Discurso de posse do Des. Ricardo Dip na Academia Cristã de Letras, em São Paulo (18-3-2014).

Capítulo das boas maneiras da retórica ensina que, em situações como estas, alçando-se alguém sem maiores méritos a uma elevada honraria acadêmica −em meu caso, na cadeira que, nesta colenda Academia Cristã de Letras, está sob o patronato de GUSTAVO TEIXEIRA, poeta neoparnasiano da nossa cidade de São Pedro−, mas dizia eu: nessas circunstâncias, recomenda a retórica que deva ser breve a alocução de agradecimento, ao menos para que a escassez de palavras satisfaça o saudável motivo de poupar o orador de sua maior exibição ao constrangedor cotejo presencial com tantos Maiores na Academia.

E, em meu caso, é mais vistosa a prudência na recomendação da brevidade do discurso, pela intensidade do motivo adicional de que meu imediato antecessor na Cadeira a que nesta Academia tão desproporcionadamente ascendo foi o Professor SAMUEL PFROMM NETTO, Professor que foi da Universidade de São Paulo e não menos da Universidade que ainda hoje conserva o nome de Católica de São Paulo, esse escritor, psicólogo, pedagogo, historiador, justa vaidade de sua piracicabana terra natal, esse pensador, nascido em 1932, que foi Presidente do Conselho Regional paulista de Psicologia e membro de diversas Academias −a Paulista de Psicologia, a Paulista de História, a Paulista de Educação, o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo−, recebendo dezenas de medalhas e títulos, testemunho social da excelência de sua obra, sinalizada pelos muitos livros que nos legou (inter plures: Psicologia, introdução e guia de estudo, Psicologia da aprendizagem e do ensino, Telas que ensinam, Principles of learning and instructional theory).

Numa entrevista de março de 2002, contemplando o processo ruinoso da civilização contemporânea, PFROMM NETTO afirmava que “a sociedade acabou por engendrar influências, condições e situações que estão criando à larga pequenos Frankensteins” e lembrava que Daniel Boorstin advertira, no ínicio da década de 60, que, a seguir-se nessa trilha, “o botequim imundo, com sua boçalidade, suas brigas violentas e sua desfaçatez, e o prostíbulo, com o sexo aviltado e seu cortejo de misérias e indecências, estariam dentro da sala de estar das nossas casas perante os olhos da família”. E rematava o eminente Professor PFROMM:

“A verdade é que estamos fabricando, assim, os Frankensteins de amanhã, em meio à indiferença, à inconsciência, à irresponsabilidade e à amoralidade (…)”

Quando faleceu, em 17 de novembro de 2012, o Professor PFROMM tinha mais do que estampada essa diagnose de nossos tempos, confirmada pela imensa e vistosíssima crise do mundo contemporâneo: já se estendiam os tapetes vermelhos para a recepção dos Frankensteins, e eram estes ruidosamente saudados com uma sinistra e muito gráfica divisa: “ad delendam Christianitatem”.

Crise tenebrosa, de fato, esta em que vivemos. Ainda que, em outras épocas da história humana, se haja a Cristandade afligido de misérias, insídias e ataques, sempre havia, para a segurança das consciências, a autoridade sólida da Igreja docente: Roma locuta causa finita.

Já agora, e como nunca, diante de uma intensa e sistemática hostilidade contra as verdades da Fé e da Moral, desfilando diante de nossos espantados olhos as milhares de crianças assassinadas diariamente no ventre materno, o crescente número e aterrador de suicídios de jovens em vários países do mundo, a prática “legalizada” da eutanásia, a destruição da família −já pela trágica aversão de sua realidade natural, já pela insidiosa moléstia do divórcio…, já agora, e como nunca, tamanhas sendo todas essas agressões a bens e princípios que, tal o disse BENTO XVI, são princípios e bens “iscritti nella natura umana stessa e quindi (…) comuni a tutta l’umanità”, já agora, e como nunca, o mais insólito dessa crise está em que a tudo se agregue o trágico quarto de hora da Igreja Militante.

Nosso Senhor perguntara a seus discípulos, se quando o Filho do homem voltar, encontrará por ventura a Fé sobre a Terra −inveniet fidem in terra?, e o Magistério da Igreja, no “Catecismo” de JOÃO PAULO II, vem confirmar-nos que, “antes do advento de Cristo, a Igreja deverá passar por uma provação final que sacudirá a fé de numerosos crentes”: a glória do Reino exige uma derradeira Páscoa, mas esta última Páscoa da Igreja impõe que siga ela seu divino Fundador, na Morte e na Ressureição; à glória do Reino a Igreja não se elevará, disse JOÃO PAULO II, “sem passar por esta última Páscoa, em que seguirá seu Senhor em sua Morte e Ressurreição” in Eius Morte Eiusque sequētur Resurrectione.

Tempos difíceis os nossos, o da Paixão da Igreja, dilacerada num drama agudíssimo que tão bem resumiu PAULO VI, quando, em célebre discurso ao Seminário lombardo −era o ano de 1968−, acusou na crise o processo de autodemolição da Santa Barca de S.Pedro: também ela não podia deixar de ter seus Judas Iscariotes, sua Sexta-Feira Dolorosa.

Bem gostava pessoalmente de encerrar este brevíssimo discurso proclamando minha firme esperança de que demain, le Pape −para usar o título de valioso artigo do saudoso JEAN MADIRAN−, de que demain, le Pape aplicará, no governo interno da Igreja, as santas sábias medidas que o Papa PAULO IV deixou ditado de modo perdurável na célebre Bula Cum ex apostolatus officio. A militância católica pequenina de minha menoridade habitual, elevada graciosamente a esta egrégia Academia, traz guardada in corde a mais funda esperança de que não nos faltará a Providência e que, demain, le Pape reconstruirá sua autoridade e restituirá a saudosa inteireza da doutrina que sempre e em toda parte ensinou a Santa Igreja… porque senha indefectível da sobrenatural grandeza do Pontificado romano sempre foi e sempre o será a sólida fidelidade papal na custódia da tradição, nessa vanguardista conservação da doutrina que semper et ubique tenuit Ecclesia… porque, isto é absolutamente certo: DEUS, DEUS não muda!

Muito obrigado.

* * *

Agradecemos ao dr. Ricardo Dip a honra que concede ao Fratres de divulgar seu discurso.

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8 Comentários to “Discurso de posse do Des. Ricardo Dip na Academia Cristã de Letras, em São Paulo (18-3-2014).”

  1. Correção…. “discurso de uma “finesse ” ímpar, belíssimo, antológico, agudo, de precisão cirúrgica. Pena que proferido para um “paíz” de surdos e analfabetos.

  2. O discurso do Des. Ricardo Dipp foi como que uma leve síntese das previsões de N Senhora nas suas diversas aparições, como em Quito, oportunidade em que revelou de como seriam os tempos do fim, mais precisamente para os séculos XX e XXI, em pleno andamento; aliás, o próprio Papa emérito Bento XVI relatou estar em plena sequencia.
    Mesmo no CIC, nº 675, refere a esse tema enfocado; os iluminados teólogos, ao redigirem o catecismo, anteviram os múltiformes vindouros Judas Iscariotes no interior da Igreja e as apostasias que gerariam pelos seus (des)procedimentos; e o que há de sacerdotes trabalhando nesses projetos são diversos, em varias vertentes.
    Nunca o profeta Isayas esteve tão atualizado, em 5,20: “Ai de vós que ao mal chamais bem e ao bem mal…, como se estivesse se dirigindo a nós, hoje em dia, diretamente pelos fatos que ocorrem fora e pior, dentro da família no seu dia a dia; assim; portanto, não se trata de algo distante, longe, mas no recinto do lar, onde a apenas um clique se tem o bordel ao vivo, bastando sintonizar uma das multis novelas, BBBs e similares em que os súditos e idólatras recebem de Satã via seus atores seus “ensinamentos” de como ofender e desafiar a Deus.
    Assim, os que prestigiam tais aberrações são da mesma estirpe do ideologista que as propõe, além de macomunados aos que praticam ou prestigiam essas inversões, formando uma só família de neo Judas, versão século XXI, tudo bem resumido nesse abalizado discurso.

  3. Parabéns ao Des. Ricardo pelas sublimes palavras, doutas de reflexão. Realmente a Igreja Santa Católica que Nosso Senhor, Jesus Cristo, instituiu nos deu as Universidade e muitos benefícios, no entanto, hoje elas esquecem de que foi a madre igreja que as instituiu. Queira Deus que um dia as universidades voltem a ser o que foram na idade média, onde a catolicidade emprestava sua moral para o desenvolvimento do conhecimento.

  4. Que maravilha ler esse texto. Parabéns ao Sr. Ricardo Dip.

    Fiquem com Deus.

    abraço.

  5. Parabéns ao Desembargador Dr. Ricardo Dip, que Deus o abençoe sempre!

  6. Que bom podermos ainda ter entre nós pessoas especiais como o Des. Ricardo Dip.

  7. É um imenso consolo para mim ver uma pessoa desse jaez defendendo a límpida e cristalina verdade com tamanho desassombro, sobretudo e justamente no meio acadêmico, que é onde essa mesma verdade é mais duramente combatida. Obrigada, Sr. Desembargador.

  8. Parabéns ao cidadão brasileiro e católico apostólico romano, Sr. Ricardo Dip, pelo oportuno discurso levado a cabo por ocasião da posse na Academia Cristã de Letras, em São Paulo (18-3-2014).
    Trata-se de um discurso direto, sucinto, objetivo e esclarecedor sobre os Sinais dos Tempos!
    Nosso Senhor nos mostra que a Igreja deve viver a mesma história de Cristo: sua Paixão, Morte e Ressurreição: “ferido o Pastor, as ovelhas se dispersarão” (Zc 13,7), a perseguição virá por parte dos eruditos e “sábios” deste mundo. Alguém que “se assenta à Mesa do Senhor” se levantará contra Ele, é a traição de alguns dos Seus, o abandono de outros, a solidão, as multidões adversas: o coração de Cristo atravessado, assim como o de Maria, transpassado de dor, ambos coroados de espinhos; a recusa da Eucaristia – “dura é esta linguagem – muitos se afastaram dEle…”, a aliança dos inimigos contra Cristo; enfim, a Igreja será chamada a comungar com a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo e, somente assim, chegará ao Novo Pentecostes de Amor que transformará o mundo. Deus nos mostra que estamos na “hora de satanás”, na qual este é adorado (Ap 9,20; 13,12 e 16,2), honrado e se rende culto a ele em todos os lugares (satanismo, ocultismo, Ideologia de Gênero, retirada dos crucifixos…), o qual atrai sobre o mundo todos os “castigos”.
    No fim, o “Meu Imaculado Coração triunfará”!