Posts tagged ‘Cúria Romana’

1 outubro, 2014

“O Papa não tem laringite”.

O Cardeal Burke, prefeito da Assinatura Apostólica, critica duramente o cardeal Kasper. Usa adjetivos como “ultrajante” e “enganador” para definir as declarações de seu colega. “Acho engraçado que o Cardeal Kasper afirme falar em nome do Papa. O Papa não tem laringite”

Por Marco Tosatti – La Stampa | Tradução: Fratres in Unum.com – O Prefeito da Assinatura Apostólica, o mais alto tribunal da Igreja, o Cardeal norte-americano Raymond Leo Burke, chamou de “ultrajante” que o Cardeal Kasper insinue que a crítica às suas propostas (de Kasper) sobre a comunhão para divorciados recasados seriam direcionadas ao Papa.

Burke e Bento.

Burke e Bento.

Burke, homem sem papas na língua, falou em uma conferência organizada pela Ignatius Press, grande editora americana religiosa, que hoje lançará no mercado vários livros em vista do Sínodo dos Bispos sobre a família, que será aberto em Roma na manhã de domingo.

“Acho engraçado que o Cardeal Kasper afirme falar em nome do Papa. O Papa não tem laringite”, disse Burke, falando do livro assinado por ele e por outros cardeais e especialistas no assunto para se opor à proposta de Kasper de dar a comunhão para divorciados recasados. Burke disse que Kasper “estava errado”, porque a indissolubilidade do matrimônio “é baseada nas palavras claras de Jesus Cristo e não pode ser mudada”.

Padre Joseph Fessio, jesuíta e responsável pela Ignatius Press, se perguntou se o Papa não havia encorajado a discussão sobre a proposta de Kasper, de modo a chamar a atenção para o problema e, por fim, reafirmar o ensinamento da Igreja. Questionou se “o Santo Padre astutamente não procurou mexer num cacho de abelha” em vista do Sínodo.

Em resposta a uma declaração de Kasper, segundo a qual a sua proposta prevê uma mudança na disciplina, e não a doutrina da Igreja, Burke argumenta que é um “argumento muito enganador”. “Não pode haver uma disciplina na Igreja que não esteja a serviço da doutrina”.

30 setembro, 2014

Os bastidores da nomeação de Chicago.

Como sucessor do Cardeal George, grande inspirador da atual orientação da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, o Papa Francisco nomeou um bispo de orientação oposta. Eis aqui como e por quê. 

Por Sandro Magister | Tradução: Fratres in Unum.com – Cidade do Vaticano, 30 de setembro de 2014 – Enquanto ainda atordoado pela notícia da iminente remoção do Cardeal Raymond Leo Burke, o catolicismo mais conservador e tradicionalista dos Estados Unidos — e historicamente mais “papista” — sofreu um posterior golpe com a nomeação do novo arcebispo de Chicago.

A decisão de Francisco de eleger a Blase Joseph Cupich (na foto, à direita) como novo pastor da terceira diocese dos Estados Unidos submergiu em profunda depressão a este componente particularmente dinâmico do catolicismo norte-americano, quase à beira de um ataque de nervos. Basta percorrer as reações das páginas na internet e dos blogueiros daquela região do mundo para registrar o ofuscamento e a contrariedade pela nomeação.

Pelo contrário, a parte mais progressista do catolicismo americano, historicamente super crítica aos últimos pontificados, celebrou com entusiasmo a chegada de Cupich, definido pela imprensa laica como um “moderado”, qualificação recorrente nos Estados Unidos para assinalar um “liberal” não radical, mas ainda assim um “liberal”.

29 setembro, 2014

Os bispos alemães já têm suas “teses” prontas para pregar na porta do Sínodo.

Por Matteo Matzuzzi – Il Foglio, 17 de setembro de 2014 | Tradução: Fratres in Unum.com – Os bispos alemães estão unidos ao cardeal Walter Kasper no que diz respeito ao matrimônio e à família.

As teses do teólogo escolhido pelo Papa que abrirão as discussões do consistório sobre os temas no Sínodo bienal, prestes a acontecer, são compartilhadas e apoiadas pela maioria do episcopado alemão.

O Cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Freising, explicou isso durante uma mesa-redonda sobre o Diálogo na Igreja, que ocorreu na semana passada em Magdeburg.

O Cardeal Marx, há alguns meses presidente da Conferência Episcopal, está se movimentando rapidamente no Vaticano, onde também integra um grupo de nove cardeais que está estudando a reforma da Cúria. Ele também é o coordenador do Conselho de Economia.

O grupo, que é favorável à atualização da pastoral familiar em todas aquelas “situações inauditas até há poucos anos” e que foram discutidas em 1980, ainda que apenas de forma marginal, no Sínodo de João Paulo II sobre a Família, quis dizer isso diretamente ao cardeal Ludwig Muller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. A reunião foi “cordial” e a atmosfera “era boa”, Marx salientou, acrescentando que o chefe da delegação era o bispo de Osnabrück, Monsenhor Franz-Josef Bode.

Já há algum tempo o Cardeal Muller manifestou posições opostas em relação às de Kasper. Em julho, publicou o livro-entrevista “A Esperança da Família” (Edizioni Ares), onde reiterou que uma vez que “a misericórdia é o cumprimento da justiça”, ela nunca deve ser utilizada “como uma desculpa para suspender ou tornar os mandamentos e os sacramentos inválidos. Caso contrário – observou o chefe do antigo Santo Ofício – estaríamos seriamente manipulando a misericórdia autêntica”.

O Cardeal Marx também revelou que, assim que as discussões sinodais chegarem ao assunto principal, ele próprio, como presidente da Conferência Episcopal local, traria um documento para a assembleia que esclareceria a posição da maioria dos bispos alemães, que terão todos seus nomes assinados ao final do documento. Uma posição que seguiria as linhas traçadas por Kasper em seu longo relatório teológico exposto aos cardeais em fevereiro passado, e que ele tinha preparado como uma abertura para o debate franco e aberto desejado pelo Papa.

“Nós não podemos ser uma Igreja de missão, se não mantivermos um diálogo crítico e aberto dentro da própria Igreja”, acrescentou Marx em Magdeburg. A questão mais delicada, explicou o cardeal, é a reaproximação dos divorciados recasados à Eucaristia e a consideração a dar a muitos, vindos de um casamento fracassado, que pedem para ser admitidos novamente à Comunhão. Este assunto “não será apenas discutido aqui na Alemanha, mas em quase todas as Conferências Episcopais da Europa”, enfatizou o prelado aos participantes na mesa-redonda, entre os quais cerca de trinta bispos.

O Arcebispo de Munique, logo após o consistório no inverno passado, tinha esperança de que o debate se tornasse público, com teólogos e leigos discutindo a família e todos os seus problemas inerentes, que a partir de outubro e para os próximos dois anos seriam estudados na nova Aula pelos padres sinodais, os peritos e os auditores.

Os representantes do movimento progressista “Nós somos Igreja” disseram estar muito entusiasmados. Seus líderes de longa data Martha Heizer e seu marido foram excomungados há alguns meses porque haviam celebrado a Eucaristia em sua sala de estar – “Temos feito isso há anos, queríamos mostrar que havia uma solução para o problema da escassez de sacerdotes nas comunidades cristãs”, disse o ex-professor austríaco, justificando seu ato.

As palavras do Cardeal Marx, então, são bastante agradáveis ao movimento, desde que não fiquem só no papel: “Somente uma reforma cativante, rápida e centrada no ser humano pode contribuir para transpor o abismo que separa a doutrina tradicional da Igreja da realidade dos fiéis católicos a respeito da moralidade sexual.”

Tradução a partir da versão em inglês de Rorate-Caeli.

23 setembro, 2014

Comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé sobre encontro entre Cardeal Muller e Dom Fellay.

Por Vatican Information Service | Tradução: Fratres in Unum.com – Na manhã de terça-feira, 23 de setembro, das 11 às 13 horas, ocorreu um encontro cordial nos escritórios da Congregação para a Doutrina da Fé entre o Cardeal Gerhard Ludwig Muller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e Sua Excelência Dom Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade São Pio X. Participaram também suas Excelências: Dom Luis Francisco Ladaria Ferrer, SJ, secretário da mesma congregação, Joseph Augustine Di Noia, OP, secretário adjunto, e Guido Pozzo, secretário da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, juntamente com dois assistentes da Fraternidade, Revmo. Niklaus Pfluger e Rev. Alain-Marc Nély.

Durante o encontro, vários problemas de natureza doutrinal e canônica foram examinados, e decidiu-se proceder gradualmente e dentro de um período de tempo razável, a fim de superar as dificuldades com vistas a uma esperada plena reconciliação.

20 setembro, 2014

Sínodo: como eu o manobro.

Por Marco Tosatti – La Stampa | Tradução: Fratres in Unum.com – O Sínodo sobre a Família abordará muitas coisas, mas a mídia provavelmente vai falar sobre uma só: da possibilidade de pessoas casadas na Igreja, divorciadas (sem o reconhecimento da nulidade do vínculo anterior) e recasadas receberem a comunhão.

Ocorre já um certo número de casos em que sacerdotes, mesmo entre os “conservadores”, examinam a situação pessoal e tomam para si a responsabilidade de dizer: comungue, mas de forma discreta. Isso desde os tempos de João Paulo II.

Mas de qualquer forma! O Cardeal Kasper, que já há vinte anos tinha sua própria idéia a esse respeito, não acolhida nos pontificados de João Paulo e Bento, viu na ascensão de Bergoglio a oportunidade de apresentá-la novamente. Apesar do fato de que de Manila a Berlim, de Nova York a África, a grande maioria de seus colegas tenha, mais uma vez, reafirmado a doutrina da Igreja, baseada, aliás, nas palavras de Jesus; um dos poucos casos em que a afirmação aparece nítida, clara e definitiva, não colocada em dúvida sequer pelos mutiladores profissionais de textos…

Em suma, as coisas para Kasper & Companhia não tinham ambiente para se inserir muito bem. Mas talvez houvesse uma maneira de ajudá-los. E tentar impedir que as vozes irritantes façam muito barulho.

O primeiro ponto consiste em pedir que as intervenções escritas sejam entregues com antecedência. Isso foi feito. Até 8 de setembro, quem queria intervir no Sínodo deveria enviar o seu pequeno discurso.

Segundo: ler atentamente todas as intervenções, e, em caso de que algumas delas serem particularmente picantes, dar a palavra a um orador que, antes da intervenção espinhosa, buscasse já responder, no todo ou em parte, aos problemas levantados pela própria intervenção.

Terceiro: se alguma intervenção parecer realmente problemática, dizer que, infelizmente, não há tempo para dar a palavra a todos, mas que o texto foi recebido e permanece nas atas, e com certeza isso será tido em conta na elaboração final.

E, com efeito, não é tanto o Sínodo que será importante, mas a síntese a ser preparada, e que trará a assinatura do Papa como “exortação pós-sinodal”. É muito provável que não será um texto claro e definitivo, mas baseado sobre uma interpretação “flutuante”. De modo que qualquer um ao lê-lo possa se aproveitar da parte que mais lhe convém.

Humilde observação de um pobre cronista: mas se alguém tem um plano tão elaborado e astuto, por que falar sobre ele diante de verdadeiros estranhos durante um suntuoso jantar?

20 setembro, 2014

Papa cria Comissão para estudar reforma do procedimento de nulidade matrimonal.

É o que anuncia o Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé hoje. O propósito da reforma se insere no contexto do Sínodo que se inicia no próximo mês, isto é, proceder uma simplificação do atual processo.

Entre os membros da Comissão, não consta o nome do Cardeal Raymond Leo Burke, prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica e um dos maiores canonistas atualmente na Igreja. O tribunal chefiado por Burke é a segunda instância, superior, ao tribunal da Rota Romana, que cuida das causas de nulidade matrimonal. Ou seja, sua presença na Comissão seria mais do que natural…

11 setembro, 2014

A nomeação de Danneels para o Sínodo sobre a família e o silêncio descarado da mídia.

Por Il Blog di Raffaella | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com – Caros amigos, eu fiz uma busca pelos meandros da internet e percebi que não se encontra um só artigo comentando a nomeação do ex-primaz da Bélgica, o Cardeal Danneels, para o sínodo sobre a família programado para o próximo mês, no Vaticano.

Não é a minha intenção me lançar contra essa pessoa (além disso… quem sou eu para julgar?) Mas eu gostaria de analisar e denunciar o comportamento da mídia.

Em 2010, ele esteve envolvido no escândalo da pedofilia que explodiu na Bélgica e foi acusado dos telhados. O blog tem todos os artigos da época assinalados mais abaixo. Mesmo em 2013, às vésperas do conclave, muitos meios de comunicação insistiram na necessidade de “excluir” três cardeais eleitores pelos motivos listados abaixo.

Entre eles estava também o ex-primaz da Bélgica, que de qualquer modo acabou participando do conclave e saiu exultante pelo resultado da eleição. Não só isso, ele até recitou uma oração na Missa de inauguração do pontificado do Papa Francisco como o primeiro dos cardeais presbíteros.

E desde aquele momento começamos a sentir o fedor de queimado da mídia, porque os ataques contra ele e outro cardeal candidato “jornalístico” [a articulista se refere ao Cardeal Roger Mahony, Arcebispo Emérito de Los Angeles] à exclusão do conclave cessaram quase imediatamente quando apenas há alguns dias antes estavam muito ativas no Twitter.

Vocês se lembram dos artigos moralistas e de cronistas “escandalizados” com a idéia de que alguns cardeais poderiam escolher o novo papa? Tudo isso caiu no esquecimento.

No entanto, eu pensava que jamais chegariam ao ponto de fazer uma nomeação como a de Danneels, feita ontem, ao menos por respeito a Bento XVI, alvo número um das setas da mídia.

Sim, meus caros amigos, agora podemos dizer claramente: o escândalo de pedofilia que explodiu em 2010 a nível mundial tinha e tem apenas um um alvo: Joseph Ratzinger.

Hoje, que ele é carta fora do baralho, é possível fazer qualquer tipo de nomeação porque ninguém vai mais contestar por consideração às vítimas que antes, com boa fé, protestavam.

Esse é um tema que me toca de maneira especial porque esse blog construiu um dossiê completo sobre a luta contra a pedofilia na Igreja por parte de Ratzinger, cardeal e papa.

Pena que este trabalho tornou-se uma resposta para a mídia e não uma forma de ajudar as vítimas como Bento XVI tanto queria.

Dói mesmo perceber e ter provas de que o pontificado de Bento XVI teria tido um resultado muito diferente e muito menos problemas” se a mídia (e sabe-se lá quem mais dentro e fora da igreja…) não tivessem decidido entravá-lo desde o dia 19 de abril de 2005.

A nomeação de Danneels… no que me diz respeito, é mais um outro ponto de não retorno.

Vamos ler novamente os artigos que proponho mais abaixo para recordar o clima de um determinado período e para verificar como os tempos mudaram, embora não tenha mudado sequer uma virgula na Igreja, a não ser a considerada “percepção” da mesma e, obviamente, o Papa.

E surge então a pergunta: o que teria acontecido se um colaborador do colaborador do substituto de um vigário amigo de um conhecido do Papa Bento XVI tivesse apenas cogitado em nomear Danneels?

LO SPECIALE DEL BLOG SUL CASO PEDOFILIA IN BELGIO (CON GLI ARTICOLI CHE RIGUARDANO LA VICENDA DEL CARDINALE DANNEELS)

ALTRI ARTICOLI:

Col Conclave arriva al pettine il nodo degli abusi, combattuti da Ratzinger tra critiche più o meno velate di importanti esponenti del collegio cardinalizio (Galeazzi)


Scicluna: Votino anche i cardinali discussi ma non li assolvo. In conclave non ci sarà il card. O’Brien (Izzo)

Pedofilia, i cardinali elettori che imbarazzano il Vaticano. Il coraggiosissimo articolo di Franca Giansoldati

9 agosto, 2014

E a Cúria ainda pulsa.

Dois documentos mostram que a Cúria ratzingeriana ainda suspira. As sugestões da Congregação para o Culto Divino quanto ao “sinal da paz” e o novo diretório da Congregação para o Clero para os padres.

Vaticano pede mais moderação no sinal da paz na missa

VATICANO, 04 Ago. 14 / 01:55 pm (ACI/EWTN Noticias).- A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em uma recente carta circular, anunciou que a localização do sinal da paz dentro da missa não mudará, mas sugeriu várias formas nas quais o rito poderia ser realizado com maior dignidade.

Em um comunicado difundido em 28 de julho, o secretário geral da Conferência Episcopal Espanhola, Pe. José María Gil Tamayo, indicou aos bispos locais que “a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos se pronunciou a favor de manter o ‘rito’ e o ‘sinal’ da paz no lugar onde se encontra hoje no Ordinário da Missa”.

O Pe. Gil Tamayo anotou que isso foi feito porque o rito da paz é “característico do rito romano” e “por não crer que seja conveniente para os fiéis introduzir mudanças estruturais na Celebração Eucarística, no momento”.

O sinal da paz é realizado depois da consagração e justo antes da recepção da Comunhão. Foi sugerido que mudasse para antes da apresentação dos dons.

O comunicado do Pe. Gil Tamayo foi enviado aos bispos espanhóis, e serve de prefácio à carta circular da Congregação para o Culto Divino, que foi assinada em 8 de junho deste ano pelo Cardeal Antonio Cañizares Llovera, seu prefeito, e seu secretário, Dom Arthur Roche.

A carta circular tinha sido aprovada e confirmada no dia anterior pelo Papa Francisco.

A carta fez quatro sugestões concretas sobre como a dignidade do sinal da paz deve ser mantida contra os abusos.

O Pe. Gil Tamayo explicou que a carta circular é um fruto do sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia, em 2005, no qual se discutiu a possibilidade de mover o rito.

“Durante o Sínodo dos bispos se viu a conveniência de moderar este gesto, que pode adquirir expressões exageradas, provocando certa confusão na assembleia precisamente antes da Comunhão”, escreveu Bento XVI em sua exortação apostólica pós-sinodal “Sacramentum caritatis”.

Bento XVI acrescentou que “pedi aos dicastérios competentes que estudem a possibilidade de mover o sinal da paz a outro lugar, tal como antes da apresentação dos dons no altar… levando em consideração os antigos e veneráveis costumes e os desejos expressos pelos Padres Sinodais”.

Uma inspiração para a mudança sugerida foi a exortação de Cristo em Mateus 5,23, que “se lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão”. Também teria levado o rito à conformidade, nesse aspecto, com o rito ambrosiano, celebrado em Milão (Itália).

O Caminho Neocatecumenal, um movimento leigo na Igreja, já moveu o sinal da paz em suas celebrações do rito romano, para antes da apresentação dos dons.

A decisão da congregação vaticana de manter o lugar do sinal da paz foi o fruto do diálogo com os bispos do mundo, que começou em 2008, e em consulta tanto com Bento XVI como com o Papa Francisco.

A Congregação para o Culto Divino disse que “oferecem-se algumas disposições práticas para expressar melhor o conteúdo do sinal da paz e para moderar os excessos, que suscitam confusão nas assembleias litúrgica antes da Comunhão”.

“Se os fiéis não compreendem e não demonstram viver, em seus gestos rituais, o significado correto do rito da paz, debilita-se o conceito cristão da paz e se vê afetada negativamente sua própria frutuosa participação na Eucaristia”.

Sobre esta base, a congregação ofereceu quatro sugestões que procuram formar o “núcleo” de catequese sobre o sinal da paz.

Primeiro, enquanto confirma a importância do rito, enfatiza que é “totalmente legítimo afirmar que não é necessário convidar ‘mecanicamente’ para se dar a paz”.

O rito é opcional, recordou a congregação, e certamente há vezes e lugares em que não encaixa.

Sua segunda recomendação foi que como as traduções são feitas da típica terceira edição do Missal Romano, as Conferências dos Bispos devem considerar “se é oportuno mudar o modo de se dar a paz estabelecido em seu momento”. Sugeriu em particular que “os gestos familiares e profanos de saudação” devem ser substituídos com “outros gestos, mais apropriados”.

A Congregação para o Culto Divino também assinalou que há muitos abusos do rito, que devem ser detidos: a introdução de um “canto para a paz”, que não existe no rito romano; Os deslocamentos dos fiéis para trocar a paz; Que o sacerdote abandone o altar para dar a paz a alguns fiéis; e quando, em algumas circunstâncias tais como matrimônios ou funerais, torna-se uma ocasião para felicitações ou condolências.

A exortação final da congregação vaticana foi que as conferências episcopais preparem catequeses litúrgicas sobre o significado do rito da paz e sua correta observação.

“A íntima relação entre lex orandi (lei da oração) e lex credendi (lei da fé) deve obviamente estender-se a lex vivendi (lei da vida)”, concluiu a carta da congregação.

“Conseguir hoje um compromisso sério dos católicos frente à construção de um mundo mais justo e pacífico implica uma compreensão mais profunda do significado cristão da paz e de sua expressão na celebração litúrgica”.

* * *

O novo diretório para os padres

A nova edição do Diretório para o Ministério e a vida dos Presbíteros, embora seja um trabalho realizado sob o comando do ex-prefeito Cardeal Piacenza, datado de 2013 e aprovado ainda por Bento XVI, foi publicado no início do pontificado do Papa Francisco. Assim a Congregação apresentava o documento: “Porém, se é verdade que a Igreja existe, vive e se perpetua no tempo por meio da missão evangelizadora (Cf. CONCÍLIO VATICANO II, Decreto Ad Gentes), parece claro que, por isso mesmo, o efeito mais prejudicial causado pela difusão da secularização é a crise do ministério sacerdotal, crise que, por um lado, se manifesta numa sensível redução das vocações, e, por outro, na propagação de um espírito de verdadeira e própria perda do sentido sobrenatural da missão sacerdotal, formas de inautenticidade que, nas degenerações mais extremas, em não poucas vezes, deram origem a situações de graves sofrimentos. Por este motivo, a reflexão sobre o futuro do sacerdócio coincide com o futuro da evangelização e, portanto, da própria Igreja”.

Vale destacar a abordagem do diretório sobre o hábito eclesiástico [que, quando fala em veste talar, está a se referir à nobre e famosa batina dos sacerdotes seculares]:

61. Numa sociedade secularizada e de tendência materialista, em que também os sinais externos das realidades sagradas e sobrenaturais tendem a desaparecer, sente-se particularmente a necessidade de que o presbítero – homem de Deus, dispensador dos seus mistérios – seja reconhecível pela comunidade, também pelo hábito que traz, como sinal inequívoco da sua dedicação e da sua identidade de detentor de um ministério público. O presbítero deve ser reconhecido antes de tudo pelo seu comportamento, mas também pelo vestir de maneira a ser imediatamente perceptível por cada fiel, melhor ainda por cada homem, a sua identidade e pertença a Deus e à Igreja.

O hábito talar é sinal exterior de uma realidade interior: «efetivamente, o presbítero já não pertence a si mesmo, mas, pelo selo sacramental por ele recebido (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 1563 e 1582), é “propriedade” de Deus. Este seu “ser de Outro” deve tornar-se reconhecível por parte de todos, através de um testemunho límpido. [...] No modo de pensar, falar, julgar os acontecimentos do mundo, servir e amar, e de se relacionar com as pessoas, também no hábito, o presbítero deve haurir força profética da sua pertença sacramental».

Por este motivo, o clérigo, bem como o diácono transitório, deve:

a) trazer o hábito talar ou «um hábito eclesiástico decoroso, segundo as normas emanadas pela Conferência Episcopal e segundo os legítimos costumes locais»; isto significa que tal hábito, quando não é o talar, deve ser diverso da maneira de vestir dos leigos e conforme a dignidade e sacralidade do ministério. O feitio e a cor devem ser estabelecidos pela Conferência dos Bispos.

b) Pela sua incoerência com o espírito de tal disciplina, as praxes contrárias não possuem a racionalidade necessária para que se possam tornar costumes legítimos e devem ser removidas pela autoridade eclesiástica competente.

Salvas situações excepcionais, o não uso do hábito eclesiástico por parte do clérigo pode manifestar uma consciência débil da sua identidade de pastor inteiramente dedicado ao serviço da Igreja.

Além disso, a veste talar – também pela forma, cor e dignidade – é especialmente oportuna, porque distingue claramente os sacerdotes dos leigos e dá a entender melhor o caráter sagrado do seu ministério, recordando ao próprio presbítero que, sempre e em qualquer momento, é sacerdote, ordenado para servir, para ensinar, para guiar e para santificar as almas, principalmente pela celebração dos sacramentos e pela pregação da Palavra de Deus. Vestir o hábito clerical serve, ademais, para a salvaguarda da pobreza e da castidade.

22 julho, 2014

O Papa e os “cardeais pedófilos”: outro indício de que Francisco está em guerra com o Vaticano.

Por Damian Thompson – The Spectator | Tradução: Fratres in Unum.com – A bomba de hoje no The Catholic Herald diz: ‘Vaticano em polvorosa enquanto o Papa Francisco concede uma nova entrevista explosiva’. A entrevista, com La Repubblica, citava Francisco dizendo que seus conselheiros lhe teriam dito que dois por cento do clero eram pedófilos — incluindo ‘bispos e cardeais’. The Independent correu com a manchete: ‘Papa Francisco: ‹‹ um em 50 ›› padres, bispos e cardeais católicos é pedófilo’.

O que me fascina é a reação da Sala de Imprensa do Vaticano, que mergulhou totalmente no modo “Não entre em pânico”. Pe. Federico Lombardi, o desafortunado porta-voz, observou que o entrevistador de La Repubblica, Eugenio Scalfari, (a) não usou um gravador, (b) não tomou notas, mas confiou em sua memória e (c) tem 90 anos de idade.

O que é tudo a verdade. Mas também é verdade que no último mês de setembro, Francisco deu uma primeira entrevista a Scalfari — um ateu, diga-se de passagem –, nas mesmíssimas condições. O que produziu manchetes sensacionalistas: Francisco supostamente chamou a corte do Vaticano de ‘a lepra do papado’, e o pobre Lombardi teve que correr dizendo, espere aí!, não havia notas, Scalfari é velho, etc.

Então, por que Francisco recorreu de novo a Scalfari? Eu estimo que a impossibilidade de se checar as citações lhe cai bem. Ele pode expressar suas opiniões de que o Vaticano está se arrastando com bajuladores de duas caras e que os pervertidos sexuais são tão numerosos no clero a ponto de alcançar o nível de um cardeal — embora reserve para si espaço de manobra ao permitir a possibilidade de que foi citado erroneamente. Ele é um jesuíta, no fim das contas. Assim como Lombardi, mas é óbvio quem está sendo mais jesuítico aqui.

O pano de fundo para isso é a guerra do Papa ao Vaticano. Eu acho que ele odeia aquele lugar. E é interessante que ele tenha colocado enorme poder nas mãos do Cardeal George Pell, que também é cheio de desprezo pelos gananciosos carreiristas de lá. Minha aposta é que as reformas, quando vierem, serão brutais.

20 maio, 2014

Atingido e afundado. A destituição de um bispo argentino anti-Bergoglio.

Por Sandro Magister | Tradução: Fratres in Unum.com – Segunda-feira, 19 maio, na mesma manhã do dia da abertura da assembleia plenária da Conferência Episcopal Italiana, iniciada no período da tarde por um discurso do papa em pessoa, um breve comunicado deu a notícia da destituição de um arcebispo do primeiro escalão na pátria de Jorge Mario Bergoglio:

“O Santo Padre Francisco nomeou membro da Congregação para a Doutrina da Fé, na comissão a ser erigida para exame de recursos de clérigos [condenados] por ‘delicta graviora’, Dom José Luis Mollaghan, até agora arcebispo de Rosario (Argentina)”.

Rosario é uma diocese de dois milhões de habitantes e Mollaghan, 68 anos, não era, certamente, um personagem em final de carreira.

Mas sua saída abrupta da Argentina, sua convocação a Roma sob controle imediato do papa e, especialmente, seu confinamento em um fantasmático escritoriozinho curial que ainda nem existe, mas que está apenas “sendo erigido”, tudo diz que o golpe é daqueles definitivos.

Para compreender o porquê dessa decisão punitiva tomada pelo Papa Francisco contra um dos mais importantes bispos argentinos, é útil consultar a mais precisa e confiável biografia do atual papa: “Francesco, vita e rivoluzione”, escrita pela jornalista argentina Elizabeth Piqué e publicada na Itália por Lindau.

No capítulo em que analisa os adversários do então cardeal Bergoglio na Igreja argentina, Mollaghan está entre os mais ávidos, juntamente com o arcebispo de La Plata, Héctor Aguer, e o núncio apostólico, Adriano Bernardini. Eles acusavam Bergoglio de não defender a verdadeira doutrina, de fazer gestos pastoral demasiado ousados, de ser suave para com o governo.

Em Roma, seus pontos de apoio foram o cardeal Leonardo Sandri e Angelo Sodano, este último amigo do ex-embaixador argentino junto à Santa Sé, Esteban “Cacho” Caselli, personagem muito controverso, ainda registrado no Anuário Pontifício como Cavaleiro de Sua Santidade.

Escreveu Elizabeth Piqué:

“É neste contexto que, entre o final de 2005 e início de 2006, o ataque contra Bergolgio, que acompanhei de perto como correspondente do jornal ‘La Nación’, chega a um momento culminante: Bernardini e seus amigos da cúria intervieram diretamente na nomeação de vários bispos de perfil conservador. Entre eles, o arcebispo de Rosario, José Luis Mollaghan, e o de Resistencia, Fabriciano Sigampa. As nomeações suscitaram grande desconforto no episcopado argentino.

“Nem Mollaghan nem Sigampa foram propostos na sondagem preliminar feita pelos bispos argentinos: foram impostos seguindo as orientações da Secretaria de Estado na terna [ndr: lista com três nomes] apresentada ao papa por Bernardini. A intervenção, segundo várias fontes, está relacionada com a velha amizade entre Sodano e Caselli. Mesmo quando deixa de ser embaixador, Caselli mantém uma relação direta com Monsenhor Maurizio Bravi, funcionário da Segunda Seção da Secretaria de Estado, que trata principalmente na Argentina e que, por sua vez, tem uma relação estreita com o cardeal Sandri, que também é argentino, então número três da estrutura do Vaticano como substituto da Secretaria de Estado do Vaticano”.

Dos três bispos argentinos mencionados acima, Sigampa está aposentado há dois anos e vimos o que aconteceu com Mollaghan. Permanece em seu posto o de La Plata, Aguer. Mas seu destino está selado.