Posts tagged ‘Dom Gerhard Ludwig Muller’

11 março, 2014

Um herói (marxistoide) no Vaticano.

Com informações de Catapulta | Tradução: Fratres in Unum.com (destaques do original) - “Na terça-feira passada, o fundador da Teologia da Libertação, a corrente católica de inspiração latino-americana que defende os pobres, foi recebido como um herói no Vaticano, no momento em que o outrora criticado movimento continua a sua reabilitação com o papa Francisco.

O reverendo Gustavo Gutiérrez Merino, do Peru, foi o orador surpresa nessa terça-feira, no lançamento de um livro, que contou com a participação do cardeal Gerhard Mueller, chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, entidade encarregada de cuidar para que os sacerdotes não se afastem dos ensinamentos centrais da Igreja; do cardeal Óscar Rodríguez (Maradiaga) um dos principais assessores do Papa, e do porta-voz do Vaticano”

http://www.jornada.unam.mx/2014/02/27/mundo/

Vatican Insider fornece mais detalhes sobre a apresentação do livro:

“Pobre e para os pobres”. As palavras do Papa são também o título do mais recente livro de Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. (que aparece na foto vestindo um poncho). Um texto que parece ser o passo definitivo em direção a uma Teologia da Libertação “normalizada”. A edição, que conta com o prólogo de Francisco, foi apresentada em um auditório do Vaticano…

Müller é o principal artífice dessa “normalização” de uma corrente de pensamento que ainda provoca debates acalorados na América Latina. Ele é amigo pessoal de Gutiérrez, “pai” dessa teologia, há décadas. Após a apresentação do livro, o brilhante cardeal alemão explicou aos jornalistas porque ele a apoia sem duvidar.

http://vaticaninsider.lastampa.it/es/en-el-mundo/dettagliospain/articolo/teologia-della-liberazione-teologia-de-la-liberacion-32380/

Agora vamos lá, em 1973 o fundador Gutiérrez publicou Fe cristiana e cambio social, onde aparecem as seguintes pérolas “católicas” e das quais nunca se arrependeu:

 “… a luta de classes é um fato, e é impossível manter a neutralidade nesse tema”.

“… não há nada mais certo do que um fato. Ignorá-lo é enganar e deixar-se enganar e, além disso, privar-se dos meios necessários para eliminar verdadeira e radicalmente essa condição ‒ ou seja, avançar até uma sociedade sem classes“.

“Participar da luta de classes não somente não se opõe ao amor universal; hoje em dia, esse compromisso é o meio necessário e inevitável para concretizar esse amor, uma vez que essa participação é o que conduz a uma sociedade sem classes, uma sociedade sem proprietários e despossuídos, sem opressores e oprimidos”.

“… a missão da Igreja se define prática e teoricamente, pastoral e teologicamente, em relação… ao processo revolucionário. Ou seja, a sua missão se define mais pelo contexto político do que por problemas intra-eclesiais”.

“… a luta de classes existe dentro da mesma Igreja… a unidade da Igreja (é)… um mito que deve desaparecer se a Igreja é “reconvertida” ao serviço dos trabalhadores na luta de classes”.

No mundo atual a solidariedade e o protesto de que falamos têm um evidente e inevitável caráter político, tanto que têm um significado libertador. Optar pelo oprimido é optar contra o opressor. Em nossos dias e em nosso continente, solidarizar-se com o pobre assim entendido, significa correr riscos pessoais… É o que ocorre a muitos cristãos – e não cristãos – no processo revolucionário latino-americano”. (Ver Postagem de 11 de setembro de 2013 “MÁS ALIENTO A LA REVOLUÇÃO” http://www.catapulta.com.ar/?p=11414)

8 março, 2014

Cardeal Müller: «as pessoas cuja vida contradiz a indissolubilidade do matrimônio sacramental não podem receber a Eucaristia».

O cardeal Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, concedeu uma entrevista ao National Catholic Register, na qual responde a uma pergunta sobre a possibilidade dos divorciados recasados receberem a comunhão. O prelado indica que o ensinamento de Cristo e sua Igreja é claro: «as pessoas cujo estado de vida contradiz a indissolubilidade do matrimônio sacramental não podem receber a Eucaristia». Ao mesmo tempo ele adverte que, embora «a ideia de que a doutrina possa ser separada da prática pastoral da Igreja tenha se tornado habitual em alguns círculos», essa «não é nem nunca foi a fé católica».

Por NCR/InfoCatólica, 6 de março de 2014 | Tradução: Fratres in Unum.com Edward Pentin, do National Catholic Register, pergunta ao Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a admissão à Eucaristia dos divorciados recasados no civil:

- Alguns estão preocupados com as mudanças ocorridas com relação ao ensinamento da Igreja sobre os católicos divorciados e recasados. Podemos garantir aos fiéis que as mudanças serão de tipo mais pastoral que doutrinal?

Resposta do cardeal:

Dom Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Dom Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Em primeiro lugar, agradeço o fato de que a sua pergunta me dá a oportunidade de esclarecer um ponto importante. A ideia de que a doutrina possa ser separada da prática pastoral da Igreja se tornou habitual em alguns círculos. Essa não é nem nunca foi a fé católica. Os últimos papas têm se esforçado para ressaltar o caráter vital e pessoal da fé católica. O Papa Francisco escreveu «Não me canso de repetir aquelas palavras de Bento XVI que nos levam ao próprio centro do Evangelho: “Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas sim pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com ele, uma orientação decisiva” (Evangelii Gaudium, 7). Dentro dessa relação pessoal com Cristo, que abrange as nossas mentes, nossos corações e a totalidade de nossas vidas, podemos compreender a profunda unidade entre as doutrinas em que acreditamos e a forma em que vivemos nossas vidas, ou aquilo que poderíamos chamar a realidade pastoral de nossa vivencia pessoal. A oposição entre o que é pastoral e o que é doutrinal é simplesmente uma falsa dicotomia.

Em segundo lugar, temos que ter muito cuidado ao falarmos dos ensinamentos da Igreja. Se por «mudança» se quer dizer negar ou rejeitar o que existia anteriormente, isso seria um erro. Eu preferiria falar de «desenvolvimento» dos ensinamentos da Igreja. A Igreja não inventa por si mesma aquilo que ensina. Os ensinamentos da Igreja estão enraizados na pessoa de Cristo, no mistério de Deus que se revela.

Pode ser que, com o passar do tempo, a Igreja chegue a um entendimento mais profundo desse mistério. Pode ocorrer também que novas circunstâncias na história dos homens lancem uma luz concreta sobre as consequências desse mistério. Porém, devido ao que está enraizado no mesmo mistério de Cristo, sempre há uma continuidade naquilo que a Igreja ensina.

Em terceiro lugar, referindo-me especificamente à questão da admissão à comunhão eucarística dos divorciados recasados, faço referência ao artigo publicando no L´Osservatore Romano. Sem dúvida, gostaria de recordar alguns pontos que observei na época. Primeiro, o ensinamento de Cristo e sua Igreja é claro: um matrimônio sacramental é indissolúvel. Segundo, as pessoas cujo estado de vida contradiz a indissolubilidade do matrimônio sacramental não podem receber a Eucaristia. Terceiro, os pastores e as comunidades paroquiais são chamados a apoiar os fiéis que se encontram nessa situação com «solícita caridade» (Familiaris Consortio 84).

A preocupação da Igreja por seus filhos que estão divorciados e recasados não pode ser reduzida à questão da recepção da Eucaristia, e estou seguro de que a Igreja, arraigada na verdade e no amor, descobrirá os caminhos e abordagens corretos de formas sempre novas.

Em relação a possíveis mudanças doutrinais, o cardeal adverte na entrevista que é necessário distinguir entre a realidade e a forma em que aquela é apresentada pelos meios de comunicação:

Em particular, os meios seculares frequentemente interpretam mal a Igreja. Infelizmente, eles aplicam o modo de pensar do âmbito da política à Igreja. Um líder político recém-eleito pode modificar ou revocar a política de seu partido. Isso não se aplica a um Papa. Quando um Papa é eleito, a sua missão é ser fiel aos ensinamentos da Igreja e de Cristo. Pode-se encontrar modos novos e criativos de ser fiel a esses ensinamentos, porém, para o Papa, a realidade mais profunda é a contínua fidelidade à pessoa de Cristo. Se os meios de comunicação criaram expectativas errôneas, então, estamos diante de algo lamentável.

31 janeiro, 2014

Socci: Ratzinger é o alvo verdadeiro dos novos inquisidores. A autodemolição da Igreja lamentada por Paulo VI recomeça.

Os novos inquisidores contra Ratzinger. Recomeça a autodemolição da Igreja.

Por Antonio Socci | Tradução: Fratres in Unum.com

Houve grandes papas cujos pontificados foram praticamente solapados pelos erros dos eclesiásticos que lhes eram próximos. Esse risco também existe para o papa Francisco.

De fato, há episódios, decisões e “explosões bizarras” bastante desconcertantes por parte de alguns prelados. Penso no Cardeal Maradiaga e no Cardeal Braz de Aviz, que se sentem tão poderosos no Vaticano que usam o porrete tanto contra o Prefeito do antigo Santo Ofício, Müller, bem como contra os Franciscanos da Imaculada.

CONTRA BENTO XVI

Os alvos de suas “porretadas” (dadas, obviamente, em nome da misericórdia) são aqueles que, de diversas maneiras, são identificados como paladinos da ortodoxia católica e que mantiveram relações com Bento XVI.

O verdadeiro alvo, de fato, parece ser justamente ele: o “culpado” de tantas coisas: desde sua condenação histórica da Teologia da Libertação e defesa da sã doutrina até o Motu Proprio sobre a Liturgia.

O Cardeal Oscar Maradiaga é arcebispo de Tegucigalpa, em Honduras, diocese em decadência. Porém, o prelado, que circula pelos palcos dos meios de comunicação mundanos, recentemente deu o que falar por causa da entrevista que concedeu a um jornal alemão, onde – além dos lixo new age e banalidades terceiro-mundistas – atacou publicamente o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Müller, a quem o papa recentemente concedeu a púrpura cardinalícia. Igualmente escandaloso é constatar que Maradiaga é o chefe da comissão que deveria reformar a Cúria.

O que havia acontecido? Müller, chamado a esse cargo por Bento XVI e confirmado por Francisco, há poucos meses reiterou que, mesmo buscando novos caminhos pastorais (já indicados por Bento XVI), o próximo Sínodo sobre a família não pode subverter a lei de Deus com “um falso apelo à misericórdia” no que diz respeito à família homem-mulher, estabelecida por Jesus no Evangelho e que sempre foi ensinado pela Igreja.

SHOW DO MARADIAGA 

Müller, que já havia sido atacado pessoalmente por Hans Küng, [agora] foi liquidado por Maradiaga com essas palavras: “ele é um alemão e também um professor alemão de teologia. Em sua mentalidade existe só o verdadeiro e o falso. Só isso. Porém, eu digo: meu irmão, o mundo não é assim, você deveria ser um pouco flexível.” Essas palavras escandalizaram muitos fieis. Acima de tudo porque a alusão ao “professor alemão de teologia”, inevitavelmente, faz pensar que o alvo fosse Bento XVI, que chamou Müller para aquela função. E também porque um ataque público entre cardeais é algo completamente fora de propósito, como se Müller estivesse ali para sustentar a sua teologia pessoal e não o ensinamento constante da Igreja e de todos os papas.

No final das contas, segundo Maradiaga, seria equivocado avaliar a realidade em termos de verdadeiro ou falso, – ele se esquece que Jesus Cristo, no Evangelho, deu este preciso mandamento: “Dizei somente: Sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno” (Mt 5,37).

Será que Maradiaga prefere “Tudo o que passa além disto ” ao anúncio da Verdade? Quanto aos temas relacionados à família, em que [atualmente] temos uma ofensiva ideológica semelhante àquela marxista dos anos setenta, diversos eclesiásticos estão prontos – justamente como naquele tempo – a entregar os pontos.

E eles o fazem também com os sofismas de Maradiaga, que afirmou que as palavras de Jesus sobre o matrimônio são vinculantes, “porém, elas podem ser interpretadas”, uma vez que hoje em dia há muitas novas situações de coabitação e há necessidade de “respostas que não podem mais se basear no autoritarismo e o moralismo”.

Essa frase sozinha liquida todo o Magistério da Igreja: evidentemente, de acordo com Maradiaga, até mesmo Nosso Senhor era autoritário e moralista, uma vez que Ele se expressou com grande clareza.

Mas o que significa “mais cuidado pastoral do que doutrina”? Todo grande pastor, de Santo Ambrósio a São Carlos Borromeu, de Dom Bosco a Padre Pio, foi um paladino da doutrina.

Maradiaga diz que a família precisa de “respostas adaptadas ao mundo de hoje”. Essas são palavras vazias e alusivas, que alimentam dúvidas e confusões. E essa é a maneira típica que hoje em dia está se espalhando na Igreja para suscitar indagações sem dar respostas.

A esse respeito, Santo Tomás de Aquino expressou-se assim: “Bem, estes são falsos profetas ou falsos doutores, pois levantar uma dúvida e não a resolver é o mesmo que concedê-la” (Sermão Attendite a falsis prophetis).

Atualmente, existem na Igreja pessoas que preferem o famoso questionário relativo ao Sínodo (que foi enviado a todas as dioceses do mundo e que é apresentado por alguns como uma pesquisa) às palavras de Jesus relatadas no Evangelho, como se a Verdade revelada devesse ser substituída pelas mais diversas opiniões.

AUTODEMOLIÇÃO

Também isso nos faz voltar aos anos Setenta, quando Paulo VI alarmado denunciava:

“Assim, a verdade cristã está passando por choques e crises assustadoras. Eles não aceitarão o ensinamento do Magistério [...] Há alguns que tentam facilitar fé esvaziando-a – a fé integra e verdadeira – daquelas verdades que parecem ser inaceitáveis à mentalidade moderna. Eles seguem os seus próprios gostos, para escolher uma verdade que seja considerada aceitável… Outros estão em busca de uma nova fé, especialmente, uma nova crença sobre Igreja. eles estão tentando conformá-la às ideias da sociologia moderna e da história profana”. 

É como varrer os pontificados de Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI para voltar à tenebrosa década de 70, à autodemolição da Igreja (conforme  definição de Paulo VI).

Não é uma renovação, mas o retorno ao passado mais desastroso.

A VERGONHA

Outro episódio de autodemolição da Igreja é a perseguição aos “Franciscanos da Imaculada”, uma das famílias religiosas mais ortodoxas, mais vibrantes (cheias de vocações), mais ascéticas e missionárias. Porém, a sua zelosa fidelidade a Bento XVI (como já escrevi nessa coluna) começando com o seu Motu Proprio sobre a liturgia, não foi perdoada.

A inversão de papéis é chocante. De fato, no banco dos réus temos católicos obedientes e no papel de inquisidor temos o cardeal brasileiro João Braz de Aviz, que, em uma longa entrevista, proferiu palavras nostálgicas de elogio à desastrosa Teologia da Libertação, pouco se lixando para a condenação que lhe fizeram Ratzinger e João Paulo II.

Braz de Aviz confessou tranquilamente que, naquela época, ele estava pronto a abandonar o seminário por aquelas ideias sociais. Entretanto, ele fez carreira. Atualmente, ele é o chefe da Congregação para os religiosos, e ele sequer é um religioso.

O prelado, que proclama ser muito amigo da Comunidade de Santo Egidio, tem uma ideia estranha de diálogo. Para ele, isso é importante para todos, menos para os católicos mais fieis ao Magistério.

Quando era arcebispo de Brasília, ele participou tranquilamente e foi palestrante em uma conferência do Fórum Espiritual Mundial com o ex-frei Leonardo Boff, líder da Teologia da Libertação, com Nestor Masotti, Presidente da Federação Espírita Brasileira, com Ricardo Lindemann, Presidente da Sociedade Teosófica no Brasil e com Hélio Pereira, Grão-Mestre da Grande Loja [local].

Assim que assumiu a chefia da Congregação para os Religiosos, imediatamente, ele iniciou o diálogo com as “animadas” Congregações de religiosas dos Estados Unidos [LCWR], que deram muita dor de cabeça a Bento XVI. Braz de Aviz fez uma espécie de crítica à Santa Sé: “recomeçamos a escutar…sem condenações preventivas”.

Por outro lado, ele nunca chamou os Franciscanos da Imaculada – que nunca causaram quaisquer problemas – para ouvi-los. Eles estão sob condenação preventiva – e uma condenação muito pesada.

Estranho, não é mesmo? Há alguns dias o “Vatican Insider” publicou: “Na Itália há cada vez menos freis e freiras”. Vocês acham que Braz de Aviz está preocupado com isso? De maneira alguma. Ele pensa em punir uma das poucas ordens cujas vocações estão aumentando.

Na primeira edição de “Jesus” [revista mensal da Sociedade de São Paulo e uma das publicações mais importantes na Itália] de 2014, um monumento foi erigido a Vito Mancuso [Professor famoso por sua visão “progressista” sobre bioética], notável por negar “uma dúzia de dogmas” (como escreveu La Civiltà Cattolica). Porém, estejam certos de que ninguém levantará alguma objeção às filhas de São Paulo a esse respeito.

Ao contrário, os “Franciscanos da Imaculada” sofrem repressão por terem defendido os dogmas da Igreja.

A autodemolição foi retomada com força.

[Fonte: “Libero”, de 26 de janeiro de 2014. Tradução a partir da versão inglesa de Rorate Caeli]

13 novembro, 2013

Guerra alemã.

Quase imediatamente após a sua renúncia ao governo da arquidiocese de Friburgo ser acolhida pelo Papa Francisco, o arcebispo Robert Zollitsch torna público um documento “pastoral” onde orienta os padres sobre a comunhão aos católicos divorciados e em segunda união. Poucas semanas depois o Prefeito da Doutrina da Fé, o também alemão Gerhard Müller, publicou um longo artigo no L’Osservatore Romano onde defende a atual posição católica de total inviolabilidade do casamento, desde que validamente celebrado. Agora Müller se dirige de forma direta ao arcebispo emérito Zollitsch, e aos demais bispos da Alemanha, revogando o documento “pastoral”. Abaixo a carta enviada por Müller.

* * *

A Sua Excelência!
Honorável Senhor Arcebispo!

Com o documento prot. N 2922/13, de 8 de outubro de 2013, o Nuncio Apostólico informou o projeto das diretrizes para o cuidado pastoral das pessoas separadas, divorciadas e recasadas civilmente na Arquidiocese de Friburgo, bem como a sua circular aos membros da Conferência Episcopal Alemã antes da publicação dessa carta, à Congregação para a Doutrina da fé. Uma leitura cuidadosa do rascunho do texto revela que ele contém ensinamentos pastorais muito corretos e importantes, mas não é claro em sua terminologia e não corresponde com o ensinamento da Igreja em dois pontos:

“As pessoas divorciadas e recasadas se colocam no caminho do seu acesso à Eucaristia”.
1. Em relação à recepção dos sacramentos por fiéis divorciados novamente casados ​​a proposta dos bispos da área de Oberrhein é novamente recomendada como uma direção pastoral: após um processo de discussão com os párocos, as pessoas interessadas podem chegar à conclusão de participar muito na vida da Igreja, mas a abster-se deliberadamente de receber os sacramentos, enquanto outras podem em suas situações concretas alcançar uma “decisão responsável de consciência” e serem capazes de receber os sacramentos do Batismo, a Sagrada Comunhão, Crisma, Reconciliação e Unção dos Enfermos, e esta decisão deve “ser respeitada” pelo padre e pela comunidade.

Ao contrário desta suposição, o Magistério da Igreja enfatiza que os pastores devem reconhecer bem  as diversas situações e devem convidar os fiéis afetados por elas a uma participação na vida da Igreja, mas também “reafirma a sua prática, que é baseada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística divorciados que voltaram a casar “(cf. João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris Consortio, de 22 de novembro de 1981, N. 84; também comparar a Carta desta Congregação de 14 de setembro de 1994 sobre a recepção da Comunhão por divorciados recasados fiel, que rejeita a proposta dos bispos Oberrhein, e Bento XVI, Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, de 22 de fevereiro de 2009, N. 29).

Esta posição do Magistério é bem fundamentada. Divorciados recasados estão no caminho de seu acesso à Eucaristia, na medida em que o seu estado de vida é uma contradição objetiva para a relação de amor entre Cristo e a Igreja, que se torna visível e presente na Eucaristia (razão doutrinária). Se estas pessoas pudessem receber a Eucaristia isso causaria confusão entre os fiéis sobre o ensinamento da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio (razão pastoral).

2. Além disso, um rito [service, no original em inglês, NdT] de oração para os fiéis divorciados que entram em um novo casamento civil é sugerido. Embora seja explícito que isso não é um “semi-casamento” e a cerimônia deve ser simples, mas ainda assim seria uma espécie de “rito”, com uma entrada, a leitura da Palavra de Deus, benção e entrega de uma vela, oração e conclusão.

Tais celebrações foram expressamente proibidas por João Paulo II e Bento XVI: “O respeito devido ao sacramento do Matrimônio, para os próprios casais e suas famílias, e também para a comunidade dos fiéis, proíbe qualquer pastor, por qualquer motivo ou pretexto mesmo de natureza pastoral, de realizar cerimônias de qualquer natureza para as pessoas divorciadas que se casam novamente. Estas dariam a impressão de celebração de novas núpcias sacramentais válidas, e que, assim, levariam as pessoas ao erro sobre a indissolubilidade do matrimônio contraído validamente “(Familiaris Consortio, n. 84).

Os fiéis afetados devem receber suporte, mas é preciso evitar que “cresça confusão entre os fiéis sobre o valor do matrimônio” (Sacramentum Caritatis, N. 29).

Devido às discrepâncias acima destacadas, o projeto de texto deve ser retirado e revisto, de modo que nenhuma direção pastoral seja sancionada que se oponha aos ensinamentos da Igreja. Porque o texto suscitou questões não só na Alemanha, mas em muitas partes do mundo, bem como levou à incertezas numa questão pastoral delicada, me senti obrigado a informar ao Papa Francisco sobre isso.

Após consulta com o Santo Padre, um artigo de minhas mãos foi publicado em L’Osservatore Romano em 23 de outubro de 2013, que resume o ensino vinculante da Igreja sobre estas questões. Essa contribuição também foi publicada na edição semanal do jornal do Vaticano.

Uma vez que um número de bispos que se voltou para mim e um grupo de trabalho da Conferência Episcopal Alemã está lidando com o tema, gostaria de informar que vou enviar uma cópia desta carta a todos os bispos diocesanos da Alemanha. Esperando que sobre esta questão delicada nós vamos por caminhos pastorais, que estão em pleno acordo com a doutrina da fé da Igreja, fico com cordial saudação e bênção no Senhor.

Gerhard L. Müller
Prefeito

  • Batalha 4 – Cardeal Marx [um dos purpurados membros do poderoso conselho de 8 cardeais erigido pelo Papa Francisco]: “O Prefeito da CDF não pode por fim à discussão”.

    Por Pray Tell | Tradução: Fratres in Unum.com - Na opinião do Cardeal Marx, de Munique, o debate sobre o tratamento dado pela Igreja Católica a divorciados recasados está completamente aberto. “O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé não pode colocar um fim na discussão”, declarou, na quinta-feira, na conclusão do encontro da Conferência Episcopal de Frisinga, noticiou Kathweb [...]. “Veremos que isso é discutido muito amplamente; quanto ao resultado, não sei”. O Cardeal Marx afirmou que é o desejo expresso de Roma que haja uma ampla discussão por toda a Igreja em preparação para o sínodo especial sobre a família, em outubro de 2014 [...]. Um grande número de fiéis não podem entender plenamente “que uma segunda união não seja aceita pela Igreja”. Ele crê ser inadequado falar de divórcio simplesmente como “uma falha moral”.

7 novembro, 2013

Vaticano adverte bispos americanos sobre Medjugorge. “Vidente” Ivan forçado a cancelar viagem aos EUA.

A carta a seguir foi divulgada, aparentemente, primeiro no site pró-Medjugorgje “Spirit Daily”. No mínimo, ela sinaliza que a Comissão Medjugorje ainda está investigando ativamente as supostas “aparições”, e refuta a suposição, tida em alguns círculos “marianos”, que as aparições se presumem verdadeiras enquanto se aguarda o julgamento final de Roma.

De acordo com um post datado de hoje em “Medjugorje Today”, as viagens para os Estados Unidos foram canceladas: “as aparições públicas ao vidente Ivan Dragicevic, programadas no final de outubro, foram canceladas após as instruções do chefe da Congregação para a Doutrina da Fé. Os bispos americanos foram convidados a não permitir organizações [de eventos] que tomem as aparições como verdadeiras.”

A seguir, a tradução da carta:

Reverendíssimo Monsenhor Jenkins.

Escrevo a pedido de Sua Excelência, o Reverendíssimo Gerhard Ludwig Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que pede que os Bispos dos Estados Unidos sejam advertidos, mais uma vez, do seguinte (cf. minha carta de 27 de Fevereiro de 2013, com o mesmo número de protocolo ). Desta forma, Sua Excelência deseja informar os Bispos que um dos chamados videntes de Medjugorje, o Sr. Ivan Dragicevic, está programado para aparecer em certas paróquias de todo o país, ocasiões nas quais ele fará apresentações sobre o fenômeno de Medjugorje. Prevê-se, além disso, que o Sr. Dragicevic vai receber “aparições” durante estas apresentações agendadas.

Como o senhor bem sabe, a Congregação para a Doutrina da Fé está em processo de investigação de determinados aspectos doutrinários e disciplinares do fenômeno de Medjugorje. Por esta razão, a Congregação afirmou que, no que diz respeito à credibilidade das “aparições” em questão, todos devem aceitar a declaração, datada de 10 de Abril de 1991, dos bispos da antiga República da Iugoslávia, que afirma: “Com base na investigação que tem sido feita, não é possível afirmar que houve aparições ou revelações sobrenaturais.” Segue-se, portanto, que os clérigos e os fiéis não estão autorizados a participar de reuniões, conferências e celebrações públicas, durante as quais a credibilidade de tais “aparições” seria tomada como garantida.

Com o intuito, portanto, de evitar escândalo e confusão, o arcebispo Müller pede que os bispos sejam informados sobre este assunto o mais rápido possível.

Aproveito esta oportunidade para apresentar-lhe os meus sentimentos de profunda estima, e permaneço,

Sinceramente seu em Cristo,

+ Carlo Maria Viganò
Núncio Apostólico
———————-
Monsenhor Ronny Jenkins
Secretário-Geral da USCCB
3211 Fourth Street NE
Washington , DC 20017

 

22 outubro, 2013

“Há mais casamentos nulos hoje do que antes”.

RR - O Arcebispo Gerhard Muller considera que haverá actualmente mais casos de casamentos nulos do que no passado, devido ao desconhecimento da doutrina católica sobre o matrimónio.

Dom Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Dom Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Num longo artigo publicado no “L’Osservatore Romano”, o jornal do Vaticano, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé defende a actual posição católica de total inviolabilidade do casamento, desde que validamente celebrado.

Para Muller, contudo, haverá mais casos actualmente em que essa validade não existe: “A mentalidade contemporânea contrasta bastante com a compreensão cristã do matrimónio, sobretudo a respeito da sua indissolubilidade e abertura à vida. Uma vez que muitos cristãos são influenciados por tal contexto cultural, os casamentos são provavelmente mais frequentemente inválidos nos nossos dias do que eram no passado, estando ausente a vontade de se casarem segundo o sentido da doutrina matrimonial católica e havendo uma reduzida adesão a um contexto vital de fé”.

A Igreja Católica não aceita o divórcio, considerando que um casamento válido apenas termina com a morte de um dos esposos, pelo que as pessoas que vivem em segundas relações estão, na prática, em estado de adultério. Em alguns casos, porém, pode-se determinar que o primeiro casamento nunca o foi, por não reunir as condições necessárias para ser válido, o que deixa ambos livres para casar.

O artigo surge numa altura em que se começa a preparar um sínodo extraordinário para a família, que terá como particular enfoque a questão dos divorciados que vivem em segundas uniões. Actualmente, à luz das regras da Igreja, estas pessoas estão impedidas de receber os sacramentos da eucaristia e da confissão, enquanto insistirem em viver num estado irregular.

Muller faz um apanhado de diversos documentos da Igreja ao longo dos últimos anos que abordam este tema. Todos insistem na necessidade de se acolher da melhor forma as pessoas nestas situações, mas reafirmam a posição da Igreja.

Divórcio (pouco) ortodoxo
Recentemente, questionado sobre este assunto, o Papa referiu a prática das igrejas ortodoxas, sem todavia dizer se esta seria ou não uma solução a adoptar na Igreja Católica.

De facto, os ortodoxos permitem, em certas circunstâncias, um segundo casamento. A teologia ortodoxa justifica-o com o poder dado à Igreja de “ligar e desligar” e por uma questão de “oikonomia”, ou “misericórdia”. Isto é, sem rejeitar o ensinamento de Cristo de que o casamento é para toda a vida, a Igreja Ortodoxa reconhece que há situações em que por culpa dos cônjuges, ou de um deles em particular, esse ensinamento torna-se impraticável. Neste casos permite-se uma segunda união, que é regularizada pela Igreja.

Os ortodoxos reconhecem, todavia, que essa nunca é a solução ideal e por isso, nestes casos a própria cerimónia é de natureza penitencial, para que fique claro que resulta da fraqueza humana.

Neste seu artigo, contudo, Muller parece fechar definitivamente a porta a esta possibilidade na Igreja Católica: “Esta prática não é coerente com a vontade de Deus, claramente expressa nas palavras de Jesus sobre a indissolubilidade do matrimónio, e isto representa certamente uma questão ecuménica que não deve ser subestimada”.

O prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé recorda ainda que “às vezes diz-se que a Igreja tinha de facto tolerado a prática oriental, mas isso não é verdade. Os canonistas sempre falaram de uma prática abusiva e existem testemunhos de alguns grupos de cristãos ortodoxos que, tornando-se católicos, tinham de assinar uma confissão de fé na qual se referia explicitamente à impossibilidade de celebração de segundas ou terceiras núpcias”.

Para o arcebispo Muller a noção cristã de casamento é incompatível com uma visão secularizada: “Só é possível compreender e viver o matrimónio como sacramento no âmbito do mistério de Cristo. A secularização do matrimónio e a sua consideração como uma realidade puramente natural, impede o acesso à sua sacramentalidade”, diz.

Créditos: José Santiago Lima

* * *

O artigo de Dom Müller no Osservatore Romano pode ser lido aqui.

17 outubro, 2013

“Müller tem o dever de defender a sã doutrina da fé na Igreja, por isso deve abandonar essa ingenuidade e ser mais prudente”.

Duras palavras do Cardeal Cipriani Thorne a respeito de Dom Gerhard Müller e sua simpatia pela Teologia da Libertação.

Por Fratres in Unum.com – Com informações de Vatican Insider: Novo ataque do Cardeal Juan Luis Cipriani Thorne, arcebispo de Lima, ao Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Cardeal Cipriani Thorne.

Cardeal Cipriani Thorne.

Além da recente disputa entre Müller e Cipriani em torno da PUCP, que terminou numa vexatória derrota de Müller após sua intervenção em favor de seus amigos da Teologia da Libertação, há um mês, Cipriani fez duras críticas a Müller e agora ratifica sua posição em nova entrevista:

« Volto a qualificar (Müller) como um ingênuo. Gustavo Gutiérrez concelebrou a missa com o Papa junto a outros vinte e cinco sacerdotes. Ao fim da missa, o Papa saudou a todos e é o que fez com Gutuierrez. Não inventamos uma audiência e uma reconciliação ».

O jornalista, então, fez referência a uma resposta de Müller de que não se importaria de “ser ingênuo”, mas que considerava necessário “reconciliar” os “partidos” que existem dentro da Igreja; ao que Cipriani retrucou: « Não estou de acordo com a afirmação sobre partidos na Igreja. Creio que esteja equivocado. Dom Müller tem o dever de defender a sã doutrina da fé na Igreja, por isso deve abandonar essa ingenuidade e ser mais prudente. Digo isso com toda humildade ».

25 setembro, 2013

Nota sobre o suposto distanciamento do Papa Francisco em relação ao que “pensa Müller”.

No último 16, publicávamos o post “Isso pensa Müller, isso é o que ele pensa”. “Ouso dizer: a Igreja nunca esteve tão bem como hoje. O leitor Sérgio Coutinho nos alerta para o fato de que a fonte da matéria, um post no blog do renomado vaticanista Sandro Magister, simplesmente desapareceu. Não há, no entanto, um desmentido ou qualquer errata a respeito. Por sua vez, Andrea Tornielli, no Vatican Insider, afirma que as palavras de Francisco significariam não um distanciamento seu em relação ao pensamento de Müller sobre a Teologia da Libertação, mas sim à oportunidade de explicar melhor sua idéia sobre a centralidade dos pobres em uma próxima encíclica. Segundo Tornielli, a resposta “Isso pensa Müller, isso é o que ele pensa” « deixaria a entender que quem vê com bons olhos uma encíclica sobre os pobres e sobre a pobreza seria sobretudo o atual Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé ». Como não há uma transcrição oficial do diálogo entre o Papa e os sacerdotes de Roma que contemple esse trecho da conversa, infelizmente não é possível confirmar o que realmente ocorreu.

16 setembro, 2013

“Isso pensa Müller, isso é o que ele pensa”. “Ouso dizer: a Igreja nunca esteve tão bem como hoje”.

Por Sandro Magister | Tradução: Fratres in Unum.com - Durou mais de duas horas o encontro entre o Papa Francisco e os padres da sua diocese de Roma, na Basílica de São João de Latrão, na manhã de segunda, 16 de setembro.

O encontro foi realizada à portas fechadas. E um relato parcial do que o Papa disse foi fornecido algumas horas mais tarde por “L’Osservatore Romano” e pela Rádio Vaticano.

Mas em nenhum dos dois relatos apareceram duas piadas ditas pelo Papa sobre dois altos eclesiásticos.

A primeira foi grave e cortante. A segunda irônica.

Ao formular uma das cinco perguntas direcionadas ao Papa e para falar da centralidade dos pobres na pastoral, um padre se referiu positivamente à teologia da libertação e às posições simpáticas, em relação a esta teologia, do arcebispo Gerhard Ludwig Müller.

Mas ao ouvir o nome do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o Papa Francisco não permitiu concluir a pergunta e disse: “Isso pensa Müller, isso é o que ele pensa”.

A segunda era uma flechada contra o Cardeal Secretário de Estado que está de saída, Tarcisio Bertone.

O Papa Francesco sorriu quando um padre brincou sobre aqueles que colocam na sua cabeça que a Igreja é “una, santa, católica e salesiana”. E adicionou: “Una, Santa, Católica e Salesiana, como diz Cardeal Bertone”.

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Papa Francisco encontra o clero de Roma: “Ouso dizer: a Igreja nunca esteve tão bem como hoje”

E se vocês virem que eu perdi isto, por favor, me digam e se não puderem me dizer privadamente, digam publicamente, mas digam: ‘Olha, converta-te!’

Cidade do Vaticano (RV) – “Mesmo agora que sou Papa me sinto ainda um sacerdote”. Esta é uma das passagens chaves do diálogo que o Papa Francisco teve, na manhã desta segunda-feira, com os sacerdotes da Diocese de Roma, a sua Diocese, reunidos na Basílica São João de Latrão. A acolher o Papa, 20 minutos antes do previsto, foi o Cardeal Vigário Agostino Vallini, que na sua saudação comentou que este encontro foi programado pelo novo Bispo de Roma, logo após ter sido eleito.

“O que é o cansaço para um Sacerdote, para um Bispo e mesmo para o Bispo de Roma?” O Papa Francisco desenvolveu o seu pronunciamento introdutivo, detendo-se neste questionamento. E confiou que a inspiração lhe veio após ler a carta enviada por um sacerdote idoso, que justamente lhe falava sobre este cansaço, um “cansaço no coração”. “Existe – disse o Papa – um cansaço do trabalho e isto todos conhecemos. Chegamos de noite, cansados de trabalhar e passamos diante do Tabernáculo para saudar o Senhor. Sempre – advertiu – é necessário passar pelo Tabernáculo”:

Quando um sacerdote está em contato com o seu povo, se cansa. Quando um padre não está em contato com o seu povo, se cansa, mas mal e para dormir deve tomar um comprimido, não? Ao invés disso, aquele que está em contato com o povo – que de fato o povo tem tantas exigências, tantas exigências! Mas são as exigências de Deus, não? – este cansa realmente e não tem necessidade de tomar comprimidos”.

Existe, porém, um “cansaço final” – prosseguiu Francisco – que se vê antes do “crespúsculo da vida” onde “existe a luz escura e o escuro um pouco luminoso”. É “um cansaço que vem no momento em que deveria existir o triunfo”, mas ao invés disto “vem este cansaço”. Isto – afirmou – acontece quando “o sacerdote se questiona sobre sua existência, olha para trás, ao caminho percorrido e pensa nas renúncias, aos filhos que não teve e se pergunta se não errou, se a sua vida “falhou”. É justamente sobre o “cansaço do coração” de que o sacerdote escrevia na carta.

O Papa citou então, o cansaço em tantas figuras bíblicas, de Elias a Moisés, de Jeremias até João Batista. Este último, afirmou, na “escuridão da prisão” vive o “escuro de sua alma” e manda os seus discípulos perguntarem a Jesus se Ele é realmente aquele que estão esperando. O que pode fazer então um sacerdote que vive a experiência de João Batista? Rezar, “até dormir diante do Tabernáculo, mas estar ali”. E depois “procurar a proximidade com os outros padres, e sobretudo, com os bispos”:

Nós, Bispos, devemos ser próximos aos sacerdotes, devemos ser caridosos com o próximo e os mais próximos são os sacerdotes. Os mais próximos do Bispo são os sacerdotes. (aplausos). Vale também o contrário, eh! (risos e aplausos): o mais próximo dos padres deve ser o bispo, o mais próximo. A caridade para com o próximo, o mais próximo é o meu bispo. O Bispo diz: os mais próximos são os meus padres. É bonita esta troca, não? Isto, acredito, é o momento mais importante da proximidade, entre o bispo e os sacerdotes: este momento sem palavras, porque não existem palavras para este cansaço”.

A partir deste ponto, iniciou-se o diálogo do Papa Francisco com os sacerdotes, aos quais pediu para sentirem-se livres para perguntar qualquer coisa. Respondendo à primeira pergunta, o Papa Francisco disse que no serviço pastoral, não deve se “confundir a criatividade com fazer alguma coisa nova”. A criatividade – afirmou – “é buscar o caminho para que o Evangelho seja anunciado” e isto “não é fácil”. Criatividade “não é somente mudar as coisas”. É uma outra coisa, vem do Espírito e se faz com a oração e se faz falando com os fiéis, com as pessoas. O Papa, então, recordou uma experiência vivida quando era Arcebispo de Buenos Aires. Com um sacerdote, disse, procurava entender como tornar a sua igreja mais acolhedora:

Ah, se passa tanta gente aqui, talvez seria bonito que a igreja ficasse aberta durante todo o dia…Boa idéia! Também seria bonito que tivesse sempre um confessor à disposição, alí…Boa idéia! E assim foi”.

Esta – acrescentou – é uma ‘corajosa criatividade’. Também em relação aos cursos em preparação ao Batismo “é necessário superar o obstáculo dos pais e das mães que trabalham toda a semana e no domingo gostariam de repousar”. Então, é necessário “buscar novos caminhos”, como uma “missão no bairro” promovida pelos leigos. E esta é a “conversão pastoral”. A Igreja, “também o Código de Direito canônico nos dá tantas, tantas possibilidades, tanta liberdade para buscarmos estas coisas”. É necessário – destacou – procurar os momentos de acolhida, quando os fiéis devem ir à paróquia por um motivo ou outro. E criticou severamente quem, numa paróquia, está mais preocupado em pedir dinheiro por um certificado que pelo Sacramento e assim “afastam as pessoas”. É necessário, ao invés disto, “a acolhida cordial”: “que aquele que venha à igreja se sinta como na sua casa. Se sinta bem. Que não se sinta explorado”:

“Um sacerdote, uma vez – não da minha Diocese, de uma outra -, me dizia: ‘Mas, eu não faço pagar nada, nem mesmo as intenções da Missa. Tenho alí uma caixa e eles deixam aquilo que querem. Mas Padre: tenho quase o dobro do que tinha anteriormente. Porque as pessoas são generosas, e Deus abençoa estas coisas’.

“Se, ao invés disto, a pessoa vê que existe um interesse econômico, então se afasta”, observou Francisco. O Papa então, respondeu a quem lhe perguntava como ele se define agora, visto que, como Arcebispo de Buenos Aires, gostava definir-se simplesmente como ‘sacerdote’:

“Mas, eu me sinto padre, é sério. Eu me sinto padre, sacerdote, é verdade, bispo…Me sinto assim, não? E agradeço ao Senhor por isto. (aplausos) Teria medo de sentir-me um pouco mais importante, não? Isto sim, tenho medo disto, pois o diabo é esperto, eh!, é esperto e te faz sentir que agora tu tem poder, que tu pode fazer isto, que tu podes fazer quilo…mas sempre girando, girando em volta, como um leão – assim diz São Pedro, não! Mas graças a Deus, isto não perdi, ainda, não? E se vocês virem que eu perdi isto, por favor, me digam e se não puderem me dizer privadamente, digam publicamente, mas digam: ‘Olha, converta-te!’, porque está claro, não?” (aplausos)|

Após, o Santo Padre falou sobre os sacerdotes misericordiosos. Um padre enamorado – disse – deve sempre recordar-se do primeiro amor, de Jesus, “retornar àquela fidelidade que permanece sempre e nos espera”. Para mim, isto é “o ponto-chave de um sacerdote enamorado: que tenha a capacidade de voltar à recordação do primeiro amor”. E acrescentou: “uma Igreja que perde a memória, é uma Igreja eletrônica: não tem vida”. Assim, é necessário guardar-se dos padres rigorosos e negligentes. O sacerdote misericordioso – afirmou – é aquele que diz a verdade mas acrescenta: “Não te apavores, o Deus bom te espera, Caminhemos juntos”. A isto acrescentou: “devemos tê-lo sempre sob os olhos: acompanhar. Ser companheiros de caminho”. “A conversão sempre se faz assim – disse – a caminho e não no laboratório”.

“A verdade de Deus é esta verdade, digamos assim dogmática, para dizer uma palavra, ou moral, mas acompanhada do amor e da paciência de Deus, sempre assim”.

“Na Igreja – acrescentou – existem certos escândalos mas também tanta santidade e esta é maior. E existe também esta “santidade cotidiana”, escondida, “aquela santidade de tantas mães e de tantas mulheres, de tantos homens que trabalham todo o dia pela família”. Palavras estas acompanhadas de um encorajadora convicção:

“Eu ouso dizer que a Igreja nunca esteve tão bem como hoje. A Igreja não cai: estou seguro disto, estou seguro!”

O Papa então, voltou ao tema das periferias existenciais, retomando as suas palavra sobre “conventos vazios” e a generosidade para com os mais necessitados. Por fim, refletiu sobre o tema da família, e em particular, sobre a delicada questão da nulidade dos matrimônios e sobre as segundas uniões. “Um problema – recordou – que Bento XVI tinha no seu coração”. “O problema não pode ser reduzido à questão do fazer a comunhão ou não – afirmou – porque quem coloca o problema somente nestes termos não entende qual é o verdadeiro problema”.

“É um problema grave – observou – de responsabilidade da Igreja em relação às famílias que vivem esta situação”. A Igreja – afirmou ainda – neste momento deve fazer alguma coisa para resolver os problemas das nulidades matrimoniais. Um tema sobre o qual falará com o grupo dos 8 Cardeais que se reunirão nos primeiros dias de outubro, no Vaticano. E será tratado também no próximo Sínodo dos Bispos, pois é uma verdadeira “periferia existencial”.

Por fim, o Papa Francisco recordou que no próximo 21 de setembro recorre o 60º aniversário de sua vocação ao sacerdócio. (JE)

9 setembro, 2013

Boa noite pra você.

O Papa Francisco receberá Gustavo Gutiérrez em audiência em breve. É o que anunciou ontem, em Mântua (que o santo Giuseppe Sarto, seu antigo bispo, não mande fogo do céu), Dom Gerhard Müller, co-autor com Gutiérrez de um livro sem graça e sem sucesso de 2004, requentado na semana passada pelo Osservatore Romano. Müller foi recebido na última sexta-feira pelo Santo Padre; alguns imaginaram que ele poderia ter sido chamado para receber um puxão de orelha pela tentativa de reabilitação da Teologia da Libertação. Com a informação de que Gutierrez será recebido por Francisco, essa hipótese parece inverossímil.

Ah, sim. Müller também declarou que Dom Oscar Romero será beatificado logo.

Boa noite pra você, bom recesso para nós.