Posts tagged ‘Cúria Romana’

maio 16, 2012

O comentário do Padre Lombardi.

Com informações de Sir – “Um processo que continua ainda totalmente aberto” e  “não é oportuno neste momento prever prazos”. Assim comentou o porta-voz da Santa Sé, Padre Federico Lombardi, SJ, sobre o comunicado de hoje a respeito da Fraternidade São Pio X.

“Não é questão de prazos muito curtos e de última fase, como poderia parecer”, acrescentou a respeito do resultado da reunião de hoje, da qual participaram cerca de 20 a 30 pessoas. Padre Lombardi ainda disse que é necessário fazer uma “distinção” entre o procedimento que continua, baseado na resposta de Dom Fellay, e o exame das posições tomadas por cada um dos bispos da Fraternidade.

maio 3, 2012

Vaticano reforma Caritas International após crise institucional.

AFP – O Vaticano supervisionará de maneira mais rigorosa as atividades da Caritas International, que coordena 162 organizações de caridade no mundo, após uma série de problemas doutrinários, jurídicos e econômicos, informou nesta quarta-feira a Santa Sé.

A reforma da maior organização humanitária da Igreja Católica foi adotada por meio de um decreto, publicado nesta quarta-feira, e que entrou em vigor a partir do momento de sua publicação.

O decreto foi assinado pelo cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, e aprovado de forma específica pelo papa Bento XVI no dia 27 de abril.

Com o decreto renova-se o âmbito jurídico da entidade, fundada em 1951, que presta assistência a cerca de 24 milhões de pessoas em 200 países, sem levar em conta a raça ou a religião, e dá emprego a 40 mil pessoas remuneradas e a 125 mil voluntários.

“Com as novas regras, nosso trabalho humanitário de assistência e desenvolvimento será modernizado a serviço das populações mais pobres”, escreveu no site da entidade o presidente da Caritas International, o cardeal hondurenho Oscar Rodríguez Maradiaga.

O decreto vaticano estabelece que o Pontifício Conselho “Cor Unum” (responsável pelas obras de caridade da Igreja) e a Secretaria de Estado do Vaticano ficam responsáveis pela aprovação de todo texto doutrinário ou moral da entidade.

Uma comissão de assistentes e um assessor eclesiástico também deverão promover “a identidade católica” da Caritas International.

As contas elaboradas pelo tesoureiro deverão ser aprovadas pela Santa Sé, com o objetivo de alcançar a transparência financeira, promovida em todos os organismos do Vaticano.

O cardeal africano Robert Sarah, presidente da Cor Unum, esclareceu que a Santa Sé “tem o dever” de seguir as atividades da Caritas, de modo que sua mensagem seja divulgada de forma coerente com o magistério da Igreja.

“A Caritas deve ser porta-voz de uma visão antropológica sã” frente à comunidade internacional, disse.

No ano passado, o Papa convidou a Caritas a defender “os valores não negociáveis” da Igreja e a promovê-los em todas as instâncias internacionais de modo a “não cair em ideologias nocivas”.

Para a Igreja, a Caritas International não é formada por uma série de organizações não governamentais e deve respeitar seus princípios básicos, como a defesa da vida desde sua concepção até sua morte natural, assim como o não ao aborto, à eutanásia e ao uso do preservativo.

No ano passado surgiram tensões dentro da entidade, já que alguns setores consideram prioritária a ajuda no local mais que a evangelização.

Em maio de 2011, a então secretária-geral, a inglesa Lesley-Anne Knight, considerada muito independente, não foi confirmada em seu cargo.

Interrogado pela AFP, o novo secretário-geral, o francês Michel Roy, elogiou a reforma da entidade, já que permitirá uma maior interação entre Cúria e Caritas e reforça “a dimensão eclesial” da entidade.

Nos novos estatutos se especifica que a Caritas International está a serviço dos membros da confederação, assim como da Santa Sé.

abril 23, 2012

O Cardeal Rambo que constrange o Vaticano.

Em plena comunhão com o colégio episcopal universal, a CNBB poderia tê-lo convidado para sua campanha pacificista no período do plebiscito sobre o desarmamento...

Savona, Itália – Dom Calcagno com a paixão pelas armas: um verdadeiro arsenal em casa. Uma coleção de treze peças de fuzis e pistolas, antigos e novos, que usa no polígono.

Por Marco Preve – La Repubblica | Tradução: Fratres in Unum.com

Cardeal Calcagno foi criado Cardeal no consistório de fevereiro de 2012.

Em Savona, há aqueles que, num enorme segredo, o tinham apelidado de Monsenhor Rambo. Mas agora que a paixão pelas armas do Cardeal Domenico Calcagno se tornou pública, desde o Vaticano se filtram os comentários, tanto os anônimos como os embaraçados. O caso, de fato, envolve um dos cardeais mais poderosos e influentes, atualmente chefe da APSA (Administração do Patrimônio da Sé Apostólica), e anteriormente a cargo dos assuntos econômicos da CEI, a Conferência Episcopal da Itália.

Acontece que, na realidade, Dom Calcagno, 68, olhos calmos e físico de pároco de interior, é proprietário de um verdadeiro e próprio arsenal que conta com treze fuzis e pistolas. E não se trata “espingardas” herdadas de um parente de sua terra natal — de Parodi Ligure, na província de Alessandria – mas muitas peças de um verdadeiro expert.

Quem revelou a alma guerreira do cardeal foi o jornalista Mario Molinari, no site Savonanews, onde também foram publicadas cópia da denúncia de propriedade e de aquisição registrada no departamento de polícia de Savona, onde Calcagno foi bispo de 2002 a 2007, antes de ser chamado para servir como secretário da APSA.

Para os seus colaboradores mais próximos, o Cardeal teria manifestado surpresa pelo interesse em uma matéria a respeito de sua vida privada. Como aparece também na matéria, o bispo está inscrito na galeria de tiro ao alvo nacional, com carteirinha emitida em 2003, e é também um caçador.

Em seu apartamento no Vaticano, ele vive com um cão de caça de raça.

O que é certo é que a coleção do Cardeal espanta pelas características de algumas peças. Por exemplo, um revolver digno do inspetor Callaghan como a magnum Smith & Wesson calibre 357, coisa de pistoleiros. Ou o rifle de precisão para caça grossa Remington 7400 calibre 30,06. Ou ainda uma letal carabina de repetição (pump-action) feita na Turquia como a Hatsan, modelo Escort.

A matéria publicada por Savonanews volta a 2006 quando, além das armas que já possuía, entre as quais um fuzil de caça que pertenceu a seu pai, Dom Calcagno declarou ter comprado seis peças “para uso esportivo ou coleção da fábrica de armas Tessitore di Savona”.

Uma outra espingarda de “dois canos sobrepostos marca Gitti calibre 20″ foi comprada da fábrica Pera. Enquanto um revólver alemão Arminius calibre 38, explica ele, foi comprado de uma paroquiana que se tornara viúva.

Em outro documento, o então bispo de Savona declara ter vendido também dois fuzis de sua coleção. Um deles, um rifle marca Schmidt Rubin de nacionalidade suíca calibre 7,5, diz ter  vendido a outro religioso apaixonado por armas, Padre Giulio G., nascido em Bergeggi.

Por fim, Dom Calcagno tranquiliza os agentes da delegacia enfatizando que “as armas são mantidas em casa, em um armário trancado”.

abril 16, 2012

Carta de Monsenhor Guido Pozzo ao Superior do Instituto do Bom Pastor.

Exclusivo: Após receber a confirmação da autenticidade deste texto de fonte seguríssima [inicialmente publicado aqui], publicamos o post redigido no início desta manhã.

* * *

Neste momento decisivo das relações entre a Santa Sé e a Fraternidade São Pio X, vem a público um excerto de uma carta de Monsenhor Guido Pozzo, secretário da Comissão Ecclesia Dei, dirigida ao Padre Phillippe Laguerie, Superior Geral do Instituto do Bom Pastor. Após 5 anos de existência, o IBP acaba de passar por uma visitação canônica em vista de sua aprovação definitiva por parte da Santa Sé. O que segue é um extrato da comunicação dos resultados desta visitação, datada de 23 de março de 2012.

Perguntamo-nos se é desta forma que Monsenhor Guido Pozzo pretende dar confiança à Fraternidade São Pio X para que aceite a proposta de regularização canônica feita pela Santa Sé. Levando em consideração os seus desejos para o IBP, parece-nos altamente improvável que as negociações entre a Santa Sé e a FSSPX cheguem a bom termo.

ANEXO
Nota sobre as conclusões da visitação canônica do Instituto do Bom Pastor

De maneira geral, é necessário aprofundar o carisma fundador do Instituto, pensando mais no futuro do que no passado. Para preparar o próximo capítulo geral, será útil refletir sobre a pastoral do Cristo.

Padres fundadores do Instituto do Bom Pastor no dia da ereção do Instituto, 8 de setembro de 2006, em Roma. O primeiro à esquerda, Pe. Fernando Guimarães, então secretário do Cardeal e hoje bispo de Guaranhuns; ao centro, Sua Eminência Cardeal Dario Castrillon Hoyos; e ao fundo, O Bom Pastor.

Padres fundadores do Instituto do Bom Pastor no dia da ereção do Instituto, 8 de setembro de 2006, em Roma. O primeiro à esquerda, Pe. Fernando Guimarães, então secretário do Cardeal e hoje bispo de Garanhuns; ao centro, Sua Eminência, o Cardeal Dario Castrillon Hoyos.

Cada um terá a peito aprofundar as características de uma sociedade de vida apostólica, que evite toda forma de individualismo. Para isso, será bom contatar outras sociedades de vida apostólica aptas a ajudar nesta reflexão sobre a vida comunitária.

A questão da prática da forma extraordinária, como é formulada nos Estatutos, deve ser precisada no espírito de Summorum Pontificum. Seria conveniente simplesmente definir esta forma como “rito próprio” do Instituto, sem falar de “exclusividade”.

No que diz respeito ao seminário de Courtalain, a avaliação é positiva, mas conviria integrar o estudo do Magistério atual dos Papas e do Vaticano II. A formação pastoral deveria ser feita à luz da Pastores dabo vobis e inserir, na formação doutrinal, um estudo atento do Catecismo da Igreja Católica.

Para resolver a questão da implantação do seminário, salvo uma ampliação em Courtalain mesmo, seria possível interrogar a Conferência Episcopal da França, para que ela mesma sugerisse os nomes de dioceses onde instalá-lo.

Mais que sobre uma crítica, mesmo que “séria e construtiva”, sobre o Concílio Vaticano II, os esforços dos formadores deverão levar a uma transmissão da integralidade do patrimônio da Igreja, insistindo na hermenêutica da renovação na continuidade e tomando por apoio a integridade da doutrina católica exposta no Catecismo da Igreja Católica.

Para melhorar o funcionamento do Conselho e preparar o Capítulo geral, conviria pedir o parecer de um canonista. Sugerimos os nomes dos Reverendíssimos Padres Pocquet du Haut-Jussé, s.j.m. e Le Bot, o.p.. Uma reunião mensal do Conselho parece oportuna.

É necessário desejar que um bom discernimento seja feito para as vocações provenientes do Brasil, bem como uma reflexão sobre o acolhimento dos padres do Instituto nas diferentes dioceses. É importante que o Bispo acolha e valorize o carisma específico do Instituto para o bem de toda a diocese e, ao mesmo tempo, que os padres do Instituto se insiram realmente com um espírito de comunhão no conjunto da vida eclesial da diocese.

A implantação de um Conselho econômico ajudará a Paróquia Santo-Elói a se tornar juridicamente mais conforme com as outras paróquias da arquidiocese de Bordeaux.

A escola Angélus, na arquidiocese de Bourges, deve ser mais acompanhada pelo Superior geral. Incentiva-se a busca de um reconhecimento diocesano.

* * *

[Atualização - Segunda-feira, 16 de abril de 2012, às 18:55] Confirmando o que afirmávamos pela manhã, segue a imagem do documento acima citado:

março 24, 2012

“Em Cuba, o papa irá ajudar no caminho rumo à democracia”. Entrevista com Tarcisio Bertone.

IHU – “Quando eu completei 75 anos, eu apresentei minha renúncia, e o papa me respondeu com uma carta convidando-me a continuar”.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no jornal La Stampa, 22-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Eu não acho que a visita do papa será instrumentalizada pelo governo cubano”: ao contrário, ela ajudará no processo “rumo à democracia”. Às vésperas da partida de Bento XVI para o México e Cuba, o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado, em entrevista ao La Stampa fala da viagem, dos ventos de guerra que sopram sobre o Irã, das relações entre a Santa Sé e a China.

março 2, 2012

Vaticano: a rebelião dos cardeais estrangeiros contra o Bertone.

IHU – O papa defende o secretário de Estado: ele tem defeitos, mas vai ficar. A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 01-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Estes são os documentos que devem ser vistos e apresentados, dos quais me chama a atenção a verdade histórica”. O cardeal Tarcisio Bertone ostenta tranquilidade. Cercado pelos seguranças vaticanos que o acompanham em todos os lugares, recém-chegado à mostra Lux in Arcana sobre os documentos do Arquivo Secreto vaticano, ele respondeu dessa forma às perguntas dos jornalistas que lhe perguntam sobre o clima envenenado levantado pelo “Vatileaks”.

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fevereiro 21, 2012

O desabafo dos cardeais rasga o véu do “senado” vaticano.

IHU – É forte no Vaticano a preocupação de que o estilo de governo da Cúria Romana possa transtornar a vida da Igreja no mundo.

A reportagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada no jornal Corriere della Sera, 19-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“No Colégio Cardinalício, houve uma troca franca, livre e bonita”, comentou nesse sábado, 18 de fevereiro, o neocardeal Giuseppe Betori, arcebispo de Florença, em resposta a uma pergunta sobre os “venenos” que se adensaram no Vaticano nas últimas semanas e meses.

Eis aí, nessas três palavras, “franco, livre e bonito”, uma autêntica fotografia do que aconteceu na reunião de duas horas dos cardeais com o papa. “Franco e cordial”, além disso, é a fórmula ritual no mundo da diplomacia, quando, durante as reuniões, não se limitam às convenções, mas se dizem e se assumem abertamente os problemas, possivelmente para resolvê-los.

fevereiro 20, 2012

Padre George, a eminência parda que protege Bento XVI.

IHU – Secretário pessoal do papa, ele é cada vez mais mediador entre os poderes vaticanos.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no sítio Vatican Insider, 19-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Desde o momento da eleição de Joseph Ratzinger, até o site do Avvenire, o jornal da CEI [Conferência dos Bispos da Itália], ao descrever o seu secretário particular, enfatizava mais do que qualquer outra coisa o seu aspecto atlético: “Loiro, de 1,80m, físico esportivo e decididamente um belo homem”. Por muito tempo, foi o único sacerdote de batina preta que detinha a agenda de Bento XVI. Mais do que um mordomo, menos do que um spin doctor. Desde que estourou no Vaticano a “guerra de dossiês” entre a velha guarda próxima do decano Angelo Sodano e a atual liderança ligada ao secretário de Estado, Tarcisio Bertone, a música mudou.

fevereiro 19, 2012

Foto da semana.

Novembro de 2011: o Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado, personagem recorrente nas capas dos jornais italianos das últimas semanas, recebe dois eminentes clérigos brasileiros em audiência particular.

Ao centro, Dom Valério Breda, SDB, bispo de Penedo, diocese a que pertence o município de Arapiraca, Alagoas. Dom Breda, também conhecido por alguns de seu presbitério como Vera Fisher, é acusado de acobertar uma rede de bispos e padres homossexuais no Nordeste [leia 1, 2, 3], cujas falcatruas, descobertas no início de 2010, eclodiram no maior escândalo moral recente da Igreja no Brasil.

À direita na foto, Padre Deomar de Guedes Vaz, antigo reitor do seminário Mater Ecclesiae do Brasil.

Após dois anos do escândalo, os sacerdotes flagrados tiveram seus processos concluídos, tanto na esfera secular como canônica. Dom Breda permanece impune, apesar de todas as evidências apresentadas contra ele, inclusive por alguns de seu próprio clero.

Já o reitor do seminário Mater Ecclesiae, possivelmente por seus bons serviços prestados à Santa Sé, foi nomeado, anteontem, como segundo conselheiro geral da congregação dos Legionários de Cristo.

Créditos da foto: Seminário Mater Ecclesiae, dos Legionários de Cristo (página em cache, já devidamente gravada).

[Esclarecimento - 20 de fevereiro de 2012, às 8:54: Gostaríamos de deixar claro que o reverendíssimo Pe. Deomar não tem qualquer relação com os fatos ocorridos em Arapiraca, e não tivemos nenhuma intenção de associá-lo a estes acontecimentos terríveis para a Igreja no Brasil, que merecem de todos nós reparações e lágrimas.]

fevereiro 18, 2012

O Consistório e as intrigas no Vaticano. Um chamado do Sucessor de Pedro à humildade.

Cardeal João Braz de Avis, o representante brasileiro no consistório de hoje.

O neo-cardeal João Braz de Avis, Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, representante brasileiro no consistório de hoje.

No cenário de fundo do terceiro anúncio da paixão, morte e ressurreição do Filho do Homem, sobressai, pelo seu clamoroso contraste, a cena dos dois filhos de Zebedeu, Tiago e João, que, ao lado de Jesus, ainda correm atrás de sonhos de glória. Pediram-Lhe: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda» (Mc 10, 37). Contundente é a resposta de Jesus, e inesperada a sua pergunta: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu bebo?» (Mc 10, 38). A alusão é claríssima: o cálice é o da paixão, que Jesus aceita para cumprir a vontade do Pai. O serviço a Deus e aos irmãos, a doação de si mesmo: esta é a lógica que a fé autêntica imprime e gera na nossa existência quotidiana, mas que está em contradição com o estilo mundano do poder e da glória.

Com o seu pedido, Tiago e João mostram que não compreendem a lógica de vida que Jesus testemunha, aquela lógica que deve – segundo o Mestre – caracterizar o discípulo no seu espírito e nas suas acções. E a lógica errada não reside só nos dois filhos de Zebedeu, mas, segundo o evangelista, contagia também «os outros dez» apóstolos, que «começaram a indignar-se contra Tiago e João» (Mc 10, 41). Indignam-se, porque não é fácil entrar na lógica do Evangelho, deixando a do poder e da glória. São João Crisóstomo afirma que ainda eram imperfeitos os apóstolos todos: tanto os dois que procuravam obter precedência sobre os outros dez, como os dez que tinham inveja dos dois (cf. Comentário a Mateus, 65, 4: PG 58, 622). E São Cirilo de Alexandria, ao comentar passagens paralelas no Evangelho de Lucas, acrescenta: «Os discípulos caíram na fraqueza humana e puseram-se a discutir uns com os outros qual deles seria o chefe, ficando superior aos outros. (…) Isto aconteceu e foi-nos narrado para nosso proveito. (…) O que sucedeu aos santos Apóstolos pode revelar-se, para nós, um estímulo à humildade» (Comentário a Lucas, 12, 5, 24: PG 72, 912). Este episódio deu ocasião a Jesus para Se dirigir a todos os discípulos e «chamá-los a Si», de certo modo para os estreitar a Si, a fim de formarem como que um corpo único e indivisível com Ele, e indicar qual é a estrada para se chegar à verdadeira glória, a de Deus: «Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas, e como os grandes exercem o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo, e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos» (Mc 10, 42-44).

Alocução do Santo Padre, o Papa Bento XVI, no Consistório ordinário público de hoje, 18 de fevereiro de 2012, para a criação de 22 novos cardeais.

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