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19 janeiro, 2015

Eis o que seria necessário saber do Cardeal Pell.

O ex-presidente do Banco do Vaticano conta a sua versão pela primeira vez.

Por Ettore Gotti Tedeschi – The Catholic Herald | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: Com todo respeito e devoção, gostaria de fazer uma pergunta à Sua Eminência Reverendíssima Cardeal George Pell, o qual, como prefeito da Secretaria de Economia, está  gerenciando a reforma das finanças da Santa Sé.

Ettore Gotti Tedeschi, ex Presidente do Banco do Vaticano de 2009 a 2012 (AP)

Sua Eminência, tem certeza de ter sido suficientemente informado sobre a história recente do Banco do Vaticano, do qual eu fui presidente entre 2009 e 2012, quando me demitiram?

Em um artigo nesta revista, no mês passado, o Cardeal Pell explicou porque ele acredita que as finanças da Santa Sé estão em bom estado e que agora finalmente tudo está sob controle. Ele também explica, entre outras coisas, que a situação financeira do Vaticano é muito mais saudável do que se imagina, uma vez que reapareceram as centenas de milhões de euros que antes haviam sumido dos balanços oficiais do Vaticano.

O artigo do Cardeal certamente terá tranquilizado os fiéis que fazem sacrifícios consideráveis para manter a Igreja, e também terá dado alívio a muitas organizações religiosas que contam com esses recursos para fazer face às despesas. No entanto, o artigo parece não ter acalmado o porta-voz da Sala de Imprensa do Vaticano, que “corrigiu” o cardeal Pell, ao invés de pedir-lhe diretamente que esclarecesse, explicando que os fundos que foram deixados fora dos balanços oficiais não são fundos “ilegais, ilícitos ou mal administrados”.

O Cardeal citou-me explicitamente no artigo, ressaltando que os últimos anos do Pontificado de Bento XVI foram muito turbulentos para o Instituto para as Obras de Religião (IOR), conhecido popularmente como Banco do Vaticano. “O presidente do banco, Ettore Gotti Tedeschi, foi destituído pelo Conselho Laico”, escreveu Pell, “e uma luta pelo poder no Vaticano levou ao vazamento de informações”. Esta declaração deixa a entender que foi o Conselho Laico que pediu a minha cabeça e que até eu estaria envolvido nessa “luta pelo poder”. Se isso fosse mesmo verdade, por que então não foi convocado imediatamente uma comissão de inquérito?

Por isso, gostaria de sugerir algumas reflexões que espero que sejam úteis para o Cardeal, bem como para toda a Igreja, muito embora a cada dia que passa, mais tenho a impressão de que estão fazendo de tudo para que se esqueça esses fatos “ocorridos”, mas que para mim são parte importante da minha vida. Uma vida que foi tragicamente mudada por esses mesmos fatos. Eu mantive o silêncio por dois anos e meio desde a minha remoção, mas creio que agora é chegada a hora de colocar algumas coisas (só algumas) em claro.

O Cardeal Pell tem toda a razão ao dizer que a Santa Sé tem como principal desejo respeitar os padrões internacionais de transparência financeira. E isto é exatamente o que Bento XVI tinha decidido fazer quando lançou a grande reforma das finanças do Vaticano.

Estes novos padrões são tão importantes que eu mesmo os estabeleci em um documento intitulado “Os Pactos Lateranenses do século XXI”. Eles visavam fazer com que a Santa Sé se enquadrasse num contexto de transparência de acordo com as normas financeiras internacionais, as quais nenhuma organização pode mais ignorar, principalmente depois dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, nem mesmo citando razões de alegada confidencialidade ou “sigilo”.

Foi o próprio Bento XVI que me pediu para que atingisse essa meta de modo “exemplar”, a fim de assegurar a credibilidade da Igreja como autoridade moral universal. Por isso, procedemos com este processo, juntamente com o Cardeal Attilio Nicora, presidente da Administração do Patrimônio da Sé Apostólica e com os maiores especialistas tanto internos como externos ao Vaticano.

O Cardeal Pell em seu artigo mencionou o famoso sequestro dos 23 milhões de euros do Banco do Vaticano feito pelo Banco da Itália. Ele disse que o dinheiro foi congelado porque “as autoridades que supervisionaram o Banco do Vaticano não agiram de modo suficientemente rápido” na aplicação das leis internacionais contra a lavagem de dinheiro.

O sequestro dos fundos ocorreu quando eu mal acabava de ser nomeado Presidente do Banco do Vaticano e tão logo eu havia começado a implementar as reformas ordenadas pelo Papa Bento XVI. Antes da minha nomeação, o nível de transparência do banco era considerado por todos como insuficiente.

O sequestro dos  23 milhões de euros e a sucessiva investigação posterior por parte do Ministério Público de Roma foram resultado da falta de uma lei contra lavagem de dinheiro, falta de procedimentos adequados e de uma autoridade dedicada que supervisionasse todas as questões ligadas à transparência financeira. Estas garantias são exigidas de todos os bancos que operam nos países que querem ser incluídos na chamada “lista branca” – ou seja, os países comprometidos a combater o terrorismo e lavagem de dinheiro sujo.

Com a aprovação explícita do Secretário de Estado e Presidente da Comissão de Cardeais, o Cardeal Bertone, decidiram que eu, juntamente com o Diretor do Instituto, fôssemos interrogados pelo Ministério Público de Roma. Era uma coisa incomum para um funcionário do Vaticano, mas estávamos determinados a mostrar que a partir daquele momento não queríamos ter nada a esconder e que não queríamos esconder nada. Papa Bento XVI havia pedido uma transparência total.

O dinheiro sequestrado foi então colocado à disposição do Instituto – contanto que se providenciasse para que as regras relativas à transferência de fundos fossem obedecidas — graças à competência e credibilidade de minha advogada, Professora Paola Severino, que mais tarde tornou-se ministra da Justiça. Ela foi capaz de convencer o Ministério Público a respeito da determinação da Santa Sé em atingir as três metas tangíveis até ao final de 2010: a aprovação de uma lei contra a lavagem de dinheiro, a introdução de procedimentos internos no Banco do Vaticano (e das outras instituições interessadas da Santa Sé) e a criação de um órgão de supervisão geral, a Autoridade de Informação Financeira Vaticana (AIF). Em 31 de dezembro de 2010, Bento XVI assinou o Motu Proprio com o qual ratificou a lei contra lavagem de dinheiro, constituiu a Autoridade de Informação Financeira Vaticana e nomeou o Cardeal Nicora como seu Presidente.

O Cardeal Pell não pode imaginar quanto esforço, quantos conflitos e com quantas dificuldades nos deparamos quando em 2011 começamos a implementar a lei contra lavagem de dinheiro e a AIF começou a operar. Esses esforços foram reconhecidos quando os curadores da MONEYVAL, o órgão de monitoração do Conselho da Europa, fez a primeira visita de avaliação em novembro de 2011 e os resultados foram muito positivos. Os próprios encarregados da MONEYVAL expressaram surpresa com o nosso empenho e a nossa eficiência.

Eu suspeito que o cardeal Pell também não tenha conhecimento do que aconteceu imediatamente depois. Em dezembro de 2011, logo após a visita bem sucedida da Moneyval, foi feito com uma pressa surpreendente o esboço de uma nova lei que iria modificar tanto a lei contra lavagem de dinheiro como o papel da AIF.

Eu fui informado dessas alterações apenas em janeiro de 2012 pelo presidente da AIF, e mesmo assim só depois que o esboço da lei tinha sido feito. Em suma, o ponto chave dessas mudanças, além de alguns itens modificados, foi que AIF deixou de ser um órgão independente para terminar sob a supervisão da Secretaria de Estado, confundindo assim o papel do controlado com o do controlador. Isso colocou tanto o cardeal Nicora, como eu e todo o Conselho da AIF numa situação muito difícil. O Presidente da AIF, então, escreveu um memorando manifestando discordância e desconcerto ao Cardeal Bertone, memorando esse que depois acabou misteriosamente sendo publicado por um dos principais jornais italianos.

O sistema bancário internacional ficou muito intrigado com a repentina aplicação da nova lei que impedia a troca necessária de informações e a considerou como uma mudança de rota no que diz respeito ao caminho de transparência previamente combinado e aos resultados tangíveis prometidos. Como resultado, a Moneyval fez uma segunda visita no início de 2012 e expressou fortes dúvidas com relação à situação — especialmente com relação à perda de independência da AIF.

MONEYVAL então escreveu um segundo pré-relatório, de 27 de abril de 2012, em que destacava que de fato tinha sido feito um “passo atrás”. Será que o Cardeal Pell foi devidamente informado desses eventos? Como resultado na mudança da lei, o sistema bancário internacional foi obrigado a interromper todas suas transações com o Banco do Vaticano. Dois dos principais bancos italianos fizeram com que chegasse diretamente às minhas mãos e por escrito as suas preocupações. O Cardeal Pell, por acaso, teve acesso a essas explicações documentadas? Ou, se já tiver sido informado, considera que estas informações são irrelevantes?

Quando então o Presidente da AIF pediu ao Secretário de Estado para que suspendesse a ratificação das alterações, que eram consideradas pela AIF como lesivas e arriscadas, foi feito exatamente o contrário: tais mudanças foram imediatamente ratificadas pela Secretaria de Estado, quase um mês antes do prazo de expiração formal que era de três meses. Não é curiosa essa velocidade?

Gostaria ainda de esclarecer, para que seja de utilidade para o Cardeal Pell, a relação que existe entre o Banco do Vaticano e o chamado escândalo Vatileaks, em que o mordomo do Papa, como foi provado, vazou documentos sensíveis fora dos muros do Vaticano. Os jornais italianos publicaram um documento interno do Banco do Vaticano (sobre a relação entre a AIF e IOR) e o referido documento escrito pelo cardeal Nicora endereçado ao Secretário de Estado.

A fim de minar a minha credibilidade, acusaram-me de ser o “corvo” e de ter sido eu a vazar os documentos. Ora, isso obviamente é falso, e por isso eu pedi uma investigação imediata. Nada aconteceu. Posteriormente, foi provado que os documentos tinham sido divulgados pelo mordomo do Papa.

Depois disso, deram nove razões enganosas para minha posterior remoção. Entre elas, fui acusado de não ter cumprido o meu dever, de não ter informado o Conselho do IOR e de ter tido um mau relacionamento com a gerência. Uma das razões se referia também ao vazamento de documentos, embora tenha sido, em seguida, provado que tinha sido responsabilidade de outra pessoa.

O Cardeal Pell, provavelmente, também precisa ser informados sobre o que eu considero como um motivo que pode explicar, em parte, a decisão do Conselho do IOR de me demitir.

Em abril de 2012, a Comissão de Cardeais reconfirmou a minha nomeação, mas no dia 24 de maio, o Conselho me demitiu. Nunca me deram a oportunidade de explicar isso, mas eu acho que a razão para este gesto foi uma decisão minha (informada com antecedência às autoridades competentes) de apresentar ao Conselho uma proposta que teria mudado completamente o governo do Banco. Esta mudança era absolutamente necessária devido aos eventos anteriores.

No entanto, o cardeal Pell pode não saber que a Comissão de Cardeais não ratificou o voto de censura contra mim por parte do Conselho do IOR. Alguns cardeais, de fato, apoiavam-me nos meus esforços e pelo meu profissionalismo e recusaram-se a aprovar uma decisão desse tipo.

Talvez nem mesmo se sabe que jamais tive permissão para responder pessoalmente às nove razões do voto de desconfiança, apesar dos inúmeros pedidos da minha parte e não obstante uma nota escrita de próprio punho a esse respeito e que nunca foi considerada.

O Cardeal Pell é conhecido por sua competência, por sua coragem e por sua honestidade intelectual e moral. Eis porque eu tenho certeza de que ele jamais teve acesso aos documentos e às explicações que são essenciais para compreender os eventos que sucederam antes mesmo que ele fosse nomeado para Roma.

Entre esses documentos, eu sublinho, em particular, três:

• O pré-relatório da MONEYVAL de abril de 2012, comparando-o com o Relatório de 4 de Julho (ver acima);

• Vários relatórios da Deloitte de 2011, relativos aos obstáculos à implementação dos novos procedimentos;

• O relatório sobre as razões de encerramento da conta do JP Morgan (Março de 2012).

Se o cardeal Pell pudesse ler esses documentos, iria entender qual a responsabilidade que pesou sobre os meus ombros durante esse período. Se pudesse ler a minha nota em resposta às nove razões para o voto de desconfiança, poderia compreender a verdadeira natureza do meu sofrimento.Sofrimento que só cresceu nos últimos tempos, devido à indiferença para com a minha súplica pela busca da verdade.

Gostaria de incentivar Sua Eminência a ler a entrevista do secretário do Papa, Arcebispo Georg Gänswein, publicado no  “Il Messaggero” em outubro de 2013, em que ele diz que Bento XVI ficou “muito surpreso” com o voto de desconfiança, e que mantinha em “alta estima” a minha pessoa. Deveria também tomar conhecimento do que o Secretário de Estado me transmitiu pessoalmente da parte de Bento XVI, no dia 07 de fevereiro de 2013: o Papa havia decidido imediatamente me reabilitar — uma decisão que jamais foi implementada após a renúncia de Bento XVI. Queria que Sua Eminência soubesse também o quanto eu sinto falta do Papa Bento XVI…

Por fim, acredito que o cardeal Pell deveria desvendar também esses quatro mistérios, embora eu tenha certeza de que é tarde demais, pelo menos para mim:

1) Quem mudou a lei contra lavagem de dinheiro do Vaticano, em Dezembro de 2011, e por quê?

2) Quem realmente decidiu que eu tinha que ser removido pelo Conselho Laico como presidente do Banco do Vaticano no dia 24 de maio de 2012, e por quê?

3) Quem foi que desobedeceu Bento XVI, o qual queria a minha reabilitação?

4) Quem decidiu que meus pedidos e súplicas para que eu fosse interrogado sobre os fatos acima deveriam ser ignorados? Quem não quer que venha a público a minha versão da verdade, e por quê?

Ettore Gotti Tedeschi, ex-presidente do Banco do Vaticano 2009-2012

Esta é uma versão estendida do artigo de Gotti Tedeschi, traduzida em italiano e aprovada pelo Autor.
8 janeiro, 2015

Os novos cardeais. Tudo como manda Francisco, e só ele.

IHU – Já se sabia da imprevisibilidade do Papa Francisco. Mas a lista dos novos cardeais aos quais ele dará a púrpura no consistório do próximo 14 de fevereiro esmigalhou qualquer previsão.

A nota é de Sandro Magister, publicada no seu blog Settimo Cielo, 04-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Aqueles que têm menos de 80 anos e, portanto, têm o direito de votar no conclave serão 15. E o papa os anunciou nesta ordem:

  • Dominique Mamberti, prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica
  • Manuel José Macário do Nascimento Clemente, patriarca de Lisboa (Portugal)
  • Berhaneyesus Demerew Souraphiel, lazarista, arcebispo de Addis Abeba (Etiópia)
  • John Atcherley Dew, arcebispo de Wellington (Nova Zelândia)
  • Edoardo Menichelli, arcebispo de Ancona-Osimo (Itália)
  • Pierre Nguyên Văn Nhon, arcebispo de Hanói (Vietnã)
  • Alberto Suarez Inda, arcebispo de Morelia (México)
  • Charles Maung Bo, salesiano, arcebispo de Yangon (Myanmar)
  • Francis Xavier Kriengsak Kovithavanij, arcebispo de Bangkok (Tailândia)
  • Francesco Montenegro, arcebispo de Agrigento (Itália)
  • Daniel Fernando Sturla Berhouet, salesiano, arcebispo de Montevidéu (Uruguai)
  • Ricardo Blázquez Pérez, arcebispo de Valladolid (Espanha)
  • José Luis Lacunza Maestrojuán, agostiniano, bispo de David (Panamá)
  • Arlindo Gomes Furtado, bispo de Santiago de Cabo Verde (Cabo Verde)
  • Soane Patita Paini Mafi, bispo de Tonga (Ilhas Tonga)

Depois dessas nomeações, os cardeais eleitores aumentarão, assim, para 125, cinco a mais do que os 120 regulamentares. Mas, em março e em abril, completarão 80 anos os cardeais Antonio Naguib e Justin F. Rigali; em setembro, os cardeais Velasio De Paolis e Santos Abril y Castelló; e, em fevereiro de 2016, o cardeal Roger M. Mahony, levando em um ano o número dos eleitores novamente para dentro do limite estabelecido (que o papa pode também revogar, como fez João Paulo II de forma maciça).

Além disso, Francisco anunciou que vai dar a púrpura a cinco cardeais com mais de 80 anos, que, na sua opinião, “se distinguiram no serviço à Santa Sé e à Igreja”. Na ordem:

  • José de Jesús Pimiento Rodríguez, arcebispo emérito de Manizales (Colômbia)
  • Luigi De Magistris, pro-penitenciário emérito (Itália)
  • Karl-Joseph Rauber, ex-núncio apostólico (Alemanha)
  • Luis Héctor Villalba, arcebispo emérito de Tucumán (Argentina)
  • Júlio Duarte Langa, bispo emérito de Xai-Xai (Moçambique)

Destes, o primeiro, o colombiano Pimiento Rodríguez, 96 anos, foi nomeado bispo ainda por Pio XII, em 1955, e é um dos oito bispos “pacellianos” ainda vivos, enquanto para os outros dois novos cardeais a concessão da púrpura tem o aspecto de um ato reparatório, pelos seus atritos com outros dois papas.

De Magistris, 88 anos, foi o único curial de destaque que se pronunciou contra a beatificação de José Maria Escrivá de Balaguer, o fundador do Opus Dei. E criticou em várias ocasiões as cerimônias de João Paulo II e o seu diretor,Piero Marini, em particular pelas danças exóticas introduzidas no centro da missa. Inimizou-se a tal ponto com o establishment wojtyliano que foi punido com privação do barrete cardinalício que lhe caberia como penitenciário maior, entre 2001 e 2003, único caso na história desse dicastério.

De Rauber, 81 anos, lembram-se, ao contrário, os confrontos com Bento XVI, o último em 2009, quando era núncio naBélgica. Para a sucessão do progressista Godfried Danneels como arcebispo de Bruxelas, Rauber havia enviado aRoma uma terna na qual não figurava o conservador André Léonard, na sua opinião “não adaptado”. Mas Bento XVIse obstinou e nomeou justamente Léonard.

Tendo-se retirado para a vida privada, Rauber esvaziou o saco, ponto em público este e outros confrontos seus comJoseph Ratzinger em uma entrevista contundente à revista Il Regno. E agora o Papa Francisco o faz cardeal, deixando à espera pela segunda vez consecutiva o muito mais bem titulado Léonard.

Com esta nova fornada, os cardeais eleitores criados pelo Papa Francisco sobem para 31, apenas três a menos do que os 34 nomeados por João Paulo II e não muito longe dos 60 que receberam a púrpura de Bento XVI.

Enquanto isso, porém, com o atual papa, os critérios de escolha mudaram. Enquanto os antecessores se atinham a regras consolidadas, por exemplo dando o barrete aos titulares de dioceses ou de cargos curiais tradicionalmente cardinalícios, Francisco não se deixa condicionar por isso e escolhe com a sua cabeça, com o resultado de inserir noColégio Cardinalício um bom número dos seus favoritos, remodelando-o à sua imagem e semelhança mais do que como ocorria no passado.

O abandono das regras tradicionais faz com que Francisco amplie em muito também o número dos possíveis candidatos. Na Itália, por exemplo, em vez dos titulares das únicas duas dioceses cardinalícias atualmente sem púrpura, Turim e Veneza, Francisco escolheu em plena liberdade entre os mais de 200 bispos residenciais, pescando, no fim, os inesperados Menichelli e Montenegro.

O primeiro, ex-secretário por muitos anos do cardeal Achille Silvestrini. O segundo, com jurisdição sobre a ilha deLampedusa, meta da primeira e simbólica viagem de Francisco fora de Roma.

No conjunto, entre as novas nomeações feitas por Francisco, apenas duas aparecem em linha com a tradição: a do patriarca de Lisboa e a de Mamberti, que tomou o lugar do deposto cardeal Raymond L. Burke à frente do supremo tribunal da Signatura Apostólica.

Mas a de Mamberti foi a única nomeação feita na Cúria. Permanece assim sem púrpura, ao contrário de uma prática plurissecular, também o arquivista e bibliotecário da Santa Romana Igreja. O atual titular, o dominicano francês Jean-Louis Brugués, quando estava na Congregação para a Educação Católica, tinha se oposto tenazmente à nomeação como reitor da Universidade Católica de Buenos Aires de Víctor Manuel Fernández, pupilo e ghostwriter de Jorge Mario Bergoglio, que, mesmo assim, o impôs e, depois, fê-lo arcebispo assim que se tornou papa.

Com Mamberti, os cardeais da Cúria eleitores aumentam em uma unidade, mas diminuem de peso. Enquanto agora são 33 de 110, ou 30%, depois do consistório de 14 de fevereiro, serão 34 de 125, ou 27%.

Na Espanha, a escolha recaiu sobre o arcebispo Valladolid, outra diocese não cardinalícia. É verdade que Blázquez Pérez é o presidente da conferência dos bispos espanhóis, mas, para o papa, isso não interessa. No Panamá, noUruguai, na Tailândia, em Myanmar, Francisco preferiu dar a púrpura a “cadetes”, em vez do que aos detentores da presidência do episcopado.

A maioria das novas nomeações estão no Sul do mundo. Dois na África: Etiópia e Cabo Verde. Três na Ásia: Vietnã,Mianmar e Tailândia. Três na América Latina: México, Uruguai e Panamá. Duas na Oceania: Nova Zelândia e IlhasTonga. Três desses países terão um cardeal pela primeira vez na história: Cabo Verde, Myanmar e Tonga. O bispo deTonga, 53 anos, também será o mais jovem do Sacro Colégio, seguido de perto pelo de Montevidéu, de 55 anos.

No México, o escolhido para ser criado cardeal, Alberto Suárez Inda, da arquidiocese de Morelia, no ensanguentado Estado de Michoacán, é também o primeiro bispo mexicano que celebrou solenemente a missa no rito antigo na sua catedral, depois da publicação em 2007 do motu proprio de Bento XVI Summorum pontificum: ele o fez na véspera de Natal de 2013, dando também a Crisma a duas jovens tradicionalistas.

Entre os novos cardeais, faltam os jesuítas. Há um lazarista, o etíope Demerew Souraphiel, um agostiniano, o espanhol-panamenho Lacunza Maestrojuán. e dois salesianos, os arcebispos de Yangon e de Montevidéu, que reforçam a posição de liderança dos filhos de São João Bosco no colégio dos eleitores: 5 de 125.

Como aos membros de movimentos eclesiais, o arcebispo de Bangkok também é o presidente dos bispos “amigos dos focolarinos”, entre os quais já se incluem os cardeais João Braz de Aviz e Ennio Antonelli, enquanto o arcebispo deValladolid é próximo dos neocatecumenais, assim como o cardeal Fernando Filoni.

Seis dos 15 novos cardeais eleitores – os de Lisboa, Wellington, Ancona, Addis Ababa, Valladolid, Tonga – participaram em outubro passado do Sínodo Extraordinário sobre a família; o de Ancona por chamado direto do papa.

E dois deles, o neozelandês Dew e o italiano Menichelli, se alinharam em defesa da comunhão para os divorciados em segunda união e do reconhecimento das uniões homossexuais.

Escolhendo Dew como novo cardeal dessa região geográfica, em vez do arcebispo de Sydney, Anthony Colin Fisher, sucessor do cardeal George Pell e, como ele, intransigente defensor da indissolubilidade do matrimônio, o Papa Francisco fez com que vazasse mais uma vez em que direção vão as suas simpatias na pastoral da família.

7 janeiro, 2015

Os novos cardeais de Francisco.

Rádio Vaticano, 4 de janeiro de 2015 – O Papa Francisco anunciou hoje a nomeação de vinte novos cardeais, dos quais 15 eleitores. Os novos cardeais serão criados a 14 de Fevereiro próximo; 15 de entres eles são eleitores e “manifestam – explicou o Papa – a inseparável ligação entre a Igreja de Roma e as Igrejas particulares presentes no mundo”. Cinco, recebem o título emérito e não são, portanto, eleitores, mas nomeados pelo Pontífice porque se distinguiram pela sua caridade pastoral ao serviço da Santa Sé e da Igreja.

*

Os 15 novos cardeais eleitores, anunciados pelo Papa são: D. Domenique Mamberti, arcebispo titular de Sagona, Prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica; D. Manuel José Macário do Nascimento Clemente (Patriarca de Lisboa); D. Berhaneyesus Demerew Souraphiel, C.M., arcebispo de Adis Abeba (Etiópia); D. John Atcherley Dwe, arcebispo de Wellington (Nova Zelândia); D. Edoardo Menichelli, arcebispo de Ancona (Itália); D. Pierre Nguyên Vã Nhon, arcebispo de Há Nói (Vietnam); D. Alberto Suarez Inda, arcebispo de Morelia (México); D. Charles Maung Bo S.D.B., arcebispo de Yaongon (Myanmar); D. Francis Xavier Kriengsak Kovithavanij, arcebispo de Bankok (Tailândia); D. Francesco Montenegro, arcebispo de Montevideo (Uruguay); D. Ricardo Blázquez Pérez, arcebispo de Vallodolid (Espanha); D. José Luiz Lacunza Maestrojuán, O.A.R., bispo de David (Panamá); D. Arlindo Gomes Furtado; bispo de Santiago de Cabo Verde, (Arquipélago de Cabo Verde); D. Soane Patita Pain Mafi, bispo de Tonga (Ilhas Tonga).

A estes 15 cardeais eleitores, o Papa acrescentará 5 arcebispos e bispos eméritos que – disse – “se distinguiram pela sua caridade pastoral ao serviço da Santa Sé e da Igreja”. Trata-se de D. José de Jesus Pimiento Rodriguez, arcebispo emérito de Manizales, na Colômbia; D. Luigi De Magistris, arcebispo titular de Nova, pro-penitenciário maior emérito: D. Karl-Joseph Rauber, arcebispo titular de Giubaliziana, Núncio Apostólico; D. Luis Hector Villalba, arcebispo emérito de Tucumán, na Argentina; D. Júlio Duarte Langa, bispo emérito de Xai-Xai, em Moçambique.

“Eles representam muitos bispos que, com a mesma solicitude de pastores, deram testemunho de amor em Cristo e ao Povo de Deus tanto nas Igrejas particulares, como na Cúria Romana e no Serviço Diplomático da Santa Sé” – disse o Papa.

Os novos cardeais concelebram com o Papa uma Missa solene, domingo 15 de Fevereiro, enquanto que nos dias 12 e 13 – acrescentou o Papa – todos os cardeais se reunirão em Consistório “para reflectir sobre as orientações e as propostas de reforma da Cúria”.

Por fim, o Papa Francisco pediu para rezarem por ele e pelos novos cardeais, a fim de que “sejamos testemunhos do Evangelho no mundo e com a sua experiência pastoral apoiem” o serviço apostólico pontifício.

É claro – explica numa nota o P. Federico Lombardi, Director da Sala de Imprensa da Santa Sé – o critério que guiou o Papa na escolha destes novos cardeais, o da universalidade: com efeito, entre eleitores e eméritos, são 14 as nações de proveniência dos eleitores, seis não tinham um cardeal ou nunca o tinham tido, como Cabo Verde, Tonga e Myanmar, ou então se trata “de comunidades eclesiais pequenas ou em situações de minoria. A Diocese de Santiago de Cabo Verde, por exemplo, “é uma das mais antigas Dioceses Africanas”, enquanto que a de Morelia, no México, encontra-se “numa região perturbada pela violência”.

Apenas um novo Cardeal da Cúria Romana (D. Domenique Mamberti), porque – continua P. Lombardi – “evidentemente o Papa considera tarefas cardinalícias os de Prefeito das Congregações e de poucas outras instituições importantíssimas da Cúria, como neste caso, o Tribunal da Signatura”. Ao mesmo tempo “confirma-se que o Papa não se considera vinculado à tradição das “sede cardinalícias”, centradas por razões históricas nalguns Países, e que fazia com que o cardinalato fosse considerado quase “automaticamente” ligado a essas sedes”.

Em relação aos eméritos, o Director da Sala de Imprensa da Santa Sé sublinha que “a nomeação cardinalícia quer ser um reconhecimento dado simbolicamente a alguns, mas reconhecendo o mérito de todos”.

Por fim o P. Federico Lombardi faculta alguns dados estatísticos: “em relação aos 120 cardeais eleitores, havia 12 lugares “livres” no Colégio Cardinalício hoje ou já nos próximos meses. O Papa ultrapassou ligeiramente esse número, mantendo-se, todavia, muito próximo dele, de forma que esse dado é essencialmente respeitado”.

O novo Cardeal mais jovem é o arcebispo de Tonga, D. Mafi, (54 anos) e que se torna assim no membro mais jovem do Colégio Cardinalício; enquanto que o mais idoso é D. Pimiento Rodriguez (96 anos), arcebispo emérito de Manizales.

26 dezembro, 2014

O “Feliz Natal” de Francisco.

Por Fratres in Unum.com: Francisco chama seus principais colaboradores para os felicitar pelo Natal e agradecer-lhes todos os trabalhos desenvolvidos durante o ano. Mas, surpresa!

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Na verdade, ele lhes preparou um discurso de dez páginas, nas quais acusou-os diante das câmeras de doentes mentais e os humilhou completamente (veja os rostos dos cardeais, no vídeo). Embora alguns estejam querendo acalmar os católicos perplexos à custa da adulteração, não podemos fugir das palavras Francisco. Ele quis falar à Cúria e sobre a Cúria: “Aqui gostaria de mencionar algumas destas prováveis doenças, doenças curiais. São doenças mais costumeiras na nossa vida de Cúria”. Ele fala de “exame de consciência”, mas aplicado aos outros, não a si mesmo. Fato é que a mídia entendeu imediatamente do que se tratava, difundiu por todo o mundo que ele estava atacando a própria Igreja e seus colaboradores imediatos, aplaudiu sua atitude despótica e sádica, e, pior, não foi desmentida pela Sala de Imprensa do Vaticano.

Abaixo, veja os comentários do Jornal Nacional e leia a íntegra do discurso de Francisco à Cúria.

2 dezembro, 2014

Qual é a verdade sobre o Cardeal Murphy-O’Connor e o “TimeBergoglio”?

Por Damian Thompson – The Spectator, 25 de novembro de 2014 | Tradução: Fabiano Rollim – Fratres in Unum.com: John Bingham, o excelente editor de assuntos religiosos de The Telegraph, há alguns dias trouxe uma história em primeira mão que só agora está sendo absorvida. Espero que ele me perdoe, mas me pergunto se teria se dado conta da importância da mesma. Assim escreveu:

Cardeal Murphy O'Connor

Cardeal Murphy O’Connor

O Cardeal Cormac Murphy-O’Connor, ex-líder da Igreja Católica na Inglaterra e País de Gales, ajudou a orquestrar a campanha por trás dos bastidores que levou à eleição do Papa Francisco, assim diz uma nova biografia… [O livro,] a ser publicado no próximo mês, revela que houve uma campanha discreta, mas altamente organizada, de um grupo de cardeais europeus em apoio ao Cardeal Bergoglio.

The Great Reformer (O Grande Reformador), do escritor católico inglês Austen Ivereigh, apelida o grupo de “TimeBergoglio” e diz que seus membros realizaram jantares particulares e outros encontros de cardeais nos dias que precederam o conclave, onde apresentaram silenciosamente sua causa. 

‘Percebendo que era a hora, os reformadores europeus que em 2005 já haviam apoiado Bergoglio abraçaram a iniciativa’, explica Ivereigh no livro, ele que já trabalhou como secretário de imprensa do Cardeal Murphy-O’Connor. 

Ele diz que o Cardeal, então com 80 anos e sem direito a voto no conclave, uniu-se ao cardeal alemão Walter Kasper, cujo pedido controverso para que divorciados recasados pudessem ser admitidos à Comunhão foi um dos principais pontos de divisão no sínodo que o Papa Francisco realizou em Roma neste ano. 

O papel do Cardeal Murphy-O’Connor incluiu a formação de um lobby com seus colegas Norte-Americanos e o estabelecimento de uma ponte com outros cardeais de língua inglesa. 

‘Eles tinham aprendido a lição de 2005’, explica Ivereigh. ‘Primeiro garantiram que Bergoglio concordaria. Perguntado se estava disposto, disse acreditar que neste tempo de crise para a Igreja nenhum cardeal poderia recusar se fosse solicitado’. 

‘Murphy-O’Connor inteligentemente alertou-o para “ser cuidadoso” e disse que era a sua vez agora, tendo recebido um “capisco” — “entendo”— como resposta. 

‘Assim partiram para o trabalho, organizando os jantares com cardeais para promoverem seu homem, argumentando que sua idade — 76 anos— não deveria mais ser considerada um obstáculo, já que papas podem renunciar. Tendo compreendido em 2005 as dinâmicas de um conclave, sabiam que votos se dirigiam àqueles que tinham uma forte presença do lado de fora’.

Todas as eleições papais são acompanhadas por tais campanhas: os amigos de Ratzinger teriam sondado discretamente apoiadores antes do conclave de 2005. Todavia, um lobby organizado do tipo que Ivereigh alega ter ocorrido é perigoso, por ser fortemente desencorajado pelas regras da Igreja. Dr. Ivereigh, como gosta de ser chamado, é amigo do Cardeal Cormac e um grande admirador do Papa Francisco. Ele também ajuda a dirigir uma ufanista companhia chamada CatholicVoices, que busca preencher o vácuo criado pelos inúteis escritórios de mídia católicos. Assim, sua ingenuidade ao recontar essa história — que pode ou não ser verdadeira — é um tanto surpreendente. O Cardeal Murphy-O’Connor respondeu ao The Telegraph com uma carta escrita por sua secretária de imprensa, Maggie Doherty, que diz:

O Cardeal Murphy-O’Connor gostaria de desfazer qualquer desentendimento que surja do livro de Austen Ivereigh sobre o Papa Francisco. Ele gostaria de deixar claro que nenhuma aproximação ao então Cardeal Bergoglio nos dias que precederam o Conclave foi feita por ele ou, até onde sabe, por qualquer outro cardeal para buscar sua concordância em se tornar um candidato ao papado.

O que ocorreu durante o Conclave, o qual não incluiu o Cardeal Murphy-O’Connor por já ter mais de 80 anos, é selado por segredo.

A carta é breve e cuidadosamente redigida, ainda que distintamente vaga (‘nos dias que precederam o Conclave’). E está sendo usada por alguns dos inimigos de Francisco, que dizem que qualquer conluio entre cardeais invalidaria sua eleição. Em minha opinião, uma bobagem. Mas um blog, ‘FromRome’, se dedicou bastante à história de The Telegraphe e cita as palavras severas de João Paulo II na Constituição Apostólica de 1996:

Os Cardeais eleitores abstenham-se, além disso, de todas as formas de pactuação, convenção, promessa, ou outros compromissos de qualquer gênero, que os possam obrigar a dar ou a negar o voto a um ou a alguns. Se isto, realmente, se tivesse verificado, mesmo que fosse sob juramento, decreto que tal compromisso é nulo e inválido e que ninguém está obrigado a observá-lo; e, desde já, imponho a pena de excomunhão lataesententiae para os transgressores desta proibição. Todavia, não é meu intento proibir que, durante o período de Sé vacante, possa haver troca de ideias acerca da eleição.

De igual modo, proíbo aos Cardeais fazerem, antes da eleição, capitulações, ou seja, tomarem compromissos de comum acordo, obrigando-se a pô-los em prática no caso de um deles vir a ser elevado ao Pontificado. Também estas promessas, se porventura fossem realmente feitas, mesmo sob juramento, declaro-as nulas e inválidas.

Não estou sugerindo que o Cardeal Murphy-O’Connor tenha violado aquela constituição. Mas poderíamos dizer que a história de Ivereigh tem tudo para gerar más interpretações.

Ainda, a história de que Murphy-O’Connor teria se “unido” ao Cardeal Kasper para garantir a eleição de Francisco será usada por católicos conservadores que ainda se perguntam por que foi permitido a uma figura tão divisora como Kasper pautar a agenda para o Sínodo sobre a Família no mês passado. Aquela agenda — que incluía a Comunhão para divorciados recasados (a causa de estimação de Kasper) e reconhecimento dos relacionamentos gays — irritou bispos conservadores africanos. Ontem, no que pareceu ser um ato de controle de danos, o Papa indicou o bastante conservador Cardeal Robert Sarah, da Guiné, para o posto de Prefeito da Congregação para o Culto Divino (leia o post do Pe. Alexander Lucie-Smith no blog Catholic Herald aqui). Agora, graças a Ivereigh, ele tem algum dano a mais para controlar.

22 novembro, 2014

Grandes mudanças à vista na Cúria.

Por Fratres in Unum.com – Segundo o vaticanista Marco Tosatti, são iminentes várias mudanças na Cúria Romana.

A começar pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, cujo nome mais cotado para o posto de Prefeito é a do Cardeal Robert Sarah, o primeiro cardeal da Guiné.

Cardeal Sarah

Cardeal Sarah

Sarah, até o momento presidente do Pontifício Conselho Cor Unum, gentilmente recebeu uma comitiva de sacerdotes participantes da peregrinação Summorum Pontificum, no mês passado.

Na segunda-feira, o Papa presidirá uma reunião com todos os chefes de dicastérios da Cúria a fim de discutir os projetos de reforma antes de tomar as decisões com seu conselho de oito cardeais.

Dá-se por certo a fusão da Congregação para a Educação Católica com o Pontifício Conselho para a Cultura. No comando do novo organismo permanecerá o Cardeal Gianfranco Ravasi e, assim, podemos esperar a continuação de suas exposições da arte moderna e as famosas edições do “Pátio dos gentios” mundo afora.

Ravasi, Vincenzo Paglia [presidente do Conselho para a Família, que, pouco antes da renúncia do Papa Bento XVI, defendeu “soluções de direito privado” para “outras convivências não familiares”. Em outras palavras, o reconhecimento jurídico das uniões homossexuais] e o todo poderoso Oscar Maradiaga foram vistos jantando juntos em uma sala reservada de um restaurante romano. Crê-se que Maradiaga seria o comandante de uma nova “super congregação”, que abarcaria o Conselho Justiça e Paz, o Conselho para os Migrantes, o Conselho Cor Unum, a Academia para a Vida e o Conselho para os Operadores Sanitários, bem como um quinto secretariado para o Direito das Mulheres.

21 novembro, 2014

Totalitarismo Vaticano.

Por Francesco Colafemmina – Fides et Forma | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: Aquilo que eu sempre tive dificuldade de tolerar no progressismo liberal dentro da Igreja é a sua arrogância totalitária. Mas, o que se vive hoje na Igreja sob a ditadura de Bergoglio e sua direção é algo bem diferente se formos comparar com o progressismo militante que apenas pretendia tomar de assalto o Papado e o Magistério. Estamos, em poucas palavras, muito além das frequentes investidas e, portanto, daquela arrogância se tornou obsoleta ao se transformar na mais pura protérvia, despotismo rancoroso e intolerância bolchevique.

Este fenômeno deveria deixar preocupados nem tanto os considerados conservadores e aquela  pequena parte minoritária que frequentemente é definida como “tradicionalistas”, mas sim aqueles ex-progressistas que pariram um monstro que agora se tornou tão incontrolável que ameaça engoli-los em primeiro lugar.

O progressismo católico tomou como presas uma grande maioria de homens da Igreja que, em boa fé, estavam certos de que um maior envolvimento da Igreja nas lutas sociais, uma simplificação dos aparelhos eclesiásticos fundamentais, um maior cuidado pastoral com as ovelhas desgarradas, favoreceriam uma redescoberta do Evangelho autêntico, privado de superestruturas humanas. Daí o fascínio por Bergoglio, considerado um defensor dessa política eclesial, uma verdadeira volta à descoberta da “autenticidade” do Cristianismo (entre outras instâncias da retaguarda, fixadas nos anos 60 e 70).

Infelizmente esses progressistas estão sendo obrigados a reconhecer agora que as suas teorias estão sendo usadas por Bergoglio e seu entorno com um cinismo estratégico ímpar para levar a Igreja justamente a um caminho oposto.

De antagonista em um mundo fundamentado nas desigualdades e na prepotência ideológica e econômica de uma elite à sua companheira de merenda. É nisso que a “nova Igreja” corre o risco de se tornar sob o desígnio dos novos “Robespierres purpurados”. Não é por acaso que as fileiras do novo totalitarismo Vaticano são constituídas principalmente por diplomatas, ou seja, por  aqueles bispos sem a menor formação pastoral e acostumados a tratar e lidar com embaixadores, chefes de estado, burocratas e funcionários, ao invés de famílias carentes, desempregados, pessoas que sofrem, moribundos e oprimidos em geral.

O projeto vai muito além do progressismo e conservadorismo, ambos pulsões internas da Igreja, e tem como único propósito transformar a Igreja em um mero instrumento de controle social a serviço das elites políticas e econômicas.

Elites essas que a Igreja deveria ser a primeira em confrontar “apertis verbis”. Em um mundo ocidental, cada vez mais aceso por tensões sociais e com um abismo crescente entre pobres e ricos, a nova Igreja deve anestesiar as massas edulcorando sua condição, exaltando a pobreza e a igualdade sem jamais denunciar ou contrapor-se às forças que as determinam, sem jamais lutar contra o desvio moral que é um produto desses poderes, oferecido às massas como meio seguro de controle e condicionamento. A Igreja, pelo contrário, deveria combater ferozmente a ideologia desumana aplicada à vida diária dos homens, deveria ser um obstáculo contra a tentativa de se mudar radicalmente a estrutura da sociedade humana, que busca transformá-la em individualismo controlado e consumista. Deveria, em suma, ser aquela perpétua testemunha do vínculo indissolúvel entre Criador e criatura que impõe a esta última os freios e ao mesmo tempo a valoriza através do reconhecimento de sua dignidade espiritual.

Mas, ao invés disso, hoje a Igreja de Bergoglio e sua direção é totalmente inclinada aos interesses das elites que condicionam o sentir e o querer das massas e que tem como alvo a realização de um projeto já identificado e descrito por Aldous Huxley em seu “Admirável Mundo Novo” de 1932. Huxley esclarecia mais tarde em “Uma volta ao mundo novo” que o papel da religião na futura configuração da ditadura dos mercados seria aquele de uma “distração social”: “Nem mesmo na Roma antiga havia algo que se assemelhasse à distração incessante que hoje oferecem os jornais e revistas, rádio, televisão e cinema. Este fluxo incessante de distrações no meu ‘Novo Mundo’ foi usado deliberadamente como um instrumento da política, para impedir as pessoas de prestar muita atenção na realidade da situação social e política que o cerca”.

Assim, para mudar o rosto da Igreja foi necessária uma revolução, uma espécie de golpe de Estado, que começou bem antes da demissão — obviamente forçada – de Ratzinger em 2013.

Isto é demonstrado pelas características do regime totalitário de Bergoglio. Primeiro de tudo, o culto de personalidade em torno deste líder revolucionário, cuidadosamente construído por debaixo da mesa, através de alguns movimentos astutos já de início (a idéia de celebrar missa todos os dias em Santa Marta, de escolher viver lá, em vez de no Palácio Apostólico, etc, etc.). Em segundo lugar, a degradação das Sedes tradicionais de poder transformando-as em meros simulacros empoeirados onde se colocam funcionários, em sua maioria desconhecidos, que apenas se destinam a facilitar as decisões do regime. Adicionado a isso vem a criação de uma direção oficial e um oficiosa. A direção oficial (composto pelo conselho dos oito) e a oficiosa (uma espécie de círculo mágico feito de amigos, ex-revolucionários frustrados, intelectuais radicais, jornalistas hipnotizados pelo querido líder). Não falta, entre outras coisas, a presença de uma espécie de polícia secreta (veja o caso de Franciscanos da Imaculada).

Uma outra característica fundamental deste regime é a ausência de referências substanciais ao passado. Assim, de um modo meio embaralhado e bem arquitetado se implementou uma passagem radical de um Papa teólogo para um Papa que fala como o vendedor de frutas no mercado local ou o aposentado no bar que transmite esportes pela TV. Latim e citações de Patrística são considerados como frescuras desnecessárias. Portanto, deve-se comentar o Evangelho reinterpretando-o dia a dia em Santa Marta, tendo em seus braços, armas em punho para disparar uma série impressionante de “pensamentos” que têm como núcleo a criminalização dos católicos (independentemente de suas posições). Os últimos passos são os mais chatos, mas não menos inesperados: os expurgos. Primeiro foi Piacenza — que tentando recuperar posições no esquema comentou positivamente certas aberturas do Sínodo — depois Canizares, agora – clamorosamente e verdadeiramente, Burke. Amanhã talvez seja até Müller.

Tudo aquilo que define Bergoglio e seus companheiros é por outro lado uma ânsia quase milenarística: a ansiedade de empreender uma mudança radical e definitiva que para eles é entendida como uma missão divina autêntica. Não é nenhuma coincidência que em um estilo totalmente semelhante a “Joaquim de Fiore” não fazem outra coisa senão mencionar o “Espírito” que estaria se movendo dessa vez sobre os homens. Eis porque todos os obstáculos devem ser removidos, porque são precisamente obstáculos, mesmo quando se referem às verdades da fé, ao Magistério e ao Evangelho (não aquele das pregações em Santa Marta). Os obstáculos estão sendo removidos, sem, no entanto, suscitar protestos ou simples perplexidade: no novo regime do Vaticano, um crime legitimamente punível é a falta de conformidade com a vontade e a missão milenarística de Bergoglio e seu diretório. Então, não há nada de errado com isso. Na verdade, é até uma ação digna. Porque ela empurra a Igreja para a frente, sim, diretamente para o abismo…

12 novembro, 2014

Os “ortodoxos” fora da Cúria e os “hereges” dentro.

Para cada cardeal ortodoxo que é misericordiosamente expulso, um padre “herege” é convocado. Roberto, Messa in Latino.

Padre D’ors, um sacerdote (um pouco demais) de fronteira

Por Lorenzo Bertocchi – La Nuova Bussola Quotidiana, de 08-11-2014 | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: Ele se define como um “escritor místico, erótico e cômico”, chama-se Pablo D’ors (neto do famoso crítico de arte espanhol Eugenio D’ors) e atualmente é sacerdote na diocese de Madrid. Recentemente, foi nomeado como conselheiro do Pontifício Conselho para a Cultura, o dicastério liderado pelo Cardeal Ravasi, aquele do “Cortile dei Gentili”. “Por que fui escolhido pelo Papa Francisco? Um mistério. – Declararou ao jornal La Repubblica – Talvez ele teria perguntado: qual é o sacerdote mais marginal em Madrid?”.

Por esta entrevista, ficamos sabendo que antes de se consagrar ao sacerdócio levou uma vida “rica de amores, leituras, viagens imprudentes” e que isso o ajudou em sua tardia vocação, amadurecida aos 27 anos. Sim, porque “conhecer o amor humano ajuda a conhecer melhor sobre o amor divino”. E quem somos nós para julgar? Ninguém, porém, sabe-se lá o que pensa aquela fileira de virgens na história da Igreja que se doaram de corpo e alma ao Senhor …

O pobre católico terra-terra agora se sente inadequado, eu admito. Sob a pressão da cultura, aquela considerada “alta”, ele se dá por conta que suas pobres convicções, aprendidas com o velho pároco de montanha, são como lixo, cultura de série B. É necessário se atualizar, deixar de ser “alternativo”, diz D’ors, e viver o Cristianismo em “diálogo” com o mundo.

Padre Pablo, autor de romances, como aquele da mulher eslovaca que vai para a cama com os maiores escritores do século XX, e de ensaios, como o bem-sucedido “Biografia do silêncio”, diz que a vida de cada um “deveria ser uma obra de arte”. Vasco Rossi, para descer ao alcance da nossa mísera cultura, talvez diria “uma vida imprudente” daquelas cheias de problemas.

E então quebremos as amarras. Os sacerdotes poderiam viver melhor com uma mulher ao lado, porque — diz o culto padre — “os tempos agora estão amadurecidos”. Mas esta é apenas uma opinião pessoal, pois “disso o Pontifício Conselho não se encarregará”. Enquanto se falará e muito de mulheres sacerdotisas. “Penso que após a próxima reunião plenária se falará dessa definição.”

Absolutamente a favor da ordenação de mulheres (“e ele não é o único”), D’ors é fiel à linha de fazer de sua vida uma obra de arte, segundo ele, “um importante critério para medir a vitalidade espiritual de uma pessoa é a sua abertura à mudança. Resistir à vida é um pecado porque a vida é um desenvolvimento contínuo. “Panta Rei”. (filosofia de Heráclito segundo o qual : “tudo flui (panta rei), nada persiste, nem permanece o mesmo”).

E nós que tínhamos pensado em construir a vida sobre a rocha sólida, damo-nos conta que, pelo contrário, é sobre a areia que podemos viver uma autêntica vitalidade espiritual. Bem, que venha a chuva, que transbordem os rios e soprem os ventos, deixemo-nos levar pelo turbilhão da vida. Esta é a nova ascese? De fato, temos que nos atualizar.

E para fazê-lo, deveríamos assistir a um curso administrado durante anos pelo novo consultor do Dicastério do Vaticano: “Caçadores da montanha.” Seminário de formação espiritual para o qual não se exige nenhum vínculo ou confissão religiosa ou espiritual, ainda que o trabalho seja desenvolvido “principalmente” a partir da tradição cristã e “secundariamente” a partir do zen-budismo. Pois, por outro lado, D’ors já revelou em outra entrevista, que “se eu não fosse um cristão, eu seria um budista.”

Subindo sobre essa montanha, talvez o pobre católico terra-terra consiga aprender que a melhor maneira para se acompanhar uma pessoa que está morrendo é “apenas ouvi-la e basta, esquecendo de si próprio, que é a coisa mais difícil.” Isso foi o que disse D’ors ao jornal La República quando lhe perguntaram: “Como é feito o acompanhamento a uma pessoa que está morrendo?”

Outro dia eu passava lá pelas bandas da minha velha paróquia nas montanhas, o pároco que há vários anos não existe mais, porque já foi para o céu, dobrava-se em quatro para visitar os leitos dos moribundos, para levar conforto humano e sobretudo sacramental. Para se certificar de que eles poderiam salvar a alma.

Refletindo bem, eu prefiro continuar sendo um católico terra-terra. Deixo o “aggiornamento” para os Conselhos Pontifícios e espero que, pelo menos no momento do meu último suspiro, eu tenha ao meu lado um sacerdote não tão culto como esse.

4 novembro, 2014

Igreja sem rumo, diz Burke. Não a cambalhotas doutrinárias, diz Pell .

Por Chiesa et Post Concilio | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: A mídia nacional e internacional continua recorrendo às muitas declarações oficiais sobre as disputas que permaneceram em aberto no âmbito da assembléia sinodal.

O artigo publicado pelo Il Foglio ontem [aqui], fornece uma síntese que deveríamos ter em mente enquanto aguardamos os novos movimentos e desenvolvimentos subsequentes da situação.

O articulista reconhece no Cardeal Raymond Leo Burke, um dos cardeais “que apoiam e celebram” a missa no rito antiquior”, que o Papa Emérito Bento XVI, “monge em clausura”, definiu como “grande” em uma recente mensagem enviada ao delegado geral do Coetus Summorum Pontificum [aqui].

O que me dá a oportunidade para reafirmar a nossa perplexidade sobre a figura do “papa emérito” e sobre algumas de suas expressões naquela mensagem que, se formos verificar novamente, talvez poderia parecer irônica, quando fala sobre a  “paz litúrgica”, a qual infelizmente hoje corre mais risco (não podemos ignorar a história dos Franciscanos da Imaculada e o agravamento de muitas restrições, removidas algumas exceções) devido à aversão que suscitou na época em que Summorum Pontificum foi aprovado como uma exortação cheia de esperança para os mais jovens e talvez com uma autoridade significativa ao indicar nos “grandes” cardeais que apoiam e celebram o rito antigo, o katechon da situação, não só no que diz respeito à liturgia, mas também sobre alguns argumentos de peso, por ele citados no contexto dos dois documentos divulgados ao mesmo tempo: a mensagem lida na Universidade Urbaniana [aqui] e a saudação à conferência internacional “o respeito pela vida, o caminho para a paz”, promovido pela Fundação Ratzinger na Universidade Pontifícia Bolivariana de Medellín.

Perplexidade até agora não resolvida, exceto para aqueles que não percebem nenhum problema, como se estivéssemos vivendo uma situação “normal”. Na verdade, o inédito e anômalo que nos impõem provoca reações diferenciadas entre os católicos: Além da indiferença dos tíbios, há aqueles que pertencem à “torcida papista” e que não vão além da superfície; há quem sobe em palhas para defender o indefensável; quem se fecha como uma ostra para não ver; há aqueles que tomados pelo desânimo param de remar contra a corrente, há quem se cale e prefere ficar em silêncio por opção intensificando a oração e o oferecimento; e há aqueles que têm a coragem de se levantar e fazer perguntas, mesmo quando eles são incômodas e a audácia de expressá-las na esperança de que cheguem até alguém que não está irremediavelmente massificado e assim contribuir para defender a fé verdadeira.

O articulista fornece uma ampla citação das declarações do Cardeal Burke, em entrevista publicada no site Vida Nova:

“Desde que Kasper começou a divulgar sua opinião, uma parte da imprensa espalhou a idéia de que a Igreja tem intenção de mudar a sua disciplina. E isto criou sérias dificuldades pastorais. A pedra fundamental da Igreja é o matrimônio. Se não ensinamos e vivemos bem essa realidade, estamos perdidos. Deixamos de ser Igreja”. Não tem nada a ver com o Papa, assegura Burke, o qual todavia observa que “há pessoas que sofrem um pouco” de enjôo, porque lhes parece que a nave da igreja perdeu a bússola”.

Note-se que se trata da confusão “diabólica”, da qual falava o Bispo nativo da Filadélfia, Charles Chaput da Filadélfia, após a disputa teológica áspera e cerrada na sala do sínodo.

E, quanto ao Cardeal Pell, nota-se que ele escolheu voltar aos temas do Sínodo, durante a peregrinação anual que a cada mês de outubro celebra o Motu Proprio promulgado em 2007 por Joseph Ratzinger, o qual liberou o Rito Romano antiquior, instando os católicos a se organizar na batalha nas dioceses entre aqueles que querem tornar definitivas as aberturas dos inovadores e aqueles que querem bloqueá-las levados pela consciência de que o mistério divino não pertence somente à misericórdia, mas também à santidade e justiça. Algo que também foi mencionado pelo Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Ludwig Müller.

Estas são as palavras do Cardeal Pell:

“Antes do próximo outubro, os católicos devem trabalhar para construir um consenso que supere as atuais divisões… Claro que a doutrina se desenvolve, no sentido que entendemos a verdade de modo mais profundo, mas, na história católica, não existem cambalhotas doutrinárias”. Isto porque “a tradição apostólica anunciada primeiramente por Cristo e fundamentada nas Escrituras é a pedra angular da verdade e da genuína prática pastoral.”

E o Papa, em tudo isso, tem um papel fundamental. Na verdade, nos deixa perplexos o “ter que construir consenso”, porque a verdade não depende do consenso e na Igreja ela é afirmada e confirmada com autoridade. E, depois das observações descritas, aqui residem todas as incógnitas:

“O papel do sucessor de São Pedro sempre foi vital para a vida cristã e católica, principalmente porque é a pedra angular da fidelidade doutrinária e a resolução de todos os conflitos, tantos doutrinais como pastorais. A Igreja não foi fundada sobre a rocha da fé de Pedro. Mas sobre o próprio Pedro. “[Mas primeiramente sobre Cristo].

O fato de que cardeais alguns e bispos falem de modo claro é já um indício de que não estamos sozinhos na sã reafirmação dos princípios perenes. Vamos aguardar pelos próximos movimentos dos que agora parecem se engajar como lados contrapostos.

25 outubro, 2014

Depois da derrota no Sínodo, os liberais já pedem mudança no Governo da Igreja.

Começarão os expurgos mais cedo do que se imagina. Entrevista com o fundador da Comunidade de Santo Egídio e historiador do Cristianismo. “Na cabeça dos dicastérios é necessário pessoas em sintonia com Francisco”.

Por Giacomo Galeazzi – Vatican Insider | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: “Do Sínodo emergiu a necessidade de se reformar o governo central da Igreja. Na condução dos dicastérios Francisco tem que ter pessoas em sintonia com ele”. Segundo o professor Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio e historiador do Cristianismo, “é um erro interpretar as discussões sinodais baseados nas categorias de liberais e conservadores.” É necessário “uma nova hermenêutica do Sínodo.”

Onde está o erro na interpretação do Sínodo sobre a família?

“Se faz necessário começar a partir do discurso de Francisco no encerramento do Sínodo, ao se distanciar tanto de liberais como conservadores. O Pontífice não quer voltar àquele clima pós 1968, a uma polarização entre liberais e conservadores, e por isso quis reafirmar que é ele o Papa, que o Papa se chama Francisco, desfazendo a tentativa dos tradicionalistas de conectarem-se à figura do Papa Emérito Bento XVI “.

Foi o Papa que dirigiu a discussão dos Padres Sinodais sobre  os divorciados recasados e uniões de fato?

“Francisco não teve um papel de direção no Sínodo. Entre as proposições que foram derrubadas haviam até mesmo trechos do Catecismo e textos de Bento XVI. Quem votou não conduziu uma batalha tentando bloquear o desenvolvimento da  pesquisa sinodal ou intimidar, por exemplo: ‘Se você tocar nessas questões, vai ter problema’. Mas, na realidade, o que se viu rejeitada foi a própria idéia do sínodo, ou seja, o fato de que tais questões fossem abordadas no Sínodo. Mas, então, não se entende que sentido teria em convocar o Sínodo”.

O governo da Santa Sé deve ser mudado?

Sim. O atual governo de Francisco permaneceu sendo aquele de Bento XVI. E é precisamente na estrutura de seu governo que Francisco encontra a resistência mais forte às mudanças. A sua reforma da Cúria não pode limitar-se à incorporação de um dicastério (uma cópia do governo italiano). Papa Bergoglio precisa de colaboradores em sintonia com ele. Até mesmo João XXIII tinha uma cúria hostil às mudanças, por isso se concentrou na Convocação do Concílio, iniciando um processo de renovação que o ajudou a superar as dificuldades. Paulo VI, no entanto, introduziu um mandato de cinco anos para os ministros do Vaticano e desde então ninguém fica mais no cargo pela vida toda, mas por decisão do Papa”.

O que seria um exemplo de uma colaboração eficaz com o Pontífice?

“A forte intervenção do Secretário de Estado, Pietro Parolin no Consistório do Papa dedicado à dramática situação no Oriente Médio, demonstra o quão crucial é para Francisco ter as pessoas certas no lugar certo.