Posts tagged ‘Cúria Romana’

22 julho, 2014

O Papa e os “cardeais pedófilos”: outro indício de que Francisco está em guerra com o Vaticano.

Por Damian Thompson – The Spectator | Tradução: Fratres in Unum.com – A bomba de hoje no The Catholic Herald diz: ‘Vaticano em polvorosa enquanto o Papa Francisco concede uma nova entrevista explosiva’. A entrevista, com La Repubblica, citava Francisco dizendo que seus conselheiros lhe teriam dito que dois por cento do clero eram pedófilos — incluindo ‘bispos e cardeais’. The Independent correu com a manchete: ‘Papa Francisco: ‹‹ um em 50 ›› padres, bispos e cardeais católicos é pedófilo’.

O que me fascina é a reação da Sala de Imprensa do Vaticano, que mergulhou totalmente no modo “Não entre em pânico”. Pe. Federico Lombardi, o desafortunado porta-voz, observou que o entrevistador de La Repubblica, Eugenio Scalfari, (a) não usou um gravador, (b) não tomou notas, mas confiou em sua memória e (c) tem 90 anos de idade.

O que é tudo a verdade. Mas também é verdade que no último mês de setembro, Francisco deu uma primeira entrevista a Scalfari — um ateu, diga-se de passagem –, nas mesmíssimas condições. O que produziu manchetes sensacionalistas: Francisco supostamente chamou a corte do Vaticano de ‘a lepra do papado’, e o pobre Lombardi teve que correr dizendo, espere aí!, não havia notas, Scalfari é velho, etc.

Então, por que Francisco recorreu de novo a Scalfari? Eu estimo que a impossibilidade de se checar as citações lhe cai bem. Ele pode expressar suas opiniões de que o Vaticano está se arrastando com bajuladores de duas caras e que os pervertidos sexuais são tão numerosos no clero a ponto de alcançar o nível de um cardeal — embora reserve para si espaço de manobra ao permitir a possibilidade de que foi citado erroneamente. Ele é um jesuíta, no fim das contas. Assim como Lombardi, mas é óbvio quem está sendo mais jesuítico aqui.

O pano de fundo para isso é a guerra do Papa ao Vaticano. Eu acho que ele odeia aquele lugar. E é interessante que ele tenha colocado enorme poder nas mãos do Cardeal George Pell, que também é cheio de desprezo pelos gananciosos carreiristas de lá. Minha aposta é que as reformas, quando vierem, serão brutais.

20 maio, 2014

Atingido e afundado. A destituição de um bispo argentino anti-Bergoglio.

Por Sandro Magister | Tradução: Fratres in Unum.com – Segunda-feira, 19 maio, na mesma manhã do dia da abertura da assembleia plenária da Conferência Episcopal Italiana, iniciada no período da tarde por um discurso do papa em pessoa, um breve comunicado deu a notícia da destituição de um arcebispo do primeiro escalão na pátria de Jorge Mario Bergoglio:

“O Santo Padre Francisco nomeou membro da Congregação para a Doutrina da Fé, na comissão a ser erigida para exame de recursos de clérigos [condenados] por ‘delicta graviora’, Dom José Luis Mollaghan, até agora arcebispo de Rosario (Argentina)”.

Rosario é uma diocese de dois milhões de habitantes e Mollaghan, 68 anos, não era, certamente, um personagem em final de carreira.

Mas sua saída abrupta da Argentina, sua convocação a Roma sob controle imediato do papa e, especialmente, seu confinamento em um fantasmático escritoriozinho curial que ainda nem existe, mas que está apenas “sendo erigido”, tudo diz que o golpe é daqueles definitivos.

Para compreender o porquê dessa decisão punitiva tomada pelo Papa Francisco contra um dos mais importantes bispos argentinos, é útil consultar a mais precisa e confiável biografia do atual papa: “Francesco, vita e rivoluzione”, escrita pela jornalista argentina Elizabeth Piqué e publicada na Itália por Lindau.

No capítulo em que analisa os adversários do então cardeal Bergoglio na Igreja argentina, Mollaghan está entre os mais ávidos, juntamente com o arcebispo de La Plata, Héctor Aguer, e o núncio apostólico, Adriano Bernardini. Eles acusavam Bergoglio de não defender a verdadeira doutrina, de fazer gestos pastoral demasiado ousados, de ser suave para com o governo.

Em Roma, seus pontos de apoio foram o cardeal Leonardo Sandri e Angelo Sodano, este último amigo do ex-embaixador argentino junto à Santa Sé, Esteban “Cacho” Caselli, personagem muito controverso, ainda registrado no Anuário Pontifício como Cavaleiro de Sua Santidade.

Escreveu Elizabeth Piqué:

“É neste contexto que, entre o final de 2005 e início de 2006, o ataque contra Bergolgio, que acompanhei de perto como correspondente do jornal ‘La Nación’, chega a um momento culminante: Bernardini e seus amigos da cúria intervieram diretamente na nomeação de vários bispos de perfil conservador. Entre eles, o arcebispo de Rosario, José Luis Mollaghan, e o de Resistencia, Fabriciano Sigampa. As nomeações suscitaram grande desconforto no episcopado argentino.

“Nem Mollaghan nem Sigampa foram propostos na sondagem preliminar feita pelos bispos argentinos: foram impostos seguindo as orientações da Secretaria de Estado na terna [ndr: lista com três nomes] apresentada ao papa por Bernardini. A intervenção, segundo várias fontes, está relacionada com a velha amizade entre Sodano e Caselli. Mesmo quando deixa de ser embaixador, Caselli mantém uma relação direta com Monsenhor Maurizio Bravi, funcionário da Segunda Seção da Secretaria de Estado, que trata principalmente na Argentina e que, por sua vez, tem uma relação estreita com o cardeal Sandri, que também é argentino, então número três da estrutura do Vaticano como substituto da Secretaria de Estado do Vaticano”.

Dos três bispos argentinos mencionados acima, Sigampa está aposentado há dois anos e vimos o que aconteceu com Mollaghan. Permanece em seu posto o de La Plata, Aguer. Mas seu destino está selado.

19 maio, 2014

Pedimos aos bispos uma moratória a respeito das entrevistas.

Por Giuseppe Tires – La Nuova Bussola Quotidiana | Tradução: Fratres in Unum.com - Gostaria de fazer uma simples proposta: que bispos e cardeais não dêem mais entrevistas de qualquer gênero, para nenhum jornal. Ao menos por algum tempo. Tirem um período sabático. Nós, simples fiéis, temos direito a um black-out, um período de silêncio midiático dos nossos pastores para nos recuperarmos da confusão e do desconcerto. Não dá mais!

Não é necessário que cardeais e bispos continuamente dêem “a sua” sobre cada coisa, que se contradigam mutuamente, que se critiquem uns aos outros nos jornais, que manifestem as suas opiniões pessoais, que façam revelações de coisas protegidas pelo segredo, que antecipem as conclusões de um Sínodo que ainda deve começar, que dêem um juízo sobre isto ou aquilo, que revelem o que dirá a próxima encíclica do Papa, com fugas de notícia, antecipações, interpretações, admonições, previsões. Os fiéis estão desorientados.

O cardeal Kasper está continuamente falando da comunhão aos recasados e de mil outras questões, gira o mundo fazendo conferências e dando entrevistas como se fosse o chefe de um partido que se prepara para fazer guerra no próximo Sínodo. O cardeal Maradiaga criticou o seu colega, Müller, não em um colóquio privado, mas nas páginas do Tegespost. Não se podia ter encontrado pessoalmente com ele e bater um papo? Agora, Dom Galantino está chocando a todos com frases que são pelo menos ambíguas e desorientantes.

Dentro do restrito grupo dos cardeais encarregados da reforma da cúria não existem externações inoportunas. E se trata de um pool de cardeais com uma enorme responsabilidade em mãos.

Todos já entendemos que entre os cardeais existem mil posições sobre os temas do próximo Sínodo. Nunca se viu tanta fofoca antes de um Sínodo. Por que não ficam quietos e as coisas que devem ser ditas não as dizem no Sínodo? Senão, por que não se reúnem e não as dizem à portas fechadas? Os fiéis estão alarmados e muitos temem que estas fofocas continuem também durante o Sínodo. Não é um belo exemplo de responsabilidade. Por aquilo que eles tratam com desenvoltura nas entrevistas aos jornais, os fiéis dão a vida. Depois, se diz que o Papa fará a síntese. Mas também isso tem o risco de deformar as coisas: como se o Papa fosse aquele que intermedia entre as posições de um confronto, e a verdade, que o Sínodo ensinará, será apenas o fruto de uma síntese dialética.

Neste último período, bispos e cardeais estão parecendo uns políticos, que falam entre si em códigos, através dos jornais. Criticam-se as indiscrições dos juízes que, diz-se, deveriam falar apenas mediante os atos. Por que os bispos e cardeais não fazem o mesmo? Falem com declarações, com mensagens, com homilias, com cartas pastorais, em suma, com atos de magistério, não com quatro piadas improvisadas diante do microfone de um jornalista. Façam-no ao menos por algum tempo, para que nos recuperemos da confusão.

Há quem diga: mas isso não é magistério. Ok, mas então por que os pastores — ou seja, o magistério — se servem destes meios? A inflação das fofocas não ajuda, o povo não tem sempre as condições de distinguir, as instrumentalizações são uma emboscada, a inflação das entrevistas neutraliza a sua importância, de tal modo que as intervenções realmente importantes também serão interpretadas depois como fofocas. Os bispos e os cardeais devem falar pouco para que, exatamente por causa disso, depois, aquilo que dizem tenha um peso.

É assustador que, depois de ter constatado ao longo destas décadas o quanto podem pesar as deformações que a mídia lança sobre as coisas de fé — conseguiram deformar totalmente um Concílio —, concedam ainda entrevistas inconseqüentes para depois terem de contorcer-se na dança dos desmentidos, quando o dano será irreparável. Não se entende esta agitação exibicionista por parte de homens de grande responsabilidade na Igreja, não se entende quem e que coisas querem provocar, não se compreende esta concessão às lógicas do mundo e ao espetáculo.

O caso do Vatileaks estourou faz pouco tempo, mas isso também é um tipo de Vatileaks, uma contínua goteira de indiscrições, flechadas indiretas, ambigüidades, conceitos formados praticamente no barbeador, afirmações e desmentidos. E o peso cai sobre os fiéis.

O meu pedido é humilde. Não sou ninguém. Mas, por favor, senhores cardeais e bispos, parem com as entrevistas. Pelo menos por um tempo.

2 maio, 2014

Reforma da Cúria encontra cada vez mais resistências.

IHU – O Papa Francisco reuniu entre os dias 28 a 30 de abril o seu “C8″, os oito cardeais que o aconselham para a reforma da Cúria Romana. Responsáveis dentro da administração vaticana tentam frear a reorganização em curso. As iniciativas do novo papa não encontram unanimidade, mas a sua popularidade e a sua determinação dificultam qualquer resistência real.

A reportagem é de Sébastien Maillard, publicada no jornal La Croix, 29-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os rumores correm desde o início do novo pontificado. A Cúria Romana freia as reformas iniciadas pelo Papa Francisco. O último exemplo disso veio na sessão de trabalho do “C8″, o conselho de oito cardeais externos à Curia do qual o papa jesuíta se cercou expressamente para reformar o governo da Santa Sé.

Em pauta – e certamente assim será também na próxima sessão no início de julho – está inscrita a racionalização dos 12 Pontifícios Conselhos, os dicastérios (equivalentes a pequenos ministérios) que, com nove congregações (para aDoutrina da Fé, as Causas dos Santos, o Culto Divino etc.) constituem a Cúria.

O elevado número de tais conselhos, o intrincamento das suas áreas de competência e a sua falta de coordenação foram destacados, particularmente durante os debates que antecederam o último conclave. Por exemplo, aqueles que tratam de questões sociais, como a saúde, os migrantes, o “Cor unum” (que trabalha contra a pobreza) e o “Justiça e Paz”, poderiam se fundir. Ou ao menos ser unidos em um único polo, com um coordenador.

Mas, na prática, nenhum chefe de dicastério deseja ver desaparecer o seu próprio ente. “O nosso presidente toma todas as iniciativas possíveis para se mostrar absolutamente necessário”, observa, sorrindo, um prelado que trabalha em um Pontifício Conselho. Um zelo para melhor resistir à diminuição das estruturas romanas desejada pelo Papa Francisco.

Outros se voltam diretamente para as pessoas próximas ao novo papa para defender a sua administração. Por exemplo, o cardeal Fernando Filoni, prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, que falou com o cardealOscar Maradiaga, coordenador do “C8″, durante a última sessão, para tentar manter prerrogativas financeiras no seu dicastério.

A reunificação destas últimas dentro de um novo “Secretariado para a Economia” provocou intervenções na direção contrária por parte da Secretaria de Estado, onipotente com o Papa Bento XVI. De acordo com diversas fontes, o secretário de Estado da Santa Sé, o cardeal Pietro Parolin, tem sido pressionado pela sua equipe para tentar, em vão, não perder o controle das finanças em benefício do novo secretário para a economia, o cardeal australiano George Pell.

Mas a resistência na Cúria não se concentra só na reforma da qual ela é objeto. Visa também ao próprio Papa Francisco, cujo estilo e cujos modos não encontram unanimidade. “Criticar o papa não é algo que se costuma fazer quando se trabalha na Santa Sé”, observa uma fonte entre os colaboradores.

Por exemplo, toda a semana de retiro em silêncio no início da Quaresma, imposta fora de Roma pelo papa, não convenceu todos os presentes. Até então, eles estavam bastante acostumados a se contentar com um breve período espiritual dentro da sua agenda de trabalho.

Para além dessas iniciativas, as críticas internas ao novo papa também dizem respeito a assuntos de fundo. E não só dentro da Cúria. O consistório extraordinário sobre a família convocado para o fim de fevereiro passado pelo papa mostrou isso claramente. A divisão dos cardeais, que lá discutiram principalmente sobre o problema do acesso aos sacramentos dos divorciados em segunda união, mostra a sua hesitação antes de seguir o papa no caminho de uma evolução nessa matéria.

“Os bispos se irritam ao ver a sua autoridade posta em discussão, contestada, porque se opõe a eles o que o papa diz”, é o que Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, ouve dos seus contatos: “Para eles,Francisco tira a verticalidade da Igreja”.

“Muitos dos altos prelados da Cúria eram intocáveis”, acrescenta o padre Jean-Paul Muller, tesoureiro-geral dos salesianos: “Vendo esse papa tão próximo e acessível das pessoas, eles se assustam, porque entendem que já não são mais intocáveis, que ele vai questioná-los, que vai lhes pedir contas”.

“Se o conclave fosse refeito, ele não seria mais reeleito”, afirma um cardeal eleitor da Cúria, que participou do último conclave. Mas não é apenas nos mais altos escalões da Igreja que há pessoas que aceitam a mudança de má vontade. Os empregados do Vaticano também se preocupam. Chegou a hora do rigor, agora que o verdadeiro estado das finanças foi exposto claramente depois das auditorias externas dos grandes escritórios internacionais.

Desde fevereiro, as novas contratações estão bloqueadas, as horas extras não são mais pagas, e foi introduzida a obrigação de “bater o cartão”. A progressão na carreira não parece estar mais garantida como antes. Daí se percebe um clima social que une o descontentamento com a tradição de lealdade em relação ao pontífice.

Nesse ambiente, o Papa Francisco, ao invés, continua, lenta mas seguramente. “Ele não se precipita em nada. Prorrogou os cargos de muitas pessoas. De longe, a impressão que se tem é de que tudo continua sendo um pouco vago, mas isso é estratégico para o seu sucesso. Ele está convencido do fundamento das reformas e sente desde a sua eleição uma expectativa por parte do restante da Igreja a esse respeito”, garante Michel Roy, secretário-geral daCáritas.

“Tornou-se muito difícil resistir a esse papa”, afirma o padre Muller, porque, se Bento XVI estava sozinho, Franciscotem o povo do seu lado, e essa é a sua força”.

1 abril, 2014

Vaticano: Papa reuniu-se com chefes dos dicastérios da Cúria Romana.

Cidade do Vaticano, 01 abr 2014 (Ecclesia) – O Papa Francisco encontrou-se hoje no Vaticano com os chefes dos dicastérios da Cúria Romana, anunciou a sala de imprensa da Santa Sé.

O comunicado oficial refere que a reunião de trabalho teve como objetivo informar sobre o modo como a exortação apostólica Evangelii Gaudium se tem refletido na atividade dos organismos centrais do governo da Igreja Católica e “as perspetivas que se abrem à sua implementação”.

A reunião decorreu na sala Bolonha do palácio apostólico do Vaticano, esta manhã, durante cerca de duas horas e meia.

A exortação apostólica ‘Evangelii Gaudium’ (A alegria do Evangelho), primeiro documento do género escrito pelo Papa, apresenta o projeto de uma “nova etapa de evangelização”, nos próximos anos.

O texto publicado em novembro de 2013 retoma as principais preocupações manifestadas por Francisco desde o início do seu pontificado e fala numa Igreja “em saída” e atenta às “periferias”, bem como a “novos âmbitos socioculturais”.

A exortação apostólica refere-se a uma “conversão do papado” e questiona uma “centralização excessiva” que complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária.

O Papa repete o desejo de “uma Igreja pobre”, “ferida e suja” após sair à rua, porque “uma fé autêntica – que nunca é cómoda nem individualista – comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores”.

“Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos”, adverte.

12 março, 2014

Aviso de condenação para o número dois da nunciatura na Itália. Mas quando e como, sabe-o somente o Papa.

Vale a pena lembrar que, entre os acusados na listra de don Patrizio Poggi, estava um dos cerimoniários Pontifícios, o conhecidíssimo Monsenhor Camaldo.

Por Sandro Magister | Tradução: Fratres in Unum.com - Já faz um ano que não há paz na nunciatura da Santa Sé na Itália.

Entre o Papa Francisco e o núncio Adriano Bernardini as relações são geladas. Jorge Mario Bergoglio o conhece bem e não o perdoou. Quando Bernardini era núncio na Argentina, entre 2003 e 2011, era o primeiro da fila de oposição ao então arcebispo de Buenos Aires, fazendo, entre outras coisas, trinta e cinco novos bispos, quase todos contra as suas indicações e expectativas.

Mas, agora, está na mira do papa o número dois da nunciatura, Monsenhor Luca Lorusso (na foto).

E está na mira publicamente, com o Papa que lhe apontou o dedo para geral reprovação, nada mais, nada menos, que na sala Nervi, diante dos bispos e do clero da Diocese de Roma, ali convocados em 6 de março, para o tradicional encontro de início da quaresma.

Na transcrição oficial do discurso de Francisco, a reprovação de Lorusso não aparece. Mas todos a escutaram e o site do vicariato de Roma a reportou.

O Papa falou textualmente, logo depois da saudação do cardeal vigário Agostino Vallini e antes de iniciar o discurso propriamente dito:

“Tocou-me muito, e compartilhei a dor de alguns de vocês, mas de todo o presbitério (sic!), pelas acusações feitas contra um grupo de vocês; falei com alguns que foram acusados e vi a dor causada por estas feridas injustas, uma loucura, e quero dizer publicamente que eu estou próximo ao presbitério, porque os acusados não são sete, oito ou quinze, mas todo o presbitério. Quero pedir-lhes desculpa não tanto como bispo de vocês, mas como papa, por eu ser encarregado do serviço diplomático, porque um dos acusadores é do serviço diplomático. Mas isto não foi esquecido, o problema está sendo estudado, para que esta pessoa seja afastada. Está se procurando o modo, é um ato grave de injustiça e lhes peço desculpas por isso”.

Francisco não deu os nomes, mas as referências a fatos e pessoas eram fulgurantes.

Na primavera de 2013, um ex-padre, demitido do estado clerical e condenado a cinquenta anos de prisão por crimes de natureza sexual contra menores, Patrizio Poggi, tinha denunciado à polícia uma dezena de eclesiásticos romanos, acusando-os de análogos comportamentos delituosos. Um dos que deram sustentação à denúncia foi Mons. Lorusso, amigo de Poggi e seu advogado canônico na causa pela sua reintegração ao estado clerical, apresentada à Congregação para a Doutrina da Fé. Lorusso sustentou que as acusações eram razoáveis e fundadas. Mas as conclusões das investigações foram contrárias. As acusações pareceram falsas para a magistratura e seriam parte de um “sórdido complô”, que levou à custódia cautelar de Poggi.

O acontecido parecia ter sucumbido. Porém, ao contrário, muitos meses depois, Francisco o retomou diante de centenas de padres e bispos perplexos. Com Lorusso, que ainda ocupa o seu papel na nunciatura. E com o Papa, que, sem ter ainda decidido nada, revelou a todos que “o problema está sendo estudado, a fim de que esta pessoa seja afastada”.

27 fevereiro, 2014

Eminência parda? Muito parda!

O artigo que traduzimos abaixo foi publicado, originalmente, no blog italiano “Papale Papale”, mas, depois de algumas horas, não se sabe o porquê, foi retirado do ar. Não se encontra sequer sua versão em cache. Afortunadamente, o artigo reapareceu num outro blog e, até o presente momento, ainda não foi removido.

* * *

Brilha uma “Stella”[1] em cima da pirâmide vaticana: o Beniamino[2] do papa

Quem é realmente a eminência parda que de repente subiu todos os graus da pirâmide vaticana e agora brilha no cume… como uma estrela? Como pôde, um homem desconhecido de todos, repentinamente se tornar a eminência parda de toda a Santa Sé e o árbitro de todas as carreiras eclesiásticas, inclusive das pertencentes à Secretaria de Estado, para qual ele escolheu o Titular? Uma espécie de dossier (pelo menos em parte) sobre o já cardeal e atual Prefeito da Congregação para o Clero, outrora presidente da Pontifícia Academia Eclesiástica (onde se fabricam os núncios), o Emmo. Card. Beniamino Stella.

de Antônio Margheriti Mastino

Todas as pontas da Estrela

Francisco e Stella.

Francisco e Stella.

A estrela é o símbolo do sionismo, uma estrela foi o símbolo das “brigadas vermelhas”, uma estrela está no centro da meia-lua islâmica, a estrela vermelha é símbolo do comunismo soviético, muitas estrelas juntas compõem a bandeira do decadente império americano, a estrela de cinco pontas é, por antonomásia, o símbolo do satanismo. A estrela também é o símbolo da maçonaria. Digamos que, em geral, não obstante o caráter melodramático que inspira, a estrela não augura nada de bom. Há algumas semanas, também o Vaticano, cruzes!, tem a sua Stella, que começou a brilhar de modo inesperado, fulminante e violento, como que direcionada para algum buraco negro. E agora se irradia sobre tudo e sobre todos, lá, no alto da pirâmide, onde subiu, excelsa, para “iluminar” também os outros, caso não estivessem lá há algum tempo.

Estamos falando do cardeal Beniamino Stella. Passou, da noite para o dia, de obscuro reitor da Academia Eclesiástica, na qual tinha estacionado à espera da aposentadoria, ali onde se formam os futuros núncios apostólicos, a nada menos que Prefeito da Congregação para o Clero, ele que nunca trabalhou como padre em toda a sua vida, derrubando da cadeira o predecessor, que tinha sido nomeado há pouco tempo pelo outro papa, e que ali, se fossem observadas as regras e o bom-tom, deveria ainda permanecer por três anos: o Cardeal Mauro Piacenza, que, notem bem!, foi a primeira vítima eminente da escalada à pirâmide vaticana de Mons. Stella.

No entanto, quem é realmente este Beniamino Stella, que ninguém, pouquíssimos, conheciam, além daqueles que frequentam os ambientes da diplomacia vaticana? Além disso, era alguém que não era visto por aí, não confiava em ninguém, saía raramente ou senão com gente selecionadíssima. A sua história é, certamente, longa; se rica ou pobre, é difícil dizer, embora esta Stella pareça nunca ter brilhado, senão pela luz daquela aurea mediocritatis, que é o máximo brilho do Vaticano pós-conciliar. Não é claro, de fato, se a sua história ignota seja obscura ou parda, e todos sabemos que entre o pardo e o escuro a variação pode ser mínima e indefinida.

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Encontro com o misterioso Prelado

Tentemos entendê-lo com vagar, neste tipo de dossier que lhes garanto provir das melhores fontes. Vaticanas e afins. Um telefonema inesperado de um amigo me anuncia o de um “secretário”, que, por sua vez, me anuncia que Alguém, o seu chefe, tinha certas coisas para me contar, das quais apenas uma parte, com um “conta-gotas”, poderia publicar “em alguma mídia on-line”. “Por enquanto”. Marcam o encontro num apartamento “insuspeitável”, num bairro histórico de Roma. Com um certo temor, digo a verdade, fui até lá. Depois de ouvir as coisas graves que, com lentíssima circunspeção e com extenuantes circunlóquios, me contavam, surgiu-me espontaneamente uma pergunta: “Me desculpem, mas isto é coisa para divulgadores de notícias muito maiores que eu; por que não vão a um Magister, a um grande vaticanista?”.

“Porque não é prudente, porque daria muito na cara. Porque não se pode controlar aquilo que um grande vaticanista, como o sr. diz, quererá dizer ou não”.

“E porque se deveria confiar num pirata sem barco, como eu?”

“Porque o sr. tem tudo a ganhar, e também tudo a perder. Porque lhe convém fazer como estou dizendo; ou estou errado?”.

Não, não erra este elegante eclesiástico de olhos glaciais e incandescentes, que enquanto olha pra você não se entende nunca o que está pensando, não se entende ao menos se, enquanto olha, lhe vê, se você existe pra ele, se não é apenas um gravador, ao invés de um ser humano. E, nisso, é realmente um homem de poder, e isto se nota. Se nota pela sua cortesia suntuosa, pela educação atroz que recebeu; por suas mãos lisas, grandes e cândidas, como que apenas trabalhadas por manicure.

Chega o secretário, afadigado, que lhe sussurra algo. Toma o telefone e diz “pronto!”, ao modo italiano, mas depois começa a falar nalguma dura declinação do espanhol, algo como o basco, penso eu, pois de outro modo teria entendido. Não entendo o que diz. Faz um outro telefonema e, desta vez, fala português.

Sinto seu bom perfume ao longe, e observo atentamente suas mãos: percebe, e se as olha também ele. “O que é que tem? É o anel?”. Com um profissionalismo estupefaciente, dispensou apresentações. Não foi um esquecimento ou uma descortesia: escolheu fazer assim.

Tem um anel dourado na mão direita. Que era um bispo, entendi há muito. “Não somente. As abotoaduras douradas ao pulso, e depois seu perfume de, no mínimo, cinquenta euros: o papa desaprovaria!”, digo com um sorriso digno de Mefistófeles. Entende a piada e abre pela primeira vez um sorriso não plastificado: “O sr. também sabe que o papa não quer ver os eclesiásticos e seminaristas que não sejam fedidos?”

“Não quer abotoaduras nas mangas, ao contrário de Bento; não quer anéis dourados, não quer nem que os padres passem perfume”, digo.

“Quer apenas fedor de ovelha e lã de cabra”, sorri. Não espera as minhas perguntas, não as previu nem as tolera: é uma confissão espontânea, calibrada em cada vírgula. Nos despedimos. E quando já ia embora me disse “atenção ao que faz, e escreve”. Não está mais sorrindo. Entende que o tom foi ameaçador demais, procura um meu olhar ressentido, enquanto me viro velozmente, e se corrige imediatamente: “Confio no sr. Sabe, os grandes…, no sentido de conhecidos…, vaticanistas são como os grandes santos ou os grandes advogados, lhe invocam como protetores e depois prestam pouca atenção às causas pequenas, talvez até as perdem; os pequenos santos ou os pequenos advogados, ao contrário…, por um cliente que têm, se dedicam completamente, e talvez vencem a causa”. Eis aí o diplomata, finalmente!, que sabe bem alternar ameaças e adulações, o bastão e a cenoura, e entender rapidamente que o “bastão”, em mim, surte o efeito oposto ao desejado; as “cenouras”, ao contrário… Nunca me considerei incorrompível: ao contrário, se necessário for, sou corrompível. Mas nunca em relação aos princípios.

“Os pequenos advogados, ao contrário…” Me faz sorrir, porque era a teoria sobre os grandes santos e os grandes advogados que tinha, e me repetia sempre, aquele grande advogado, Giovanni Leone, o ex-presidente, que conheci em seus últimos anos de vida, como vizinho de casa e acompanhante em alguns passeios a Le Rughe, na via Cassia.

A entrevista em nome de terceiros

Tenho estima por Tornielli, sobretudo porque tenho muita estima por Messori: sendo Tornielli amigo de Messori, tenho por ele, digamos, uma “estima” por reflexo condicionado: às vezes quisera me irritar com ele, mas pela razão suscitada nunca o fiz nem nunca o farei. Mas certas vezes me parece cair em tons clericais que vão muito além do permitido, mas é uma profissão difícil esta de trabalhar com aquela feminilidade volúvel e fatal de padres que iniciaram a mudar a cor das vestes, numa velocidade sempre crescente; uma profissão ingrata e vacilante, sob moldes tão instáveis de não se desejar ao pior inimigo, e menos ainda a um pai de família.

Então, é melhor pouco incenso, ópio do povo, e poucas ladainhas cantaroladas quando se tem de tratar com esta “gente non sancta”, aqui. São vingativos, capazes de lhe fazerem perder o trabalho, especialmente se percebem que você é “inteligente” e “competente”, o que, para eles, é sinônimo de “sedição” perigosa e, não o queira Deus, de “integralismo”. Dão apenas entrevistas a quem fica de joelhos, e talvez por isso eu não seja um vaticanista, pois, depois de certo número de porradas, lhes jogaria o gravador na cara.

Mas não divaguemos. Outro dia, Tornielli publicou em Vatican Insider, uma entrevista com o novo Prefeito da Congregação para o Clero, o nosso Beniamino Stella. Uma entrevista que, pelo título, parecia estar cheia de fogo e chamas: “O clericalismo faz mal aos padres e aos leigos”. O conteúdo, naturalmente, desiludia, tinha uma verbosidade aflita, típica de “documentite aguda”, e, por si mesma, de um clericalismo incolor, tão antiquado e decrépito a ponto de superar a irrelevância. Coisa que, a olhos profanos, deveria dar a impressão de confirmar a autenticidade da entrevista, que deve ser – em minha opinião – uma daqueles em que o vaticanista profissional manda as perguntas escritas ao escritório do prelado e espera que alguém lhe copie as respostas canônicas. E, em geral, é o secretário do prelado quem o faz. Todas, coisas que o olhar profano ignora.

Digamos que aquela entrevista fedia, de modo que a “salvei” e mandei que alguns “peritos” nada profanos a examinassem, com a pergunta: “o melaço é da lata de Stella?”. Eles também a submeteram a olhares especializados. O resultado da autópsia veio depois de poucas horas. “Que nulidade este Beniamino Stella!”, foi o incipit. “Quem dera fosse dele”, continua. De fato, não é ele: “Posso lhe assegurar que ele não deu a entrevista”. Talvez – me diz, em substância – os temas foram tratados, mas Stella não tem tal propriedade de linguagem para que se possa dizer que foi ele quem falou. Antes de mais nada, porque não sabe nem o que são os sinônimos. Repete as mesmas palavras em cada frase, e dificilmente, ou melhor, NUNCA, usa termos latinos, no máximo enche seus discursos com palavras espanholescas. Além disso, usa uma fraseologia diplomática que tende ao possibilismo, à persuasão, ama iniciar cada frase com um condicional, e evita cuidadosamente as frases diretas, talvez consideradas por ele “duras demais”. Todas, coisas que, na entrevista, não constam totalmente.

O clã dos vicentinos

É curioso, ou melhor, não é, que no Vaticano, há décadas, se continue com provincialismos ou anglossaxonismos. Se antes era o reino dos “clãs” provinciais, o clã dos piacentinos, o clã dos romagnolos (ou brisingueleses, que se quer dizer), depois se passou à era dos “lobbyes”: dos gays, por exemplo, o principal de todos, também porque é o mais numeroso, se presume; ultimamente, existe um grande crescimento do lobby financeiro, laico, laicíssimo, das tarefas indefiníveis mas feitas de propósito para embalar um monte de bilhões de católicos cada dia. Todavia, um clã conseguiu se tornar o novo dirigente: o clã dos venezianos, venezianos de lugares confinantes: Parolin é veneziano, veneziano é o secretário de João XXIII, Capovilla, que se tornou cardeal com quase 100 anos, veneziano é Stella, veneziano e vicentino, como Parolin, é o sucessor de Stella na cabeça da Pontifícia Academia Eclesiástica: um laço bem amarrado em torno do campanário. Como para todos os outros clãs, este também fez um ninho, na Pontifícia Academia Eclesiástica. Um verdadeiro triângulo amoroso.

Não basta: do mesmo clã, de qualquer modo, é um dos dois novos secretários de Parolin, mas a notícia é que foi Beniamino Stella quem lhos deu, sendo um escolhido dentre seus pupilos. Portanto, Parolin precisava de dois novos secretários, dos quais um deveria ser diplomata e falar inglês (e o outro “civil” e que soubesse francês), e notem que foi mesmo um inglês, um dos preferidos de Stella, outrora secretário da nunciatura na Colômbia, quando ele era núncio. Parolin pediu a Stella e eis que Stella tinha bela e pronta uma outra sua estrelinha a ser posta no firmamento vaticano.

Não é nem mesmo um mistério, ou um caso, que um dos principais colaboradores de Stella, um outro pupilo, todo dia toma um taxi para a Secretaria de Estado a fim de dar disposições, ao invés de recebê-las.

E o futuro Papa, em segredo, foi ao seu Beniamino

Agora alguém poderia pensar que foi o Secretário de Estado Parolin que disse ao Papa que nomeasse o velho amigo, Stella, ao vértice da Congregação para o Clero, mas aconteceu o contrário: foi Stella que pôs coração e alma para fazer o papa nomear Parolin, um dos tantos núncios do mundo, que sequer era cardeal, que admitiu ter encontrado Bergoglio apenas uma vez em sua vida, ao mais alto encargo do vaticano. Porque, se ainda não entenderam, é Stella quem está no vértice da pirâmide, é ele quem manobra tudo e faz as nomeações, tem faculdade de vida e de morte sobre legiões inteiras de carreiras eclesiásticas, é ele que já é membro de todas as congregações vaticanas, coisa que apenas Marchisano conseguiu anteriormente. Ele está por trás da nomeação do cardeal Lourenzo Baldisseri, diplomata, como secretário do Sínodo.

Stella, então, foi o máximo artífice da nomeação de Parolin, desde a eleição de Francisco, ele o indicou apertis verbis no primeiro colóquio oficial com o novo Papa Francisco em 6 de junho. Digo “oficial” porque, na realidade, tinham tido outros, incógnitos, e no momento mais delicado, não com o papa, mas com o cardeal Bergoglio, antes do fechamento do conclave. Minha suscitada fonte episcopal me confirma esta notícia com uma irônica pergunta retórica: “O sr. sabe que sua eminência Bergoglio encontrou Stella diversas vezes nas semanas antes do conclave, entre as quais a última, mesmo enquanto se abriam as portas do conclave?”.

Não, naturalmente, não o sei. “E, de fato, ninguém o saberia melhor dizer, pouquíssimos o sabem”. Como assim, ninguém viu Bergoglio, um papável, durante a Sé vacante, ou seja, um vigiado especial, entrar, nada mais, nada menos, que na fábrica dos núncios e dos arcebispos, para encontrar o Star? Esta é a minha ingênua pergunta. Simplesmente, parece que foi ali num horário em que não havia ninguém no portão de ingresso, talvez com exceção de uma única vez. Mas aquela vez foi o bastante para se dar a conhecer a quem deveria saber, especialmente depois do êxito do conclave. Foi um maná, também, para o “visitado”, o novo Star do Vaticano, o Beniamino do papa. Logo, Bergoglio acreditava (ou pelo menos pensava) em entrar sem ser visto.

Mas o que fazia ali Bergoglio visitando Stella, escondido? Quem sabe? E em que horários foi até lá, precisamente? No dia anterior ao conclave, pela última vez, portanto. Uma outra vez, à tarde, ou uma noite, após o jantar, ao menos pelas vezes que se contam. Mas a verdadeira pergunta é uma outra: não parece estranho que alguém como Bergoglio, com o seu estilo, com as suas idiossincrasias “anti-cortesãs” e “anti-mundanas” mande logo à Academia, o templo da “mundanidade espiritual” um padre seu? Nunca mandou ninguém em vinte anos, e o mande no “fim” da sua própria carreira? E, por fim, vá ele mesmo à Academia, e não para encontrar os padres que mandou de Buenos Aires.

Mas, o que queria, então, de Stella? Por que toda esta confidência com um diplomata? Parece que os dois se conheceram na América Latina, talvez mesmo em Aparecida, onde entre ambos havia uma caterva de bispos e cardeais; mas Bergoglio deve ter entrado no coração de Stella, sobretudo, com a redação do texto final. Então, sobre o que falou Bergoglio a Stella nas visitas secretas? Falavam das chances e do futuro, imaginemos, do conclave. Mas uma coisa permanece certa como a morte: no “fim” de sua carreira [como arcebispo de Buenos Aires], Bergoglio mandou a Roma diversos de seus padres, a fim de prepará-los para “alguma coisa”, além de que para que eles lhe contassem “coisas romanas”, “fofoquinhas” curiais, sobretudo, que não desprezava saber e, antes, como se disse, o divertia. E…, jogando também se aprende. E talvez os padres de Bergoglio teriam contado dele a Mons. Stella, o futuro prefeito da Congregação do Clero e deus ex machina do Vaticano.

Como as estrelas, que quando há luz, não se vêem

Mas, entre Parolin e Stella, que ligame existe além de serem conterrâneos, considerado que os dois são distantes em algo como 15 anos? Simples: são verdadeiramente amigos e, como todos os amigos, cúmplices. É isso, a sorte e o destino de um é ligado ao do outro. Mas, entre os dois, aquele que está acima é Stella.

Se vocês fizerem uma pesquisa no google, notarão que antes de sua nomeação para a Cúria, não existem documentos, artigos e sequer fotos, além das costumeiras coisas oficialíssimas, sobre Stella. Escuro absoluto. Mistério. Era um fantasma. Mas, então, quem é… que tipo é realmente este personagem que subiu de repente, à venerável idade de mais de 72 anos, às honras da crônica? Deveríamos começar mesmo por seu dado anagráfico incomum, porque para um tipo de carreira que ele teve não se explica o epílogo: é como um coqueiro que desse bananas. Mas não o faremos agora.

Ao invés disso, concentremo-nos um instante sobre o homem Beniamino Stella.

Uma pessoa muito reservada. Sai pouco, seleciona muito as pessoas com as quais sai, não se mostra nunca passeando por aí, nunca num restaurante: quando sai, se esconde atrás dos outros. Às vezes, é visto com roupa esportiva e boné na cabeça pegando a bicicleta para se movimentar em qualquer parque romano, mas ninguém o reconheceria, salvo o autor deste artigo, que, avesso às coisas e aos rostos eclesiásticos, e habituado às manhãs dominicais da Villa Doria Pamphilj em Monteverde, reiteradamente reconheceu em um distinto ciclista desconhecido ele mesmo, Stella. Tentei confirmar por aí: me confirmaram.

Vida moral limpa? O sujeito parece quase um assexuado, daquilo que se sabe, mas eventualmente seria necessário perguntar ao governo cubano (esteve ali por anos, terão relatórios inteiros que lhe dizem respeito)… para talvez não encontrar nada, porque, para aqueles que o conhecem, e são poucos, se jura de todos os modos que nunca houve nenhum sinal de dupla vida em nível moral sobre ele. Nunca.

Mas é justo esta “perfeição” que fede.

Bem, de resto, ele precisa contar em todo lugar que foi o próprio Albino Luciani que o escolheu pessoalmente e, portanto, diz, qualquer qualidade terei de haver. O ponto é que isso não é verdade, ou melhor, é uma meia verdade: Stella esteve no seminário romano e dali foi logo para a Academia. Provavelmente, Luciani o tenha visto somente no dia de sua ordenação. Mas é claro que entrou em sua ex-Academia dos Nobres porque é amigo de alguém, na época era assim, e estão tantos venezianos na Academia quanto veneziano era o onipresente Sebastiano Baggio. Uma autoridade na época. Um outro vicentino. Um outro com forte cheiro de maçonaria, estando em várias lendas metropolitanas e, se diz, também em diversas pastas judiciárias. Repito, é imaculado demais, e é justo isso que fede.

Já manifestou alguma ideia eclesiológica particular? É difícil dizê-lo. Não é um tipo que se manifeste a si mesmo; pela educação que recebeu e a carreira que se fixou, seria a ruína. Em geral, fontes de oltreoceano nos confirmam: não fala, mas deixa que sejam outros a falarem, talvez deixando qualquer saída de modo tendencioso, sobre este ou sobre aquele setor nevrálgico, para colher a reação, para testar a fidelidade, para escanear o eventual imprudente doutra parte: Jano duas caras, não faz ou diz nada senão para ter informações, enquanto te alisa, te arrebenta sem que o percebas e, neste sentido, é um verdadeiro mágico. E mais de um foi esfolado pelo amo, pelas eventuais respostas imprevidentes que deu, revelando-se, simplesmente respondendo uma pergunta. Stella é felpudo, não deixa rastros quando destrói alguém. Simplesmente dá uma piscadinha de olho, espalha vaselina e, fazendo de conta que pensa como você, age segundo aquilo que a lógica do poder impõe.

Ou, como diria Papa Francisco, com uma frase inconscientemente revelatória: “Monsenhor Stella sabe bater à porta!”.

E as estrelinhas não estão olhando…

Atenção, porém, tudo isso não faz de Stella um guardião da ordem; da sua ordem, certamente, mas não da ordem geral da Igreja. Não é, de fato, imparcial, como parece. Nenhum homem neutral poderia sobreviver naqueles ambientes. Um dissimulador, sim, mas não um homem puro. Stella é o contrário: parcial e partidário, favorece as pessoas que considera mais que merecedoras (mas o Vaticano, de resto, é o Éden dos “recomendados”, onde mais que as qualidades, contam as fidelidades individuais, as relações de confiança, a intimidade corporativa, a cumplicidade de grupo) e ele o está demonstrando também em seu novo papel de Prefeito de uma dentre as mais importantes congregações.

São-me trazidos alguns exemplos, aos quais poderei somente acenar-lhes de modo leve, por enquanto. Cada ano, a fábrica de núncios desenforma uns quinze alunos, e até aqui, tudo normal.

Agora, porém, existem dois fatores, como muitos sabem.

Um primeiro. Na Academia se louva muito o aproveitamento nos exames e no estudo. E, assim, os estudantes piores, quase desprezados pelos outros – assegura-me o antigo diplomata diante de mim – são aqueles que não conseguem concluir o doutorado dentro da metade do último ano. Significa que não estudaram e não foram capazes de terminar tudo em tempo: são considerados pelos colegas e professores como ociosos e tolos, pessoas que não conseguem fazer os “trabalhos indicados”.

O segundo. Explica-me a minha fonte, Sua Excelência, que depois soube que girou meio globo terráqueo em funções de relevância diplomática, como são os critérios para definir o país de destinação e o seu prestígio. Diz-me que, substancialmente, existem destinações “missionárias”, ou seja, diplomacias de série A, B, C, de acordo com o país, certamente, mas também de acordo com muitas condições contingentes, do mesmo modo variáveis. Antes de mais nada, o nível de pobreza do país, esta é uma condição fundamental. As primeiras missões são, normalmente, na Ásia, África e Amética Latina, mas não todos os países destes continentes. É necessário tirar da América Latina os países mais importantes, tirar da África os países do norte islâmico e o sul, mais rico, tirar da Ásia os países com mais progressos, como a Índia, o Japão e a China. Claramente, todos os países da Ásia são considerados as coisas mais nojentas, porque mesmo se alguém for a um país rico na primeira vez, se está sempre longe e tudo é diferente do Ocidente. Do mesmo modo, quem parte da Ásia, terminará, depois, na América Latina ou na África. E a sua escalada se prolongará até o infinito. Se quisermos tentar fazer uma classificação, também com base naquilo que pude entender daquele diálogo, então, da Ásia é como partir do -1; se lhe mandarem para a África negra ou um país pobre da América, estará no 0. Para ser 1, deve-se mandar para um país da África do Sul, onde são mais desenvolvidos e não existem guerras e tem menos fome, ou um país da América Latina entre os mais populosos e parecidos com o Ocidente. Se for parar ali, segundo a ordem em que for mandado, será destinado a uma sede de nível 2 ou, como todos esperam, será mandado para Roma.

Acontece, porém, que alguém seja tão afortunado a ponto de ir para uma sede “fora” do programa já desde a primeira nomeação. Talvez mesmo um dos “burrinhos”. Que vá terminar numa sede melhor, senão de série A, ao menos de série B, suculentíssima, sendo também um país turístico. Mas não diremos os nomes nem dos “afortunados” nem dos países “suculentos” (por enquanto, ao menos).

Mas quem são estes cujo mérito foi tão grande a ponto de serem maximamente premiados?

E logo se responde: os “prediletos” de Beniamino Stella. E foi propriamente por isso que não deveriam ser um tipo de santo, além de não serem astros de inteligência, nem referências no estudo. E, de fato, o problema é que, em certos casos, os “prediletos” quase sempre eram propriamente os piores entre os alunos. Que fosse somente este o problema! Parece que algum destes ilustríssimos cadetes tenha sido mandado à Academia pelo próprio bispo, a fim de que fosse mantido longe da diocese: mantê-lo equivalia a meter uma bomba-relógio no sacrário da catedral. Por suspeitas e velhas acusações, verdadeiras e próprias, as mais perigosas vão aqui (mas, por ora, não podemos dizer mais). E, notem, com o clássico método do promoveatur ut removeatur, foi mandado para a Academia, onde “brilhou” com a luz refletida pelos “prediletos”, nascidos sob uma boa Stella, pela burrice, a incontinência sobre cujo gênero é melhor calar. Tanto trovejou que chove, com um igual curriculum, um “predileto” de Stella, não obstante tudo, pode muito bem dar-se em primo round a missão diplomática mais desejada e suculenta. Mas, como ensina o Evangelho, “as prostitutas vos procederão no reino dos céus”, mas também sobre a terra, parece.

Talvez seja propriamente para evitar curiosidades “perigosas” e acidentes com os alunos, tipo alguém que queira verificar cada nome e descobrir que é refugium peccatorum além de ser scholam diplomaticorum, talvez seja por isso (antes, é certo) que a Academia Eclesiástica, no site oficial do vaticano, decidiu não atualizar a lista de seus alunos, que, prestem atenção, parou nada menos que em 2002, isto é, há doze anos: uma era geológica, que viu passarem três pontificados.

Nascido sob uma boa Estrela, um só mérito: ter feito Bento escorregar

Pergunto ao meu excelente interlocutor acerca do sucessor de Beniamino Stella à presidência da Pontifícia Academia Eclesiástica. Não gosta de perguntas, prefere as declarações espontâneas. Derrete o olhar gélido que me desafia por alguns segundos, mudado. Tempera a tensão com uma piada: “Um de quem deve sempre olhar de costas” e ri a valer, também o secretário, e acrescenta “especialmente se vem antes dele pela escada”. Riem com gosto, eu não, porque, em minha ainda dúbia inocência, não entendi. Tive como que a sensação de que estivessem abusando de mim, mas talvez não; aludem, simplesmente. É um fato que Gianpiero Gloder foi logo consagrado bispo pelo Papa Francisco, talvez seja o primeiro que tenha consagrado. Tem 55 anos e um curriculum bastante escasso para aceder a tanta glória como cabeça da Pontifícia Academia Eclesiástica, sucedendo Stella. Digamos que lhe bastou ser um outro do clã vicentino. É o enésimo “predileto”, antes, o “preferido” do próprio Stella. Todavia, um ponto em falso tem: o título de comendador, um trapo de pano honorífico que lhe foi concedido pelo então presidente católico-comunista do Conselho, Romano Prodi. O motivo nos é ignorado.

Mesmo não tendo feito uma missão no exterior (menos de dois anos na Guatemala) se tornou presidente. Era até pouco antes o ecônomo da Academia (2001-2008), quando desde 2005 foi posto para fazer o que?… Esta é a pergunta mais importante… Capo ufficio para os Assuntos especiais! Logo quando Ratzinger se tornou papa. Mas, na realidade, o que fazia ali? Corrigia, do ponto de vista político, os discursos do Papa; este trabalho se tornou tão pesado que, pouco depois, deixou a Academia. Em 2008, quando foi engatilhada a hora da vingança, Sodano sendo aposentado à força, começava a operação vaticana para “neutralizar Bento”, gerenciada, notem, pelo grupo diplomático-curial, com a benção de Sodano: guerra anti Bento, devida à sua tentativa de afastar todos os diplomáticos dos postos de poder (coisa que, na época, era avaliada por todos como positiva, “finalmente”), entre os quais o sancta sanctorum de tais postos, isto é, o Secretário de Estado. Bertone era um civil, não um diplomata. “Erro” fatal. Que começasse a guerra, Sodano deu a entender com um sinal “logístico”, o arrogante e ruidoso rechaço de ceder ao sucessor, por mais de um ano, as suas secretarias, onde continuou a se meter, insensível a cada chamada.

Vocês pensaram que tenha um bom trabalho para merecer-se uma tão fulminante promoção, naquela que (hierarquicamente falando) pode ser considerada uma sede de excelência? Não foi para a Ásia, nem para a África, nem para a América latina… Ficou em Roma. O que podemos concluir, então? Que tem amigos muito poderosos, pois de outro modo não permaneceria no exterior pouco mais de um ano. Sobretudo, tem um “mérito”, o maior, que o torna um astro nascente: manipulou os discursos políticos de Bento, tanto que foi a causa dos escorregões e dos acidentes diplomáticos daquele pontificado. Ou melhor: simplesmente não lhes conferiu, ou não os quis modificar, sendo que politicamente os problemas dos discurso de Bento eram seus problemas. Não resolvidos. Fez carreira, e não por acaso. Nasceu sob uma boa Stella.


[1] Stella, em italiano, estrela. O autor faz o trocadilho entre o nome de Beniamino Stella e a estrela.

[2] O nome Beniamino, em italiano, significa, também, “o predileto”.

24 fevereiro, 2014

Instituída pelo Papa uma nova estrutura de coordenação econômica. Entrevista com o Pe. Federico Lombardi.

Santa Sé – Instituída pelo Papa uma nova estrutura de coordenação económica. Entrevista com o Pe. Federico Lombardi

Rádio Vaticano – O Papa Francisco instituiu hoje, com o Motu Próprio “Fidelis Dispensator et Prudens”, uma nova estrutura de coordenação para os assuntos económicos da Santa Sé e do Vaticano. O organismo, denominado “Secretaria para a Economia”, será dirigida pelo Cardeal George Pell, com o título de Prefeito. As modificações anunciadas confirmam o papel da APSA como Banco Central do Vaticano. Será instituído também um novo Conselho de 15 membros, 8 dos quais Cardeais ou bispos, e 7 leigos.

Assim como o administrador fiel e prudente tem a tarefa de cuidar atentamente daquilo que lhe foi confiado – explica o Papa no Motu Próprio – assim também a Igreja está consciente da responsabilidade de tutelar e gerir com atenção os próprios bens, à luz da sua missão de evangelização e com particular atenção em relação aos mais necessitados”.

“De modo especial – escreve Papa Francisco – “a gestão dos sectores económico-financeiro da Santa Sé está intimamente ligada à sua específica missão, não só ao serviço do ministério universal do Santo Padre, mas também em relação ao bem comum, na perspectiva do desenvolvimento integral da pessoa humana”.

Assim – prossegue – “depois de ter considerado atentamente” os resultados do trabalho da Comissão referente ao estudo e orientação sobre a organização da estrutura económico-administrativa da Santa Sé (ver Quirógrafo de 18 de Julho de 2013)”, depois de ter consultado o Conselho dos Cardeais para a Reforma – da Constituição Apostólica “Pastor Bónus” – e o Conselho dos Cardeais para o estudo dos problemas organizativos e económicos da Santa Sé” – tomou esta nova decisão.

Mas quais são as novidades desta nova decisão? Responde o P. Federico Lombardi, Director da Sala de Imprensa da Santa Sé…

“A novidade é que o Papa instituiu um órgão que se chama “Secretaria para a Economia” com autoridade sobre todas as actividades económicas e administrativas da Santa Sé e do Estado do Vaticano. Portanto, uma instituição forte, que coordena esta dimensão da realidade operativa no seio da Santa Sé e da Cidade do Vaticano: prepara os balanços, publica-os e responde ao Conselho, que é também um outro novo organismo, um Conselho para a Economia composto por 15 membros, dos quais 8 são eclesiásticos – cardeais e bispos – e sete leigos, peritos qualificados em problemas económicos e financeiros.

Este Conselho para a Economia toma, portanto, o lugar daquele que era o Conselho dos 15 Cardeais, e que tinham como tarefa o debate sobre as contas da Santa Sé. A Secretaria para a Economia que é a instituição nova, principal, é governada por um Cardeal Prefeito – o Cardeal Pell, que é actualmente arcebispo de Sidney – e será coadjuvado por um secreário. Além disso, foi também instituído um departamento de Revisão Geral, com a tarefa de rever de forma geral os balanços e das situações económicas da Santa Sé no Estado da Cidade do Vaticano. É claro que o revisor é independente da Secretaria Económica, precisamente porque tem a tarefa de rever tudo.

Há outros organismos no Vaticano e que permanecem como tal: a AIF, Autoridade de Informação Financeira que tem a tarefa de colaborar com as unidades de informação financeira dos outros Estados, que diz respeito a tudo o que tem a ver com a luta contra a reciclagem do dinheiro e que deve ser, portanto, uma instituição completamente autónoma das outras: e a APSA, Administração do Património da Sé Apostólica, que tem a função – que é de novo sublinhada e ulteriormente precisada – de Banco central para o Estado da Cidade do Vaticano”.

- Muda o papel do IOR?

“O IOR continua a ser objecto de estudo e de reflexão, mas não é afectado neste momento por esta reorganização, que tem um horizonte muito mais amplo e que diz respeito a dimensões económicas e administrativas da Santa Sé e do Estado do Vaticano no conjunto. Trata-se, portanto, dum horizonte muito mais amplo e complexo, enquanto que o IOR é uma instituição particular e com uma sua função específica, uma pequena tecla duma realidade muito mais ampla”.

22 fevereiro, 2014

Com a presença de Bento XVI, Papa Francisco nomeia 19 novos cardeais.

O Globo, com Reuters e Rádio Vaticano – RIO e ROMA (Itália) — Com a presença do Papa emérito, Bento XVI, o Papa Francisco realizou, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, o primeiro consistório de seu pontificado na manhã deste sábado. A cerimônia, que começou às 11h (7h, no horário de Brasília), consistiu na nomeação dos novos 19 cardeais da Igreja Católica, entre eles, o arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, que recebeu o barrete e o anel cardinalícios das mãos de Francisco, já vestido com a nova batina. O anúncio de que dom Orani, principal organizador da Jornada Mundial da Juventude, seria um dos novos cardeais foi feito pelo Papa durante a oração do Ângelus em 12 de janeiro.

A presença do Papa emérito na celebração não era esperada e foi uma surpresa. Foi a primeira vez que ele apareceu em um evento público desde que renunciou em fevereiro de 2013. Além de Bento XVI, estava presente também a presidente Dilma Rousseff, vestida de preto e sentada na primeira fileira dos convidados. Nesta sexta-feira, ela, foi recebida por Francisco e o convidou a assistir aos jogos da Argentina na Copa.

Além do Brasil, países como Itália, Alemanha, Reino Unido, Nicarágua, Canadá, Costa do Marfim, Argentina, Coreia do Sul, Chile, Burkina Faso, Filipinas, Haiti, Espanha e Santa Lúcia passam a ter representantes entre os cardeais. Dos 19 anunciados, 16 têm menos de 80 anos e poderão votar no Conclave que elegerá o sucessor do atual Papa.Com os novos purpurados o Colégio Cardinalício passa a ter 218 cardeais vindos de 68 países.

A cerimônia deste sábado foi marcada por cânticos e orações, na melhor tradição da Igreja. Na homilia, o Papa Francisco comentou o Evangelho de Marcos, sublinhando duas afirmações do texto: “Jesus caminhava à frente deles” e “Jesus chamou-os”. Após a homilia e o profundo silêncio de recolhimento que se lhe seguiu, o Papa Francisco procedeu à leitura da fórmula de criação e proclamou solenemente os nomes dos novos cardeais, para os unir com “um vínculo mais estreito à Sé de Pedro”.

Logo depois, seguiu-se a profissão de fé e o juramento dos novos cardeais, de fidelidade e obediência a Francisco e seus sucessores, “agora e para sempre”. Um a um ajoelharam-se aos pés do Papa, para dele receberem o barrete cardinalício, imposto “como sinal da dignidade do cardinalato”, significando que todos devem estar prontos a comportar-se “com fortaleza, até à efusão do sangue”, como refere-se o ritual. O Papa, então, entregou aos novos cardeais o respectivo anel, para que se “reforce o amor pela Igreja”. Foi atribuído a cada cardeal uma igreja de Roma, simbolizando a “participação na solicitude pastoral do Papa” na cidade. Cada um recebeu ainda a bula de criação cardinalícia, momento selado por um abraço de paz.

Além do anel, do barrete e da nova batina, dom Orani e os novos cardeais já haviam recebido, na quinta-feira, uma nova cruz. Durante a cerimônia na Basílica de São Pedro, os cardeais vestiram uma espécie de capa por cima da batina, de cor púrpura. A cor representa o martírio pelo sangue — pois, como cardeais, eles estão agora mais próximos do papa. Nesta sexta, perguntado pelo GLOBO se sentia o peso de ser cardeal, dom Orani disse:

— É o peso da responsabilidade, porque é um grupo de 120 cardeais do mundo inteiro (reunidos agora em Roma). Estamos perto do Santo Padre e sabemos que o papa não só tem a responsabilidade na Igreja Católica como é líder mundial também nas questões de paz, fome, justiça, refugiados. Peço a Deus que me ajude para poder exercer bem essa missão.

19 fevereiro, 2014

Arcebispo de Belo Horizonte membro da Congregação para as Igrejas Orientais. Novo bispo auxiliar para Brasília.

Nomeações divulgadas hoje no boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé:

    • Novo bispo auxiliar de Brasília: Mons. Marcony Vinícius Ferreira

      Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo de Belo Horizonte, é nomeado membro da Congregação para as Igrejas Orientais. Certamente, a nomeação se deve por tão prestimosos serviços à Igreja de Belo Horizonte e do Brasil, desde sua egrégia presidência da Comissão Episcopal Pastoral para a Doutrina de Fé da CNBB (sim, isso existe, embora até o momento não se saiba, ao certo, o que faz e para que serve) até a sua atual omissão vexaminosa gestão do caso do notável herege Frei Cláudio Van Balen. Parabéns, Excelência!

    • Marinis: também para a Congregação para as Igrejas Orientais, Papa Francisco confirmou Dom Piero Marini, antigo cerimoniário de João Paulo II, como membro da Congregação, bem como nomeou o seu atual mestre de cerimônias, Monsenhor Guido Marini, como membro.
    • Mons. Marcony Vinícius Ferreira, de 50 anos, foi nomeado novo bispo auxiliar de Brasília. Indicativo de uma breve saída de Dom Leonardo Steiner, secretário geral da CNBB e também auxiliar de Brasília? Cotadíssimo anteriormente para a Arquidiocese de Porto Alegre, fala-se que Steiner assumiria uma grande arquidiocese em futuro próximo. Igualmente, fala-se que Dom Odilo Scherer deve ser nomeado para algum cargo na Cúria Romana, o que deixaria a Arquidiocese de São Paulo disponível…