Posts tagged ‘Dom Fellay’

29 junho, 2015

Entrevista com D. Fellay: “Uma obra da Igreja”.

entretien_fellay_une_oeuvre_d_eglise_present_150627Fonte: La Porte Latine / Tradução: Dominus Est

Foi durante a cerimônia de bênção dos sinos da capela da escola Saint-Michel de La Martinerie, em Châteauroux, que Dom Fellay fez um balanço ao “Présent” sobre a situação da Fraternidade São Pio X, da qual ele é o Superior geral.

P: Em uma entrevista concedida ao Fideliter em 2001, vossa excelência mencionava “o movimento de profunda simpatia do jovem clero em relação à Fraternidade”. Este movimento cresceu, particularmente em razão do motu proprio de 2007?

R: Sem dúvida alguma! Esse movimento recebeu um novo fôlego com o motu proprio. Aliás, convém insistir sobre o interesse de Bento XVI pela liturgia de um modo geral. Ele realmente quis colocar à disposição dos padres e fiéis toda a liturgia tradicional, não somente a missa, o que não ocorreu até aqui por causa de numerosíssimas oposições. Contudo, a juventude, justamente porque essa liturgia se situa fora do tempo, se encontra nela. A Igreja vive na eternidade. A liturgia também, e é por isso que ela é sempre jovem. Próxima de Deus, ela não pertence ao tempo. Logo, não é de se admirar que o caráter batismal faça ressoar essa harmonia, mesmo nas almas que nunca a conheceram. Aliás, o modo como reagem os jovens padres que descobrem essa liturgia é comovente: eles têm a impressão de que lhes esconderam um tesouro.

P: Na Argentina, a Fraternidade foi reconhecida oficialmente como católica pelo Estado com a ajuda do cardeal Bergoglio, tornado em seguida o papa Francisco. Isto tem apenas uma importância administrativa ou é mais revelador?

R: Em primeiro lugar, encontramos aqui um efeito jurídico, administrativo, sem implicação sobre o estado das relações gerais da Fraternidade com, digamos para simplificar, a Igreja oficial. Todavia, o segundo efeito é difícil de ser avaliado corretamente. Não há nenhuma dúvida sobre o fato de que o papa Francisco, então cardeal Bergoglio, tinha prometido ajudar a Fraternidade a obter o reconhecimento pelo Estado argentino de nossa sociedade como católica, e de que ele manteve sua promessa. Isso força a pensar que ele nos considera sim como católicos.

P: Na mesma ordem de ideias, o senhor foi nomeado juiz de primeira instância pelo Vaticano para o processo de um padre da Fraternidade. Não podemos ver aí um sinal de benevolência?

R: Isto não é novidade, mas existe faz mais de dez anos. Trata-se efetivamente de uma marca de benevolência, e de bom senso. É o que se observa na Igreja romana através de sua história: seu realismo, capaz de superar problemas canônicos, jurídicos, para encontrar soluções para problemas bem reais.

P: Vossa excelência menciona, em vossa carta aos amigos e benfeitores, “mensagens contraditórias” que vêm de Roma. O que o senhor entende por isso?

R: Penso no modo pelo qual uma sociedade que estava a caminho de uma aproximação rumo à Tradição foi tratada – ou maltratada: os franciscanos da Imaculada. Ou nos diversos modos cujos nos tratará uma instância romana em relação a outra: a Congregação dos religiosos, por exemplo, ainda nos considera como cismáticos (em 2001, ela declarou como excomungado um padre que se juntou a nós), enquanto esse não é o caso de outras congregações, ou do próprio papa, como dissemos.

P: “Pessimista”, “fechado aos outros”, “que pensa que somente os fiéis da Fraternidade serão salvos”: às vezes o senhor é evocado assim. O que o senhor responde? O que é para o senhor o espírito missionário?

R: Não me reconheço nestes insultos. Uma firmeza na doutrina é, certamente, necessária, pois não se negocia a fé. A fé é um todo dado pelo Bom Deus e não se tem o direito de escolher entre as verdades reveladas. Recordar essas exigências hoje não é aceito, aliás, como mais ou menos sempre aconteceu. A expressão “combate da fé” faz parte da história da Igreja. Naturalmente, o missionário deverá fazer ressoar essa voz da fé externamente, buscando fortificar aqueles que já a tem. Não é possível se dirigir apenas aos fiéis da Fraternidade. A chama ilumina o mundo, a luz da fé irradia, com calor. A fé deve ser levada pela caridade: é assim que vejo o missionário.

P: Há algumas semanas, alguns seminários da Fraternidade receberam a visita de enviados do Vaticano, o cardeal Brandmüller, Dom Schneider. Essas visitas constituem um vínculo público com a “Igreja oficial. Ele não é vital?

R: O vínculo com a Igreja é vital. A manifestação dessa ligação pode variar. As datas e os locais dessas visitas foram deixadas à minha escolha, e o Vaticano propôs os nomes. Escolhi os seminários, o que parecia para mim, para os bispos, mais eloquente e representativo.

P: Quais foram as reações “ao vivo” destes bispos?

R: Eles se mostraram muito satisfeitos. “Vocês são normais”, disseram-nos eles… o que demonstra a reputação que fizeram de nós! Eles nos felicitaram pela qualidade de nossos seminaristas. Não há dúvida alguma de que eles concluíram desse primeiro contato próximo que seríamos uma obra da Igreja.

P: O senhor tem contato com alguns bispos, que vos apoiam discretamente?

R: Claro! Se se vê que hoje alguns padres se aproximam de nós, têm contato conosco, pode-se facilmente concluir com isso que deve haver quase a mesma coisa no escalão superior…

P: Na entrevista já mencionada de 2001, o senhor declarava: “Se há uma chance, uma única, de que contatos com Roma possam fazer trazer de volta um pouco mais de Tradição na Igreja, penso que devemos agarrar a oportunidade”. Essa ainda é a vossa linha?

R: Essa permanece a nossa linha, ainda que não se possa dizer que seja fácil, especialmente por causa das dissensões abertas no seio do próprio Vaticano. Estas relações são delicadas, mas este ponto de vista permanece válido e confirmado pelos fatos. Trata-se de um trabalho discreto, no meio de oposições bastante fortes. Alguns trabalham num sentido, outros no sentido contrário.

P: O papel de contrapeso da Fraternidade exatamente dentro da Igreja não é importante?

R: Este papel não é novo, Dom Lefebvre deu início a ele e o continuamos. Se vê bem isso ao se constatar a irritação dos modernistas diante dos passos dados por Bento XVI.

P: Onde está a Fraternidade hoje? Quais são seus pontes fortes, seus pontos fracos? Como o senhor vê seu futuro?

R: Vejo seu futuro serenamente. É uma obra depositada no Sagrado Coração e no Coração Imaculado de Maria, o importante é ser fiel à sua Vontade. Essa Igreja é a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, que continua sendo seu chefe e não permitirá sua destruição. As fraquezas da Fraternidade? O risco de separação, que é grave. Veja, por exemplo, a caricatura da Tradição que se intitula “Resistência”: trata-se de um espírito não católico, quase sectário, do qual não queremos, um movimento que permanece fechado em si mesmo, com pessoas que pensam que elas são as únicas boas, as únicas justas sobre a face da terra: isso não é católico. Trata-se de um perigo objetivo, mas relativo. A maior parte da Fraternidade é saudável e não quer se afundar nestas ilusões. Isso nos impele a nos apoiarmos nos meios sobrenaturais. O que o Bom Deus quer de nós, Ele no-lo mostrará, Ele falará através das circunstâncias. Os pontos fortes? A fidelidade, viva, que gera frutos e mostra ao mundo de hoje que a vida católica, com todas as suas exigências, é possível. Mas – outro ponto fraco – somos pessoas desta época, e pretender estarmos imunes contra toda a influência do mundo moderno é quimérico. Para ser mais exato, é preciso evitar o perigo de uma caricatura, de desejar ver aqui na terra a Igreja sem ruga nem mancha: não é o que o Bom Deus nos prometeu sobre esta terra. Não é o que significa “Igreja santa”, isso quer dizer que ela é capaz de santificar pelos meios dados por Nosso Senhor: os sacramentos, a fé, a disciplina, a vida religiosa, a vida de oração.

P: O que o senhor acha da proposta do cardeal Sarah de introduzir o ofertório tradicional na missa nova?

R: Esta ideia não é nova, faz uma dezena de anos que ela circula em Roma. Fico feliz de que ela seja retomada. Alguns criticam esta abordagem dizendo que seria misturar o sagrado ao profano. Pelo contrário, numa perspectiva de recuperação da Igreja, penso que isso constituiria um grandiosíssimo progresso, porque o ofertório é um resumo dos princípios católicos da missa, do sacrifício expiatório oferecido à Santíssima Trindade, dirigido a Deus em reparação dos pecados, pelo padre, acompanhado pelos fiéis. E isso reconduziria gradualmente os fiéis à missa tradicional que eles perderam.

P: Excelência, como o senhor deseja concluir?

R: Para mim, estamos na véspera de acontecimentos graves sem poder defini-los bem. Apelo à oração e quero concluir com um olhar para o Bom Deus, o que nos permite sempre manter a esperança.

Tags: ,
6 dezembro, 2013

Entrevista de Dom Bernard Fellay, superior da FSSPX, sobre o Papa Francisco.

Mons. Fellay sobre Francisco: «Este não é um homem de doutrina»

Traduzido do original francês por Carlos Wolkartt – Blog Renitência

Esta entrevista foi realizada em vídeo pelo site dici.org, no qual também está disponível a gravação em áudio. Apresentamos a seguir a transcrição completa, onde o estilo oral foi mantido.
A chegada de um novo Papa
Mons. Fellay, Superior da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, em entrevista ao portal DICI (novembro de 2013).

Mons. Fellay, Superior da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, em entrevista ao portal DICI (novembro de 2013).

A chegada de um novo Papa é como recomeçar a contar do zero. Especialmente com um Papa que se distingue de seus predecessores por sua forma de atuar, falar e intervir, com grande contraste. Isso pode fazer com que esqueçamos o pontificado anterior, e é basicamente isso que está acontecendo. Pelo menos em relação a certas linhas conservadoras ou reformistas marcadas pelo Papa Bento XVI. É certo que as primeiras intervenções do Papa causaram muita confusão e inclusive quase contradição, em todo caso, uma oposição em relação a essas linhas reformistas.

29 outubro, 2013

Cardeal Pell responde a Dom Fellay. Sobre Vaticano II: “Você não tem que aceitar todo ‘pingo’ ou ’til’ dele”.

Da entrevista concedida pelo Cardeal Pell, arcebispo de Sydney e um dos oito membro do conselho de Cardeais do Papa, a Gerard O’Connell, do La Stampa:

Cardeal George Pell.

Cardeal George Pell.

Q: Dom Fellay denunciou o Papa Francisco como “um genuíno modernista” e acusou que, enquanto a Igreja estava “um desastre” antes de sua eleição, ele está tornando-a “10.000 vezes pior”. O que o senhor diz disso?

Para responder educadamente, creio que isso seja uma absoluta besteira. Francisco afirmou ser um leal filho da Igreja, e sua história o demonstra. Ele é muito, muito preocupado com a vida do dia-a-dia do povo e com aqueles que sofrem, aqueles em dificuldades financeiras e aqueles em situações difíceis. Ele é um expoente completamente fiel dos ensinamentos de Cristo e da tradição da Igreja.

Q. Então as pessoas como Fellay têm interpretado mal o Papa Francisco? 

A. Sim, uma má interpretação gigantesca! Na realidade, os lefebvristas — muitos deles — têm interpretado mal a situação por décadas. Para grande crédito de Bento XVI, ele tentou se reconciliar com eles, mas eles não responderam. Agora, a Igreja hoje aceita o Concílio Vaticano II. Você não tem que aceitar todo “pingo” ou “til” dele, mas ele faz parte da vida da Igreja atualmente, não há meia-volta nisso.

Fonte: Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com 

25 outubro, 2013

Dom Fellay: “Damos graças a Deus por havermos sido preservados de qualquer gênero de acordo no ano passado”.

Traduzido do original francês por Carlos Wolkartt

Durante o congresso da Angelus Press, realizado nos dias 11 e 12 de outubro de 2013, Mons. Bernard Fellay, Superior Geral da Fraternidade São Pio X, deu uma conferência e um sermão dominical. Nesta ocasião, falou da situação da Igreja e do Papa Francisco. No portal Catholic Family News, John Vennari fez um resumo destas interversões sob o seguinte título: “Mons. Fellay fala do Papa Francisco: «Temos diante de nós um verdadeiro modernista!»”. Apresentamos a seguir a tradução em português desta síntese da conferência de 12 de outubro, cuja gravação integral está disponível em inglês no site DICI.

Mgr-FellayMons. Bernard Fellay alertou, em 12 de outubro: “A situação da Igreja é uma verdadeira catástrofe, e o atual Papa faz que seu estado seja dez mil vezes pior”. Declarou isto em uma alocução durante o Congresso da Angelus Press, que aconteceu nos dias 11 e 12 de outubro passado, em Kansas City.

Mons. Fellay, Superior Geral da Fraternidade São Pio X, deu uma longa conferência sábado à tarde, dedicada ao Terceiro Segredo de Fátima e à profecia que parece encontrar-se nele, relativa a um castigo material e uma grande crise na Igreja.

Nosso sumário retomará alguns dos aspectos mais importantes de sua conferência de sábado, dia 12.

Monsenhor Fellay citou detalhadamente a Irmã Lúcia, os que leram o Terceiro Segredo e os que o conheceram. Observou que Irmã Lúcia havia dito que se quiséssemos conhecer o conteúdo do Terceiro Segredo, bastava ler os capítulos 8 a 13 do Apocalipse.

15 fevereiro, 2013

“Penso, sem sombra de dúvidas, que o ato mais importante tenha sido a publicação do motu proprio Summorum Pontificum”.

Apresentamos nossa tradução da entrevista concedida por Dom Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade São Pio X, à Nouvelles de France.

Dom Fellay e Bento XVIDom Fellay é o superior da FSSPX fundada por Dom Lefebvre. Ele volta à Nouvelles de France para falar sobre as tentativas de aproximação da FSSPX com Roma, que marcaram o pontificado de Bento XVI.

Excelência, o senhor avaliaria o fato de que o último grande ato do pontificado de Bento XVI pudesse ser a reintegração da Fraternidade Sacerdotal São Pio X?

Por um breve instante, pensei que, anunciando a sua renúncia, Bento XVI realizaria um último gesto para conosco. No entanto, vejo que muito dificilmente isso seja possível. Será necessário esperar provavelmente o próximo Papa. Diria inclusive que, arriscando surpreendê-lo, que há problemas mais importantes para a Igreja do que a FSSPX e, de certo modo, ao resolvê-los, o problema da FSSPX será resolvido.

Alguns dizem que o senhor deseja que Roma reconheça o rito ordinário como ilícito. Poderia nos esclarecer este ponto?

Somos muito conscientes de que é muito difícil pedir às autoridades uma condenação da nova missa. De fato, se o que deve ser corrigido o fosse, seria um grande passo.

Como assim?

Isso pode ser realizado por uma instrução da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Afinal, não é tão complicado. Penso que há mudanças importantes a serem feitas por conta das graves e perigosas deficiências que tornam esse rito condenável. A Igreja pode efetuar muito bem essas importantes correções sem se desmoralizar ou perder a sua autoridade. Mas atualmente noto a oposição de uma parte dos bispos às legítimas demandas do Papa para que se corrija, no canon da missa, a tradução de “pro multis” para “por muitos”, e não “por todos, tradução falsa que encontramos em muitos idiomas.

Deseja tratar sobre o Concílio Vaticano II?

No que diz respeito ao Vaticano II, como na missa, nós consideramos necessário esclarecer e corrigir um certo número de pontos que são errôneos ou que conduzem ao erro. Contudo, não esperamos que Roma condene o Vaticano II em pouco tempo. Ela pode recordar a verdade, corrigir discretamente os erros, salvaguardando a sua autoridade. Sem embargo, nós pensamos que a Fraternidade acrescenta a sua pedra no edifício do Senhor denunciando certos pontos litigiosos.

Concretamente, o senhor sabe bem que suas reivindicações não serão satisfeitas de um dia para o outro.

Certamente, mas progressivamente o serão, creio eu. Chegará um momento em que a situação será aceitável e poderemos estar de acordo, mesmo que hoje não pareça ser o caso.

O senhor se encontrou com Bento XVI em seus primeiros meses de pontificado. Poderia nos dizer qual foi o seu sentimento em relação a ele neste momento?

Posso dizer que me encontrei com um Papa que tinha um desejo sincero de realizar a unidade da Igreja, mesmo que nós não tenhamos chegado a um acordo. Mas, acredite, rezo por ele todos os dias.

Para o senhor, qual foi o ato mais importante de seu pontificado?

Penso, sem sombra de dúvidas, que o ato mais importante tenha sido a publicação do motu proprio Summorum Pontificum, que concede aos sacerdotes do mundo inteiro a liberdade de celebrar a missa tradicional. Ele o fez, é necessário dizer, com coragem, pois havia oposições. Creio que este ato trará frutos muito positivos a longo prazo.

12 novembro, 2012

Em que posição nos encontramos junto a Roma?

No dia 1º de novembro de 2012, festa de Todos os Santos, Dom Bernard Fellay celebrou uma Missa no seminário de Ecône. Durante o seu sermão, após recordar o sentido espiritual desta festa, ele explicou o status das relações da Fraternidade São Pio X com Roma. – O título e subtítulos foram dados pelos editores de DICI.

Por DICI | Tradução: Fratres in Unum.com

… Por que é que existe uma Fraternidade São Pio X? Por que é que nos tornamos sacerdotes? Não é apenas pelo prazer de celebrar a Missa antiga. É para irmos para o Céu; é para salvarmos almas! Certamente, ao mesmo tempo em que preservamos os tesouros da Igreja, mas com o objetivo de salvar almas, de santificá-las arrebatando-as do pecado, conduzindo-as ao Céu, levando-as para Nosso Senhor.

Em que posição nos encontramos junto a Roma? Deixem-me explicar dois pontos. Primeiramente, um olhar no que aconteceu. Em seguida, um olhar no presente e talvez no futuro.

Primeiramente: no que aconteceu. Uma provação, talvez a maior que jamais tivemos, deveu-se a um conjunto de diversos fatores que ocorreram ao mesmo tempo e criaram um estado de confusão, de dúvida bastante profunda que deixa lesões — e das feridas mais graves, sem dúvida, aquela que nos causa uma dor enorme: a perda de um de nossos bispos. Isso não é pouca coisa! Isso não se deve somente à crise atual. Esta é uma longa história, mas ela encontra a sua conclusão aqui.

Duas mensagens contrárias de Roma

Bem, o que aconteceu? Acho que o primeiro fator é um problema que tem ocorrido há vários anos e que tenho mencionado, pelo menos, desde 2009. Eu disse que nos encontramos confrontando a contradição em Roma. E essa contradição em nossas relações com a Santa Sé tem se manifestado há cerca de um ano, desde setembro, quando recebi através de canais oficiais alguns documentos que expressavam claramente a disposição por parte de Roma de reconhecer a Fraternidade, mas era necessário assinar um documento que não podíamos assinar. E ao mesmo tempo havia uma outra linha de informações que recebi, e era impossível que eu duvidasse de sua autenticidade. Essa linha de informações realmente dizia algo diferente.

Isso começou em meados de agosto, ao passo que eu não recebi o documento oficial até 14 de setembro de 2011. Desde meados de agosto, uma pessoa no Vaticano vem me dizendo: “O Papa irá reconhecer a Fraternidade e será como foi com as excomunhões, em outras palavras, sem nada [exigido] em troca.” Assim, foi nesse sentido que me preparei para a reunião do dia 14 de setembro ao preparar argumentos, dizendo: “Mas o senhor refletiu cuidadosamente no que o senhor está fazendo? O que o senhor está tentando fazer? Isso não irá funcionar.” E, de fato, o documento que nos foi apresentado era completamente diferente daquele que nos foi anunciado.

Continue lendo…

29 outubro, 2012

Impressões sobre as palavras de Dom Fellay na conferência da ‘Angelus Press’.

Por Paulo Frade | Fratres in Unum.com

Tive a graça de participar da conferência da Angelus Press, realizada entre os dias 19-21 de outubro, em Kansas City.  O tema da conferência deste ano foi “O Papado” e teve como palestrante principal Dom Bernard Fellay. A conferência contou com a presença de dezenas de sacerdotes, religiosos, seminaristas e leigos.  Tive a oportunidade de conversar e conhecer vários padres diocesanos, sendo um deles o Padre Michael Rodriguez, da diocese de El Paso, que foi injustamente perseguido por seu bispo devido à sua firme defesa da Fé e Moral católicas.  Além dele, conheci outros 3 padres diocesanos, dois de Nova York e um da Califórnia.

Conferência sobre o Papado promovida pela Angelus Press.

Conferência sobre o Papado promovida pela Angelus Press.

Apesar de eu não ser um fiel da FSSPX, sempre tive um verdadeiro apreço por seu trabalho, já que, exceto por uma intervenção divina diversa, se não fosse pela FSSPX, muito provavelmente ainda estaríamos na era do indulto. Devido às especulações de jornais, blogs e sites, cheguei à conclusão de que seria essencial ir à fonte para tentar descobrir qual a intenção da FSSPX quanto às conversações com Roma, quais são os verdadeiros fatos e qual a situação atual em que eles se encontram.

Quanto à intenção, ficou claro para mim, tanto nas palestras da conferência quanto nas conversas que tive com padres e seminaristas, que eles reconhecem que, por alguma razão, o Papa tem este desejo de reabrir a Igreja para liturgia tradicional e que a razão mais provável disso seja o reconhecimento do Papa de que o remédio para a crise atual seja o Rito Tradicional.  A FSSPX, reconhecendo que o Espírito Santo é a causa última de todas as coisas, procurou nessas conversações, dentro de seus limites e possibilidades, despertar esse lado do Santo Padre que ao menos aparentemente está voltado a Tradição.

Quanto às conversações com Roma, ao contrário do que muitos pensam e afirmam, as discussões doutrinais ocorreram por escrito e não de forma oral. Apenas depois que as discussões relacionadas a um ou alguns assuntos estavam esgotadas é que havia uma reunião.  Eu vi com meus próprios olhos ao menos três das correspondêcias recebidas por Dom Fellay. Os que negam que as discussões foram feitas de forma escrita estão no mínimo mal informados.

A primeira correspondência recebida por Dom Fellay, fazia entre outras, as seguintes afirmações:

Regras de hermenêutica que explicitam a interpretação da continuidade do Concílio Vaticano II com a Tradição e o ensinamento do Magistério precedente:

    1. Não há ensinamento doutrinal algum do Vaticano II que não seja totalmente compatível com a Fé Católica;
    2. A maneira correta de entender o Concílio é interpretá-lo em harmonia com a verdade de todos os outros ensinamentos do Magistério da Igreja em matéria de Fé e Moral.

Dom Fellay afirmou que o segundo ponto era razoável, só que o primeiro ponto não. Assim, ele respondeu afirmando que não concordava com o primeiro ponto. Afirmou também que era necessário começar de um ponto comum e este ponto comum seria a Tradição.  O Vaticano concordou com a sugestão de Dom Fellay e seguiu em frente. As trocas de correspondência continuaram e as questões relacionadas à Missa Nova, liberdade religiosa, ecumenismo, definição da Igreja e colegialidade foram todas discutidas. O último ponto tratado, segundo Dom Fellay, foi relacionado ao papel das autoridades atuais em relação à Tradição.

Segundo Sua Excelência, quando esse problema for resolvido, todos os demais também serão. No fim das discussões, as autoridades representando o Vaticano afirmaram que os respresentantes da FSSPX eram protestantes por colocarem a razão acima do Magistério. Como resposta, as autoridades da FSSPX afirmaram que os representantes do Vaticano eram modernistas por argumentarem como se a verdade pudesse evoluir.  Assim chegou ao fim a fase de discussões com Roma, o que prova que a FSSPX não estava apenas buscando um solução prática a qualquer custo.

Depois de dois anos de tratativas, Dom Fellay foi convidado para fazer uma avaliação das discussões com o Cardeal Levada.  A reunião foi marcada para o dia 14 de Setembro de 2011. Antes mesmo de ir a esta reunião, em meados de agosto, Dom Fellay recebeu mensagens de vários membros da Ecclesia Dei, incluindo um Cardeal, dizendo que o Papa reconheceria a FSSPX da mesma forma que ele fez com o levantamento das excomunhões, ou seja, de maneira unilateral. O purpurado reconheceu que havia divergências entre o Vaticano e a Fraternidade, mas afirmou que quem queria a reconciliação era o Papa e que esse desejo fazia parte do coração do seu pontificado.

No dia marcado, Dom Fellay foi ao Vaticano e recebeu um documento que ele nos mostrou durante sua palestra, com uma página que tratava de questões doutrinais e a outra de questões canônicas. Na primeira página havia uma nota preliminar que acompanhava a outra página, intitulada de “Preâmbulo Doutrinal”, que continha quatro pontos. Enquanto que na nota preliminar se encontrava a liberdade de discutir sobre o Concílio, no texto oficial do preâmbulo a liberdade não existia. Fora isso, no terceiro ponto do preâmbulo, a FSSPX teria que interpretar o Concílio de acordo com o catecismo pós-conciliar. Depois de estudar o texto com cuidado, a FSSPX respondeu no dia 30 de novembro de forma negativa, afirmando que o que eles estariam dispostos a fazer seria a profissão de Fé do Concílio de Trento. Se necessário eles estariam também dispostos a fazer a profissão de Fé em conjunto com a Constituição Dogmática Pastor Aeternus e o artigo 25 da Lumen Gentium, com a indicação de que todo o texto do Vaticano II deveria ser entendido segundo o juramento anti-modernista, e que isso faria com que fosse necessário a reformulação de alguns textos conciliares.

Dom Fellay finalizou a resposta citando a famosa declaração de Dom Lefebvre: “Nós aderimos, com todo o nosso coração, com toda a nossa alma à Roma Católica, guardiã da Fé Católica e das tradições necessárias à manutenção desta mesma Fé, à Roma eterna, mestra da sabedoria e da verdade. Nós recusamos, por sua vez, e sempre recusaremos, seguir a Roma de tendência neo-modernista e neo-protestante que se manifestou claramente no Concílio Vaticano II e, depois do Concílio, em todas as reformas dele provenientes”. E continuou dizendo que a FSSPX energeticamente recusa seguir tendências neo-modernistas e neo-protestantes que claramente se manifestaram durante e continuam se manifestando após o Concílio Vaticano II. Disse, também, que todas essas reformas têm contribuído para a demolição da Igreja, dos sacramentos, da vida sacerdotal, da vida religiosa, dos ensino católico, dos seminários, etc.  Após receberem a resposta, as autoridades do Vaticano telefonaram a Sua Excelência alguns dias depois, perguntado se ele não poderia ser mais preciso.  Mais preciso?! Então, ele responde novamente no dia 12 de Janeiro de 2012.  Nesta segunda carta, ele afirma que a primeira resposta permanece sendo a resposta da FSSPX, isto é, um “não”, e Dom Fellay seguiu mais uma vez explicando a razão da resposta negativa. Por fim, no dia 16 de Março de 2012, ele recebeu uma carta assinada pelo Cardeal Levada afirmando que “a recusa do preâmbulo doutrinal explicitamente aprovado pelo Santo Padre é, de fato, uma recusa de fidelidade ao Sumo Pontifíce e ao Magistério atual”. O então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé continuou dizendo que “isso teria uma consequência, que é a ruptura da comunhão com o Papa” e que os resultados canônicos relacionados a tal ruptura seriam o cisma e excomunhão. Esta carta, que na verdade era um ultimato, deu a Dom Fellay 30 dias para reconsiderar o “não” dado ao preâmbulo.

Em 13 de junho, o superior da Fraternidade recebeu outra carta. Ao lê-la, afirmou a si mesmo que finalmente as coisas estavam mais claras, claras o suficiente para dizer que “we’re not going to go there!”. Esta última carta foi uma correção a uma manifestação que Dom Fellay enviou à Congregação para a Doutrina da Fé, por indicação do Santo Padre, dando as condições da Fraternidade para uma reconciliação.  Por um tempo, Dom Fellay acreditou que a condições haviam sido aceitas mas depois de receber a carta com as correcoes da CDF ele teve a reacao acima. Talvez seja a resposta a estas correções que o Vaticano esteja esperando até agora. Se este for o caso, está certo que da forma como está a Fraternidade já a rejeitou.

A conferência de Dom Fellay durou cerca de 3 horas e não dá para tratar de tudo aqui. Mas não posso deixar de fora os comentários que Sua Excelência fez em relação às constantes contradições que encontrou durante todo esse período, que de certo modo acaba provando que o Papa está rodeado de lobos.  Em 2009, por exemplo, antes das ordenações de diáconos da FSSPX, o Cardeal Castrillon Hoyos telefonou para Dom Fellay e afirmou que ele teria que parar com essas ordenações feitas sem permissão e que, se fosse pedida a permissão ao Papa, ele garantia que quase imediatamente o Papa autorizaria as ordenações.  O Cardeal Hoyos continuou afirmando que no período de duas semanas a FSSPX seria regularizada. Dom Fellay perguntou como isso seria possível, se o Secretário do Estado havia enviado uma carta a ele afirmando que a FSSPX teria que aceitar o Vaticano II para se regularizar.  Dom Hoyos respondeu que o texto era apenas administrativo e político e que essa também era a posição do Papa. Com isso, em quem deveria Dom Fellay acreditar? Em um documento oficial do Secretário do Estado ou no telefonema do Cardeal?

Em setembro de 2010, um padre se uniu à FSSPX. Dom Fellay, então, recebeu uma carta da Congregação dos Religiosos, dizendo que o padre que se juntou a eles havia sido excomungado e que havia perdido a fé por agora fazer parte do cisma do Arcebispo Lefebvre. Como pode Roma levantar as excomunhões dos bispos da FSSPX e depois excomungar um sacerdote que resolveu se juntar a eles (união informal, diga-se de passagem, pois a FSSPX não aceita religiosos, mantendo apenas relações de proximidade com as ditas “comunidades amigas”)? Quando Dom Fellay se reuniu com Monsenhor Guido Pozzo para indagar sobre esta carta, o secretário da Ecclesia Dei disse a ele para simplesmente rasgá-la, que ela não tinha valor algum.  Essas contradições desgastantes parecem ter dificultado muito as conversações.

24 outubro, 2012

Comunicado da Casa Geral da FSSPX: Dom Richard Williamson expulso.

Por DICI | Tradução: Fratres in Unum.com

Dom Richard Williamson

Dom Richard Williamson

Dom Richard Williamson, tendo se distanciado da direção e do governo da FSSPX há vários anos, e negando-se a manifestar o respeito e a obediência devidos aos seus superiores legítimos, foi declarado expulso da FSSPX por decisão do Superior Geral e do Conselho, em 4 de outubro de 2012. Um último prazo lhe havia sido concedido para se conformar ao disposto, ao termo do qual anunciou a difusão de uma “carta aberta” pedindo ao Superior Geral que renunciasse.

Esta dolorosa decisão se fez necessária em atenção ao bem comum da Fraternidade São Pio X e de seu governo, em conformidade com o que Dom Lefebvre denunciava: “É a destruição da autoridade. Como se pode exercer a autoridade se é necessário que ela peça a todos os membros que participem do exercício da autoridade?” (Ecône, 29 de junio de 1987).

Dado em Menzingen, 24 de outubro de 2012.

16 julho, 2012

Entrevista com Dom Bernard Fellay após a conclusão do Capítulo Geral da Fraternidade São Pio X.

A mudez doutrinal não é a resposta à “apostasia silenciosa”.

Por DICI | Tradução: Fratres in Unum.com

DICI: Como se desenvolveu o Capítulo Geral? Qual foi a atmosfera?

Dom Fellay: Uma atmosfera bastante calorosa, já que o mês de julho é particularmente tórrido no Valais! Mas, ao mesmo tempo, uma atmosfera de muita aplicação, sobre os fundamentos, já que os membros do Capítulo puderam trocar opiniões livremente, como convém a uma reunião de trabalho desse tipo.

DICI: Tratou-se das relações com Roma? Houve questões que não puderam ser levantadas? Pode-se apaziguar as dissensões que se manifestaram nestes últimos tempos no seio da FSSPX?

Dom Fellay: São muitas perguntas de uma só vez! Com relação a Roma, fomos realmente às raízes das coisas e todos os capitulantes puderam ter acesso a todos os documentos. Nada foi ocultado, não há tabus entre nós. Era meu dever expor exatamente o conjunto dos documentos trocados com o Vaticano, o que havia se transformado em algo difícil por conta do clima deletério dos últimos meses. Essa exposição permitiu uma discussão franca, que esclareceu as dúvidas e dissipou as incompreensões. Isso favoreceu a paz e a unidade dos corações, e é muito reconfortante.

DICI: Como o senhor vê as relações com Roma depois deste Capítulo?

Dom Fellay: Entre nós, todas as ambiguidades foram dissipadas. Em breve, faremos chegar a Roma a posição do Capítulo, que nos deu a oportunidade de precisar nosso itinerário, insistindo sobre a conservação de nossa identidade, que é o único meio eficaz para ajudar a Igreja a restaurar a Cristandade. Porque, como manifestei recentemente, “se queremos frutificar o tesouro da Tradição para o bem das almas, devemos falar e atuar” (cf. entrevista de 8 de junho de 2012, DICI nº 256). Não podemos ficar em silêncio diante da perda generalizada da fé, nem diante da queda vertiginosa das vocações e da prática religiosa. Não podemos nos calar diante da “apostasia silenciosa” e suas causas. Porque a mudez doutrinal não é a resposta a esta “apostasia silenciosa”, da qual João Paulo II já falava em 2003.

Neste sentido, entendemos que nos inspiramos não só na firmeza doutrinal de Dom Lefebvre, mas também em sua caridade pastoral. A Igreja sempre considerou que o melhor testemunho em favor da verdade provinha da união dos primeiros cristãos na oração e na caridade. Não eram senão “um coração e uma alma”, como dizem os Atos dos Apóstolos (cap. 4,32). O boletim interno da Fraternidade São Pio X carrega o título de Cor unum, é um ideal comum, um lema para todos. Portanto, nos separamos claramente de todos os que quiseram aproveitar a situação para semear a discórdia, opondo um membro da Fraternidade a outro. Esse espírito não é de Deus.

DICI: Que considerações merece a nomeação de Dom Ludwig Müller para a Congregação para a Doutrina da Fé?

O antigo bispo de Ratisbona, onde se encontra nosso seminário de Zeitzkofen, não nos admira, e isso não é segredo para ninguém. Depois do corajoso ato de Bento XVI em nosso favor, em 2009, ele parecia ter pouco interesse em atuar no mesmo sentido e nos tratava como leprosos! Foi ele quem então declarou que nosso seminário deveria ser fechado e que nossos seminaristas deveriam reingressar nos seminários de suas regiões de origem, afirmando, sem rodeios, que “os quatro bispos da Fraternidade São Pio X devem renunciar”! (Cf. entrevista a Zeit online, 8 de maio de 2009).

No entanto, mais importante e mais inquietante para nós é papel que ele deverá assumir à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, que deve defender a fé, cuja missão própria consiste em combater os erros doutrinais e as heresias. Porque muitos textos de Dom Müller sobre a verdade transubstanciação do pão e do vinho em Corpo e Sangue de Cristo, sobre o dogma da virgindade de Maria, sobre a necessidade dos não-católicos se converterem à Igreja Católica… são mais do que discutíveis! Não cabe dúvidas de que em outra época teriam sido objeto de uma intervenção da parte do Santo Ofício, do qual surgiu a Congregação para a Doutrina da Fé que ele encabeça atualmente.

DICI: Como se apresenta o futuro da Fraternidade São Pio X? No combate pela Tradição da Igreja, a Fraternidade continuará andando no fio da navalha?

Dom Fellay: Mais do que nunca, devemos conservar efetivamente essa linha fixada por nosso venerável fundador. É um norte difícil de manter, mas é absolutamente vital para a Igreja e para o tesouro de sua Tradição. Somos católicos, reconhecemos o Papa e os bispos, mas devemos sobretudo conservar a fé inalterada, fonte da graça de Deus. Consequentemente, devemos evitar tudo o que a coloque em perigo, sem que por isso passemos a ocular o lugar da Igreja Católica, Apostólica, Romana. Longe de nós a idéia de constituir uma Igreja paralela, exercendo um magistério paralelo!

Dom Lefebvre explicou isso muito bem já há mais de trinta anos: a única coisa que quis fazer foi transmitir o que havia recebido da Igreja bimilenar. Isso é tudo o que nós queremos seguindo a ele, porque só assim poderemos ajudar eficazmente a “restaurar todas as coisas em Cristo”. Não somos nós que romperemos com Roma, a Roma eterna, mestra da sabedoria e da verdade. Contudo, seria irreal negar a influência modernista e liberal que se difunde na Igreja desde o Concílio Vaticano II e as reformas que o seguiram. Numa palavra, guardamos a fé no primado do Pontífice Romano e na Igreja fundada sobre Pedro, mas recusamos tudo o que contribuir para a “auto-demolição da Igreja”, reconhecida pelo próprio Paulo VI em 1968. Queira Nossa Senhora, Mãe da Igreja, apressar o dia de sua autêntica restauração!

(DICI n°258)

15 julho, 2012

O Papa, o Concílio, a resposta de Fellay.

Por Andrea Tornielli | Tradução: Fratres in Unum.com

Bento XVI celebra missa, na manhã deste domingo, em Frascati.

Bento XVI celebra missa, na manhã deste domingo, em Frascati.

“Os documentos do Concílio contêm uma enorme riqueza para a formação de novas gerações cristãs, para a formação da nossa consciência. Então, releiam-nos… Redescobri a beleza de ser Igreja, de viver o grande ‘nós’ que Jesus formou em volta de si, para evangelizar o mundo: o ‘nós’ da Igreja, que nunca é fechado ou encerrado sobre si, mas sempre aberto e direcionado para o anúncio do Evangelho”

É uma passagem da homilia que Bento XVI, nesta manhã, pronunciou em Frascati, durante a missa que celebrou em sua breve visita à diocese cujo bispo é um ex-colaborador da Congregação para a Doutrina da Fé, Dom Raffaello Martinelli, e da qual é titular, como Cardeal da ordem dos bispos, o Secretário de Estado Tarcisio Bertone.

O Papa volta a falar do magistério conciliar, a três meses do quinquagésimo aniversário de abertura do Concílio, como uma “enorme riqueza”, atribuindo ao Vaticano II um papel importante também para as novas gerações. É significativo que isso ocorra exatamente no dia em que, em Écône, na Suíça, terminou o capítulo geral da Fraternidade São Pio X, fundada pelo Arcebispo tradicionalista Marcel Lefebvre.

De acordo com uma antecipação relatada por José Manuel Vidal, no site Religión Digital, os lefebvristas prepararam um documento-declaração no qual diriam definitivamente “não” à proposta de um retorno à plena comunhão com Roma, enquanto agradecendo ao Papa por quanto realizou nesta perspectiva e pela oportunidade que deu à Fraternidade de apresentar os seus pontos de vista.

Os lefebvrianos teriam concluído que não podiam aceitar o magistério do Vaticano II, tal como solicitado no preâmbulo doutrinal entregue ao bispo Bernard Fellay pelo Cardeal William Levada, em 13 de junho, porque a assinatura no preâmbulo implicaria a aceitação dos “erros do Concílio”.

A publicação do documento da Fraternidade era esperada para esta manhã. Na realidade, a resposta será enviada primeiro para as autoridades romanas e, em seguida, no início da próxima semana, o próprio Fellay apresentará a posição tomada pelo capítulo geral em uma entrevista.

Todos os sinais públicos — declarações de Fellay e outros líderes lefebvrianos –, bem como as indiscrições até agora publicadas, dão a entender que a resposta será negativa. Embora seja possível que os lefebvrianos solicitem poder discutir novamente o texto do preâmbulo doutrinal.