Arquivo para ‘CNBB’

28 março, 2014

Até quando, senhores da CNBB?

Por Percival Puggina – Sei que o texto transcrito a seguir parece escrito com o cotovelo, mas era preciso ser fiel ao trabalho de seus redatores. Trata-se de um trecho do documento Análise de Conjuntura, referente a março de 2014, preparado pela assessoria da CNBB para a 83ª reunião do Conselho Permanente da entidade, ocorrida entre os dias 11 e 13 deste mês em Brasília.

“Em análises anteriores da conjuntura econômica foi assinalado o discurso alarmista da imprensa e o alarmismo de analistas econômicos, não sem contradições na análise da realidade. Está bem presente um viés ideológico que perpassa todas as análises evidenciando um conluio entre a imprensa e os donos do dinheiro no país. O tom das análises reflete rancor, raiva e oposição ao governo atual, com parcialidade tal que perde o sentido de objetividade. A chave de leitura é uma oposição visceral do mundo financeiro e empresarial ao governo da presidente Dilma, ampliada com o horizonte das eleições em outubro deste ano.”

Por indicação de um leitor, retornei ao site da CNBB em busca desse documento. Havia onze anos que eu não perdia meu tempo lendo as análises mensais de conjuntura preparadas pela assessoria da CNBB. A entidade, na ocasião em que questionei o tom petista militante que caracterizava os textos, informou que os mesmos não eram “dela”, CNBB, mas elaborados “para ela”. Com tal afirmação, os senhores bispos supunham desobrigar-se de um volumoso conjunto de documentos que, estranhamente, levam o timbre e estão disponíveis no site da entidade que os congrega.

Entre minha visita anterior e esta, transcorreu toda uma década, mudou o mundo, mudou o Brasil, mas os assessores da CNBB continuam derramando seu fel ideológico sobre cada frase. A orientação persiste: defesa insistente do petismo e seus parceiros de aquém e de além mar. O texto acima, por exemplo, é parte de um trecho bem maior, dedicado à situação nacional. Ao longo dele algo, ao menos, fica bem claro: os peritos que socorrem a CNBB com sua visão da “conjuntura” já têm candidata a “presidenta” para 2014. O documento deve ter cerca de 5 mil palavras. De início, para desvendar sua eclesialidade, procurei ver quantas vezes apareciam nele a palavra Cristo e seus derivados. Usando o instrumento de busca, digitei as letras “crist” com o que abrangeria todos os vocábulos com essa raiz. Houve apenas três ocorrências. Pareceu-me pouco para um documento católico. Quando fui ver o que diziam do Mestre, descobri, não sem surpresa, que uma dessas referências tratava da senhora Cristina Kirchner, a outra do senador Cristovam Buarque. E a terceira mencionava as “milícias cristãs” que estariam sendo submetidas à lei de Talião na República Centro-Africana. Ou seja, do doce Nazareno, apesar de levar a assinatura de quatro padres, nada. Ni jota como diriam nossos vizinhos castelhanos. O texto ficaria muito bem num Congresso do PT ou numa reunião do Foro de São Paulo: apoio ao governo federal, à presidente Dilma, ambiguidade em relação à crise da Ucrânia e apoio a Maduro na crise venezuelana, onde sustentam os redatores que a oposição, sim, a oposição, estaria radicalizando.

Entre os quatro leigos que também subscrevem o documento incluem-se o secretário de Articulação Social da Chefia de Gabinete da Presidência da República (braço-direito do ministro Gilberto Carvalho) e o secretário de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do governador petista do Distrito Federal. Os outros dois leigos são membros da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, outro dos vários organismos da CNBB aparelhados pelo PT, como a Pastoral da Terra, as CEBs e a Pastoral da Juventude. Todos selecionados a dedo, portanto, para produzirem o que se lê. Esperavam o quê?

Não é com surpresa que faço estas constatações e escrevo estas linhas. A CNBB parece não se importar com as demasias praticadas sob o guarda-chuva de seu nome e logomarca, nem com sua instrumentalização para fins políticos e partidários. Pode chocar a você, leitor, saber que esse suposto desinteresse coloca a instituição a serviço de quem, inequivocamente, tem entre seus objetivos o de acabar com o pouco que ainda remanesce de valores cristãos e de presença da Igreja na sociedade brasileira. Mas isso não causa o menor constrangimento à CNBB.

Há muitos lobos no meio das ovelhas que lhes confiou o Senhor. Às avessas da recomendação evangélica, os mansos como as pombas não parecem ser prudentes como as serpentes. E os prudentes nada têm de mansos.

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* Percival Puggina (69) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site http://www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, membro do grupo Pensar+.

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26 março, 2014

Um CNBBista para a Diocese de Cornélio Procópio.

Triste Cornélio Procópio, PR: foi anunciada hoje a nomeação de Dom Manoel João Francisco, até agora bispo de Chapecó, SC, e presidente do insignificante e ridículo CONIC, como seu novo ordinário. O consolo, talvez, seja o fato de Dom Manoel ter apenas mais 7 anos de episcopado até alcançar a idade para aposentadoria.

Dom Manoel João Francisco e seus confrades de CONIC - Embora não seja possível distinguir quem é o bispo católico, trata-se do senhor do meio.

Dom Manoel João Francisco e seus confrades de CONIC – Embora não seja possível distinguir quem é o bispo católico, trata-se do senhor do meio.

Feitos de Sua Excelência:

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8 janeiro, 2014

Dom Manoel Pestana, 3 anos de falecimento.

Há 3 anos, falecia em Santos, SP, Dom Manoel Pestana Filho, bispo emérito de Anápolis, GO.

Tivemos a honra de realizar a última entrevista concedida por Dom Pestana, pouco mais de um mês antes de sua morte. Seu discurso em Roma, por ocasião de uma conferência sobre Fátima, em maio de 2010, traduzido e publicado por Fratres in Unum, é um dos posts mais importantes já publicado em nosso blog.

Que o Senhor conceda ao Brasil novos bispos como ele. Requiem aeternam dona ei, Domine; et lux perpetua luceat ei.

Apresentamos a seguir algumas de suas cartas sobre a atual situação da Igreja.

* * *

20 de janeiro de 1988 – Carta de Dom Pestana ao então presidente da CNBB, Dom Luciano Mendes de Almeida:

Dom Manoel Pestana Filho

Dom Manoel Pestana Filho

“Creio que já ultrapassamos os limites do tolerável. Nem mais seríamos canes non valentes latrare, responsáveis diante de Deus e da Igreja pelas inimagináveis consequências do nosso silêncio no meio do sofrido povo de Deus, se, estupidificados pelo engodo da ‘unidade’, continuássemos engolindo a infidelidade e apostasia que escorrem do alto. Não é apenas a fumaça de Satanás que entrou na Igreja, por alguma fenda oculta, como lamentava o Santo Padre Paulo VI: é, transpondo triunfalmente os portões, o diabo inteiro, presente nos mais altos postos, através de seus fiéis seguidores.

Um Cardeal, que depois de comunicar que nem tomaria conhecimento da passagem da imagem de Fátima pela sua Arquidiocese, pronuncia-se, na televisão, a favor da abolição do celibato eclesiástico – ou melhor, declara-o contra o direito – e defende o homossexualismo; a CNBB que assume oficialmente, para espanto dos Constituintes que ainda respeitam a Igreja, a posição do sinistro Frei Betto pela despenalização do aborto, como em vão propugnou Dom Cândido Padim em Itaici, na Comissão da Constituição e em plenário; a imposição prática de um texto da Campanha da Fraternidade, complementado pelo que a AEC, avançando ainda mais, preparou para os pobres colégios católicos, em que não sobra nem fraternidade nem fé; os cursos de lavagem cerebral para Bispos que, apenas transferidos de Itaici para o Embu, são agora apresentados como ‘cursos para bispos novos’ – e V. Exa. sabe muito bem quais são os seus organizadores e professores – TUDO ISSO claramente indica que o caminho que estamos seguindo não leva a Jerusalém nem muito menos a Roma: vai direto a Sodoma e Gomorra, que já não estão muito longe.

Revendo, para um curso de férias, as peripécias do Arianismo, Nestorianismo e Monofisitismo, pus-me a refletir no acerto de Franklin: ‘Não me importa o que hoje pensam de mim, mas o que dirão de mim daqui a cem anos’… E assusta-me a responsabilidade perante o presente e principalmente o futuro, que vamos alegre e levianamente assumindo”.

* * *

19 de fevereiro de 1988 – Nova carta de Dom Pestana a Dom Luciano:

“Agradecendo-lhe o envio de parabéns e a garantia de orações pelo aniversário de minha consagração episcopal, peço-lhe a caridade de ouvir-me ainda uma vez.

A situação eclesial brasileira se deteriora a olhos vistos, dia a dia. Lembra-me o espantoso processo de autodemolição de que falava Paulo VI. Um incrível masoquismo estéril e suicida, com graves danos para o Reino de Deus. O Sr. tem uma posição privilegiada nesse contexto. Pelo amor de Deus, pare um pouco. A velocidade embriaga. E há gente demais ligada ao seu desempenho.

Não se pode mais aceitar como conselheiros e mestres nas Assembleias da CNBB, muito menos como representantes da CNBB na Constituinte, tipos como Plínio da Arruda Sampaio, que vota pelo aborto e pelo divórcio; ou Hélio Bicudo que, conhecido por posições opostas aos princípios cristãos, ameaça de público levar o Papa ao Tribunal de Haia; ou outros confessadamente trotskistas (já os tivemos em Itaici), marxistas, etc, como, em livro, acaba de confirmar antigo assessor da Conferência.

Seria bem mais vantajoso desligar-me, acomodado, se a paralisia não fosse consciente e dolorosa. Veja nisto, desajeitada que pareça, a contribuição que posso oferecer para que a situação, que nos querem fazer irreversível, seja superada energicamente, enquanto é tempo.

Sei que muitos não creem em Fátima. Problema deles. Entretanto, o que vem acontecendo, ademais da atitude do Magistério eclesiástico autêntico, me leva a confiar, apreensivo, na Senhora da Mensagem, como chamou João Paulo II. E muita coisa diz respeito ao que agora se está vendo…”

* * *

11 de agosto de 2010 – Apelo de Dom Pestana aos bispos do Brasil

“Caros irmãos no Episcopado,

Suportem-me, que o menor dos irmãos lhes possa dirigir uma palavrinha amiga, mas angustiada de quem se prepara, temeroso, para partir.

Pelo amor de Deus! Estamos diante de uma situação humanamente irreversível. A América Latina, outrora “Continente da Esperança”, como a saudava João Paulo II, hoje mergulha na antecâmara do terrorismo vermelho, aliás, como prenunciava aos pastorinhos de Fátima a Senhora do Rosário.

Podem parecer, a essa altura, resquícios de uma idade de trevas, mas tudo acontece como se ouviu em dezembro de 1917 (“a Rússia comunista espalhará seus erros pelo mundo, com perseguições à Igreja, etc.”). Assusta-me a corrupção dentro da Igreja, o desmantelamento dos seminários, a maçonização de Cúrias e Movimentos.

Horroriza-me a frieza com que olhamos tal estado de coisas. Somos pastores ou cães voltados contra as ovelhas? Somos ou não, alem disso, cúmplices de uma política atéia empenhada em apagar os últimos traços da nossa vida cristã?

Perdoem-me, mas não poderia deixar de falar, sem me sentir infiel à minha consciência e à minha Igreja.

Parabéns a Dom Luiz Gonzaga Bergonzini e a Dom Henrique Soares da Costa”.

13 dezembro, 2013

“Ouso dizer: a Igreja nunca esteve tão bem como hoje” (II).

Idosos somam 80% na Vida Religiosa Consagrada do Brasil

Pesquisa revela que 80% dos consagrados e consagradas no Brasil atingiram a faixa de mais de 65 anos, o que significa dizer que a vida religiosa na atualidade é composta quase que totalmente de idosos e idosas.

RCR – Os dados foram apresentados pelo professor do Instituto de Filosofia Berthier, Iltomar Siviero, de Passo Fundo-RS, que desenvolveu o tema com cerca de 40 religiosos no curso sobre envelhecimento e missão, em Brasília, de 07 a 11 de outubro.

O curso sobre Vida Religiosa, envelhecimento e missão é uma iniciativa do Centro Cultural Missionário(CCM) e e o Instituto Superior de Filosofia Berthier (IFIBE) de Passo Fundo (RS).

Para o professor do Instituto de Filosofia Berthier, Iltomar Siviero, de Passo Fundo-RS, os desafios são vários, “primeiro as instituições tem que conhecer as realidades das quais estão vivendo neste momento. O grande desafio neste momento é que, em nível geral hoje a população do Brasil está com 12,1% de idosos. Sabe qual é a estatística das congregações hoje? Na discussão feita neste curso chegou em torno de 70 a 80%. Até em 2050 as projeções do IBGE e que se atinge até 30% da população de idosos no Brasil. As congregações hoje estão com 70 a 80% de seus membros com idade de pessoas idosas”.

Para o diretor do Centro Cultural, padre Estevão Raschietti, sx, o que motiva a realização de cursos como esse é o fato de que grande parte dos missionários e missionárias estão em fase de envelhecimento. “Vemos que o missionário quando está nessa etapa da vida precisa ressignificar o seu modo de viver a missão, pois ele não pode mais estar na vida ativa, ou realizando tantas atividades e ações missionárias que até então ele realizava; por isso é importante compreender a missão nessa fase, para que ele continue em comunhão com a missão da Igreja e possa viver feliz”, explicou.

* * *

Leia também:

“Ouso dizer: a Igreja nunca esteve tão bem como hoje” - Oficial da cúria: mais de 3000 religiosos deixam a vida consagrada a cada ano

Sobre o título do post, ver aqui.

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23 outubro, 2013

Nomeado novo bispo de Franca, SP: Dom Paulo Roberto Beloto.

Acaba de ser anunciada a nomeação de Dom Paulo Roberto Beloto, até então bispo de Formosa, GO, como novo bispo de Franca, SP. Os amigos goianos poderão informar, na caixa de comentários, qual o perfil do senhor bispo.

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14 outubro, 2013

CNBB, 61 anos.

Parabéns pra você?

Parabéns pra você?

Hoje a CNBB completa 61 anos de “missão”! Você, caro fiel, deixe seus votos para tão egrégia entidade na caixa de comentários…

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2 outubro, 2013

Apelo a Dom Walmor, Arcebispo de Belo Horizonte, para evitar evento pró-aborto em faculdade Jesuíta.

Prof. Hermes Rodrigues Nery (da Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da CNBB) exorta os fiéis leigos e religiosos a cobrarem das autoridades eclesiásticas a identidade católica das instituições ditas católicas:

 

Veja do que se trata nesta reportagem feita por Pedro Canísio de Alcântara:

25 setembro, 2013

Bispo de Campos em plena comunhão com a Teologia da Libertação.

Coluna de Dom Roberto Ferreria Paz, bispo diocesano de Campos, RJ, cidadão planetário, ativista do direito dos bosques e dos animaisarauto junto ao MST da “família humana sem fronteiras” e cujo diretório litúrgico deve ter sido redigido pela ONU — suas colunas semanais quase sempre repercutem a agenda dessa entidade maçônica, comemorando grandiosíssimas festas como o dia internacional da Alfabetização, o dia internacional dos Desaparecidos, etc. Ele, que vibrou com o “Flash Movíe” (?!) dos bispos na JMJ e amiúde cita artistas e filósofos modernos com toda pompa e eloquência, no alto de sua requintada cultura, agora desfralda a bandeira da Teologia da Libertação.

Revistando a Teologia da Libertação

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo de Campos (RJ)

Dom Roberto Ferreria Paz

Surpreendeu a muitos que o Papa Francisco celebrasse a Missa no dia 11 de setembro de 2013, na Capela Santa Marta com a presença de Dom Gerhard Muller, Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé e o seu amigo o sacerdote peruano Gustavo Gutierrez, fundador da Teologia da Libertação.

Para alguns a Teologia da Libertação beira a heresia, é uma corrente teológica refém da ideologia marxista e inocente útil do comunismo. No entanto não é assim que a vê a Igreja. As duas instruções sucessivas e complementares da Congregação da Doutrina da Fé, redigidas pelo então Prefeito o Cardeal Ratzinger, apontam para desvios ou riscos de desvios, mas de maneira alguma dá uma sentença condenatória a esta corrente teológica, que como se pode analisar tem várias nuanças e tendências e sem dúvida muitas contribuições, que o próprio Cardeal Ratzinger reconhece na segunda instrução Libertatis Conscientia como são nomeadamente: a denuncia da idolatria, a opção preferencial pelos pobres, a articulação da teologia com a evangelização encarnada dos pobres e a sua libertação, a ligação da evangelização com a promoção humana integral e a luta pela justiça, fazendo acontecer estruturas mais plenamente humanas.

O Documento de Puebla recolheu a reflexão e a produção mais integrada das Igrejas Particulares da América Latina, fortalecendo e dinamizando uma pastoral libertadora alicerçada no eixo comunhão e participação, o resgate da cultura e religiosidade popular e seu potencial evangelizador, a denuncia das ideologias idolátricas do capital e do estado, como a da segurança nacional.

A teologia da libertação gerou também uma antropologia, uma filosofia e uma ética, focalizando a alteridade do ser humano, a analética face a dialética nos relacionamentos sociais e culturais, o amor agápico ou fraternura, a política e a economia de comunhão, termos e conceitos do pensador Enrique Dussel. O Papa João Paulo II afirmou que uma verdadeira Teologia da Libertação não só era possível quanto necessária.

E como vimos o Papa Bento XVI nomeou o atual Prefeito da Congregação da Fé Dom Gerhard Muller que conheceu in loco no meio dos índios e camponeses a vivência e a prática da Teologia da Libertação testemunhada com autenticidade pelo seu amigo o Pe. Gustavo Gutierrez. Deus seja louvado!

13 setembro, 2013

Até quando os bispos apoiarão o “Sussurro dos Possuídos”?

Eles estão sempre se superando. No ano passado, eram mil participantes. Neste ano, dos 120 mil que visitaram o Santuário Nacional de Aparecida no último final de semana, uma vultosa massa de… oitocentos gatos-pingados se uniram para gritar fazer uns ruídos por igualdade (entenda-se comunismo), direito das minorias (entenda-se gayzismo), reforma agrária (entenda-se o pecado contra o sétimo mandamento), direito das mulheres (entenda-se a liberação do aborto), etc, etc, etc. E os ocupantes de postos importantes na Igreja, que vivem numa eterna década de 70, insistem. Por exemplo, o Cardeal Raymundo Damasceno Assis, ao mesmo tempo em que se intromete em assuntos que não são de sua  alçadaafirma:

Miado dos excluídos em Aparecida: "Bem vindos médicos cubanos!"

Miado dos excluídos em Aparecida: “Bem vindos médicos cubanos!”

“A Igreja apoia manifestações como o Grito dos Excluídos, porque acredita que a igreja muitas vezes se faz a única voz dos excluídos. Nos incluímos como um instrumento em defesa dessas minorias.”

Também Dom Odilo Pedro Scherer, Cardeal Arcebispo de São Paulo, se uniu a essa patifaria, embora colha amargos frutos  de anos de libertinagem esquerdista na PUC-SP.

Missa de Dom Odilo na Catedral da Sé em São Paulo.

Missa de Dom Odilo na Catedral da Sé em São Paulo. Créditos da imagem: https://www.facebook.com/DomAntonioDeCastroMayer

Uma leitora relata o “Grito” em Congonhas, MG, Arquidiocese de Mariana — cujo Arcebispo é o antecessor de Dom Raymundo Damasceno na presidência da CNBB, Dom Geraldo Lyrio Rocha:

‹‹ O evento estava cheio de militantes do PSTU, do PT, de feministas e até de grupos estudantis pró-gayzismo bradando pelo “fim da homofobia”… Durante o evento, houve protestos contra o “capetalismo” (é assim que eles chamam o sistema que nos garante liberdade e prosperidade), brados contra a “homofobia” (ou seja, o movimento gayzista se fez representar neste evento pseudo-católico), músicas carnavalescas que nem de longe lembravam oração e penitência (que foi o que o papa pediu que fizéssemos neste dia) e presença de militantes feministas (não sei se abortistas ou não, mas a camisa roxa que usavam era parecida com a da Marcha Mundial de Mulheres, que são abortistas irredutíveis). Além disso, não faltaram membros de partidos anticristãos e totalitários de esquerda ››.

Quando acordarão os bispos do Brasil?

27 julho, 2013

Papa aos Bispos do Brasil: Lições de Aparecida. Aplicação “com originalidade” do Vaticano II, superando “doenças infantis” (Teologia da Libertação?). Ir atrás dos que, iludidos, abandonam a Igreja. CNBB: não é suficiente a burocracia central.

Queridos Irmãos!

Como é bom e agradável encontrar-me aqui com vocês, Bispos do Brasil! Obrigado por terem vindo, e permitam que lhes fale como amigos, pelo que prefiro usar o castelhano, para poder expressar melhor aquilo que levo no coração.

Peço-lhes que me perdoem!

Retiramo-nos um pouco, neste lugar preparado por nosso irmão Dom Orani, para estar sozinhos e poder falar de coração a coração como Pastores a quem Deus confiou o seu Rebanho. Nas ruas do Rio, jovens de todo o mundo e muitas outras multidões estão esperando por nós, necessitados de serem envolvidos pelo olhar misericordioso de Cristo Bom Pastor, que nós somos chamados a tornar presente. Por isso, gozemos deste momento de descanso, de partilha, de verdadeira fraternidade.

Começando pela Presidência da Conferência Episcopal e do Arcebispo do Rio de Janeiro, quero abraçar a todos e cada um, especialmente aos Bispos eméritos. Mais do que um discurso formal, quero compartilhar algumas reflexões com vocês. A primeira veio à minha mente, quando visitei o Santuário de Aparecida. Lá, ao pé da imagem da Imaculada Conceição, eu rezei por vocês, por suas Igrejas, por seus presbíteros, religiosos e religiosas, por seus seminaristas, pelos leigos e as suas famílias, em particular pelos jovens e os idosos, já que ambos constituem a esperança de um povo: os jovens, porque eles carregam a força, o sonho, a esperança do futuro, e os idosos, porque eles são a memória, a sabedoria de um povo.1

Aparecida: chave de leitura para a missão da Igreja. Em Aparecida, Deus ofereceu ao Brasil a sua própria Mãe. Mas, em Aparecida, Deus deu também uma lição sobre Si mesmo, sobre o seu modo de ser e agir. Uma lição sobre a humildade que pertence a Deus como um traço essencial: ela está no DNA de Deus. Há algo de perene para aprender sobre Deus e sobre a Igreja, em Aparecida; um ensinamento, que nem a Igreja no Brasil nem o próprio Brasil devem esquecer.

No início do evento que é Aparecida, está a busca dos pescadores pobres. Tanta fome e poucos recursos. As pessoas sempre precisam de pão. Os homens partem sempre das suas carências, mesmo hoje. Possuem um barco frágil, inadequado; têm redes decadentes, talvez mesmo danificadas, insuficientes. Primeiro, há a labuta, talvez o cansaço, pela pesca, mas o resultado é escasso: um falimento, um insucesso. Apesar dos esforços, as redes estão vazias.

Depois, quando foi da vontade de Deus, comparece Ele mesmo no seu Mistério. As águas são profundas e, todavia, encerram sempre a possibilidade de Deus; e Ele chegou de surpresa, quando talvez já não fosse esperado. A paciência dos que esperam por Ele é sempre posta à prova. E Deus chegou de uma maneira nova, porque sempre pode Se reinventar: uma imagem de barro frágil, escurecida pelas águas do rio, envelhecida também pelo tempo. Deus entra sempre nas vestes da pequenez.

Veem então a imagem da Imaculada Conceição. Primeiro o corpo, depois a cabeça, em seguida a unificação de corpo e cabeça: a unidade. Aquilo que estava quebrado retoma a unidade. O Brasil colonial estava dividido pelo muro vergonhoso da escravatura. Nossa Senhora Aparecida se apresenta com a face negra, primeiro dividida mas depois unida, nas mãos dos pescadores.

Há um ensinamento perene que Deus quer oferecer. Sua beleza refletida na Mãe, concebida sem pecado original, emerge da obscuridade do rio. Em Aparecida, logo desde o início, Deus dá uma mensagem de recomposição do que está fraturado, de compactação do que está dividido. Muros, abismos, distâncias ainda hoje existentes estão destinados a desaparecer. A Igreja não pode descurar esta lição: ser instrumento de reconciliação.

Os pescadores não desprezam o mistério encontrado no rio, embora seja um mistério que aparece incompleto. Não jogam fora os pedaços do mistério. Esperam a plenitude. E esta não demora a chegar. Há aqui algo de sabedoria que devemos aprender. Há pedaços de um mistério, como ladrilhos de um mosaico, que encontramos e vemos. Nós queremos ver muito rápido a totalidade e Deus, pelo contrário, Se faz ver pouco a pouco. Também a Igreja deve aprender esta expectativa.

Depois, os pescadores trazem para casa o mistério. O povo simples tem sempre espaço para albergar o mistério. Talvez nós tenhamos reduzido a nossa exposição do mistério a uma explicação racional; no povo, pelo contrário, o mistério entra pelo coração. Na casa dos pobres, Deus encontra sempre lugar.

Os pescadores agasalham: revestem o mistério da Virgem pescada, como se Ela tivesse frio e precisasse ser aquecida. Deus pede para ficar abrigado na parte mais quente de nós mesmos: o coração. Depois é Deus que irradia o calor de que precisamos, mas primeiro entra com o subterfúgio de quem mendiga. Os pescadores cobrem o mistério da Virgem com o manto pobre da sua fé. Chamam os vizinhos para verem a beleza encontrada; eles se reúnem à volta dela; contam as suas penas em sua presença e lhe confiam as suas causas. Permitem assim que possam implementar-se as intenções de Deus: uma graça, depois a outra; uma graça que abre para outra; uma graça que prepara outra. Gradualmente Deus vai desdobrando a humildade misteriosa de sua força.

Há muito para aprender nessa atitude dos pescadores. Uma Igreja que dá espaço ao mistério de Deus; uma Igreja que alberga de tal modo em si mesma esse mistério, que ele possa encantar as pessoas, atraí-las. Somente a beleza de Deus pode atrair. O caminho de Deus é o encanto, a fascinação. Deus faz-se levar para casa. Ele desperta no homem o desejo de guardá-lo em sua própria vida, na própria casa, em seu coração. Ele desperta em nós o desejo de chamar os vizinhos, para dar-lhes a conhecer a sua beleza. A missão nasce precisamente dessa fascinação divina, dessa maravilha do encontro. Falamos de missão, de Igreja missionária. Penso nos pescadores que chamam seus vizinhos para verem o mistério da Virgem. Sem a simplicidade do seu comportamento, a nossa missão está fadada ao fracasso.

A Igreja tem sempre a necessidade urgente de não desaprender a lição de Aparecida; não a pode esquecer. As redes da Igreja são frágeis, talvez remendadas; a barca da Igreja não tem a força dos grandes transatlânticos que cruzam os oceanos. E, contudo, Deus quer se manifestar justamente através dos nossos meios, meios pobres, porque é sempre Ele que está agindo.

Queridos irmãos, o resultado do trabalho pastoral não assenta na riqueza dos recursos, mas na criatividade do amor. Servem certamente a tenacidade, a fadiga, o trabalho, o planejamento, a organização, mas, antes de tudo, você deve saber que a força da Igreja não reside nela própria, mas se esconde nas águas profundas de Deus, nas quais ela é chamada a lançar as redes.

Outra lição que a Igreja deve sempre lembrar é que não pode afastar-se da simplicidade; caso contrário, desaprende a linguagem do Mistério. E não só ela fica fora da porta do Mistério, mas não consegue sequer entrar naqueles que pretendem da Igreja aquilo que não podem dar-se por si mesmos: o próprio Deus. Às vezes, perdemos aqueles que não nos entendem, porque desaprendemos a simplicidade, inclusive importando de fora uma racionalidade alheia ao nosso povo. Sem a gramática da simplicidade, a Igreja se priva das condições que tornam possível «pescar» Deus nas águas profundas do seu Mistério.

Uma última lembrança: Aparecida surgiu em um lugar de cruzamento. A estrada que ligava Rio, a capital, com São Paulo, a província empreendedora que estava nascendo, e Minas Gerais, as minas muito cobiçadas pelas cortes europeias: uma “encruzilhada” do Brasil colonial. Deus aparece nos cruzamentos. A Igreja no Brasil não pode esquecer esta vocação inscrita em si mesma desde a sua primeira respiração: ser capaz de sístole e diástole, de recolher e divulgar.

Apreço pelo percurso da Igreja no Brasil

Os Bispos de Roma tiveram sempre o Brasil e sua Igreja em seu coração. Um maravilhoso percurso foi realizado. Passou-se das 12 dioceses durante o Concílio Vaticano I para as atuais 275 circunscrições. Não teve início a expansão de uma parato governamental ou de uma empresa, mas sim o dinamismo dos «cinco pães e dois peixes» – de que fala o Evangelho – que, entrando em contato com a bondade do Pai, em mãos calejadas, tornaram-se fecundos.

Hoje, queria agradecer o trabalho sem parcimônia de vocês, Pastores, em suas Igrejas. Penso nos Bispos nas florestas, subindo e descendo os rios, nas regiões semiáridas, no Pantanal, na pampa, nas selvas urbanas das megalópoles. Amem sempre, com total dedicação, o seu rebanho! Mas penso também em tantos nomes e tantas faces, que deixaram marcas indeléveis no caminho da Igreja no Brasil, fazendo palpar com a mão a grande bondade de Deus por esta Igreja 2.

Os Bispos de Roma nunca lhes deixaram sós; seguiram de perto, encorajaram, acompanharam. Nas últimas décadas, o Beato João XXIII convidou com insistência os Bispos brasileiros a prepararem o seu primeiro plano pastoral e, daquele início, cresceu uma verdadeira tradição pastoral no Brasil, que fez com que a Igreja não fosse um transatlântico à deriva, mas tivesse sempre uma bússola. O Servo de Deus Paulo VI, para além de encorajar a recepção do Concílio Vaticano II, com fidelidade mas também com traços originais (veja-se a Assembleia Geral do CELAM, em Medellín), influiu decisivamente sobre a autoconsciência da Igreja no Brasil através do Sínodo sobre a evangelização e daquele texto que continua referência fundamental: a Exortação apostólica Evangelii nuntiandi. O Beato João Paulo II visitou o Brasil três vezes, percorrendo-o de cabo a rabo, de norte a sul, insistindo sobre a missão pastoral da Igreja, a comunhão e participação, a preparação do Grande Jubileu, a nova evangelização. Bento XVI escolheu Aparecida para realizar a V Assembleia Geral do CELAM e isso deixou uma grande marca na Igreja de todo o Continente.

A Igreja no Brasil recebeu e aplicou com originalidade o Concílio Vaticano II e o percurso realizado, embora tenha tido de superar determinadas doenças infantis, levou a uma Igreja gradualmente mais madura, aberta, generosa, missionária.

Hoje estamos em um novo momento. Segundo a feliz expressão do Documento de Aparecida, não é uma época de mudança, mas uma mudança de época. Sendo assim, hoje é cada vez mais urgente nos perguntarmos: O que Deus pede a nós? A esta pergunta, queria tentar oferecer qualquer linha de resposta.

O ícone de Emaús como chave de leitura do presente e do futuro

Antes de mais nada, não devemos ceder ao medo, de que falava o Beato John Henry Newman: «O mundo cristão está gradualmente se tornando estéril, e esgota-se como uma terra profundamente explorada que se torna areia».3 Não devemos ceder ao desencanto, ao desânimo, às lamentações. Nós trabalhamos duro e, às vezes, nos parece acabar derrotados, como quem tivesse de fazer o balanço de uma estação já perdida, olhando para aqueles que nos deixam ou já não nos consideram credíveis, relevantes.

Vamos ler a esta luz, mais uma vez, o episódio de Emaús (cf. Lc 24, 13-15). Os dois discípulos escapam de Jerusalém. Eles se afastam da «nudez» de Deus. Estão escandalizados com o falimento do Messias, em quem haviam esperado e que agora aparece irremediavelmente derrotado, humilhado, mesmo após o terceiro dia (cf. vv. 17-21). O mistério difícil das pessoas que abandonam a Igreja; de pessoas que, após deixar-se iludir por outras propostas, consideram que a Igreja – a sua Jerusalém – nada mais possa lhes oferecer de significativo e importante. E assim seguem pelo caminho sozinhos, com a sua desilusão. Talvez a Igreja lhes apareça demasiado frágil, talvez demasiado longe das suas necessidades, talvez demasiado pobre para dar resposta às suas inquietações, talvez demasiado fria para com elas, talvez demasiado autoreferencial, talvez prisioneira da própria linguagem rígida, talvez lhes pareça que o mundo fez da Igreja uma relíquia do passado, insuficiente para as novas questões; talvez a Igreja tenha respostas para a infância do homem, mas não para a sua idade adulta. 4 O fato é que hoje há muitos que são como os dois discípulos de Emaús; e não apenas aqueles que buscam respostas nos novos e difusos grupos religiosos, mas também aqueles que parecem já viver sem Deus tanto em teoria como na prática.

Perante esta situação, o que fazer?

Serve uma Igreja que, na sua noite, não tenha medo de sair. Serve uma Igreja capaz de interceptar o caminho deles. Serve uma Igreja capaz de inserir-se na sua conversa. Serve uma Igreja que saiba dialogar com aqueles discípulos, que, fugindo de Jerusalém, vagam sem meta, sozinhos, com o seu próprio desencanto, com a desilusão de um cristianismo considerado hoje um terreno estéril, infecundo, incapaz de gerar sentido. A globalização implacável, a urbanização frequentemente selvagem prometeram muito. Muitos se enamoraram das potencialidades da globalização e, nela, existe algo de verdadeiramente positivo. Mas, a muitos, escapa o lado obscuro: o extravio do sentido da vida, a desintegração pessoal, a perda da experiência de pertencer a um «ninho» seja ele qual for, a violência sutil mas implacável, a ruptura interior e a fratura nas famílias, a solidão e o abandono, as divisões e a incapacidade de amar, de perdoar, de compreender, o veneno interior que torna a vida um inferno, a necessidade da ternura porque nos sentimos tão inadaptados e infelizes, as tentativas frustradas de encontrar respostas na drogas, no álcool, no sexo que se tornam novas prisões.

E muitos buscaram atalhos, porque se apresenta demasiado alta a «medida» da Grande Igreja. Muitos pensaram: a ideia de homem é grande demais para mim, o ideal de vida que propõe está fora das minhas possibilidades, a meta a alcançar é inatingível, longe do meu alcance. Todavia – continuaram eles – eu não posso viver sem ter pelo menos alguma coisa, nem que seja uma caricatura, daquilo que é demasiado elevado para mim, daquilo que não posso me permitir. Com a desilusão no coração, eles foram à procura de alguém que lhes iludirá uma vez mais.

A grande sensação de abandono e solidão, de não pertencerem sequer a si mesmos que muitas vezes surge dessa situação, é dolorosa demais para ser silenciada. Há necessidade de desabafar, restando-lhes então a via da lamentação: Como é que chegamos a esse ponto? Mas a própria lamentação torna-se, por sua vez, como um bumerangue que regressa e acaba aumentando a infelicidade. Ainda poucas pessoas são capazes de ouvir a dor: é preciso pelo menos anestesiá-lo.

Hoje, serve uma Igreja capaz de fazer companhia, de ir para além da simples escuta; uma Igreja, que acompanha o caminho pondo-se em viagem com as pessoas; uma Igreja capaz de decifrar a noite contida na fuga de tantos irmãos e irmãs de Jerusalém; uma Igreja que se dê conta de como as razões, pelas quais há quem se afaste, contém já em si mesmas também as razões para um possível retorno, mas é necessário saber a totalidade com coragem.

Eu gostaria que hoje nos perguntássemos todos: Somos ainda uma Igreja capaz de aquecer o coração? Uma Igreja capaz de reconduzir a Jerusalém? Capaz de acompanhar de novo a casa? Em Jerusalém, residem as nossas fontes: Escritura, Catequese, Sacramentos, Comunidade, amizade do Senhor, Maria e os Apóstolos… Somos ainda capazes de contar de tal modo essas fontes, que despertem o encanto pela sua beleza?

Muitos se foram, porque lhes foi prometido algo de mais alto, algo de mais forte, algo de mais rápido. Mas haverá algo de mais alto que o amor revelado em Jerusalém? Nada é mais alto do que o abaixamento da Cruz, porque lá se atinge verdadeiramente a altura do amor! Somos ainda capazes de mostrar esta verdade para aqueles que pensam que a verdadeira altura da vida esteja em outro lugar?

Porventura se conhece algo de mais forte que a força escondida na fragilidade do amor, do bem, da verdade, da beleza?

A busca do que é cada vez mais rápido atrai o homem de hoje: internet rápida, carros velozes, aviões rápidos, relatórios rápidos… E, todavia, se sente uma necessidade desesperada de calma, quero dizer de lentidão. A Igreja sabe ainda ser lenta: no tempo para ouvir, na paciência para costurar novamente e reconstruir? Ou a própria Igreja já se deixa arrastar pelo frenesi da eficiência? Recuperemos, queridos Irmãos, a calma de saber sintonizar o passo com as possibilidades dos peregrinos, com os seus ritmos de caminhada, recuperemos a capacidade de estar lhes sempre perto para permitir a eles abrirem uma brecha no desencanto que existe nos corações, para que possam entrar. Eles querem esquecer Jerusalém onde residem as suas fontes, mas assim acabarão por sentir sede. Serve uma Igreja ainda capaz de acompanhar o regresso a Jerusalém! Uma Igreja, que seja capaz de fazer descobrir as coisas gloriosas e estupendas que se dizem de Jerusalém, de fazer entender que ela é minha Mãe, nossa Mãe, e não somos órfãos! Nela nascemos. Onde está a nossa Jerusalém em que nascemos? No Batismo, no primeiro encontro de amor, na chamada, na vocação!5

Serve uma Igreja capaz ainda de devolver a cidadania a muitos de seus filhos que caminham como em um êxodo.

Os desafios da Igreja no Brasil

À luz do que eu disse, quero sublinhar alguns desafios da amada Igreja que está no Brasil.

A prioridade da formação: Bispos, sacerdotes, religiosos, leigos Queridos irmãos, senão formarmos ministros capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de dialogarem com as suas ilusões e desilusões, de recompor as suas desintegrações, o que poderemos esperar para o caminho presente e futuro? Não é verdade que Deus se tenha obscurecido nelas. Aprendamos a olhar mais profundamente: falta quem lhes aqueça o coração, como sucedeu com os discípulos de Emaús (cf. Lc 24,32).

Por isso, é importante promover e cuidar uma formação qualificada que crie pessoas capazes de descer na noite sem ser invadidas pela escuridão e perder-se; capazes de ouvir a ilusão de muitos, sem se deixar seduzir; capazes de acolher as desilusões, sem desesperar-se nem precipitar na margura; capazes de tocar a desintegração alheia, sem se deixar dissolver e decompor na sua própria identidade.

Serve uma solidez humana, cultural, afetiva, espiritual, doutrinal.6 Queridos Irmãos no Episcopado, é preciso ter a coragem de uma revisão profunda das estruturas de formação e preparação do clero e do laicato da Igreja que está no Brasil. Não é suficiente uma vaga prioridade da formação, nem documentos ou encontros. Serve a sabedoria prática de levantar estruturas duradouras de preparação em âmbito local, regional, nacional e que sejam o verdadeiro coração para o Episcopado, sem poupar forças, solicitude e assistência. A situação atual exige uma formação qualificada em todos os níveis. Vocês, Bispos, não podem delegar este dever, mas assumi-lo como algo de fundamental para o caminho das suas Igrejas.

Colegialidade e solidariedade da Conferência Episcopal

Para a Igreja no Brasil, não basta um líder nacional; serve uma rede de «testemunhos» regionais, que, falando a mesma linguagem, assegurem em todos os lugares, não a unanimidade, mas a verdadeira unidade na riqueza da diversidade.

A comunhão é uma teia que deve ser tecida com paciência e perseverança, que vai gradualmente «aproximando os pontos» para permitir uma cobertura cada vez mais ampla e densa. Um cobertor só com poucos fios de lã não aquece.

É importante lembrar Aparecida, o método de congregar a diversidade; não tanto a diversidade de ideias para produzir um documento, mas a variedade de experiências de Deus para pôr em movimento uma dinâmica vital.

Os discípulos de Emaús voltaram para Jerusalém, contando a experiência que tinham feito no encontro com o Cristo Ressuscitado. E lá tomaram conhecimento das outras manifestações do Senhor e das experiências dos seus irmãos. A Conferência Episcopal é justamente o espaço vital para permitir tal permuta de testemunhos sobre os encontros com o Ressuscitado, no norte, no sul, no oeste… Serve, pois, uma progressiva valorização do elemento local e regional. Não é suficiente a burocracia central, mas é preciso fazer crescer a colegialidade e a solidariedade; será uma verdadeira riqueza para todos. 7

Estado permanente de missão e conversão pastoral

Aparecida falou de estado permanente de missão 8 e da necessidade de uma conversão pastoral. 9 São dois resultados importantes daquela Assembleia para a Igreja inteira da região, e o caminho realizado no Brasil a propósito destes dois pontos é significativo.

Quanto à missão, há que lembrar que a urgência deriva de sua motivação interna, isto é, trata-se de transmitir uma herança, e, quanto ao método, é decisivo lembrar que uma herança sucede como na passagem do testemunho, do bastão, a corrida de estafeta: não se joga ao ar e quem consegue apanhá-lo tem sorte, e quem não consegue fica sem nada. Para transmitir a herança é preciso entregá-la pessoalmente, tocar a pessoa para quem você quer doar, transmitir essa herança.

Quanto à conversão pastoral, quero lembrar que «pastoral» nada mais é que o exercício da maternidade da Igreja. Ela gera, amamenta, faz crescer, corrige, alimenta, conduz pela mão… Por isso, serve uma Igreja capaz de redescobrir as entranhas maternas da misericórdia. Sem a misericórdia, poucas possibilidade temos hoje de inserir-nos em um mundo de «feridos», que têm necessidade de compreensão, de perdão, de amor.

Na missão, mesmo continental,10 é muito importante reforçar a família, que permanece célula essencial para a sociedade e para a Igreja; os jovens, que são o rosto futuro da Igreja; as mulheres, que têm um papel fundamental na transmissão da fé. Não reduzamos o empenho das mulheres na Igreja, antes pelo contrário promovamos o seu papel ativo na comunidade eclesial. Perdendo as mulheres, a Igreja corre o risco da esterilidade.

A função da Igreja na sociedade

No âmbito da sociedade, há somente uma coisa que a Igreja pede com particular clareza: a liberdade de anunciar o Evangelho de modo integral, mesmo quando ele está em contraste com o mundo, mesmo quando vai contra a corrente, defendendo o tesouro de que é somente guardiã, e os valores dos quais não pode livremente dispor, mas que recebeu e deve ser-lhes fiel.

A Igreja pede o direito de poder servir o homem na sua totalidade, dizendo-lhe o que Deus revelou sobre o homem e sua realização. A Igreja deseja tornar presente aquele patrimônio imaterial, sem o qual a sociedade se desintegra, as cidades seriam arrasadas por seus próprios muros, abismos, barreiras. A Igreja tem o direito e o dever de manter acesa a chama da liberdade e da unidade do homem.

Educação, saúde, paz social são as urgências no Brasil. A Igreja tem uma palavra a dizer sobre estes temas, porque, para responder adequadamente a esses desafios, não são suficientes soluções meramente técnicas, mas é preciso ter uma visão subjacente do homem, da sua liberdade, do seu valor, da sua abertura ao transcendente. E vocês, queridos Irmãos, não tenham medo de oferecer esta contribuição da Igreja que é para bem da sociedade inteira.

A Amazônia como teste decisivo, banco de prova para a Igreja e a sociedade brasileiras

Há um último ponto sobre o qual gostava de deter-me e que considero relevante para o caminho atual e futuro não só da Igreja no Brasil, mas também de toda a estrutura social: a Amazônia. A Igreja está na Amazônia não como aqueles que têm as malas na mão para partir depois de terem explorado tudo o que puderam. Desde o início que a Igreja está presente na Amazônia com missionários, congregações religiosas, e lá continua ainda presente e determinante no futuro daquela área. Penso no acolhimento que a Igreja na Amazônia oferece ainda hoje aos imigrantes haitianos depois do terrível terremoto que devastou o seu país.

Queria convidar todos a refletirem sobre o que Aparecida disse a propósito da Amazônia,11 incluindo o forte apelo ao respeito e à salvaguarda de toda a criação que Deus confiou ao homem, não para que a explorasse rudemente, mas para que tornasse ela um jardim. No desafio pastoral que representa a Amazônia, não posso deixar de agradecer o que a Igreja no Brasil está fazendo: a Comissão Episcopal para a Amazônia, criada em 1997, já deu muitos frutos e tantas dioceses responderam pronta e generosamente ao pedido de solidariedade, enviando missionários, leigos e sacerdotes. Agradeço a Dom Jaime Chemelo, pioneiro deste trabalho, e ao Cardeal Hummes, atual presidente da Comissão. Mas eu gostaria de acrescentar que deveria ser mais incentivada e relançada a obra da Igreja. Servem formadores qualificados, especialmente professores de teologia, para consolidar os resultados alcançados no campo da formação de um clero autóctone, inclusive
para se ter sacerdotes adaptados às condições locais e consolidar por assim dizer o «rosto mazônico» da Igreja.

Queridos Irmãos, procurei oferecer-lhes fraternalmente reflexões e linhas de ação em uma Igreja como a que está no Brasil, que é um grande mosaico de ladrilhos, de imagens, de formas, de problemas, de desafios, mas que por isso mesmo é uma enorme riqueza. A Igreja não é jamais uniformidade, mas diversidades que se harmonizam na unidade, e isso é válido em toda a realidade eclesial.

Que a Virgem Imaculada Aparecida seja a estrela que ilumina o compromisso e o caminho de vocês levarem Cristo, como Ela fez, a cada homem e cada mulher de seu imenso país. Será Ele, como fez com os dois discípulos extraviados e desiludidos de Emaús, a aquecer o coração e a dar nova e segura esperança.

Fonte: Folha de São Paulo

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