Mártires do passado e do futuro?

Por Christine L. Niles – The Catholic Thing | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com – No ano passado, centenas de milhares de cidadãos franceses invadiram Paris para caminhar a favor do matrimônio tradicional. Eles estavam participando da Manif Pour Tous – a “Manifestação para Todos” – em reação ao projeto de lei Mariage Pour Tous, que legaliza o casamento de pessoas do mesmo sexo. Reconhecendo que o casamento não é meramente “o amor entre duas pessoas, mas uma instituição que protege a dignidade de pais e filhos, e que rege o parentesco”, as passeatas do Manif têm impressionado pelo número de participantes, superando grandemente manifestações semelhantes nos Estados Unidos.

Prestando pouca atenção à vontade das pessoas, o governo levou a cabo a legislação – a despeito do clamor público disseminado. Além desse espetáculo de força legislativa, houve demonstrações de força física, e manifestantes (incluindo mulheres, crianças, idosos e até mesmo padres) foram aspergidos com gás lacrimogêneo e spray de pimenta, apanharam ou foram presos por soldados da tropa de choque.

Um percurso escolhido pelos manifestantes começou na Place de la Bastille e seguiu até a Rue Diderot, terminando na Place de La Nation, onde os discursos finais foram feitos antes que os participantes se dispersassem de maneira pacífica. Essa praça, há pouco mais de dois séculos, é o mesmo local onde cidadãos franceses – tanto ricos quanto pobres — que se opunham ao recém-fundado regime tiveram que derramar seu sangue em prol da République. Dentre as vítimas havia um grupo considerável de freiras carmelitas.

Muitos conhecem a história (que foi tema de uma peça de Georges Bernanos e uma ópera de Francis Poulenc). No dia seguinte à Festa de Nossa Senhora do Monte Carmelo, 1794, dezesseis carmelitas de Compiègne subiram o patíbulo uma por uma, cantando o Veni Creator – o hino entoado em sua profissão religiosa, e foram decapitadas. O Tribunal Revolucionário havia produzido como prova de sua traição um gravura do Sacratíssimo Coração de Jesus, juntamente com a gravura de um dos reis depostos, que foram tiradas da parede do convento.

Quatro anos antes, a Assemblée Nationale havia exigido que a Ordem Carmelita justificasse a sua existência. Madre Nathalie de Jesus dirigiu-se à assembléia assim:

No mundo eles gostam de difundir que os mosteiros contêm somente vítimas lentamente consumidas por arrependimentos; mas proclamamos diante de Deus que se existir na terra a felicidade verdadeira, nós a possuímos na penumbra do santuário, e que, se tivéssemos que escolher entre o mundo e o claustro, nenhuma de nós deixaria de ratificar com grande alegria a sua primeira decisão.

A longa temporada penitencial para as Carmelitas começa na Festa da Exaltação da Santa Cruz e dura até a Páscoa. Em 1792, as freiras de Compiègne foram separadas e forçadas a deixar seu querido Carmelo e voltar ao mundo. Apenas poucos meses antes, elas haviam concordado juntas em oferecer-se como vítimas à justiça divina para restaurar a paz na França e na Igreja. Elas renovavam a sua oferta diariamente, continuando a se encontrar secretamente durante dois anos, vestidas como leigas e se reunindo para a oração em comum.

Elas foram descobertas em junho de 1794 e aprisionadas na Conciergerie, onde outros clérigos e religiosos aguardavam seu destino sob a lâmina da Madame La Guillotine. (Ironicamente, uma Carmelita de sangue real escapou à morte porque por acaso estava ausente; ela se tornou a primeira historiadora das mártires.) Em 17 de julho, um dia após a Festa de Nossa Senhora do Monte Carmelo, elas foram chamadas diante do tribunal e, na mesma cidade onde Santa Joana d’Arc três séculos antes havia sido abandonada e entregue ao inimigo, foram condenadas à morte.

A Reverenda Madre Émilienne, Superiora Geral das Irmãs da Caridade de Nevers, escreveu:

A mais jovem dessas boas Carmelitas foi chamada primeiro. Ela se ajoelhou diante de sua venerável Superiora, pediu sua benção e permissão para morrer. Em seguida, ela subiu ao patíbulo cantando Laudate Dominum omnes gentes [o salmo entoado por Santa Teresa de Ávila 190 anos antes na fundação do novo Carmelo]. Então, ela mesma colocou-se debaixo da lâmina. Todas as demais fizeram a mesma coisa. A Venerável Madre foi a última sacrificada. Durante o tempo todo, não havia um único rufar de tambores; mas reinava um silêncio profundo.

Outra testemunha disse que as freiras pareciam radiantes, como se elas estivessem indo para seus casamentos.

Dez dias mais tarde, Robespierre seria executado no mesmo local, e o governo revolucionário interino chegaria ao fim. O sacrifício das Carmelitas – juntamente com incontáveis outras pessoas assassinadas pela fé na França revolucionária – haviam ascendido como uma doce oblação a Deus.

Em 1906, o Papa São Pio X beatificou as mártires Carmelitas, cujos corpos foram sepultados em uma sepultura comunitária no Cimetière de Picpus, a 500 metros da Place de la Nation. Uma placa discreta na parede do cemitério lhes serve de epitáfio, e o nome de cada irmã morta pela Fé está gravado nela.

A história delas é apenas uma dentre muitas que ocorreram em toda a França durante o Reinado de Terror, quando uma república fundada nos altivos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade – livres de todas as amarras cristãs – inevitavelmente acabou esmagando a oposição indefesa sob os pés.

E hoje em dia vemos sinais perturbadores da Quinta República seguindo as pegadas da Primeira, estabelecendo um regime, em nome de uma “igualdade” criada pelo homem, que só pode acabar destruindo a civilização, ao destruir a família. E o fato mais perturbador ainda é que o governo tem se mostrado muito disposto a usar quaisquer meios políticos necessários – e se isso falhar, quaisquer meios físicos necessários – para impor a sua vontade.

Como de costume, os meios de comunicação em grande parte fazem vista grossa, comprovando que a bandeira tricolor segurada ao alto por Marianne* na famosa pintura de Delacroix – que serve como lema tripartite da república – hoje em dia é, como era naquela época, um pouco mais que propaganda.

Talvez se possa dizer – e talvez mais cedo do que possamos imaginar – que os mártires de ontem servirão de testemunha para os mártires de amanhã. E não somente na França.

Christine Niles diplomou-se pela Universidade de Oxford e pela Faculdade de Direito de Notre Dame. Ela é a apresentadora na Forward Boldly Radio, cujos episódios podem ser encontrados aqui.

 * * *

Nota da Tradutora: Marianne é a figura alegórica (uma mulher) que representa a República Francesa, sendo portanto uma personificação nacional. Sob a aparência de uma mulher usando um barrete frígio, Marianne encarna a República Francesa e representa a permanência dos valores da república e dos cidadãos franceses: Liberté, Égalité, Fraternité (Liberdade, Igualdade e Fraternidade). Marianne é a representação simbólica da mãe pátria, simultaneamente enérgica, guerreira, pacífica e protectora e maternal. O seu nome provém, provavelmente, da contracção de Marie e de Anne, dois nomes muito frequentes no século XVIII entre a população feminina do Reino de França. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Marianne

 

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2 Comentários to “Mártires do passado e do futuro?”

  1. Este artigo serve para comprovar que as teses revolucionárias criadas por assim dizer na França como a revolução francesa e a revolução de maio de 68, não são tão aceitas lá quanto parece a unanimidade mostrada pela propaganda dirigida pela maçonaria no Mundo.

    Aliás os revolucionários são em numero tão pequeno que se os bons não fossem tão songamongas tivessem um pouquinho da combatividade que os maus têm jamais estaríamos vivendo as desordens socialistas.

  2. Maravilhoso artigo!
    o video que o ilustra é soberbo! Excelente interpretação!