Posts tagged ‘Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacr’

janeiro 24, 2012

Cañizares e a aprovação das celebrações neocatecumenais.

Por Vatican Insider | Tradução: Fratres in Unum.com

A Rádio Vaticano entrevista o prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos sobre o decreto.

Creio que a relação entre catequese e liturgia no Caminho Neocatecumenal seja exemplar.” Afirmou o Cardeal Antonio Cañizares Llovera, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. “A aprovação deste decreto sobre as celebrações do Caminho Neocatecumenal contidas no ‘Diretorio Catequético’ é, para toda a Igreja, um reconhecimento da maneira de como a iniciação cristã deve ter sempre uma união entre a Palavra e as celebrações”.

Durante a entrevista à Rádio Vaticano, o purpurado espanhol recordou o catecumenato antigo, no qual as diferentes etapas estavam marcadas por celebrações específicas para cada momento do itinerário da iniciação, e indicou que no Caminho Neocatecumenou “se faz o mesmo hoje: por isso, não são etapas artificiais, não se trata de uma simples metodologia inventada pelos homens [caiu do céu, Eminência? Uma nova revelação?], mas que correspondem ao itinerário da conversão”.

A celebração da Eucaristia — indicou — no interior do itinerário próprio destas comunidades ocorre de maneira muito digna e bela, com grande sentido de fé, com espírito eclesial, festivo e litúrgico, com profundo ‘sentido do mistério e do sagrado’. A Palavra de Deus e a Eucaristia assinalam a prioridade de Deus, a iniciativa de Deus, e constituem a base e a fonte que dão vida, estímulo e força às comunidades, capacidade, vigor e liberdade para dar testemunho e evangelização”.

Por isso, ao concluir sua reflexão sobre a liturgia, o prefeito vaticano disse que “realmente devemos dar graças a Deus por este dom com que enriquece a Igreja, nascido na Espanha, mas de tanto e tão fecundo influxo no mundo inteiro”.

* * *

Celebração “digna e bela, com grande sentido de fé, com espírito eclesial, festivo e litúrgico” do “Caminho Neocatecumenal da Diocese de Franca, SP, em Lisboa, Portugal, na primeira Eucaristia [supomos que ao final da missa] celebrada em território Europeu por ocasião da Jornada Mundial da Juventude Madrid 2011″ (descrição do próprio Youtube) .

janeiro 23, 2012

O Caminho Neocatecumenal e a Reforma da Reforma da Reforma da…

Cristo Rei - Kiko Argüello - 1960.

Cristo Rei - Kiko Argüello - 1960.

 Se usa um espelho de vidro para olhar a face;

e se usam obras de arte para olhar a própria alma.

(G. Bernard Shaw)

Por Francesco Colafemmina | Tradução: Gederson Falcometa, cuja gentileza agradecemos.

A noticía de hoje [sexta-feira, 20] deixou muitos católicos sem palavras. A dizer, o verdadeiro processo de definitiva aprovação e integração do Caminho Neocatecumenal no interior da Igreja já estava em ato há muitos anos. O movimento Neocatecumenal, apesar da agressividade e do sectarismo dos seus adeptos, é considerado por numerosos homens da Igreja um instrumento para a “nova evangelização”, um verdadeiro recurso para a Igreja do futuro. Me permito duvidar em mérito, especialmente porque o Caminho tem uma estética pessoal – a nova estética (mesma coisa que no orwelliano 1984) em óbvio contraste com a estética católica, mas eu sei: o meu parecer não conta nada. Chegamos à questão da “liturgia” neocatecumenal aprovada. Alguns dizem: “não foi aprovada a liturgia neocatecumenal, mas só algumas cerimônias não estritamente litúrgicas”. É verdade, mas alguns pontos devem ser esclarecidos.

Igreja Neocatecumenal.

Igreja Neocatecumenal.

Antes de tudo, não existe uma liturgia neocatecumenal. Existe um aparato litúrgico neocatecumenal feito de particulares práticas litúrgicas e aparelhos cenográficos, mas este aparato — estes ornamentos, estes cantos e danças, que desmoronam em verdadeiros e próprios abusos litúrgicos — persiste em livros litúrgicos da Igreja Católica. Repito: não existe uma liturgia própria, mas uma maneira singular de viver a liturgia.

Está “maneira singular” se insere no interior do assim dito “caminho de iniciação cristã” e se explica – no estatuto – através três celebrações essenciais: a celebração penitencial, a da palavra e a eucarística. A tais “celebrações” se acrescentam outras que seguem o percurso iniciatico do neocatecumeno. Ora, são estas “celebrações” que teriam obtido a aprovação da Congregação para o Culto Divino. A responsabilidade é, portanto, toda do Cardeal Cañizares que alterna periodicamente ataques franceses a retirada espanhola, tímida abertura à reforma da reforma que constantemente abortam ou permanecem nos jornais ou na ilusão de algum fiel.

Acrescento que está escrito nos Estatutos (art. 14, 3) “Na celebração da Eucaristia nas pequenas comunidades seguem-se os livros litúrgicos aprovados do Rito Romano, com exceção das concessões explícitas da Santa Sé. No que concerne à distribuição da Santa Comunhão sob as duas espécies, os neocatecúmenos a recebem em pé, permanecendo em seu lugar”.

A questão é que, apesar das boas intenções, o rito não se realiza nestes termos. Mesmo depois da aprovação do Estatuto, os Neocatecumenais fazem o que lhes dá na cabeça. Na verdade, as prescrições do Estatuto são constantemente violadas e posso confirmá-lo por experiência própria. Portanto – o Papa que, apesar do controle de sua Cúria intrometida e anárquica, tem ainda idéias claras – considerou oportuno acrescentar algumas notas de roda-pé sobre o sentido da liturgia como momento de comunhão não sectária, mas universal, da Igreja entendida como Corpo Místico. Palavras que entram no ouvido de Kiko e saem pelo de Carmen…

Duas observações pessoais:

Primeiro: como pode o Cardeal Canizares consentir ainda hoje que se destruam os altares antigos, que se disserte sobre onde colocar um ambão ou como eliminar balaustres, e depois deixar a possibilidade a um grupo carismático de celebrar a Missa a seu gosto? Como se pode, não digo ignorar, o exemplo do Santo Padre que colocou no centro do altar o Crucifixo, mas chegar a aprovar as “celebrações” de quem no lugar do Crucifixo no centro do altar põe a sagrada Menorah? Cañizares outrora era chamado de “o pequeno Ratzinger”. Acredito que hoje se possa continuar a chamá-lo somente de “o pequeno”…

Altar Católico.

Altar Católico.

Altar neocatecumenal.

Altar neocatecumenal.

Segundo: como simples católico, me indigna saber que o rito milenar da Igreja, aquela que simplesmente é definida como Missa em latim, seja ainda um tabu para muitos Bispos, enquanto hoje se autorizam pseudo-celebrações fundadas sobre um diretório catequético aprovado faz um ano e composto de 12 Volumes, mas secretos! Como é possível que a Igreja mantenha ainda em segredo catequeses de um movimento carismático que se diz “católico”, ou seja, universal? Me preocupa, portanto, uma Igreja que aprova movimentos esotéricos. Pessoalmente prefiro uma Igreja exotérica, aberta a todos mas igual para todos.

janeiro 20, 2012

Yes, they can. But…

Celebrações do Caminho Neocatecumenal são aprovadas pela Congregação para o Culto Divino. Mas Bento XVI faz uma ressalva: não são estritamente litúrgicas.

Fratres in Unum.com | Durante uma audiência com 7 mil participantes, a Santa Sé anunciou a aprovação das celebrações que marcam o itinerário de iniciação cristã do Caminho Neocatecumenal. O Papa Bento XVI também enviou 18 novos missio ad gentes à Europa, África e América.

Em entrevista à agência Zenit, Kiko Argüello, cofundador do movimento, comenta a aprovação:

“O reconhecimento da validade desta iniciação é um momento histórico para nós, o que estávamos esperando. Foi aprovada após anos de estudos e análises pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. No reconhecimento da validade é dito que as celebrações que marcam o percurso de crescimento do itinerário, de amadurecimento do homem novo, são magníficas e verdadeiramente inspiradas, ajudandando ao homem a convertê-lo e fazê-lo cristão, ajudando-o a crescer na fé a se unir a Jesus Cristo.  Estamos contentes e gratos a Deus por este reconhecimento.

“Depois de tanto sofrimento e tanto trabalho, somos gratos à Igreja, que reconhece oficialmente a validade desta iniciação cristã para a construção de um homem novo”. E continua Argüello: “Somos muito gratos a Bento XVI e à Igreja por este ato, no qual vemos e confirmamos que a Igreja é mãe e mestra”.

A aprovação chega após quinze anos de estudo pela Congregação para o Culto Divino e conclui o percurso de aprovação do Caminho Neocatecumenal: em 2008, a Santa Sé aprovou a versão final dos estatutos e, em 2011, aprovou a doutrina contida nos treze volumes do Diretório Catequético do Caminho Neocatecumenal.

Ressalva Pontifícia: celebrações presentes no Diretório catequético dos neocatecumenais não são estritamente litúrgicas. Igreja acompanha neocatecumenais, mas preserva a comunhão.

“Há pouco foi lido o decreto com que se aprovou as celebrações presentes no Diretório catequético dos neocatecumenais, que não são estritamente litúrgicas, mas fazem parte do itinerário de crescimento na fé”, declarou Bento XVI no curso da audiência.

“É um outro elemento que demonstra como a Igreja vos acompanha com atenção, em um paciente discernimento que compreende a vossa riqueza, mas protege também a comunhão e a harmonia de todo o Corpo de Cristo”.

Prosseguiu o Papa:

“A fim de favorecer a aproximação da riqueza da vida sacramental de pessoas que se afastaram da Igreja ou que não tenham recebido a formação adequada, os neocatecumenais podem celebrar a liturgia dominical na pequena comunidade após as primeiras vésperas do domingo, segundo as disposição do bispo dicesano”, declarou o Papa, citando os estatutos do movimento e arrancando aplausos dos presentes. “Mas — acrescentou — toda celebração eucarística é uma ação do único Cristo, juntamente com a sua única Igreja e, por isso, é essencialmente aberta a todos quem pertencem a esta Igreja. Este caráter público da santa eucaristia se exprime no fato de que cada celebração da Santa Missa é ultimamente ligada ao bispo enquanto membro do colégio episcopal responsável por uma determinada Igreja local. A celebração da pequena comunidade, como particularidade aprovada nos estatutos do Caminho, tem a tarefa de ajudar aqueles que percorrem o itinerário neocatecumenal a perceber a graça de estar inserido no mistério salvífico de Cristo. Ao mesmo tempo, o progressivo amadurecimento na fé do indivíduo e da pequena comunidade deve favorecer a sua inserção na vida da grande comunidade eclesial que encontra na celebração litúrgica da paróquia, na qual atual o neocatecumenato, a sua forma ordinária. Mas mesmo durante o Caminho, é importante não se separar da comunidade paroquial exatamente na celebração da liturgia, verdadeiro local de unidade de todos, onde o Senhor nos abraça nos diversos estados da maturidade espiritual e nos torna um só corpo”

Com informações de Zenit e TMNews.

novembro 24, 2011

“Alto lá!” ou “Agora vai?”. Vaticano criará comissão para acompanhar a construção das novas igrejas

IHU – Uma equipe para dizer “alto lá!” às igrejas-garagens, a essas arquiteturas atrevidas que correm o risco de desnaturalizar muitos espaços modernos de culto católico. E para promover um canto que ajude verdadeiramente a celebração da missa. Nas próximas semanas, será criada, anexa à Congregação do Culto Divino, a “Comissão para a arte e a música sacra para a liturgia”. Não se trata de um simples escritório, mas de uma verdadeira equipe que terá a tarefa de colaborar com as comissões encarregadas de avaliar os projetos de construção de novas igrejas nas dioceses, assim como de aprofundar o tema da música e do canto que acompanham a celebração.

Crise? Que crise? A diocese de Orange, EUA, acaba de comprar a antiga igreja protestante "Christal Cathedral" por uma pechincha: 57 milhões de dólares.

Crise? Que crise? A diocese de Orange, EUA, acaba de comprar a antiga igreja protestante "Christal Cathedral" por uma pechincha: 57 milhões de dólares.

A reportagem é de Andrea Tornielli e está publicada no sítio Vatican Insider, 21-11-2011. A tradução é do Cepat.

O cardeal Antonio Cañizares Llovera, Prefeito para o Culto Divino, de acordo com Bento XVI, considera este trabalho como “muito urgente”. A realidade é evidente: nos últimos anos, as igrejas foram substituídas por construções que parecem mais salões multiuso que igrejas. E muitas vezes, os arquitetos, inclusive os mais famosos, não partem do que é a liturgia católica para fazer seus projetos e acabam fazendo construções de vanguarda que se parecem com tudo menos com uma igreja. Cubos de cimento, caixas de vidro, formas arriscadas, espaços confusos nos quais, uma vez dentro, se percebe tudo menos o sentido do sacro e do mistério, onde o tabernáculo está meio escondido e, às vezes, é preciso procurá-lo como se fosse um tesouro, ou onde as imagens sacras quase não têm lugar. A nova comissão, cujo regulamento será redigido nestes dias, dará indicações precisas às dioceses, ocupando-se apenas da arte para a liturgia, não da arte sacra em geral, assim como da música e do canto para a liturgia. Contará com os poderes jurídicos da Congregação para o Culto.

Como é do conhecimento de todos, em 27 de setembro passado, Bento XVI, com o Motu Proprio Quaerit Semper, havia transferido para a Rota Romana (que é o tribunal da Santa Sé) a competência sobre duas matérias com as quais se ocupava até então a Congregação para o Culto. A primeira delas tem a ver com a nulidade da ordenação sacerdotal que, como acontece com o matrimônio, pode ser anulado por causa de vícios de matéria ou de forma, de consenso ou de intenção, tanto por parte do bispo que ordena como por parte do clérigo que é ordenado. A segunda matéria é a dispensa nos casos de matrimônio contraídos, mas não consumados. Práticas que ocupavam bastante o dicastério de Cañizares.

No Motu Proprio, o Papa explicava que: “Nas circunstâncias atuais, pareceu conveniente que a Congregação para o Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos se dedique principalmente a dar um novo impulso à promoção da Sagrada Liturgia na Igreja, segundo a renovação desejada pelo Concílio Vaticano II a partir da Constituição Sacrosactum Concilium”. O dicastério deve, pois, dedicar-se “a dar um novo impulso à promoção da Sagrada Liturgia na Igreja”, sobretudo com o exemplo. Desde este ponto de vista, com respeito aos projetos iniciais, parece afastar-se cada vez mais a ideia de uma “reforma da reforma” litúrgica (expressão usada pelo próprio Ratzinger quando era cardeal), e prevalece, ao contrário, um projeto de amplas dimensões que, sem propor a introdução de modificações na missa, se ocupe em favorecer a “ars celebrandi” e a fidelidade aos pareceres e às instituições do novo missal.

Vale a pena, de fato, recordar que os abusos litúrgicos, verificados nas últimas décadas e que, em certo sentido, se converteram em uma prática comum, são levados a cabo em dissonância com as normas estabelecidas pela reforma litúrgica de Paulo VI. Assim, não é a reforma que deve ser retocada, mas é preciso aprofundar, e em alguns casos recuperar, o significado da liturgia bem celebrada. Por isso, a Congregação para o Culto pretende promover um trabalho de formação a partir de baixo, que envolva os sacerdotes, religiosos e catequistas. Seguindo o exemplo e o magistério de Bento XVI, teria que favorecer a recuperação do sentido do sagrado e do mistério da liturgia.

Alguns textos litúrgicos devem ser revisados, porque estão velhos, como o caso do Ritual da Penitência, publicado em 1974. Durante os anos que se seguiram, chegaram uma instrução apostólica, um motu proprio, o novo Código de Direito Canônico e o Novo Catecismo. Uma atualização, neste e em outros casos, terá que levá-la a cabo. A ideia na qual estava trabalhando o cardeal Cañizares é a de reafirmar o primado da graça sobre a ação humana, da necessidade de abrir espaço à ação de Deus na liturgia com respeito ao que se dá à criatividade humana. As ocasiões para refletir sobre estes temas serão muitas. No próximo ano, 2012, completam-se os 50 anos do Concílio Vaticano II e, no ano seguinte, se celebrarão os 50 anos do primeiro texto conciliar aprovado: a Constituição da Liturgia, a Sacrosanctum Concilium.

julho 18, 2011

Roma locuta, causa finita?

A revista Notitiae é uma publicação surgida em 1965 sob a égide do Consilium ad Exsequandam Constitutionem de Sacra Liturgia, comissão de peritos encarregada pela Santa Sé para elaborar as normas de aplicação da Constituição Sacrosanctum Concilium do Concílio Vaticano II. Este órgão foi posteriormente unido à Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, que até hoje mantém a publicação de Notitiae, apresentando nela suas respostas oficiais às dúvidas encaminhadas por católicos do mundo inteiro.

De difícil acesso ao grande público, algumas das edições dessa revista começam a ser digitalizadas e podem ser encontradas em sua versão latina original e em tradução inglesa aqui.

Selecionamos e traduzimos algumas das respostas (os destaques são nossos):

Questionada em 1966 sobre a distribuição de missais aos fiéis, respondeu a Congregação para o Culto Divino:

“Por vezes são difundidas notícias sobre uma iminente reforma do Ordinário da Missa ou uma definitiva restauração de todo o Missal; isso carece seriamente de fundamento. A restauração litúrgica necessita de mais esforços e anos de estudo. Portanto, os pequenos missais, se baseados no critério da reforma moderna e organizados com alguma flexibilidade e variedade, estarão aptos a ser usados por alguns anos”.

Notitiae 2 (1966), 32, p. 97.

Três anos depois, seria imposto o novo missal de Paulo VI.

* * *

Questionada em 1978 sobre sobre a possibilidade de se usar as formas de incensação previstas no missal precedente (São Pio V) em celebrações mais solenes segundo o missal de Paulo VI:

Não se deve nunca esquecer que o Missal do Papa Paulo VI, do ano de 1970, substituiu aquele que é impropriamente chamado “o missal de São Pio V” e ele o fez integralmente, seja quanto aos textos como às rubricas. Onde as rubricas do Missal de Paulo VI nada ou pouco dizem especificamente em alguns lugares, não se deve, portanto, inferir que o antigo rito deva ser seguido. Consequentemente, os muitos e complexos gestos de incensação do antigo Missal (cf. Missale Romanum, T. P. Vaticanis, 1962: Ritus servandus VII et Ordo Incensandi, pp. LXXX-LXXXIII) não devem ser repetidos.

Notitiae 14 (1978), 301–302, n. 2.

De fato, a resposta apenas repetia o “Magistério Vivo” de então:

“É em nome da Tradição que pedimos a todos os filhos, a todas as comunidades católicas, que celebrem, com dignidade e fervor, a Liturgia reformada. A adoção do Novo “Ordo Missæ” não é deixada certamente ao arbítrio dos padres ou fiéis: e a instrução de 14 de junho de 1971 previu a celebração da Missa na antiga forma, com a autorização do ordinário, apenas para padres idosos ou doentes que oferecem o Divino Sacrifício sine populo. O Novo Ordo foi promulgado para substituir o antigo, após madura deliberação, depois das instâncias do Concílio Vaticano II. Não diversamente o nosso santo predecessor Pio V fez obrigatório o Missal reformado sob sua autoridade após o Concílio Tridentino. (Paulo VI, Consistório para nomeação de Vinte Cardeais, 24 de maio de 1976)

Em 2007, Bento XVI afirmará que o missal de São Pio V nunca fora ab-rogado.

* * *

Questionada também em 1978 se a comunhão « self service » estaria permitida:

Absolutamente não. O gesto realizado por Cristo na instituição da Eucaristia é mais conveniente e dignamente expresso quando o pão consagrado é verdadeiramente dado aos fiéis. [...] A Santa Igreja preferiu que os ministros extraordinários da Sagrada Comunhão se multiplassem, sejam homens ou mulheres, do que tolerar que o gesto bíblico fosse abandonado.

Notitiae 14 (1978), 301–302, n. 2.

De fato, os ministros (e sobretudo as ministras) se multiplicaram desde então, a ponto de, em 2004, a mesmíssima Congregação para o Culto Divino restringir sua “preferência pela multiplicação”:  “Só aonde a necessidade o requeira, os ministros extraordinários podem ajudar ao sacerdote celebrante, de acordo com as normas do direito” (Redemptionis Sacramentum, 88). Já o “self service” continua se multiplicando, apesar da proibição reafirmada no mesmo documento.

* * *

Analisando as respostas como um todo, e para nos limitarmos apenas ao campo da liturgia, não se pode deixar de notar que a “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”, criticada pelo Papa em seu discurso à Cúria Romana para o Natal de 2005, goza não só “da simpatia dos mass media e também de uma parte da teologia moderna”, como afirmou Bento XVI, mas igualmente da Cúria Romana. Apreço que, embora decadente, sobrevive até hoje graças ao partido “montiniano”, que costuma ser o primeiro a sabotar as medidas do atual pontificado em direção ao seu objetivo de implementar uma “hermêutica da reforma na continuidade”.

março 16, 2011

O que se passa no Santuário Nacional da Imaculada Conceição em Washington?

Dom Joseph Augustine Di Noia, secretário da Congregação para o Culto Divino: nova compreensão de Summorum Pontificum.

Dom Joseph Augustine Di Noia, secretário da Congregação para o Culto Divino: nova compreensão de Summorum Pontificum.

Summorum Pontificum Observatus | Tradução: Fratres in Unum.com – No ano passado, uma missa na forma tradicional tinha sido celebrada com uma significativa participação no santuário da Imaculada Conceição em Washington, EUA. Esperava-se a renovação deste acontecimento neste ano. Há várias semanas, o comitê de organização desta missa tinha preparado os últimos detalhes. O celebrante seria Dom Joseph Augustin Di Noia, secretário da Congregação para o Culto Divino. Ele cancelou a sua participação, o que ao mesmo tempo torna impossível, no entender organizadores, a celebração desta missa. O que ocorreu? Após pesquisar, pude reconstituir os fatos:

1°) Em primeiro lugar, foi Dom Di Noia quem deu início ao caso, retirando a colaboração que havia prometido. Ele teria exposto suas razões numa carta dirigida ao Padre Berg, superior geral da Fraternidade São Pedro, com cópia ao Padre Flood, superior do distrito norte-americano. Nesta carta, dava seu motivo: que as disposições do Motu Proprio doravante são melhor compreendidas (deve se tratar da instrução): Summorum Pontificum não visa as celebrações pontuais por ocasião de desse ou daquele acontecimento; visa apenas a celebração paroquial regular para um grupo estável. Por conseguinte, não [visa] a grande missa na Basílica.

2°) Consequentemente, os organizadores desta missa pontifical na Basílica do Santunário da Imaculada Conceição, que, aliás,  haviam sofrido  de resto tivessem sofrido mil contrariedades da parte da diocese de Washington, decidiram, um tanto apressadamente, cancelar a cerimônia. Eles comunicaram a diocese, que, como se podia imagiar, se rejubilou.

3°) Porém, alguns aconselharam antes a batalhar, não era hora para derrotismo. Três padres, pelo menos, consideravam fazer a viagem saindo de Denton [ndr: cidade sede do seminário da FSSP nos EUA].

4°) Seguros desse encorajamento, ou, antes, dessa exortação estimulante, os organizadores mudam de rumo e declararam à diocese que esperavam encontrar um bispo substituto, e que a cerimônia ocorreria como previsto.

5°) As autoridades diocesanas facilmente responderam que não, o primeiro instinto dos organizadores estava certo, era necessário com certeza cancelar. Além do mais, a diocese já conta com três lugares de missa na forma extraordinária em horário regular, logo, os que estão ligados a esta forma têm já o problema da escolha (para nos referimos à argumentação de Dom Di Noia)! Como enfatiza a Mouche du Coche, no Forum Catholique, hoje parece, portanto, que até  as “celebrações ocasionais” estão também na mira.

fevereiro 15, 2011

“Reforma da Reforma”, anúncios e desmentidos: o precedente de 2009.

Por Francesco Colafemmina – Fides et Forma

Tradução: Fratres in Unum.com

"Procissão de Corpus Christi" em Linz, Áustria. Para o porta-voz da Santa Sé, Pe. Lombardi, não há razões para pensar em um ato “restritivo” com relação à renovação litúrgica pós-conciliar.

"Procissão de Corpus Christi" em Linz, Áustria. Para o porta-voz da Santa Sé, Pe. Lombardi, não há razões para pensar em um ato “restritivo” com relação à renovação litúrgica pós-conciliar.

Em agosto de 2009, Andrea Tornielli anunciou em sua coluna em Il Giornale que o Santo Padre havia aprovado a proposta votada pela Plenária do Culto Divino em 14 de março de 2009.

“Os Cardeais e Bispos membros da Congregação votaram quase unanimemente em favor de uma maior sacralidade do rito, da recuperação do senso de culto eucarístico, da retomada da língua Latina na celebração e da reelaboração das partes introdutórias do Missal a fim de pôr fim aos abusos, experimentações desordenadas e inadequada criatividade. Eles também se declararam favoráveis a reafirmar que o modo ordinário de receber a Comunhão conforme as normas não é na mão, mas na boca. Há, é verdade, um indulto que, a pedido dos episcopados [locais], permite a distribuição da hóstia também na palma da mão, mas isso deve permanecer um fato extraordinário”.

Acrescentava Tornielli:

“As ‘propositiones’ votadas pelos Cardeais e Bispos na plenária de março prevêem um retorno ao sentido de sagrado e de adoração, mas também um redescobrimento das celebrações em latim nas dioceses, ao menos nas solenidades principais, assim como a publicação de Missais bilíngües – um pedido feito a seu tempo por Paulo VI – com o texto em latim primeiro”.

Dois dias depois do artigo de Tornielli, chega o desmentido do Pe. Ciro Benedettini, vice-diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé. Benedittini esclarece particularmente que “no momento não existem propostas institucionais relativas a uma mudança dos livros litúrgicos atualmente em uso”. O desmentido foi considerado um “não desmentido” da reforma da reforma, mas efetivamente o tumulto que seguiu aquela antecipação do Giornale no Sacri Palazzi fez com que o projeto de Cañizares fosse abortado.

Hoje, após quase dois anos, lá vamos nós de novo!

Tornielli publicou, na manhã do dia 9 de fevereiro, um interessantíssimo artigo em que fala sobre um Motu Proprio papal dedicado à reorganização da Congregação para o Culto Divino com “a função de promover uma liturgia mais fiel às intenções originárias do Concílio Vaticano II, com menos espaços para mudanças arbitrárias e a fim de recuperar uma dimensão de maior sacralidade”.

Tornielli acrescenta, recordando sua entrevista com Cañizares em dezembro passado, que “a Congregação para o Culto Divino – que alguns gostariam de rebatizar como da sagrada liturgia ou da divina liturgia – deverá pois ocupar deste novo movimento litúrgico, inclusive com a inauguração de uma nova seção do dicastério dedicada à arte e à música sacra”.

Eu também quis falar no Fides et Forma sobre esta notícia… mas estava quase certo que chegaria o desmentido. Não porque Andrea Tornielli não tenha dito a verdade, mas porque o Cardeal Bertone certamente teria bombardeado Pe. Lombardi de telefonemas para lhe pedir que negasse o conteúdo do artigo de Tornielli.

Eis, portanto, o desmentido de Lombardi noticiado pela Rádio Vaticano, às 13:41 do mesmo dia:

“Padre Lombardi confirmou que ‹‹ há tempos vem sendo estudado um Motu Proprio para dispor sobre a transferência de uma competência técnico-jurídica — como, por exemplo, a dispensa para o matrimônio rato mas não consumado da Congregação para o Culto Divino para o tribunal da Sagrada Rota [Romana]. Mas – afirmou — não há qualquer fundamento nem motivo para se ver nele uma tentativa de promover um controle de tipo ‘restritivo‘ da parte da Congregação na promoção da renovação litúrgica desejada pelo Concílio Vaticano Segundo ›› ”.

Como de costume, o propósito é intimidatório: seja em relação a Tornielli, como em relação a quem queira promover uma “reforma da reforma”. No artigo de Tornielli não se fala de qualquer “controle restritivo na promoção da renovação litúrgica”. Fala, pelo contrário, de “mudanças arbitrárias” da liturgia e, dessa forma, dos abusos litúrgicos. Assim, Padre Lombardi intencionalmente interpreta pro domo sua (ou de quem trabalha na terza loggia [ndr: terceiro andar do Palácio Apostólico, onde fica a Secretaria de Estado) um trecho do artigo de Tornielli e naturalmente vai mais além, deixando entrever o medo de uma “Igreja punitiva" no âmbito litúrgico. Pelo contrário -- 50 anos depois da renovação litúrgica do Concílio” (mais de Bugnini e Lercaro que do Concílio!), Padre Lombardi tem a coragem de nos repropor a usual ladainha sobre a “promoção”desta bendita renovação litúrgica!

Pergunta: onde o Padre Lombardi viveu nestes últimos 50 anos? Não percebeu nada? Não lhe parece que a Igreja esteja desde então muito renovada liturgicamente? E não lhe parece que desde então muitos altares foram destruídos e muitas igrejas desfiguradas em nome da “promoção” da renovação litúrgica do Concílio? Muito novo para ser velho, ultrapassado, mofado, insuportavelmente retórico e francamente repetitivo?

fevereiro 9, 2011

Reforma da reforma: Novo “motu proprio” sobre a Congregação para o Culto Divino. Lombardi: não há motivo para considerar a medida como “restritiva”.

[Atualização - 09 de fevereiro de 2011, às 11:28] (Rorate-Caeli) Respondendo a jornalistas, o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, pe. Federico Lombardi, afirmou:

“É verdade que um motu proprio há tempos vem sendo estudado para dispor sobre a transferência de uma competência técnica legal — como, por exemplo, a dispensa para o matrimônio “ratum sed non consummatum” da Congregação para o Culto Divino para o tribunal da Sagrada Rota [Romana]. Mas não há qualquer fundamento nem motivo para se ver nele uma tentativa de promover um controle de tipo “restritivo” da parte da Congregação na promoção da renovação litúrgica desejada pelo Concílio Vaticano Segundo”.

* * *

Tradução do sempre excelente Oblatvs:

Será publicado nas próximas semanas um documento de Bento XVI que reorganiza as competências da Congregação para o Culto Divino, confiando-lhe a função de promover uma liturgia mais fiel às intenções originárias do Concílio Vaticano II, com menos espaços para mudanças arbitrárias e a fim de recuperar uma dimensão de maior sacralidade.

O documento, que terá a forma de um motu proprio, é fruto de uma longa gestação – foi revisto pelo Pontifício Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos e pelos ofícios da Secretaria de Estado – e é motivado principalmente pela transferência de competência sobre causas matrimoniais para a Rota Romana. Trata-se das chamadas causas do “rato mas não consumado”, isto é, que dizem respeito ao matrimônio realizado na igreja mas não consumado pela falta de união carnal dos dois esposos. São cerca de quinhentos casos por ano e dizem respeito sobretudo a alguns países asiáticos onde ainda existem os matrimônios combinados com mocinhas em idade muito tenra, mas também a países ocidentais para aqueles casos de impotência psicológica para cumprir o ato conjugal.

Perdendo esta seção, que passará à Rota, a Congregação para o Culto Divino, de fato, não se ocupará mais dos sacramentos e manterá apenas a competência em matéria litúrgica. Segundo algumas autorizadas indiscrições, uma passagem do motu proprio de Bento XVI poderia citar explicitamente aquele “novo movimento litúrgico” do qual falou recentemente o Cardeal Antonio Cañizares Llovera, intervindo durante o consistório de novembro passado.

Ao Giornale, em uma entrevista publicada nas véspera do Natal passado, Cañizares havia dito: “A reforma litúrgica foi realizada com muita pressa. Havia ótimas intenções e o desejo de aplicar o Vaticano II. Mas houve precipitação… A renovação litúrgica foi vista como uma pesquisa de laboratório, fruto da imaginação e da criatividade, a palavra mágica de então”. O cardeal, que não era parcial ao falar de “reforma da reforma”, havia acrescentado: “O que vejo absolutamente necessário e urgente, segundo o que deseja o Papa, é dar vida a um novo, claro e vigoroso movimento litúrgico em toda a Igreja”, para pôr fim a “deformações arbitrárias” e ao processo de “secularização que desafortunadamente atinge até o íntimo da Igreja”.

É sabido que Ratzinger tenha desejado introduzir nas liturgias papais gestos significativos e exemplares: a cruz no centro do altar, a comunhão de joelhos, o canto gregoriano, o espaço para o silêncio. Sabe-se quanto considera a beleza na arte sacra e quanto considera importante promover a adoração eucarística. A Congregação para o Culto Divino – que alguns gostariam de rebatizar como da sagrada liturgia ou da divina liturgia – deverá pois ocupar deste novo movimento litúrgico, inclusive com a inauguração de uma nova seção do dicastério dedicada à arte e à música sacra.

Fonte: Blog de Andrea Tornielli

dezembro 27, 2010

“Chega de missa criativa, na igreja silêncio e oração”.

Apresentamos nossa tradução da entrevista concedida pelo Cardeal Antonio Cañizares a Andrea Tornielli, do Il Giornale, via La Buhardilla de Jerónimo.

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Cardeal Antonio Cañizares Llovera, com a Capa Magna.

Cardeal Antonio Cañizares Llovera, com a Capa Magna.

A liturgia católica vive “uma certa crise” e Bento XVI quer dar vida a um novo movimento litúrgico, que volte a trazer mais sacralidade e silêncio à Missa, e mais atenção à beleza no canto, na música e na arte sacra.

O Cardeal Antonio Cañizares Llovera, 65 anos, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, que enquanto bispo na Espanha era chamado de “o pequeno Ratzinger”, é o homem ao qual o Papa confiou esta tarefa. Nesta entevista a Il Giornale, o “ministro” da liturgia de Bento XVI revela e explica programas e projetos.

Como cardeal, Joseph Ratzinger havia lamentado uma certa pressa na reforma litúrgica pós-conciliar. Qual é a sua opinião?

A reforma litúrgica foi realizada com muita presa. Havia ótimas intenções e o desejo de aplicar o Vaticano II. Mas houve precipitação. Não se deu tempo e espaço suficiente para acolher e interiorizar os ensinamentos do Concílio; de repente, mudou-se o modo de celebrar.

Recordo bem a mentalidade então difundida: era necessário mudar, criar algo novo. Aquilo que havíamos recebido, a tradição, era visto como um obstáculo. A reforma foi entendida como obra humana, muitos pensavam que a Igeja era obra de nossas mãos e não de Deus. A renovação litúrgica foi vista como uma investigação de laboratório, fruto da imaginação e da criatividade, a palavra mágica de então.

Como cardeal, Ratzinger havia prognosticado uma “reforma da reforma” litúrgica, palavras atualmente impronunciáveis, mesmo no Vaticano. Todavia, parece evidente que Bento XVI a deseje. É possível falar dela?

Não sei se é possível, ou se é conveniente, falar de “reforma da reforma”. O que vejo absolutamente necessário e urgente, segundo o que deseja o Papa, é dar vida a um novo, claro e vigoroso movimento litúrgico em toda a Igreja. Porque, como explica Bento XVI no primeiro volume de sua Opera Omnia, em relação à liturgia se decide o destino da fé e da Igreja. Cristo está presente na Igreja através dos sacramentos. Deus é o sujeito da história, e não nós. A liturgia não é uma ação do homem, mas de Deus.

O Papa, mais que decisões impostas de cima, fala com o exemplo. Como ler as mudanças introduzidas por ele nas celebrações papais?

Acima de tudo, não deve haver nenhuma dúvida sobre a bondade da renovação litúrgica conciliar, que trouxe grandes benefícios para a vida da Igreja, como a participação mais consciente e ativa dos fiéis e a presença enriquecida da Sagrada Escritura. Mas além destes e outros benefícios, não faltaram sombras, surgidas nos anos seguintes ao Vaticano II: a liturgia, isso é fato, foi “ferida” por deformações arbitrárias, provocadas também pela secularização que desgraçadamente atinge também dentro da Igreja. Consequentemente, em muitas celebrações já não se coloca Deus no centro, mas o homem e seu protagonismo, sua ação criativa, o papel principal é dado à assembléia. A renovação conciliar foi entendida como uma ruptura e não como um desenvolvimento orgânico da tradição. Devemos reaviver o espírito da liturgia e para isso são significativos os gestos introduzidos nas liturgias do Papa: a orientação da ação litúrgica, a cruz no centro do altar, a comunhão de joellhos, o canto gregoriano, o espaço para o silêncio, a beleza na arte sacra. É também necessário e urgente promover a adoração eucarística: diante da presenção real do Senhor, não se pode senão estar em adoração.

Quando se fala de uma recuperação da dimensão do sagrado, há sempre quem apresente tudo isso como um simples retorno ao passado, fruto de nostalgia. Como o senhor responde?

A perda do sentido do sagrado, do Mistério, de Deus, é uma das perdas de consequências mais graves para um verdadeiro humanismo. Quem pensa que reavivar, recuperar e reforçar o espírito da liturgia e a verdade da celebração é um simples retorno a um passado superado, ignora a verdade das coisas. Colocar a liturgia no centro da vida da Igreja não é em nada nostálgico, mas, pelo contrário, é garantia de estar a caminho em direção ao futuro.

Como julga o estado da liturgia católica no mundo?

Diante do risco da rotina, diante de algumas confusões, da pobreza e da banalidade do canto e da música sacra, pode-se dizer que há uma certa crise. Por isso é urgente um novo movimento litúrgico. Bento XVI, indicando o exemplo de São Francisco de Assis, muito devoto do Santíssimo Sacramento, explicou que o verdadeiro reformador é alguém que obedece a fé: não se move de maneira arbitrária e não se arroga nenhuma discricionariedade sobre o rito. Não é o dono, mas o custódio do tesouro instituido pelo Senhor e confiado a nós. O Papa, portanto, pede à nossa Congregação promover uma renovação segundo o Vaticano II, em sintonia com a tradição litúrgica da Igreja, sem esquecer a norma conciliar que prescreve não introduzir inovações exceto quando as requererem uma verdadeira e comprovada utilidade para a Igreja, com a advertência de que as novas formas, em todo caso, devem surgir organicamente das já existentes.

O que pretende fazer como Congregação?

Devemos considerar a renovação litúrgica segundo a hermêutica da continudade na reforma indicada por Bento XVI para ler o Concílio. E para fazê-lo, é necessário superar a tendência de “congelar” o estado atual da reforma pós-conciliar, de um modo que não faz justiça ao desenvolvimento orgânico da liturgia da Igreja.

Estamos tentanto levar adiante um grande empenho na formação dos sacerdotes, seminaristas, consagrados e fiéis leigos, para favorecer a compreensão do verdadeiro significado das celebrações da Igreja. Isso requer uma adequada e ampla instrução, vigilância e fidelidade nos ritos, e uma autêntica educação para vivê-los plenamente. Este empenho será acompanhado pela revisão e pela atualização dos textos introdutórios de diversas celebrações (prenotanda). Somos conscientes também de que dar impulso a este novo movimento não será possível sem uma renovação pastoral da iniciação cristã.

Uma perspectiva que deveria ser aplicada também à arte e à música…

O novo movimento litúrgico deverá fazer descobrir a beleza da liturgia. Por isso, abriremos uma nova seção em nossa Congregação dedicada à “Arte e música sacra” a serviço da liturgia. Isso nos levará a oferecer, o quanto antes, critérios e orientações para a arte, canto e música sacras. Como também pensamos em oferecer o mais rápido possível critérios e orientações para a pregação.

Nas Igrejas desaparecem os genuflexórios, a Missa às vezes é ainda um espaço aberto à criatividade, são cortadas inclusive as partes mais sagradas do cânon. Como inverter esta tendência?

A vigilância da Igreja é fundamental e não deve ser considerada como algo inquisitório ou repressivo, mas como um serviço. Em todo caso, devemos tornar todos conscientes da exigência, não só dos direitos do fiéis, mas também dos “direitos de Deus”.

Existe também o risco oposto, isto é, o de se crer que a sacralidade da liturgia depende da riqueza dos paramentos: uma posição fruto de esteticismo que parece ignorar o coração da liturgia…

A beleza é fundamental, mas é algo muito distintito de um esteticismo vazio, formalista e estéril, no qual se cai às vezes. Existe o risco de se acreditar que a beleza e a sacralidade da liturgia dependem da riqueza ou da antiguidade dos paramentos. É necessário uma boa formação e uma boa catequese baseada no Catecismo da Igreja Católica, evitando também o risco oposto, o da banalização, e atuando com decisão e energia quando se recorre a costumes que tiveram seu sentido no passado, mas que atualmente não têm ou não contribuem de nenhum modo para a verdade da celebração.

Poderia nos dar alguma indicação concreta sobre o que poderia mudar na liturgia?

Mais que pensar em mudanças, devemos nos comprometer em reaviver e promover um novo movimento litúrgico, seguindo o ensinamento de Bento XVI, a reaviver o sentido do sagrado e do Mistério, pondo Deus no centro de tudo. Devemos impulsionar a adoração eucarística, renovar e melhorar o canto litúrgico, cultivar o silêncio, dar mais espaço à meditação. Disso surgirá as mudanças…

agosto 10, 2010

Cardeal Cañizares: São Pio X, modelo de piedade eucarística e renovação eclesial.

(IHU) Neste domingo, 08 de agosto, se celebrou o centenário da publicação do decreto “Quam singulari Christus amore”, do Papa Pio X, beatificado em 1951 e canonizado em 1954. Por este motivo, o prefeito da Congregação para o Culto Divino, o cardeal Antonio Cañizares Llovera escreveu uma reflexão no L’Osservatore Romano deste domingo em que assinala que “seguindo os ensinamentos dos Concílios Lateranense IV (1215) e Tridentino (1545-1563), o Papa [Giuseppe Melchiorre] Sarto [nome de nascimento de Pio X] fixou a data para a primeira comunhão e a confissão das crianças na idade do uso da razão, ou seja, em torno dos sete anos”.

A reportagem está publicada no sítio Religión Digital, 08-08-2010. A tradução é do Cepat.

“Esta disposição implicava uma mudança muito importante para a prática pastoral e na concepção habitual da época, que, por diversas razões – observa o cardeal Cañizares –, se havia atrasado este evento fundamental para a vida espiritual do homem”.

Com este decreto, Pio X, o grande e santo Papa da piedade e da participação eucarística com o desejo de renovação eclesial, que inspirou seu pontificado, “ensinou a toda a Igreja o sentido, o momento, o valor e a centralidade da santa Comunhão para a vida de todos os batizados, inclusive as crianças”.

Ao mesmo tempo, tomar a primeira comunhão de pequenos, destaca o cardeal Cañizares, mostra a todos “a predileção de Jesus pelas crianças” e recorda suas palavras: “se não vos tornardes como crianças, não entrareis no reino de Deus”; “deixai vir a mim estas crianças”. Com a mesma predileção e o mesmo olhar amoroso e solicitude especial, Igreja olha para as crianças.

“Não existe amor maior nem presente maior”, escreve o cardeal espanhol. “E isto é ainda mais importante no tempo em que vivemos e de modo especial para as crianças, cuja pureza, simplicidade, ‘santidade’, atitude para com Deus e amor são, infeliz e frequentemente, manipulados e destruídos”.

“A primeira comunhão das crianças é como o início de um caminho junto a Jesus em comunhão com Ele: o início de uma amizade destinada a durar e a reforçar-se durante toda a vida”. Quando Pio X antecipou a idade da primeira comunhão, assina o prefeito do Culto Divino, insistiu na necessidade da boa formação e de uma boa catequese. “Hoje devemos acompanhar esta antecipação da idade com uma nova e vigorosa pastoral de iniciação cristã”.