária, seja em matéria disciplinar, para promover eficazmente a vida da Igreja, incumbe a todo o povo de Deus uma grave tarefa, aquela de fazer todos os esforços para levar à sua aplicação tudo aquilo que, nessa grande assembleia de bispos presidida pelo Soberano Pontífice, foi solenemente proposto ou decretado.

Ora, cabe à hierarquia, é seu direito e seu ofício, velar, dirigir, promover o movimento de renovação começado pelo Concílio, a fim de que os documentos e decretos desse mesmo Concílio recebam uma correta interpretação e sejam colocados em aplicação, observando estritamente o vigor e o espírito desses mesmos documentos. São, com efeito, os bispos que devem proteger essa doutrina, aqueles que gozam sob seu chefe que é Pedro da função de ensinar com autoridade. E é louvavelmente que esses numerosos Pastores já se colocaram a explicar de maneira apta a doutrina do Concílio.

Há, apesar disso, que se deplorar que, de diversos lados, notícias pouco felizes tenham chegado de abusos crescentes na interpretação da doutrina do Concílio, bem como opiniões erradas e audaciosas surgindo aqui e acolá, que não pervertem pouco o espírito de numerosos fiéis. [...]

[...]

  1. [...] há aqueles que recorrem às Sagradas Escrituras colocando de lado deliberadamente a Tradição [...].

  2. [...] é dito que as fórmulas dogmáticas estão submetidas à evolução histórica, de tal modo que seu sentido objetivo está submetido à mudança.

  3. O magistério ordinário da Igreja, sobretudo o do Pontífice romano, é, às vezes, tão negligenciado, que ele é quase relegado à esfera das opiniões livres.

  4. A verdade objetiva e absoluta, firme e imutável, não é quase admitida por alguns, que submetem todas as coisas a certo relativismo [...]

  5. [...] o Cristo é reduzido à condição de um simples homem, que teria adquirido pouco a pouco a consciência da filiação divina. Sua concepção, seus milagres, sua ressureição são concedidos verbalmente, mas, em realidade, são remetidos à ordem puramente natural.

  6. A mesma coisa se dá no tratamento teológico dos sacramentos [...]. Não falta quem trate da presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho, favorecendo um simbolismo exagerado, como se o pão e o vinho não se convertessem em Corpo e em Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo pela transubstanciação, mas fossem simplesmente transferidos em direção a certa significação. [...]

  7. [... Alguns] pretendem que, na celebração desse sacramento [da confissão], não é necessária a confissão pessoal dos pecados [...].

  8. Não faltam aqueles que subestimam a doutrina do concílio de Trento sobre o pecado original [...]

  9. Erros não menores se espalharam no domínio da teologia moral. [...]

  10. A todas essas coisas, é preciso acrescentar uma nota sobre o ecumenismo. A Sé Apostólica louva absolutamente aqueles que, no espírito do decreto conciliar sobre o ecumenismo, promovem as iniciativas em vista a favorecer a caridade em relação aos irmãos separados e de atraí-los à unidade da Igreja, mas ela deplora que não faltem aqueles que, interpretando a seu modo o decreto conciliar, pedem uma ação ecumênica que ofende a verdade sobre a unidade da fé e da Igreja, favorecendo um perigoso irenismo e o indiferentismo, que certamente é totalmente estranho ao espírito do Concílio.

Esses erros e perigos espalhados, sem dúvida, aqui e acolá, se encontram, apesar disso, reunidos nessa carta em uma síntese sumária, e são propostos aos Ordinários, a fim de que cada um, segundo seu posto e seu ofício, tome o cuidado de reprimi-los ou de preveni-los.

[...]

Quase doze anos após o encerramento do Concílio, em 24 de maio de 1976, Paulo VI, em discurso para o consistório secreto, no qual nomeou vinte novos cardeais, colocou-se entre os tradicionalistas e os progressistas; os abusos avançaram de maneira notória na Igreja e a resistência de Dom Lefebvre, em Écône, já havia se tornado famosa:

[...]

O Consistório, dizíamos, é um momento particularmente grave e solene para a vida da Igreja, a qual se desenvolve no tempo: e nós não podemos deixar passar essa ocasião, que nos põe em contato convosco, sem tratar em vossa presença de aspectos e de questões que estão muito em nosso coração e que temos como sendo de grande importância; sem vos fazer parte dos sentimentos que nutrimos no íntimo. São sentimentos de gratidão e de alegria, de uma parte, mas também de preocupação e de pena de outra parte.

1) O primeiro sentimento nasce daquele otimismo nato – fundado sobre as promessas indefectíveis de Cristo (Cfr. Mat. 28, 20; Jo. 16, 33) e sobre a constatação dos fenômenos sempre novos e consoladores – que nós habitualmente nutrimos no coração: é a vitalidade, a juventude da Igreja, da qual nós temos tantos sinais. [...]

[...]

Nós vemos as linhas traçadas pelo recente Concílio dirigir e sustentar o esforço contínuo de adesão ao Evangelho de Cristo, em um esforço de autenticidade cristã, no exercício das virtudes teologais.

[...]

2) Mas também há motivos de amargura, que não queremos certamente ocultar, nem minimizar: e nascem especialmente do surgimento de uma polaridade, frequentemente irredutível em alguns de seus excessos, que manifesta em campos diversos uma imaturidade superficial, ou mesmo uma obstinação teimosa [caparbia], em substância, uma surdez amarga em relação aos apelos àquele equilíbrio sadio, conciliador das tensões, partidos da grande lição do Concílio, já há mais de dez anos.

a) De um lado, eis aqueles que, com o pretexto de uma maior fidelidade à Igreja e ao Magistério, refutam sistematicamente os ensinamentos do próprio Concílio, a sua aplicação e as reformas que derivam dele, a sua gradual aplicação por obra da Sé Apostólica e das Conferências Episcopais, sob a nossa autoridade, querida por Cristo. Lança-se o descrédito sobre a autoridade da Igreja em nome de uma Tradição, de qual apenas material e verbalmente se atesta respeito: afastam-se os fiéis dos liames de obediência à Sé de Pedro como aos seus legítimos Bispos; recusa-se a autoridade de hoje, em nome da de ontem. E o fato é tanto mais grave, quanto a oposição daqueles sobre os quais falamos não é somente encorajada por alguns sacerdotes, mas é encabeçada por um Bispo por Nós, entretanto, sempre venerado, Monsenhor Marcel Lefebvre.

É muito doloroso notar isso: mas como não ver nessa atitude – quaisquer que possam ser as intenções dessas pessoas – o colocar-se fora da obediência e da comunhão com o Sucessor de Pedro e, portanto, da Igreja?

Porque esta, infelizmente, é a consequência lógica, quando se sustenta ser preferível desobedecer com o pretexto de conservar intacta a própria fé, de trabalhar de modo próprio para a preservação da Igreja católica, negando a ela, ao mesmo tempo, uma efetiva obediência. E se diz isso abertamente! Ousa-se afirmar que o Concílio Vaticano II não é vinculante; que a fé estaria em perigo, além disso, por causa das reformas e das orientações pós-conciliares, que há o dever de desobedecer para conservar certas tradições. Quais tradições? É esse grupo, e não o Papa, não o Colégio Episcopal, não o Concílio Ecumênico, que estabelece, entre as inumeráveis tradições, quais devem ser consideradas como norma de fé! Como vedes, veneráveis irmãos nossos, essa atitude se ergue como juiz daquela vontade divina, que colocou Pedro e Seus Sucessores legítimos como Cabeça da Igreja para confirmar os irmãos na fé e para apascentar a grei universal (Cf. Luc. 22, 32; Jo. 21, 15 ss.), que o estabeleceu como garante e guardião do depósito da Fé.

E isso é tanto mais grave, em particular, quando se introduz a divisão, justo no lugar em que congrevavit nos in unum Christi amor, na Liturgia, e no Sacrifício Eucarístico, recusando o obséquio às normas definidas no campo litúrgico. É em nome da Tradição que nós pedimos a todos os nossos filhos, a todas as comunidades católicas, celebrar, com dignidade e com fervor, a Liturgia renovada. A adoção do novo “Ordo Missae” não foi deixada certamente ao arbítrio dos sacerdotes ou dos fiéis: [...]. O novo Ordo foi promulgado, porque substitui o antigo, depois de madura deliberação, seguindo as instâncias do Concílio Vaticano II. Não diversamente, nosso santo Predecessor Pio V tornou obrigatório o Missal reformado sob sua autoridade, seguindo o Concílio Tridentino.

Nós exigimos a mesma disponibilidade, com a mesma autoridade suprema que nos vem de Cristo Jesus, a todas as outras reformas litúrgicas, disciplinares, pastorais, maturadas nesses anos em aplicação aos decretos conciliares. Toda iniciativa que vise a obstaculizá-las não pode se arrogar a prerrogativa de render um serviço à Igreja: com efeito, causa a ela grave dano.

Várias vezes, diretamente, por meio de nossos colaboradores e de outras pessoas amigas, chamamos a atenção de Monsenhor Lefebvre sobre a gravidade de suas atitudes, a irregularidade das suas principais iniciativas presentes, a inconsistência e mesmo falsidade das posições doutrinais sobre as quais ele embasa umas e outras, e o dano que delas provém para a Igreja inteira.

[...]

b) De outro lado, em direção oposta quanto à posição ideológica, mas igualmente causa de profunda pena, estão aqueles que, crendo erroneamente continuar na linha do Concílio, se colocaram em uma posição de crítica preconcebida e, às vezes, irredutível à Igreja e a suas instituições.

Por isso, com igual [altrettanta] firmeza, devemos dizer que não admitimos a atitude:

- daqueles que se creem autorizados a criar sua própria liturgia, limitando, às vezes, o Sacrifício da Missa ou os sacramentos à celebração da própria vida ou da própria luta, ou mesmo ao símbolo de sua fraternidade; ou praticando abusivamente a intercomunhão;

- daqueles que minimizam o ensinamento doutrinário na catequese ou a desnaturam segundo o gosto dos interesses, das pressões ou das exigências dos homens, segundo tendências que deturpam profundamente a mensagem cristã, como já indicamos na Exortação Apostólica “Quinque iam anni”, de 08 de dezembro de 1970, a cinco anos do final do Concílio (Cf. AAS 63 (1971) 99);

- daqueles que fingem ignorar a Tradição viva da Igreja, dos Padres até os ensinamentos do Magistério, e reinterpretam a doutrina da Igreja, e o mesmo Evangelho, as realidades espirituais, a divindade de Cristo, a sua ressureição ou a Eucaristia, esvaziando-a praticamente de seu conteúdo e criando de tal modo uma nova gnose e introduzindo de certo modo na Igreja o “livre exame”: e isso é tanto mais perigoso quando se trata daqueles que têm a altíssima e delicada missão de ensinar a Teologia católica;

- daqueles que reduzem a função específica do ministério sacerdotal;

- daqueles que dolorosamente transgredem as leis da Igreja, ou as exigências éticas reclamadas por ela.

- daqueles que interpretam a vida teologal como uma organização da sociedade deste mundo [di quaggiù], de fato a reduzem a uma ação política, adotando para esse escopo um espírito, métodos, e práticas contrárias ao Evangelho; e se chega a confundir a mensagem transcendente de Cristo, o seu anúncio do Reino de Deis, a sua lei de amor entre os homens, fundado sob a inefável paternidade de Deus, com ideologias que essencialmente negam essa mensagem, substituindo-a com uma posição doutrinal absolutamente antitética, propugnando um conúbio híbrido entre dois mundos inconciliáveis, como é reconhecido pelos mesmos teóricos da outra parte.

Semelhantes cristãos não são muito numerosos, é verdade, mas fazem muito barulho, crendo demais facilmente interpretar as necessidades de todo o povo cristão ou o sentido irreversível da história. Não podem, fazendo assim, se remeter ao Concílio Vaticano II, porque sua interpretação e sua aplicação não se prestam a abusos de qualquer tipo; nem [podem] apelar às exigências do apostolado para aproximarem os distantes ou os incrédulos: o apostolado verdadeiro é enviado pela Igreja para testemunhar sobre a doutrina e a vida da mesma Igreja. O fermento deve ser difundido em toda a massa, mas deve permanecer fermento evangélico. De outra forma, também esse se corrompe com o mundo.

Veneráveis Irmãos Nossos! Pensamos em vos confiar essas reflexões, conscientes do momento que bate para a Igreja. Essa é e será sempre o sinal [vessillo] levado entre as Nações (Cf. Is. 5, 26; 11, 12), porque tem a missão de dar ao mundo que a guarda, com ares, às vezes, de desafio, a verdade daquela fé que ilumina o destino, a esperança que não decepciona (Cf. Rom. 5, 5), a caridade que salva do egoísmo que, sob várias formas, procura invadi-lo e sufocá-lo. Não é certamente o momento do abandono, da deserção, das concessões: não é, tanto menos, o do medo. Os cristãos são simplesmente chamados a serem eles mesmos: e eles o serão na medida em que forem fiéis à Igreja e ao Concílio.

[...]

Em 11 de outubro de 1976, Paulo VI escreveu, por sua vez, a seguinte carta a Mons. Lefebvre:

Recebendo-o no dia 11 de setembro em Castel Gandolfo, Nós deixamos V. Excia. expressar livremente seu pensamento e seus desejos, mesmo se os diversos aspectos de seu caso já fossem bem conhecidos por Nós pessoalmente. A recordação que nós guardamos de seu zelo pela fé e pelo apostolado, e do bem realizado no passado no serviço da Igreja, nos fazia e nos faz sempre esperar que V. Excia. volte a ser um sujeito de edificação, na plena comunhão eclesial.

[...]

V. Excia. não expressa explicitamente sua adesão à autoridade do Concílio Vaticano II e da Santa Sé – o que constitui o fundo do problema e V. Excia. prossegue com suas próprias obras que a autoridade legítima lhe pediu expressamente suspender. A ambiguidade permanece, por causa dessa dupla linguagem. Como Nós lhe prometemos fazer, nós lhe apresentamos aqui a conclusão de nossas reflexões.

I

[...]

O fato dos desvios na fé ou na prática sacramental é seguramente muito grave, em todo lugar onde se pode verificá-lo. Ele retém desde há muito tempo toda nossa atenção doutrinal e pastoral. [...] Mas é verdade que padres e fiéis cobrem com o nome de “conciliar” interpretações pessoais e práticas errôneas, prejudiciais, até mesmo escandalosas e, por vezes, mesmo sacrílegas. Pois esses abusos não podem ser atribuídos ao Concílio em si mesmo, nem às reformas que legitimamente saíram dele, mas muito mais a uma falta de fidelidade autêntica para com ele. Ora, V. Excia. quer convencer os fiéis que a causa próxima de crise é mais que uma má interpretação do Concílio, e que ela decorre do Concílio em si mesmo.

Além disso, V. Excia. age como se tivesse um papel particular nesse domínio. Ora, a missão de discernir e de corrigir os abusos é, primeiramente, Nossa, ela é de todos os bispos que agem conosco. E precisamente Nós não cessamos de levantar a voz contra esses excessos: nosso discurso no consistório de 24 de maio [citado acima] repetia isso em termos claros. Mais que ninguém Nós ouvimos o sofrimento dos cristãos desamparados, Nós respondemos ao grito dos fiéis ávidos por fé e por vida espiritual. Não cabe aqui recordar, Irmão, todos os atos de nosso pontificado que testemunham nossa preocupação constante de assegurar à Igreja a fidelidade à Tradição verdadeira e de colocá-la também em medida de afrontar o presente e o futuro, com a graça do Senhor.

[...] V. Excia. quer, como diz, remediar os abusos que desfiguram a Igreja [...] V. Excia. quer salvaguardar a fé autêntica [...]

Mas como pode V. Excia., ao mesmo tempo, para cumprir esse papel, se pretender obrigado a agir na contra corrente do recente Concílio, em oposição a seus irmãos no episcopado, a desconfiar da própria Santa Sé que V. Excia. qualifica de “Roma de tendência neomodernista e neoprotestante”, a se colocar em desobediência aberta em relação a Nós? [...]

II

Vamos agora aos pedidos mais precisos que V. Excia. formulou durante a audiência de 11 de setembro. V. Excia quer que seja reconhecido o direito de celebrar a missa segundo o rito tridentino em diversos lugares de culto. V. Excia. deseja também formar aspirantes ao sacerdócio segundo seus critérios, “como antes do Concílio”, em seminários à parte, como Écône. Mas por trás dessas questões e de outras semelhantes, que Nós examinaremos à frente em detalhe, é importante ver bem o nó do problema que é teológico. Pois elas se tornaram maneiras concretas de exprimir uma eclesiologia que é falsa sobre pontos essenciais.

O que está em causa, com efeito, é a questão, que nós devemos bem dizer fundamental, da recusa de V. Excia., claramente proclamada, de reconhecer em seu conjunto, a autoridade do Concílio Vaticano II e a do Papa, recusa que se acompanha de uma ação ordenada a propagar e a organizar o que é preciso bem chamar, infelizmente, de uma rebelião. Esse é o ponto essencial, propriamente insustentável.

[...]

[...] um bispo sozinho e sem missão canônica não tem, in actu expedito ad agendum, a faculdade de estabelecer em geral qual é a regra da fé e de determinar o que é a Tradição. Ora, praticamente, V. Excia. pretende ser sozinho o juiz daquilo que pertence à Tradição.

V. Excia. diz ser submisso à Igreja, fiel à Tradição, pelo único fato de que V. Excia. obedece a certas normas do passado, ditadas pelos predecessores daquele ao qual Deus conferiu hoje os poderes dados a Pedro. Isso quer dizer que, sobre esse ponto também, o conceito de “Tradição” que V. Excia. invoca é falso. A Tradição não é um dado solidificado ou morto, um fato de alguma forma estático que bloquearia, em um determinado momento da história, a vida desse organismo ativo que é a Igreja, isto é, o corpo místico de Cristo. Cabe ao Papa e aos concílios fazer um juízo para discernir, nas tradições da Igreja, aquilo a que não é possível renunciar sem infidelidade ao Senhor e ao Espírito Santo – o depósito da fé – e aquilo que, pelo contrário, pode e deve ser atualizado, para facilitar a oração e a missão da Igreja através da variedade dos tempos e dos lugares, para mais bem traduzir a mensagem divina na linguagem de hoje e mais bem comunicá-la, sem comprometimento indevido. A Tradição não é, portanto, separável do Magistério vivo da Igreja, como ela não é separável da Escritura santa: [...]

É assim que agiram comumente os Papas e os concílios ecumênicos, com a assistência especial do Espírito Santo. E é precisamente o que fez o concílio Vaticano II. Nada do que foi decretado nesse Concílio, como nas reformas que Nós decidimos para colocá-lo em prática, se opôs àquilo que a Tradição bimilenar da Igreja inclui de fundamental e de imutável. Disso, Nós somos garantes, em virtude, não de nossas qualidades pessoais, mas do posto que o Senhor Nos conferiu como sucessor legítimo de Pedro e da assistência especial que ele Nos prometeu como a Padre: “Eu rezei por ti para que tua fé não desfaleça”. Conosco, é garante disso o episcopado universal.

V. Excia. não pode também invocar a distinção entre dogmático e pastoral para aceitar certos textos desse Concílio e recusar outros dele. Certamente, tudo o que é dito em um concílio não pede um assentimento da mesma natureza: somente o que é afirmado como objeto de fé ou verdade anexa à fé, por atos definitivos, requer um assentimento de fé. Mas o resto também faz parte do magistério solene da Igreja, ao qual todo fiel deve um acolhimento confiante e uma aplicação sincera.

Permanece que, em consciência, diz V. Excia., V. Excia. não vê sempre como harmonizar certos textos do Concílio ou certas disposições que Nós adotamos para aplicá-lo com a sã tradição da Igreja e, em particular, com o concílio de Trento ou com as afirmações de nossos predecessores, por exemplo, sobre a responsabilidade do colégio dos bispos unidos ao Soberano Pontífice, o novo Ordo Missae, o ecumenismo, a liberdade religiosa, a atitude de diálogo, a evangelização no mundo desse tempo… Não cabe aqui, nesta carta, retomar cada um desses problemas. O conteúdo preciso dos documentos, com o conjunto das nuances que eles comportam e o contexto que os enquadra, as explicações autorizadas, os comentários aprofundados e objetivos que foram dados são de natureza a fazer V. Excia. superar essas perplexidades pessoais. Conselheiros absolutamente seguros, teólogos e espirituais, poderia lhe ajudar nisso ainda, na luz de Deus, e Nós estamos prontos a lhe facilitar essa assistência fraterna. Mas como uma dificuldade pessoal interior – drama espiritual que Nós respeitamos – permite a V. Excia. erigir-se publicamente como juiz daquilo que foi adotado legitimamente e praticamente por unanimidade, e arrastar deliberadamente uma parte dos fiéis em sua recusa? Se [existem] as justificações para facilitar intelectualmente a adesão – e Nós desejamos que os fiéis perturbados ou reticentes tenham a sabedoria, a honestidade e a humildade de acolher aquelas que são largamente colocadas a sua disposição – elas não são por si mesmas necessárias ao assentimento da obediência que é devido ao Concílio ecumênico e às decisões do Papa. É o senso eclesial que está em causa.

No fundo, V. Excia. pretende, V. Excia. mesmo e aqueles que o seguem, parar em um momento determinado da vida da Igreja; V. Excia. recusa-se, por isso mesmo, a aderir à Igreja viva, que é aquela de sempre; V. Excia. rompe com seus pastores legítimos, V. Excia. despreza o exercício legítimo de seus cargos. É assim que V. Excia. não se pretende atingida pelas ordens do Papa, nem pela suspens a divinis, ao mesmo tempo em que “deplora” a subversão na Igreja [...]

É por causa da mesma concepção errônea que V. Excia. se liga à celebração abusiva da missa dita de São Pio V. [...] Nós sancionamos essa reforma com nossa autoridade, pedindo sua adoção por todos os católicos. Se, em geral, Nós não julgamos bom manter mais longamente atrasos e exceções a essa adoção, foi em vista do bem espiritual e da unidade da inteira comunidade eclesial, pois, para os católicos de rito romano, o Ordo Missae é um sinal privilegiado de sua unidade. É também, porque, no caso de V. Excia., o rito antigo se torna a expressão de uma eclesiologia falsa, um terreno de luta contra o Concílio e suas reformas, sob o pretexto de que somente assim se conservaria, sem que seus significados fossem obscurecidos, o verdadeiro sacrifício da missa e do sacerdócio ministerial. Nós não podemos aceitar esse julgamento errôneo, essa acusação injustificada, nem tolerar que a Eucaristia do Senhor, sacramento de unidade, seja objeto de semelhantes divisões (cf. Co. 11, 18), e que ela seja utilizada mesmo como instrumento e sinal de rebelião.

Certamente, há lugar na Igreja para certo pluralismo, mas nas coisas lícitas e na obediência. Ele não compreende aqueles que recusam o conjunto da reforma litúrgica, nem mais aqueles que colocam em perigo a santidade da presença real do Senhor e de seu sacrifício. Da mesma forma, ele não pode ser questão de uma formação sacerdotal que ignore o Concílio.

Nós não podemos, portanto, tomar os pedidos de V. Excia. em consideração, porque se trata de atos que já se colocaram na rebelião contra a única e verdadeira Igreja de Deus. Essa severidade não é ditada, creia-o bem, por uma recusa de fazer uma concessão sobre esse ou aquele ponto disciplinar ou litúrgico, mas, dada a significação e a projeção dos atos de V. Excia. no contexto atual, agir assim seria, de nossa parte, aceitar que se introduza uma concepção da Igreja e da Tradição gravemente errônea.

É por isso que, com plena consciência de nossos deveres, Nós dizemos a V. Excia., irmão, que V. Excia. está no erro. E com todo o ardor de nosso amor fraternal, como com todo o peso de nossa autoridade de sucessor de Pedro, Nós convidamos V. Excia. a se retratar, a se arrepender e a cessar de infligir feridas à Igreja de Cristo.

III

Concretamente, o que Nós pedimos a V. Excia?

A. Em primeiro lugar e, sobretudo, uma declaração que coloque as coisas em seu lugar [...].

Essa declaração deverá, portanto, afirmar que V. Excia. adere francamente ao concílio ecumênico Vaticano II e a todos seus textos – sensu obvia – que foram adotados pelos padres conciliares, aprovados e promulgados por nossa autoridade. Pois essa adesão foi sempre a regra, na Igreja, desde as origens, no que diz respeito aos concílios ecumênicos.

Deve ficar claro que V. Excia. acolhe igualmente as decisões que Nós tomamos, desde o Concílio, para aplicá-lo, com a ajuda dos organismos da Santa Sé; entre outras, V. Excia. deve reconhecer explicitamente a legitimidade da liturgia renovada, notadamente a do Ordo Missae, e nosso direito de requerer sua adoção pelo conjunto do povo cristão.

[...]

Todos os pontos que figuram nesta carta e que Nós pesamos maduramente com a colaboração dos chefes dos dicastérios interessados foram adotados por Nós apenas em vista do melhor bem da Igreja. [...]

João Paulo II (1978 – 2005)

Em 08 de abril de 1988, o Papa João Paulo II enviou uma carta ao Cardeal Joseph Ratzinger, então à frente das tratativas com Dom Lefebvre. Nessa carta, o Papa discorreu sobre duas tendências opostas, ambas erradas, a respeito do Concílio Vaticano II.

Em seu início, João Paulo II expôs os princípios que lhe serviram de instrumento para tratar dessas duas tendências: i) a assistência do Espírito Santo à Igreja, que não permite a ela errar em seus ensinamentos e ii) o desenvolvimento orgânico que esses ensinamentos sofrem ao longo da história por ação desse mesmo Espírito de verdade que atua na Igreja:

A meu venerado irmão, o Cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Neste tempo litúrgico em que, nas celebrações da Semana Santa, nós temos revivido os acontecimentos da Páscoa, as palavras pelas quais o Cristo Senhor prometeu aos apóstolos a vinda do Espírito Santo tomam para nós uma particular atualidade: “Eu rogarei ao Pai e ele vos enviará um outro Consolador, para que ele esteja convosco para sempre, o Espírito de verdade…, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará de tudo o que eu vos disse” (Jo 14, 16, 17, 26).

Em todo tempo, a Igreja foi animada pela fé nessas palavras de seu Mestre e Senhor, na certeza de que, graças à ajuda e à assistência do Espírito Santo, ela permanecerá para sempre na Verdade divina, conservando a sucessão apostólica pelo Colégio dos bispos em união com seu chefe, o sucessor de São Pedro.

A Igreja manifestou ainda essa convicção de fé no último Concílio que se reuniu para confirmar e afirmar a doutrina da Igreja herdada da Tradição existente já há quase vinte séculos como realidade viva que progride, em relação com os problemas e as necessidades de cada época, aprofundando a compreensão daquilo que já continha a fé uma vez transmitida para todos (Jude, 3). Nós conservamos a convicção profunda de que “o Espírito de verdade que diz à Igreja” (Cf. Ap 2, 7, 11, 17, etc.) falou – de uma maneira particularmente solene e com uma particular autoridade – pelo Concílio Vaticano II, preparando a Igreja a entrar no terceiro milênio depois de Cristo. Dado que a obra do Concílio, em sua totalidade, constitui uma confirmação da mesma verdade vivida pela Igreja desde o começo, ela é ao mesmo tempo “renovamento” dessa mesma verdade (“aggiornamento”, segundo a célebre expressão do Papa João XXIII), para tornar a maneira de ensinar a fé e a moral, e igualmente toda a atividade apostólica e pastoral da Igreja, mais próximas da grande família humana no mundo contemporâneo. E se sabe bem o quanto esse “mundo” é diversificado e mesmo dividido.

Em seguida, o Papa falou da necessidade de se aplicar corretamente o Vaticano II:

Pelo serviço doutrinário e pastoral de todo o Colégio dos bispos em união com o Papa, a Igreja cumpre as tarefas que dizem respeito à aplicação de tudo aquilo que se tornou herança específica do Vaticano II. Essa solicitude colegial encontra sua expressão, entre outras, nas reuniões do Sínodo dos bispos. Nesse contexto, convém evocar particularmente a Assembleia extraordinária do Sínodo ocorrida em 1985, por ocasião do vigésimo aniversário da conclusão do Concílio, assembleia que colocou em relevo as mais importantes tarefas ligadas à aplicada do Vaticano II, constatando que o ensinamento desse Concílio permanece a via sobre a qual a Igreja deve avançar em direção ao futuro, confiando seus esforços ao Espírito de verdade. Na linha desses esforços, assumem igualmente uma importância particular as obrigações da Santa Sé em relação à Igreja universal, quer seja pelo ministerium petrinium do bispo de Roma, ou pelos organismos da Cúria romana da qual ele se serve para cumprir seu ministério universal. Entre eles, a Congregação para a Doutrina da Fé, que V. Ema. dirige, senhor Cardeal, tem um papel particularmente grande.

Então, o Papa João Paulo II começou a tratar das duas tendências opostas, ambas erradas, que surgiram no pós-concílio:

No período pós-conciliar, testemunhamos um vasto trabalho da Igreja para garantir que esse novum, constituído pelo Vaticano II, penetre de maneira justa na consciência e na vida de cada uma das comunidades do Povo de Deus. Entretanto, ao lado desse esforço, se manifestaram duas tendências que, sobre a via da realização do Concílio, criam uma certa dificuldade. Uma dessas tendências se caracteriza pelo desejo de mudanças que não estão sempre em harmonia com o ensinamento e com o espírito do Vaticano II, mesmo se buscam se referir ao Concílio. Essas mudanças queriam expressar um progresso, eis o porquê de se designar essa tendência pelo nome de “progressismo”. O progresso, nesse caso, é uma orientação em direção ao futuro que rompe com o passado, sem tem em conta a função da Tradição, que é fundamental para a missão da Igreja, a fim de que ela possa continuar a viver na Verdade que lhe foi transmitida pelo Cristo Senhor e os apóstolos, e que foi conservada com diligência pelo Magistério.

A tendência oposta, que se define habitualmente como “conservantismo” ou “integrismo”, estaca no passado em si mesmo, sem ter em conta a justa orientação em direção ao passado que se manifestou precisamente na obra do Vaticano II. Enquanto que a primeira tendência parece reconhecer como justo aquilo que é novo, a outra, ao contrário, não tem por justo senão aquilo que é “antigo”, considerando-o como sinônimo de Tradição. Entretanto, não são o “antigo”, enquanto tal, nem o “novo”, em si, que correspondem ao conceito exato de Tradição na vida da Igreja. Esse conceito designa, com efeito, a fidelidade durável da Igreja à verdade recebida de Deus, através dos acontecimentos mutantes da história. A Igreja, como a mestra da casa do Evangelho, tira com sabedoria “de seu tesouro, coisas novas e velhas” (cf. Mt 13,52), permanecendo na obediência absoluta ao Espírito de verdade que o Cristo deu à Igreja como guia divino. E essa obra delicada de discernimento, a Igreja a cumpre por meio de seu Magistério autêntico (cf. Lumen Gentium, n. 25).

As posições que tomam as pessoas, os grupos ou os meios ligados a uma ou outra tendência podem ser compreensíveis, em uma certa medida, particularmente depois de um acontecimento tão importante na história da Igreja como o último Concílio. Se, por um lado, ele liberou uma aspiração à renovação (e isso compreende também um elemento de “novidade”), por outro lado, certos abusos na linha dessa aspiração, como aqueles que esquecem os valores essenciais da doutrina católica da fé e da moral e que, em outros domínios, da vida eclesial – por exemplo, no domínio litúrgico – podem e devem mesmo suscitar objeções justificadas. Entretanto, se, em razão desses excessos, recusa-se toda sadia “renovação”, conforme ao ensinamento e ao espírito do Concílio, tal atitude pode conduzir a um outro desvio que é igualmente contrário ao princípio da Tradição viva da Igreja, obediente aos Espírito de verdade.

Então, João Paulo II começou a tratar dos problemas relacionados à FSSPX:

As obrigações que se impõem à Sé apostólica, nessa situação concreta, requerem uma perspicácia, uma prudência e uma amplitude de visão particulares. A necessidade de distinguir aquilo que “edifica” a Igreja autenticamente daquilo que a destrói tornar-se, atualmente, uma particular exigência de nosso serviço em relação a toda a comunidade dos crentes.

A Congregação para a Doutrina da Fé tem, no quadro desse ministério, uma importante chave, como o demonstram os documentos que seu dicastério publicou nesses últimos anos no domínio da fé e da moral. Entre as questões sobre a qual a Congregação para a Doutrina da fé teve de se ocupar nesses últimos tempos, figuram igualmente os problemas ligados à “Fraternidade São Pio X”, fundada e dirigida pelo Mons. M. Lefebvre.

V. Ema. conhece bem todos os esforços empreendidos pela Sé apostólica desde o começo da existência da “Fraternidade” para assegurar, em relação à sua atividade, a unidade eclesial. O último desses esforços foi a visita canônica efetuada pelo cardeal E. Gagnon. V. Ema. se ocupa particularmente desse caso, senhor Cardeal, como se ocupou seu predecessor de venerável memória, o Cardeal F. Seper. Tudo o que fez a Sé apostólica, que está em contato permanente com os bispos e com as Conferências episcopais concernidas, tende em direção do mesmo objetivo: que se cumpram também as palavras pronunciadas pelo Senhor da oração sacerdotal pela unidade de todos os discípulos. Todos os bispos da Igreja católica, porque eles devem, por mandato divino, ter a preocupação da unidade da Igreja universal, são obrigados a colaborar com a Sé apostólica para o bem de todo o Corpo místico que é também o Corpo das Igrejas (Cf. Lumen Gentium, n. 23).

Por todos esses motivos, eu gostaria de lhe confirmar, senhor Cardeal, minha vontade de que tais esforços sejam perseguidos: não cessemos de esperar que – sob a proteção da Mãe da Igreja – eles tragam seus furtos para a glória de Deus e para a salvação dos homens.

In caritate fraterna”.

Em 02 de julho de 1988, o Papa João Paulo assinou o motu proprio Ecclesia Dei Adflicta por meio do qual instituiu a Comissão Ecclesia Dei e no qual discorreu brevemente sobre a “raiz” do ato cismático de Dom Lefebvre, a qual seria uma incompleta e contraditória noção de Tradição:

[...]

4. A raiz deste ato cismático pode localizar-se numa incompleta e contraditória noção de Tradição. Incompleta, porque não tem em suficiente consideração o carácter vivo da Tradição, “que – como é claramente ensinado pelo Concílio Vaticano II – sendo transmitida pelos Apóstolos… progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo. Com efeito, progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer mercê da contemplação e estudo dos crentes, que as meditam no seu coração, quer mercê da intima inteligência que experimentam das coisas espirituais, quer mercê da pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade”.

Mas é, sobretudo, contraditória uma noção de Tradição que se opõe ao Magistério universal da Igreja, do qual é detentor o Bispo de Roma e o Colégio dos Bispos. Não se pode permanecer fiel à Tradição rompendo o vinculo eclesial com aquele a quem o próprio Cristo, na pessoa do Apostolo Pedro, confiou o ministério da unidade na sua Igreja.

5. Ante a situação criada, sinto o dever de tornar todos os fiéis católicos, cônscios de alguns aspectos, que esta triste circunstância põe em evidência.

a) O êxito a que chegou o movimento promovido por Mons. Lefebvre, pode e deve ser motivo, para todos os fiéis católicos, de uma sincera reflexão sobre a própria fidelidade à Tradição da Igreja, autenticamente interpretada pelo Magistério eclesiástico, ordinário o extraordinário, de modo especial nos Concílios Ecumênicos desde o de Niceia ao Vaticano II. Desta reflexão, todos devem haurir uma renovada e efetiva convicção da necessidade de ainda melhorar e aumentar essa fidelidade, refutando interpretações errôneas e aplicações abusivas, em matéria doutrinal, litúrgica e disciplinar.

Sobretudo aos Bispos compete, pela missão pastoral, que lhes é própria, o grave dever de exercer uma vigilância perspicaz, cheia de caridade e fortaleza; a fim de que essa fidelidade seja salvaguardada em toda a parte.

Todavia, é preciso que todos os Pastores e os demais fiéis tomem nova consciência, não só da legitimidade, mas também da riqueza que representa para a Igreja a diversidade de carismas e de tradições de espiritualidade e de apostolado, o que constitui a beleza da unidade na variedade: daquela “sintonia” que, sob o impulso do Espírito Santo, a Igreja terrestre eleva ao céu.

b) Quereria, além disso, chamar a atenção dos teólogos e dos outros peritos nas ciências eclesiásticas, para que também eles se sintam interpelados pelas circunstâncias presentes. Com efeito, a amplitude e a profundidade dos ensinamentos do Concilio Vaticano II requerem um renovado empenho de aprofundamento, no qual se ponha em relevo a continuidade do Concilio com a Tradição, do modo especial nos pontos de doutrina que, talvez pela sua novidade, ainda não foram bem compreendidos por alguns setores da Igreja.

c) Nas presentes circunstâncias, desejo sobretudo dirigir um apelo, ao mesmo tempo solene e comovido, paterno e fraterno, a todos aqueles que até agora, de diversos modos, estiveram ligados ao movimento do Arcebispo Lefebvre, a fim de que cumpram o grave dever de permanecerem unidos ao Vigário de Cristo na unidade da Igreja Católica, e de não continuarem a apoiar de modo algum esse movimento. Ninguém deve ignorar que a adesão formal ao cisma constitui grave ofensa a Deus e comporta a excomunhão estabelecida pelo Direito da Igreja.

A todos estes fiéis católicos, que se sentem vinculados a algumas precedentes formas litúrgicas e disciplinares da tradição latina, desejo manifestar também a minha vontade – a qual peço que se associem a dos Bispos a de todos aqueles que desempenham na Igreja o ministério pastoral – de lhes facilitar a comunhão eclesial, mediante as medidas necessárias para garantir o respeito das suas justas aspirações.

[...]

Na mesma linha, entre progressistas e tradicionalistas, o Cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, afirmou em sua alocução aos bispos chilenos, em 13 de julho de 1988:

[...] Hoje, gostaria simplesmente de comentar algumas coisas sobre o caso que diz respeito a Mons. Lefebvre. Mais que se deter no que aconteceu, parece-me que pode ter maior transcendência avaliar os ensinamentos que a Igreja pode tirar, para hoje e para o dia de amanhã, do conjunto dos acontecimentos. Para isso, gostaria de tecer, em primeiro lugar, algumas observações sobre a atitude da Santa Sé nos colóquios com Mons. Lefebvre, e continuar depois com uma reflexão sobre as causas gerais que originam essa situação e que, acima do caso particular, nos interessam a todos.

I. A atitude da Santa Sé nos colóquios com Lefebvre

Nos últimos meses, investimos uma boa quantidade de trabalho no problema Lefebvre, com o empenho sincero de criar para seu movimento um espaço vital adequado no interior da Igreja. De muitos lados, criticou-se a Santa Sé por isso. Disse-se que [a Santa Sé] havia cedido à pressão do cisma; que não havia defendido com a força devida o Concílio Vaticano II; que, enquanto atuava com grande dureza com os movimentos progressistas, mostrava demasiada compreensão com a rebelião restauradora. O desenvolvimento ulterior dos acontecimentos refutou suficientemente essas asseverações. O mito da dureza do Vaticano, face às digressões progressistas, resultou numa elucubração vazia. Até a data, emitiram-se fundamentalmente admoestações, e em nenhum caso penas canônicas em sentido próprio. O fato de que Lefebvre denunciou, no fim, o acordo assinado, mostra que a Santa Sé, apesar de ter feito concessões verdadeiramente amplas, não lhe concedeu a licença global que desejava.

Na parte fundamental dos acordos, Lefebvre havia reconhecido que devia aceitar o Vaticano II e as afirmações do Magistério pós-conciliar, com a autoridade própria de cada documento. É uma contradição que sejam precisamente aqueles que não deixaram passar por alto nenhuma ocasião para vociferar em todo mundo sua desobediência ao Papa e às declarações magisteriais dos últimos 20 anos, os que julgam essa postura demasiado tíbia e pedem que se exija uma obediência omnimoda face ao Vaticano II. Também se pretendia que o Vaticano II havia concedido a Lefebvre um direito ao dissenso, que se nega persistentemente aos componentes de tendência progressista.

Na realidade, a única coisa que se afirmava no acordo – seguindo a Lumen Gentium em seu número 25 – era o simples fato de que nem todos os documentos do Concílio têm o mesmo nível. No acordo se previa também explicitamente que devia se evitar toda polêmica pública e se solicitava uma atitude positiva de respeito às medidas e declarações oficiais. Concedia-se também que a Fraternidade pudesse apresentar à Santa Sé – permanecendo intacto o direito de decisão dessa – suas dificuldades em questão de interpretação e de reformas no âmbito jurídico e litúrgico. Tudo isso certamente mostra suficientemente que Roma uniu, nesse difícil diálogo, a generosidade em todo o negociável com a firmeza no essencial. É muito reveladora a explicação que o mesmo Mons. Lefebvre deu quando da retirada de seu assentimento. Declarou que agora havia compreendido que o acordo assinado apontava somente a reintegrar sua fundação na “Igreja do Concílio. A Igreja Católica, em comunhão com o Papa é, para ele, a “Igreja do Concílio”, que se desprendeu de seu próprio passado. Parece que já não consegue ver que se trata simplesmente da Igreja Católica com a totalidade da Tradição, a que também pertence o Concílio Vaticano II.

II. Reflexões sobre as causas mais profundas do caso Lefebvre

O problema colocado por Lefebvre, contudo, não termina com a ruptura de 30 de junho [de 1988]. [...] Ainda que, com toda a segurança, a culpa não possa ser atribuída à Santa Sé, é nossa obrigação nos perguntarmos quais erros cometemos, quais erros estamos cometendo. As diretrizes com que se avalia o passado, desde o surgimento do decreto sobre o ecumenismo do Vaticano II, devem, como é lógico, ter valor também para o presente. Umas das descobertas fundamentais da teologia do ecumenismo é que os cismas podem se produzir unicamente quando, na Igreja, já não se vivem e se amam algumas verdades e alguns valores da fé cristã. A verdade marginalizada independentiza-se, fica arrancada da totalidade da estrutura eclesial, e ao redor dela se forma, então, um novo movimento. Deve-nos fazer refletir o fato de que não poucos homens, além do círculo mais restrito dos membros da fraternidade de Lefebvre, estão vendo neste homem uma espécie de guia ou, ao menos, um instrutor útil. Não é suficiente se remeter a motivos políticos ou à nostalgia e outras razões secundárias de tipo cultural. Essas causas não seriam suficientes para atrair também, e de modo especial, jovens de países muito diversos e sob condições políticas ou culturais completamente diferentes. Certamente, a visão estreita, unilareal, se nota em todas as partes; contudo, o fenômeno em seu conjunto não seria pensável se não estivessem também em jogo elementos positivos que, geralmente, não encontram suficiente espaço vital na Igreja de hoje.

Por tudo isso, deveríamos considerar esta situação primordialmente como uma ocasião de exame de consciência. Devemos nos perguntar seriamente sobre as deficiências em nossa pastoral, que são denunciadas por todos esses acontecimentos. Desse modo, poderemos oferecer um lugar aos que estão buscando e perguntado dentro da Igreja, e assim lograremos converter o cisma em supérfluo, a partir do próprio interior da Igreja. Queria nomear três aspectos que, segundo minha opinião, têm um papel importante nesse aspecto.

a) O santo e o profano

Há muitas razões que podem ter motivado que muitas pessoas busquem um refúgio na velha liturgia. Uma primeira e importante é que ali encontram guardada a dignidade do sagrado. Subsequentemente ao Concílio, muitos elevaram intencionalmente a nível de programa a “dessacralização” [...]. [...] abandonaram-se as vestes sagradas; tirou das igrejas, na maior medida possível, o esplendor que recorda o sagrado; e se reduziu a liturgia, em quanto se poderia, à linguagem e aos gestos da vida ordinária, por meio de saudações, sinais comuns de amizade e coisas parecidas.

[...].

Não quero, nesse momento, desenvolver mais esse ponto, mas somente tirar diretamente a conclusão: devemos recuperar a dimensão do sagrado na liturgia. A liturgia não é um festival, não é uma reunião agradável. Não tem importância, nem de longe, que o pároco consiga levar a cabo ideias sugestivas ou elucubrações imaginativas. [...] o essencial na liturgia é o mistério, que se realiza no rito comum da Igreja; todo o resto a rebaixa. Os homens o experimentam vivamente, e se sentem enganados quando o mistério se converte em diversão, quando o ator principal na liturgia já não é o Deus vivo, mas o sacerdote ou o animador litúrgico.

b) A não-arbitrariedade da fé e de sua continuidade

Defender o Concílio Vaticano II, contra Mons. Lefebvre, como válido e vinculante na Igreja, é e continuará a ser uma necessidade. Contudo, existe uma atitude de visão estreita que isola o Vaticano II e que provocou a oposição. Muitas exposições dão a impressão de que, depois do Vaticano II, tudo mudou e que o anterior já não pode ter validade, ou, no melhor dos casos, só a teria à luz do Vaticano II. O Concílio Vaticano II não é tratado como parte da totalidade da Tradição viva da Igreja, senão diretamente como o fim da Tradição e como um recomeçar inteiramente do zero. A verdade é que o mesmo Concílio não definiu nenhum dogma e quis de modo consciente expressar-se em um nível mais modesto, meramente como Concílio pastoral; contudo, muitos o interpretam como se fosse quase um super dogma, que tira a importância de todo o resto. Essa impressão se reforça especialmente por fatos que ocorrem na vida cotidiana. O que antes era considerado o mais santo – a forma transmitida da liturgia –, de repente, aparece como o mais proibido e o único que, com segurança, deve ser rechaçado. [...]. Tudo isso leva a muitas pessoas se perguntarem se a Igreja de hoje é realmente ainda a mesma de ontem, ou se não será que ela foi mudada por outra sem que se lhes avisassem. A única maneira para fazer crível o Vaticano II é apresentá-lo claramente como o que é: uma parte da inteira e única Tradição da Igreja e de sua fé.

c) A unicidade da verdade

Deixando agora de parte a questão litúrgica, os pontos centrais em conflito são, atualmente, o ataque contra o decreto da liberdade religiosa e contra o pretendido espírito de Assis. Nele, Lefebvre traça as fronteiras entre sua posição e a da Igreja católica de hoje. Não é necessário acrescentar expressamente que não se podem aceitar suas afirmações nesse terreno. Porém não vamos nos ocupar aqui de seus erros, senão em nos perguntarmos onde está a falta de clareza em nós mesmos.

Para Lefebvre se trata da luta contra o liberalismo ideológico, contra a relativização da verdade. Evidentemente, não estamos de acordo com ele em que o texto do Concílio sobre a liberdade religiosa ou a oração de Assis, segundo as intenções queridas pelo Papa, são relativizações. Contudo, é verdade que, no movimento espiritual do tempo pós-conciliar, ocorria muitas vezes um esquecimento, uma supressão, inclusive, da questão da verdade; [...] A ideia de que todas as religiões são, falando com propriedade, somente símbolos do incompreensível em última instância ganha terreno rapidamente também na teologia e já entra profundamente na práxis litúrgica. [...] Se conseguirmos mostrar e viver de novo a totalidade do catolicismo nesses pontos, então, podemos esperar que o cisma de Lefebvre não será de larga duração.

Bento XVI (2005 – 2013)

Em 22 de dezembro de 2005, veio, por fim, Bento XVI com o discurso no qual tratou da “hermenêutica da reforma na continuidade”, a qual se harmoniza com as colocações da Santa Sé a respeito do Vaticano II desde Paulo VI:

[...]

O último acontecimento deste ano, sobre o qual gostaria de me deter nesta ocasião, é a celebração do encerramento do Concílio Vaticano II [1962 – 1965], há quarenta anos. Tal memória suscita a interrogação: qual foi o resultado do Concílio? Foi recebido de modo correcto? O que, na recepção do Concílio, foi bom, o que foi insuficiente ou errado? O que ainda deve ser feito? Ninguém pode negar que, em vastas partes da Igreja, a recepção do Concílio teve lugar de modo bastante difícil, mesmo que não se deseje aplicar àquilo que aconteceu nestes anos a descrição que o grande Doutor da Igreja, São Basílio, faz da situação da Igreja depois do Concílio de Niceia: ele a compara com uma batalha naval na escuridão da tempestade, dizendo entre outras coisas: “O grito rouco daqueles que, pela discórdia, se levantam uns contra os outros, os palavreados incompreensíveis e o ruído confuso dos clamores ininterruptos já encheram quase toda a Igreja, falsificando, por excesso ou por defeito, a recta doutrina da fé…” (De Spiritu Sancto, XXX, 77; PG 32, 213 A; Sch 17 bis, pág. 524). Não queremos aplicar exatamente esta descrição dramática à situação do pós-Concílio, todavia alguma coisa do que aconteceu se reflete nele. Surge a pergunta: por que a recepção do Concílio, em grandes partes da Igreja, até agora teve lugar de modo tão difícil? Pois bem, tudo depende da justa interpretação do Concílio ou como diríamos hoje da sua correta hermenêutica, da justa chave de leitura e de aplicação. Os problemas da recepção derivaram do facto de que duas hermenêuticas contrárias se embateram e disputaram entre si. Uma causou confusão, a outra, silenciosamente, mas de modo cada vez mais visível, produziu e produz frutos. Por um lado, existe uma interpretação que gostaria de definir “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”; não raro, ela pôde valer-se da simpatia dos mas media e também de uma parte da teologia moderna. Por outro lado, há a hermenêutica da reforma”, da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja, que o Senhor nos concedeu; é um sujeito que cresce no tempo e se desenvolve, permanecendo, porém, sempre o mesmo, único sujeito do Povo de Deus a caminho. A hermenêutica da descontinuidade corre o risco de terminar numa ruptura entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar. Ela afirma que os textos do Concílio como tais ainda não seriam a verdadeira expressão do espírito do Concílio.

Seriam o resultado de compromissos em que, para alcançar a unanimidade, foi necessário arrastar atrás de si e confirmar muitas coisas antigas, já inúteis. Contudo, não é nestes compromissos que se revelaria o verdadeiro espírito do Concílio, mas, ao contrário, nos impulsos rumo ao novo, subjacentes aos textos: somente eles representariam o verdadeiro espírito do Concílio, e partindo deles e em conformidade com eles, seria necessário progredir. Precisamente porque os textos refletiriam apenas de modo imperfeito o verdadeiro espírito do Concílio e a sua novidade, seria preciso ir corajosamente para além dos textos, deixando espaço à novidade em que se expressaria a intenção mais profunda, embora ainda indistinta, do Concílio. Em síntese: seria necessário seguir não os textos do Concílio, mas o seu espírito. Deste modo, obviamente, permanece uma vasta margem para a pergunta sobre o modo como, então, se define este espírito e, por conseguinte, se concede espaço a toda a inconstância. Assim, porém, confunde-se na origem a natureza de um Concílio como tal. Deste modo, ele é considerado como uma espécie de Constituinte, que elimina uma constituição velha e cria outra nova. Mas a Constituinte tem necessidade de um mandante e, depois, de uma confirmação por parte do mandante, ou seja, do povo ao qual a constituição deve servir.

Os Padres não tinham tal mandato e ninguém lhos tinha dado; ninguém, afinal, podia dá-lo porque a constituição essencial da Igreja vem do Senhor e nos foi dada para que pudéssemos chegar à vida eterna e, partindo desta perspectiva, conseguimos iluminar também a vida no tempo e o próprio tempo. Os Bispos, pelo Sacramento que receberam, são fiduciários do dom do Senhor. Somos “administradores dos mistérios de Deus” (1 Cor 4, 1); como tais devem ser encontrados “fiéis e sábios” (cf. Lc 12, 41-48). Isto significa que devem administrar o dom do Senhor de modo justo, para que não fiquem ocultos no esconderijo, para que tragam frutos e o Senhor, no final, possa dizer ao administrador: “Porque foste fiel no pouco, dar-te-ei autoridade no muito” (cf. Mt 25, 14-30; Lc 19, 11-27). Nestas parábolas evangélicas exprime-se a dinâmica da fidelidade, que interessa no serviço do Senhor, e nelas também se torna evidente, como num Concílio dinâmica e fidelidade devam tornar-se uma só coisa.

À hermenêutica da descontinuidade opõe-se a hermenêutica da reforma, como antes as apresentou o Papa João XXIII no seu discurso de abertura do Concílio em 11 de Outubro de 1962 e, posteriormente o Papa Paulo VI no discurso de encerramento a 7 de Dezembro de 1965. Desejo citar aqui somente as palavras tão conhecidas de João XXIII, nas quais esta hermenêutica é expressa inequivocavelmente quando diz que o Concílio “quer transmitir a doutrina pura e íntegra sem atenuações nem desvios” e continua: “O nosso dever não é somente guardar este tesouro precioso, como se nos preocupássemos unicamente pela antiguidade, mas dedicar-nos com diligente vontade e sem temor a esta obra, que a nossa época exige… É necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e apresentada de modo que corresponda às exigências do nosso tempo. De fato, uma coisa é o depósito da fé, isto é, as verdades contidas na nossa veneranda doutrina, e outra coisa é o modo com o qual elas são enunciadas, conservando nelas, porém, o mesmo sentido e o mesmo resultado” (S. Oec. Conc. Vat. II Constitutiones Decreta Declarationes, 1974, pp. 863-865). É claro que este cuidado de exprimir no modo novo uma determinada verdade exige uma nova reflexão sobre ela e uma nova relação vital com a mesma; é claro também que a nova palavra pode maturar somente se nasce de uma compreensão consciente da verdade expressa e que, por outro lado, a reflexão sobre a fé exige igualmente que se viva esta fé. Neste sentido o programa proposto pelo Papa João XXIII era extremamente exigente, como também é exigente e dinâmica a síntese de fidelidade. Porém, onde quer que esta interpretação tenha sido a orientação que guiou a recepção do Concílio, cresceu uma nova vida e amadureceram novos frutos. Quarenta anos depois do Concílio podemos realçar que o positivo é muito maior e mais vivo do que não podia parecer na agitação por volta do ano de 1968. Hoje vemos que a boa semente, mesmo desenvolvendo-se lentamente, cresce todavia, e cresce também assim a nossa profunda gratidão pela obra realizada pelo Concílio.

Paulo VI, no seu discurso de conclusão do Concílio, indicou ainda uma específica motivação pela qual uma hermenêutica da descontinuidade poderia parecer convincente. No grande debate sobre o homem, que distingue o tempo moderno, o Concílio devia dedicar-se de modo particular ao tema da antropologia. Devia interrogar-se sobre a relação entre a Igreja e a sua fé, de um lado, e o homem e o mundo de hoje, de outro (ibid., pp. 1066ss.). A questão torna-se ainda mais clara, se em vez do termo genérico de “mundo de hoje” escolhêssemos outro mais exato: o Concílio devia determinar de modo novo a relação entre a Igreja e a era moderna. Esta relação tinha tido um início muito problemático com o processo a Galileu. Rompeu-se depois totalmente, quando Kant definou a “religião no contexto da pura razão” e quando, na fase radical da revolução francesa, se difundiu uma imagem do Estado e do homem que para a Igreja e para a fé praticamente não desejava conceder qualquer espaço. O conflito da fé da Igreja com o liberalismo radical e também com as ciências naturais que pretendiam envolver com os seus conhecimentos toda a realidade até aos seus extremos, propondo-se insistentemente tornar supérflua a “hipótese de Deus”, tinha provocado no Século XIX, sob Pio IX, por parte da Igreja ásperas e radicais condenações de tal espírito da era moderna. Portanto, aparentemente não havia mais qualquer espaço aberto para uma compreensão positiva e frutuosa, e eram igualmente drásticas as rejeições por parte daqueles que se sentiam os representantes da era moderna. Enquanto isso, porém, também a era moderna conheceu desdobramentos. Percebia-se que a revolução americana tinha oferecido um modelo de Estado moderno diferente daquele teorizado pelas tendências radicais originadas na segunda fase da revolução francesa. As ciências naturais começavam, de modo sempre mais claro, a refletir sobre o próprio limite, imposto pelo seu próprio método que, mesmo realizando coisas grandiosas, todavia não era capaz de compreender a globalidade da realidade. Assim ambas as partes começavam progressivamente a abrir-se uma à outra. No período entre as duas guerras mundiais, e ainda mais depois da segunda guerra mundial, homens de Estado católicos demonstraram que pode existir um Estado laico moderno, que, porém, não é neutro em relação aos valores, mas vive haurindo das grandes fontes éticas abertas pelo cristianismo. A doutrina social católica, pouco a pouco desenvolveu-se e tornou-se um modelo importante entre o liberalismo radical e a teoria marxista do Estado. As ciências naturais, que sem reserva professaram um método próprio no qual Deus não tinha acesso, percebiam cada vez mais claramente que este método não compreendia a totalidade da realidade e abriam portanto novamente as portas a Deus, sabendo que a realidade é maior do que o método naturalista e daquilo que ele possa abranger. Poder-se-ia dizer que se formaram três círculos de perguntas, que agora no momento do Vaticano II, esperavam uma resposta. Antes de mais, era preciso definir de modo novo a relação entre fé e ciências modernas; isto dizia respeito, finalmente, não apenas às ciências naturais, mas também à ciência histórica, pois, numa determinada escola, o método histórico-crítico reclamava para si a última palavra na interpretação da Bíblia e, pretendendo a plena exclusividade para a sua compreensão das Sagradas Escrituras, opunha-se em pontos importantes da interpretação que a fé da Igreja tinha elaborado. Em segundo lugar, era preciso definir de modo novo a relação entre a Igreja e o Estado moderno, que abria espaço aos cidadãos de várias religiões e ideologias, comportando-se em relação a estas religiões de modo imparcial e assumindo simplesmente a responsabilidade por uma convivência ordenada e tolerante entre os cidadãos e pela sua liberdade de exercer a própria religião. A isto, em terceiro lugar, estava ligado de modo geral o problema da tolerância religiosa uma questão que exigia uma nova definição sobre a relação entre a fé cristã e as religiões do mundo. Em particular, diante dos recentes crimes do regime nacional-socialista e, em geral, num olhar retrospectivo a uma longa e difícil história, era preciso avaliar e definir de modo novo a relação entre a Igreja e a fé de Israel.

São todos temas de grande importância eram os grandes temas da segunda parte do Concílio sobre os quais não é possível deter-se mais amplamente neste contexto. É claro que em todos estes setores, que no seu conjunto formam um único problema, podia emergir alguma forma de descontinuidade que, de certo modo, se tinha manifestado, de fato uma descontinuidade, na qual todavia, feitas as diversas distinções entre as situações históricas concretas e as suas exigências, resultava não abandonada a continuidade nos princípios, fato que facilmente escapa a uma primeira percepção. É exatamente neste conjunto de continuidade e descontinuidade a diversos níveis que consiste a natureza da verdadeira reforma. Neste processo de novidade na continuidade devíamos aprender a compreender mais concretamente do que antes que as decisões da Igreja em relação às coisas contingentes, por exemplo, certas formas concretas de liberalismo ou de interpretação liberal da Bíblia, deviam necessariamente ser essas mesmas acidentais, justamente porque referidas a uma determinada realidade em si mesma mutável. Era preciso aprender a reconhecer que, em tais decisões, somente os princípios exprimem o aspecto duradouro, permanecendo subjacente e motivando a decisão a partir de dentro. Não são, por sua vez, igualmente permanentes as formas concretas, que dependem da situação histórica e podem, portanto, ser submetidas a mutações.

Assim as decisões de fundo podem permanecer válidas, enquanto as formas da sua aplicação a estes novos podem mudar. Assim, por exemplo, se a liberdade religiosa for considerada como expressão da incapacidade do homem para encontrar a verdade e, consequentemente, se torna canonização do relativismo, consequentemente ela, por necessidade social, foi elevada de modo impróprio a nível metafísico e está privada do seu verdadeiro sentido, com a consequência de não poder ser aceite por quem crê que o homem é capaz de conhecer a verdade de Deus e, com base na dignidade interior da verdade, está ligado a tal conhecimento. Uma coisa completamente diversa é, porém, considerar a liberdade de religião como uma necessidade derivante da convivência humana, aliás, como uma consequência intrínseca da verdade que não pode ser imposta do exterior, mas deve ser feita pelo próprio homem somente mediante o processo do convencimento.

O Concílio Vaticano II, com o Decreto sobre a liberdade religiosa, reconhecendo e fazendo seu um princípio essencial do Estado moderno, recuperou novamente o patrimônio mais profundo da Igreja. Ela pode ser consciente de encontrar-se assim em plena sintonia com o ensinamento do próprio Jesus (cf. Mt 22, 21) como também com a Igreja dos mártires, com os mártires de todos os tempos. A Igreja antiga, com naturalidade, rezou pelos imperadores e pelos responsáveis políticos considerando isso seu dever (cf. 1 Tm 2, 2); porém, enquanto rezava pelos imperadores, recusou-se adorá-los, e com isso rejeitou claramente a religião do Estado. Os mártires da Igreja primitiva morreram pela sua fé naquele Deus que se revelou em Jesus Cristo, e exactamente por isso, morreram também pela liberdade de consciência e pela liberdade de profissão da própria fé uma profissão que por nenhum Estado pode ser imposta, porém pode ser realizada somente com a graça de Deus, na liberdade da consciência. Uma Igreja missionária que, como se sabe, insiste em anunciar a sua mensagem a todos os povos, deve empenhar-se pela liberdade da fé. Ela deseja transmitir o dom da verdade que existe para todos e, enquanto isso, assegura aos povos e aos seus governos que não quer destruir a sua identidade e as suas culturas, mas leva-lhes uma resposta que, no seu íntimo, esperam uma resposta com que a multiplicidade das culturas não se perde, ao contrário crescem a unidade entre os homens e também a paz entre os povos.

O Concílio Vaticano II, com a nova definição da relação entre a fé da Igreja e determinados elementos essenciais do pensamento moderno, reviu ou melhor corrigiu algumas decisões históricas, mas nesta aparente descontinuidade, manteve e aprofundou a sua íntima natureza e a sua verdadeira identidade. A Igreja, quer antes, quer depois do Concílio, é a mesma Igreja una, santa, católica e apostólica peregrina nos tempos; ela prossegue “a sua peregrinação entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus”, anunciando a morte do Senhor até que Ele venha (cf. Lumen gentium, 8). Quem pensava que com este “sim” fundamental para a era moderna se dissipassem todas as tensões e a “abertura ao mundo” assim realizada transformasse tudo em pura harmonia, tinha subestimado as tensões internas e também as contradições da mesma era moderna; tinha subestimado a perigosa fragilidade da natureza humana que em todos os períodos da história e em cada constelação histórica é uma ameaça para o caminho do homem. Estes perigos, com as novas possibilidades e com o novo poder do homem sobre a matéria e sobre si mesmo, não desapareceram, mas assumem novas dimensões: um olhar sobre a história atual demonstra-o claramente. Também no nosso tempo a Igreja permanece um “sinal de contradição” (Lc 2, 34) não sem motivo o Papa João Paulo II, ainda Cardeal, tinha dado este título aos Exercícios Espirituais pregados em 1976 ao Papa Paulo VI e à Cúria Romana. Não podia ser intenção do Concílio abolir esta contradição do Evangelho em relação aos perigos e aos erros do homem. Era, porém, realmente a sua intenção deixar de lado contradições errôneas ou supérfluas, para apresentar a este nosso mundo a exigência do Evangelho em toda a sua grandeza e pureza. O passo dado pelo Concílio em direção à era moderna, que de modo tão impreciso foi apresentado como “abertura ao mundo” pertence definitivamente ao perene problema da relação entre fé e razão, que se apresenta sempre de novas formas. A situação que o Concílio devia enfrentar é comparável aos acontecimentos das épocas precedentes. São Pedro, na sua primeira Carta, tinha exortado os cristãos a estar sempre prontos a responder (apo-logia) a quem quer que perguntasse o logos, a razão da sua esperança (3, 15). Isto significava que a fé bíblica devia entrar em debate e em relação com a cultura grega e aprender a reconhecer mediante a interpretação a linha de distinção, mas igualmente o contato e a afinidade entre elas na única razão dada por Deus.

Quando no século XIII, através dos filósofos judeus e árabes, o pensamento aristotélico entrou em contato com a cristandade medieval formada na tradição platônica, e que fé e razão correram o risco de entrar em contradição inconciliável, foi sobretuto S. Tomás de Aquino a mediar o novo encontro entre fé e filosofia aristotélica, colocando assim a fé em uma relação positiva com a forma de razão dominante no seu tempo. O difícil debate entre a razão moderna e a fé cristã que, num primeiro momento, com o processo a Galileu, iniciou de modo negativo, certamente conheceu muitas fases, mas com o Concílio Vaticano II chegou a hora em que se requeria uma ampla reflexão. O seu conteúdo, nos textos conciliares, foi traçado seguramente em linhas gerais, mas com isto determinou a direcção essencial, de modo que o diálogo entre razão e fé, hoje particularmente importante, com base no Vaticano II encontrou a sua orientação. Agora este diálogo precisa desenvolver-se com grande abertura mental, mas igualmente com aquela clareza de discernimento dos espíritos que o mundo justificadamente espera de nós neste exacto momento. Assim podemos hoje, com gratidão, dirigir o nosso olhar ao Concílio Vaticano II: se o lemos e recebemos guiados por uma justa hermenêutica, ele pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a sempre necessária renovação da Igreja.

Por fim, nessa linha, vale mencionar um texto de Dom Gerhard Müller, que foi nomeado Prefeito para a Congregação para a Doutrina da Fé e, automaticamente, Presidente da Comissão Ecclesia Dei por Bento XVI, em 02 de julho de 2012. Nesse artigo, intitulado “Reflexões sobre os escritos conciliares de Joseph Ratzinger” e publicado, em novembro de 2012, no Osservatore Romano, Dom Müller afirmou o seguinte:

Joseph Ratzinger, como teólogo, contribuiu para dar forma e acompanhou o concílio Vaticano II em todas as suas fases. A sua influência já se faz sentir na fase preparatória, antes da abertura oficial do concílio, a 11 de Outubro de 1962. Ele participou em medida relevante na gênese dos textos mais variados,primeiro ao lado do arcebispo de Colônia, cardeal Joseph Frings, e mais tarde como membro autônomo de diversas comissões.

Na fase da recepção, ele não se cansa de recordar que o concílio deve ser avaliado e compreendido à luz da sua intenção autêntica. O concílio é parte integrante da história da Igreja e portanto só o podemos compreender corretamente se considerarmos este contexto de dois mil anos. Graças aos seus trabalhos sobre o conceito de Igreja em santo Agostinho e sobre o conceito de Revelação em são Boaventura, com os quais tinha obtido os graus acadêmicos, Joseph Ratzinger era particularmente idôneo e preparado para enfrentar as questões centrais apresentadas à Igreja no século XX. Entre elas, depois das experiências da guerra e de uma sociedade em profunda transformação nos anos sessenta, estava a crescente perda de significado e de presença da Igreja no mundo.

No seu prefácio ao presente volume, o Papa Bento XVI descreveu do seguinte modo a tarefa do concílio: “A percepção desta perda do tempo presente por parte do cristianismo e da tarefa que disto derivava estava bem resumida pela palavra “aggiornamento”, atualização. O cristianismo deve estar no presente para poder dar forma ao futuro”.

Como sétimo volume da Opera Omnia [do Cardeal Joseph Ratzinger], surge portanto agora a recolha, numa síntese de tipo cronológico e sistemático, dos escritos de Joseph Ratzinger sobre os ensinamentos do concílio, que coincide precisamente com o cinquentenário do Vaticano II. O subtítulo do volume Formulazione, trasmissione, interpretazione deseja documentar as fases do trabalho de Joseph Ratzinger em relação ao concílio.

[...]

Depois do Vaticano II teve início em todo o mundo uma fase de comentário.

Os textos foram traduzidos nas principais línguas e entregues ao mundo científico. Joseph Ratzinger escreveu comentários à Lumen gentium, à Sacrosanctum concilium, à Dei Verbum e à Gaudium et spes. Os seus trabalhos, escritos entre 1966 e 2003 — hoje insuperados e já pertencentes aos clássicos da teologia — estão sempre animados pelo desejo de não trair a fonte.

Ponto de partida de todas as suas tomadas de posição sobre o concílio é o texto aprovado no original latino, do qual sobressai a vontade dos Padres na sua forma originária. Quem quiser compreender o Vaticano II deve considerar com atenção todas as constituições, os decretos e as declarações porque só elas, na sua unidade, representam a válida herança do Concílio. E no presente volume está documentado adequadamente, em toda a sua clareza e exatidão, também esta passagem decisiva no acolhimento do concílio.

No discurso à Cúria Romana a 22 de Dezembro de 2005, que suscitou grande interesse, Bento XVI pôs em evidência «a hermenêutica da reforma na continuidade» face a uma «hermenêutica da descontinuidade e da ruptura». Joseph Ratzinger coloca-se assim no sulco das suas afirmações de 1966. Esta interpretação é a única possível segundo os princípios da teologia católica, ou seja, considerando o conjunto indissolúvel entre Sagrada Escritura, a Tradição completa e integral e o Magistério, cuja expressão mais alta é o concílio presidido pelo sucessor de são Pedro como cabeça da Igreja visível. Fora desta única interpretação ortodoxa infelizmente existe uma interpretação herética, ou seja, a hermenêutica da ruptura, quer na vertente progressista, quer na tradicionalista. Estas duas vertentes têm em comum a rejeição do concílio; os progressistas pretendendo deixá-lo para trás, como se fosse só uma estação que se deve abandonar para alcançar outra Igreja; os tradicionalistas não querendo alcançá-lo, como se fosse o Inverno da Catholica.

«Continuidade» significa correspondência permanente com a origem, não adaptação daquilo que foi, que pode levar também pelo caminho errado. A tão citada palavra de ordem «atualização» não significa portanto «secularização» da fé, o que levaria à sua dissolução, mas a origem anunciada em tempos sempre novos, origem a partir da qual é doada aos homens a salvação; atualização significa portanto«tornar presente» a mensagem de Jesus Cristo. Trata-se, no fundo, daquela reforma necessária em todos os tempos, em constante fidelidade ao Christus totus, segundo as conhecidas palavras de santo Agostinho: «O Cristo todo, isto é, a Cabeça e os membros. O que significa a Cabeça e os membros? Cristo e a Igreja» (In Iohannis evangelium tractatus, 21, 8).

O próprio Vaticano II declarou que, «seguindo as pegadas dos concílio Tridentino e Vaticano I, pretende propor a doutrina genuína sobre a Revelação divina e a sua transmissão, para que pelo anúncio da salvação, o mundo inteiro, ouvindo acredite, acreditando, espere e esperando ame»(Constituição dogmática Dei Verbum, 1). O concílio não quer anunciar outra fé qualquer mas sim, em continuidade com os concílios precedentes, pretende torná-la presente.

Além disto, a «Tradição de origem apostólica progride na Igreja com a ajuda do Espírito Santo: de facto, aumenta a compreensão, tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer com a contemplação e com o estudo dos crentes que a meditam no seu coração (cf. Lc 2, 19 e 51), quer com a inteligência dada por uma experiência mais profunda das coisas espirituais, quer pela pregação de quantos, com a sucessão episcopal, receberam um carisma seguro da verdade. Assim a Igreja ao longo dos séculos tende incessantemente para a plenitude da verdade divina, enquanto nele forem cumpridas as palavras de Deus (…) Assim Deus, o qual falou no passado, não deixa de falar com a esposa do seu Filho dileto, e o Espírito Santo, por meio do qual a voz viva do Evangelho ressoa na Igreja e por meio dela no mundo, introduz os crentes na verdade total e neles faz residir a palavra de Cristo em toda a sua riqueza (cf. Cl 3, 16)» (ibid., 8).

O sétimo volume dos Gesammelte Schriften funde numa unidade trabalhos avulsos e de origem diversa, fornecendo assim ao leitor um instrumento para compreender e interpretar o concílio Vaticano II a partir dos seus textos. No prefácio ao volume, o Papa Bento XVI recorda a atmosfera que precedeu a abertura do concílio: «Era um momento de expectativa extraordinária. Tinha que acontecer algo grandioso». Se olharmos para trás cinquenta anos depois daquele acontecimento histórico podemos deveras dizer com convicção que «aconteceu» algo realmente grandioso! O concílio abre o caminho da Igreja para o futuro e apresenta-se como instrumento fundamental para a nova evangelização.

***

Com essa sequência de citações, fica, portanto, provada a tese de que a Santa Sé, de Paulo VI a Bento XVI, manteve constante seu discurso, contra os tradicionalistas e os progressistas, de que o Concílio Vaticano II não está e não deve ser interpretado em ruptura com a Tradição bimilenar da Igreja; o Concílio é parte integrante dessa Tradição.

Estabelecida essa verdade histórica, é possível compreender mais claramente a hodierna crise da Igreja, especialmente seus desdobramentos políticos mais recentes, como a exigência de um preâmbulo doutrinal para uma eventual regularização canônica da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

Guilherme Chenta

São Paulo, 24 de novembro de 2013

Domingo de Cristo Rei

56 Comentários to “Para debate: “Entre tradicionalistas e progressistas: a Santa Sé e seu discurso contínuo sobre a continuidade doutrinária do Vaticano II”.”

  1. Não sei quem é o sr. Guilherme mas reconheço sua preocupação com o CVII, que na prática demoliu a igreja de dentro – é um texto que deve ter dado um trabalho enorme para ser feito.

    Mas como se diz que contra fatos não há argumentos, como explicar a um católico progressista que a missa atual é uma ofensa ao sacrifício de Cristo, senão vejamos:

    • Lucas, pelo menos o padre que cospe fogo mereceu os aplausos. A habilidade dele não pode ser desprezada.

    • Lucas, pelo menos o padre que cospe fogo mereceu os aplausos. A habilidade dele não pode ser desprezada. Melhor que outra: falar em linguas. Coisa lastimável mesmo.

  2. Pior que os tradicionalistas e progressistas declarados são os que o são e não admitem, por ignorância ou má fé.

  3. Compreender, todos nós compreendemos. Queremos solução.

    Qual a solução??

  4. Os defensores do Vaticano II, com esse papo de “tradição viva que evolui de acordo com os tempos” e outros, estão caindo nas condenações do Syllabus. A própria motivação desse concílio é má em si mesma.

    Os ignorantes e os de má-fé, que acham que seguem os documentos do Vaticano II, pensam que tudo é permitido e erram feio. Basta ler o documento sobre a liturgia.

    Se o Vaticano II não mudou a doutrina da Igreja, seus textos não podem contrariar a tradição, que não foi inventada por D. Lefebvre (o que revela a má-fé ou a ignorância dos seus opositores), mas foi ensinada pelo Magistério e pelos santos e continuou sendo repassada pelo Arcebispo a seus seguidores, os textos devem ser interpretados de acordo e em acordo com a tradição sob pena de ruptura com a mesma, o que significa heresia ou apostasia.

    Se os textos do Vaticano II não podem ser interpretados de acordo e em acordo com a tradição, então tais escritos devem ser condenados, por beirarem a heresia, e solenemente ignorados, já que não devem inaugurar qualquer ensinamento obrigatório de fé ou de moral.

    E, já que, teoricamente, nada deveria mudar, então é melhor ignorar tais documentos do Vaticano II e as trapalhadas pós-conciliares, provadas por seus frutos podres. Que tudo permaneça como era até o tempo de Pio XII.

    Simples, não? Ou aparecerá alguém para complicar?

  5. Meu amigo Guilherme Chenta tem um grande futuro pela frente. A cada geração, Nosso Senhor sempre capacita servos para defender a Igreja. Em breve, ele publicará seu primeiro livro sobre política eclesiástica. Aguardem.

  6. Desculpe a sinceridade: então por qual motivo alguns textos (alguns apenas?) do CVII foram escritos de maneira humana demais? Por qual motivo então D. Antônio de Castro Mayer precisou escrever a respeito dos textos do CVII procurando mostrar qual era verdade católica? Se os textos em si mesmos não tivessem nenhum problema por quê geraram tanta confusão? Se um texto é escrito de maneira errada o bom senso manda que seja reescrito de maneira correta para não haver ambiguidades, e o que dirá de um documento da Igreja nesse caso? Por qual motivo os judeus exigem que a FSSPX aceite a declaração NOSTRA AETATE do CVII? Alguém se recusa a acreditar que o CVII, ainda que tenha sido convocado validamente, não foi realizado com intenções nada católicas? Alguém já comparou o atual catecismo da Igreja com o do Concílio de Trento? Mais um sinceramente: esses “legalistas”, “conservadores”, “neoconservadores”, “acordistas” e etc, às vezes, me tiram do sério. Os Padres de Campos aceitaram a chamada interpretação do CVII sob “à luz da Tradição” e olha só no que está dando em Campos. A coisa só não está pior em Campos por causa de alguns padres “teimosos”. Eu ia escrever mais coisas mas deixa pra lá.

  7. O que significa provar a inalterância do discurso da Santa Sé? Não questiono as afirmações, mas por qual razão um apanhado destes para demonstrar esse discurso oficial? Não devo ter entendido bem, corrijam-me se eu estiver errado, mas estou diante de uma defesa da hermenêutica da continuidade?

    • Não, Bruno, você não está diante de uma defesa da “hermenêutica da continudade”, mas tão somente diante da comprovação de um dado histórico: a continuidade desse discurso da continuidade por parte da Santa Sé.

    • Graças a Deus por isso. Mesmo porque esse discurso oficial nunca correspondeu à realidade. Foi antes uma mordaça para neutralizar os escrupulosos, e uma mordaça eficaz, pois é através desses textos conciliadores que tantos e tantos se recusam a admitir que a realidade passa muito distante disso, a começar pelos próprios teólogos modernistas readmitidos por João XXIII, que enquanto seminarista era do círculo íntimo do herege condenado Ernesto Buonaiutti. O mesmo se diga das confissões dos teólogos a la Schilebeekxs, que apostaram em textos propositadamente ambíguos, para que a máscara caísse depois de aprovados. Bem, se há alguém que não preciso dizer essas coisas é você. Abraços, e permaneça firme.

  8. Todo ato pastoral em si mesmo não é infalível, como saber se tal atitude pastoral vai dar bons frutos?, se este ou aquele modo de transmitir a fé será melhor?, como ter infalibilidade pastoral?, é impossível, os padres conciliares não poderiam prever o fruto do concilio, ou, na pior das hipóteses tiveram más intenções em escrever os textos para ser os mesmos ambíguos para criar seus próprios “frutos”, o que requeria do lado verdadeiramente Católico uma interpretação fiel aos seus textos, sendo assim uma necessária hermenêutica da continuidade, na minha visão pastoral a eclesiologia pré-conciliar nunca devia ter saído de cena, agora que vimos os frutos do CVII, temos que mudar o modo pastoral, e voltar para o antigo que é muito mais frutuoso.

  9. Ele defendeu a hermenêutica da Continuidade. Simples assim.

  10. O mesmo blá blá blá de sempre. Nada novo debaixo do sol.

  11. Resumidamente, o autor do opúsculo limitou-se a fazer um compêndio incriminatório de acusações de Autoridades da Igreja, inclusive Papas, contra a FSSPX. Muitas das situações de supostos conflitos entre Dom Lefebvre e os Santos Padres são explicadas detidamente na “Carta Aberta aos Católicos Perplexos”.

    Nesta carta, Dom Lefebvre informa que esteve pessoalmente com Paulo VI e que teve que desmentir diversas calúnias que o tachavam de cismático, como o mentiroso “juramento anti-Papa” que os sacerdotes por ele ordenados tinham que fazer.

    O Papa João Paulo II nunca teve uma visão perfeita sobre a questão tradicionalista, a ponto de confundir a União Sacerdotal São João Vianney de Campos/RJ com a FSSPX, conforme relato de Dom Roberto Guimarães à Canção Nova quando dos funerais do Papa citado. A FSSPX sofreu vários abusos de autoridade à revelia de João Paulo II, inclusive uma “auditoria” realizada por uma “comissão” formada sem nenhum decreto papal e a excomunhão não-amparada no Código de Direito Canônico, conforme atestado pela tese do doutor Pader Gerald Murray.

    A postura de Bento XVI foi de proximidade porque ele é conhecedor da causa tradicionalista e deu sequência no que pode ao que ficou conhecido como “reforma da reforma” iniciada por João Paulo II, cuja síntese está contida no tópico “Reflexões sobre as causas mais profundas do caso Lefebvre”, que é desfazer a influência da “extrema-esquerda” dos modernistas.

    Poderia escrever mais sobre a questão, mas Dom Lefebvre já o fez: http://www.permanencia.org.br/drupal/node/1336

  12. Na verdade não sou teólogo e nem me proponho a tal. Parece-me, no entanto, que urge distinguir os documentos do CVII do chamado espírito conciliar. A mais das vezes, é muito mais contra o uso de tais documentos, para fins modernistas, do que contra os documentos em si que se cria a polêmica. Talvez o Papa devesse participar esclarendo documentos mais controversos tais como o da Liberdade Religiosa. Pq ele não o interpreta à luz da Tradição?

    • Porque até agora, infelizmente, na melhor das hipóteses, eles tentam (como foi o inteiro pontificado de Bento XVI) conciliar princípios antagônicos, que são os católicos com os revolucionários. Monsenhor Gherardini, teólogo romano que não está ligado com a FSSPX ou grupo tradicionalista algum fez diversos manifestos pedindo que o Romano Pontífice se debruçasse sobre as partes ambíguas e o esclarecesse com um ato de Magistério, dando a versão católica e definitiva, e a Santa Sé recusou, porque o Bê-a-Bá hegeliano só concebe a verdade resultante da fusão entre tese e antítese.
      D. Lefebvre viu claramente os princípios da revolução francesa saídos do Concílio: a igualdade (na colegialidade episcopal, nas conferências episcopais, na relativização do papel do papa), a liberdade (no caso da liberdade religiosa, delírio condenado pela doutrina católica, que admite a tolerância religiosa, mas nunca que o mal e o erro tenham direitos) e a fraternidade (que é o ecumenismo que nivela a religião Verdadeira ao patamar das falsas, e que conduz diretamente ao relativismo doutrinário e à ruina das missões).
      É por isso que eu digo: enquanto a Santa Sé não deixar este fetiche conciliar, nunca haverá ordem na Igreja.

    • Verdade. Até pq fica muito difícil conciliar a ideia de liberdade religiosa com a de evangelização. Seria bom se o Papa Francisco escrevesse sobre isso.

  13. Guilherme Chenta é discípulo do falecido professor Orlando Fidelli que ensinava o contrário do artigo. http://www.youtube.com/watch?v=16UpEJmlwE8

  14. Eu encaro a questão assim:

    -Como está escrito em todo tipo de manual de teologia dogmática pré-conciliar, nós devemos assentimento ao concílio acreditando que há uma interpretação ortodoxa de cada passagem, até segunda ordem.Não cabe a nós decidir o que está certo e o que está errado, não existe livre-exame do concílio.Acreditar que Pedro forçou sobre toda a Igreja algo danoso à fé não é uma opção.

    -Com relação à missa nova: também não podemos acreditar que Pedro sancionou uma liturgia danosa, isso vai contra o Concílio de Trento.Críticas construtivas à missa são bem-vindas, Ratzinger mesmo acreditava que, por exemplo, o ofertório da missa era deficiente; dizer que a missa não exprime com claridade a doutrina não é problema, problema é dizer que ela é prejudicial à fé.

    Temos que rezar e lembrar que não é a primeira que há confusão sobre a interpretação de um concílio, tenhamos fé no Espírito Santo que guia a Igreja.

  15. Como é que se chama mesmo aquele argumento mentiroso e covarde que afirma que uma conclusão é verdadeira na prova de um fato estabelecendo que esse fato já é verdadeiro em si mesmo?

    Todo o histórico da Igreja em se pronunciar de maneira precisa foi jogado no lixo pelo CV II. E a oposição que devemos a esse não funda pelo fato dele ter ensinado alguma heresia, mas pelo fato de na exposição de sua doutrina, ter feito formulações de texto que favorecem a heresia. Um exemplo bem simples e conhecido por todos:

    A Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica.

    Rejeitar essa formulação não é negar a fé, pois creio que nenhum católico verdadeiro nega que a Igreja de Cristo é a Igreja Católica. Portanto, só por esse exemplo, fica demonstrado que é possível rejeitar trechos do CV II sem incorrer numa negação do magistério.

    Também é possível rejeitar trechos do CV II por esse conter um ensino incompleto. Como por exemplo a afirmação de que a inerrância da Sagrada Escritura diz respeito as verdades de salvação que Deus quis que estivessem nas Sagradas Escrituras. Claro que esse é um ensino incompleto. A inerrância diz respeito a toda Escritura, como ensina o magistério tradicional dos papas anteriores.

    Portanto é possível basear-se no magistério anterior e não incorrer no terrível crime de negar o magistério da Igreja, embora não prestando assentimento a formulação do CV II.

    Também é possível rejeitar o trecho do CV II em que se afirma que seitas heréticas e Igrejas cismáticas possuem sentido e significado no mistério da salvação, não recusando o Espírito de Cristo a utilizar-se dessas comunidades como MEIOS de salvação, embora isso se afirme que é em virtude da plenitude de verdade e graça confiadas à Igreja Católica.

    Pode-se rejeitar esse trecho asqueroso utilizados pelos progressistas para fomentar o indiferentismo sem rejeitar o magistério tradicional da Igreja, que afirma que os sacramentos das seitas heréticas e das Igrejas cismáticas produzem o efeito próprio do sacramento para pessoas de boa fé e ignorância invencível da verdadeira Igreja. Mas esses sinais da graça só são elementos de santificação para pessoas sem disposição, como as criancinhas, ou para os ignorantes invencíveis. Tudo o que essas seitas fazem é arrastar as pessoas para o inferno e dificultar a conversão desses casos especiais para a verdadeira Igreja.

    Portanto é possível negar esse trecho do CV II sem incorrer no crime de negar o magistério da Igreja.

    Mais um exemplo é o n° 8 da UR que diz que católicos se reúnem para orar pela unidade da Igreja que Nosso Senhor pediu ardentemente ao Pai. Ora, não precisamos orar por tal unidade pois Nosso Pai já atendeu a oração de Nosso Senhor concedendo a unidade para Sua Igreja, sem jamais poder perdê-la. Se não me falha a memória, o concílio vaticano I, fala em relação à Igreja de uma invicta estabilidade.

    Caso se falasse de uma oração para uma maior unidade de espírito e caridade entre os membros da Igreja não haveria erro. Mas o pior não é isso, pois logo em seguida o concílio afirma que é lícito e desejável que membros da Igreja se reúnam com pessoas infectadas pela heresia ou heréticos mesmo em oração. Quem não vê que isso põe em risco a fé dos mais simples e fomenta o indiferentismo entre os não crentes, dando a impressão que tanto faz ser católico ou membro de alguma outra comunidade que se diz cristã?

    Só citei alguns exemplos de que é possível, sem negar o magistério da Igreja, negar o próprio “magistério”. Esse último entre aspas, pois reivindicando expressar as mesmas verdades de sempre, as adulterou com formulações imprecisas favorecendo os inimigos da Igreja.

    Isso sem falar na liberdade religiosa, que até hoje não se conseguiu provar a continuidade do ensino do concílio com o magistério dos papas anteriores.

    Além das reformas, a principal delas, a litúrgica. Há um livro de Michael Davies, se não me engano bombas relógios litúrgicas, que mostram como o próprio texto da SC pode ser utilizado para essa revolução litúrgica. Ou seja, podemos estar diante de uma liturgia protestantizada em seus elementos acidentais, e sermos confrontado de que tal liturgia em nada nega o magistério da Igreja.

    A afirmação de que o CV II deve ser lido em continuidade com a Tradição é uma verdadeira ofensa a Inteligência alheia. Ainda mais feitas por papas cujas ações e palavras ambíguas se afastam dessa mesma tradição. O que esses papas pensam? Que estão lidando com ignorantes? O que dizer desse congresso de demônios realizados em Assis, onde o verdadeiro Deus é posto em pé de igualdade com os falsos deuses dos pagãos? Eu creio sinceramente que JP II, em seu interior, jamais tenha negado Nosso Senhor ou que tivesse a intenção de igualá-lo a outros ‘deuses’. Mas os efeitos práticos de suas ações não podemos escondê-los. E tudo isso feito em nome do concílio. Bento XVI também repetiu esse gesto de apostasia ecumênica.

    Isso sem falar no próprio magistério desses papas e de suas posturas em relação ao magistério dos papas anteriores ao CV II, quase nunca citados. O exemplo mais cabal é essa útlima exortação apostólica de Francisco. Temos também o n° 13 da redemptor hominis. Eu não sei se aquilo é um ensino ambíguo ou mesmo herético. Creio que com muito esforço alguém possa dar um sentido ortodoxo para aquele texto.

    Eu creio que esses Papas não possuem autoridade moral alguma para nos fazer aceitar o concílio, pois ninguém nesse mundo, mesmo um Papa, tem autoridade para nos fazer expressar a nossa fé de modo impreciso e ambíguo. E a autoridade doutrinal que eles tem para dirimir as questões disputadas ou demonstrar a continuidade de certos ensinos com a liberdade religiosa, eles se recusam a exercê-la, preferindo o diálogo e continuação desse magistério liquido e ambíguo.

    Simplesmente nós, católicos, confessamos a Santíssima Trindade.

    Simplesmente nós, católicos, confessamos a Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus encarnado, segunda pessoa da Santíssima Trindade.

    Simplesmente nós, católicos, confessamos a verdadeira Igreja de Nosso Senhor. A Igreja Católica Apostólica Romana. Onde é o único lugar nesse mundo que se adora o verdadeiro Deus, tendo todos os seres humanos, ouvindo a mensagem da salvação, a obrigação de se converterem e entrarem nessa Igreja pelo Batismo e nela perseverarem obedecendo todas as suas leis, em virtude das promessa de Jesus Cristo.

    • Eu concordei com quase tudo que você escreveu, mas o Vaticano II, hoje, pode e deve ser seguido em continuidade com a Tradição!

      Se estivéssemos na década de 1960-70, o melhor seria, óbvio, anular o concílio enquanto a maioria dos católicos ainda tinham conhecimento da verdadeira doutrina; mas já estamos há quase 50 anos do fim do concílio e a situação é lamentável, já que ao contrário de outrora, a maioria dos que se dizem católicos sequer o credo sabem recitar direito por causa do efeito do que disseram do concílio; como então poderiam saber da Tradição tal como ela era, em 1958 por exemplo, sabendo você que os modernistas tanto a difamaram?

      Atualmente só a hermenêutica da continuidade é possível, pegando as ambiguidades do concílio e as esclarecendo à luz da Fé Católica, pois os modernistas há 50 anos depositam o fermento herético deles nas mentes dos menos cautelosos usando das mesmas ambiguidades e vista grossa da Santa Sé. Portanto é inviável que se abandone de uma hora para outra o que por 50 anos as pessoas foram acostumadas a seguir sem que a maioria delas também sejam abandonadas.

      Quando os modernistas espalharam o veneno deles, eles usaram do poder da Igreja sobre os fiéis para isso. Hoje esses infelizes destruíram o poder da Igreja até sobre os fiéis, e os que ainda a ouvem(falo dos paroquianos assíduos sem serem tradicionais) são os que pensam mais errado ainda sobre a Tradição. Se cancelar o Vaticano II abruptamente e sem mostrar a Tradição de uma forma que as pessoas a entendam, os que ainda são fiéis se escandalizariam e iriam justamente para os hereges, que já controlam praticamente tudo.

      Falar da Tradição hoje para as pessoas é como sair falando em grego pelo Brasil… Pessoas até honestas e de boa vontade, vítimas da ignorância, diriam que é loucura, depois que é nazismo, fanatismo, extremismo. Só com uma catequese de verdade mas não estranha, a do CVII à luz da Tradição, poderia sustentar algumas pessoas na Igreja enquanto não vem um Concílio em total harmonia com a Tradição, com textos claros e dogmáticos.

      Sair só condenando tudo do Vaticano II na frente de pessoas ignorantes da Fé Católica é procurar ser chamado de louco, nazista e até de um perigoso que deve ser banido de tudo na Igreja (o que falo por experiência própria).

    • Mas se eu estiver enganado, por caridade, corrija-me pacientemente para que eu não fique no erro. Eu, de forma alguma, apoio o Concílio Vaticano II, pois a Igreja continuaria a crescer, como chamam, organicamente, na Tradição sem demais explicações, condescendências ou agrados ao mundo; só acho que o mal já está espalhado demais para se livrar dele com um “simples” cancelamento.

  16. Eu estou longe de ser peito em CVII, mas o texto deu a impressão de que a única interpretação válida para se ser católico é a aceitação da “hermenêutica da continuidade” e quem a aceita está em comunhão com o Papa e a Igreja de Sempre. Mas é estranho, se o Concílio nunca teve a pretensão de ser um “super dogma” e infalível, a interpretação dele tem sido empurrado, como condição fundamental para se ser católico verdadeiro. Isso é ambíguo e derruba a ideia de que o CVII é em último caso obrigatório aceita-lo, e portanto passa a ter certo tom de Dogmático, afinal não aceitar a interpretação da Santa Sé implica em atentado contra a Tradição e em rebeldia, cisma enfim em heresia .

  17. Correção: “apesar de não ser PERITO”…”derruba a ideia de que o CVII é em último caso NÃO obrigatório aceitá-lo”

  18. A Tradição, tanto a escrita como a oral, sem dúvida, é um talento, um dom, um bem que o Senhor confiou à Igreja. Por isso lembro a todos o que se diz no capítulo 25 do Evangelho de São Mateus, entre os versículos 14 e 30:

    “Porque será como um homem que, estando para empreender uma viagem, chamou os seus servos e lhes entregou os seus bens. Deu a um cinco talentos, a outro dois, a outro um, a cada um, segundo a sua capacidade, e partiu. Logo em seguida, o que tinha recebido cinco talentos foi e negociou com eles, e ganhou outros cinco. Da mesma sorte o que tinha recebido dois, ganhou outros dois. Mas, o que tinha recebido um só, indo, cavou na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.

    Muito tempo depois, voltou o senhor daqueles servos, e chamou-os a contas. Aproximando-se o que tinha recebido cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco, dizendo: Senhor, tu entregaste-me cinco talentos, eis outros cinco que lucrei. Seu senhor disse-lhe: Está bem, servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas coisas, dar-te-ei o governo de muitas; entra no gozo do teu senhor. Apresentou-se também o que tinha recebido dois talentos, e disse: Senhor, entregaste-me dois talentos, eis que lucrei outros dois. Seu senhor disse-lhe: Está bem, servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas, dar-te-ei o governo de muitas; entra no gozo do teu senhor.

    Apresentando-se também o que tinha recebido um só talento, disse: Senhor, sei que és um homem austero, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste; e, com receio, fui esconder o teu talento na terra; eis o que é teu. Então, respondendo o seu senhor, disse-lhe: Servo mau e preguiçoso, sabias que eu colho onde não semeei e que recolho onde não espalhei; devias pois dar o meu dinheiro aos banqueiros, e, à minha volta, eu teria recebido certamente com juro o que era meu. Tirai-lhe pois o talento e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem, dar-se-lhe-á , e terá em abundância; mas ao que não tem, tirar-se-lhe-á até o que julga ter. E a esse servo inútil lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.”

    Os servos que multiplicaram os talentos que lhes foram entregues pelo seu senhor, sendo fiéis até nas poucas coisas, foram recompensados grandemente com o gozo do seu senhor. O servo que, não perdendo mas escondendo o talento que o senhor o havia entregado, por não lucrar com ele, foi severamente punido.

    Portanto cuidado os tradicionalistas que acabaram, infelizmente, ideologizando a Tradição e a usam unicamente para atacar a igreja pós-Vaticano II sem ter a humildade e a paciência de expor de uma forma mais amigável e eficaz porém forte (justo a fórmula de sempre) a importância da preservação e do crescimento ininterrupto do inestimável tesouro que é a Tradição da Igreja. Deveriam ter compreensão de que o mundo tem muitos irmãos ignorantes de coisas perigosas à Fé em Deus, e consequentemente à vida humana, que são induzidos por seduções inteligentíssimas dos modernistas a falsas doutrinas inventadas e alimentadas pela concupiscência dos homens, que os lobos responsáveis pela maculação do Concílio Vaticano II inculcaram nesses filhos da Igreja.

    Os tradicionalistas acabam fazendo o mesmo que os cismáticos ortodoxos ao se firmarem na mesma Fé e Tradição paradas no tempo por segurança. Este não é o caminho, é como se enterrasse na terra a Tradição para protegê-la dos perigos sem a fazer crescer, enriquecer. Não tem só que atacar o CVII mas também apresentar uma Tradição viva, coerente com o passado mas com olho no enriquecimento verdadeiro, como queria o Papa João XXIII e que fizeram o contrário durante o Concílio e principalmente após.

    Contudo, pior do que guardar um talento que lhe foi confiado(a Tradição) sem lucrar com ele(sem enriquecer a Tradição), é perder esse talento, como os progressistas e modernistas, estes todos satanistas que envenenam toda a gente ignorante justamente por causa da ação deles.

    Não digo que os tradicionalistas erram ao atacar os erros do Vaticano II, mas que agem mal só atacando e apresentando uma Tradição há muito tempo, lamentavelmente, abandonada e esquecida e estranha a tanta gente ignorante e envenenada pelos modernistas. O melhor seria fazer como Bento XVI tentou propondo a hermenêutica da continuidade. Porque Concílio Vaticano II foi claramente pervertido pelos mal-intencionados, mas também o abrir mão de anátemas e condenações abriu caminho para a perniciosa ação dos inimigos. Uma hermenêutica da continuidade, lembrando da validade dos anátemas e condenações dos Concílios católicos anteriores e com o Papa guiado pelo Espírito Santo alertando, condenando e anatemizando os perigos de hoje, seria possível salvar a Igreja até um novo Concílio menos ambíguo e mais salutar em fazer crescer o patrimônio da Igreja.

    • Prezado José:
      Naturalmente que, como católicos, somos orientados a proceder de maneira simples como a pomba e astuta como a serpente.
      Muito do que você expôs me parece em grande parte uma preocupação legítima em reapresentar a doutrina e liturgia perenes de maneira a não causar trauma nos fiéis, há muito tempo desorientados pelas novidades estranhas ao Evangelho de sempre.
      É uma preocupação legítima, mas creio que você tem boa fé, mas se equivoca na forma.
      Concordo que deve-se saber alcançar os ignorantes de maneira a causar o menor impacto possível; mas se devemos ser simples e astutos na maneira de chegarmos aos fiéis – muitos deles sem receber um alimento sólido por muitos e muitos anos, e outros por jamais terem aprendido coisa alguma – por outro lado Nosso Senhor também ensinou que fosse nossa palavra Sim, sim, não, não.

      Digo isso por experiência própria: as pessoas que conduzi até a Tradição, para tanto, levei em conta uma série de fatores. Felizmente algumas delas hoje são católicas e frequentam o mosteiro da FBMV, que é fiel à Tradição.
      Como fazer isso? Em primeiro lugar apresentar aos fiéis conhecimento. Ensinar a eles o que é a Missa, mostrar a eles a existência da Missa de Sempre e seus benefícios, e lentamente explicar a eles o que acontece no dia-a-dia da igreja oficial, evitando ataques diretos a princípio. À medida que as pessoas vão entendendo a preciosidade a verdadeira Fé e a discrepância com a nova igreja, elas mesmas vão se dando conta do embuste, e ficam suscetíveis a ter uma visão crítica.
      A verdade é que o catolicismo está imerso numa confusão tamanha, que sem o cuidado devido, teríamos o efeito oposto, caso agíssemos de maneira brusca. Conto aqui um caso para ilustrar a questão.
      Fui posto em contato com um rapaz protestante e de família protestante (o pai é pastor), mas que estava tornando-se católico em virtude da doutrina que aprendeu consultando a Internet. Então perguntei qual paróquia este rapaz costumava frequentar, etc, e em seguida apresentei a ele a Tradição como uma proposta de conhecer a Fé Católica em toda a sua pureza. Aí naturalmente fui ensinando sobre o que é a Missa, a missa de Sempre, fotografias da Santa Missa, e enfatizando sempre a sobriedade, a profundidade, e o amor pelas coisas de Deus.
      Então marcamos um domingo em que ele foi ao mosteiro, acompanhado de outro ex-protestante e de outro católico “engajado” numa pastoral de música.
      Avisei ao padre da situação, e o padre pegou leve, e foi ensinando a problemática por etapas. Hoje em dia o rapaz já é batizado, frequenta os sacramentos e se crismou segundo os ritos tradicionais, e é um fiel típico. Mas ele mesmo me diz: se ele soubesse o caos em que a Igreja se encontrava no início da conversão, provavelmente não teria se convertido.
      Ele e o outro amigo ex protestante vão ao mosteiro sempre que podem. E quanto ao amigo católico, que tocava na banda de música. Naturalmente foi uma primeira vez para nunca mais. Se ele tivesse sido abordado de forma diferente, talvez estivesse com os outros…

      Então, meu caro, concordo plenamente que devemos saber como atingir as pessoas. Mas sempre com a Verdade pura e integral, ainda que precedida por etapas.Só que a hermenêutica da continuidade NÃO É opção. Pode-se até mesmo conceber que a dita hermenêutica pode ser tolerada momentaneamente, enquanto se avança na recatequização, e com vistas a sua substituição efetiva. Deve-se realmente chegar pelas beiras, mostrando em primeiro lugar a verdade, em segundo a insuficiência do que é atualmente apresentado, e em terceiro a gradual substituição do erro.
      Lembremo-nos dos princípios. Que o erro não tem direitos, nem a mentira. O concílio foi sequestrado pelos modernistas, e precisa de fato ser desarmado de todas as suas armadilhas, conservando-se apenas o que é inquestionavelmente católico. E a missa nova precisa ser suprimida, é um absurdo o malabarismo teológico de duas formas para um mesmo rito, ainda mais que, assim como a Igreja nunca fabricou dogmas, mas apenas definiu o que sempre foi ensinado, também (com exceção do rito bugniniano) nunca fabricou ritos, mas apenas os regulamentou e lhes deu maior precisão.
      Quanto ao que disse João XXIII, nunca teremos certeza sobre suas reais intenções, porque ele era um homem obscuro. Toda sua formação como sacerdote foi rodeada por modernistas, a começar pelo seu próprio padrinho, Ernesto Buonaiutti, mas também no decorrer de toda sua carreira eclesiástica. Até mesmo seu primeiro superior, Radini-Tedeschi era tido por modernista… Por este próprio apanhado que o Guilherme Chenta apresentou podemos ver que se trata do discurso oficial da Igreja em relação ao lugar da Tradição. Mas este palavriado todo corresponde na realidade com o verdadeiro pensamento das autoridades? Claro que não.

    • Caro Jose, não sei se vc está certo, mas concordo com voce. Apesar dos fortes e sempre coerentes argumentos do Bruno Santana, eu penso que se Bento XVI acha que o Concilio pode ser interpretado de uma forma fiel e em continuidade, deve poder, confio mais nele que em minha própria capacidade de julgar. O Guilherm Chenta nos mostra bem alguns argumentos pra isso.
      Embora eu seja Tradicionalista,acho que a visão tradicionalista pura, sem nenhuma influência do Concilio Vaticano II, enxerga um Deus ainda muito duro (a semelhança da visão – certa mas não completa – revelada no Antigo Testamento). Já na divina manifestação realizada em Jesus, percebe-se melhor o Coração Misericordioso de Deus, sendo que isso também pode parecer pra alguns incompatível com o Deus do Antigo Testamento.
      Mas eu corro o risco. Se enxergasse o cristianismo pela visão mais tradicional, veria muita gente no inferno e no limbo. Não gosto disso, pessoas que amei, que já morreram e que acredito terem se salvado… No entanto, justo por não abraçar tanto assim a visão tradiconalista, eu creio num céu bem mais populoso. Mas, como disse, não sei se estamos certos ou não, é apenas a minha opinião. E talvez a opinião daqueles que sem questionar muito aceitavam que Jesus quebrasse certas normas em nome da misericórdia.

    • Bruno Luís, eu tenho plena consciência de que o Vaticano II não é um concílio de continuidade integral com a Tradição. A linguagem e abrangência dele, sem impor condenação ou sequer restrição a pensamentos heréticos, já faz com que qualquer um conclua isso. Mas o concílio também não impede declaradamente o pensamento tradicional, que pode, dependendo da boa vontade e esforço dos responsáveis pela Igreja universal e pelas Igrejas locais, superar os erros que os mal-intencionados espalharam com o nome do Concílio Vaticano II. Foi o que Bento XVI tentou fazer, meio timidamente, é verdade, mas bons frutos conseguiu, pelo menos devo a minha conversão aos seus textos em continuidade com a Tradição, ainda que defendessem sempre o concílio; ao contrário de Paulo VI e João Paulo II que não aparentaram se empenhar em deter os hereges mas só em punir os tradicionalistas e os tradicionais, é só ver o que aconteceu no mundo no pontificado deles: o concílio foi apregoado como marco histórico em todo lugar enquanto a Tradição foi abandonada descaradamente e os abusos doutrinais e litúrgicos dominaram a Igreja com a permissão, na prática, da Santa Sé.

      O que eu quis dizer é que se deve usar o nome do concílio para o fim verdadeiro da Igreja, na Tradição, diferente do que fizeram nesses 50 anos. Eu sinceramente não acredito em má-vontade da parte de João XXIII ao convocar o concílio, pois provavelmente ele deve ter visto alguma coisa conciliável nos seus amigos modernistas e queria esclarecê-los com a Tradição de sempre num concílio ecumênico. No discurso de abertura, ele não parece nem um pouco querer tirar alguma coisa da Doutrina, e pela sua edição no Missal Tradicional no mesmo ano em que abriu o concílio, aparenta que também não queria mudar a Liturgia, porque se quisesse deixaria para que o concílio mudasse, o que de fato, infelizmente, aconteceu, porém já sob o reinado de Paulo VI, apenas 7 anos depois da nova publicação do Missal. Mas então por que ele quis sozinho editar o Missal Tradicional pouquíssimo tempo antes do concílio? Talvez ele soubesse que tinha uma doença grave e que não chegaria ao fim do concílio, então, para conter os revolucionários em tudo, quis rever a seu jeito, não em muitas coisas, a Liturgia, dando a entender que não se devia mexer mais do que já fora modificado por ele em 1962 – TALVEZ, porque eu não quero pensar mal dele! Porque não faria sentido João XXIII, se quisesse revolucionar até a Liturgia, convocar um concílio e meses antes editar o Missal Tradicional de forma ortodoxa.

      Portanto não creio que a intenção do CVII fosse a de revolucionar, mas somente de abrir concessões a diálogos mais abertos entre a autoridade da Igreja e o mundo, a fim de que a Igreja fosse mais e melhor ouvida e assim cumprisse melhor sua missão de evangelizar. Se bem que não era necessário nada disso numa época em que mais 80% dos católicos iam todo domingo à Missa e tinham pleno conhecimento da Doutrina, todos sem escrúpulos ao também condenarem as modas. Deve ter sido o desespero do medo que levou à realização do concílio e a elaboração, com o aval de Paulo VI, não de João XXIII, dos textos ambíguos, por isso é legítimo temer segui-lo, e eu temo. Porém concluí que o Vaticano II foi um erro e deve ser abandonado aos poucos, como você mesmo, Bruno Luís, reconhece se começar a usar a hermenêutica da continuidade para apresentar a Tradição sem que os inocentes se escandalizem, até que um Concílio com pronunciamentos infalíveis possa livrar de vez a Igreja do controle dos hereges.

  19. Negar o CV II é não reconhecer o Magistério legítimo da Igreja. É muito grave isso.

    • Acontece como no tempo de Jesus: O CVII veio para os seus, mas os seus não o reconheceram. Apegaram-se antes à letra da lei e sufocaram o Espírito.

  20. caro ferreti. na materia sobre a o encontro inter-religioso na catedral de buenos aires, algum engracadinho nao sei o porque estava usando o meu nome nos comentarios. o meu comentario foi so um no final , os dois mais em cima nao sao meus, chamando os jovens e os padres de fanaticos, em defesa do santo padre, da missa nova e chamando quem visita este site de protestante. quero lhe falar que tais coisas nao foi feito por minha pessoa, e protestante e todos aqueles que sao abertos a novidades, ao dialago com o mundo. verdadeiros catolicos somos nos, que amamos a doutrina tradicional da igreja, fomos corajosos em nao aceitar certas coisas que o santo padre falou. nao somos contra o papa, ou os bispos, mas se tais menbros da hierarquia nao suportam a sa doutrina, e gostam de novidades, que nao estao de acordo com a doutrina ou sagrada escritura, faremos oposicao, podem chamar do que quizerem.quanta a missa nova,que tal sujeitou defendeu,nao e invalida , mas tem problema e serio, leva sim a perca da fe, eu nunca ousaria compara-la a missa tradicional, porque a diferanca e enorme, em todos os sentidos, como comparar a sacralidade da missa tridentina, com a missa que o povo fica rebolando, balancando aquele folhetim que parece que saiu da revolucao francesa. e simples , a missa nova centra no homem, a missa tradicional totalmente em deus. nao estou de acordo com a atitude dos jovens na catedral, mas meu comentario so foi aquele apoiando a resposta do watchaman, e rezemos pela hermeneutica da continuidade, e nao rompimento com a santa tradicao, que fez a igreja do brasil, essa sim , seguindo dom helder camara se tornou protestante.

  21. O PAPA JOÃO XXIII, em relação a convocação do concílio vaticano II, assemelha se a um ancião na mesma idade, que resolve que vai ser papai ! É claro, que não vai dar conta de cuidar da cria !!

  22. Sabe uma coisa que sinto falta? É esses mesmos ultimos cinco Papas, que viveram tudo isso, que estavam no olho do furacão, que viram de perto, etc. darem nomes aos bois. Eles falaram de modo genérico. E na boa amigos: é muito vago hoje dizer “modernistas”, “Progressistas”, “liberais”, quando todo o contexto é modernista, liberal e progressista. É preciso dar nome aos bois, pessoas e situação e definir, o que seja isso para o contexto atual.

    Exemplo: é modernista, liberal e progressista ( e qualquer outro xingamento) quem defende o controle de natalidade com métodos artificiais. Sim, Paulo VI defininiu esse assunto. Sim, sabemos que está no Catecismo. Mas na prática, os padres e os Bispos ensinam isso de modo livre e rebelde. A Igreja tem que denunciar e punir quem ensina o erro.

    Outro exemplo: É modernista, liberal, progressista ( Inventem outro xingamento) quem ensina que a Liturgia é uma festa popular. A Igreja oficialmente deve tratar desse assunto de modo claríssimo. Sim, sabemos que Bento XVI foi ótimo nesse tema, mas no final jogou a toalha e saiu de cena e entrou um Papa que adora a festa. A Igreja tem que punir quem ensina o erro.

    O que adianta condenar o comunismo quando no Brasil um Frei Betto não é excomungado oficialmente? Ele deve ser excomungado automaticamente mas na prática os livros dele vendem feito água nas livrarias Católicas. E tantos outros exemplos.

  23. FRATRES;
    Desculpem-me a sinceridade extremada, mas, o que podemos ver de frutos do Concílio Vaticano II?
    Senão vejamos:

    * Diminuição do número de vocações sacerdotais e religiosas;
    * Fim das atividades missionárias da Igreja;
    * Relativismo doutrinário e moral;]
    * Nosso Senhor Jesus Cristo ser ultrajado como o “Jesus histórico”, diverso do “Jesus dos Evangelhos”;
    * Interpretação racionalista e vazia das Sagradas Escrituras;
    * Ridiculização das Cerimônias;
    * Questionamento da autoridade eclesial;
    * Surgimento de uma nova “autoridade”: as conferências episcopais (que acredito não terem sido estabelecidas por Nosso Senhor ou pelos Santos Apóstolos);
    * Fracasso da autoridade do Sucessor de Pedro;
    * Apostasia generalizada;
    * Papa beijando o Corão, Papa recebendo a “marca da deusa Shiva”, Papa renunciando, Papa relativizando a Doutrina, os Dogmas…
    * Cardeais e Bispos proferindo heresias e blasfêmias;
    *”Teólogos” escrevendo heresias e ensinando em Universidades “Católicas” e ninguém tomando nenhuma providência, a não ser elogiar e encorajar que continuem assim;
    * “Deformação” do clero: moral é rebaixada a mero relativismo, a oração e a vida de piedade praticamente extintas;
    * Escândalos sexuais de toda ordem, cada dia mais escabrosos e revelando a deficiência moral e espiritual do clero;
    * Debandada de católicos para as seitas: desde o Concílio, mais de 40% de católicos em toda a América latina abandonaram a Igreja, seja para as seitas, seja para o indiferentismo religioso;
    * Colapso total nos posicionamentos da Igreja: submissão aos ideais da ONU.

    Enfim, acontecendo tudo aquilo que já nos anunciaram os Santos Profetas(Isaías e Jeremias) bem como a Santíssima Virgem em Quito, la Salette, Fátima (cuja mensagem foi totalmente deturpada pelos papas conciliares) e Akita;
    Sem falarmos do Santo Maximiliano Kolbe, do Santo Padre Pio de Pietralcina e da mística alemã Teresa Newmann, que também viram essa “reviravolta” na Igreja.
    Agora, pensar em continuidade? Com quê?Só se for a continuidade com a destruição e o fracasso.
    Caso alguém tenha alguma dúvida sobre os “textos conciliares”, basta ler a Pascendi, ou então o Catecismo Maior de S. Pio X e depois compará-los com os “ensinamentos conciliares”.
    Termino fazendo o seguinte questionamento: Nosso Senhor Jesus Cristo nos disse que “não se colhem figos de espinheiros”, então, pergunto para os FRATRES, ante toda essa realidade que estamos vendo: há algum fruto bom desse Concílio? Qual o modelo de santidade que ele nos oferece?
    Ademais, quem tiver alguma dúvida, basta observar a linguagem dúbia utilizada pelos “peritti” (entre os quais o ex-papa) que possibilitam diversas interpretações.
    Assim, caros FRATRES, concluo fazendo aquela pergunta, cujo autor é nada menos que Cristo, nosso Senhor:

    “Quando o Filho do Homem voltar à Terra, acaso encontrará a Fé sobre a terra?”

  24. Penso que mais que um discurso temos um exemplo eloquente de como é possível a hermenêutica da continuidade: Papa Bento XVI! Alguém duvida que ele seja um defensor da tradição católica (SEM CAIR NO FUNDAMENTALISMO) e um adepto da saudável hermenêutica do Concílio Vaticano II? Ele sim, se é um exemplo vivo que todos os defernsores da continuidade deveriam seguir?

  25. Eu acho muito importante salientar algo: enquanto o Papa Paulo VI e o Papa João Paulo II viam essas duas correntes crescerem, a tradicional e a progressiva, sendo que a última cresceu muito mais e quase fez extinguir a chama da fé em muitos lugares da terra, eles apenas se preocuparam em punir a corrente conservadora enquanto nada, não faziam absolutamente nada de efetivo em relação aos modernistas. Os progressistas recebiam tudo, até títulos de cardeais. Só no final do século XX que o Papa João Paulo II resolveu publicar documentos condenando abusos na sagrada liturgia. Efetivamente o único Papa que resolveu adotar medidas foi Bento XVI. O Papa Bento pouco legislou mas ele deu o exemplo, reergueu as liturgias papais e também voltou a usar símbolos que demonstram a natureza do papado. A única coisa ruim foi ter tirado a tiara do seu brasão. O que a Igreja mais necessita é de um Papa como Bento XVI e que tenha força para fazer mais que ele. Depois que eu li dois livros sobre o Concílio cheguei a conclusão de que não existe interpretação de ruptura feita pela corrente modernista, mas que eles próprios introduziram ela nos textos dos documentos.

  26. Monsenhor Gherardini afirma algo extremamente importante faz anos, ao menos desde seu livro “O Concílio Vaticano II, Um Debate a ser Feito”: não basta a continuidade afirmada ou celebrada, é preciso que ela seja demonstrada. E isso não se fez. A continuidade da proposição da hermenêutica da continuidade pela autoridade eclesiástica é algo bem sabido e notório. A compilação não demonstra nada novo. Tal continuidade é cantada, mas nunca demonstrada nos pontos cruciais (liberdade religiosa, ecumenismo, colegialidade), até porque não se demonstra o que não pode ser demonstrado.

  27. É admirável a competência e o esforço do Sr Guilherme na sua exposição sobre o combate entre tradicionalistas e progressistas. Dada a minha ignorância de filosofia, teologia e de documentos do Ma gistério da Igreja e diante de tantos comentários pertinentes, procuro aprender um pouco. Mas continuo convicto das verdades reveladas por Nossa Senhora em La Salette e confirmadas em Garabandal (1846 e 1961/1965), essas últimas aprovadas (não oficialmente) pelo Papa Paulo VI e por São Pio de Pietrelcina. Será que não são essas tristes notícias (bem mencionadas pelo Sr Felipe Leão – 30-11-13, às 11:36 am) o cumprimento (também) do Apocalípse 13, 1-18?.

  28. Prezado Guilherme, obrigado pela exposição. Aliàs, essa bem concatenada reunião de provas é muito mais que uma exposição. Parece-me que as coisas sempre podem ser mais graves do que se acha ter compreendido.

  29. Quero agradecer ao Guilherme Chenta por tudo que apresentou. Muito bom. Matéria pra muita reflexão e questionamento sobre nossas posições. Marcou-me particularmente algumas partes que vou destacar:

    “A verdade marginalizada independentiza-se, fica arrancada da totalidade da estrutura eclesial, e ao redor dela se forma, então, um novo movimento. Deve-nos fazer refletir o fato de que não poucos homens, além do círculo mais restrito dos membros da fraternidade de Lefebvre, estão vendo neste homem uma espécie de guia ou, ao menos, um instrutor útil. Não é suficiente se remeter a motivos políticos ou à nostalgia e outras razões secundárias de tipo cultural. Essas causas não seriam suficientes para atrair também, e de modo especial, jovens de países muito diversos e sob condições políticas ou culturais completamente diferentes… em seu conjunto não seria pensável se não estivessem também em jogo elementos positivos que, geralmente, não encontram suficiente espaço vital na Igreja de hoje.”

    “… Devemos nos perguntar seriamente sobre as deficiências em nossa pastoral, que são denunciadas por todos esses acontecimentos. Desse modo, poderemos oferecer um lugar aos que estão buscando e perguntado dentro da Igreja, e assim lograremos converter o cisma em supérfluo, a partir do próprio interior da Igreja. Queria nomear três aspectos que, segundo minha opinião, têm um papel importante: 1.o santo e o profano; 2. a não arbitrariedade da fé e de sua continuidade; 2. a unicidade da verdade…”

    ” A análise que o grande Doutor da Igreja, São Basílio, faz da situação da Igreja depois do Concílio de Niceia (e nos parece semelhante ao do pos VII): ele a compara com uma batalha naval na escuridão da tempestade, dizendo entre outras coisas: “O grito rouco daqueles que, pela discórdia, se levantam uns contra os outros, os palavreados incompreensíveis e o ruído confuso dos clamores ininterruptos já encheram quase toda a Igreja, falsificando, por excesso ou por defeito, a recta doutrina da fé…”

    “…se a liberdade religiosa for considerada como expressão da incapacidade do homem para encontrar a verdade e, consequentemente, se torna canonização do relativismo, consequentemente ela, por necessidade social, foi elevada de modo impróprio a nível metafísico e está privada do seu verdadeiro sentido, com a consequência de não poder ser aceite por quem crê que o homem é capaz de conhecer a verdade de Deus e, com base na dignidade interior da verdade, está ligado a tal conhecimento. Uma coisa completamente diversa é, porém, considerar a liberdade de religião como uma necessidade derivante da convivência humana, aliás, como uma consequência intrínseca da verdade que não pode ser imposta do exterior, mas deve ser feita pelo próprio homem somente mediante o processo do convencimento…Os mártires da Igreja primitiva morreram pela sua fé naquele Deus que se revelou em Jesus Cristo, e exactamente por isso, morreram também pela liberdade de consciência e pela liberdade de profissão da própria fé uma profissão que por nenhum Estado pode ser imposta, porém pode ser realizada somente com a graça de Deus, na liberdade da consciência.”

    “Não podia ser intenção do Concílio abolir esta contradição do Evangelho em relação aos perigos e aos erros do homem. Era, porém, realmente a sua intenção deixar de lado contradições errôneas ou supérfluas, para apresentar a este nosso mundo a exigência do Evangelho em toda a sua grandeza e pureza. O passo dado pelo Concílio em direção à era moderna, que de modo tão impreciso foi apresentado como “abertura ao mundo” pertence definitivamente ao perene problema da relação entre fé e razão, que se apresenta sempre de novas formas.”

    “Fora desta única interpretação ortodoxa (do Concilio) infelizmente existe uma interpretação herética, ou seja, a hermenêutica da ruptura, quer na vertente progressista, quer na tradicionalista. Estas duas vertentes têm em comum a rejeição do concílio.”

    O que destaquei foram todas palavras de Bento XVI, embora haja também coisas muito boas e atuais de Paulo VI e João Paulo II.

    Queira Deus que o papa Francisco, (o papa inevitável, formado e ordenado no pós-concilio) possa provar aos progressistas, aos conservadores, aos confusos e perdidos, ao mundo inteiro, que o Concilio realmente foi bom. Cabe a ele essa responsabilidade. Ele há de provar: Ou que sim, ou que não.

  30. Quando se instala um novo software, é recomendável que se faça um ponto de restauração a fim de que, caso dê problemas no pc, possa ser recuperado a estado anterior. Por analogia, vemos que o Concílio Vaticano II trouxe mais perturbações a Santa Igreja que soluções, respostas. Nesses 50 anos de “Renovação”, o que temos? Um comentário a cima trouxe muitos, dos vários apontamentos negativos de um instrumento, afinal o Concílio é um instrumento e não uma verdade em si, pois toda a verdade necessária para a Salvação já foi revelada com a morte do último Apóstolo; que deveria vir para acabar com dúvidas e não suscitar mais inquietações. Os próprios padres conciliares reconheceram palavras dúbias, dependendo como fossem interpretadas. Voltando a questão do novo software, visto que ele traz mais problemas, complicada a vida do usuário do pc; nada mais lógico que “RESTAURAR” ao ponto antes concílio. Com certeza será feita a devida justiça já nesse mundo.

  31. Caro FRATER João Paulo S. de Mello;
    Realmente sua opinião é a mais sensata, porém, aquela gente lá da Roma Apóstata ainda acredita que seu concílio é o “plus-ultra” de tudo de bom que aconteceu nos últimos 3 milhões de anos…
    Caríssimo, essa seria a opção correta, porém, ao que tudo indica o atual chefe da igreja conciliar quer ir bem mais além do “plus-ultra”!
    Quanto a nós, guardemos nossa Fé. Estudemos e rezemos muito, muito mesmo, pois, coisas piores, muito piores virão…
    Que o Cristo Rei de Misericórdia tenha compaixão de nós e que por Amor ao Imaculado e Doloroso Coração de Maria nos livre o quanto antes dessa triste noite da apostasia!
    Santo Atanásio e São Pio X, roguem por nós! Roguem ao Bom Deus pela Santa Igreja!
    São Pio de Pietralcina e São Maximiliano Maria Kolbe, intercedam pela Igreja!

  32. Como me decepciona Guilherme! Eu que te conheci de perto! O Concílio é contra o Evangelho! Ou cremos no Concílio ou cremos em Cristo! Basta ler o último discurso de Jesus em São João! O antagonismo com o mundo é claro e tão repetido que, se não for uma ordem divina a vacina contra o mundo, eu não conheço mais Nosso Senhor! Jesus diz claramente que o mundo não O conhece nem pode conhecer, não pode receber o Espírito Santo, O odeia e também nos odiará, que sua paz não é como a do mundo, que veio e o mundo não O recebeu, que a multidão tem olhos mas não vê, tem ouvidos mas não ouve. Diz que “se não tivesse vindo, teraim desculpa, mas, agora que veio, eles não têm mais desculpa”. Sabemos que a vários santos a quem Jesus aparecia ordenava que deixassem o mundo e temos a grande obra cartuxa de São Bruno e todos os seus escritos contra o mundo. Mas o que o concílio fez e escreveu? Diz que Deus veio salvar foi o mundo, não um conjunto de crentes que pela fé se tornam filhos de Deus, mas o mundo mesmo ou o organismo mundial com sua direção governativa e tudo. Deus, então, veio para a Cidade dos Homens e não para a Cidade de Deus, em linguagem agostiniana. Mas, o Concílio disfarça ou tenta disfarçar e é, por isso, que Jesus mandou não se apegar às palavras, mas às obras, para um juízo certeiro. E quais obras vemos com a “inculturação” e com o “ecumenismo” vindos do Concílio? Somos duas igrejas, duas fés diferentes. Eles partem do homem e se concentram no homem, nós, em Deus. Odeiam quando nos baseamos em Santo Agostinho e em Santo Tomás de Aquino. Continuidade só em alguns discursos, e também odiados, de Bento XVI. Basta que visitem os seminários, assistam algumas aulas e discordem com base em Santo Tomás ou em Santo Agostinho que verão o ódio estampado e as mais autoritárias reações, talvez, como cortarem o som do microfone, como fizeram com o Cardeal Otavianni. É claro que a coisa não foi abrupta nem poderia ser. Ora, o Vaticano sempre teve a melhor diplomacia do mundo! E conhece o ser humano! A coisa já começou lá trás com o ódio a São Pio X e nas punições aos peritos conciliares que se estenderam à pena de Pio XII. Digo e repito, remetam sua pesquisa a Cristo e a São Paulo e a São João. Não dá para ficar com eles e com o Concílio. Mas, se quiserem vejam as obras primeiro, porque até Cristo disse de Si mesmo: “se não acreditam em minhas palavras, ao menos acreditem em Mim por causa das minhas obras”. As obras falam por si e a defesa deles da “continuidade” real e do “progressismo” real destas obras, o que eles defendem com toda ferocidade, demonstram a infinitude da “ruptura” real e que somos duas coisas completamente antagônicas em tudo! O Concílio mandou abraçar o mundo e não a Cruz! O que o Guilherme mostra é a oficialidade polida e mesmo incompleta. Um funcionário público sabe como a oficialidade não reflete a repartição e muito menos seus bastidores. Alguém de Roma que lesse os relatos oficiais sobre os primeiros cristãos só poderia concluir que, realmente, tratava-se de mais uma seita fanática. A letra mata! E também por isso a Tradição supera a letra! Bento XVI chegou a discursar que o Magistério Vivo se restringe ao papa atual e que já não pertence nem mais ao papa anterior, mas isto não foi documento oficial! Nos documentos oficiais sempre disse outra coisa! Estamos diante de uma propaganda e para saber como a propaganda faz parte tanto do materialismo histórico (a distorção da intenção histórica pela aparência histórica ainda que nos elementos materiais, os quais podem ser tão forjados como os testemunhais e os interpretativos ou ideológicos) como da nova teologia com o nome de criticismo-historicista, só lendo a obra de interpretação das reais intenções que só podemos ter através do tomismo e do excelente tomisto do Padre Calderón. Por tudo isso, a conclusão é a de que se se procura uma fé oficial num igreja oficial se encontrará a apostasia oficial (com força de lei) e nada mais! O Apocalipse já anunciou que a Igreja subsistirá no deserto, protegida e escondida por Deus pelo mérito de uma Fé que deixou de ser oficial!

    • Bem colocado, muito bem exposto o seu pensamento, Leonardo. Mas o protestantismo também pode usar suas ultimas palavras. Contudo, ainda assim voce pode ter razão.
      O que depõe mais contra a resistência dos anti-Concilio, no entanto, é a divisão e brigas internas entre seus grupos. Isso parece uma prova de que os que resistem não estão na Verdade, pois ela os devia unir.
      Quanto a questão do abraço ao mundo, há que se levar em conta que “a letra mata”, o Evangelho que diz que o mundo não reconheceu Jesus, também diz que Jesus não veio para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Há sentidos diferentes para o termo “mundo”, e voce sabe disso.
      Pra concluir, não culpe o Guilherme Chenta, tenho a impressão que ele não quis defender o Concilio, mas mostrar como ele é defendido, talvez como sinal de algo indefensável. Pra mim, no entanto, pareceu uma defesa respeitável, ainda que não de todo convincente.
      Se nosso olho for bom, todo nosso ser será iluminado, não é? Tentar olhar o Concilio com bons olhos não nos alia ao mundo (no mal sentido) nem nos faz necessariamente apoiar o Concilio, mas pode nos levar a perceber a Luz divina que fala mesmo através de obras maquiavélicas e manipuladas por inimigos da Igreja. Afinal, se cremos que o Espírito dirige a Igreja apesar de toda malícia dos homens que a compõem, como podemos crer que um Concilio e três papas escolhidos por Deus tenham sido alheios a ação do Espírito?

  33. Ao menos há 250 anos que toda a história é mal contada. A mentira foi vista como necessária e justa. E o que se toca pelo materialismo é o que a mentira deixou ver. Grande a inteligência de Deus! Para destruir toda a obra do orgulho humano destrói toda segurança humana no homem. O pai da mentira e o homem demolem a si mesmos com suas mentiras. O que resta para todos sem exceção? A Fé ou as outras fés. Tudo está virando religião contra a Religião. Vemos o futebol como religião, o comunismo mais do que nunca como religião que mesmos seus erros e crimes mais atuais e óbvios tenta transformar em obra de graça e de luz e de bondade! Assim Deus se vinga! Ou a Fé nEle, puro crédito a Ele ou tenhamos todas as fés em nós mesmos e consumamos a nós mesmos com todo o orgulho e seus erros juntos. Maravilhosa a inteligência de Deus! Deixa todos blefarem e vence com os blefes dos outros e, assim, prova que toda sabedoria do homem e do demônio são nada até perto da aparente loucura de Deus. A Cruz. Ela que resolverá tudo e terá a última palavra e não só pelo Amor, mas também pela Sabedoria. Porque, escondendo-Se, Deus se mostrou. Calando-Se, gritou e Se enlouquecendo, superou todos os sábios que acreditavam que O conheciam como aos homens. Agora, mais do que nunca, vemos a Sabedoria não apenas em cada letra do Novo Testamento, mas em cada movimento, em cada encontro e em cada tijolo de sua construção. Agora, mais do que nunca dá para ver não apenas a personagem do Cristo, mas o Pai preparando tudo e Cristo, esperando a Sabedoria manifestar para falar e intervir. Vemos também o pecado de Adão rasgar o tempo inteiro em seu desdobramento nas gerações e o quanto devemos chorar por nós e por nossos filhos já que “se fizeram o que fizeram ao lenho quando estava verde, o que não farão ao lenho quando já vai ficando maduro?”. E tudo vai ficando maduro. E pelo Magistério Infalível, sempre tratado com leviandade pelas gerações a ele contemporâneas, como mostrou que advertiu sobre o joio que cresceu a ponto de sufocar o trigo. E eu já acho que 144 mil será um número miraculoso de se conseguir reunir… Cristo é crido mesmo por muitos até querer descer a Jerusalém, mas depois a maioria se segura com São Pedro. Assim como São Paulo, “enquanto se fez fraco para ver se ganhava os fracos para o Senhor”, mas quando foi pregar a Cruz e o sentido da Comunhão para ir de encontra ao que faltou à Paixão de Cristo… Quando eu era postulante, ouvi um frade dizer: “se pregarmos a cruz, não restará um só na capela”… Ali eu questionei a fé desta geração ante o que eu conhecia de outras gerações… Eu também me lembrei de que Cristo disse “centradamente” no discurso acerca da Comunhão no capítulo seis de São João que a Comunhão era para vivermos dEle como Ele viveu e vive do Pai. Ora, se não vamos com Ele até Sua própria Cruz, como viver dEle assim como viveu do Pai? Não sabemos as medidas que suportamos e não podemos dirigir nada, muitas vezes, nem nossos passos, mas se O amamos como Deus, nossas pernas têm de seguir as da Virgem Maria na mais humilde e pura confiança de quem crê no ápice do plano da Sabedoria exatamente na Cruz.

  34. O Anti-Syllabus, no dizer de Bento XVI, pode ser continuidade do Syllabus? Qual a continuidade da Pascendi? Quando falam de São Pio X, resumem-se a dizer que tinha origem pobre e muitos irmãos e chegou a papa… Nunca, mas nunca mesmo, citam nem uma palavra de sua obra. Nunca dizem sobre o que alertou os católicos. Assim como não dizem nada das últimas aparições oficiais da Virgem Maria. Só a Ave-Maria não conseguiram modificar, porque Nosso Senhor é um Filho fiel. Tudo o mais, mexido, piorado, retalhado ou escondido. E continuidade… Se foi continuidade como ocorreu a piora identificada como algo novo por Paulo VI? Ares novos, uma primavera e, depois, uma fumaça, um bafo… A continuidade não existe mais entre nós o povo. Na igreja nova é cada um com sua fé, porque opinião e fé viraram uma coisa só justificada pela autoridade máxima da própria consciência!

  35. Teresa, não creio que a visão tradicional de Deus é a de um Deus duro. Acredito que é a de Justo, que é bom para os bons, misericordioso com os contritos e vingativo com que merece vingança. Eu, sinceramente, não vejo diferença alguma entre Deus apresentado no Antigo e no Novo Testamento, porque no Antigo só tinha a esperança e fé na vinda de Jesus, não tinha ainda Jesus e a plenitude da revelação, somente a Lei Divina e a lei mosaica, que São Paulo chama de lei da morte; no Novo já há a plenitude da revelação de Deus, há Jesus Cristo que morreu pelos nossos pecados e desceu à mansão dos mortos para levar para o céu os justos do Antigo Testamento, esta era a esperança dos judeus do Antigo Testamento, serem levados para o paraíso por Cristo, e só podiam ir pela Lei e cientes de que ofender a Deus traz muitos sofrimentos.

    Jesus veio e terminou o tempo da lei mosaica, não da Divina, da qual nem um iota foi modificado. Portanto o mesmo Deus zeloso que tirou os hebreus da casa de escravidão no Egito, continua se vingando dos pecados dos pais nos filhos até aos bisnetos, e usando de misericórdia até a milésima geração dos que guardam os Mandamentos. Jesus não disse nada diferente, não apresentou um Deus que quer até os impenitentes sorrindo, como umas maricas de clergyman e outras até mitradas falam por aí ensinando as pessoas a não temer ofender a Deus.

    Jesus sempre disse, por parábolas, que a salvação depende somente das disposições pessoais. Se não quiser tomar a cruz e segui-Lo, não é digno de Deus mas do maligno, e Jesus nunca omitiu isso, só lembrou que Deus também é SEMPRE MISERICORDIOSO E ESTÁ DISPOSTO A PERDOAR TODOS QUE PROCUREM PERDÃO.

    É verdade que há extremismos, que só atacam, NÃO mentirosa mas excessivamente, à Igreja do concílio, o que só atrai quem também é extremista, infelizmente. Porém São Paulo mesmo disse que se deve criar medo – não tanto como os tradicionalistas por ideologia, porque estes não são tradicionais – nos fiéis para que não pequem muito e possam se salvar.

  36. Mas sobre o Concílio Vaticano II, ele abre, sim, muito espaço para interpretações heréticas dos modernistas, mas também dá a mesma liberdade para quem quiser interpretá-lo pela Tradição. O grande problema é que a maioria das autoridades só interpretam o concílio pela modernidade, e perseguem os tradicionais. Ora, o Concílio de Trento foi anulado oficialmente? e o Vaticano I? Eles não têm anátemas válidos? Basta mais autoridades eclesiásticas fiéis a Deus e à Igreja, como Bento XVI, que poderia voltar a ordem na Igreja até que se realize um Concílio dogmático e tradicional, o que só rezando muito para que tenhamos.

  37. Mons. Brunero Gherardini desafiou os defensores do Concílio a demonstrarem a continuidade deste com a tradição da Igreja e até hoje não obteve resposta. Isto quer dizer que se essa continuidade não pode ser demonstrada, a solução hermenêutica apresentada desde Paulo VI é impossível. Além disso, os Papas e o magistério devem dar a reta interpretação do Concílio, não pedir (como eles tem pedido a Igreja) que A ou B façam aquilo que somente eles podem fazer. Todos os estudiosos honestos são unânimes em apontar uma mistura de verdades e erros nos ensinamentos conciliares. Então, o máximo que podemos dizer sobre o Concílio Vaticano II é que em seus textos se encontram “sementes do Verbo” e só.

    Todos os defensores do Concílio, para defendê-lo fazem livre exame do magistério dos Papas Conciliares. Pegam aquilo que interessa a defesa que fazem e esquecem que todos os Papas desde Paulo VI falam e agem a direita e a esquerda. Neste sentido, destaco apenas como exemplo, o trecho de Paulo VI citado onde ele diz:

    “Mas é verdade que padres e fiéis cobrem com o nome de “conciliar” interpretações pessoais e práticas errôneas, prejudiciais, até mesmo escandalosas e, por vezes, mesmo sacrílegas. Pois esses abusos não podem ser atribuídos ao Concílio em si mesmo, nem às reformas que legitimamente saíram dele, mas muito mais a uma falta de fidelidade autêntica para com ele. Ora, V. Excia. quer convencer os fiéis que a causa próxima de crise é mais que uma má interpretação do Concílio, e que ela decorre do Concílio em si mesmo.”

    Mas vejam a interpretação que o então Cardeal Karol Wojytla deu ao Concílio em um retiro em que pregou para o próprio Papa Paulo VI:

    “Karol Wojtyla em 1976 quando ainda Cardeal, pregando um retiro espiritual a Paulo VI e aos seus colaboradores, publicou em italiano com o título de Sinal de contradição. Meditações, (Milão, Vida e pensamentos, 1977), inicia a meditação “Cristo revela plenamente o homem ao homem” (cap. XII, pp. 114-122) com Gaudium et Spes n. 22 e assevera: “O texto conciliar, aplicando à sua volta a categoria do mistério ao homem, explica o caráter antropológico ou até antropocêntrico da Revelação oferecida aos homens em Cristo. Esta Revelação se concentra sobre o homem [...]. O Filho de Deus, através da sua Encarnação, se uniu a todos os homens, e tornou-se – como homem – um de nós. [...] Aqui estão os pontos centrais a que se poderia reduzir o ensinamento conciliar sobre o homem e sobre seu mistério” (pp. 115-116). Em suma, este é o concentrado dos textos do Vaticano II: culto do homem panteísmo e antropocentrismo idolátrico. Não o digo eu, mas Karol Wojtyla, a luz de Paulo VI e do Concílio Pastoral por ele terminado, ou seja, os intérpretes ‘autênticos’ do Vaticano II.” MUNDIALISMO, BENSON, ORWELL E O CARDEAL NEWMAN – 1a parte – http://salveregina.altervista.org/blog/arquivos/393

    Então, se “é verdade que padres e fiéis cobrem com o nome de “conciliar” interpretações pessoais e práticas errôneas, prejudiciais, até mesmo escandalosas e, por vezes, mesmo sacrílegas”, porque Paulo VI não corrigiu o então Card. Wojytla?

    No fim das contas são 50 anos de repetição do mesmo diagnóstico, para o qual nem Paulo VI, nem João Paulo e nem Bento XVI deram solução. Fala-se de falsas interpretações e de uma hermenêutica da continuidade, mas não há quem defenda a verdadeira interpretação, contra as falsas apresentadas ou que mostre a dita hermenêutica da reforma na continuidade. Bento XVI pediu essa hermenêutica, ele que como Papa deveria dá-la a Igreja pediu a ela que fizesse, o que apenas ele como Papa poderia fazer. Ele também pediu a FSSPX que aceitasse o Concílio sem sua interpretação e no livro “Princípios de teologia católica” escreveu:

    “Isto significa que o próprio Concílio deve ser revogado? Certamente que não. Significa apenas que a recepção autêntica do Concílio ainda nem sequer começou. O que devastou a Igreja depois do Concílio não foi o Concílio em si mesmo, mas sim a recusa em o aceitar. (…) Portanto, a nossa tarefa não é suprimir o Concílio mas descobrir o autêntico Concílio e aprofundar a sua verdadeira intenção à luz da experiência presente”.

    Vejam bem o que diz um Cardeal da Igreja: “O que devastou a Igreja depois do Concílio não foi o Concílio em si mesmo, mas sim a recusa em o aceitar”. Qualquer pessoa de bom senso que ler até aqui vai pensar que a Igreja tem a interpretação do Concílio, mas na sequência ele dirá que “a nossa tarefa não é suprimir o Concílio mas descobrir o autêntico Concílio e aprofundar a sua verdadeira intenção a luz da experiência presente”. Aqui merece destaque o fato dele não falar em um aprofundamento da sua verdadeira intenção a luz da tradição , mas a luz da experiência presente. Ora, se naquela altura era preciso descobrir o autêntico Concílio, então, devemos concluir que a Igreja aceitou um falso Concílio, como isto é possível? Como a Igreja poderia aceitar o Concílio se a sua tarefa era ainda qual seria o autêntico Concílio?

    O próprio Papa Bento XVI fez parte da ala progressista da Igreja, e como pertencente a tal ala, também fez uma hermenêutica da ruptura (significativo neste sentido, foi a escolha do Urso de São Corbiniano para o seu brasão Papal). Para demonstrar a fase de ruptura de Bento XVI, basta recordar o que ele também disse no livro “Princípios de teologia Católica”:

    “O facto é que, como Hans Urs von Balthasar referiu, já em 1952, (…) Ela [a Igreja] tem de renunciar a muitas das coisas que Lhe têm até agora inspirado segurança e que Ela aceitou como certas. Ela tem de demolir bastiões há muito existentes e confiar somente na protecção da Fé”.

    Palavras bastante fortes, que não deixam margens para uma continuidade. Se a Igreja renúncia a muitas coisas que lhe deram segurança e que ela aceitou como certas, temos uma ruptura. Então, como quem fala em abatimento dos bastiões, pode falar de continuidade? Para falar em continuidade não é preciso saber primeiro quais bastiões foram abatidos e qual importância tinham para a Igreja? Nestas questões se pode concluir a importância do desafio de Mons. Brunero Gherardini que nenhum neoconservador pode responder.

    O que Balthasar escreveu em “Abater os bastiões” foi uma resposta a Humani Generis de Pio XII. Quer dizer, um Papa condena uma teologia e um dos seus representantes ao invés de se arrepender e prestar ao menos religioso obséquio a sua vontade, fala em “Abatimento dos bastiões” e o Card. que se tornaria Papa lhe dá razão. Ora, se pensamos nos 20 Concílios Ecumênicos que precederam o CVII, podemos dizer sem sombras de dúvidas que foram verdadeiros bastiões da Igreja, mas podemos dizer que o Vaticano II é um bastião da Igreja, como foi Trento, por exemplo?

    Bento XVI também é conhecido por escrever bons textos sobre a liturgia, mas em sua fase de ruptura, nem a liturgia tradicional foi poupada, vejam o que ele diz no livro Problemi e risultati del concilio vaticano 2 pag. 25-26 J.Ratzingher Ed.Queriniana que cito em italiano:

    “Furono eliminate le aggiunte del tardo medioevo e nello stesso tempo furono adottate severe misure che ne impedissero una rinascita. Nucleo di queste misure fu la centralizzazione di tutte le competenze liturgiche nella congregazione dei riti, l’organo post-conciliare per l’attuazione dell’idea liturgica di Trento. Ma questa misura si rivelò un’arma a doppio taglio. E’ vero che in tal modo furono di fatto impedite nuove aggiunte , ma ora la sorte della liturgia occidentale era legata ad una autorità determinata in forma strettamente centralista che lavorava in modo puramente burocratico, mancava totalmente la visione storica e considerava il problema della liturgia dal punto di vista puramente rubricistico-cerimoniale, per così dire, come problema di ordine per l’etichetta di corte del santo. Questo legame ebbe in seguito come conseguenza una completa archeologizzazione della liturgia, che dallo stadio di storia viva era era ora trasportata in quello della pura conservazione ed era così condannata nello stesso tempo alla morte interna. La liturgia era divenuta una formazione chiusa una volta per sempre, saldamente solidificata, che tanto più perdeva il nesso con la devozione concreta, quanto più si badava all’integrità delle forme preesistenti. Per riconoscerlo basta richiamare alla memoria che nessuno dei santi del rinnovamento trasse alimento dalla liturgia per per la sua spiritualità. Un Ignazio di Loyola, una Teresa D’Avila, un Giovanni dalla Croce hanno formato la loro religiosità fuori dalla liturgia, senza un profondo legame con essa, unicamente in base al loro incontro personale con Dio ed alla loro esperienza individuale della Chiesa. In questa situazione, il barocco se la cavò sovrapponendo alla vera e propria liturgia archeologizzata una paraliturgia popolare. La messa solenne barocca mediante lo splendore dell’esecuzione orchestrale diventa una specie di opera sacra, dove il canto del sacerdote hanno il loro posto come i recitativi interpolati. Tutto l’insieme appare una festosa elevazione del cuore mediante la bellezza di una celebrazione che rallegra occhio ed orecchio. Nei giorni ordinari, che non permettevano un simile sfarzo, alla messa si sovrapponevano devozioni che sovente assecondavano la mentalità”.

    Então, o próprio Papa que falou em uma hermenêutica da reforma na continuidade e uma da ruptura, participou ele próprio do partido da ruptura e todos os problemas da Igreja se resumem a um problema de hermenêutica? E quem deu aos modernistas extremados (racionalistas) da Concilium, como Hans Kung, as cátedras universitárias? Não foram os modernismo moderados (misticos) da Comunio?

    Para terminar cito as palavras de Roberto de Mattei no texto “Questionamentos sobre o Concílio Vaticano II” e lembro que com seu livro “Concílio Vaticano II, uma história jamais escrita”, o conto de fadas neoconservador acabou:

    Questões legítimas

    A tese hermenêutica oficial representa uma proposta de leitura, digna da máxima atenção, ao menos por sua autoridade. Mas ela não é uma afirmação doutrinal: é uma interpretação que, como tal, sobretudo quando nos deslocamos dos documentos para os fatos, pode ser falaz. Ninguém pode dizer ao Papa que ele erra. Com que autoridade poderemos julgar o supremo Pastor da Igreja? Mas cada fiel, enquanto batizado, tem o direito de fazer questões ao Papa, porque o Vigário de Cristo tem o dever de nos confirmar na fé. E, então, coloco estas perguntas.

    Se houve uma interpretação falsa e abusiva dos documentos do Concílio, de quem é a responsabilidade? Apenas dos maus hermeneutas ou, também, dos documentos que, por causa dos equívocos ou das ambiguidades, permitiram esta má leitura?

    Se houve uma interpretação falsa e abusiva dos documentos do Concílio, de quem é a responsabilidade? Apenas dos maus hermeneutas ou também da autoridade que deixou de condenar com suficiente firmeza as más interpretações?

    Se uma interpretação falsa e abusiva dos documentos do Concílio prevaleceu nas mídias, de quem é a responsabilidade? Apenas das mídias ou também do evento histórico que esses documentos produziram? O Concílio, enquanto evento, é estranho à crise do nosso tempo?

    O evento; os documentos ou ao menos alguns documentos que este evento produziu; os homens da Igreja que promoveram este evento; e que deste evento cuidaram da aplicação e propõem a interpretação: eis os responsáveis pela crise da fé atual. Ocultá-lo seria prestar um desserviço à verdade.

    http://fratresinunum.com/2012/10/16/questionamentos-sobre-o-concilio-ecumenico-vaticano-ii/

  38. FRATER José Carneiro;
    Li seu comentário a respeito de um possível concílio dogmático a fim de restaurar a Igreja.
    O caro FRATER recomenda oração, porém, acredito que diante de tudo o que acontece na igreja conciliar, se houver um outro concílio, o pouco que ainda resta de “Católico” será definitivamente banido.
    O FRATER fala da “tentativa” do papa Ratzinger, porém, apesar de que este Pontífice buscou valorizar mais a liturgia, ofereceu o mais abertura para a MIssa, acredito que deveria ter sido mais profunda e mais incisiva sua “reforma da reforma”.
    Quanto a rezarmos pela Igreja, acredito, caro FRATER que é a única coisa que podemos fazer, pois somente o Coração de Jesus pode ter Misericórdia de nós, pobres fiéis.
    Peçamos ao Coração de Cristo, traspassado pela lança, que por Amor ao Imaculado e Doloroso Coração de Maria, possamos ver nossa Igreja reedificada na Fé e no Amor ao Bom Deus!
    Chega de Antropocentrismo!
    Chega de modernismo!
    Chega de apostasias e heresias!
    Viva Cristo Rei!

    • Felipe Leitão, eu entendo que hoje se tiver um novo concílio a situação irá piorar absurdamente por causa do pensamento liberal dos que só pregam o último concílio. Por isso eu disse que é imprescindível usar uma interpretação do Vaticano II à luz somente da Tradição, para que a Igreja caia menos e para os que ficarem sejam menos ignorantes na Fé e mais receptivos a um Concílio tradicional.

      Anular o CVII hoje é criar um cisma de imensas proporções em todo o mundo, porque a maioria dos bispos são avessos à Tradição e jamais concordariam em deixar de lado suas comodidades. A única solução é o Papa falar e fazer magistralmente uma “reforma da reforma na continuidade”, aos poucos ensinando às pessoas o valor da Tradição e de sua necessidade. Parece que a nova geração do clero e do episcopado é mais próxima dessa linha de continuidade com a Tradição, portanto seria mais fácil um Concílio restaurador da ordem num futuro – se o papa Francisco não fizer tanto estrago.

    • Me desculpando com o caro Felipe cujo sobrenome é Leão e que confundi com Leitão!

  39. As palavras do Gederson foram incríveis! Parabéns!