Arquivo para ‘Tradição’

27 dezembro, 2013

Apologia da Tradição (I): Apresentação – A crise Ariana do século IV.

Lançado em 2011 na ItáliaApologia da Tradição – Post-scriptum do livro O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita chega agora ao Brasil pela editora Ambientes e Costumes que, muito gentilmente, concedeu ao Fratres in Unum.com a exclusiva honra de divulgar alguns excertos deste trabalho.

978-85-61749-37-8 - Apologia da Tradicao_webO sucesso da publicação do livro “O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita” suscitou um vivo debate. Roberto De Mattei, desejoso de aprofundar o tema, oferece neste seu novo trabalho elementos de reflexão histórica e teológica sobre os temas desse debate. Pode-se discutir pessoas e acontecimentos que pertençam à história da Igreja, trazendo à luz eventuais limites e sombras? Pode-se dissentir (Quando? Em que medida?) das decisões da suprema Autoridade eclesiástica? Qual é a regula fidei da Igreja nas épocas de crise e confusão?

Para o autor, o principal caminho a reencontrar é a Sagrada Tradição, da qual, neste volume faz uma documentada apologia.

Com base na teologia mais segura, como o é aquela da Escolástica (e de São Tomás de Aquino em particular), da Contrarreforma e da Escola Romana dos séculos XIX e XX, a qual se estende até o XXI graças à extraordinária figura de Monsenhor Brunero Gherardini, e com base no Magistério dos Sumos Pontífices, de Mattei se faz repetidor da posição da Tradição da Igreja, aquela que a torna Santa e Imaculada. Este estudo é a melhor resposta para aqueles que buscaram confutar, com argumentos pobres e às vezes mesquinhos, a obra O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita, que valeu ao seu autor o Prêmio Acqui Storia 2011.

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Athanasius Contra Mundum: Rebelde, Fanático e fora da comunhão com Roma.

Ario, padre de Alexandria, afirmava que o Verbo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, não era igual ao Pai, mas criado por Ele como meio termo entre Deus e o homem, e, portanto, tinha substância diversa da substância divina do Pai. Constantino convocou no ano 325, em Niceia, o primeiro grande Concílio ecumênico da Igreja. Graças à contribuição decisiva de Santo Atanásio, bispo de Alexandria, ali foi definida a doutrina da “consubstancialidade” de natureza entre as três pessoas da Santíssima Trindade.

Mal haviam transcorrido dez anos do Concílio de Niceia, o arianismo já havia penetrado profundamente no seio da Igreja, tanto que duas assembleias de bispos, em Cesareia e Tiro (334-335), condenaram Atanásio por rebelião e fanatismo. O paladino da ortodoxia da Fé foi deposto de sua cátedra episcopal, sendo-lhe proibido pisar no chão de Alexandria, pelo resto da vida. Entre o “partido” intransigente de Atanásio e o partido dos arianos surgiu um “terceiro partido”, o dos “semi-arianos”. Estes, divididos, por sua vez, nas seitas dos Anomei, dos Omei e dos Omoiusiani, que reconheciam alguma analogia entre o Pai e o Filho, mas negavam que este fosse “gerado, não criado, consubstancial ao Pai”, como afirmava o Credo de Niceia.

Santo Atanásio.

Santo Atanásio.

Atanásio foi duramente perseguido pelos seus próprios confrades, e por cinco vezes, entre 336 e 366, foi obrigado a abandonar a cidade da qual era bispo, vivendo longos anos no exílio e enfrentando lutas extenuantes em defesa da Fé. No ano 341, enquanto um Concílio de 50 bispos, em Roma, proclamava Atanásio inocente, o grande Concílio da dedicação a Antioquia, do qual participaram mais de 90 bispos, ratificou os atos dos sínodos de Cesareia e de Tiro, e elegeu um ariano para a sede episcopal de Atanásio. As fórmulas de Fé desse Concílio, segundo o cardeal Hergenröther, “nada continham de herético; mas também não proclamavam inteiramente a verdade católica”.

O subsequente Concílio de Sardica, no ano de 343, terminou com uma cisão. Os Padres ocidentais declararam ilegal a deposição de Atanásio e revalidaram o Concílio de Niceia; por sua vez, os orientais que se reuniram paralelamente, condenaram não apenas Atanásio, mas também o papa São Júlio I (337-352), que o tinha apoiado. Constâncio, único titular do Império depois da morte dos irmãos, sob a influência de seus conselheiros semi-arianos, reuniu uma série de novos sínodos para destruir a heresia dos que apoiavam o Concílio de Niceia. O Concílio de Sírmio, no ano 351, procurou um meio termo entre a ortodoxia católica e o arianismo. No Concílio de Arles, em 353, os Padres conciliares, incluindo o legado do Papa Libério (352-366) que havia sucedido a São Júlio I, subscreveram a condenação de Atanásio. São Paulino, o bispo de Trier, foi praticamente o único que lutou pela Fé de Niceia e foi exilado na Frígia onde morreu em seguida sob os maus tratos recebidos dos arianos. Dois anos depois, no Concílio de Milão (355), mais de trezentos bispos do Ocidente subscreveram a condenação de Atanásio e do outro Padre ortodoxo, Santo Hilário de Poitiers, também este banido na Frígia em razão de sua intransigente fidelidade à ortodoxia. Em 357, o Papa Libério, vencido pelos sofrimentos do exílio e pela intransigência dos seus amigos, mas igualmente movido pelo “amor à paz” subscreveu a fórmula semi-ariana de Sírmio. Rompeu a comunhão com Santo Atanásio e o declarou separado da Igreja de Roma em decorrência da adoção do termo “consubstancial”, como nos atestam quatro cartas enviadas por Santo Hilário. Sob o pontificado do próprio Papa Libério, os concílios de Rimini (359) e de Selêucia (359), que constituíram um único grande Concílio representando o Ocidente e o Oriente, abandonaram o termo “consubstancial” de Niceia e criaram uma equívoca “terceira via” entre os arianos e Santo Atanásio. Parecia que a heresia difundida tinha vencido a Igreja.

São Roberto Bellarmino não considera herege o Papa Libério, ainda que admita que ele pecou em seu comportamento externo, favorecendo a heresia. Os Concílios gêmeos de Selêucia e de Rimini, convocados pelo Imperador e tidos como ecumênicos, como o de Niceia (325), hoje são enumerados pela Igreja entre os oito concílios ecumênicos da Antiguidade. Eles contaram com aproximadamente 560 bispos, a quase totalidade dos Padres da Cristandade e foram tidos como ecumênicos pelos contemporâneos. Escreve Hergenröther: “os perseguidores da Igreja não eram mais inimigos externos, mas os seus seguidores, os seus filhos. A aparência oficial contrastava em tudo com a realidade. Foi então que São Jerônimo cunhou a expressão segundo a qual ‘o mundo gemeu e, com estupor, se deu conta de ter se tornado ariano’”. Contudo, a Igreja continuava a ser não só una et sancta mas catholica, isto é universal, porque universal permanecia a sua mensagem, capaz de reunir todos os homens e todas as gentes, ainda quando eles se distanciavam dela como aconteceu durante a crise.

Somente o Concílio de Constantinopla, convocado pelo Imperador Teodósio o Grande, no ano 381, sob o papa São Dâmaso (367-384), assinalou o fim do arianismo no Império. Ele definiu que o Espírito Santo é verdadeiramente Deus, como o Filho e o Pai. Apesar de não tê-lo convocado, Dâmaso confirmou os cânones do Concílio, exceto o terceiro, porque lesivo aos direitos da Igreja de Roma. O Concílio de Constantinopla foi, pois, reconhecido como o segundo dos Concílios ecumênicos. Graças ao Imperador Teodósio, o Cristianismo foi declarado religião do Estado. A obra iniciada com a vitória de Constantino em Saxa Rubra, no dia 28 de outubro de 312, pôde dizer-se verdadeiramente cumprida.

Santo Ambrósio havia enunciado o sacrossanto princípio Ubi Petrus, ibi Ecclesia, mas quem quisesse seguir este princípio ao pé da letra, naquela época, teria acompanhado o erro de Libério e abandonado a ortodoxia. “Pedro” é a instituição imutável, não o homem, que pode errar. No espaço de sessenta anos decorridos entre o Concílio de Niceia e o Concílio de Constantinopla, o Magistério vivo da Igreja cessou de reafirmar com clareza a verdade católica, sem jamais contudo cair em heresia formal. Teria cessado por isso o Espírito Santo de assistir a Igreja? Não, porque a Fé foi mantida por uma minoria de santos e indômitos bispos, como Atanásio de Alexandria, Hilário de Poitiers, Eusébio de Vercelli e, sobretudo, pelo povo fiel que não acompanhava as diatribes teológicas, mas conservava, pelo simples sensus fidei, a boa doutrina.

Apologia da Tradição, Roberto De Mattei, páginas 25 a 28, Ambientes & Costumes Editora, 2013, São Paulo

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Roberto de Mattei nasceu em Roma, em 1948. Formou-se em Ciências Políticas na Universidade La Sapienza. Atualmente, leciona História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, no seu departamento de Ciências Históricas, de que é o diretor. Até 2011, foi vice-presidente do Conselho Nacional de Investigação de Itália e, entre 2002 e 2006, foi conselheiro do Governo italiano para questões internacionais. É membro dos Conselhos Diretivos do Instituto Histórico Italiana para a Idade Moderna e Contemporânea e da Sociedade Geográfica Italiana. É presidente da Fundação Lepanto, com sede em Roma, e dirige as revistas Radici Cristiane e Nova Historica e colabora com o Pontifício Comitê de Ciências Históricas. Em 2008, foi agraciado pelo Papa com a comenda da Ordem de São Gregório Magno, em reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à Igreja.

Onde encontrar:  Editora Ambientes e Costumes – R$ 30,00

14 fevereiro, 2013

Aos 45 do segundo tempo.

Fratres in Unum.comFontes seguras dão conta de que Dom Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, teria enviado, no início de janeiro, uma carta a Dom Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, instando-o a aceitar a última versão do “preâmbulo doutrinal”, aprovada em junho do ano passado — aquela com acréscimos de última hora e sem a anuência da Fraternidade, que fizeram com que ela, inclinada inicialmente a aceitar a proposta, revisse sua posição.

O “ultimato” de Dom Müller teria como data limite a festa da Cátedra de São Pedro, no próximo dia 22, e estaria recheado de duras ameaças. O tom conciliador da carta enviada em dezembro por Dom Joseph Augustine di Noia, que também assina o “ultimato”, não durou, portanto, mais do que um mês. Caso não houvesse aceitação por parte da FSSPX como um todo, a Santa Sé faria a proposta de regularização canônica a cada sacerdote pertencente à FSSPX individualmente.

A iniciativa de Müller e Di Noia não considerava, provavelmente, a súbita renúncia pontifícia, que coloca a FSSPX de sobreaviso — ainda mais — contra uma Cúria Romana dilacerada por intrigas.

Em entrevista à rede americana NBC, o irmão de Bento XVI, Monsenhor George Ratzinger, afirmou que dois assuntos em particular afligiam seu irmão: “Dentro da Igreja, muitas coisas aconteceram que geraram problemas, por exemplo, a relação com a Fraternidade Pio [X] ou as irregularidades dentro do Vaticano, onde o mordomo vazou indiscrições”.

Este talvez seja o contexto para interpretar apropriadamente as palavras do Papa em sua última homilia, pronunciada ontem, na Basílica de São Pedro: “Penso em particular nos pecados contra a unidade da Igreja, das divisões no corpo da Igreja. Viver a quaresma de maneira mais intensa e em evidente comunhão eclesial, superando o individualismo e a rivalidade é um sinal humilde e precioso”. ‘Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação’ (2 Cor 6:2). As palavras do Apóstolo Paulo aos cristãos de Corinto ressoam para nós com uma urgência que não permite ausência ou inércia. O termo ‘agora’ é repetido e não pode ser perdido, é oferecido como uma oportunidade única”.

31 outubro, 2012

“Tradidi quod et accepi”.

Ao lembrar a liturgia do Batismo, notamos que, na conclusão das promessas em que expressamos a renúncia ao mal e repetimos “creio” na verdade da fé, o celebrante declara: “Esta é a nossa fé, esta é a fé da Igreja e nós nos glorificamos de professá-la em Cristo Jesus Nosso Senhor”. A fé é virtude teologal, doada por Deus, mas transmitida pela Igreja ao longo da história. O próprio São Paulo, escrevendo aos Coríntios, afirma ter comunicado a eles o Evangelho que por sua vez também ele tinha recebido (cfr 1 Cor 15,3).

Há uma cadeia ininterrupta de vida da Igreja, de anúncio da Palavra de Deus, de celebração dos sacramentos, que vem a nós e que chamamos de Tradição. Isso nos dá a garantia de que aquilo em que acreditamos é a mensagem original de Cristo, pregada pelos apóstolos. O núcleo do anúncio primordial é o evento da morte e ressurreição do Senhor, da qual brota toda a herança da fé. Diz o Concílio: “A pregação apostólica, que está expressa de modo especial nos livros inspirados, devia ser repassada com sucessão contínua até o fim dos tempos” (Constituição dogmática. Dei Verbum, 8). Deste modo, se a Bíblia contém a Palavra de Deus, a Tradição da Igreja a preserva e a transmite com fidelidade, para que os homens de cada época tenham acesso a seus vastos recursos e se enriqueçam com seus tesouros de graça. Assim, a Igreja, “em sua doutrina, em sua vida e em seu culto transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo em que acredita” (ibid.).

Finalmente, gostaria de salientar que é na comunidade eclesial que a fé pessoal cresce e amadurece. É interessante notar que no Novo Testamento, a palavra “santos” se refere a cristãos como um todo e, certamente, nem todo mundo tinha as qualidades para ser declarado santo pela Igreja. O que se queria indicar, então, por este termo? O fato de que aqueles que viviam a fé no Cristo ressuscitado eram chamados a se tornar um ponto de referência para todos os outros, colocando-os em contato com a Pessoa e a Mensagem de Jesus, que revela o rosto do Deus vivo. E isso vale também para nós: um cristão que se deixa guiar e plasmar pouco a pouco pela fé da Igreja, apesar de suas fraquezas, suas limitações e suas dificuldades, torna-se como uma janela aberta à luz do Deus vivo, que recebe essa luz e a transmite ao mundo.

Da catequese do Papa Bento XVI sobre a Fé da Igreja – 31 de outubro de 2012.

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16 outubro, 2012

Questionamentos sobre o Concílio Ecumênico Vaticano II.

Ao longo de 2012, desenvolveram-se, como noticiado por alguns blogs, dois seminários de estudo sobre o Concílio Vaticano II presididos por Sua Eminência Cardeal Walter Brandmüller, com a participação de estudiosos de diversas tendências, com a finalidade de viabilizar um construtivo debate sobre um evento que tão fortemente marcou a vida da Igreja e de toda a sociedade. Publicamos a seguir as palavras do Prof. Roberto de Mattei, pronunciadas em Roma, no encontro de 17 de março de 2012.

Por Roberto de Mattei | Tradução: Gederson Falcometa

Uma premissa necessária: a crise da fé contemporânea

O problema que tratamos não é uma questão abstrata, mas toca concretamente o modo de viver a nossa fé, em um momento histórico descrito este ano por Bento XVI com estas palavras: “Como sabemos, em vastas zonas da terra a fé corre o perigo de apagar-se como uma chama que não encontra mais alimento. Estamos diante de uma profunda crise de fé, e uma perda do senso religioso que constitui a grande perda para a Igreja de hoje”[1]. A discussão não pode se limitar a um puro interesse cientifico, mas deve partir da necessidade de compreender a natureza da crise da fé em ato.

A crise da fé e o Concílio Vaticano II

Bento XVI quis fazer coincidir o Ano da Fé com o quinquagésimo aniversário do Concílio, auspiciando que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares “sejam lidos de maneira apropriada”, e “sejam conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magistério, no interior da Tradição da Igreja”, ou seja, integrados à Tradição da Igreja, indicando ainda um instrumento para essa assimilação: o Novo Catecismo da Igreja Católica. Depois de se dizer convicto que o Concílio é “a grande graça da qual a Igreja se beneficiou no século XX”, o Papa, citando o seu Discurso a Cúria Romana de 22 de dezembro de 2005, repetiu que o Concílio Vaticano II, “se o lemos e recebemos guiados por uma justa hermenêutica”, “pode ser e se tornar sempre mais uma grande força para a sempre necessária renovação da Igreja” [2]. Bento XVI admite então a existência de um nexo entre a atual crise de fé e o Concílio Vaticano II, embora considere que esta crise não se deva ao Concílio em si mesmo, mas seja favorecida por uma má hermenêutica, uma incorreta interpretação de seus textos.

Problema hermenêutico ou problema histórico?

Não pretendemos contradizer o quanto afirma o Santo Padre, mas o problema da relação entre a crise da fé e o Concílio Vaticano II exige uma resposta não apenas sobre o plano hermenêutico, mas também, se não sobretudo, sobre o plano histórico. Qualquer que seja o juízo sobre os documentos do Concílio, o problema de fundo não é o de interpretá-lo, mas de compreender a natureza de um evento histórico que marcou o século XX e o nosso. Para desfazer o nó da relação entre o Vaticano II e a crise do nosso tempo, antes de colocar em prática a hermenêutica dos textos, devemos fazer uma avaliação histórica dos fatos. E só depois a reconstrução histórica, e não antes, é que intervirão o teólogo ou o Pastor, para formular os seus juízos. O conhecimento histórico não tem por objeto o significado dos documentos, mas a verdade dos fatos [3]. A história é Das verstehen: compreensão dos acontecimentos. A capacidade do historiador está no compreender a essência de um evento, buscando traçar as causas e as consequências nas ideias e nas tendências profundas de uma época: neste caso, a época do Concílio Vaticano II.

O Concílio Vaticano II: intenção e expectativas

Então, nos atenhamos aos fatos. João XXIII, na alocução com a qual inaugurou o Vaticano II, em 11 de outubro de 1962, explicou que o Concílio foi convocado não para condenar erros ou formular novos dogmas, mas para propor, com linguagem adaptada aos novos tempos, o perene ensinamento da Igreja [4]. O Concílio pareceu a muitos como uma extraordinária oportunidade de renovar a Igreja. Ocorre, na realidade, que a dimensão pastoral, em si acidental e secundária em relação à dimensão doutrinal, essencialmente se tornou prioritária, operando uma revolução no estilo, na linguagem e na mentalidade. O Padre John W. O’Malley explicou bem como as profissões de fé e os cânones foram substituídos por um “gênero literário” que ele chama “epidítico” [5]. Foi este modo de se exprimir que, segundo o historiador jesuíta, “marcou uma ruptura definitiva com os Concílios precedentes” [6]. Exprimir-se em termos diversos do passado significa aceitar uma transformação cultural mais profunda do que possa parecer. O estilo do discurso revela, de fato, mesmo antes das ideias, as tendências profundas da mente de quem se exprime. “O estilo é a expressão última do significado, é significado e não ornamento, e é também o instrumento hermenêutico por excelência” [7].

Os resultados do Concílio

Não discutimos as boas intenções de João XXIII. Todavia, igualmente indiscutível, os resultados não foram proporcionais às expectativas. As palavras com que Paulo VI falava de “auto-demolição” da Igreja, “ferida por quem dela faz parte” [8] são de 1968, aquelas sobre a “fumaça de Satanás no templo de Deus (…)” [9], são de 1972. Permitam-me citar a mim mesmo: “o colapso da segurança dogmática; o relativismo da nova moral permissiva; a anarquia no âmbito disciplinar, o abandono do sacerdócio e da vida religiosa por parte dos sacerdotes e dos religiosos e o distanciamento da prática religiosa de milhões de fiéis, a infiltração da heresia através dos novos catecismos e novos ritos, as contínuas profanações da Eucaristia, o massacre das almas enquanto as igrejas se livravam do altar, mesas da comunhão, crucifixos, imagem de santos, mobiliários sacros, quadros que acabaram em catálogos de antiquários. A ‘primavera da fé’, que deveria seguir ao Concílio Vaticano II, aparecia mais como um rígido inverno, documentado sobretudo pelo colapso nas vocações e do abandono da vida religiosa” [10]. O balanço global dos quarenta anos pós-conciliares 1965-2005, com respeito às perdas totais e percentuais dos principais institutos religiosos, será ainda mais dramático [11].

A tese oficial

“O que deu errado?”, para usar o título de um folheto do filósofo Ralph McInerny [12]. A resposta que escutamos oficialmente repete aquela formulada primeiramente por Paulo VI, que em 23 de junho de 1972, nos mesmos dias em que registrava “a fumaça de Satanás no templo de Deus”, em um discurso aos membros do Sacro Colégio, denunciava “uma falsa e abusiva interpretação do Concílio, que seria uma ruptura com a tradição, também doutrinal, chegando ao repúdio da Igreja pré-conciliar, e a licença de conceber uma Igreja «nova», quase «reinventada» do seu interior, na constituição, no dogma, no costume e no direito” [13]. A tese oficial era aquela do Concílio “traído” pelos progressistas: nesta traição estava, segundo Paulo VI, a raiz dos problemas da Igreja pós-conciliar.

A tese progressista: o Concílio traído.

A esta tese se opunha aquela dos inovadores. A Storia del Concilio Vaticano II [4], de Giuseppe Alberigo, apresenta o Concílio como a tentativa de purificar a Igreja do seu passado. Uma tentativa felizmente iniciada por João XXIII, mas “traída” por Paulo VI e seus sucessores. O Concílio Vaticano II deveria ser a medida de juízo da história e da tradição da Igreja. O leque do progressismo é amplo e variado, mas hoje o ex-sacerdote e abade de São Paulo [Fora dos Muros], Giovanni Franzoni, resume eficazmente esta posição que, a nível hermenêutico, contrapõe-se diretamente àquela de Bento XVI: “Desejando sintetizar, descreverei o nó do contraste que atrapalha a Igreja Católica há décadas: para Wojtyla e Ratzinger, o Vaticano II é lido à luz do Concílio de Trento e do Vaticano I; para nós, pelo contrário, estes dois Concílios são lidos, e relativizados, à luz do Vaticano II [Ndt.: Lembre-se aqui do texto de Mons. Ocariz publicado por nós: “O Vaticano II à luz da Tradição e a Tradição à Luz do Vaticano II: o Vigário-geral do Opus Dei responde aos tradicionalistas no Osservatore Romano,” e também do texto de Paolo Pasqualucci  em que aborda a “chave hermenêutica a desenvolver”: a colaboração “do ‘contra-espírito do Concílio’ ao verdadeiro ‘espírito do Concílio’” em “O “debate crítico” que a hierarquia não quer realizar. Recensão à obra “Concilio Vaticano II, il discorso mancato” de Monsenhor Brunero Gherardini]. Então, dada esta divergente perspectiva, os contrastes não podem ser elimináveis. E vemos escorrer da Cátedra Romana, todos os dias, normas, decisões e interpretações que, a nosso juízo, estão em conflito radical com o Vaticano II” [15].

A tese tradicionalista

Com o nome impróprio de “tradicionalistas” são definidos alguns estudiosos que expressaram criticas e perplexidades sobre o Vaticano II e seus documentos. Entre estas obras são recordadas Iota Unum, de Romano Amério [16]; os estudos teológicos de Mons. Gherardini [17], mas também a convenção organizada pelos Franciscanos da Imaculada em dezembro de 2010 [18]; a Súplica promovida em 2011 pelo Prof. Paolo Pasqualucci [19]; e as recentes intervenções do Padre Jean-Michel Gleize [20] e Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira [21].

A minha posição

Embora associando-me aos pedidos de esclarecimento de estudiosos, ofereço, de minha parte, uma contribuição que não é a de teólogo, mas de historiador. Não entro, portanto, nas discussões hermenêuticas sobre continuidade/descontinuidade dos documentos. O que narro no meu estudo são os fatos, o que reconstruo é o contexto histórico em que os documentos do Concílio vieram à luz. E sobre este âmbito histórico afirmo o caráter revolucionário deste evento. Pode-se dizer, de fato, do Concílio Vaticano II, aquilo que os historiadores dizem da Revolução Francesa: “a sua importância está também no fato de ser capaz de agir como um mito, não apenas depois, mas já durante o seu desenrolar. O mito, antes, podemos dizer, é conatural à sua essência” [22].

Questões em discussão

Para o historiador da Igreja, a dimensão histórica não pode ser, todavia, separada daquela teológica. Trata-se de dois âmbitos, mas conexos e interdependentes, como são a alma e o corpo no organismo humano. E se os fatos históricos colocam problemas teológicos, o historiador não pode ignorá-los, mas deve trazê-los à luz, movido por amor à Igreja e não pelo desejo de denegri-la. Ao mesmo tempo, no âmbito teológico, todos os batizados têm o direito de levantar os problemas e colocar questões à legítima autoridade eclesiástica, embora ninguém tenha a faculdade de substituir o supremo Magistério da Igreja para resolver de forma definitiva os pontos controversos. Estas são as questões em discussão.

Primeira questão: os documentos do Concílio Vaticano II

Se existe uma questão hermenêutica, existem documentos pouco claros [23]. Como afirma um antigo brocardo: in claris non fit interpretativo. E se existem documentos pouco claros, a falta de clareza constitui, certamente, um limite, e não uma qualidade destes documentos.

Com o termo hermenêutica, que nasce, sobretudo, depois de Schleiermacher no mundo dos exegetas protestantes, entende-se as “técnicas de algo dificilmente compreensível” [24]. Mas as dificuldades interpretativas que podem apresentar um texto das Sagradas Escrituras não são admissíveis em um documento pastoral, que se propõe dirigir de forma mais eficaz aos homens de seu tempo. A existência de passagens ambíguas e equívocas nos documentos do Concílio Vaticano II é demonstrada pela necessidade de interpretá-los e de esclarecê-los.

Segunda questão: as autoridades que governaram a Igreja

Diz-se que os documentos do Concílio foram mitificados e “descontextualizados”. Mas se é assim que aconteceu, a responsabilidade recai apenas sobre os artífices da mitificação e da descontextualização, ou também sobre a autoridade que poderia impedir tal fato e não o fez? Por que a má hermenêutica não foi suprimida? Paulo VI definiu “falsa e abusiva” certa interpretação do Concílio, mas se alguém foi removido, discriminado, perseguido, foi quem permaneceu fiel à tradição. E não falo nem de Mons. Lefebvre e nem de Mons. Castro Mayer. Penso, por exemplo, em Mons. Antônio Piolanti, talvez o maior teólogo italiano do século XX, que foi removido do cargo de Reitor da Pontifícia Universidade Lateranense. A púrpura que a ele foi negada foi concedida ao Padre Yves Congar [ndr: em 1994, por João Paulo II], que atacava violentamente a “miserável eclesiologia ultramontana da Lateranense” [25].

O Novo Catecismo nos é apresentado como um instrumento de retificação da má hermenêutica. Mas, em vinte anos de sua promulgação, a má hermenêutica continuou a desenvolver-se imperturbada. Não se percebe que, se a preocupação é salvar a suprema autoridade eclesiástica de toda responsabilidade quanto aos males do pós-Concílio, esta colocação do problema agrava o mal que quer evitar. Se, de fato, fosse verdade que o Concílio foi traído por maus intérpretes dos seus documentos, como negar a responsabilidade daquelas autoridades eclesiásticas que viram explodir o mal da má hermenêutica e não a reprimiram? Se houve má interpretação, e há ainda, se reivindicaram indevidamente os documentos conciliares para fazer coisas diversas daquilo que eles estabeleciam, de quem é a responsabilidade? Apenas dos progressistas ou é também de quem deixou que esse progressismo se desenvolvesse na Igreja sem intervir para condená-lo e reprimi-lo?

Terceira questão: o evento histórico

Se nas raízes da crise da fé não está o evento conciliar, mas apenas uma má interpretação de seus documentos, qual o juízo se deverá dar sobre o evento, considerado no seu desenvolvimento concreto, nas ideias e na psicologia dos seus protagonistas, no contexto histórico que o circundou, na mitologia que em torno dele se desenvolveu? O Concílio Vaticano II não foi apenas interpretado, mas vivido pela teologia progressista como uma transformação na história da Igreja. É possível negar que esta transformação foi realizada e que no período pós-conciliar não ocorreram mudanças radicais no interior da Igreja? O dado efetivamente objetivo é que a hermenêutica da descontinuidade, por quanto abusiva, prevaleceu sobre a hermenêutica da continuidade já durante o Concílio, caracterizando-o na sua essência.

Questões legítimas

A tese hermenêutica oficial representa uma proposta de leitura, digna da máxima atenção, ao menos por sua autoridade. Mas ela não é uma afirmação doutrinal: é uma interpretação que, como tal, sobretudo quando nos deslocamos dos documentos para os fatos, pode ser falaz. Ninguém pode dizer ao Papa que ele erra. Com que autoridade poderemos julgar o supremo Pastor da Igreja? Mas cada fiel, enquanto batizado, tem o direito de fazer questões ao Papa, porque o Vigário de Cristo tem o dever de nos confirmar na fé. E, então, coloco estas perguntas.

Se houve uma interpretação falsa e abusiva dos documentos do Concílio, de quem é a responsabilidade? Apenas dos maus hermeneutas ou, também, dos documentos que, por causa dos equívocos ou das ambiguidades, permitiram esta má leitura?

Se houve uma interpretação falsa e abusiva dos documentos do Concílio, de quem é a responsabilidade? Apenas dos maus hermeneutas ou também da autoridade que deixou de condenar com suficiente firmeza as más interpretações?

Se uma interpretação falsa e abusiva dos documentos do Concílio prevaleceu nas mídias, de quem é a responsabilidade? Apenas das mídias ou também do evento histórico que esses documentos produziram? O Concílio, enquanto evento, é estranho à crise do nosso tempo?

O evento; os documentos ou ao menos alguns documentos que este evento produziu; os homens da Igreja que promoveram este evento; e que deste evento cuidaram da aplicação e propõem a interpretação: eis os responsáveis pela crise da fé atual. Ocultá-lo seria prestar um desserviço à verdade.

* * *


[1] Bento XVI, Discurso aos participantes da plenária da Congregação para a Doutrina da Fé, 27 janeiro de 2012.

[2] Bento XVI,  Discurso a Cúria Romana 22 de dezembro de 2005, in AAS, 98 (2006).

[3] Henri-Irénee Marrou, O conhecimento histórico, tr. it., Il Mulino, Bolonha 1988, pp. 199-218.

[4] João XXIII, Alocução Gaudet Mater Ecclesiae de 11 de outubro de 1962, in AAS, 54 (1962), p. 792.

[5] John W. O’Malley, Que coisa aconteceu no Vaticano II, tr. it. Vita e Pensiero, Milano 2010, pp. 45-54.

[6] Ivi, p. 47. Veja-se também, sobre este ponto, Alessandro Gnocchi-Mario Palmaro, A Bela Adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque acordará Editore, Firenze 2011.

[7] J. W. O’Malley, O que aconteceu no Vaticano II, cit., p. 51.

[8] Paulo VI, Discurso ao Seminário Lombardo em Roma, de 7 de dezembro de 1968, em Ensinamentos, vol. VI (1968), pp. 1188-1189.

[9] Paulo VI, Homília pelo nono aniversário de coroação de 29 de junho de 1972, em Ensinamentos, vol. X (1972), p. 707.

[10] Roberto de Mattei, O Concílio Vaticano II, Uma história nunca escrita, Lindau, Turim 2011, p. 575.

[11] Cfr. O estudo do claretiano Angelo Pardilla, Os religiosos ontem, hoje e amanhã, Editora Rogate, Roma 2007. Análogo o quadro das “religiosas”: Id., As religiosas ontem, hoje e amanhã Livraria Editrice Vaticana, Cidade do Vaticano 2008.

[12] Ralph McInerny Vaticano II. O que deu errado?, Prefácio de Massimo Introvigne, Fede e Cultura, Verona 2009.

[13] Paulo VI, Discurso ao Sacro Colégio de 23 de junho de 2012, em ensinamentos, vol. X (1972), pp. 672-673.

[14] G. Alberigo, Historia do Concilio Vaticano II, Peeters/Il Mulino, Bologna 1995-2001, 5 voll.

[15] Discurso de 18 de setembro de 2011 em um Congresso teológico em Madrid, em “Adista”, 8 de outubro 2011.

[16] Romano Amerio, Iota unum, Lindau, Torino 2009.

[17] Brunero Gherardini, Concílio Ecumênico Vaticano II. Um discurso a fazer, Casa Mariana, Frigento 2009 e Id., Um Concílio faltoso, Lindau, Torino 2011.

[18] Concílio Ecumênico Vaticano II. Um Concílio pastoral. Análise histórica-filosófica-teológica, aos cuidados de P. Stefano M. Manelli F.I. e P. Serafino M. Lanzetta F.I., Casa Mariana Editora, Frigento 2011.

[19] Supplica al Santo Padre Benedetto XVI, Sommo Pontefice, felicemente regnante, affinché voglia promuovere un approfondito esame del pastorale Concilio Ecumenico Vaticano II, in http://www.riscossacristiana.it, 24 settembre 2011.

[20] Veja-se as suas intervenções em “Courrier de Rome” entre 2011 e 2012.

[21] Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, Grave lapsus teologico di Mons. Ocáriz. Confutazione dell’articolo del Vicario Generale dell’Opus Dei pubblicato ne “L’Osservatore Romano”, in http://www.arnaldoxavierdasilveira.com, 28 de dezembro de 2012.

[22] Marco Tangheroni, Cristianità, modernità, rivoluzione, Sugarco, Milano 2009, p. 76.

[23] Veja-se, por exemplo, as intervenções do Padre G. Cavalcoli O.P. e Padre Serafino Lanzetta F.I., in Il Vaticano II. In dialogo in modo critico, in “Fides Catholica”, 1 (2011), pp. 207-232, e o debate sobre o tema proposto pelo site de Sandro Magister, www.chiesa.espresso.repubblica.it.

[24] Eugenio Cutinelli-Rendina, voce Ermeneutica, in Dizionario di storiografia, Bruno Mondadori, Milano 1996, p. 360.

[25] Yves Congar, Diario del Concilio, San Paolo, Cinisello Balsamo 2005, vol. II, p. 20.

4 setembro, 2012

O Concílio Vaticano II, uma história nunca escrita (I): Apresentação.

Lançado em 2011 na Itália, a prestigiosa obra do Professor Roberto de Mattei, intitulada “O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita”, chega agora ao público lusófono. A Editora Caminhos Romanos, detentora dos direitos sobre a versão portuguesa do laureado livro — Prêmio Acqui Storia 2011 e finalista do Pen Club Italia — , concedeu ao Fratres in Unum a exclusiva honra de divulgar alguns excertos deste trabalho que é um verdadeiro marco na historiografia do Concílio Vaticano II.

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Um Concílio “pastoral” ou “doutrinal”?

A fórmula do Concílio à luz da Tradição — ou, se se preferir, da “hermenêutica da continuidade” – propõe indubitavelmente aos fiéis uma indicação autorizada, com vista ao esclarecimento do problema da adequada recepção dos textos conciliares; mas deixa em aberto um problema de fundo: dado que a correcta interpretação é a da continuidade, resta explicar porque foi que, na sequência do Concílio Vaticano II, aconteceu aquilo que nunca tinha acontecido depois de qualquer dos concílios da história, a saber, o facto de duas (ou mais) hermenêuticas contrárias se terem confrontado e terem, para usar a expressão do Papa, lutado entre si. Assim, pois, se a época pós-conciliar deve ser interpretada como uma época de “crise”, podemos perguntar-nos se uma errada recepção dos textos terá uma incidência tal sobre os factos históricos, que constitua razão suficiente e proporcionada para a vastidão e a profundidade da mesma crise.

Por outro lado, a existência de uma pluralidade de hermenêuticas atesta a presença de certa ambiguidade ou ambivalência nos documentos. Quando se torna necessário recorrer a um critério hermenêutico exterior ao documento para interpretar o próprio documento, é evidente que este não é suficientemente claro, que precisa de ser interpretado e que, na medida em que é susceptível de interpretação, pode ser objecto de crítica, histórica e teológica.

O desenvolvimento mais lógico deste princípio hermenêutico é o que foi proposto por um eminente especialista em eclesiologia, Mons. Brunero Gherardini. De acordo com este teólogo romano, o Vaticano II, enquanto concílio que se auto-qualificou como “pastoral”, esteve privado de um carácter doutrinal “definitório”; contudo, do facto de o Vaticano II não poder ter a pretensão de ser qualificado como dogmático, sendo antes caracterizado pelo seu carácter pastoral, não se pode naturalmente deduzir que esteja privado de doutrina própria. O Concílio Vaticano II teve indubitavelmente ensinamentos específicos, que não estão privados de autoridade, mas, como escreve Gherardini, “as suas doutrinas, quando não reconduzíveis a definições anteriores, não são, nem infalíveis nem irreformáveis, e, portanto, também não são vinculativas; quem as negar não será, por esse facto, formalmente herege. Assim, pois, quem as impusesse como infalíveis e irreformáveis iria contra o próprio Concílio” .

O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita, Roberto de Mattei, Ed. Caminhos Romanos, 2012, pp. 14-15

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Roberto de Mattei nasceu em Roma, em 1948. Formou-se em Ciências Políticas na Universidade La Sapienza. Atualmente, leciona História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, no seu departamento de Ciências Históricas, de que é o director. Até 2011, foi vice-presidente do Conselho Nacional de Investigação de Itália, e entre 2002 e 2006, foi conselheiro do Governo italiano para questões internacionais. É membro dos Conselhos Diretivos do Instituto Histórico Italiana para a Idade Moderna e Contemporânea e da Sociedade Geográfica Italiana. É presidente da Fundação Lepanto, com sede em Roma, e dirige as revistas Radici Cristiane e Nova Historica e colabora com o Pontifício Comitê de Ciências Históricas. Em 2008, foi agraciado pelo Papa com a comenda da Ordem de São Gregório Magno, em reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à Igreja.

Onde encontrar:  Livraria Petrus – R$ 89,00.

19 agosto, 2012

Foto da semana.

Sua Eminência Reverendíssima, o Cardeal Raymond Leo Burke, Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, recebe a benção do neo-sacerdote que acabara de ordenar para o Instituto Cristo Rei, em 5 de julho de 2012.

14 agosto, 2012

Dois teólogos com posições contrárias a respeito da FSSPX: resumo.

Por FSSPX-EUA | Tradução: Fratres in Unum.com

Apresentamos aqui resumidamente duas posições divergentes sobre a situação da FSSPX em face ao Concílio Vaticano II, atualmente em debate nos principais círculos eclesiásticos.

De um lado está o Pe. Brian Harrison, O.S., um sacerdote teólogo de Sidney, Austrália, que afirma que a FSSPX deveria aceitar o Concílio.[1] Do outro lado está o Dr. John Lamont, um professor de teologia da Universidade Católica [também] de Sidney, Austrália, que necessariamente indaga: que grau de assentimento o Concílio exige? [2]

1 agosto, 2012

[Post de Setembro de 2011] É possível ser um padre diocesano e celebrar a Missa tradicional com exclusividade? Um exemplo verdadeiro e encorajador.

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com [publicação original em Setembro de 2011]

[Consideramos que esta seja uma de nossas matérias mais relevantes e inspiradoras.]

Logo após a publicação do motu proprio Summorum Pontificum, três padres da Diocese de Novara (Piedmont, Itália) tentaram celebrar a Missa Tradicional com exclusividade (relatamos esses acontecimentos aqui e aqui).

Em uma entrevista publicada poucos dias atrás, o padre Alberto Secci conta a sua história, e nos apresenta um relato maravilhoso de sua vida após o Summorum. Sim, existe vida para padres diocesanos que celebram os Sacramentos de acordo com o uso antigo em caráter exclusivo. E ela pode ser bonita, poderosa e gloriosa, a despeito das dificuldades normais da vida.

“Você pode imaginar o que aconteceria se todos os padres diocesanos optassem por fazer isso?” Esse é o tipo de argumento frágil que alguém esperaria ouvir – não é algo convence, não a nós, estando no mesmo nível que “Não deveria haver monges, porque a humanidade deixaria de existir se todos os homens se tornassem monges exemplares”: sim ela deixaria de existir, mas eles não se tornariam [todos monges]… O que esperamos propor através deste exemplo é que é possível existir conforto e consolação para esse número extremamente reduzido de sacerdotes que optam por fazer uso do seu direito de celebrar a “Forma Extraordinária” de maneira radical. E por que essa escolha deveria nos chocar? Quase todos optam por celebrar a “Forma Ordinária” de maneira radical e exclusiva, e eles não são vilipendiados por isso. Há tribulação na opção radical desses padres, e isso está bem: os padres que optam por esse caminho devem estar plenamente cientes de que serão destituídos, deslocados, transferidos, rebaixados, desprezados, achincalhados e ridicularizados, tomados como exemplo; eles terão de desistir de favores, carreiras eclesiásticas, anos sabáticos, nomeações especiais; mas, graças ao Summorum, eles poderão encarar tudo isso em perfeita paz de consciência, com a Missa, que, nas palavras de um grande cardeal, proporciona “um maior fruto espiritual”. E, quanto à tribulação, se vocês nos permitirem mencionar modestamente um grande leigo, “portanto, digo, que aqueles que estão em tribulação, têm, por outro lado, uma grande causa para extrair de sua dor grande conforto e consolação espiritual.” (Santo Thomas More, “Um diálogo de conforto contra tribulação“).

O Summorum é a carta de alforria de padres com mentalidade tradicional; é bom que aqueles que estão pensando em fazer a mesma escolha radical desses heróicos padres italianos saibam que não estão sozinhos, que, quando houver uma vontade, haverá uma maneira. Se ao menos um único padre diocesano for motivado por esta tradução de, ao menos, considerar a possibilidade de seguir esse caminho radical, então, todo o nosso trabalho aqui no Rorate [e nós do Fratres in Unum fazemos eco a essas palavras] ao longo desses anos terá valido à pena cada segundo. Dedicamos esse artigo a vocês, padres diocesanos: se eles podem fazê-lo, vocês também poderão.

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[Entrevista concedida por Don Alberto Secci a Marco Bongi]

[Fonte: Una Fides.]

[Tradução do italiano para o inglês: Francesca Romana.]

[Tradução do inglês para o português: Fratres in Unum]

O desconforto, os sofrimentos espirituais, as batalhas e a coragem de um autêntico sacerdote católico, forçado a viver em uma realidade eclesial que muito freqüentemente não pode compreendê-lo.

Don Alberto Secci e seus dois irmãos padres, Don Stefano Coggiola e Don Marco Pizzocchi, todos pertencentes ao clero de Novara, de repente alcançaram grande notoriedade nos meios de comunicação (pelo que muito se arrependeram) quando decidiram implementar fielmente o Motu Proprio do Papa Bento XVI Summorum Pontificum, de 2007.

A oposição à celebração da Missa Tradicional em Latim foi firme e violenta por parte da chancelaria de Novara, de modo que ela colocou os três pares em séria dificuldade, acima de tudo, com relação aos seus paroquianos. A lógica era simples: a celebração da Missa Tradicional em Latim deveria ser uma exceção, portanto, ela lhes era proibida.

Assim, algum tempo depois os três padres foram apresentados tanto pela mídia local quanto nacional como “provocadores” teimosos.

Até mesmo alguns estranhos ambientes ditos “tradicionais” julgaram por bem chamá-los à moderação, lembrando-lhes que a causa tradicional exigia o exercício da virtude da obediência, mesmo quando deparados com o repúdio das leis da Igreja, escárnio da Santa Missa e negligência no cuidado das almas. Obviamente esta (obediência) é pedida aos mais fracos, ou seja, padres e fiéis, especialmente quando eles são confrontados pelos bispos que fazem o que querem, como se eles fossem “mestres” de sua própria Igreja individual, enquanto as autoridades romanas são impotentes para segurar suas rédeas e, assim, incapazes de fazê-los respeitar os direitos dos padres e fiéis, mesmo quando esses direitos advêm das leis universais atuais da Igreja.

Contudo, o Senhor vê e provê. Os nossos três padres continuam em seu caminho – o caminho de fidelidade à Santa Tradição da Igreja Romana. Tal como suas igrejas em Vocogno e Domodossola, é possível hoje em dia acompanhar os apostolados de Don Alberto Secci e Don Stefano Coggiola em sua página na Internet Radicati nella fede.

[Entrevista por Marco Bongi]

Don Alberto, o seu papel como sacerdote que voltou à Missa de Sempre por ocasião do Motu Proprio ganhou muita notoriedade na mídia durante os anos de 2007 e 2008. Agora que transcorreu algum tempo desde aqueles eventos inquietantes, gostaríamos de fazer ao senhor algumas perguntas que ajudarão os fiéis italianos a se tornarem mais familiarizados com a sua história, bem como o seu apostolado que está se desenvolvendo. O senhor pode nos dizer brevemente quando a sua vocação ao sacerdócio começou e como foi a sua formação no seminário?

R. Nasci em Domodossola, mas minha família se mudou para Biellese, meu pai era um carabiniere [policial militar], e lá passei minha infância em uma boa paróquia, administrada por um velho pároco (nascido em 1890!), um patriarca, com a mais forte devoção a Nossa Senhora. Lá, mais certamente, as primeiras sementes de minha vocação cresceram. Atuando como coroinha, o mês de maio, o Santuário de Oropa… esses, juntamente com a fidelidade de minha mãe as suas tarefas diárias e (freqüência) à Missa, um sentido de dever e ordem do meu pai e muitas outras coisas, marcaram positivamente a minha infância católica.

Então, retornei à Domodossola com a minha família, e me matriculei no ensino médio da escola estadual [Liceo Scientifico]…boas memórias lá, mesmo se, até nas províncias, em 1977 o clima era muito secular. Nessa escola de ensino médio experimentei uma militância católica intensa com o movimento Comunhão e Libertação. Éramos poucos, mas bem treinados para a “batalha.” Lembro-me daqueles anos: oração (dizíamos as laudes, matinas, vésperas e completas, o rosário, a Missa diária – e tínhamos apenas 15 e 16 anos de idade! Também estudávamos livros diferentes daqueles adotados pelos professores, a fim de defender a Igreja e Sua História). O amor pela Igreja crescia cada vez mais com o aumento do conhecimento. Líamos os grandes escritores espirituais, São Bento, Santa Teresa de Ávila… para mim a idéia de uma vocação ao sacerdócio era um desejo natural, urgente. Cristo é tudo, a Igreja é o Seu Corpo: como alguém pode não dar a sua vida por eles?

Após a formatura do ensino secundário, aos 19 anos, entrei para o seminário. (Tinha) uma grande ajuda de um padre confessor muito ortodoxo, um pouco menos de teologia, embora a tenha estudado com paixão. A falha? Naqueles anos tudo era um “jardim de trabalho” de opiniões pessoais, ancoradas ideologicamente nas teorias de Rahner. Porém, passei por esses anos serenamente, estando acostumado a “batalhar” de maneira confiante pela fé desde o segundo grau. Não tenho ressentimentos e lembro-me com afeição de todos os professores, mas eu já havia sido preparado na militância católica de antemão, para manter um olho no ensino. Todos os dias no seminário eu vigiava os horizontes – esperando a “Restauração Católica”…que nunca chegava!

P. Que ministérios o senhor conduziu nos primeiros anos de ordenação?

R. Uma vez ordenado, aos 25 anos, eles me enviaram para uma enorme paróquia católica, com um grande oratório; eu era o vigário. Não foi fácil: eu ensinava religião na escola secundária e o resto do dia transcorria entre o oratório e a paróquia: trabalho duro, porque tinha que confrontar linhas eclesiais muito diferentes das minhas, já notadamente tradicionais. Espero ter feito algum bem e pouco dano. Depois disso, fui para a França por cerca de um ano, atraído pela experiência dos Cônegos Regulares, porque sentia a necessidade de maior apoio de outros padres: os Cônegos Regulares, bem com os monges, haviam construído a Europa Cristã, assim parecia que eu havia encontrado uma solução para servir Deus e as almas de uma maneira melhor. Voltei, apesar disso, porque descobri que as disputas teológicas e a fragilidade do seminário haviam entrado em casa: a atmosfera de confusão não permaneceu fora dos conventos, da mesma forma que ela não ficou fora dos nossos corações. Em seguida, “aportei” no Valle Vigezzo, onde me encontro atualmente, primeiro como assistente no Santuário e depois como pároco. Em todos esses anos, continuei ensinando religião nas escolas.

P. Como o senhor encontrou a Missa Tradicional em Latim e o que o levou a abraçar este rito exclusivamente, apesar das dificuldades?

R. Essa é uma resposta difícil. Parece que ela sempre existiu. Lembro-me de que eu nunca poderia suportar uma certa maneira de celebrar; lembro ter percebido coisas ridículas em muitas liturgias, sempre estive ciente. Era como se eu soubesse que aquele era um momento confuso (na época), de uma transição dramática, mas que ao final haveria uma volta para casa. Tudo na Igreja lhe falava sobre o Rito Antigo, que somente ele estava faltando, e assim… aguardei. Como vigário paroquial, e mais ainda quando me tornei um pároco, fiz tudo o que me parecia possível: altar ad orientem, canto gregoriano com os fiéis, comunhão na língua, sempre usei a batina, reuniões doutrinais com os adultos, catequese tradicional para crianças.

Mas isso não foi o suficiente, havia o cerne da questão, a Missa, mas como eu podia lidar com ela? Eu já estava sob “investigação” há anos por causa de algumas coisas que eu tinha feito! Em 2005, introduzi pela primeira vez o Ofertório, depois, o Cânon do Rito Antigo, na Missa de Paulo VI. Aguardei pacientemente por notícias do Motu Proprio durante algum tempo, que parecia nunca viriam. E no dia 11 de julho de 2007, (lembro-me) era uma terça-feira, comecei a celebrar exclusivamente a Missa de sempre. Tenho que dizer que foi meu irmão quem me deu o primeiro “empurrão”: estávamos viajando juntos através de uma montanha no dia anterior e ele me disse: “Não sei o que você está esperando …” …era o sinal que eu precisava para começar.

P. Por que o senhor recusou o chamado “bi-ritualismo” ao contrário de outros padres que acolheram o Summorum Pontificum?

R. Serei breve. Acho a obrigação do biritualismo absurda. Se alguém descobriu algo que é autêntico, que é melhor, que expresse a Fé Católica mais completamente, sem ambigüidades perigosas, por que haveria a necessidade de celebrar algo mais inferior? Com o biritualismo, na realidade, um rito morre e o outro permanece. Com o biritualismo, o padre fica desgastado, com a tristeza de um tipo de esquizofrenia e as pessoas não são edificadas, instruídas, consoladas na beleza de Deus. Evitarei discutir os aspectos teológicos – uma entrevista não é o lugar para isso. Direi somente que quem permanecer com o biritualismo, mais cedo ou mais tarde abandona o Rito Antigo e inventa razões para ficar no mundo da reforma, vivido talvez de uma maneira conservadora, mas com uma tristeza interior, como alguém que traiu o amor de Deus desde a sua juventude. Tenho que acrescentar que foi muito útil para mim a leitura do livro “The Anglican Liturgical Reform”, de Michael Davies – um texto fundamental que é muito claro: a ambigüidade do rito leva à heresia de fato. E não foi isso o que aconteceu?

P. Como os seus paroquianos reagiram ao saberem de sua decisão de voltar ao Rito Antigo?

R.: Ninguém ficou surpreso. Os apoiadores disseram: “…finalmente!” Os opositores disseram: “..Nós lhe dissemos isso!” Mas eu diria que a maioria das pessoas foram trabalhar com grande zelo: elas pegaram os folhetos, elas queriam entender …havia fervor… Em seguida, eu sempre fui auxiliado por um grupo de fiéis, gente forte e simples, que sempre estavam prontos para trabalhar comigo: estou pensando especialmente naqueles que participam do coral desde 1995. Então, eles começaram a dizer que estávamos desobedecendo o bispo e o papa e, conseqüentemente, tudo ficou mais complicado, mas inicialmente não foi assim.

P. Todos nós sabemos dos mal-entendidos com o bispo e a solução subseqüente de lhe confiar um tipo de capelania em Vocogno. Como eram as relações com os seus irmãos párocos na época, fora as variações com a Cúria de Novara?

R. Eles todos desapareceram. Alguns não aprovavam, a maioria ficou em silêncio, alguns nos disseram às escuras que não eram contra [a missa antiga], isso aconteceu raramente, em público eles não podiam fazer nada a respeito. Havia o medo de desobediência oficial. Don Stefano, o padre que seguiu a mesma estrada que eu e com quem trabalho, (mesmo que tenhamos tipos diferentes de apostolado)…bem, ele e eu nunca faltamos às reuniões do clero do vicariato… sempre participamos delas com entusiasmo.

P. Como são as suas relações hoje em dia com o bispo e os outros padres?

R. Elas parecem ser serenas, vejo que há muita coisa não resolvida, porque sempre se evitou uma discussão profunda sobre as razões de nossa escolha. Parece que eles quiseram que isso ficasse na superfície, no nível puramente jurídico. Esperamos que, com o tempo, algo mude para melhor a esse respeito.

P. Do seu posto de vista, como o senhor vê a situação na Igreja e o quê o senhor acha do papel da FSSPX no futuro?

R. A Igreja pertence a Deus, assim tenho que esperar. Mesmo porque vejo que essa crise é profunda e muito triste, será muito longa. Há um pensamento não cristão que entrou no cristianismo. Paulo VI disse isso! Ele é comumente aceito. Muitos pensam que são católicos, mas não o são mais. É terrível. Isso é abandonar Jesus Cristo enquanto se permanece dentro de Sua Igreja – não pode existir algo mais ambíguo do que isso! A Fraternidade tem que continuar o trabalho de Mons. Lefebvre, ou seja, guardar o sacerdócio, a fé, a Missa de Sempre…um dia, o papel providencial da Fraternidade será evidente para todos. Amar a Igreja significa preservar os tesouros de fé e graça que Nosso Senhor Jesus Cristo consignou à ela e a constitui. A Fraternidade sempre fez isso, pelo que agradeço a Deus.

P. A região Ossolana tem grandes tradições religiosas. O senhor acha que a Missa Tradicional em Latim poderia se espalhar nesta zona e nas adjacentes?

R. Não sei. Sei apenas que a vida em nossas montanhas se moldaram a partir da Missa Católica Antiga. As vidas das pessoas por essas bandas foram educadas pela liturgia tridentina e que ela lhes estava disponível para que permanecessem radicalmente diante de Deus, ou seja, com a confiança que dá forma à vida. Entretanto, o mundo “americanizado” também chegou por aqui, graças também à Igreja, infelizmente. Falando em termos humanos, isso foi um desastre.

P. Como está sendo o seu apostolado atualmente e como muitos fiéis habitualmente freqüentam a Igreja em Vocogno?

R. Missa Diária, 2 Missas aos domingos, confissões todos os dias por meia hora antes da Missa, escola em Domodossola, este ano 13 turmas, reuniões sobre doutrina católica toda sexta-feira, catecismo para crianças, ensaio de coral semanalmente – e, então, se estou disponível, um pouco de vida retirada, um pouco monástica, porque se um padre quer fazer algum bem, ele não deve permanecer por muito tempo no meio das coisas. Don Stefano e eu compartilhamos uma grande fraternidade sacerdotal – e ele também voltou à Missa Tradicional, que ele celebra para os fiéis na capela do hospital em Domodossola: trata-se também de uma fraternidade efetiva, vendo que os nossos fiéis partilham muitos momentos juntos. Tudo isso resultou em um Boletim e um sítio na Internet, que falam de nossa vida.

Quantos fiéis freqüentam a Missa? Não sei. O número varia. Pode chegar a 120 aos domingos durante o verão, no inverno o número cai, devido à distância e o local. Porém, aprendi a não contar: os reis de Israel foram punidos quando realizaram um recenseamento!

P. Como o senhor vê a recente instrução “Universae Ecclesiae” sobre o uso do Missal Antigo?

R. Ela reafirmou que a Missa de sempre nunca foi proibida e que ela não pode ser proibida. Porém, aqueles que não querem reconhecer isso continuarão a “embaralhar todas as cartas.”

27 julho, 2012

Índole pastoral do Vaticano II: uma avaliação.

Apresentamos a tradução da preleção de Monsenhor Brunero Gherardini no Congresso sobre o Vaticano II realizado em Roma, em dezembro de 2010, pelos Franciscanos da Imaculada.

Por Monsenhor Brunero Gherardini

Fratres in Unum.com | Com a generosa contribuição de Gederson Falcometa - Era uma vez a ave Fênix. Todo mundo falava dela, mas nunca ninguém a havia visto. E hoje há uma versão sua aggiornata, da qual todos também falam e ninguém sabe dizer do que se trata: chama-se Pastoral.

1 – A Palavra – Sejamos bem claros: a palavra em si não é um problema, sendo evidente a sua derivação de pascere: verbo que vem do latim pabulum (pasto, alimento), da qual surge uma família não muito numerosa, mas bem identificável em seus componentes: pascere, precisamente, no sentido de conduzir à pastagem e dar de comer; pastum, do qual uma clara tradução é o italiano pasto [alimento, comida], mas que também pode se traduzir com cibo [pasto, comida] ; pastor, indicando que conduz ao pabulum, dá alimento e mantém rebanhos e manadas. Pastor se torna, por sua vez, o pai de pastoricia ars, em italiano pastorizia, ou a arte de quem cria animais; de pastura, com o significado de pasto aberto, e de pastu — ou pastoral, já presente no latim tardio para descrever o “vestuário, os alimentos, os costumes, a linguagem do pastor. Não descende, todavia, a pasteurização, ou procedimento de conservação de elementos líquidos, como o leite, porque a palavra vem do francês pastoriser, derivando por sua vez de L. Pasteur (1822-1895), seu inventor.

[...] [O termo] Pastoral entrou cedo no jargão eclesiástico, para qualificar três das cartas paulinas, ou a atividade dos evangelistas e de seu ensino, ou as insígnias episcopais, como o anel, o báculo, as cartas. Mais recente, mas não moderno, é o uso de pastoral em referência à teologia e com abordagem não-dogmática; originalmente, de fato, foi anti-dogmático. Aos que desconhecem o jargão eclesiástico, no entanto, um homem da média cultura muito facilmente associará pastoral à mocinha da poesia arcádica, à composição poética de origem provençal e de conteúdo amoroso, à écloga virgiliana, à tragédia “Aminta” de T. Tasso e à música de caráter simples e terno, com específica tipificação na “sexta” de Beethoven.

2 – O termo no Vaticano II - Depois de um espectro semântico de tal amplitude, a alusão à desconhecida e invisível ave fênix poderia parecer insustentável por evidente contradição. A não ser que o condicional “poderia” esteja neutralizado pela ausência, nos documentos conciliares, de uma razão suficiente que o justifique. Digo “razão suficiente”, porque se dissesse que nos documentos conciliares está ausente a “palavra”, daria demonstração de uma ignorância crassa e imperdoável do Vaticano II. A “palavra” não só existe, mas é abundante; na realidade, caracteriza o Vaticano II em sua especificidade de Concílio ecumênico diante dos vinte Concílios que o precedem. O Vaticano II fala, de fato, de ação pastoral em gênero, e mais diretamente de atividades pastorais;  identifica várias necessidades pastorais e, diante delas, pede a instituição e a recíproca colaboração de vários subsídios pastorais, não deixando de assinalar entre estes o planejamento e organização de “cursos, congressos, centros com bibliotecas conexas destinadas aos estudos pastorais, a serem confiados a pessoas altamente capazes”. A fim de expandir no mais amplo raio possível a sensibilidade pastoral e os conhecimentos conveninentes, o Vaticano II obriga os bispos a “estudar isoladamente ou em nível interdiocesano o melhor sistema” que assegure aos presbíteros, “sobretudo alguns anos após sua ordenação”, o adequado aprofundamento dos métodos pastorais. Dado que uma forte contribuição para a ação apostólica da Igreja pode vir também dos leigos, o Concílio convida aos bispos a escolher “sacerdotes dotados das qualidades necessárias e convenientemente formados”, que, por sua vez, dêem uma formação adequada aos leigos para então confiar suas especiais tarefas de ação pastoral. E porque “a unidade de propósito entre padres e Bispo torna sempre mais fecunda sua atividade pastoral”, encoraja-se uma periódica reunião do clero, estendida também a outros membros do organismo eclesial, “para tratar de questões pastorais”.

Às Conferências Episcopais de cada nação, recomenda-se calorosamente a atenção e promoção da formação pastoral do clero mediante “institutos pastorais em colaboração com paróquias oportunamente escolhidas, congressos periódicos, exercícios apropriados”. Não se podia evitar um chamado à “competente autoridade eclesiástica territorial” para o estabelecimento de um instituto “de pastoral litúrgica” que se valha de “especialistas em liturgia, música, arte sacra e pastoral”.

Estes dados demostram que a ave fênix está em casa no Vaticano II, mas o Vaticano II não disse o que é ou quem ela é.

Aquele que “governa e apascenta o povo de Deus” é, ademais, instigado a encarnar o Bom Pastor “que dá a vida por suas ovelhas (Jo 10:11)” e a seguir “o exemplo daqueles padres que também em nosso tempo não hesitaram a sacrificar-se a si mesmos pelo próprio rebanho”. Em suma, ao exortar o clero a se fazer dia após dia instrumento de um serviço sempre mais idôneo para o povo de Deus, o Vaticano II declara explicitamente que a sua finalidade pastoral se compromete com “uma renovação interna da Igreja, a difusão do evangelho em todo o mundo e no estabelecimento de uma relação dialógica com este”. Uma tal finalidade corresponde, evidentemente, a uma ideia de fundo, a uma noção de pastoral ao menos rudimentar e tão logo ofuscada: relação dialógica com o mundo da parte de uma Igreja renovada em seus métodos de evangelização e de apostolado. Aqui, um pouco vagamente, a ave fênix começa a se fazer conhecida.

Tal e tamanha insistência não surpreende. É, antes, um sinal de docilidade e fidelidade às linhas mestras que o Papa Roncalli, em 11 de outubro de 1962, apresentou aos Padres abrindo oficialmente a grande Assembléia conciliar: ao colocar a doutrina em primeiro lugar nos trabalhos conciliares, diversificou sua metodologia com relação ao passado. Antes, a Igreja não evitava a condenação, severa e firme. Hoje, à severidade prefere o remédio da misericórdia. Para o Papa Roncalli, então, especialmente diante de uma humanidade presa a tantas dificuldades, a Igreja deveria mostrar o rosto bom, benévolo, paciente da Mãe, fomentar a promoção humana expandindo os espaços da caridade, difundir a serenidade, paz, harmonia e amor. Desta forma, as características da ave fênix, embora permanencendo ainda indefinidas, se confundem com as da mãe paciente e boa.

Confirmando a orientação de Roncalli, o Papa Paulo VI, na homilia de 07 de dezembro de 1965, por ocasião da nona sessão do Concílio, declarou que a Igreja traz em seu coração, junto com o reino dos céus, o homem e o mundo, e mais, está toda a serviço do homem e do mundo, sendo íntima a ligação entre a religião católica e a vida humana, a ponto que a religião católica pode se dizer a própria vida do homem e do gênero humano graças à sua sublimedoutrina, ao cuidado materno com que acompanha o homem ao seu fim último e aos meios que lhes dá para que possam alcançá-lo. Enésima declaração de propósitos pastorais que, mantendo-se dentro dos limites do genérico, ainda não revelam o rosto ou as feições da ave fênix.

No entanto, não há nenhuma dúvida e nenhuma discussão sobre a pastoralidade do Concílio. O Vaticano II não foi, apenas porque não deveria sê-lo, um Concílio dogmático e, considerando tudo, nem mesmo disciplinar. Quis apenas ser pastoral. E mesmo assim, apesar das muitas intervenções internas e externas, o verdadeiro significado de sua declarada pastoralidade ainda está debaixo de um nevoeiro.

3 – Um conceito não definido – Pouco acima, indiquei as facetas da pastoralidade conciliar. A pastoral como adjetivo qualificativo ou como adjetivo substantivado dá, na verdade, dezenas e dezenas de voltas. Nenhuma, porém, para lhes dar, senão a definição, ao menos um indício de explicação. Reconheço que, analisando criticamente as diversas declarações, é possível ter uma vaga idéia; mas, no entanto, não seria uma expressão direta do ensinamento conciliar.

O exemplo mais probatório é dado pela Gaudium et Spes, qualificada como “Constituição Pastoral”, sendo inteiramente um fermento intelectual e proativo em favor do homem, da sua liberdade e dignidade, da sua presença na família, na sociedade, na cultura e no mundo, com o objetivo de conferir à vida privada e pública um sopro e uma dimensão à medida do homem. A união das duas palavras-chaves – Constituição Pastoral – é a mais recente novidade de todo o Vaticano II; o foi para os próprios Padres conciliares que, antes de aprová-la, discutiram várias outras denominações. A única justificativa para a união está na nota que acompanha o incomum documento, definido como “pastoral” seja porque, “baseado em princípios doutrinais, pretende apresentar a atitude da Igreja em relação ao “mundo e aos homens de hoje”, ou porque atitude e princípios doutrinais permeiam um ao outro. Se deveria inferir que a atitude em questão é sempre a aplicação e a tradução prática dos princípios doutrinários. Mas permanece um problema, a descobrir a origem: talvez dos princípios sociológicos, políticos, econômicos, mas, pelo menos diretamente, não dos princípios evangélicos.

A referência ao homem e ao mundo recorda de ambos a finitude original, a condição de criaturas, a temporalidade, o dinamismo, o constante evoluir, sobre o quais paira a espada de Dâmocles de uma sempre possível involução. Isto evidencia suas condições variáveis e contingentes, mas também a problematicidade da aplicação prática desses princípios doutrinais que são em grande parte absolutos irreformáveis.

Também a nota adverte uma tal aporia e a assinala; mas não a resolve. Antes, a complica no exato momento no qual estabelece que “a Constituição deverá ser interpretada segundo as normas gerais da hermenêutica teológica, tendo em conta… as circunstâncias mutáveis intrinsecamente conexas às matérias tratadas”. Na realidade, se a pastoral devesse consistir nesse balé de dizer sim-e-não, uma definição sua seria impossível. Diz-se que ao contingente vai aplicada a indiscutibilidade da doutrina; mas se essa aplicação reduzisse a doutrina à contingência, ou tornasse indiscutível e absoluto o contingente, perverteria um e outro elemento: o sim de mãos dadas com o não. Compreendo porque, já na Aula conciliar, Gaudium et Spes foi o texto mais discutido e mais obstaculizado, para o qual pouco valeu a sua designação a comissões e subcomissões, como também a passagem por bem quatro reformulações: a dificuldade, para chegarmos no limite da presunção, está na afirmação simultânea do sim e do não.

E talvez dependesse desta aporia não resolvida a problemática que ainda acompanha, após cerca de meio século de pós-concílio, todo discurso sobre a pastoral. Na prática, ela serve para legitimar um pouco de tudo e o seu próprio contrário. As duas hermenêuticas conciliares, as quais frequentemente se referiu a análise do Santo Padre, aquela que faz do Vaticano II o início de um novo modo de ser Igreja e aquela que, pelo contrário, o conecta à Tradição eclesial vivente, são ambas legitimadas pela aporia não resolvida. Nas duas hermenêuticas, na realidade, o Vaticano II:

  1. assume, no âmbito doutrinário, a aparência e o valor de um Concílio dogmático: uma [corrente] faz dele um super Concílio, enquanto a outra faz dele a síntese doutrinal de todos os concílios precedentes;
  2. no âmbito pastoral, ele surge como um recipiente sem diferenciação pela sua própria qualidade de pastoral, uma espécie de “franco atirador” ao qual, por razões pastorais, é concedido dizer simultaneamente o sim e o não.

Se impõe, sobre este ponto, um juízo sereno e objetivo sobre a qualidade geral do Vaticano II, que apressada e ingenuamente foi encerrado na área pastoral.

4 – Os quatro níveis do Vaticano II – Quem tem familiaridade não só com a Gaudium et Spes, mas com todos os dezesseis documentos conciliares, tem consciência de que a variedade temática e a co-respectiva metodologia colocam o Vaticano II sobre quatro níveis, qualitativamente distintos:

  1. o genérico, do Concílio ecumênico enquanto Concílio ecumênico;
  2. o específico, do âmbito pastoral;
  3. o nível do evocar outros Concílios;
  4. e os das inovações.

No âmbito genérico, o Vaticano II satisfaz todas as condições para ser um autêntico Concílio da Igreja Católica; o 21º da série. Provém dele um magistério conciliar, isto é, supremo e solene. O que, por si mesmo, não depõe pela dogmaticidade e infalibilidade de suas assertivas; antes, nem mesmo a comporta, tendo, de início, afastado-a de seu próprio horizonte.

No âmbito especifico, a qualificação de pastoral lhe justifica os vastíssimos interesses, dos quais não poucos excedem o âmbito da Fé e da teologia: por exemplo, a comunicação social, a tecnologia, o eficientismo da sociedade contemporânea, a política, a paz, a guerra, a vida econômico-social. Mesmo este nível pertence ao ensinamento conciliar e é, então, supremo e solene, mas não pode reivindicar, pela matéria tratada e pelo modo não dogmático de tratá-la, uma validade por si infalível e irreformável.

A evocação de alguns ensinamentos dos Concílios precedentes constituem o terceiro nível. É uma evocação por vezes direta e explícita (LG 1: “praecedentium Conciliorum argumento instans”; LG 18: “Concili Vaticani primi vestigia premens”; DV 1: “Conciliorum Tridentini et Vaticani I inhaerens vestigis”), por vezes indireta e implícita, que recorda a verdade já definida: por exemplo, a natureza da Igreja, a sua estrutura hierárquica, a sucessão apostólica, a jurisdição universal do Papa, a encarnação do Verbo, a redenção, a infalibilidade da Igreja e do magistério eclesiástico, a vida eterna dos bons e a eterna condenação dos maus. Sob este aspecto, o Vaticano II goza de uma incontestável validade dogmática, sem ser por isso um Concílio dogmático, sendo sua uma dogmaticidade de reflexo, própria dos textos conciliares citados.

As inovações constituem o quarto nível. Se olharmos para o espírito que guiou o Concílio, seria possível afirmar que o Vaticano II foi todo ele um quarto nível, animado como era de um espírito radicalmente inovador, mesmo onde buscava o seu enraizamento na Tradição. Algumas inovações são, porém, específicas: a colegialidade dos bispos, o absorvimento da Tradição na Sagrada Escritura, a limitação da inspiração e inerrância bíblica, as estranhas relações com o mundo hebraico e islâmico, o irromper da assim chamada liberdade religiosa. Por fim, é muito claro que, se existe um nível ao qual a qualidade dogmática absolutamente não é reconhecível, é propriamente este das novidades conciliares.

5 – Conclusão – A adesão ao Vaticano II é, pelo acima exposto, qualitativamente distinta. Enquanto todos os quatro descritos níveis exprimem um magistério conciliar, todos os quatro colocam ao individuo e à comunidade cristã-católica o dever de uma adesão que não necessariamente será sempre “de Fé”. Esta só vale para as verdades do terceiro nível e apenas enquanto provêm de outros Concílios, seguramente dogmáticos. Aos outros três níveis, é necessário reservar uma religiosa e respeitosa acolhida, até que qualquer uma de suas assertivas não se choque contra a perene atualidade da Tradição por evidente ruptura com o “eodem sensu eademque sententia” de qualquer variante formal sua. O dissenso neste caso, particularmente quando sereno e fundamentado, não caracteriza nem heresia, nem erro. Quanto ao segundo nível, aquele pastoral, como observei na nota n.19, é necessário pensar que os Padres conciliares não conheceram a hipoteca iluminista paga por eles mesmos com a abertura do Concílio a uma pastoral que, desde o começo, segundo a lógica iluminista da qual dependia, havia expulsado a Deus para substituí-lo pelo homem e por vezes para identificar no homem o próprio Deus. Foi, de fato, a pastoral do século XVIII quem deu as costas para as motivações, as fontes, os conteúdos e o método da teologia dogmática. E para abrir as portas da fortaleza teológica ao primado do natural, do racional, do temporal e do sociológico.

Com isto não digo, absolutamente, que a pastoral do Vaticano II seja a mesma pastoral do século XVIII. Mas seria ingênuo ou desinformado quem, para não afirmar-lhe a identidade, negasse todo o seu parentesco. Também no Vaticano II a matriz da pastoral permaneceu aquela iluminista, embora diversamente expressa e motivada. Coube a Paulo VI retirá-la da areia movediça do iluminismo e, na abertura do segundo período conciliar, transferí-la para uma esfera romântica, para fazer dela “uma ponte para o mundo contemporâneo”, comunicando a ele “a sua vitalidade interior… como fenômeno vivificante e instrumento de salvação do próprio mundo”. A ave fênix tornava-se assim uma ponte, um coeficiente de vida, um instrumento de salvação. Sem perder, porém, o seu parentesco com a matriz iluminista, através da inspiração neomodernista dos seus apoiadores. Não à toa, a partir de uma teologia pastoral assim entendida tem origem a secularização que, mais tarde, triunfará na presente fase pós-conciliar. E se da ignorância dos seus precedentes depende a indecisa noção de pastoralidade, de seu originário parentesco com eles dependeria o absurdo da dogmática de um concílio que se auto-definiu simplesmente pastoral. A ave fênix, dessa forma, revela o seu rosto. Somando tudo isto, teria sido melhor se ela tivesse continuado a escondê-lo.

Brunero Gherardini

20 junho, 2012

O Leão de Campos e a Igreja de Deus.

No aniversário de Dom Antônio de Castro Mayer, publicamos seu artigo de 1985: