Retorno ao lar depois de 30 anos de guerra litúrgica.

Por Dom Mark Daniel Kirby, OSB, Prior de Silverstream Priory*

Com serenidade e humildade

Algumas pessoas têm me perguntado se a minha avaliação pessoal da “reforma da reforma” de alguma forma significa que eu decidi desprezar a grande maioria dos católicos que ainda continuam a celebrar usando os ritos e os textos presentes nos atuais livros litúrgicos reformados. Nada poderia estar mais longe da minha mente e do meu coração. Estou bem ciente de que em dioceses e paróquias espalhadas pelo mundo afora um imediato reavivamento das antigas formas litúrgicas não é uma idéia realística. Eu acho que é algo que inexoravelmente irá acontecer, mas muito lentamente, na medida em que as novas gerações começarem a descobrir, ali e aqui, locais prósperos em que as celebrações Católicas são feitas no rito tradicional. É como Ratzinger uma vez disse: “a beleza está em casa” e na medida em que os mistérios da fé forem transmitidos com integridade, com serenidade e com profunda humildade, esses locais, creio eu, exercerão uma força de atração e não de coação sobre as demais paróquias e outras comunidades religiosas, fazendo com que voltem a se envolver voluntariamente com os ritos litúrgicos tradicionais da Igreja.

O Privilégio da Marginalidade 

Eu escrevo, é claro, como um monge e não como padre diocesano. Mosteiros criam raizes, florescem e dão frutos num território intermediário que começa onde a cidade secular termina e se estende para a vastidão inexplorada do deserto. O desmerecido privilégio dessa sagrada marginalidade concede aos monges o espaço e a liberdade para recuperar, preservar e transmitir elementos da tradição litúrgica que poderiam por algum tempo permanecer remotos ou inacessíveis aos vários níveis do clero que estão totalmente engajados no cuidado pastoral das almas.

Um veterano cansado finalmente volta pra casa

“Depois de ter dedicado quase quarenta anos da minha vida a uma “reforma da reforma” digna; depois de ter ensinado e defendido o Novus Ordo Missae com o melhor da minha habilidade, depois de ter composto –  e até mesmo ter sido aclamado por um decano do Pontifício Instituto de Sagrada Liturgia – um inteiro antifonal monástico em modo cantochão para os textos litúrgicos franceses, depois de ter composto centenas de configurações correspondentes ao cantochão para o Próprio da Missa em vernáculo, depois de ter lutado com todas as minhas forças pela restauração dos cantos relativos aos Próprios da Missa, depois de ter litigado à exaustão por uma obediência inteligente à Institutio Generalis Missalis Romani (Instrução Geral do Missal Romano); depois de ter me jogado de corpo e alma em palestras e conferências para sacerdotes, seminaristas, religiosos e religiosas, sou obrigado a admitir que eu poderia ter melhor gastado meu tempo e minhas energias na humilde obediência à liturgia tradicional como eu a havia descoberto – e, como eu tanto amava – na alegria da minha juventude. Não digo isto com amargura, mas como a constatação resignada  de um veterano cansado que volta tardiamente pra casa depois de uma honrosa derrota nesses trinta anos de Guerra Litúrgica.

Ao mesmo tempo bons vizinhos

Eu respeito aqueles sacerdotes e leigos que continuam a acreditar na “reforma da reforma”. Eu honro a sua devoção e perseverança, mas de onde eu me encontro, a essa altura da minha vida, eu creio que eles desperdiçam sua energia desnecessariamente. A vida é curta. Eu não posso mais aconselhar os demais a dedicar os anos mais produtivos de suas vidas remendando um edifício que foi sem sombra de dúvida erguido às pressas durante uma onda de construções rápidas, com fundações inseguras, isolamento térmico de má qualidade, luminárias defeituosas e um teto cheio de goteiras. Bem ao lado, existe uma outra casa, mais antiga, formosa, solidamente construída e em bom estado de conservação. Ela pode até precisar de um pequeno ajuste aqui e outro ou ali, mas é um lugar onde qualquer um se sente em casa e sabe que é confortável pra se viver. Pois é nessa casa que eu escolhi viver os dias que me restam. Se outros optam por continuar vivendo no “improviso” ao lado, só posso desejar-lhes boa sorte, confiante que possamos continuar vivendo ao mesmo tempo como bons vizinhos, com frequentes bate-papos sobre a cerca do quintal, trocando idéias  e talvez até mesmo aprendendo alguma coisa um com o outro.

Thomas Merton

Uma das coisas que eu aprendi ao longo dos últimos quarenta anos, e isso em meio ao tédio de uma espera muito dura, é que os monges e freiras que professam uma vida contemplativa não ganharam absolutamente nada em mudar as formas, conteúdo e linguagem da Sagrada Liturgia. As mudanças litúrgicas varreram os mosteiros como um furacão deixando um lamentável rastro de destruição em seu caminho. Será que a tão aclamada renovação litúrgica nos mosteiros serviu para um acréscimo das vocações? Será que serviu pra gerar um compromisso generoso com as regras da observância monástica? Teria servido pra promover um zelo maior pela obra de Deus? Poucos mosteiros conseguiram se recuperar dessas contínuas décadas de agitação litúrgica. Até mesmo Thomas Merton, quando se viu diante dos primeiros ventos de uma iminente mudança litúrgica, advertiu para o perigo que ameaçava a vida contemplativa de clausura. Em 1964, ele escreveu a Dom Ignace Gillet, então Abade Geral dos Cisterciences de Observância Rigorosa:

“Isto é o que eu penso do Latim e do Canto Gregoriano: eles são obras primas que nos oferecem uma insubstituível experiência Cristã e monástica. Eles possuem uma força, uma energia, uma profundidade sem igual. Se formos fazer uma comparação, podemos dizer que todos os Ofícios propostos em inglês são muito pobres. Além do mais, de forma alguma é impossível fazer com que tais coisas sejam compreendidas e apreciadas. Geralmente eu consigo ser bem sucedido nisso já no noviciado, naturalmente com algumas exceções, como com aqueles que não compreendem bem o latim. Mas aqui eu devo adicionar algo bem mais sério. Como você deve saber, eu tenho muitos amigos pelo mundo afora que são artistas, poetas, autores, editores, etc. Todos eles são capazes de apreciar nosso canto e o latim. E todos eles, sem exceção, ficaram escandalizados e entristecidos quando eu disse que provavelmente daqui a 10 anos esse Ofício e essa Missa não estarão mais aqui. E isso é que é o pior; os monges não conseguem entender esse tesouro que eles mesmo possuem e jogam tudo isso fora pra ir atrás de alguma outra coisa, enquanto seculares, que na sua maioria sequer são Cristãos, são capazes de apreciar essa arte incomparável.”

Coros desnudados e vazios

As reformas litúrgicas dos anos 60 e 70 arrancaram de seu eixo a vida espiritual de muito mais que um simples monge. A abençoada monotonia do saltério, que repetida semana após semana em acentos familiares gerava um cantochão consistente e harmônico, foi substituída pela distribuição de um saltério em vernáculo com duas, três ou até mesmo quatro diferentes semanas, numa flagrante violação tanto da Regra de São Bento como das leis objetivas da antropologia. Nunca vou esquecer a angústia gerada por tentar inventar novos tons para os salmos para que esses correspondessem ao vernáculo, ao mesmo tempo em que eu tentava desesperadamente me agarrar aos cantos do “Antiphonale Monasticum” que estavam enraizados no meu coração. Memórias da liturgia tradicional persistiam durante o inverno do meu descontentamento como as lindas flores do açafrão tentando perfurar a crosta congelada que haviam colocado sobre o meu “hortus conclusus” (jardim concluído). Os “coros desnudados e vazios” de tantas abadias modernas são tristes testemunhas do sucateamento causado pela inovação litúrgica, ainda que essa tenha sido feita, como sempre, com a melhor das intenções e tendo como base uma noção deturpada de obediência cega ao que foi mal interpretado como sendo “a mente da Igreja”.

Paulo VI

Quando eu digo “deturpada”, é porque embora o Papa Paulo VI tenha vacilado em questões litúrgicas, muitas vezes tomando partido dos reformistas mais iconoclastas em algumas matérias e até mesmo autorizando inovações de caráter duvidoso, a própria Constituição Sacrosanctum Concilium, (particularmente quando lida através das lentes da Mediator Dei, como deve ser para que essa seja entendida corretamente) e alguns dos pronunciamentos pessoais do mesmo Pontífice chamam para algo bem diferente do que se tornou a ordem do dia.

Por exemplo, o Papa Paulo VI, ao endereçar a  Sacrificium Laudis (http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/apost_letters/documents/hf_p-vi_apl_19660815_sacrificium-laudis_it.html) aos Superiores das Ordens masculinas em agosto de 1966 não se absteve de chamá-los à obediência naquelas matérias que lhe eram particularmente importantes:

“Na atual circunstância, que língua vos parece que poderia substituir aquelas formas de piedade litúrgica que tendes usado até agora? É preciso refletir bem para que as coisas não se tornem piores após terem negado essa herança gloriosa. Porque há que se temer que o Ofício no coral seja reduzido a uma recitação disforme da qual vós mesmos sereis os primeiros a lamentar a pobreza e a monotonia. Surge também outra pergunta: os homens ansiosos por ouvir tais peças sacras, ainda entrarão em grande número em vossos templos se ali já não se encontrará mais a linguagem antiga e nativa daquelas orações, unida ao canto cheio de gravidade e beleza?

Peçamos então aos interessados que ponderem bem sobre o que pretendem abandonar e não deixem secar a fonte de onde beberam tão abundantemente até os dias de hoje. Naturalmente que o latim apresenta algumas dificuldades e talvez algumas bem consideráveis, principalmente para os noviços da vossa sagrada milícia. Mas isto, como sabeis, não é algo impossível de ser superado e vencido, sobretudo entre vós que estais mais afastados dos afazeres e distrações do mundo e que podeis vos dedicar mais facilmente ao estudo.

Além do mais, essas orações permeadas de  antiga grandeza e nobre majestade, continuam a atrair a vós os jóvens chamados à herança do Senhor. Por outro lado, aquele coro do qual é removido essa linguagem de admirável força espiritual, a qual transcende os confins das nações, e do qual é removido também essa melodia que procede do mais íntimo santuário da alma, onde reside a fé e a caridade se inflama- estamos falando do Canto Gregoriano-  tal coro se tornará como uma vela apagada que não ilumina mais nada, não atrai mais para si nem os olhos e nem as mentes dos homens.

Em qualquer caso, caríssimos filhos, os pedidos que havíamos mencionado acima dizem respeito a matérias graves que nos é impossível fazer concessões ou derrogar as normas do Concílio e as Instruções citadas acima. Portanto vos exortamos ponderar bem sobre todos os aspectos de uma questão tão complexa. Para o bem estar dos que vos circundam e pela boa estima dos que vos acompanham, não queremos permitir que  isso possa ser causa de queda para o pior, pois poderia se tornar uma fonte de não breve detrimento e certamente poderia causar mal estar e tristeza para toda a Igreja. Permita-nos então contra a vossa vontade, defender a vossa causa. A Igreja que por razão de caráter pastoral, isto é, para o bem daqueles que não sabe o latim, introduziu as línguas nacionais na Sagrada Liturgia, vos dá mandato para custodiar a tradicional dignidade, a beleza, a gravidade do Ofício do coral tanto na língua como no canto.

Obedeçam portanto, essas prescrições com coração humilde e sincero, pois não são derivadas de um amor exagerado pelo uso antigo, mas propostas pela caridade paterna que temos por vós e aconselhadas pelo zelo pelo culto divino”.

Antiga Paixão pelo que antes era amado.

Esse contundente mandato não foi recebido com obediência filial, mas pelo contrário, com indiferença e até mesmo arrogante desprezo pela maioria dos endereçados. Até hoje, depois de 48 anos, ainda existem mosteiros onde o claro mandato da “Sacrificium Laudis” é totalmente desconhecido. Da minha parte, posso dizer humildemente que já não tenho a ilusão de fazer qualquer contribuição ativa no tocante à restauração da sagrada liturgia. Eu estou, na maior parte, contente de apenas poder sentar novamente no coro, dia após dia, hora após hora, para entoar as laudes imutáveis ao Deus Imutável. A verdade é que estou cansado até a medula das campanhas sangrentas desses trinta anos de Guerra litúrgica. No entanto, há momentos que, para minha própria surpresa, a paixão pelas coisas que antes eram amadas e que foram perdidas se reacende novamente e me inflama e é o que me obriga a escrever.

Dom Mark Daniel Kirby OSB, Prior de Silverstream Priory

Tradução: Gercione Lima, cuja gentileza agradecemos.

* O Priorado de Silverstream em Stamullen (http://cenacleosb.org), County Meath, na Irlanda, é uma casa de monges que vivem sob a Regra de São Bento. Cada mosteiro Beneditino é uma família autônoma caracterizada por um espírito único. Sob o patrocínio de Nossa Senhora do Cenáculo, os monges do Priorado Silverstream se dedicam à celebração digna da Opus Dei nas suas formas tradicionais e à adoração perpétua do Santíssimo Sacramento do Altar em espírito de reparação. Sua vida de louvor e adoração é marcada por uma solicitude sincera pela santificação dos sacerdotes. Sem sair da clausura do mosteiro, os monges realizam vários trabalhos compatíveis com a vocação de cada um, nomeadamente, hospitalidade ao clero que necessita  de retiro espiritual e a operação de uma excelente livraria católica localizada na portaria do Priorado.

14 Responses to “Retorno ao lar depois de 30 anos de guerra litúrgica.”

  1. Os mosteiros são os “pulmões da Santa Igreja Católica”. É graças a eles que muito da tradição tem sido preservada, muito embora todas as mudanças efetuadas pelo Concílio Vaticano II provocaram muitos estragos no modo de vida do monaquismo ocidental. Mas há esperança. Os lampejos que sobraram da tradição, por exemplo, podem ser observados pelos monges da Ordem de São Bruno (os cartuxos), que mantém ritos particulares e inalterados há quase mil anos. Tenho todos os mosteiros do mundo em minhas orações e espero que todos os leitores do blog também assim o façam.

  2. “As reformas litúrgicas dos anos 60 e 70 arrancaram de seu eixo a vida espiritual de muito mais que um simples monge. A abençoada monotonia do saltério, que repetida semana após semana em acentos familiares gerava um cantochão consistente e harmônico, foi substituída pela distribuição de um saltério em vernáculo com duas, três ou até mesmo quatro diferentes semanas, numa flagrante violação tanto da Regra de São Bento como das leis objetivas da ANTROPOLOGIA.”

    Eu gostaria que os sacerdotes que lêem esse texto meditassem esse paràgrafo. A antropologia é profundamente negligenciada nos seminarios, apesar de ser essencial na formação. Obviamente, falo da verdadeira antropologia, e não de apostilinhas de Freud ou Jung, tão distantes do assunto. Curioso também é notar como uma tendência eclesiàstica que se diz humanista negligencia tanto a antropologia!

  3. Simples: nunca perca o seu ponto de partida e nunca perca de vista seu objetivo para não se perder no caminho.

    Se o regato está poluído, é melhor subir a corrente em direção às fontes (Tradição), bem acima da poluição (Vaticano II).

  4. Que tesouro! Tradução belíssima, a refletir a dádiva retratada pelo texto. Grato como sempre, Fratres, por mais um presente aos fiéis.

  5. Ótimo texto. Precisávamos de um testemunho assim de alguém que trabalhou com tanto afinco pelo Novus Ordo e hoje se sente cansado.
    Mostrá-lo-ei a algumas pessoas.
    Que a Virgem Maria abençoe com muitas vocações esse mosteiro.

  6. Uma das coisas mais belas que já li! Belo testemunho. Louvado seja Deus!

  7. Devemos dar graças a Deus pela reforma da reforma, pois muitos foram os bons frutos que esta reforma iniciada efetivamente por Bento XVI trouxe à Igreja; porém, não devemos tê-la como finalidade da Liturgia, assim como não se pode, jamais!, ter somente a hermenêutica da continuidade, também encetada largamente por Bento XVI, como forma da Doutrina da Igreja!

    Penso na reforma da reforma e na hermenêutica da continuidade como se fossem igual à Lei mosaica. Deus criou Adão e Eva e deu ordens aos dois de que não comecem do fruto proibido, senão morreriam. Os primeiros pais desobedeceram e pecaram, trazendo desgraça a todo o gênero humano, que levou o mundo à tão grande degradação que Deus teve que destruí-lo com o dilúvio; e só depois, aos poucos, Deus pôde novamente se apresentar aos homens e fazer aliança, primeiro com os Patriarcas e em seguida com Moisés, ao qual revelou Sua Lei e firmou uma Aliança mais solene. Contudo, esta Aliança não era eterna, nem perfeita, mas para a preparação do povo de Deus para a Aliança Eterna entre Deus e Seu povo, Aliança perfeita e de uma vez por todas, testificada no Sangue de Cristo, para a plena remissão dos pecados.

    Isto acontece na Igreja novamente, pelo pecado humano, que calca com os pés a Nova Aliança em Cristo e as normas de Sua Igreja, e mesmo assim Deus ainda tem misericórdia e perdoa, mostrando que não muda pois quando Adão e Eva pecaram também Deus teve misericórdia de sua descendência, com a Lei mosaica preparando o povo para a Lei de Cristo! Usemos, portanto, a hermenêutica da continuidade e a reforma da reforma litúrgica para preparar o povo de Deus que, como antes da Lei de Moisés, está de novo no erro e na ignorância, com o coração fechado e fortemente inclinado ao mal. Mudemos esta inclinação do povo, mostremos a figura da beleza definitiva da Liturgia com a reforma da reforma e a imagem da Verdade infalível da Igreja de Cristo na hermenêutica da continuidade, para que todos possam conhecer a riqueza da Igreja e não só alguns. E que, como a Lei de Moisés já não vale, porque a de Cristo é mais perfeita, a reforma da reforma litúrgica e a hermenêutica da continuidade tenham fim para dar lugar ao conhecimento da verdadeira e perfeita Liturgia da Igreja e infalível Doutrina de Cristo, que foram esquecidas!

    Cristo, como Verbo de Deus, sempre existiu (e por Ele todas as coisas foram feitas e para Ele) e foi rejeitado, de forma semelhante a Sua Igreja Tradicional, desde que Cristo a gerou como Seu Corpo Místico, existe e está sendo rejeitada pelos seus. Por isto espero que os que conhecem a hermenêutica da continuidade e a reforma da reforma e as seguem, não pensem que são eternas e não deixem de buscar a perfeição que, como o autor deste texto que li disse, é a Tradição da Igreja, esta casa “mais antiga, formosa, solidamente construída e em bom estado de conservação”, e não esse novo “edifício que foi sem sombra de dúvida erguido às pressas durante uma onda de construções rápidas, com fundações inseguras, isolamento térmico de má qualidade, luminárias defeituosas e um teto cheio de goteiras”!

    Rendas, casulas dignas, um momento de reflexão nas missas novas, nada disso irá trazer de volta o que a revolução litúrgica aprovada por Paulo VI tirou e que era imprescindível para o Culto da Igreja, como faz a reforma da reforma; e apenas umas repetições, cheias de escrúpulos e em voz baixa ou sem uma autoridade visível que alguém ouça, do que é a Verdade e que o Vaticano II mitigou, irão resolver o deplorável estado da Igreja hoje, como baldadamente tenta fazer a hermenêutica da continuidade; enfim nada nem ninguém trará de volta a reverência à autoridade da Igreja e a fé das pessoas que a revolução do II concílio do Vaticano tirou, sem seguir o que a Tradição sempre fez e que o Magistério sempre disse!

    Achar que a reforma da reforma e a hermenêutica da continuidade são a solução e a salvação da Igreja no mundo, é ingenuidade ou má vontade, pior que o modernismo, porquanto seria uma enganação ainda mais ardilosa e perigosa! Os fariseus, fingindo-se fiéis, negaram Cristo dizendo que a Lei mosaica bastava, e Cristo os chamou de raça de víboras, porque Sua Lei é superior à de Moisés, e os fariseus, hipócritas, firmaram-se na provisória e rejeitaram a Eterna, por conforto mundano! A Missa Tradicional é Eterna, apesar de admitir mudanças que não alterem o essencial, por tal razão não se pode, nunca!, tendo conhecimento dela, substituí-la pela missa de Paulo VI; e igual alusão faço à grande superioridade da Doutrina dos Concílios dogmáticos até o Concílio Vaticano I, se comparados à hermenêutica da continuidade proposta por Bento XVI para salvar o bezerro de ouro do Vaticano II!

    Agradeçamos por poder usar o legado de Bento XVI para levar os que estão em erro de volta à Verdade divinamente revelada, mas não queiramos usar o exemplo de Bento XVI como um fim em si mesmo: apenas como meio para toda a Tradição da Igreja Católica, repetindo a razão da Lei de Moisés preparando-nos para a Lei de Cristo.

  8. Na seção de comentários do texto original, igualmente me chamou atenção o comentário de John Seiler bem como o link que ele postou para as fotos da Ermida de Camaldoli em Big Sur- Califórnia:

    “ Por volta do verão de 1978, eu era ainda um recém- convertido ao Catolicismo. Pra ser mais preciso, apenas 1 ano de conversão. Eu estava no Exército Americano aprendendo o idioma russo no Instituto de Linguas do Departamento de Defesa em Monterey- Califórnia.
    Naquela época eu encontrei um Capelão Católico do Exército que convidou-nos pra rezar com os Monges de Camaldoli na Ermida de Big Sur e fazer algum trabalho voluntário de reparos em suas instalações.
    As orações dos monges eram cantadas em inglês do modo como é descrito no artigo e conduzidas do modo mais reverente possível. A Igreja já era moderna e não me recordo de ter visto imagens ou estátuas de santos. Naquela época eu ainda era um grande entusiasta do Novus Ordo quando celebrado de modo reverente.
    Enquanto eu fazia algum trabalho de carpintaria em um dos prédios, eu fiquei desapontado, chocado e triste ao descobrir centenas de livros litúrgicos do periodo pré-conciliar jogados em pilhas. Se eles estavam ali pra ser queimados, doados ou pra venda, eu realmente não sei.
    Em 2007, quase 28 anos depois, eu voltei à Ermida e haviam apenas poucos monges, a Capela deles mais nua do que uma Capela Calvinista e a livraria repleta de livros de meditação oriental e occidental”. Algumas fotos da Ermida podem ser vistas nesse link:

    http://forums.catholic.com/showthread.php?t=727954&page=2

    Por que esse comentário me chamou atenção? Porque passei por uma situação quase semelhante. Meu primeiro Missal Tridentino- latim-português foi comprado numa livraria do Mosteiro de São Bento em Salvador. Estava lá como uma relíquia de tempos antigos. Comprei bem baratinho porque eles estavam liquidando aqueles “livros velhos”. Algum tempo depois voltei lá pra comprar alguns outros exemplares e simplesmente não existiam mais.
    Quando meu marido perguntou a um dos monges se havia possibilidade deles voltarem a imprimi-los, ele respondeu que não porque os monges haviam desmontado todas as máquinas de impressão.
    Quanto ao Canto do Ofício, é o que Dom Mark disse: tudo em vernáculo, fazendo aquela ginástica pra encaixar o português no original em latim. Menos mal que o português é uma língua derivada do latim, mas imagino o calvário que é tentar fazer uma versão em língua anglo-saxônica do original em latim.
    Aqui está um exemplo dessa ginástica com os Monges do Mosteiro da Ressurreição no Paraná cantando o ofício em português:

  9. A graça não falta para ninguém. Todo mundo que se empenha e reza com humildade, termina reconhecendo que que a nova liturgia não trouxe nada positivo para a Santa Igreja. Podemos observar as estatísticas; que não deixam ninguém mentir. Milhões de almas foram para as falsas religiões, ou seitas. Os seminários fechado, os conventos esfacelados, o números de candidatos para uma vida sacerdotal, vem diminuindo de uma maneira assustadora. Salvo o da Tradição; estes graças a Deus, vem florindo neste mundo tão opositor as virtudes. É preciso que este pronunciamento seja espalhado por todos os quadrantes da terra. Para que os demais, também imite a sua coragem.
    Joelson Ribeiro Ramos.

  10. Dos exercícios espirituais, nos mosteiros, forjavam-se os santos. Quantas constelações de santos deve haver do monasticismo. Período em que os membros do corpo docente da Igreja primavam pela santidade como exigiu Nosso Senhor Jesus Cristo: “Sede santos, assim como vosso Pai celeste é santo” (Mt 5, 48).

    Há nestes lugares tantas obras de santidade que se detivesse para lê-las, eu, particularmente, reconheceria o quanto ainda estou cego.

    Aqui no Brasil, antes do concilio VII, segundo um monge amigo, os mosteiros, já nas décadas de 50 e 60, me revelou que a crise interna já era bem grande. Para isso, o noviciado exigia mudança nas regras do fundador ou então as ignoravam.

    O maior temor dele, desse monge beneditino, tanto quanto aos documentos de cunho espiritual que dão a razão à essência da tradição, quanto aos documentos históricos que guardam vários fatos que refutam as mentiras dos hereges modernistas, é que eles sejam destruídos. Por maldade mesmo!

    Agradeço a todos os colaboradores da matéria, que nos mostra a beleza do exemplo da ascese desses monges e alentam a alma católica.

  11. Incrível como S.S. o Papa Paulo VI parecia consciente do resultado das inovações oriundas do CVII, a exemplo da Reforma Litúrgica. No trecho do texto que trata da Sacrificium Laudis ele já antecipa os possíveis, e, já sabemos hoje nefastos, desdobramentos.

  12. Ótimo texto. Eu já defendi a verdadeira reforma litúrgica que o Concílio desejou (hoje chamado de “reforma da reforma”), mas após ter contato com o maravilho rito bizantino na Igreja Ucraniana, chego a mesma conclusão que esse prior.

    Hoje eu me pergunto o real motivo da reforma litúrgica. Se o problema era o latim que supostamente afastava as pessoas, não era mais fácil permitir a tradução ao vernáculo (assim como é nas igrejas orientais) do rito gregoriano?

    Enfim, sei perfeitamente que o rito paulino é católico e sagrado, se bem executado o rito paulino santifica os fiéis. Mas minha experiência com o rito bizantino ampliou os meus horizontes e hoje me questiono: valeu apena a igreja latina ter trocado um rito mais rico por um rito mais pobre? Valeu apena? Isso converteu mais pessoas? Estou convencido que não valeu apena e nem converteu tantas pessoas como a Igreja desejava.

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