Archive for ‘Tradição’

26 setembro, 2014

25 de setembro – Há dez anos morria Michael Davies.

Por FSSPX Alemanha | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com: Há dez anos, precisamente no dia 25 de setembro de 2004, morria Michael Davies. O professor britânico fazia parte das grandes personalidades leigas da resistência contra a reforma litúrgica e dos jornalistas corajosos que defendiam a Tradição católica na confusão pós-conciliar.

daviesConverso [do anglicanismo], nasceu em 1936, e amou sua Igreja. Através de seus muitos livros e escritos ele abriu os olhos de muitos católicos, não apenas no âmbito anglo-saxão, a respeito da crise na Igreja.

A voz daquele que presidiu a Federação Internacional Una Voce durante muitos anos foi ouvida.

Em sua obra “Apologia pro Marcel Lefebvre”, defendeu o Arcebispo contra o ataque dos progressistas.

Não poucos padres da Fraternidade São Pio X eram amigos dele.

Requiescat in pace!

 

13 junho, 2014

Requinte, elevação, nobreza.

Por Pe. David Francisquini

Nosso Senhor Jesus Cristo comparou a Igreja a uma minúscula semente de mostarda que ao vicejar se enche de tal vigor que os pássaros podem se aninhar em seus ramos. A metáfora representa a potência e a expansão da Igreja ao deitar suas raízes em todos os campos da atividade humana.

Corpo Místico de seu divino fundador, dentro dessa fortaleza só pode haver requinte, elevação, nobreza, predicados próprios do Deus humanado. Razão sem dúvida sobejamente forte para que seus ministros se identifiquem com os hábitos e as indumentárias que lhe são próprios.

Pousam sobre os sacerdotes os desígnios de Deus. Ao se apresentarem em público, seus predicados – internos ou externos – ajudam-nos sem dúvida a ser reconhecidos pelo rebanho fiel, que poderá assim ser mais facilmente conduzido ao redil, para se arrepender de suas faltas.

O sacerdote não pode se confundir com a massa, pois ele é o fermento que a leveda. Na epístola aos Hebreus, São Paulo recomenda ao candidato a ministro de Deus que, além da vocação, se compadeça dos que estão na ignorância e no erro, porque também ele está cercado de fraquezas. Por isso deve oferecer sacrifícios, tanto pelos seus pecados quanto pelas culpas do povo fiel.

Se o hábito não faz o monge, pelo menos ajuda enormemente a tornar mais digno o homem consagrado a Deus. Até o Concílio Vaticano II, o hábito talar – ou seja, a batina que desce ao calcanhar – caracterizava todo sacerdote católico. Infelizmente ele foi desprezado, juntamente com toda a hierarquia de valores que representava.

Bispos Leste2 – Vista de Limina – 2010, de acordo com os novos rumos e ventos

Bispos Leste2 – Vista de Limina – 2010, de acordo com os novos rumos e ventos

As consequências aí estão: incontáveis apostasias, tanto nas fileiras do clero quanto entre os católicos. E compreende-se, pois sem esta barreira que separava o padre do mundo, ele se tornou mais vulnerável às nefastas influências deste; e ao verem o padre igualado a si mesmos os fieis se desedificaram.

Por ocasião da convocação do referido Concílio, os bispos, cardeais, metropolitas e patriarcas partiram revestidos de suas respeitáveis indumentárias que transcendiam requinte e esplendor. A pompa com a qual se apresentaram foi objeto de admiração por parte dos fieis do mundo inteiro. Mas ao findar a primeira fase daquela Magna Assembleia, voltaram às suas dioceses despojados dos trajes que os elevavam em dignidade e nobreza, além da respeitabilidade própria desses atributos.

Magna Assembleia Conciliar decide os novos rumos da Igreja

Não há dúvida de que as vestes eclesiásticas faziam parte da vocação, do chamado divino que desperta nas almas o sobrenatural, reaviva nelas a fé, a consciência do bem e do mal, produzindo sentimentos de arrependimento e de propósitos a ponto de se poder exclamar que Deus vive entre nós por meio do padre.

A presença de um sacerdote virtuoso e bom dá conforto, segurança, equilíbrio, convida a pensar em Deus e a viver com vistas à vida eterna. Diante da investida protestante do século XVI, o Concílio de Trento determinou que os clérigos portassem sempre o hábito talar, como manifestação de honestidade interior dos costumes.

São Pio X

Infelizmente, a dessacralização na Igreja já se fazia sentir no início do século XX entre os modernistas, que bradavam contra o “triunfalismo da batina” e queixavam-se do requinte e da grandeza das insígnias reais dos Papas. Com santa justiça foram eles condenados por São Pio X.

Por natureza e sagração, o sacerdote é outro Cristo. E seu instrumento para difundir a graça e o perdão. Isso pode ser visto, por exemplo, quando ele se aproxima de um moribundo que se contorce de dor e preocupação em face da eternidade. O agonizante se recompõe, a paz e a tranquilidade passam a reinar em seu coração.

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(*) Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria — Cardoso Moreira (RJ).

9 junho, 2014

“El Padrecito” correndo pela coroa imperecível.

Por Tim Brady – The Remnant | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com – Os Raramuri são uma tribo de americanos nativos que habitam uma região montanhosa extremamente escarpada na parte ocidental de Chihuahua, na República do México. As pessoas de fora da tribo habitualmente os chamam de “Tarahumara” e as montanhas que eles habitam são chamadas de “Sierra Tarahumara.” Uma parte integrante da cultura dos Raramuri consiste em correr. Para os Tarahumara, a corrida é mais do que simplesmente um esporte, embora certamente o seja. Para eles, ela também está entrelaçada com suas crenças e cerimônias religiosas indígenas.

Padre Michael Rodríguez.

Padre Michael Rodríguez.

Os Tarahumara não são nativos dessas montanhas. Nos tempos pré-colombianos eles habitavam as áreas menos inóspitas e mais férteis que se estendiam pelas planícies a leste dessas montanhas. Pressões por parte de colonizadores europeus e mestiços que se mudaram para essas áreas forçaram os Raramuri a adentrar essas regiões atuais, e eles se adaptaram bastante bem. Em grande parte eles dependem da agricultura de subsistência para sobreviver. A seca e a fome que lhe acompanha são um cenário familiar para esse povo.

Eles não costumam viver em cidades, ou até mesmo em pequenos vilarejos; preferem viver em “ranchitos”, que consistem em algumas poucas famílias vivendo bem próximas umas das outras. Em geral, esses ranchitos estão localizados em áreas tão remotas e tão íngremes que só podem ser alcançados a pé sobre trilhas estreitas não recomendadas para os fracos de coração. Essas trilhas frequentemente são quase verticais ou serpenteiam ao longo da beira de precipícios muito acima dos 300 metros. A própria natureza de suas condições de vida faz com que os Tarahumara sejam excelentes corredores.

27 dezembro, 2013

Apologia da Tradição (I): Apresentação – A crise Ariana do século IV.

Lançado em 2011 na ItáliaApologia da Tradição – Post-scriptum do livro O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita chega agora ao Brasil pela editora Ambientes e Costumes que, muito gentilmente, concedeu ao Fratres in Unum.com a exclusiva honra de divulgar alguns excertos deste trabalho.

978-85-61749-37-8 - Apologia da Tradicao_webO sucesso da publicação do livro “O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita” suscitou um vivo debate. Roberto De Mattei, desejoso de aprofundar o tema, oferece neste seu novo trabalho elementos de reflexão histórica e teológica sobre os temas desse debate. Pode-se discutir pessoas e acontecimentos que pertençam à história da Igreja, trazendo à luz eventuais limites e sombras? Pode-se dissentir (Quando? Em que medida?) das decisões da suprema Autoridade eclesiástica? Qual é a regula fidei da Igreja nas épocas de crise e confusão?

Para o autor, o principal caminho a reencontrar é a Sagrada Tradição, da qual, neste volume faz uma documentada apologia.

Com base na teologia mais segura, como o é aquela da Escolástica (e de São Tomás de Aquino em particular), da Contrarreforma e da Escola Romana dos séculos XIX e XX, a qual se estende até o XXI graças à extraordinária figura de Monsenhor Brunero Gherardini, e com base no Magistério dos Sumos Pontífices, de Mattei se faz repetidor da posição da Tradição da Igreja, aquela que a torna Santa e Imaculada. Este estudo é a melhor resposta para aqueles que buscaram confutar, com argumentos pobres e às vezes mesquinhos, a obra O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita, que valeu ao seu autor o Prêmio Acqui Storia 2011.

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Athanasius Contra Mundum: Rebelde, Fanático e fora da comunhão com Roma.

Ario, padre de Alexandria, afirmava que o Verbo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, não era igual ao Pai, mas criado por Ele como meio termo entre Deus e o homem, e, portanto, tinha substância diversa da substância divina do Pai. Constantino convocou no ano 325, em Niceia, o primeiro grande Concílio ecumênico da Igreja. Graças à contribuição decisiva de Santo Atanásio, bispo de Alexandria, ali foi definida a doutrina da “consubstancialidade” de natureza entre as três pessoas da Santíssima Trindade.

Mal haviam transcorrido dez anos do Concílio de Niceia, o arianismo já havia penetrado profundamente no seio da Igreja, tanto que duas assembleias de bispos, em Cesareia e Tiro (334-335), condenaram Atanásio por rebelião e fanatismo. O paladino da ortodoxia da Fé foi deposto de sua cátedra episcopal, sendo-lhe proibido pisar no chão de Alexandria, pelo resto da vida. Entre o “partido” intransigente de Atanásio e o partido dos arianos surgiu um “terceiro partido”, o dos “semi-arianos”. Estes, divididos, por sua vez, nas seitas dos Anomei, dos Omei e dos Omoiusiani, que reconheciam alguma analogia entre o Pai e o Filho, mas negavam que este fosse “gerado, não criado, consubstancial ao Pai”, como afirmava o Credo de Niceia.

Santo Atanásio.

Santo Atanásio.

Atanásio foi duramente perseguido pelos seus próprios confrades, e por cinco vezes, entre 336 e 366, foi obrigado a abandonar a cidade da qual era bispo, vivendo longos anos no exílio e enfrentando lutas extenuantes em defesa da Fé. No ano 341, enquanto um Concílio de 50 bispos, em Roma, proclamava Atanásio inocente, o grande Concílio da dedicação a Antioquia, do qual participaram mais de 90 bispos, ratificou os atos dos sínodos de Cesareia e de Tiro, e elegeu um ariano para a sede episcopal de Atanásio. As fórmulas de Fé desse Concílio, segundo o cardeal Hergenröther, “nada continham de herético; mas também não proclamavam inteiramente a verdade católica”.

O subsequente Concílio de Sardica, no ano de 343, terminou com uma cisão. Os Padres ocidentais declararam ilegal a deposição de Atanásio e revalidaram o Concílio de Niceia; por sua vez, os orientais que se reuniram paralelamente, condenaram não apenas Atanásio, mas também o papa São Júlio I (337-352), que o tinha apoiado. Constâncio, único titular do Império depois da morte dos irmãos, sob a influência de seus conselheiros semi-arianos, reuniu uma série de novos sínodos para destruir a heresia dos que apoiavam o Concílio de Niceia. O Concílio de Sírmio, no ano 351, procurou um meio termo entre a ortodoxia católica e o arianismo. No Concílio de Arles, em 353, os Padres conciliares, incluindo o legado do Papa Libério (352-366) que havia sucedido a São Júlio I, subscreveram a condenação de Atanásio. São Paulino, o bispo de Trier, foi praticamente o único que lutou pela Fé de Niceia e foi exilado na Frígia onde morreu em seguida sob os maus tratos recebidos dos arianos. Dois anos depois, no Concílio de Milão (355), mais de trezentos bispos do Ocidente subscreveram a condenação de Atanásio e do outro Padre ortodoxo, Santo Hilário de Poitiers, também este banido na Frígia em razão de sua intransigente fidelidade à ortodoxia. Em 357, o Papa Libério, vencido pelos sofrimentos do exílio e pela intransigência dos seus amigos, mas igualmente movido pelo “amor à paz” subscreveu a fórmula semi-ariana de Sírmio. Rompeu a comunhão com Santo Atanásio e o declarou separado da Igreja de Roma em decorrência da adoção do termo “consubstancial”, como nos atestam quatro cartas enviadas por Santo Hilário. Sob o pontificado do próprio Papa Libério, os concílios de Rimini (359) e de Selêucia (359), que constituíram um único grande Concílio representando o Ocidente e o Oriente, abandonaram o termo “consubstancial” de Niceia e criaram uma equívoca “terceira via” entre os arianos e Santo Atanásio. Parecia que a heresia difundida tinha vencido a Igreja.

São Roberto Bellarmino não considera herege o Papa Libério, ainda que admita que ele pecou em seu comportamento externo, favorecendo a heresia. Os Concílios gêmeos de Selêucia e de Rimini, convocados pelo Imperador e tidos como ecumênicos, como o de Niceia (325), hoje são enumerados pela Igreja entre os oito concílios ecumênicos da Antiguidade. Eles contaram com aproximadamente 560 bispos, a quase totalidade dos Padres da Cristandade e foram tidos como ecumênicos pelos contemporâneos. Escreve Hergenröther: “os perseguidores da Igreja não eram mais inimigos externos, mas os seus seguidores, os seus filhos. A aparência oficial contrastava em tudo com a realidade. Foi então que São Jerônimo cunhou a expressão segundo a qual ‘o mundo gemeu e, com estupor, se deu conta de ter se tornado ariano’”. Contudo, a Igreja continuava a ser não só una et sancta mas catholica, isto é universal, porque universal permanecia a sua mensagem, capaz de reunir todos os homens e todas as gentes, ainda quando eles se distanciavam dela como aconteceu durante a crise.

Somente o Concílio de Constantinopla, convocado pelo Imperador Teodósio o Grande, no ano 381, sob o papa São Dâmaso (367-384), assinalou o fim do arianismo no Império. Ele definiu que o Espírito Santo é verdadeiramente Deus, como o Filho e o Pai. Apesar de não tê-lo convocado, Dâmaso confirmou os cânones do Concílio, exceto o terceiro, porque lesivo aos direitos da Igreja de Roma. O Concílio de Constantinopla foi, pois, reconhecido como o segundo dos Concílios ecumênicos. Graças ao Imperador Teodósio, o Cristianismo foi declarado religião do Estado. A obra iniciada com a vitória de Constantino em Saxa Rubra, no dia 28 de outubro de 312, pôde dizer-se verdadeiramente cumprida.

Santo Ambrósio havia enunciado o sacrossanto princípio Ubi Petrus, ibi Ecclesia, mas quem quisesse seguir este princípio ao pé da letra, naquela época, teria acompanhado o erro de Libério e abandonado a ortodoxia. “Pedro” é a instituição imutável, não o homem, que pode errar. No espaço de sessenta anos decorridos entre o Concílio de Niceia e o Concílio de Constantinopla, o Magistério vivo da Igreja cessou de reafirmar com clareza a verdade católica, sem jamais contudo cair em heresia formal. Teria cessado por isso o Espírito Santo de assistir a Igreja? Não, porque a Fé foi mantida por uma minoria de santos e indômitos bispos, como Atanásio de Alexandria, Hilário de Poitiers, Eusébio de Vercelli e, sobretudo, pelo povo fiel que não acompanhava as diatribes teológicas, mas conservava, pelo simples sensus fidei, a boa doutrina.

Apologia da Tradição, Roberto De Mattei, páginas 25 a 28, Ambientes & Costumes Editora, 2013, São Paulo

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Roberto de Mattei nasceu em Roma, em 1948. Formou-se em Ciências Políticas na Universidade La Sapienza. Atualmente, leciona História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, no seu departamento de Ciências Históricas, de que é o diretor. Até 2011, foi vice-presidente do Conselho Nacional de Investigação de Itália e, entre 2002 e 2006, foi conselheiro do Governo italiano para questões internacionais. É membro dos Conselhos Diretivos do Instituto Histórico Italiana para a Idade Moderna e Contemporânea e da Sociedade Geográfica Italiana. É presidente da Fundação Lepanto, com sede em Roma, e dirige as revistas Radici Cristiane e Nova Historica e colabora com o Pontifício Comitê de Ciências Históricas. Em 2008, foi agraciado pelo Papa com a comenda da Ordem de São Gregório Magno, em reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à Igreja.

Onde encontrar:  Editora Ambientes e Costumes – R$ 30,00

14 fevereiro, 2013

Aos 45 do segundo tempo.

Fratres in Unum.comFontes seguras dão conta de que Dom Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, teria enviado, no início de janeiro, uma carta a Dom Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, instando-o a aceitar a última versão do “preâmbulo doutrinal”, aprovada em junho do ano passado — aquela com acréscimos de última hora e sem a anuência da Fraternidade, que fizeram com que ela, inclinada inicialmente a aceitar a proposta, revisse sua posição.

O “ultimato” de Dom Müller teria como data limite a festa da Cátedra de São Pedro, no próximo dia 22, e estaria recheado de duras ameaças. O tom conciliador da carta enviada em dezembro por Dom Joseph Augustine di Noia, que também assina o “ultimato”, não durou, portanto, mais do que um mês. Caso não houvesse aceitação por parte da FSSPX como um todo, a Santa Sé faria a proposta de regularização canônica a cada sacerdote pertencente à FSSPX individualmente.

A iniciativa de Müller e Di Noia não considerava, provavelmente, a súbita renúncia pontifícia, que coloca a FSSPX de sobreaviso — ainda mais — contra uma Cúria Romana dilacerada por intrigas.

Em entrevista à rede americana NBC, o irmão de Bento XVI, Monsenhor George Ratzinger, afirmou que dois assuntos em particular afligiam seu irmão: “Dentro da Igreja, muitas coisas aconteceram que geraram problemas, por exemplo, a relação com a Fraternidade Pio [X] ou as irregularidades dentro do Vaticano, onde o mordomo vazou indiscrições”.

Este talvez seja o contexto para interpretar apropriadamente as palavras do Papa em sua última homilia, pronunciada ontem, na Basílica de São Pedro: “Penso em particular nos pecados contra a unidade da Igreja, das divisões no corpo da Igreja. Viver a quaresma de maneira mais intensa e em evidente comunhão eclesial, superando o individualismo e a rivalidade é um sinal humilde e precioso”. ‘Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação’ (2 Cor 6:2). As palavras do Apóstolo Paulo aos cristãos de Corinto ressoam para nós com uma urgência que não permite ausência ou inércia. O termo ‘agora’ é repetido e não pode ser perdido, é oferecido como uma oportunidade única”.

31 outubro, 2012

“Tradidi quod et accepi”.

Ao lembrar a liturgia do Batismo, notamos que, na conclusão das promessas em que expressamos a renúncia ao mal e repetimos “creio” na verdade da fé, o celebrante declara: “Esta é a nossa fé, esta é a fé da Igreja e nós nos glorificamos de professá-la em Cristo Jesus Nosso Senhor”. A fé é virtude teologal, doada por Deus, mas transmitida pela Igreja ao longo da história. O próprio São Paulo, escrevendo aos Coríntios, afirma ter comunicado a eles o Evangelho que por sua vez também ele tinha recebido (cfr 1 Cor 15,3).

Há uma cadeia ininterrupta de vida da Igreja, de anúncio da Palavra de Deus, de celebração dos sacramentos, que vem a nós e que chamamos de Tradição. Isso nos dá a garantia de que aquilo em que acreditamos é a mensagem original de Cristo, pregada pelos apóstolos. O núcleo do anúncio primordial é o evento da morte e ressurreição do Senhor, da qual brota toda a herança da fé. Diz o Concílio: “A pregação apostólica, que está expressa de modo especial nos livros inspirados, devia ser repassada com sucessão contínua até o fim dos tempos” (Constituição dogmática. Dei Verbum, 8). Deste modo, se a Bíblia contém a Palavra de Deus, a Tradição da Igreja a preserva e a transmite com fidelidade, para que os homens de cada época tenham acesso a seus vastos recursos e se enriqueçam com seus tesouros de graça. Assim, a Igreja, “em sua doutrina, em sua vida e em seu culto transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo em que acredita” (ibid.).

Finalmente, gostaria de salientar que é na comunidade eclesial que a fé pessoal cresce e amadurece. É interessante notar que no Novo Testamento, a palavra “santos” se refere a cristãos como um todo e, certamente, nem todo mundo tinha as qualidades para ser declarado santo pela Igreja. O que se queria indicar, então, por este termo? O fato de que aqueles que viviam a fé no Cristo ressuscitado eram chamados a se tornar um ponto de referência para todos os outros, colocando-os em contato com a Pessoa e a Mensagem de Jesus, que revela o rosto do Deus vivo. E isso vale também para nós: um cristão que se deixa guiar e plasmar pouco a pouco pela fé da Igreja, apesar de suas fraquezas, suas limitações e suas dificuldades, torna-se como uma janela aberta à luz do Deus vivo, que recebe essa luz e a transmite ao mundo.

Da catequese do Papa Bento XVI sobre a Fé da Igreja – 31 de outubro de 2012.

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16 outubro, 2012

Questionamentos sobre o Concílio Ecumênico Vaticano II.

Ao longo de 2012, desenvolveram-se, como noticiado por alguns blogs, dois seminários de estudo sobre o Concílio Vaticano II presididos por Sua Eminência Cardeal Walter Brandmüller, com a participação de estudiosos de diversas tendências, com a finalidade de viabilizar um construtivo debate sobre um evento que tão fortemente marcou a vida da Igreja e de toda a sociedade. Publicamos a seguir as palavras do Prof. Roberto de Mattei, pronunciadas em Roma, no encontro de 17 de março de 2012.

Por Roberto de Mattei | Tradução: Gederson Falcometa

Uma premissa necessária: a crise da fé contemporânea

O problema que tratamos não é uma questão abstrata, mas toca concretamente o modo de viver a nossa fé, em um momento histórico descrito este ano por Bento XVI com estas palavras: “Como sabemos, em vastas zonas da terra a fé corre o perigo de apagar-se como uma chama que não encontra mais alimento. Estamos diante de uma profunda crise de fé, e uma perda do senso religioso que constitui a grande perda para a Igreja de hoje”[1]. A discussão não pode se limitar a um puro interesse cientifico, mas deve partir da necessidade de compreender a natureza da crise da fé em ato.

A crise da fé e o Concílio Vaticano II

Bento XVI quis fazer coincidir o Ano da Fé com o quinquagésimo aniversário do Concílio, auspiciando que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares “sejam lidos de maneira apropriada”, e “sejam conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magistério, no interior da Tradição da Igreja”, ou seja, integrados à Tradição da Igreja, indicando ainda um instrumento para essa assimilação: o Novo Catecismo da Igreja Católica. Depois de se dizer convicto que o Concílio é “a grande graça da qual a Igreja se beneficiou no século XX”, o Papa, citando o seu Discurso a Cúria Romana de 22 de dezembro de 2005, repetiu que o Concílio Vaticano II, “se o lemos e recebemos guiados por uma justa hermenêutica”, “pode ser e se tornar sempre mais uma grande força para a sempre necessária renovação da Igreja” [2]. Bento XVI admite então a existência de um nexo entre a atual crise de fé e o Concílio Vaticano II, embora considere que esta crise não se deva ao Concílio em si mesmo, mas seja favorecida por uma má hermenêutica, uma incorreta interpretação de seus textos.

Problema hermenêutico ou problema histórico?

Não pretendemos contradizer o quanto afirma o Santo Padre, mas o problema da relação entre a crise da fé e o Concílio Vaticano II exige uma resposta não apenas sobre o plano hermenêutico, mas também, se não sobretudo, sobre o plano histórico. Qualquer que seja o juízo sobre os documentos do Concílio, o problema de fundo não é o de interpretá-lo, mas de compreender a natureza de um evento histórico que marcou o século XX e o nosso. Para desfazer o nó da relação entre o Vaticano II e a crise do nosso tempo, antes de colocar em prática a hermenêutica dos textos, devemos fazer uma avaliação histórica dos fatos. E só depois a reconstrução histórica, e não antes, é que intervirão o teólogo ou o Pastor, para formular os seus juízos. O conhecimento histórico não tem por objeto o significado dos documentos, mas a verdade dos fatos [3]. A história é Das verstehen: compreensão dos acontecimentos. A capacidade do historiador está no compreender a essência de um evento, buscando traçar as causas e as consequências nas ideias e nas tendências profundas de uma época: neste caso, a época do Concílio Vaticano II.

O Concílio Vaticano II: intenção e expectativas

Então, nos atenhamos aos fatos. João XXIII, na alocução com a qual inaugurou o Vaticano II, em 11 de outubro de 1962, explicou que o Concílio foi convocado não para condenar erros ou formular novos dogmas, mas para propor, com linguagem adaptada aos novos tempos, o perene ensinamento da Igreja [4]. O Concílio pareceu a muitos como uma extraordinária oportunidade de renovar a Igreja. Ocorre, na realidade, que a dimensão pastoral, em si acidental e secundária em relação à dimensão doutrinal, essencialmente se tornou prioritária, operando uma revolução no estilo, na linguagem e na mentalidade. O Padre John W. O’Malley explicou bem como as profissões de fé e os cânones foram substituídos por um “gênero literário” que ele chama “epidítico” [5]. Foi este modo de se exprimir que, segundo o historiador jesuíta, “marcou uma ruptura definitiva com os Concílios precedentes” [6]. Exprimir-se em termos diversos do passado significa aceitar uma transformação cultural mais profunda do que possa parecer. O estilo do discurso revela, de fato, mesmo antes das ideias, as tendências profundas da mente de quem se exprime. “O estilo é a expressão última do significado, é significado e não ornamento, e é também o instrumento hermenêutico por excelência” [7].

Os resultados do Concílio

Não discutimos as boas intenções de João XXIII. Todavia, igualmente indiscutível, os resultados não foram proporcionais às expectativas. As palavras com que Paulo VI falava de “auto-demolição” da Igreja, “ferida por quem dela faz parte” [8] são de 1968, aquelas sobre a “fumaça de Satanás no templo de Deus (…)” [9], são de 1972. Permitam-me citar a mim mesmo: “o colapso da segurança dogmática; o relativismo da nova moral permissiva; a anarquia no âmbito disciplinar, o abandono do sacerdócio e da vida religiosa por parte dos sacerdotes e dos religiosos e o distanciamento da prática religiosa de milhões de fiéis, a infiltração da heresia através dos novos catecismos e novos ritos, as contínuas profanações da Eucaristia, o massacre das almas enquanto as igrejas se livravam do altar, mesas da comunhão, crucifixos, imagem de santos, mobiliários sacros, quadros que acabaram em catálogos de antiquários. A ‘primavera da fé’, que deveria seguir ao Concílio Vaticano II, aparecia mais como um rígido inverno, documentado sobretudo pelo colapso nas vocações e do abandono da vida religiosa” [10]. O balanço global dos quarenta anos pós-conciliares 1965-2005, com respeito às perdas totais e percentuais dos principais institutos religiosos, será ainda mais dramático [11].

A tese oficial

“O que deu errado?”, para usar o título de um folheto do filósofo Ralph McInerny [12]. A resposta que escutamos oficialmente repete aquela formulada primeiramente por Paulo VI, que em 23 de junho de 1972, nos mesmos dias em que registrava “a fumaça de Satanás no templo de Deus”, em um discurso aos membros do Sacro Colégio, denunciava “uma falsa e abusiva interpretação do Concílio, que seria uma ruptura com a tradição, também doutrinal, chegando ao repúdio da Igreja pré-conciliar, e a licença de conceber uma Igreja «nova», quase «reinventada» do seu interior, na constituição, no dogma, no costume e no direito” [13]. A tese oficial era aquela do Concílio “traído” pelos progressistas: nesta traição estava, segundo Paulo VI, a raiz dos problemas da Igreja pós-conciliar.

A tese progressista: o Concílio traído.

A esta tese se opunha aquela dos inovadores. A Storia del Concilio Vaticano II [4], de Giuseppe Alberigo, apresenta o Concílio como a tentativa de purificar a Igreja do seu passado. Uma tentativa felizmente iniciada por João XXIII, mas “traída” por Paulo VI e seus sucessores. O Concílio Vaticano II deveria ser a medida de juízo da história e da tradição da Igreja. O leque do progressismo é amplo e variado, mas hoje o ex-sacerdote e abade de São Paulo [Fora dos Muros], Giovanni Franzoni, resume eficazmente esta posição que, a nível hermenêutico, contrapõe-se diretamente àquela de Bento XVI: “Desejando sintetizar, descreverei o nó do contraste que atrapalha a Igreja Católica há décadas: para Wojtyla e Ratzinger, o Vaticano II é lido à luz do Concílio de Trento e do Vaticano I; para nós, pelo contrário, estes dois Concílios são lidos, e relativizados, à luz do Vaticano II [Ndt.: Lembre-se aqui do texto de Mons. Ocariz publicado por nós: “O Vaticano II à luz da Tradição e a Tradição à Luz do Vaticano II: o Vigário-geral do Opus Dei responde aos tradicionalistas no Osservatore Romano,” e também do texto de Paolo Pasqualucci  em que aborda a “chave hermenêutica a desenvolver”: a colaboração “do ‘contra-espírito do Concílio’ ao verdadeiro ‘espírito do Concílio’” em “O “debate crítico” que a hierarquia não quer realizar. Recensão à obra “Concilio Vaticano II, il discorso mancato” de Monsenhor Brunero Gherardini]. Então, dada esta divergente perspectiva, os contrastes não podem ser elimináveis. E vemos escorrer da Cátedra Romana, todos os dias, normas, decisões e interpretações que, a nosso juízo, estão em conflito radical com o Vaticano II” [15].

A tese tradicionalista

Com o nome impróprio de “tradicionalistas” são definidos alguns estudiosos que expressaram criticas e perplexidades sobre o Vaticano II e seus documentos. Entre estas obras são recordadas Iota Unum, de Romano Amério [16]; os estudos teológicos de Mons. Gherardini [17], mas também a convenção organizada pelos Franciscanos da Imaculada em dezembro de 2010 [18]; a Súplica promovida em 2011 pelo Prof. Paolo Pasqualucci [19]; e as recentes intervenções do Padre Jean-Michel Gleize [20] e Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira [21].

A minha posição

Embora associando-me aos pedidos de esclarecimento de estudiosos, ofereço, de minha parte, uma contribuição que não é a de teólogo, mas de historiador. Não entro, portanto, nas discussões hermenêuticas sobre continuidade/descontinuidade dos documentos. O que narro no meu estudo são os fatos, o que reconstruo é o contexto histórico em que os documentos do Concílio vieram à luz. E sobre este âmbito histórico afirmo o caráter revolucionário deste evento. Pode-se dizer, de fato, do Concílio Vaticano II, aquilo que os historiadores dizem da Revolução Francesa: “a sua importância está também no fato de ser capaz de agir como um mito, não apenas depois, mas já durante o seu desenrolar. O mito, antes, podemos dizer, é conatural à sua essência” [22].

Questões em discussão

Para o historiador da Igreja, a dimensão histórica não pode ser, todavia, separada daquela teológica. Trata-se de dois âmbitos, mas conexos e interdependentes, como são a alma e o corpo no organismo humano. E se os fatos históricos colocam problemas teológicos, o historiador não pode ignorá-los, mas deve trazê-los à luz, movido por amor à Igreja e não pelo desejo de denegri-la. Ao mesmo tempo, no âmbito teológico, todos os batizados têm o direito de levantar os problemas e colocar questões à legítima autoridade eclesiástica, embora ninguém tenha a faculdade de substituir o supremo Magistério da Igreja para resolver de forma definitiva os pontos controversos. Estas são as questões em discussão.

Primeira questão: os documentos do Concílio Vaticano II

Se existe uma questão hermenêutica, existem documentos pouco claros [23]. Como afirma um antigo brocardo: in claris non fit interpretativo. E se existem documentos pouco claros, a falta de clareza constitui, certamente, um limite, e não uma qualidade destes documentos.

Com o termo hermenêutica, que nasce, sobretudo, depois de Schleiermacher no mundo dos exegetas protestantes, entende-se as “técnicas de algo dificilmente compreensível” [24]. Mas as dificuldades interpretativas que podem apresentar um texto das Sagradas Escrituras não são admissíveis em um documento pastoral, que se propõe dirigir de forma mais eficaz aos homens de seu tempo. A existência de passagens ambíguas e equívocas nos documentos do Concílio Vaticano II é demonstrada pela necessidade de interpretá-los e de esclarecê-los.

Segunda questão: as autoridades que governaram a Igreja

Diz-se que os documentos do Concílio foram mitificados e “descontextualizados”. Mas se é assim que aconteceu, a responsabilidade recai apenas sobre os artífices da mitificação e da descontextualização, ou também sobre a autoridade que poderia impedir tal fato e não o fez? Por que a má hermenêutica não foi suprimida? Paulo VI definiu “falsa e abusiva” certa interpretação do Concílio, mas se alguém foi removido, discriminado, perseguido, foi quem permaneceu fiel à tradição. E não falo nem de Mons. Lefebvre e nem de Mons. Castro Mayer. Penso, por exemplo, em Mons. Antônio Piolanti, talvez o maior teólogo italiano do século XX, que foi removido do cargo de Reitor da Pontifícia Universidade Lateranense. A púrpura que a ele foi negada foi concedida ao Padre Yves Congar [ndr: em 1994, por João Paulo II], que atacava violentamente a “miserável eclesiologia ultramontana da Lateranense” [25].

O Novo Catecismo nos é apresentado como um instrumento de retificação da má hermenêutica. Mas, em vinte anos de sua promulgação, a má hermenêutica continuou a desenvolver-se imperturbada. Não se percebe que, se a preocupação é salvar a suprema autoridade eclesiástica de toda responsabilidade quanto aos males do pós-Concílio, esta colocação do problema agrava o mal que quer evitar. Se, de fato, fosse verdade que o Concílio foi traído por maus intérpretes dos seus documentos, como negar a responsabilidade daquelas autoridades eclesiásticas que viram explodir o mal da má hermenêutica e não a reprimiram? Se houve má interpretação, e há ainda, se reivindicaram indevidamente os documentos conciliares para fazer coisas diversas daquilo que eles estabeleciam, de quem é a responsabilidade? Apenas dos progressistas ou é também de quem deixou que esse progressismo se desenvolvesse na Igreja sem intervir para condená-lo e reprimi-lo?

Terceira questão: o evento histórico

Se nas raízes da crise da fé não está o evento conciliar, mas apenas uma má interpretação de seus documentos, qual o juízo se deverá dar sobre o evento, considerado no seu desenvolvimento concreto, nas ideias e na psicologia dos seus protagonistas, no contexto histórico que o circundou, na mitologia que em torno dele se desenvolveu? O Concílio Vaticano II não foi apenas interpretado, mas vivido pela teologia progressista como uma transformação na história da Igreja. É possível negar que esta transformação foi realizada e que no período pós-conciliar não ocorreram mudanças radicais no interior da Igreja? O dado efetivamente objetivo é que a hermenêutica da descontinuidade, por quanto abusiva, prevaleceu sobre a hermenêutica da continuidade já durante o Concílio, caracterizando-o na sua essência.

Questões legítimas

A tese hermenêutica oficial representa uma proposta de leitura, digna da máxima atenção, ao menos por sua autoridade. Mas ela não é uma afirmação doutrinal: é uma interpretação que, como tal, sobretudo quando nos deslocamos dos documentos para os fatos, pode ser falaz. Ninguém pode dizer ao Papa que ele erra. Com que autoridade poderemos julgar o supremo Pastor da Igreja? Mas cada fiel, enquanto batizado, tem o direito de fazer questões ao Papa, porque o Vigário de Cristo tem o dever de nos confirmar na fé. E, então, coloco estas perguntas.

Se houve uma interpretação falsa e abusiva dos documentos do Concílio, de quem é a responsabilidade? Apenas dos maus hermeneutas ou, também, dos documentos que, por causa dos equívocos ou das ambiguidades, permitiram esta má leitura?

Se houve uma interpretação falsa e abusiva dos documentos do Concílio, de quem é a responsabilidade? Apenas dos maus hermeneutas ou também da autoridade que deixou de condenar com suficiente firmeza as más interpretações?

Se uma interpretação falsa e abusiva dos documentos do Concílio prevaleceu nas mídias, de quem é a responsabilidade? Apenas das mídias ou também do evento histórico que esses documentos produziram? O Concílio, enquanto evento, é estranho à crise do nosso tempo?

O evento; os documentos ou ao menos alguns documentos que este evento produziu; os homens da Igreja que promoveram este evento; e que deste evento cuidaram da aplicação e propõem a interpretação: eis os responsáveis pela crise da fé atual. Ocultá-lo seria prestar um desserviço à verdade.

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[1] Bento XVI, Discurso aos participantes da plenária da Congregação para a Doutrina da Fé, 27 janeiro de 2012.

[2] Bento XVI,  Discurso a Cúria Romana 22 de dezembro de 2005, in AAS, 98 (2006).

[3] Henri-Irénee Marrou, O conhecimento histórico, tr. it., Il Mulino, Bolonha 1988, pp. 199-218.

[4] João XXIII, Alocução Gaudet Mater Ecclesiae de 11 de outubro de 1962, in AAS, 54 (1962), p. 792.

[5] John W. O’Malley, Que coisa aconteceu no Vaticano II, tr. it. Vita e Pensiero, Milano 2010, pp. 45-54.

[6] Ivi, p. 47. Veja-se também, sobre este ponto, Alessandro Gnocchi-Mario Palmaro, A Bela Adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque acordará Editore, Firenze 2011.

[7] J. W. O’Malley, O que aconteceu no Vaticano II, cit., p. 51.

[8] Paulo VI, Discurso ao Seminário Lombardo em Roma, de 7 de dezembro de 1968, em Ensinamentos, vol. VI (1968), pp. 1188-1189.

[9] Paulo VI, Homília pelo nono aniversário de coroação de 29 de junho de 1972, em Ensinamentos, vol. X (1972), p. 707.

[10] Roberto de Mattei, O Concílio Vaticano II, Uma história nunca escrita, Lindau, Turim 2011, p. 575.

[11] Cfr. O estudo do claretiano Angelo Pardilla, Os religiosos ontem, hoje e amanhã, Editora Rogate, Roma 2007. Análogo o quadro das “religiosas”: Id., As religiosas ontem, hoje e amanhã Livraria Editrice Vaticana, Cidade do Vaticano 2008.

[12] Ralph McInerny Vaticano II. O que deu errado?, Prefácio de Massimo Introvigne, Fede e Cultura, Verona 2009.

[13] Paulo VI, Discurso ao Sacro Colégio de 23 de junho de 2012, em ensinamentos, vol. X (1972), pp. 672-673.

[14] G. Alberigo, Historia do Concilio Vaticano II, Peeters/Il Mulino, Bologna 1995-2001, 5 voll.

[15] Discurso de 18 de setembro de 2011 em um Congresso teológico em Madrid, em “Adista”, 8 de outubro 2011.

[16] Romano Amerio, Iota unum, Lindau, Torino 2009.

[17] Brunero Gherardini, Concílio Ecumênico Vaticano II. Um discurso a fazer, Casa Mariana, Frigento 2009 e Id., Um Concílio faltoso, Lindau, Torino 2011.

[18] Concílio Ecumênico Vaticano II. Um Concílio pastoral. Análise histórica-filosófica-teológica, aos cuidados de P. Stefano M. Manelli F.I. e P. Serafino M. Lanzetta F.I., Casa Mariana Editora, Frigento 2011.

[19] Supplica al Santo Padre Benedetto XVI, Sommo Pontefice, felicemente regnante, affinché voglia promuovere un approfondito esame del pastorale Concilio Ecumenico Vaticano II, in http://www.riscossacristiana.it, 24 settembre 2011.

[20] Veja-se as suas intervenções em “Courrier de Rome” entre 2011 e 2012.

[21] Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, Grave lapsus teologico di Mons. Ocáriz. Confutazione dell’articolo del Vicario Generale dell’Opus Dei pubblicato ne “L’Osservatore Romano”, in http://www.arnaldoxavierdasilveira.com, 28 de dezembro de 2012.

[22] Marco Tangheroni, Cristianità, modernità, rivoluzione, Sugarco, Milano 2009, p. 76.

[23] Veja-se, por exemplo, as intervenções do Padre G. Cavalcoli O.P. e Padre Serafino Lanzetta F.I., in Il Vaticano II. In dialogo in modo critico, in “Fides Catholica”, 1 (2011), pp. 207-232, e o debate sobre o tema proposto pelo site de Sandro Magister, www.chiesa.espresso.repubblica.it.

[24] Eugenio Cutinelli-Rendina, voce Ermeneutica, in Dizionario di storiografia, Bruno Mondadori, Milano 1996, p. 360.

[25] Yves Congar, Diario del Concilio, San Paolo, Cinisello Balsamo 2005, vol. II, p. 20.

4 setembro, 2012

O Concílio Vaticano II, uma história nunca escrita (I): Apresentação.

Lançado em 2011 na Itália, a prestigiosa obra do Professor Roberto de Mattei, intitulada “O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita”, chega agora ao público lusófono. A Editora Caminhos Romanos, detentora dos direitos sobre a versão portuguesa do laureado livro — Prêmio Acqui Storia 2011 e finalista do Pen Club Italia — , concedeu ao Fratres in Unum a exclusiva honra de divulgar alguns excertos deste trabalho que é um verdadeiro marco na historiografia do Concílio Vaticano II.

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Um Concílio “pastoral” ou “doutrinal”?

A fórmula do Concílio à luz da Tradição — ou, se se preferir, da “hermenêutica da continuidade” – propõe indubitavelmente aos fiéis uma indicação autorizada, com vista ao esclarecimento do problema da adequada recepção dos textos conciliares; mas deixa em aberto um problema de fundo: dado que a correcta interpretação é a da continuidade, resta explicar porque foi que, na sequência do Concílio Vaticano II, aconteceu aquilo que nunca tinha acontecido depois de qualquer dos concílios da história, a saber, o facto de duas (ou mais) hermenêuticas contrárias se terem confrontado e terem, para usar a expressão do Papa, lutado entre si. Assim, pois, se a época pós-conciliar deve ser interpretada como uma época de “crise”, podemos perguntar-nos se uma errada recepção dos textos terá uma incidência tal sobre os factos históricos, que constitua razão suficiente e proporcionada para a vastidão e a profundidade da mesma crise.

Por outro lado, a existência de uma pluralidade de hermenêuticas atesta a presença de certa ambiguidade ou ambivalência nos documentos. Quando se torna necessário recorrer a um critério hermenêutico exterior ao documento para interpretar o próprio documento, é evidente que este não é suficientemente claro, que precisa de ser interpretado e que, na medida em que é susceptível de interpretação, pode ser objecto de crítica, histórica e teológica.

O desenvolvimento mais lógico deste princípio hermenêutico é o que foi proposto por um eminente especialista em eclesiologia, Mons. Brunero Gherardini. De acordo com este teólogo romano, o Vaticano II, enquanto concílio que se auto-qualificou como “pastoral”, esteve privado de um carácter doutrinal “definitório”; contudo, do facto de o Vaticano II não poder ter a pretensão de ser qualificado como dogmático, sendo antes caracterizado pelo seu carácter pastoral, não se pode naturalmente deduzir que esteja privado de doutrina própria. O Concílio Vaticano II teve indubitavelmente ensinamentos específicos, que não estão privados de autoridade, mas, como escreve Gherardini, “as suas doutrinas, quando não reconduzíveis a definições anteriores, não são, nem infalíveis nem irreformáveis, e, portanto, também não são vinculativas; quem as negar não será, por esse facto, formalmente herege. Assim, pois, quem as impusesse como infalíveis e irreformáveis iria contra o próprio Concílio” .

O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita, Roberto de Mattei, Ed. Caminhos Romanos, 2012, pp. 14-15

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Roberto de Mattei nasceu em Roma, em 1948. Formou-se em Ciências Políticas na Universidade La Sapienza. Atualmente, leciona História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, no seu departamento de Ciências Históricas, de que é o director. Até 2011, foi vice-presidente do Conselho Nacional de Investigação de Itália, e entre 2002 e 2006, foi conselheiro do Governo italiano para questões internacionais. É membro dos Conselhos Diretivos do Instituto Histórico Italiana para a Idade Moderna e Contemporânea e da Sociedade Geográfica Italiana. É presidente da Fundação Lepanto, com sede em Roma, e dirige as revistas Radici Cristiane e Nova Historica e colabora com o Pontifício Comitê de Ciências Históricas. Em 2008, foi agraciado pelo Papa com a comenda da Ordem de São Gregório Magno, em reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à Igreja.

Onde encontrar:  Livraria Petrus – R$ 89,00.

19 agosto, 2012

Foto da semana.

Sua Eminência Reverendíssima, o Cardeal Raymond Leo Burke, Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, recebe a benção do neo-sacerdote que acabara de ordenar para o Instituto Cristo Rei, em 5 de julho de 2012.

14 agosto, 2012

Dois teólogos com posições contrárias a respeito da FSSPX: resumo.

Por FSSPX-EUA | Tradução: Fratres in Unum.com

Apresentamos aqui resumidamente duas posições divergentes sobre a situação da FSSPX em face ao Concílio Vaticano II, atualmente em debate nos principais círculos eclesiásticos.

De um lado está o Pe. Brian Harrison, O.S., um sacerdote teólogo de Sidney, Austrália, que afirma que a FSSPX deveria aceitar o Concílio.[1] Do outro lado está o Dr. John Lamont, um professor de teologia da Universidade Católica [também] de Sidney, Austrália, que necessariamente indaga: que grau de assentimento o Concílio exige? [2]