22 agosto, 2015

Ordenações do Instituto do Bom Pastor – transmissão ao vivo.

Ordenação sacerdotal de Pedro Gubitoso e Tomás Parra e diaconal de José Luiz Zucchi e Thiago Bonifácio, ocorrendo neste instante na igreja São Paulo Apóstolo, na capital paulista.

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21 agosto, 2015

Dom Rogelio Livieres e a integração dos tradicionalistas em prol da Nova Evangelização.

Por Manoel Gonzaga Castro* – FratresInUnum.com:  Na última sexta-feira, 14 de agosto, lamentamos o falecimento de Dom Rogelio Livieres, bispo deposto de Ciudad del Este em 2014.

Clérigo da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz , do Opus Dei, Dom Rogelio logrou uma notável renovação da Igreja local a ele confiada por São João Paulo II ao longo dos 10 anos em que permaneceu à sua frente. Conforme atestam os dados publicados em seu site oficial, houve:

  • Aumento de 14 para 83 sacerdotes diocesanos;
  • Aumento de 1 para 7 capelães hospitalares;
  • Aumento de 34 para 51 paróquias;
  • Aumento de 40% para 90% das paróquias com missas diárias;
  • Aumento de 4.679 para 14.665 crismas anuais;
  • Aumento de 1257 para 6277 matrimônios anuais.
  • Aumento de 0 para 5.814 membros de adoração perpétua;
  • Aumento de 203 para 1400 presidiários atendidos espiritualmente;

Segundo parecer de seus apoiadores, esses frutos resultaram do duro combate que Dom Livieres desenvolveu contra o progressismo, corrente predominante na Igreja paraguaia. Esse combate teria ensejado, inclusive, sua deposição por Francisco sob alegação de que Dom Rogelio teria problemas de integração pastoral e de comunhão com sua igreja local — as divergências com a orientação pastoral de Jorge Mario Bergoglio vêm de longa data.

Como ratzingeriano convicto, Dom Rogelio promoveu o avanço da liturgia tradicional em sua diocese, sempre respeitando os limites da hermenêutica da reforma na continuidade em prol de uma Nova Evangelização, conforme preconizaram os últimos papas. Entre suas generosas ações nesse sentido, consta seu acolhimento ao então seminarista Edivaldo Oliveira, filho de consideração do Professor Orlando Fedeli e da atualmente viúva Sra. Ivone Fedeli, fundadores da Associação Cultural Montfort e do Colégio São Mauro.

Dom Rogelio foi a via de ordenação do Pe. Edivaldo, quando não lhe restavam mais esperanças. Uma história digna de ser relatada e que serve de exemplo a muitos, desesperançosos de chegar um dia ao sacerdócio em meio à crise pela qual passa a Igreja.

A trajetória até a ordenação

Edivaldo Oliveira nasceu em 1974 em São Paulo. Menino pobre do Parque Bristol, fez curso técnico em eletrônica na ETEC Getúlio Vargas, ocasião em que passou a frequentar a casa do Professor Fedeli no Cambuci, depois de ter sido convidado por alguns de seus colegas de curso.

Inicialmente relutante, após algumas aulas, o então jovem Edivaldo se rendeu aos argumentos do Professor Fedeli e tomou da decisão de se tornar um católico tradicionalista de linha TFPista, isto é, contrário ao Concílio Vaticano II e à reforma litúrgica pós-conciliar.

Humilde, após alguns anos trabalhando como reparador de fotocopiadoras, sentiu despertar dentro de si um grande desejo de fazer algo mais para Deus e se apresentou à Sra. Ivone Fedeli para trabalhar no então incipiente Colégio São Mauro.

Inicialmente se dedicou a serviços administrativos, mas em pouco tempo recebeu os cargos de professor de música e de catecismo, posto que assumiu por cerca de dez anos, quando, em 2009, foi tomado pelo desejo devorador da vocação sacerdotal.

O regente Edivaldo Oliveira e o Flammula Chorus, 2009

O regente Edivaldo Oliveira e o Flammula Chorus, 2009

Naquele momento, esse desejo de se tornar um sacerdote do Altíssimo tinha uma única via de realização na Montfort. Essa via era o Instituto do Bom Pastor, considerado como o único instituto no mundo a combinar a regularização canônica com o direito de rejeitar o Vaticano II e o Novus Ordo.

Dessa forma, ele partiu para França com mais três de seus alunos no Colégio São Mauro: Pedro Gubitoso, Tomás Parra e José Luiz Zucchi, que, aliás, serão ordenados sacerdotes e diácono amanhã, em São Paulo.

Diferentemente de seus alunos, o então seminarista Edivaldo não foi enviado para Courtalain, mas para a escola Angelus, do IBP, onde, deixando os estudos de lado, passou um ano realizando árduos trabalhos manuais relacionados à reforma da escola.

Após esse um ano, o então seminarista Edivaldo foi dispensado do Bom Pastor por seu superior geral, o Pe. Philippe Laguérie. Atribui-se tal dispensa ao então reitor do seminário, responsável pelo fechamento da casa do IBP no Brasil em 2008. Sem apresentar qualquer problema disciplinar, o motivo residia na desconfiança do IBP em relação a ele, tido como próximo demais do Professor Fedeli e participante ativo na crise que abalaria as relações entre os dois grupos por algum (pouco) tempo.

Retornando ao Brasil, o seminarista Edivaldo teve de lidar com a dupla dor da dispensa e do falecimento de seu pai de consideração, o Professor Fedeli.

Resiliente, começou a travar contato com o Pe. Almir de Andrade, da Fraternidade Sacerdotal São Pedro (hoje, na Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, de Campos, RJ). Esse fato causou desconforto em parte da Montfort, pois a Fraternidade São Pedro sempre tinha sido considerada pelo grupo como proscrita por não ter apoiado as sagrações episcopais de Dom Lefebvre, em 1988, e por sua não oposição ao novus ordo — fato que não impediu Pe. Almir de, à época, dar conferências em congressos da associação e celebrar Missa diversas vezes no Colégio São Mauro.

Por fim, com a ajuda do Pe. Almir e o apoio decidido da viúva Ivone Fedeli, Pe. Edivaldo partiu para o seminário de Wigratzbad, na Alemanha, onde, após o primeiro ano de espiritualidade, foi convidado a se retirar.

Dessa forma, em 2011, o seminarista Edivaldo estava de volta ao Colégio São Mauro, onde, sem deixar a batina, passou mais de um ano em amargura procurando alguma via de realizar seu chamado sacerdotal.

Quando parecia não haver mais esperanças, surgiu Dom Rogelio Livieres, indicado pelo carmelita Frei Tiago ao então seminarista Edivaldo. E esse bondoso e generoso bispo o acolheu em seu seminário em meados de 2012, depois das devidas conversações, em que Edivaldo solicitou exclusividade para apenas celebrar a Missa Tridentina depois de ordenado.

Visto que, até então, sua formação oficial como seminarista tinha se resumido a um ano de trabalhos manuais e um ano de espiritualidade, Edivaldo foi submetido a um semestre de estudos no seminário de Ciudad del Este, antes de ser ordenado diácono, em 8 dezembro de 2012.

Sua ordenação diaconal foi realizada segundo a forma extraordinária, o que não ocorria há quatro décadas na diocese de Ciudad del Este.

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Na sequência, passados mais oito meses e com um pouco mais de estudos no seminário diocesano, o diácono Edivaldo Oliveira foi ordenado sacerdote, em 17 de agosto de 2013.

A cerimônia de ordenação também ocorreu segundo a forma extraordinária, mas teve a peculiaridade de ser realizada em uma Missa Tridentina versus populum, não se sabe por qual razão, no que ela se assemelhou à forma ordinária.

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Apesar disso, esse foi um dia de grande alegria para os tradicionalistas brasileiros companheiros do Pe. Edivaldo, especialmente para a viúva Ivone Fedeli, que finalmente pôde ver seu filho ordenado depois de tantos sofrimentos.

Pe. Edivaldo é cumprimentado por sua mãe adotiva, Ivone Fedeli

Pe. Edivaldo é cumprimentado por sua mãe adotiva, Ivone Fedeli

Os então diáconos Renato Coelho e Luiz Fernando Pasquotto, assim como demais seminaristas brasileiros do IBP, auxiliaram na celebração da cerimônia.

Dois anos de apostolado do Pe. Edivaldo e sua volta ao Brasil

Uma vez ordenado, Pe. Edivaldo dividiu seu apostolado em duas frentes: uma em Ciudad del Este e outra no Brasil.

No Paraguai, graças à generosidade de amigos brasileiros, Pe. Edivaldo abriu o Centro de Estudos São Mauro, onde morava, dava cursos e celebrava a liturgia tradicional. Embora fosse padre diocesano, Dom Rogelio julgou prudente não instalar Pe. Edivaldo em uma paróquia, pois ele se recusava a participar das celebrações segundo a forma ordinária e não gozava de uma integração mais harmoniosa com o clero local devido a sua sensibilidade litúrgica — o que não foi motivo para o bispo tratá-lo mal, como fazem os ordinários atuais.

Ao mesmo tempo em que atuava no Centro São Mauro, Pe. Edivaldo procurou obter autorização para criar sua Fraternidade São Mauro, que pretendia ser um arcabouço canônico para preservação dos valores do Professor Orlando Fedeli e para o acolhimento de vocações masculinas e femininas voltadas exclusivamente para a liturgia tradicional, o que chegou a obter parcialmente, já que Dom Rogelio não preferia tal exclusividade.

É, entretanto, inegável o perseverante trabalho de integração realizado por Dom Rogelio Livieres, a fim de acomodar essa vocação sincera e verdadeira ao que a Santa Sé espera de um padre em nossos tempos, no contexto da Nova Evangelização desejada pelos Papas pós-conciliares.

Pe. Edivaldo com hábito branco da Fraternidade São Mauro e fiéis paraguaios

Pe. Edivaldo com hábito branco da Fraternidade São Mauro e fiéis paraguaios

No Brasil, por sua vez, onde passava cerca de duas semanas por mês, Pe. Edivaldo desenvolveu viagens apostólicas para São Paulo e para o nordeste, notadamente em Fortaleza. Em São Paulo, atuava juntamente ao Colégio São Mauro, sua primeira casa. Em Fortaleza, Pe. Edivaldo se dedicou a celebrar a sagrada liturgia nas principais igrejas da cidade.

Após a triste deposição de Dom Rogelio Livieres, Pe. Edivaldo julgou mais conveniente deixar seus fiéis paraguaios e voltar ao Brasil, para, junto de sua mãe de consideração, prosseguir com o projeto da Fraternidade São Mauro.

Um mês de Fraternidade São Mauro

De volta ao Brasil, Pe. Edivaldo anunciou, há pouco mais de um mês, a fundação da Fraternidade São Mauro (FSM), confirmando as informações veiculadas por Fratres in Unum, cuja sede está localizada nas cercanias do Colégio São Mauro e da Associação Cultural Montfort.

Os membros do novo instituto religioso recebem formação espiritual dada pelo Pe. Edivaldo e em aulas na Montfort, ao mesmo tempo que a formação filosófica e teológica será fornecida pelo Mosteiro de São Bento, em São Paulo, com quem a FSM teria celebrado um convênio de cooperação. Essa cooperação também se manifesta pela atuação do Pe. Edivaldo como confessor durante as missas tridentinas celebradas aos domingos no mosteiro. Consta que a FSM já recebeu inclusive vocações de Manaus.

Pe. Edivaldo Oliveira celebra Missa no Mosteiro de São Bento, 26 de julho de 2015

Pe. Edivaldo Oliveira celebra Missa no Mosteiro de São Bento, 26 de julho de 2015

Segundo membros da FSM, o Cardeal de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, teria dado seu aval à obra e permitido ao Pe. Edivaldo atuar recebendo vocações sob sua jurisdição. Pe. Edivaldo também estaria sob autorização de Dom Heinz Wilhelm Steckling, atual diocesano de Ciudad Del Este.

* * *

Por este e muitos outros casos, só temos a agradecer a Dom Rogelio por sua generosidade apostólica e que rezar para Deus todo poderoso o tenha em sua misericórdia.

* Fale com o autor: manoelgonzagacastro@gmail.com

21 agosto, 2015

Uma aula de Tolkien em tempos de Sínodo sobre a Família.

Por Bruno M. – InfoCatólica | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.comPara variar um pouco, em vez de falar de bispos e teólogos, hoje eu trago ao blog e à série intitulada “Polêmicas Matrimonais” algumas palavras de JRR Tolkien. Trata-se de uma carta enviada ao seu filho Michael Tolkien, na qual o velho Tolkien partilha suas opiniões e experiências sobre o casamento e as relações entre homens e mulheres.

Na minha opinião, precisamente o fato de não serem palavras para o povão, mas sim o conselho sincero e de coração de um pai para o seu filho, é que dá um valor especial ao texto. Além disso, esta carta poderá nos ajudar a entender melhor os livros de Tolkien, ao vislumbrar como o autor entendia o amor, a lealdade, o sacrifício e o compromisso que são questões fundamentais em seus escritos.

* * *

“Os homens não são [monogâmicos]. Não adianta fingir o contrário. Simplesmente não o são, pelo menos não de acordo com sua natureza animal. Para nós, a monogamia (embora há muito tempo fundamental para as idéias que herdamos) é um elemento de ética, revelada de acordo com a fé e não com a carne. […] Esse é um mundo decaído onde não há harmonia entre os nossos corpos, nossas mentes e nossas almas. A essência de um mundo decaído consiste no fato de que o melhor não pode ser conquistado através da diversão livre ou do que é muitas vezes chamado de “auto-realização” (que geralmente não passa de um bom nome para a complacência e que é absolutamente contrária à realização do próximo), mas sim quando se recusa a si mesmo, sofrendo. A fidelidade no matrimônio cristão implica precisamente nisso: uma grande mortificação.

Para um cristão, não há escapatória. O matrimônio pode ajudar a santificar e direcionar ao seu objeto adequado seus desejos sexuais, e sua graça de (estado) pode ajudá-lo no combate, porém, o combate permanece, continua lá. O casamento não o saciará, naquele sentido em que comer regularmente satisfaz a fome, mas lhe proporcionará tanto dificuldades como facilidades para habilitá-lo a viver a pureza própria do estado matrimonial.

Nenhum homem, por mais que tenha amado a sua eleita e noiva de sua juventude, conseguiu permanecer fiel de corpo e alma quando ela se tornou sua esposa, sem um exercício consciente e deliberado da vontade, ou seja, sem negar a si mesmo. Poucos são os que sabem disso, mesmo os educados dentro da Igreja. E os que estão fora dela não parecem sequer ter ouvido falar nisso.

Quando o encanto desaparece, ou simplesmente se desvanece um pouco, eles acreditam que cometeram um erro de pessoa e que ainda não encontraram sua verdadeira alma gêmea. Então, a “verdadeira alma gêmea” geralmente passará a ser a próxima pessoa sexualmente atraente com a qual se encontrar, alguém com quem poderiam muito muito bem ter se casado, se não fosse por… Daí o divórcio, para proporcionar o “se não fosse por” ou segunda chance.

E, é claro, eles geralmente tem razão: cometeram um erro. Apenas um homem muito sábio, já no final de sua vida, poderia realmente tomar uma decisão sensata sobre com qual mulher, entre todas as possíveis, ele deveria ter se casado. Quase todos os casamentos, inclusive os mais felizes, são erros, no sentido de que certamente (em um mundo mais perfeito ou com um pouco mais de esforço neste mundo tão imperfeito) ambos os cônjuges poderiam ter encontrado um marido ou esposa mais compatível. No entanto, sua “verdadeira alma gêmea” é aquela com a qual você está realmente casado. Na verdade, a pessoa tem pouca escolha: a vida e as circunstâncias quase sempre intervêm em tudo (muito embora, quando se trata de Deus, a vida e as circunstâncias se tornam seus instrumentos ou intervenções). […] Neste mundo decaído, os nossos únicos guias são a prudência e a sabedoria (raras na juventude e tardias demais na velhice), um coração puro e fidelidade da vontade… “

 (Retirado das Cartas de J.R.R. Tolkien)

* * *

Já ouço alguns clamando aos céus: Mortificação? Negar-se a si mesmo? Um mundo decaído? Isso é obscurantismo medieval já superado! Sabemos agora que a vida deve ser desfrutada ao máximo. Como é que a minha verdadeira alma gêmea é aquela com a qual estou casado e não posso me divorciar e refazer minha vida com outra? Isso seria ser insensível, intolerante, fundamentalista e politicamente incorreto! Isso poderia até valer para os tempos antigos, quando a expectativa de vida era menor, mas não agora. A bíblia diz que Deus deseja que todos os homens sejam felizes, então ninguém tem o direito de proibir o que me faz feliz! É uma maneira de pensar desumana e inaceitável para o homem moderno. Esse Tolkien parece quase um católico tradicionalista!

O Casamento de Arwen e Aragorn. 

Todavia, é exatamente essa mentalidade que podemos encontrar refletida nas obras de Tolkien. Como Elizabeth Kantor diz: “Aragorn deve ser o personagem masculino mais monogâmico de toda a literatura moderna: ele se apaixona por Arwen quando tinha apenas 20 anos de idade; espera, trabalha e ganha um reino para ela. Em suas andanças, encontra outra bela mulher que se apaixona por ele como um perfeito cavalheiro, a tal ponto que o irmão da mulher chegou a dizer: “você não tem culpa alguma nesta matéria”. Finalmente, casa-se com Arwen 68 anos depois de ter se apaixonado por ela e desfruta 122 anos de um casamento feliz e fiel”.

E o que não dizer então de Beren e Lúthien? É uma história épica, mas também a de um amor fiel, de quem sabe sacrificar-se pela pessoa amada. O pai da bela e imortal donzela elfa Luthien encomenda a Beren uma quase impossível missão como condição para se casar com sua filha: a recuperação de um dos três lendários Silmarils. Beren e seus companheiros partem em busca, sabendo que provavelmente morreriam, e, na verdade, são feitos prisioneiros pelos orcos, encarcerados e executados um por um, até que só Beren permanece. Luthien decide, então, partir em busca de Beren e também é capturada, mas, finalmente, consegue libertar o seu amado com a ajuda de um cão prodigioso. Beren quer continuar a odisséia sozinho, mas Luthien o acompanha e ambos conseguem chegar à fortaleza do Lorde das Trevas. Lá, as coisas acabam mal e Beren acaba perdendo uma mão que é devorada por um grande lobo, o qual também traga um dos Simarils. Mais tarde, tentando capturar a besta, eles sofrem ferimentos tão graves que causam a morte de Beren, e Luthien também acabada morrendo, abalada pela perda de seu amado. Finalmente, por algum milagre, ambos retornam à vida e vivem juntos como marido e mulher até a morte, que havia sido assumida pela elfa como uma condição necessária para se casar com um ser humano mortal.

Esta idéia de aceitar a própria morte como o preço do amor, algo que se repete na história da Arwen e Aragorn, é profundamente cristã. Não há maior amor do que dar a vida por aqueles que amamos. O amor, de fato, é dar a vida. Por isso, os esposos cristãos são chamados a amar com o amor de Cristo: amar até mesmos os inimigos, amor que não se irrita, não deseja o mal; amor até a morte, amor que não termina, mas que tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

Conforme indicado por vários de seus escritos, Tolkien viu na história de Beren e Luthien um reflexo de seu amor por sua esposa. Embora ele jamais tenha necessitado lutar contra orcos e lobos, ainda assim, ele teve que superar dificuldades para se casar com o grande amor de sua vida. Ele se apaixonou por Edith aos 18 anos, mas, como era órfão, seu guardião legal, que era um sacerdote, ao descobrir seu namoro o proibiu de voltar a ter qualquer contato com Edith até que completasse 21 anos de idade. Ele então obedeceu e por quase três anos não a viu ou escreveu-lhe. No dia de seu vigésimo primeiro aniversário, todavia, escreveu-lhe uma carta pedindo-a em casamento. Embora Tolkien estivesse desempregado, ela prontamente aceitou sua proposta e permaneceram  casados por  55 anos, até a morte de Edith, dois anos antes da morte do próprio Tolkien. Eles foram sepultados lado a lado e, embaixo de seus nomes, a inscrição na lápide simplesmente diz: “Luthien” e “Beren”.

Por que os livros de alguém com essas idéias tidas como tão reacionárias e ultrapassadas conseguem atrair tantos jovens? Precisamente porque eles percebem nesses livros o eco de algo maior, algo que não está presente na cultura secularizada que os rodeia, obcecada com “auto-realização” e a satisfação imediata e sem amarras de seus desejos. Na verdade, dificilmente eles encontrarão algo parecido com Tolkien na dieta do materialismo vulgar e hiper-sexualizado e bem mastigado que a televisão lhes empurra goela abaixo ou certos amigos que se encontram provavelmente tão confusos e sem esperança como eles mesmos.

How I Met Your mother 

Em uma das séries de TV tão comuns atualmente, um Aragorn alérgico a mortificação e a negar seus desejos imediatos teria tido um breve caso com Éowyn para logo em seguida dar-lhe um chute, dizendo: “Não é você, sou eu. Eu pensei que você fosse única, porque o amor é eterno enquanto dura, mas agora (depois de ter me divertido passando alguns dias com você) eu vejo que não somos compatíveis. Espero que possamos ser amigos”.

Uma Luthien moderna exclamaria exasperada: “Lá vai você de novo se deixando ser capturado por orcos e lobisomens! Todos os dias a mesma coisa! Olha, Beren, desculpe, mas temos que terminar tudo. Queremos coisas diferentes: você quer que te resgatem das masmorras de Tol Gaurhoth, onde sofres terríveis torturas, e o que eu quero é sair com minhas amigas, me divertir e me realizar profissionalmente, satisfazer-me no meu trabalho como assistente de sub-assistente do ajudante do conselho da minha empresa”. Ou, pior ainda, bem no estilo das propostas do Cardeal Kasper, poderia ainda dizer: “escuta, Beren, eu sei que nos casamos e tudo mais e eu te amo, mas constatamos que com o passar dos anos, você se tornou um velho que me dá nojo e eu ainda sou jovem e bonita. E pra piorar, você só tem uma mão… Eca! Enfim, o que podemos fazer? Eu me apaixonei por um anão que também é jovem e bonito, como no filme do Hobbit. Não procurei, mas aconteceu e agora temos uma relação irreversível, pois como eu poderia voltar para um velho como você? Você tem que entender que eu não poderia esperar até que você morra. Afinal de contas, eu tenho o direito de ser feliz. ” Em suma, tédio, tédio e tédio.

Em uma modernidade cada vez mais decadente e enfastiada de tudo, que já fede a túmulo e decomposição, os livros de Tolkien são como uma lufada de ar fresco, porque as suas páginas são agitadas pelo mesmo vento que soprava no topo Montecassino quando alguns loucos lá se estabeleceram, ou que fazia tremular as bandeiras em Lepanto, que soprava como rajadas tempestuosas do Mar da Galileia ou como a brisa suave de Elias, o Espírito que pairava sobre as águas antes da criação do mundo e o último suspiro de um Deus crucificado. Estes livros não mencionam Cristo, mas de alguma forma não falam de outra coisa.

Em sua carta, Tolkien recorda com simplicidade a sabedoria cristã que inspirou tanto sua vida como seus livros, começando por uma verdade de primeira comunhão que todos nós sabemos, mas parecemos não recordar: este mundo é um mundo decaído por causa do pecado original, de modo, portanto, que amar não é fácil, mas exige um esforço. Mais importante ainda, amor verdadeiro significa dar a vida, morrer, negar a si mesmo. Todos aqueles que tentam por todos os meios que a Igreja aprove o divórcio, sexo antes do casamento, a gradualidade da lei, casais do mesmo sexo ou que se dê a comunhão aos que se recusam abandonar o pecado mortal, estão negando que amar significa dar a vida e falsamente propõem um amor light, superficial, que não exige um autêntico sacrifício.

A outra grande verdade que Tolkien recorda a seu filho é que a sua “verdadeira alma gêmea” é aquela com a qual você está realmente casado. Isto é, Deus estava certo com a sua vida, que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus. Esta verdade é que faz do casamento uma aventura e não uma armadilha, uma obra de arte e não um absurdo aleatório, um desígnio de amor e não um erro terrível.

Se os Padres do Sínodo da Família querem saber o segredo do grande apelo de Tolkien entre os jovens, saibam que não se trata de “aggiornamiento” a qualquer preço ou dizer às pessoas que elas devem fazer o que elas querem, sem se preocupar com mais nada. Seu segredo é muito simples: “viver segundo a fé e não a carne.” Ou, dito de outra forma por Tolkien na mesma carta:

“Desde a obscuridade da minha vida, com tantas frustrações, eu ponho diante de ti o único, verdadeiramente grande e digno de amor nessa terra: o Santíssimo Sacramento… Nele encontrarás romance, glória, honra, lealdade e o verdadeiro caminho de todos os seus amores nesse mundo e, mais ainda, na morte. Por um paradoxo divino, a morte põe fim à vida e exige a rendição de todos, porém, só ao prová-la (ou pregustá-la), aquilo que buscas nos relacionamentos (amor, fidelidade, alegria) poderá se manter ou adquirir esse aspecto de realidade e duração eterna que deseja e busca o coração de cada homem”.

Os cristãos podem amar dando a vida, porque nosso destino é o céu. E não há um ser humano no mundo que não deseje o céu. Esse é o segredo.

20 agosto, 2015

Dom João Braz de Aviz, em visita ao Brasil, fala sobre vida religiosa e padres cantores.

Igreja Católica perde 2 mil religiosos todos os anos

Cardeal d. Braz de Aviz alertou para a urgência em rever a vida nos conventos, além de reconhecer outros problemas, como o da autoridade e o perigo do dinheiro.

Cardeal João Braz de Avis, o representante brasileiro no consistório de hoje.

Cardeal João Braz de Avis.

Estado de Minas – A Igreja Católica perde anualmente cerca de 2 mil religiosos, homens e mulheres, em todos os continentes, sobretudo na Europa, revelou o cardeal brasileiro d. João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.

A declaração foi dada em encontro na tarde desta quarta-feira, 19, com mil freiras, padres, irmãos e leigos, na Catedral de São Paulo, na Praça da Sé, região central de São Paulo. No comando de aproximadamente 1,5 milhão de religiosos, pertencentes a quase 3 mil congregações e comunidades de consagrados, o cardeal faz uma revolução no Vaticano para atrair novas vocações.

Ex-arcebispo de Brasília, d. João foi nomeado prefeito por Bento XVI em 2011 e confirmado pelo papa Francisco em 2013.

“A idade média das freiras na Europa é de 85 anos, o que significa que essas idosas vão morrer em breve sem que apareçam outras para ocupar seu lugar”, disse d. João ao jornal O Estado de S. Paulo, antes da palestra na Sé.

Novas vocações só têm surgido, em maior proporção, na África e na Ásia, onde o catolicismo tem prosperado. “Vietnã e Coreia do Sul têm, cada um, 10% de católicos em suas populações”, informou o cardeal.

Para o prefeito da congregação romana responsável pelos cristãos de vida consagrada, é urgente recriar ou rever a vida comunitária nos conventos, para restabelecer a convivência em ambiente de compreensão e caridade entre seus membros. “Sei de casos de religiosos que deixaram suas comunidades e querem voltar, mas desistem porque não encontram nelas a vida em família”, disse d. João. A revisão inclui a possibilidade de organizar comunidades mistas na vida consagrada.

“No passado, tivemos dificuldades para a convivência, porque se dizia que era preciso ter cuidado, porque a mulher é um perigo, ou cuidado porque o homem é um perigo”, observou o cardeal. “Não aconselho muito formar comunidades mistas na mesma casa”, disse, depois de ter lembrado que o voto de castidade faz parte da vocação religiosa.

D. João revelou que recebeu o pedido de dispensa de uma freira de 80 anos, ex-superiora provincial de sua congregação, que deixou o convento porque, conforme alegou, queria realizar seu ideal de maternidade. Ela saiu e adotou um bebê de três meses.

Outro problema sério para a vida religiosa é o da autoridade, ligada ao voto de obediência. “Há muitas autoridades (ou superiores de comunidades) que são opressoras”, afirmou o cardeal. Ele citou o exemplo de uma superiora-geral que ocupa o cargo há 35 anos e não abre mão dele, com graves consequências para suas subordinadas. “Há casos de superioras que mudam as regras da constituição da congregação para morrerem superioras”, lamentou.

A obediência é necessária, disse d. João aos religiosos e leigos de vida consagrada, mas deve ser exercida entre irmãos. “Superiores que não aceitam conselhos não prestam”, advertiu. O bom entendimento, no exercício da autoridade, deve se estender aos mais jovens, aos quais se deve dar responsabilidade e poder. “Que o jovem não tenha medo de ir se aprofundando na vida comunitária, no período de formação.”

D. João de Aviz advertiu também para o perigo do dinheiro, que algumas ordens e congregações religiosas acumulam, apesar de seus membros fazerem voto de pobreza. “As instituições religiosas detêm 52% do patrimônio do Banco do Vaticano (IOR ou Instituto para as Obras de Religião), dinheiro não está faltando”, disse. Como exemplo, ele citou, sem revelar o nome, o caso de uma congregação que, embora com voto de pobreza, tem 30 milhões de euros no banco.

O cardeal foi muito aplaudido pelos religiosos e leigos consagrados, depois de uma hora e meia de palestra. A presidente da seção paulista da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB-SP), irmã Ivone Lourdes Fritzen, elogiou a franqueza e transparência de d. João na exposição sobre a situação e os desafios dos religiosos no mundo.

O cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, aplaudiu as palavras do prefeito da Cúria Romana. Em seguida, os dois celebraram missa ao lado de bispos e sacerdotes da arquidiocese e de outras cidades

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Cardeal de confiança do Papa critica postura de padres cantores no Brasil

‘Nem tudo nos nossos padres cantores está claro’, diz dom João Braz. Em entrevista ao G1, ele fala sobre fama e música na Igreja Católica.

G1 – O cardeal João Braz de Aviz, membro da Cúria Romana no Vaticano, fez uma visita a São José dos Campos (SP), nesta terça-feira (18), para conhecer o Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada. Em entrevista ao G1, ele criticou a postura de alguns padres cantores, mas preferiu não citar nomes.

“Nem tudo nos nossos padres cantores está claro, basta olhar. É preciso voltar ao essencial, questionar o porque se está ali cantando aquela música na televisão. Qual a razão que me faz estar aqui? É Jesus Cristo? Minha fama? O dinheiro?”, afirmou.

O cardeal é considerado um dos homens de confiança do Papa Francisco e afirma que o Vaticano não interfere diretamente no cenário audiofônico católico. Para ele, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) seria o órgão mais indicado para tal.

“Não é bom deixar estragar tudo para depois mexer. Eu não cito nomes, mas tem coisas chatas aí. Por outro lado fizeram coisas boas. Daria para citar 3 ou 4 nomes, mas não vou fazer isso”, disse.

Dom Braz revelou que é um grande admirador do padre Zezinho, que aos 74 anos tem 118 discos em seu repertório. “Padre Zezinho não se apegou à imagem e ao dinheiro. O que sobressai nele é Jesus Cristo. Se o que conta é o dinheiro, a fama e o poder, mesmo que você tenha uma bela voz e fale bonito, está errado”, afirmou.

Sobre a vocação religiosa, o cardeal afirmou que uma de suas irmãs chegou a duvidar do seu celibato. “O celibato não é não ter instinto ou vontade de casar. O celibato é outra coisa. Precisamos pautar nossa vida em um testemunho simples e direto, convicto. Se uma pessoa consagrada vive infeliz e carrancuda, pode ir para outro lado, buscar outro caminho ou ela deve mudar”, disse.

19 agosto, 2015

Instrumentum Laboris de 2015: um ataque à Veritatis Splendor

Por Roberto de Mattei | Tradução: FratresInUnum.com*: O Instrumentum Laboris de 21 de junho de 2015 oferece todos os elementos para se compreender o que está em jogo no próximo Sínodo. A primeira consideração é de método. O § 52 do Relatório do Sínodo de 2014 não recebeu (nem os parágrafos 53 e 55) a maioria qualificada de dois terços, exigida para sua aprovação, nos termos do regulamento, mas apesar disso foi inserido no documento definitivo. Era uma coerção clara, que confirma o plano de abrir as portas aos divorciados recasados, apesar da oposição de grande parte dos Padres sinodais e, sobretudo, do ensino contrário da Igreja. Estamos muito próximos de uma sutil linha vermelha, que ninguém, nem sequer o Papa, pode atravessar.

Na audiência geral de 5 de agosto, o Papa Francisco disse que “os batizados que estabeleceram uma nova convivência depois da falência do matrimônio sacramental não estão excomungados; com efeito, estas pessoas não devem absolutamente ser tratadas como tais: elas fazem parte da Igreja”.

Resulta, contudo, que ninguém afirma que os divorciados recasados estão excomungados. Não se deve confundir a privação do sacramento da Eucaristia (a que estão obrigados pelo seu estado de pecado) com a excomunhão, que é a mais grave das penas eclesiásticas, a qual exclui da comunhão da Igreja. Os divorciados recasados ​​continuam sendo membros da Igreja e estão obrigados a observar seus preceitos, a participar do Sacrifício da Missa e a perseverar na oração (Catecismo da Igreja Católica, n° 1651). A indissolubilidade do matrimônio, no entanto, continua a ser uma lei divina proclamada por Jesus Cristo e solenemente confirmada pela Igreja ao longo de sua história. Para se ter acesso à Eucaristia, a Igreja exige o estado de graça, normalmente obtido através do sacramento da penitência. O casal que se divorciou e casou de novo encontra-se objetivamente entre os “que obstinadamente persevera[m] em pecado grave manifesto” (Código de Direito Canônico, n° 915), ou “em estado objetivo de pecado mortal”, o que “se for de notoriedade pública, é agravado pelo escândalo” (Opção preferencial pela família. 100 perguntas e 100 respostas a respeito do Sínodo, Ed. Supplica Filiale, Roma 2015, n° 63). Se os divorciados recasados não têm planos de retificar essa situação de ofensa pública e permanente a Deus, eles não podem sequer ter acesso ao Sacramento da Penitência, que exige o propósito sério de não voltar a pecar. A figura do divorciado recasado, como bem observou o cardeal De Paolis, “contradiz a imagem e o papel do matrimônio e da família, de acordo com a imagem que a Igreja nos oferece”.

Como tornar quadrado o círculo? Para uma análise abrangente do Instrumentum Laboris remeto à excelente análise de Matthew McCusker no site de “Voice of the Family”. Cinjo-me a algumas considerações relativas à abordagem do documento sinodal sobre o tema das coabitações extramatrimoniais.

O novo Catecismo da Igreja Católica, no n° 2390, diz que a expressão “uniões livres” (coabitações) “tenta camuflar situações diferentes: concubinato, recusa do matrimônio como tal, incapacidade de se ligar por compromissos a longo prazo. Todas estas situações ofendem a dignidade do matrimônio; destroem a própria ideia de família; enfraquecem o sentido da fidelidade. São contrárias à lei moral: o ato sexual deve ter lugar exclusivamente no matrimônio; fora dele constitui sempre um pecado grave e exclui da comunhão sacramental”.

Pelo contrário, o Instrumentum Laboris sugere a ideia de que as coabitações extraconjugais não são ilícitas intrinsecamente, mas apenas “parcialmente” .

“No caso em que o amadurecimento da decisão de chegar ao matrimônio sacramental por parte de conviventes ou de pessoas casadas civilmente ainda esteja numa fase virtual, incipiente, ou de aproximação gradual, pede-se que a Igreja não se subtraia à tarefa de encorajar e de promover este desenvolvimento. Ao mesmo tempo, agirá bem se demonstrar apreço e amizade em relação ao compromisso já assumido, do qual reconhecerá os elementos de coerência com o desígnio criatural de Deus” (n° 57).

Tratar-se-ia, em uma palavra, de aproveitar a parte de bem que haveria no mal, ou melhor, de não considerar como “absoluto” nenhum mal. Há aqui uma confusão implícita entre o nível ontológico e o nível moral. Se no plano ontológico só o bem é absoluto, enquanto o mal é mera privação de bem, no plano moral o bem e o mal têm uma dimensão de absoluto que não pode ser ignorada.

Mas o documento é ainda mais claro nos parágrafos seguintes. As coabitações – afirma ele – não são ruins ou intrinsecamente ilícitas, mas “incompletas” em relação ao casamento, faltando-lhes apenas a “plenitude” (nn° 62-65). “O sacramento do matrimônio, como união fiel e indissolúvel entre um homem e uma mulher, chamados a aceitar-se reciprocamente e a acolher a vida, é uma grande graça para a família humana”. Mas a Igreja “deve ser também capaz de acompanhar quantos vivem no matrimônio civil ou convivem, na descoberta gradual dos germes do Verbo que aí se encontram escondidos, para os valorizar até à plenitude da união sacramental” (n° 99). “A escolha do matrimônio civil ou, em vários casos, da convivência frequentemente não é motivada por preconceitos nem por resistências em relação à união sacramental, mas por situações culturais ou contingentes. Em muitas circunstâncias, a decisão de viver juntos é sinal de um relacionamento que quer estruturar-se e abrir-se a uma perspectiva de plenitude” (n° 102).

Que as coabitações extramatrimoniais não sejam consideradas ilícitas demonstra-o o fato de que, para o Instrumentum Laboris, elas não devem ser de nenhum modo condenadas. “A atitude dos fiéis em relação às pessoas que ainda não chegaram à compreensão da importância do sacramento nupcial deve manifestar-se principalmente através de uma relação de amizade pessoal, aceitando o outro como é, sem o julgar, indo ao encontro das suas necessidades fundamentais e, ao mesmo tempo, dando testemunho do amor e da misericórdia de Deus ” (n° 61).

“A mensagem cristã deve ser anunciada, privilegiando uma linguagem que suscite a esperança. É necessário seguir uma comunicação clara, cativante e aberta, que não moralize, nem julgue e nem sequer controle, mas dê testemunho do ensinamento moral da Igreja, permanecendo contemporaneamente sensível às condições das pessoas na sua individualidade” (n° 78); “uma comunicação aberta ao diálogo livre de preconceitos é necessária particularmente em relação àqueles católicos que, em matéria de matrimônio e de família não vivem, ou não se encontram em condições de viver, em pleno acordo com o ensinamento da Igreja” (n° 81)

O que está ausente no texto, mais do que uma condenação, é qualquer forma de julgamento ou de avaliação moral. No entanto, sabemos que não existem atos humanos neutros ou não passíveis de um julgamento moral. Cada ação pode e deve ser avaliada de acordo com o critério da verdade e da justiça, como São Paulo nos ensina a fazer (Rom, 1-26-32: 1 Cor. 6: 9-10; 1 Tm 1,9).

A abordagem sociológica e isenta de julgamento moral do Instrumentum Laboris é confirmada pela utilização dos termo “irreversibilidade” e “irreversível”, que na versão portuguesa ocorre três vezes, no tocante à situação dos divorciados recasados. Na verdade, um fracasso matrimonial pode ser irreversível, mas um estado habitual de pecado, como a coabitação, sempre é reversível. No entanto, lemos no documento: “É bom que estes caminhos de integração pastoral dos divorciados recasados civilmente sejam precedidos por um discernimento oportuno da parte dos pastores, a respeito da irreversibilidade da situação e da vida de fé do casal em uma nova união (…) segundo uma lei de graduação (cf. FC, 34), no respeito pelo amadurecimento das consciências” (n° 121). “Para enfrentar a supramencionada temática, existe um comum acordo acerca da hipótese de um itinerário de reconciliação ou caminho penitencial, sob a autoridade do Bispo, para os fiéis divorciados recasados civilmente, que se encontram em situação de convivência irreversível” (n° 123).

Se a situação dos divorciados recasados é em alguns casos irreversível, como pretende o Instrumentum Laboris, isso significa que também é irreversível a situação moral de pecado mortal público e permanente em que eles se encontram, excluindo-os, por isso mesmo, dos sacramentos da Penitência e da Eucaristia… a menos que se considere essa situação como não sendo pecaminosa, mas virtuosa. E esta é a linha que o documento parece sugerir. O casamento indissolúvel é apresentado como um ideal cristão elevado, mas dificilmente alcançável. Na vida concreta, as uniões civis podem representar fases imperfeitas, mas positivas, de uma vida em comum, que não pode ser separada do exercício da sexualidade. A união sexual não é considerada intrinsecamente ilícita, mas um ato de amor a ser avaliado segundo as circunstâncias. Uma relação sexual perde seu caráter moral negativo se os parceiros a mantiverem com convicção, de modo estável e duradouro.

O Instrumentum Laboris não nega tanto a Exortação Familiaris Consortio de João Paulo II (22 de Novembro 1981), quanto nega a encíclica Veritatis Splendor do mesmo Papa (6 de agosto de 1993), com a qual parece querer acertar as contas. A partir dos anos sessenta do século XX, difundiram-se no interior da Igreja as novas teorias morais de autores como o jesuíta Josepf Fuchs e o redentorista Bernhard Häring, que em nome do primado da pessoa sobre a natureza humana, negavam o caráter absoluto das normas morais, considerando-as apenas como uma necessidade de auto-realização (ver. por exemplo, o Padre Fuchs, The Absolutness of Moral Terms, in “Gregorianum”, 52 (1971) pp. 415-457).

Deste personalismo, que influenciou a constituição pastoral Gaudium et spes do Concílio Vaticano II (7 de dezembro de 1965), decorreram os erros do “proporcionalismo”, do “teleologismo” e do “consequencialismo”, explicitamente condenados pela encíclica Veritatis Splendor (nn. 74- 75).

Contra essas teorias têm escrito, de uma forma mais do que convincente, Ramón García de Haro (La vita cristiana, Ares, Milão, 1995) e, mais recentemente, Livio Melina, José Noriega e Juan Jose Pérez Soba (Camminare nella luce, i fondamenti della morale cristiana, Cantagalli, Siena 2008), reafirmando a doutrina dos absolutos morais, segundo a qual existem atos ilícitos que não podem ser justificados por qualquer intenção ou circunstância. A união sexual fora do casamento legítimo é um deles. “Os atos que, na tradição moral da Igreja, foram denominados «intrinsecamente maus» (intrinsece malum)” – estabelece a Veritatis Splendor – “são-no sempre e por si mesmos, ou seja, pelo próprio objeto, independentemente das posteriores intenções de quem age e das circunstâncias ” (n° 80).

Em seu discurso à Cúria Romana em 20 de dezembro de 2010, Bento XVI reiterou que uma ação má em si nunca pode ser aceita. Denunciando o crime de pedofilia, o Papa não refazia o fundamento ideológico numa “perversão fundamental do conceito de vida moral”. Ele afirmou: “Defendia-se – mesmo no âmbito da teologia católica – que o mal em si e o bem em si não existiriam. Haveria apenas um «melhor que» e um «pior que». Nada seria em si mesmo bem ou mal; tudo dependeria das circunstâncias e do fim pretendido. Segundo os fins e as circunstâncias, tudo poderia ser bem ou então mal. A moralidade é substituída por um cálculo das consequências e, assim, deixa de existir. Os efeitos de tais teorias são, hoje, evidentes. Contra elas, o Papa João Paulo II, na sua Encíclica Veritatis Splendor de 1993, com vigor profético apontou na grande tradição racional da vida moral cristã as bases essenciais e permanentes do agir moral.”

Com essas palavras ficam pulverizadas as teorias do mal menor e da ética de situação. A discussão está toda aí. De um lado, os católicos fiéis ao Magistério da Igreja, que creem no caráter objetivo e absoluto da moral; e de outro os inovadores, que reinterpretam a ética com critérios subjetivos e relativistas, torcendo a Moral para conformá-la aos seus desejos e interesses. Há mais de 50 anos que se discute, mas agora se colhe o que foi semeado (Roberto de Mattei).

*Nosso agradecimento a um caro amigo pela tradução fornecida. 

19 agosto, 2015

Boff discursará em paróquia de Guarapuava. Com anúncio da Diocese. Nunca é tarde para denunciar um herege.

E seus parceiros nas dioceses. Leonardo Boff, que recentemente esteve, sem nenhuma objeção do ordinário local, em Caxias do Sul, agora é convidado de uma paróquia da diocese de Guarapuava, PR. A divulgação, no site oficial da Diocese – eles perderam completamente a vergonha -, ocorre em cima da hora: a diocese publicou em seu site apenas hoje e a conferência começará daqui a 10 minutos. Mas, para nós, nunca é tarde para escancarar a safadeza heterodoxa de hereges, que odeiam a Igreja, mas não deixam de gozar de suas benesses, e seus simpatizantes favorecedores.

Um leitor informa:

Laudetur Jesus Christus!

Pedimos gentil e caridosamente a publicação da seguinte notícia, que apareceu hoje no site da nossa Diocese: http://www.diopuava.org.br/2015/08/leonardo-boff-estara-hoje-na-paroquia-santa-cruz/

boff

O teólogo herético Leonardo Boff, que esteve novamente em nossa cidade para um evento ambiental, palestrará na paróquia dos passionistas, que outrora já recebeu um outro teólogo da libertação da América Latina, Enrique Dussel.

Por amor a Nosso Senhor crucificado, ofendido pelos sacerdotes da paróquia dos passionistas, denuncie esse escândalo!

Muito obrigado!

19 agosto, 2015

Documento preparatório do Sínodo ‘apresenta um perigo muito real para a família’, diz coalizão “Voz da Família”.

LifeSiteNews, 13 de agosto de 2015 | Tradução: FratresInUnum.com – A Voz da Família (“Voice of the Family”), uma coalizão leiga internacional formada pelas principais organizações pró-vida e pró-família, alertou para o fato de que o documento preparatório do Vaticano para o Sínodo de outubro sobre a Família “ameaça toda a estrutura da doutrina católica sobre o matrimônio, a família e a sexualidade humana.” Em uma análise abrangente do documento Instrumentum Laboris, de 77 páginas, do Vaticano, a Voz da Família aponta diversos pontos em que omissões e ambiguidade na redação do texto estão conduzindo para um caminho perigoso para a fé e para a família.

A estratégia de introduzir ambiguidades nos textos foi revelada pelo Cardeal Walter Kasper, figura central do Sínodo, que lançou a polêmica com suas propostas para a comunhão a católicos divorciados e recasados. Em uma entrevista na EWTN com Raymond Arroyo, em junho, ele divulgou uma abordagem para superar a oposição crescente aos seus planos heterodoxos.

“Recebo muitas anuências, mas também muitas críticas, e há tensões”, Kasper reconheceu. “Agora, proponho aos que prepararam o Sínodo que elaborem um texto que obtenha a aceitação de todo mundo, da grande maioria. É o mesmo método que tivemos no Concílio [Vaticano II]”. Posteriormente, ele repetiu: “Minha sugestão é encontrar agora uma fórmula em que a grande maioria possa aderir”.

O Concílio Vaticano II também se deparou com desafios tanto à doutrina quanto à prática católica tradicional, que foram contestadas por grande número de bispos. Apesar da oposição, muitos itens da ordem do dia dos bispos ultraliberais foram contemplados pelo uso de linguagem frequentemente vaga, ambígua e até mesmo aparentemente conflitante, que parece agradar a ambos os lados. Mais tarde, essas expressões foram chamadas de “bombas relógio”, que alguns teólogos puderam explorar após o Concílio com a finalidade de minar a doutrina tradicional da Igreja.

A análise da Voz da Família explica que “está claro que o Instrumentum Laboris deixa de afirmar claramente a doutrina católica, mas, antes, através de termos ambíguos a mina gravemente.”

John Smeaton, co-fundador da Voz da Família, disse: “O documento mina a doutrina da Humanae Vitae sobre contracepção.” A análise crítica de 19 páginas do Instrumentum Laboris escrita por Matthew McCusker, da Voz da Família, observa que o documento preparatório do Vaticano para o Sínodo “recusa-se a utilizar a palavra  ‘contracepção’ ou a fazer qualquer referência a qualquer método contraceptivo, apesar das consequências devastadoras do uso de contraceptivos em muitas áreas da vida humana, não menos importante que o assassinato de crianças nascituras por métodos abortivos.”

Mais do que isso, o Instrumentum Laboris deturpa a Humanae Vitae, deixando de fora o fato de que ela condena a contracepção. O documento sinodal declara que os “dois pontos principais” da encíclica são primeiramente sobre o papel de consciência e, em segundo lugar, “uma norma moral objetiva”, sem nunca definir essa norma moral – ou seja, a Humanae Vitae declara moralmente inadmissível “qualquer ação — antes, durante ou depois da relação sexual –especificamente destinada a impedir a procriação – seja como fim ou como meio.”

“O Instrumentum Laboris também ressuscita as propostas desacreditadas de Kasper sobre a Sagrada Comunhão aos adúlteros não arrependidos, reduz a indissolubilidade do matrimônio a um simples ‘ideal’ e mina a posição dos pais como primeiros educadores de seus filhos “, acrescentou Smeaton.

No que diz respeito à doutrina da Igreja de que os pais são os primeiros educadores dos filhos, o Instrumentum Laboris insinua o contrário. O parágrafo 86 afirma que “a família, ao passo que mantém a sua posição privilegiada na educação, não pode ser o único lugar para ensinar sexualidade”. A análise da Voz da Família observa que a “declaração é diretamente contrária à doutrina católica”, citando o ensino de Papa São João Paulo II na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, onde o papa deixa em aberto a possibilidade de que a educação sexual possa ser feito exclusivamente em casa. Ele escreveu: “A educação sexual, que é um direito e dever fundamental dos pais, deve ser realizada sempre sob a sua orientação solícita, seja no lar, seja nos centros educativos escolhidos e controlados por eles.”

“A Voz da Família exorta os católicos a não serem complacentes ou cederem a um falso senso de obediência, em face dos ataques aos princípios fundamentais da lei natural”, concluiu Smeaton. “Os católicos têm o dever de se opor à direção que está sendo tomada no Sínodo. Se essa direção não for revertida, as maiores vítimas serão os mais vulneráveis, especialmente, as crianças, nascidas e nascituras.”

18 agosto, 2015

A resposta do Arcebispo do México perante as exigências de uma “transexual”.

MEXICO D.F., 14 Ago. 15 / 03:17 pm (ACI).- O Arcebispo Primaz do México, Cardeal Norberto Rivera Carrera, deu uma lição exemplar sobre como responder às pressões do lobby gay por meio de uma carta na qual responde a uma série de exigências feitas por uma transexual a respeito da postura da Igreja ante o aborto, o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo e a ideologia de gênero.

Cardeal Norberto Rivera. Foto Facebook SIAME / Diana Sánchez. Foto: Facebook Diana Sánchez.

No dia 29 de julho, a transexual Diana Sánchez Barrios enviou uma carta ao Cardeal Rivera na qual elogia as leis do aborto e das uniões homossexuais na capital mexicana – as quais considera um “benefício para a população”; e na qual acusa os bispos de Chihuahua, Durango e Sonora, e também o Arcebispo de Guadalajara, Cardeal Francisco Robles Ortega, de promover a homofobia e a discriminação contra os homossexuais.

Em sua carta, Sánchez Barrios, primeira transexual que busca um cargo político no México, tenta colocar como fiador do seu pedido o Papa Francisco e pede o fim da “violência” contra eles: “chega de discriminação, chega de promover o ódio em nome de Deus”, escreve a transexual.

No dia 11 de agosto, o SIAME (Sistema Informativo Da Arquidiocese do México) publicou a resposta do Cardeal Rivera à carta de Sánchez Barrios, na qual faz uma série de explicações e responde a cada um dos seus pedidos.

“Em primeiro lugar – escreve o Cardeal Rivera – discordo de você de que as aprovações de algumas leis são para o benefício da população, assassinar um bebê no ventre da sua mãe não é algo bom para a mulher que experimenta este episódio, muito menos para a criança, pois esta seria privada do primeiro de todos os direitos que é o direito à vida”.

Normalmente, ressaltou o Arcebispo Primaz do México, “as mulheres que abortaram procuram o sacramento da reconciliação, para pedir perdão a Nosso Senhor e a elas mesmas e não podemos imaginar a dor e a culpa que carregam, pois acabam ficando conscientes de que o aborto foi um ato terrível no qual assassinaram o seu próprio filho”.

O Cardeal afirmou ainda que “a Igreja não pode aceitar a aprovação de falsos direitos, como aqueles que você enumera através da sua carta, porque vão contra o que diz a Sagrada Escritura, a doutrina da Igreja que surge dela e a fé católica vivida na fidelidade ao projeto de Deus há dois mil anos”.

A respeito do pedido de Sánchez Barrios de repreender alguns prelados, o Cardeal explicou que, “com exceção dos meus oito bispos auxiliares, não tenho jurisdição sobre nenhum outro bispo do país, cada bispo, inclusive o Arcebispo de Guadalajara, Cardeal Francisco Robles Ortega, responde diretamente ao Santo Padre, podemos dizer o mesmo dos arcebispos de Chihuahua, Durango e Hermosillo”.

O Cardeal Rivera respondeu também que “não é o Papa Francisco quem pede de abster-se de discriminar as pessoas homossexuais, mas o Catecismo da Igreja Católica publicado em 1993, durante o pontificado de São João Paulo II, no número 2358: ‘… devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Devemos evitar, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta’”.

Em seguida, o Cardeal recordou que no numeral 2357 do Catecismo assinala que as relações homossexuais são “atos intrinsecamente desordenados, contrários à lei natural e não procedem de uma verdadeira complementariedade afetiva e sexual. Por tanto, não podem receber aprovação em nenhum caso”.

“E o Papa Francisco não mudou esta doutrina da Igreja”, precisou.

O Cardeal Norberto Rivera conclui sua carta agradecendo a missiva de Sánchez Barrios e desejou que “lhes conceda a luz do Espírito Santo para que conhecendo a verdade que Jesus revelou, possam viver conforme a essa verdade, a única que nos salva”.

18 agosto, 2015

A Ideologia de Gênero levada às últimas conseqüências na Holanda.

Começa na Holanda a poligamia gay.

Por Tommaso Scandroglio – La Nuova Bussola Quotidiana | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.com: Na Holanda existe agora a multi-parentalidade gay ou as famílias homossexuais polivalentes. É disso que se trata e tomem cuidado para não se perderem entre os laços de “parentesco”.

Jaco e Sjoerd são um par de homens homossexuais “casados”  um com o outro. Eles também têm um outro parceiro homossexual, Sean, que tem relações sexuais com ambos. Jaco e Sjoerd gostariam de se casar com Sean, mas, infelizmente, segundo eles dizem, tanto a poligamia heterossexual como homossexual ainda é proibida na Holanda: “Jaco e eu somos casados há oito anos. Infelizmente, não podemos casar com Sean, caso contrário, já o teríamos feito em um piscar de olhos”. Mas, prosseguindo, Daantje e Dewi são um par de lésbicas. Elas também são “casadas”. Os cinco se conhecem há anos. O par de lésbicas resolveu ter um filho através de uma sexta pessoa. Agora eles querem que esta criança seja educada por todos os cinco homossexuais. Assim, eles se dirigiram até o cartório para assinar um contrato regular de educação multigenitorial gay: “Cinco pais com direitos e deveres iguais, divididos em duas famílias: estas são as condições do contrato que todos nós assinamos e apresentamos ao escrivão”.

Mas, para os Países Baixos, este tipo de contrato não é juridicamente legal. No entanto, dado que cinco cabeças gay pensam melhor que uma só hetero, especialmente quando se trata de política igualitária, as duas “famílias” encontraram uma brecha. Na Holanda existe a possibilidade de que a mãe biológica nomeie para substituir o pai biológico ou cônjuge (também gay), um outro genitor legal. E assim Jaco foi nomeado genitor legal, em vez de Dewi. “Queríamos fazer de modo a ter certeza de que haveria um genitor legal em ambas as famílias, porque dividiremos também a educação”, disse essa última.

Esse caso holandês, que parece ter sido retirado do teatro do absurdo, é realmente muito ilustrativo porque abre os nossos olhos para a verdadeira revolução que a ideologia de gênero desencadeou tanto na antropologia como na estrutura familiar. Por trás de tudo se esconde uma lógica tão demente quanto férrea, que, se aceita, não fará outra coisa senão legitimar a multi-homo-parentalidade.

Primeiro: por que restringir o casamento a duas pessoas, se o ponto cardeal é o afeto? Três amigos não poderiam se querer bem o suficiente para querer se casar? Em segundo lugar, se dois gay — prossegue o argumento – podem buscar terceiros para ter uma criança, por que ela teria que ficar necessariamente restrita a uma só família?

Terceiro, se “família” é também aquela feita por um casal gay, porque a família não pode ser ainda composta por cinco gays?

Em quarto lugar, se uma criança pode vir ao mundo com a participação de quatro ou cinco pessoas, incluindo aí mães e pais biológicos, as mulheres que alugam o útero e outras que “doam” o DNA mitocondrial, por que tal criança não poderia ser educada por mais pessoas? Quanto mais pessoas o melhor, certo? Repetimos: se parte de você as premissas, deverá também aceitar as conclusões.

Estas quatro questões provocativas podem fundir-se em uma única reflexão. O caso ocorrido na Holanda encontra o seu coração pulsante em uma só palavra: “desejo”. O desejo, por sua própria natureza, se expande ao infinito. Se você deixá-lo correr à rédea livre, pode ter certeza de que ele jamais retornará ao seu ponto de partida, mas o levará para longe, muito longe.

E, de fato, essa história de genitores elevada à enésima potência tem um dinâmica centrífuga e no centro desta homo-lavanderia está o desejo. Um homem quer ter um relacionamento sexual com outro homem. Os dois querem “se casar”. Este par de “cônjuges” conhece um terceiro e tem em mente expandir a “família”. Os três conheçem um casal de lésbicas e querem ampliar ainda mais a “família”. O casal de lésbicas quer também se “casar” e, em seguida, querem um bebê. Todos os cinco desejam apaixonadamente ver crescer o bebê. E não tem ninguém para freá-los em suas intenções, porque agora se acredita que esses desejos são sacrossantos. Alguém do lado oposto diz que o certo seria proibir todas essas coisas, pois esses tipos de desejos não deveriam ser incentivados. Liberal sim, mas até um certo ponto. Um ponto bem plantado nas profundezas da loucura.

17 agosto, 2015

Summorum Pontificum no Brasil: Santa Missa na Catedral de Santo Amaro, SP.

missa 22agosto