Rahner e uma época desromanizada da Igreja.

Por Sacerdos Romanus – Rorate-Caeli | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com – A estação de televisão canadense Salt and Light (Sal e Luz) decidiu usar a narração de uma terceira época na história da Igreja desenvolvida pelo famoso teólogo Karl Rahner, SJ (1904-1984) como uma forma de descrever o atual pontificado. Como o padre Thomas Rosica, C.S.B, diretor de Salt and Light e top oficial de língua inglesa da Secretaria de Imprensa da Santa Sé, coloca em uma entrevista com América:

Eu realmente acredito que, com a vinda do Papa Francisco, esta é a terceira época que Karl Rahner, falou em sua obra “As três grandes épocas da Igreja”. Em nosso recente documentário sobre o Papa Francisco em Sal e Luz, começamos toda a história com o ensaio agora épico de Rahner na qual ele fala sobre as três grandes épocas da história da igreja”. 

Pois bem, o ensaio ao qual Padre Rosica se refere é intitulado “Rumo a uma interpretação teológica Fundamental do Vaticano II”, e nele Rahner afirma que uma nova época da igreja começou com o Concílio Vaticano II.

 A implicação da observação de padre Rosica é que até o presente pontificado, a Igreja tinha sido impedida de entrar realmente na época inaugurada pelo Concílio. E, pelo menos, numa coisa ele disse a  verdade: a rejeição da idéia de Rahner pode ser visto como um dos principais temas do magistério do Papa Bento XVI.

Já muito antes do início do seu pontificado, Joseph Ratzinger havia se afastado e muito do seu amigo Rahner com relação a essa questão, a qual essencialmente diz respeito ao sentido ou significado da catolicidade da Igreja.

A idéia de Rahner de três épocas da Igreja tem antecedentes (por exemplo, em Joaquim de Fiore), mas a versão de Rahner é singular. Ele vê a primeira época como tendo sido o período muito curto de Cristianismo judaico antes da decisão do Apóstolo de não impor a circuncisão aos gentios. Rahner afirma que a decisão de não impor a lei judaica aos cristãos gentios gerou uma forma radicalmente diferente de Cristandade, uma forma mais apropriada às culturas greco-romanas. Dessa forma, essa segunda época da Igreja, gerou mudanças profundas que atingiam a doutrina moral, liturgia, etc.

Ele então argumenta que com o Concílio Vaticano II, uma nova era foi inaugurada, e que as mudanças que terão que ser implementadas para esta terceira era, terão talvez maior impacto do que as da primeira e segunda era. Nesta terceira era, a Igreja torna-se verdadeiramente uma Igreja mundial.

Ele acha que essa mudança começou como uma espécie de semente no Vaticano II, como um evento que reuniu Bispos de todas as culturas, com a abertura à liturgia em vernáculo (começando assim por desistir da tentativa de impor a cultura romana sobre os povos não-europeus), em sua afirmação dos elementos positivos em outras religiões do mundo etc.

Mas ele argumenta que o processo está apenas começando. Ele se pergunta como o Cristianismo poderá mudar em outras partes do mundo, se não for visto como ligado a noções greco-romano-judaica de lei, moralidade, ceremonial…etc. Será que membros de tribos africanas tem que aceitar a monogamia ou será que a sua forma de Cristianismo poderá incluir também a poligamia? ” Será que a Eucaristia, mesmo no Alasca tem que ser celebrada com vinho de uva”? Rahner deixa essas questões em aberto, mas sua idéia é que será necessário realizar uma “redução ou retorno à substância final e fundamental” do Cristianismo, a fim de que ele seja então adaptado a cada cultura. Essa idéia de que o Cristianismo pode ser “reduzido” a uma “substância fundamental” que é separável de determinadas culturas em particular é algo o Papa Bento XVI nunca cansou de refutar. No discurso de Regensburg, ele diz:

“O encontro entre a mensagem bíblica e o pensamento grego não aconteceu por acaso … o património grego, criticamente purificado, se tornou parte integrante da fé cristã”.

Ou seja, Deus se fez homem em uma cultura particular, em um momento particular por razões específicas e providenciais: os elementos da cultura Judaica, Grega e Romana que o Cristianismo integrou em seu próprio Magistério não são separáveis de sua essência porque são verdadeiros.

Os Padres da Igreja defenderam que Roma foi providencialmente preparada para ser a sede do Papa e que as idéias romanas de universalidade e direito foram uma preparação para a verdadeira universalidade Católica. E o Papa Bento XVI muitas vezes assumiu esse tema, por exemplo, no seu pronunciamento Regina Caeli:

“Roma indica o mundo dos pagãos e, portanto, todos os povos que estão fora do antigo povo de Deus. De fato, os Atos dos Apóstolos concluem com a chegada do Evangelho a Roma. Nesse caso, pode-se dizer que Roma é o nome concreto da Catolicidade e da Missionariedade, ela expressa a fidelidade às origens, à Igreja de todos os tempos, para uma Igreja que fala todas as línguas e se encontra com todas as culturas”.

Isso é exatamente o oposto da posição de Rahner. E esta oposição é baseada em uma compreensão muito diferente do que seja a Fé Cristã. Rahner não diz o que vem a ser essa “substância fundamental” do Cristianismo no ensaio sobre as três épocas, mas fica claro a partir de seus outros trabalhos que se trata de uma afirmação da humanidade como tal. Ratzinger certa vez resumiu a posição de Rahner da seguinte forma:

[Rahner afirma que] ser um cristão é aceitar sua própria existência incondicionalmente. Em última análise, portanto, é apenas o reflexo explícito do que significa ser humano. Em última análise, isso significa “que o Cristão não é tanto uma exceção entre os homens, mas simplesmente o homem como ele é.” (J. Ratzinger, Princípios de Teologia Católica:. Pedras de Construção da Teologia Fundamental, traduzido por Mary Frances McCarthy, San Francisco: Ignatius Press, 1987, 165-166).

Assim, ser um cristão é ser antes de mais nada autenticamente humano, mas uma vez que existem diferentes culturas humanas, deve haver diferentes formas da Igreja Cristã corresponder a cada uma delas.

Naturalmente que Ratzinger rejeita essa visão, pois o Cristianismo não é simplesmente o homem como ele é.

O principal ponto da fé tanto no Antigo como no Novo Testamento é que o homem é aquilo que ele deveria ser apenas pela conversão, ou seja, quando ele deixa de ser o que é. (Ratzinger, Princípios de Teologia Católica, 166)

Nossa convicção é de que a “terceira época” da Igreja é uma fantasia impossível de ser realizada, porque a natureza essencial da Igreja nunca poderá ser mudada. No entanto, a prevalência de uma ilusão dessa natureza entre o clero é susceptível de causar um grande dano.

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7 Comentários to “Rahner e uma época desromanizada da Igreja.”

  1. Texto belíssimo e muito instrutivo, que sintetiza bem a luta intestinal dentro da Igreja. Ratzinger foi e sempre será um dos maiores pensadores da Igreja pós-conciliar e Gercione está de parabéns.

  2. “Nossa convicção é de que a “terceira época” da Igreja é uma fantasia impossível de ser realizada, porque a natureza essencial da Igreja nunca poderá ser mudada. No entanto, a prevalência de uma ilusão dessa natureza entre o clero é susceptível de causar um grande dano.”

    Causar um grande dano?!

    O dano já está “causado” há 50 anos e a tendência é uma piora ainda maior!

  3. “E o Vaticano II, através da “teologia “ existencialista de Karl Rahnner, a alma negra do Concílio, admitiu as formulações existencialistas das quais decorreu a admissão da liberdade de religião e de consciência do Vaticano II”

    http://www.montfort.org.br/old/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=libanio_vii&lang=bra

  4. O que importa é viver na Igreja cujas bases foram fundadas na Pedra chamada Pedro. E está é a Católica Romana, mesmo minoritária. Pessoalmente acredito que no Brasil, excluindo os cnbbistas, que são cismáticos, somos apenas 2% da população.

  5. Eu já venho escrevendo isso há muito tempo no Fratres. Todos os novos teólogos e neo-modernistas cairão um a um, leve o tempo que levar. A história o prova que de geração em geração, apenas a ortodoxia prevalece. Tentam e tentaram mudar a doutrina e a disciplina da Igreja, mas o tempo passa e tudo escorre pelo ralo, permanecendo apenas aquilo que foi transmitido pela Tradição e pelo ensino constante dos Pontífices Romas. Mesmo na história recente há inúmeros exemplos: a negação dos demônios, mudança de termos sobre a eucaristia, o inferno vazio, o cristianismo anônimo… Tudo vai ficando pelo caminho…. Algumas batalhas foram vencidas, mas a Guerra – coitados dos modernistas – também será.

    Karl Rahner é um modernista radical. Ratzinger é um dos novos teólogos, que dentre tantos, na época de Pio XII foram censurados. Não sei se Ratzinger também foi. Não vem ao caso. Todos sabemos que ele fez parte da Nova Teologia, o neo-modernismo condenado por Pio XII.

    O que desejo dizer: É que a discussão na Igreja, há tempos, vem se dando entre ultra-modernistas e neo-teólogos moderados. Até acredito que Ratzinger tenha progredido, até que bastante, rumo a Ortodoxia. Mas os vícios dos neo-teólogos, ele continuava a manter como por exemplo a linguagem ambígua, as ações características dos Papas conciliares que se afastam da Tradição, como Assis, dentre outros pequenos vícios. O que não nega evidentemente que em seu Magistério haja muitas coisas que favoreçam os tradicionalistas, mas também, ao que me parece, também há muita coisa que favorecem os modernistas.

    É por isso que eu tinha a sensação que ele não conseguia agradar a ninguém. Pelo menos Francisco agrada aos modernistas – e só.

    Muita gente já explicou, agora não lembro o nome, da filosofia que Ratzinger seguia, onde se pegava duas sentenças opostas e se esforçava em se fazer uma síntese (prática nunca vista na Igreja). Quem puder explicar melhor, seria muito útil.

    Mas devemos levar em conta sua história na Igreja. É um homem que entrará para história. Basta citarmos apenas o Summorum Pontificum. Ponto! Horrorizou os modernistas e trouxe para ele um ódio diabólico jamais visto pela geração recente. Mas também como Prefeito do Santo Ofício, nos documentos sobre a vida humana e tudo que daí decorre. Documentos muito importantes na luta pela vida, que Francisco tentou desqualificar, dizendo que isso se tornara uma obsessão na Igreja.

    Enfim, mesmo Ratzinger sofrerá contestações no futuro e seu próprio magistério – suas encíclicas – não terá nenhuma sentença que entre num manual de teologia sério. Só aumentou a confusão a respeito da redenção, da esperança teologal, etc. Seus livros também sofrerão contestação. Os de São Tomás de Aquino sofreram, porque os de Ratzinger deveria ser uma unanimidade?
    ___________________

    Para concluir e o mais importante. Talvez seja por isso a intervenção nos Franciscanos da Imaculada:

    http://tvimmacolata.net/index.php?option=com_hwdvideoshare&task=viewcategory&Itemid=99&cat_id=50

    Karl Rahner uma análise crítica. Evidentemente no Pontificado de Bento XVI.

    Chegou Francisco, que nunca esquece, e em poucos meses… todos sabemos o que vem ocorrendo.

  6. Ah, já que no passado alguns ratzingerianos ficaram brabos comigo por contestar o ‘maior teólogo de todos os tempos, maior que todos os santos e santas…’ sim, isso foi dito por um ratzingeriano, mostro um exemplo de fraudulenta omissão num documento do Santo Ofício, escrito por Ratzinger.

    O documento é o Dominus Iesus.

    Aqui vai uma passagem final, mostrando o objetivo do documento:
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    “A presente Declaração, ao relembrar e esclarecer algumas verdades de fé, quis seguir o exemplo do Apóstolo Paulo aos fiéis de Corinto: « Pois eu transmiti-vos em primeiro lugar o mesmo que havia recebido » (1 Cor 15,3).”
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    Vejam que a presente declaração tinha como objetivo relembrar e esclarecer algumas verdades de fé…

    Mas vejam agora:
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    ” Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai. Com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos Profetas.”
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    Algum vê algum problema nessa passagem da Dominus Iesus?

    Não era objetivo da declaração relembrar e esclarecer algumas verdades de fé?

    A mais importante, a que envolve a Santíssima Trindade, ficou omitida no documento.

    Para quem não entendeu ainda a raiz do problema, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.

    Por razões ecumênicas e por manter os velhos hábitos de neo-teólogo, Ratzinger não se fez de rogado em ofender o Verbo de Deus.

    Espero que ele tenha, com o tempo, tomado noção da gravidade da omissão.

  7. Heresia, pura e simplesmente.