Cardeal Cañizares: Summorum Pontificum estabelece igualdade de condições entre as formas do Rito Romano.

Autoridade Litúrgica Suprema, em texto inovador, diz: - Summorum Pontificum prevê condição de igualdade para ambas as Formas

- As condições para a participação na Missa Tradicional são as mesmas da Missa nova

- e muito mais 

Por Rorate-Caeli | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com: Em 25 de julho de 2013, festa do Santo Padroeiro da Espanha, São Tiago o Grande, o Cardeal Cañizares Llovera, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, assinou o prefácio de uma obra notável, a tese de doutorado apresentada por seu confrade espanhol, o Padre Alberto Soria Jiménez, O.S.B., dedicada a uma profunda consideração canônica da natureza jurídica do motu proprio Summorum Pontificum, suas disposições relativas às formas e usos do Rito Romano, e a história que levou a ele.

Santa Cruz del Valle de los Caidos

Santa Cruz del Valle de los Caidos

O padre Soria é um monge da abadia de Santa Cruz do Vale dos Caídos (Santa Cruz del Valle de los Caídos), uma fundação de Solesmes perto da capital espanhola, e sua tese foi defendida e aprovada na Faculdade de Direito Canônico da Universidade de San Dámaso, a casa principal para a formação de sacerdotes e teólogos que pertence à Arquidiocese de Madri, em 29 de maio de 2013. A tese foi publicada há poucos dias pela editora espanhola Ediciones Cristiandad sob o título “Los principios de interpretación del motu proprio Summorum Pontificum”, razão pela qual só agora o texto do Cardeal se tornou disponível.

O prefácio do Cardeal Cañizares faz uma longa apresentação do livro e obviamente inclui muitas referências à própria obra – mas o que o torna particularmente especial é a profundidade da avaliação do Cardeal sobre o motu proprio e sua defesa (que sempre foi defendida por nós que apreciamos profundamente a natureza de Summorum Pontificum) de que aquilo que o motu proprio estabeleceu em lei não foi nada menos do que a igualdade jurídica de ambas as formas do Rito Romano. Trata-se de um texto inovador, e abaixo traduzimos os trechos mais importantes do original em espanhol.

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PREFÁCIO DO CARDEAL CAÑIZARES À TESE DE DOUTORADO DO PADRE ALBERTO SORIA JIMÉNEZ, O.S.B.

Cardeal Cañizares Llovera

Cardeal Cañizares Llovera

Estamos diante de um trabalho que aborda, em termos científicos, um tema que nos últimos anos tem sido objeto de controvérsias acirradas. Todavia, desde o início duas características de sua obra devem ser levadas em consideração: seu caráter acadêmico e a pertença do autor a uma comunidade fiel aos grandes princípios da liturgia, mas na qual a forma extraordinária do Rito Romano não é celebrada. Isso lhe permitiu observar a situação de fora”, tornando possível a grande objetividade refletida em sua pesquisa.

A concepção, claramente presente tanto no motu proprio como nos documentos relacionados, de que a liturgia herdada é uma riqueza a ser preservada deve ser entendida no espírito do movimento litúrgico na linha de Romano Guardini, a qual Bento XVI deve tanto de sua relação pessoal com a liturgia desde sua juventude. A história detalhada e documentada do processo, desde seu início nos anos 70 até os dias de hoje, que o autor dessa obra nos apresenta, mostra como essa legislação não foi um resultado momentâneo de pressão, nem uma reflexão da opinião pessoal e isolada do Papa, mas que outras pessoas haviam desejado por muito tempo uma solução semelhante. Esses critérios do jovem padre Joseph Ratzinger foram consolidados e purificados ao longo dos anos, e foram assumidos por João Paulo II, que havia considerado a possibilidade de oferecer uma legislação apropriada.

O clima entre os cardeais designados para refletir sobre esse tema era favorável [Nota do Rorate: referência à comissão de 1986 – cf a nossa postagem de 2007 sobre a revelação feita pelo Cardeal Castrillón Hoyos]. A comissão cardinalícia constituída por João Paulo II, na qual a influência do Cardeal Ratzinger era inegável, havia proposto, eliminar a impressão de que cada missal é o produto temporal de um época histórica, e havia afirmado que, as normas litúrgicas, não sendo verdadeira e propriamente ‘leis,’ não podem ser ab-rogadas, mas sub-rogadas: as precedentes nas subsequentes. A demonstração muito relevante, e que está presente nesta investigação, é que a atitude de Bento XVI não é tanto uma novidade ou mudança de direção, mas sim uma realização do que João Paulo II já havia empreendido — com iniciativas, como, por exemplo, a consulta da comissão cardinalícia, o motu proprio Ecclesia Dei e a criação da Comissão Pontifícia de mesmo nome, a missa do Cardeal Castrillón Hoyos em Santa Maria Maggiore, em 2003, ou as declarações do papa à Congregação para o Culto Divino naquele mesmo ano.

A história do processo revela que, desde o início, o desejo de preservar a forma tradicional da missa não se limitava aos integristas, mas que pessoas do mundo da cultura ou escritores, como, por exemplo, Agatha Christie e Jorge Luis Borges, assinaram uma carta solicitando a sua preservação, e que São Josemaría Escrivá fez uso de um indulto pessoal concedido espontaneamente pelo próprio Arcebispo Bugnini. Deve-se observar também a preocupação de Bento XVI em enfatizar que a Igreja não descarta o seu passado: ao declarar que o Missal de 1962, nunca foi juridicamente ab-rogado, ele tornou manifesta a coerência que a Igreja deseja manter. De fato, ela não pode se permitir negligenciar, esquecer ou renunciar aos tesouros e à rica herança da tradição do Rito Romano, porque a herança histórica da liturgia da Igreja não pode ser abandonada, nem tudo pode ser estabelecido ex novo sem a amputação das partes fundamentais da mesma Igreja.

Outro aspecto importante resulta da leitura da narrativa histórica em sua obra: os avanços que ocorreram ao longo desses anos em relação à sensibilidade pastoral por esses fiéis, a maior atenção às suas pessoas e a seu bem-estar espiritual. Na verdade, no princípio, a legislação era [nota do Rorate: Indulto Agatha Christie, indultos pessoais, Quattuor abhinc annos, Ecclesia Dei adflicta] muito limitada, levava em conta somente o mundo eclesiástico e praticamente ignorava os fiéis leigos, considerando que a primeira preocupação era disciplinar: controlar a possível desobediência à legislação recém-promulgada. Com o passar do tempo, a situação assumiu um aspecto mais pastoral, a fim de atender às necessidades desses fiéis, o que acaba se refletindo na forte mudança de tom da terminologia que está sendo usada: é assim que o problema dos padres e fiéis que permaneceram ligados ao chamado rito tridentino não é mais mencionado, mas sim a riqueza que a sua preservação representa.

Dessa forma, o que se criou foi uma situação análoga àquela que havia sido normal por tantos séculos, porque devemos recordar que São Pio V não havia proibido o uso das tradições litúrgicas que tivessem pelo menos 200 anos de idade. Muitas ordens religiosas e dioceses, portanto, preservaram o seu rito próprio; como Arcebispo de Toledo, pude viver essa realidade com o Rito Moçárabe. O motu proprio modificou a situação recente, ao deixar claro que a celebração da forma extraordinária deveria ser normal, eliminando toda restrição [todo condicionamiento] relativa ao número de fiéis interessados, e deixando de fixar outras condições para a participação na referida celebração além daquelas normalmente exigidas para qualquer celebração da missa, o que permitiu acesso amplo a essa herança que, enquanto por lei constitui um patrimônio espiritual de todos os fiéis, é, na verdade, ignorada por grande parte deles. Na verdade, as restrições atuais à celebração na forma extraordinária não diferem daquelas em vigor para qualquer outra celebração, seja qual for o rito. Aqueles que desejam ver, na distinção feita pelo motu proprio de cum e sine populo, uma restrição à forma extraordinária, esquecem que, com o missal promulgado por Paulo VI, a celebração cum populo sem autorização e anuência do pároco ou reitor da igreja também não é permitida.

Por outro lado, a possibilidade, expressamente contemplada no motu proprio, de que na celebração sine populo a presença espontânea de fiéis seja admitida sem obstáculos (uma expressão que havia causado mais do que uma observação irônica por parte dos críticos do documento) simplesmente possibilitou o fim das circunstâncias estranhas pelas quais, embora celebrada por um sacerdote em situação canônica completamente regular, esta missa permanecia fechada à participação dos fiéis simplesmente por causa da forma ritual utilizada, uma forma que por outro lado era plenamente reconhecida pela Igreja. A situação dos anos 70 — em que os sacerdotes que não podiam adotar o novo missal por motivos de saúde, idade, etc, foram condenados a nunca mais celebrar a Eucaristia com a comunidade, por menor que fosse — também foi evitada, o que seria visto, de acordo com a sensibilidade atual, como discriminatória. Por outro lado, a restrição deliberada da missa cum populo, limitando na prática a celebração da forma extraordinária sine populo, seria uma contradição às palavras e intenções da constituição conciliar: Sempre que os ritos comportam, segundo a natureza particular de cada um, uma celebração comunitária, caracterizada pela presença e activa participação dos fiéis, inculque-se que esta deve preferir-se, na medida do possível, à celebração individual e como que privada” (Sacrosanctum Concilium, 27).

É por essa razão que absolutamente não tem cabimento declarar que as prescrições do Summorum Pontificum deveriam ser consideradas como um ataque contra o concílio; uma afirmação desse tipo demonstra uma grande ignorância do próprio concílio, porque o fato de oferecer a todos os fiéis a chance de conhecer e apreciar a multiplicidade de tesouros da liturgia da Igreja é precisamente o que esta grande assembleia desejava ao declarar: “O sagrado Concílio, guarda fiel da tradição, declara que a santa mãe Igreja considera iguais em direito e honra todos os ritos legitimamente reconhecidos, quer que se mantenham e sejam por todos os meios promovidos” (Sacrosanctum Concilium, 4)

Outro aspecto para o qual essa obra que apresentamos chama a atenção, e que é imperativo que nunca se perca de vista, é a repercussão negativa que esses debates intra-eclesiais podem ter no campo do ecumenismo. Dentre a controvérsia, sempre se esquece que as críticas feitas contra o rito recebido da Tradição Romana também se aplicam a outras tradições, antes de tudo aos ortodoxos: quase todos os aspectos litúrgicos que aqueles que tem se oposto à preservação do missal antigo atacam fortemente são precisamente os aspectos que tínhamos em comum com a Tradição Oriental! Um sinal que confirma isso, por outro lado, são as expressões entusiasticamente positivas que chegaram do mundo ortodoxo com a publicação do motu proprio. Dessa maneira, esse documento torna-se um aspecto chave para a credibilidade do ecumenismo porque, de acordo com a expressão do presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, Cardeal Kurt Koch, na verdade, ele promove, se assim o pudermos chamar, um ‘ecumenismo intra-católico’. Consequentemente, poderíamos dizer que a premissa ut unum sint pressupõe o ut unum maneant, de modo que, como o referido Cardeal escreve, se o ecumenismo intra-católico falhou, a controvérsia católica sobre a liturgia também se estenderia ao ecumenismo.

Bento XVI demonstrou, com a sua legislação, o seu amor paternal e compreensão por aqueles que são especialmente ligados à tradição litúrgica romana e que se arriscaram a se tornar, de maneira permanente, eclesialmente marginalizados; é dessa maneira que, falando sobre o assunto, ele recordou claramente que, ninguém é demais na Igreja, demonstrando a sensibilidade que antecipou a preocupação do atual Papa Francisco pelas periferias existenciais. Todos esses fatos indubitavelmente apresentam um forte sinal para os irmãos separados.

Mas o motu proprio também produziu um fenômeno que para muitos é assustador e constitui um sinal verdadeiro dos tempos: o interesse que a forma extraordinária do Rito Romano suscita, em particular dentre os jovens que nunca a experimentaram como uma forma ordinária e que manifestam sede por linguagens que não são mais as mesmas e que nos impelem em direção a horizontes novos e, para muitos pastores, imprevistos. A abertura da riqueza litúrgica da Igreja a todos os fiéis tornou possível a descoberta de todos os tesouros deste patrimônio por aqueles que ainda os ignoravam, os quais sentem-se comovidos com essa forma litúrgica, mais do que nunca, numerosas vocações sacerdotais e religiosas no mundo todo, dispostas a dar suas vidas para o serviço da evangelização. Isso se refletiu de maneira concreta na peregrinação a Roma em novembro do ano passado [2012], em gratidão pelos cinco anos do motu proprio, que reuniu peregrinos de todo o mundo sob o sugestivo motto “Una cum Papa nostro” e que era, devido a sua grande exibição, sua grande participação, e, acima de tudo, devido ao espírito que inspirou seus participantes, uma confirmação mensurável de como esta legislação estava correta, o resultado de tantas décadas de amadurecimento.

A impressão mais forte deixada após a leitura desta obra é que a estrutura jurídica fundada pelo motu proprio não está fadada a ser uma resposta a um problema delimitado no tempo, mas está respaldada em princípios teológicos e litúrgicos permanentes, criando, assim, uma situação jurídica sólida e bem definida que torna a questão independente tanto das correntes de opinião como das decisões arbitrárias. Dessa maneira, enquanto para uns e outros o problema e o debate durante anos girou acerca de uma decisão sobre uma matéria que, no final das contas, era de natureza histórica, Bento XVI, acima do debate teórico, tentou enfatizar a necessidade de alcançar coerência teológica e, acima de tudo, obter um importante resultado pastoral.

Na verdade, se a partir de ambas as formas de celebração surgir claramente a unidade da fé e a singularidade do Mistério, isso somente pode ser motivo de profunda alegria e gratidão. Portanto, quanto melhor for vivida a liturgia, cada um em sua própria forma, com abertura de coração que supera exclusões e preconceitos, então será possível viver aquela unidade na fé, liberdade nos ritos, caridade em tudo.

Confiamos à Mãe de Deus o tempo da graça em que estamos vivendo. Ela irá nos conduzir ao Filho, em quem podemos confiar. Será Ele que irá nos conduzir, inclusive em tempos turbulentos, para que possamos redescobrir o caminho da fé e assim iluminar cada vez mais claramente a alegria e o entusiasmo renovado do encontro com Cristo. O presente livro do Pe. Alberto Soria, O.S.B., sem dúvida contribuirá para essa finalidade, uma grande obra de pesquisa que prestará um importante serviço à reconciliação litúrgica e, consequentemente, à nova evangelização, e para uma unidade que cresce a cada dia, real e eficaz, no seio da Igreja. Mais uma vez meus parabéns e minha grande gratidão ao autor por esta obra magnífica, um grande serviço que, ademais, é tão apropriado a um filho de São Bento.

Antonio Cañizares Llovera

Cardeal Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos

Roma, 25 de julho de 2013

São Tiago Apóstolo, Padroeiro da Espanha

3 Comentários to “Cardeal Cañizares: Summorum Pontificum estabelece igualdade de condições entre as formas do Rito Romano.”

  1. O Summorum Pontificum diz claramente que os dois ritos têm o mesmíssimo valor e que assim deve ser considerado por toda a Igreja.

  2. Eu me recuso terminantemente a aceitar a Missa Nova!

  3. Como pode ter o mesmo valor os dois ristos, quando o rito de Paulo VI tem sabor de heresia ??????