Posts tagged ‘Cúria Romana’

22 novembro, 2014

Grandes mudanças à vista na Cúria.

Por Fratres in Unum.com – Segundo o vaticanista Marco Tosatti, são iminentes várias mudanças na Cúria Romana.

A começar pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, cujo nome mais cotado para o posto de Prefeito é a do Cardeal Robert Sarah, o primeiro cardeal da Guiné.

Cardeal Sarah

Cardeal Sarah

Sarah, até o momento presidente do Pontifício Conselho Cor Unum, gentilmente recebeu uma comitiva de sacerdotes participantes da peregrinação Summorum Pontificum, no mês passado.

Na segunda-feira, o Papa presidirá uma reunião com todos os chefes de dicastérios da Cúria a fim de discutir os projetos de reforma antes de tomar as decisões com seu conselho de oito cardeais.

Dá-se por certo a fusão da Congregação para a Educação Católica com o Pontifício Conselho para a Cultura. No comando do novo organismo permanecerá o Cardeal Gianfranco Ravasi e, assim, podemos esperar a continuação de suas exposições da arte moderna e as famosas edições do “Pátio dos gentios” mundo afora.

Ravasi, Vincenzo Paglia [presidente do Conselho para a Família, que, pouco antes da renúncia do Papa Bento XVI, defendeu “soluções de direito privado” para “outras convivências não familiares”. Em outras palavras, o reconhecimento jurídico das uniões homossexuais] e o todo poderoso Oscar Maradiaga foram vistos jantando juntos em uma sala reservada de um restaurante romano. Crê-se que Maradiaga seria o comandante de uma nova “super congregação”, que abarcaria o Conselho Justiça e Paz, o Conselho para os Migrantes, o Conselho Cor Unum, a Academia para a Vida e o Conselho para os Operadores Sanitários, bem como um quinto secretariado para o Direito das Mulheres.

21 novembro, 2014

Totalitarismo Vaticano.

Por Francesco Colafemmina – Fides et Forma | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: Aquilo que eu sempre tive dificuldade de tolerar no progressismo liberal dentro da Igreja é a sua arrogância totalitária. Mas, o que se vive hoje na Igreja sob a ditadura de Bergoglio e sua direção é algo bem diferente se formos comparar com o progressismo militante que apenas pretendia tomar de assalto o Papado e o Magistério. Estamos, em poucas palavras, muito além das frequentes investidas e, portanto, daquela arrogância se tornou obsoleta ao se transformar na mais pura protérvia, despotismo rancoroso e intolerância bolchevique.

Este fenômeno deveria deixar preocupados nem tanto os considerados conservadores e aquela  pequena parte minoritária que frequentemente é definida como “tradicionalistas”, mas sim aqueles ex-progressistas que pariram um monstro que agora se tornou tão incontrolável que ameaça engoli-los em primeiro lugar.

O progressismo católico tomou como presas uma grande maioria de homens da Igreja que, em boa fé, estavam certos de que um maior envolvimento da Igreja nas lutas sociais, uma simplificação dos aparelhos eclesiásticos fundamentais, um maior cuidado pastoral com as ovelhas desgarradas, favoreceriam uma redescoberta do Evangelho autêntico, privado de superestruturas humanas. Daí o fascínio por Bergoglio, considerado um defensor dessa política eclesial, uma verdadeira volta à descoberta da “autenticidade” do Cristianismo (entre outras instâncias da retaguarda, fixadas nos anos 60 e 70).

Infelizmente esses progressistas estão sendo obrigados a reconhecer agora que as suas teorias estão sendo usadas por Bergoglio e seu entorno com um cinismo estratégico ímpar para levar a Igreja justamente a um caminho oposto.

De antagonista em um mundo fundamentado nas desigualdades e na prepotência ideológica e econômica de uma elite à sua companheira de merenda. É nisso que a “nova Igreja” corre o risco de se tornar sob o desígnio dos novos “Robespierres purpurados”. Não é por acaso que as fileiras do novo totalitarismo Vaticano são constituídas principalmente por diplomatas, ou seja, por  aqueles bispos sem a menor formação pastoral e acostumados a tratar e lidar com embaixadores, chefes de estado, burocratas e funcionários, ao invés de famílias carentes, desempregados, pessoas que sofrem, moribundos e oprimidos em geral.

O projeto vai muito além do progressismo e conservadorismo, ambos pulsões internas da Igreja, e tem como único propósito transformar a Igreja em um mero instrumento de controle social a serviço das elites políticas e econômicas.

Elites essas que a Igreja deveria ser a primeira em confrontar “apertis verbis”. Em um mundo ocidental, cada vez mais aceso por tensões sociais e com um abismo crescente entre pobres e ricos, a nova Igreja deve anestesiar as massas edulcorando sua condição, exaltando a pobreza e a igualdade sem jamais denunciar ou contrapor-se às forças que as determinam, sem jamais lutar contra o desvio moral que é um produto desses poderes, oferecido às massas como meio seguro de controle e condicionamento. A Igreja, pelo contrário, deveria combater ferozmente a ideologia desumana aplicada à vida diária dos homens, deveria ser um obstáculo contra a tentativa de se mudar radicalmente a estrutura da sociedade humana, que busca transformá-la em individualismo controlado e consumista. Deveria, em suma, ser aquela perpétua testemunha do vínculo indissolúvel entre Criador e criatura que impõe a esta última os freios e ao mesmo tempo a valoriza através do reconhecimento de sua dignidade espiritual.

Mas, ao invés disso, hoje a Igreja de Bergoglio e sua direção é totalmente inclinada aos interesses das elites que condicionam o sentir e o querer das massas e que tem como alvo a realização de um projeto já identificado e descrito por Aldous Huxley em seu “Admirável Mundo Novo” de 1932. Huxley esclarecia mais tarde em “Uma volta ao mundo novo” que o papel da religião na futura configuração da ditadura dos mercados seria aquele de uma “distração social”: “Nem mesmo na Roma antiga havia algo que se assemelhasse à distração incessante que hoje oferecem os jornais e revistas, rádio, televisão e cinema. Este fluxo incessante de distrações no meu ‘Novo Mundo’ foi usado deliberadamente como um instrumento da política, para impedir as pessoas de prestar muita atenção na realidade da situação social e política que o cerca”.

Assim, para mudar o rosto da Igreja foi necessária uma revolução, uma espécie de golpe de Estado, que começou bem antes da demissão — obviamente forçada – de Ratzinger em 2013.

Isto é demonstrado pelas características do regime totalitário de Bergoglio. Primeiro de tudo, o culto de personalidade em torno deste líder revolucionário, cuidadosamente construído por debaixo da mesa, através de alguns movimentos astutos já de início (a idéia de celebrar missa todos os dias em Santa Marta, de escolher viver lá, em vez de no Palácio Apostólico, etc, etc.). Em segundo lugar, a degradação das Sedes tradicionais de poder transformando-as em meros simulacros empoeirados onde se colocam funcionários, em sua maioria desconhecidos, que apenas se destinam a facilitar as decisões do regime. Adicionado a isso vem a criação de uma direção oficial e um oficiosa. A direção oficial (composto pelo conselho dos oito) e a oficiosa (uma espécie de círculo mágico feito de amigos, ex-revolucionários frustrados, intelectuais radicais, jornalistas hipnotizados pelo querido líder). Não falta, entre outras coisas, a presença de uma espécie de polícia secreta (veja o caso de Franciscanos da Imaculada).

Uma outra característica fundamental deste regime é a ausência de referências substanciais ao passado. Assim, de um modo meio embaralhado e bem arquitetado se implementou uma passagem radical de um Papa teólogo para um Papa que fala como o vendedor de frutas no mercado local ou o aposentado no bar que transmite esportes pela TV. Latim e citações de Patrística são considerados como frescuras desnecessárias. Portanto, deve-se comentar o Evangelho reinterpretando-o dia a dia em Santa Marta, tendo em seus braços, armas em punho para disparar uma série impressionante de “pensamentos” que têm como núcleo a criminalização dos católicos (independentemente de suas posições). Os últimos passos são os mais chatos, mas não menos inesperados: os expurgos. Primeiro foi Piacenza — que tentando recuperar posições no esquema comentou positivamente certas aberturas do Sínodo — depois Canizares, agora – clamorosamente e verdadeiramente, Burke. Amanhã talvez seja até Müller.

Tudo aquilo que define Bergoglio e seus companheiros é por outro lado uma ânsia quase milenarística: a ansiedade de empreender uma mudança radical e definitiva que para eles é entendida como uma missão divina autêntica. Não é nenhuma coincidência que em um estilo totalmente semelhante a “Joaquim de Fiore” não fazem outra coisa senão mencionar o “Espírito” que estaria se movendo dessa vez sobre os homens. Eis porque todos os obstáculos devem ser removidos, porque são precisamente obstáculos, mesmo quando se referem às verdades da fé, ao Magistério e ao Evangelho (não aquele das pregações em Santa Marta). Os obstáculos estão sendo removidos, sem, no entanto, suscitar protestos ou simples perplexidade: no novo regime do Vaticano, um crime legitimamente punível é a falta de conformidade com a vontade e a missão milenarística de Bergoglio e seu diretório. Então, não há nada de errado com isso. Na verdade, é até uma ação digna. Porque ela empurra a Igreja para a frente, sim, diretamente para o abismo…

12 novembro, 2014

Os “ortodoxos” fora da Cúria e os “hereges” dentro.

Para cada cardeal ortodoxo que é misericordiosamente expulso, um padre “herege” é convocado. Roberto, Messa in Latino.

Padre D’ors, um sacerdote (um pouco demais) de fronteira

Por Lorenzo Bertocchi - La Nuova Bussola Quotidiana, de 08-11-2014 | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: Ele se define como um “escritor místico, erótico e cômico”, chama-se Pablo D’ors (neto do famoso crítico de arte espanhol Eugenio D’ors) e atualmente é sacerdote na diocese de Madrid. Recentemente, foi nomeado como conselheiro do Pontifício Conselho para a Cultura, o dicastério liderado pelo Cardeal Ravasi, aquele do “Cortile dei Gentili”. “Por que fui escolhido pelo Papa Francisco? Um mistério. – Declararou ao jornal La Repubblica – Talvez ele teria perguntado: qual é o sacerdote mais marginal em Madrid?”.

Por esta entrevista, ficamos sabendo que antes de se consagrar ao sacerdócio levou uma vida “rica de amores, leituras, viagens imprudentes” e que isso o ajudou em sua tardia vocação, amadurecida aos 27 anos. Sim, porque “conhecer o amor humano ajuda a conhecer melhor sobre o amor divino”. E quem somos nós para julgar? Ninguém, porém, sabe-se lá o que pensa aquela fileira de virgens na história da Igreja que se doaram de corpo e alma ao Senhor …

O pobre católico terra-terra agora se sente inadequado, eu admito. Sob a pressão da cultura, aquela considerada “alta”, ele se dá por conta que suas pobres convicções, aprendidas com o velho pároco de montanha, são como lixo, cultura de série B. É necessário se atualizar, deixar de ser “alternativo”, diz D’ors, e viver o Cristianismo em “diálogo” com o mundo.

Padre Pablo, autor de romances, como aquele da mulher eslovaca que vai para a cama com os maiores escritores do século XX, e de ensaios, como o bem-sucedido “Biografia do silêncio”, diz que a vida de cada um “deveria ser uma obra de arte”. Vasco Rossi, para descer ao alcance da nossa mísera cultura, talvez diria “uma vida imprudente” daquelas cheias de problemas.

E então quebremos as amarras. Os sacerdotes poderiam viver melhor com uma mulher ao lado, porque — diz o culto padre — “os tempos agora estão amadurecidos”. Mas esta é apenas uma opinião pessoal, pois “disso o Pontifício Conselho não se encarregará”. Enquanto se falará e muito de mulheres sacerdotisas. “Penso que após a próxima reunião plenária se falará dessa definição.”

Absolutamente a favor da ordenação de mulheres (“e ele não é o único”), D’ors é fiel à linha de fazer de sua vida uma obra de arte, segundo ele, “um importante critério para medir a vitalidade espiritual de uma pessoa é a sua abertura à mudança. Resistir à vida é um pecado porque a vida é um desenvolvimento contínuo. “Panta Rei”. (filosofia de Heráclito segundo o qual : “tudo flui (panta rei), nada persiste, nem permanece o mesmo”).

E nós que tínhamos pensado em construir a vida sobre a rocha sólida, damo-nos conta que, pelo contrário, é sobre a areia que podemos viver uma autêntica vitalidade espiritual. Bem, que venha a chuva, que transbordem os rios e soprem os ventos, deixemo-nos levar pelo turbilhão da vida. Esta é a nova ascese? De fato, temos que nos atualizar.

E para fazê-lo, deveríamos assistir a um curso administrado durante anos pelo novo consultor do Dicastério do Vaticano: “Caçadores da montanha.” Seminário de formação espiritual para o qual não se exige nenhum vínculo ou confissão religiosa ou espiritual, ainda que o trabalho seja desenvolvido “principalmente” a partir da tradição cristã e “secundariamente” a partir do zen-budismo. Pois, por outro lado, D’ors já revelou em outra entrevista, que “se eu não fosse um cristão, eu seria um budista.”

Subindo sobre essa montanha, talvez o pobre católico terra-terra consiga aprender que a melhor maneira para se acompanhar uma pessoa que está morrendo é “apenas ouvi-la e basta, esquecendo de si próprio, que é a coisa mais difícil.” Isso foi o que disse D’ors ao jornal La República quando lhe perguntaram: “Como é feito o acompanhamento a uma pessoa que está morrendo?”

Outro dia eu passava lá pelas bandas da minha velha paróquia nas montanhas, o pároco que há vários anos não existe mais, porque já foi para o céu, dobrava-se em quatro para visitar os leitos dos moribundos, para levar conforto humano e sobretudo sacramental. Para se certificar de que eles poderiam salvar a alma.

Refletindo bem, eu prefiro continuar sendo um católico terra-terra. Deixo o “aggiornamento” para os Conselhos Pontifícios e espero que, pelo menos no momento do meu último suspiro, eu tenha ao meu lado um sacerdote não tão culto como esse.

4 novembro, 2014

Igreja sem rumo, diz Burke. Não a cambalhotas doutrinárias, diz Pell .

Por Chiesa et Post Concilio | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: A mídia nacional e internacional continua recorrendo às muitas declarações oficiais sobre as disputas que permaneceram em aberto no âmbito da assembléia sinodal.

O artigo publicado pelo Il Foglio ontem [aqui], fornece uma síntese que deveríamos ter em mente enquanto aguardamos os novos movimentos e desenvolvimentos subsequentes da situação.

O articulista reconhece no Cardeal Raymond Leo Burke, um dos cardeais “que apoiam e celebram” a missa no rito antiquior”, que o Papa Emérito Bento XVI, “monge em clausura”, definiu como “grande” em uma recente mensagem enviada ao delegado geral do Coetus Summorum Pontificum [aqui].

O que me dá a oportunidade para reafirmar a nossa perplexidade sobre a figura do “papa emérito” e sobre algumas de suas expressões naquela mensagem que, se formos verificar novamente, talvez poderia parecer irônica, quando fala sobre a  “paz litúrgica”, a qual infelizmente hoje corre mais risco (não podemos ignorar a história dos Franciscanos da Imaculada e o agravamento de muitas restrições, removidas algumas exceções) devido à aversão que suscitou na época em que Summorum Pontificum foi aprovado como uma exortação cheia de esperança para os mais jovens e talvez com uma autoridade significativa ao indicar nos “grandes” cardeais que apoiam e celebram o rito antigo, o katechon da situação, não só no que diz respeito à liturgia, mas também sobre alguns argumentos de peso, por ele citados no contexto dos dois documentos divulgados ao mesmo tempo: a mensagem lida na Universidade Urbaniana [aqui] e a saudação à conferência internacional “o respeito pela vida, o caminho para a paz”, promovido pela Fundação Ratzinger na Universidade Pontifícia Bolivariana de Medellín.

Perplexidade até agora não resolvida, exceto para aqueles que não percebem nenhum problema, como se estivéssemos vivendo uma situação “normal”. Na verdade, o inédito e anômalo que nos impõem provoca reações diferenciadas entre os católicos: Além da indiferença dos tíbios, há aqueles que pertencem à “torcida papista” e que não vão além da superfície; há quem sobe em palhas para defender o indefensável; quem se fecha como uma ostra para não ver; há aqueles que tomados pelo desânimo param de remar contra a corrente, há quem se cale e prefere ficar em silêncio por opção intensificando a oração e o oferecimento; e há aqueles que têm a coragem de se levantar e fazer perguntas, mesmo quando eles são incômodas e a audácia de expressá-las na esperança de que cheguem até alguém que não está irremediavelmente massificado e assim contribuir para defender a fé verdadeira.

O articulista fornece uma ampla citação das declarações do Cardeal Burke, em entrevista publicada no site Vida Nova:

“Desde que Kasper começou a divulgar sua opinião, uma parte da imprensa espalhou a idéia de que a Igreja tem intenção de mudar a sua disciplina. E isto criou sérias dificuldades pastorais. A pedra fundamental da Igreja é o matrimônio. Se não ensinamos e vivemos bem essa realidade, estamos perdidos. Deixamos de ser Igreja”. Não tem nada a ver com o Papa, assegura Burke, o qual todavia observa que “há pessoas que sofrem um pouco” de enjôo, porque lhes parece que a nave da igreja perdeu a bússola”.

Note-se que se trata da confusão “diabólica”, da qual falava o Bispo nativo da Filadélfia, Charles Chaput da Filadélfia, após a disputa teológica áspera e cerrada na sala do sínodo.

E, quanto ao Cardeal Pell, nota-se que ele escolheu voltar aos temas do Sínodo, durante a peregrinação anual que a cada mês de outubro celebra o Motu Proprio promulgado em 2007 por Joseph Ratzinger, o qual liberou o Rito Romano antiquior, instando os católicos a se organizar na batalha nas dioceses entre aqueles que querem tornar definitivas as aberturas dos inovadores e aqueles que querem bloqueá-las levados pela consciência de que o mistério divino não pertence somente à misericórdia, mas também à santidade e justiça. Algo que também foi mencionado pelo Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Ludwig Müller.

Estas são as palavras do Cardeal Pell:

“Antes do próximo outubro, os católicos devem trabalhar para construir um consenso que supere as atuais divisões… Claro que a doutrina se desenvolve, no sentido que entendemos a verdade de modo mais profundo, mas, na história católica, não existem cambalhotas doutrinárias”. Isto porque “a tradição apostólica anunciada primeiramente por Cristo e fundamentada nas Escrituras é a pedra angular da verdade e da genuína prática pastoral.”

E o Papa, em tudo isso, tem um papel fundamental. Na verdade, nos deixa perplexos o “ter que construir consenso”, porque a verdade não depende do consenso e na Igreja ela é afirmada e confirmada com autoridade. E, depois das observações descritas, aqui residem todas as incógnitas:

“O papel do sucessor de São Pedro sempre foi vital para a vida cristã e católica, principalmente porque é a pedra angular da fidelidade doutrinária e a resolução de todos os conflitos, tantos doutrinais como pastorais. A Igreja não foi fundada sobre a rocha da fé de Pedro. Mas sobre o próprio Pedro. “[Mas primeiramente sobre Cristo].

O fato de que cardeais alguns e bispos falem de modo claro é já um indício de que não estamos sozinhos na sã reafirmação dos princípios perenes. Vamos aguardar pelos próximos movimentos dos que agora parecem se engajar como lados contrapostos.

25 outubro, 2014

Depois da derrota no Sínodo, os liberais já pedem mudança no Governo da Igreja.

Começarão os expurgos mais cedo do que se imagina. Entrevista com o fundador da Comunidade de Santo Egídio e historiador do Cristianismo. “Na cabeça dos dicastérios é necessário pessoas em sintonia com Francisco”.

Por Giacomo Galeazzi – Vatican Insider | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: “Do Sínodo emergiu a necessidade de se reformar o governo central da Igreja. Na condução dos dicastérios Francisco tem que ter pessoas em sintonia com ele”. Segundo o professor Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio e historiador do Cristianismo, “é um erro interpretar as discussões sinodais baseados nas categorias de liberais e conservadores.” É necessário “uma nova hermenêutica do Sínodo.”

Onde está o erro na interpretação do Sínodo sobre a família?

“Se faz necessário começar a partir do discurso de Francisco no encerramento do Sínodo, ao se distanciar tanto de liberais como conservadores. O Pontífice não quer voltar àquele clima pós 1968, a uma polarização entre liberais e conservadores, e por isso quis reafirmar que é ele o Papa, que o Papa se chama Francisco, desfazendo a tentativa dos tradicionalistas de conectarem-se à figura do Papa Emérito Bento XVI “.

Foi o Papa que dirigiu a discussão dos Padres Sinodais sobre  os divorciados recasados e uniões de fato?

“Francisco não teve um papel de direção no Sínodo. Entre as proposições que foram derrubadas haviam até mesmo trechos do Catecismo e textos de Bento XVI. Quem votou não conduziu uma batalha tentando bloquear o desenvolvimento da  pesquisa sinodal ou intimidar, por exemplo: ‘Se você tocar nessas questões, vai ter problema’. Mas, na realidade, o que se viu rejeitada foi a própria idéia do sínodo, ou seja, o fato de que tais questões fossem abordadas no Sínodo. Mas, então, não se entende que sentido teria em convocar o Sínodo”.

O governo da Santa Sé deve ser mudado?

Sim. O atual governo de Francisco permaneceu sendo aquele de Bento XVI. E é precisamente na estrutura de seu governo que Francisco encontra a resistência mais forte às mudanças. A sua reforma da Cúria não pode limitar-se à incorporação de um dicastério (uma cópia do governo italiano). Papa Bergoglio precisa de colaboradores em sintonia com ele. Até mesmo João XXIII tinha uma cúria hostil às mudanças, por isso se concentrou na Convocação do Concílio, iniciando um processo de renovação que o ajudou a superar as dificuldades. Paulo VI, no entanto, introduziu um mandato de cinco anos para os ministros do Vaticano e desde então ninguém fica mais no cargo pela vida toda, mas por decisão do Papa”.

O que seria um exemplo de uma colaboração eficaz com o Pontífice?

“A forte intervenção do Secretário de Estado, Pietro Parolin no Consistório do Papa dedicado à dramática situação no Oriente Médio, demonstra o quão crucial é para Francisco ter as pessoas certas no lugar certo.

1 outubro, 2014

“O Papa não tem laringite”.

O Cardeal Burke, prefeito da Assinatura Apostólica, critica duramente o cardeal Kasper. Usa adjetivos como “ultrajante” e “enganador” para definir as declarações de seu colega. “Acho engraçado que o Cardeal Kasper afirme falar em nome do Papa. O Papa não tem laringite”

Por Marco Tosatti – La Stampa | Tradução: Fratres in Unum.com – O Prefeito da Assinatura Apostólica, o mais alto tribunal da Igreja, o Cardeal norte-americano Raymond Leo Burke, chamou de “ultrajante” que o Cardeal Kasper insinue que a crítica às suas propostas (de Kasper) sobre a comunhão para divorciados recasados seriam direcionadas ao Papa.

Burke e Bento.

Burke e Bento.

Burke, homem sem papas na língua, falou em uma conferência organizada pela Ignatius Press, grande editora americana religiosa, que hoje lançará no mercado vários livros em vista do Sínodo dos Bispos sobre a família, que será aberto em Roma na manhã de domingo.

“Acho engraçado que o Cardeal Kasper afirme falar em nome do Papa. O Papa não tem laringite”, disse Burke, falando do livro assinado por ele e por outros cardeais e especialistas no assunto para se opor à proposta de Kasper de dar a comunhão para divorciados recasados. Burke disse que Kasper “estava errado”, porque a indissolubilidade do matrimônio “é baseada nas palavras claras de Jesus Cristo e não pode ser mudada”.

Padre Joseph Fessio, jesuíta e responsável pela Ignatius Press, se perguntou se o Papa não havia encorajado a discussão sobre a proposta de Kasper, de modo a chamar a atenção para o problema e, por fim, reafirmar o ensinamento da Igreja. Questionou se “o Santo Padre astutamente não procurou mexer num cacho de abelha” em vista do Sínodo.

Em resposta a uma declaração de Kasper, segundo a qual a sua proposta prevê uma mudança na disciplina, e não a doutrina da Igreja, Burke argumenta que é um “argumento muito enganador”. “Não pode haver uma disciplina na Igreja que não esteja a serviço da doutrina”.

30 setembro, 2014

Os bastidores da nomeação de Chicago.

Como sucessor do Cardeal George, grande inspirador da atual orientação da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, o Papa Francisco nomeou um bispo de orientação oposta. Eis aqui como e por quê. 

Por Sandro Magister | Tradução: Fratres in Unum.com – Cidade do Vaticano, 30 de setembro de 2014 – Enquanto ainda atordoado pela notícia da iminente remoção do Cardeal Raymond Leo Burke, o catolicismo mais conservador e tradicionalista dos Estados Unidos — e historicamente mais “papista” — sofreu um posterior golpe com a nomeação do novo arcebispo de Chicago.

A decisão de Francisco de eleger a Blase Joseph Cupich (na foto, à direita) como novo pastor da terceira diocese dos Estados Unidos submergiu em profunda depressão a este componente particularmente dinâmico do catolicismo norte-americano, quase à beira de um ataque de nervos. Basta percorrer as reações das páginas na internet e dos blogueiros daquela região do mundo para registrar o ofuscamento e a contrariedade pela nomeação.

Pelo contrário, a parte mais progressista do catolicismo americano, historicamente super crítica aos últimos pontificados, celebrou com entusiasmo a chegada de Cupich, definido pela imprensa laica como um “moderado”, qualificação recorrente nos Estados Unidos para assinalar um “liberal” não radical, mas ainda assim um “liberal”.

29 setembro, 2014

Os bispos alemães já têm suas “teses” prontas para pregar na porta do Sínodo.

Por Matteo Matzuzzi – Il Foglio, 17 de setembro de 2014 | Tradução: Fratres in Unum.com – Os bispos alemães estão unidos ao cardeal Walter Kasper no que diz respeito ao matrimônio e à família.

As teses do teólogo escolhido pelo Papa que abrirão as discussões do consistório sobre os temas no Sínodo bienal, prestes a acontecer, são compartilhadas e apoiadas pela maioria do episcopado alemão.

O Cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Freising, explicou isso durante uma mesa-redonda sobre o Diálogo na Igreja, que ocorreu na semana passada em Magdeburg.

O Cardeal Marx, há alguns meses presidente da Conferência Episcopal, está se movimentando rapidamente no Vaticano, onde também integra um grupo de nove cardeais que está estudando a reforma da Cúria. Ele também é o coordenador do Conselho de Economia.

O grupo, que é favorável à atualização da pastoral familiar em todas aquelas “situações inauditas até há poucos anos” e que foram discutidas em 1980, ainda que apenas de forma marginal, no Sínodo de João Paulo II sobre a Família, quis dizer isso diretamente ao cardeal Ludwig Muller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. A reunião foi “cordial” e a atmosfera “era boa”, Marx salientou, acrescentando que o chefe da delegação era o bispo de Osnabrück, Monsenhor Franz-Josef Bode.

Já há algum tempo o Cardeal Muller manifestou posições opostas em relação às de Kasper. Em julho, publicou o livro-entrevista “A Esperança da Família” (Edizioni Ares), onde reiterou que uma vez que “a misericórdia é o cumprimento da justiça”, ela nunca deve ser utilizada “como uma desculpa para suspender ou tornar os mandamentos e os sacramentos inválidos. Caso contrário – observou o chefe do antigo Santo Ofício – estaríamos seriamente manipulando a misericórdia autêntica”.

O Cardeal Marx também revelou que, assim que as discussões sinodais chegarem ao assunto principal, ele próprio, como presidente da Conferência Episcopal local, traria um documento para a assembleia que esclareceria a posição da maioria dos bispos alemães, que terão todos seus nomes assinados ao final do documento. Uma posição que seguiria as linhas traçadas por Kasper em seu longo relatório teológico exposto aos cardeais em fevereiro passado, e que ele tinha preparado como uma abertura para o debate franco e aberto desejado pelo Papa.

“Nós não podemos ser uma Igreja de missão, se não mantivermos um diálogo crítico e aberto dentro da própria Igreja”, acrescentou Marx em Magdeburg. A questão mais delicada, explicou o cardeal, é a reaproximação dos divorciados recasados à Eucaristia e a consideração a dar a muitos, vindos de um casamento fracassado, que pedem para ser admitidos novamente à Comunhão. Este assunto “não será apenas discutido aqui na Alemanha, mas em quase todas as Conferências Episcopais da Europa”, enfatizou o prelado aos participantes na mesa-redonda, entre os quais cerca de trinta bispos.

O Arcebispo de Munique, logo após o consistório no inverno passado, tinha esperança de que o debate se tornasse público, com teólogos e leigos discutindo a família e todos os seus problemas inerentes, que a partir de outubro e para os próximos dois anos seriam estudados na nova Aula pelos padres sinodais, os peritos e os auditores.

Os representantes do movimento progressista “Nós somos Igreja” disseram estar muito entusiasmados. Seus líderes de longa data Martha Heizer e seu marido foram excomungados há alguns meses porque haviam celebrado a Eucaristia em sua sala de estar – “Temos feito isso há anos, queríamos mostrar que havia uma solução para o problema da escassez de sacerdotes nas comunidades cristãs”, disse o ex-professor austríaco, justificando seu ato.

As palavras do Cardeal Marx, então, são bastante agradáveis ao movimento, desde que não fiquem só no papel: “Somente uma reforma cativante, rápida e centrada no ser humano pode contribuir para transpor o abismo que separa a doutrina tradicional da Igreja da realidade dos fiéis católicos a respeito da moralidade sexual.”

Tradução a partir da versão em inglês de Rorate-Caeli.

23 setembro, 2014

Comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé sobre encontro entre Cardeal Muller e Dom Fellay.

Por Vatican Information Service | Tradução: Fratres in Unum.com – Na manhã de terça-feira, 23 de setembro, das 11 às 13 horas, ocorreu um encontro cordial nos escritórios da Congregação para a Doutrina da Fé entre o Cardeal Gerhard Ludwig Muller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e Sua Excelência Dom Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade São Pio X. Participaram também suas Excelências: Dom Luis Francisco Ladaria Ferrer, SJ, secretário da mesma congregação, Joseph Augustine Di Noia, OP, secretário adjunto, e Guido Pozzo, secretário da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, juntamente com dois assistentes da Fraternidade, Revmo. Niklaus Pfluger e Rev. Alain-Marc Nély.

Durante o encontro, vários problemas de natureza doutrinal e canônica foram examinados, e decidiu-se proceder gradualmente e dentro de um período de tempo razável, a fim de superar as dificuldades com vistas a uma esperada plena reconciliação.

20 setembro, 2014

Sínodo: como eu o manobro.

Por Marco Tosatti – La Stampa | Tradução: Fratres in Unum.com – O Sínodo sobre a Família abordará muitas coisas, mas a mídia provavelmente vai falar sobre uma só: da possibilidade de pessoas casadas na Igreja, divorciadas (sem o reconhecimento da nulidade do vínculo anterior) e recasadas receberem a comunhão.

Ocorre já um certo número de casos em que sacerdotes, mesmo entre os “conservadores”, examinam a situação pessoal e tomam para si a responsabilidade de dizer: comungue, mas de forma discreta. Isso desde os tempos de João Paulo II.

Mas de qualquer forma! O Cardeal Kasper, que já há vinte anos tinha sua própria idéia a esse respeito, não acolhida nos pontificados de João Paulo e Bento, viu na ascensão de Bergoglio a oportunidade de apresentá-la novamente. Apesar do fato de que de Manila a Berlim, de Nova York a África, a grande maioria de seus colegas tenha, mais uma vez, reafirmado a doutrina da Igreja, baseada, aliás, nas palavras de Jesus; um dos poucos casos em que a afirmação aparece nítida, clara e definitiva, não colocada em dúvida sequer pelos mutiladores profissionais de textos…

Em suma, as coisas para Kasper & Companhia não tinham ambiente para se inserir muito bem. Mas talvez houvesse uma maneira de ajudá-los. E tentar impedir que as vozes irritantes façam muito barulho.

O primeiro ponto consiste em pedir que as intervenções escritas sejam entregues com antecedência. Isso foi feito. Até 8 de setembro, quem queria intervir no Sínodo deveria enviar o seu pequeno discurso.

Segundo: ler atentamente todas as intervenções, e, em caso de que algumas delas serem particularmente picantes, dar a palavra a um orador que, antes da intervenção espinhosa, buscasse já responder, no todo ou em parte, aos problemas levantados pela própria intervenção.

Terceiro: se alguma intervenção parecer realmente problemática, dizer que, infelizmente, não há tempo para dar a palavra a todos, mas que o texto foi recebido e permanece nas atas, e com certeza isso será tido em conta na elaboração final.

E, com efeito, não é tanto o Sínodo que será importante, mas a síntese a ser preparada, e que trará a assinatura do Papa como “exortação pós-sinodal”. É muito provável que não será um texto claro e definitivo, mas baseado sobre uma interpretação “flutuante”. De modo que qualquer um ao lê-lo possa se aproveitar da parte que mais lhe convém.

Humilde observação de um pobre cronista: mas se alguém tem um plano tão elaborado e astuto, por que falar sobre ele diante de verdadeiros estranhos durante um suntuoso jantar?