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5 agosto, 2014

Arquidiocese do Rio de Janeiro: diálogo com as culturas, concessão ao PT… E a Fé, onde fica?

Por Catarina Maria B. de Almeida | Fratres in Unum.com – Ainda na sequência da lamentável reversão da medida tomada pela Arquidiocese do Rio de Janeiro de proibir o uso da Imagem do Cristo Redentor para um filme secular que incluía conteúdo desrespeitoso à Fé Católica, várias notícias conflitantes têm circulado na imprensa e nas redes sociais nos últimos dias.

o-padre-omar-raposo-reitor-do-santuario-do-cristo-redentor-informou-nesta-sexta-feira-17-que-a-mao-direita-da-estatua-simbolo-do-rio-de-janeiro-foi-danificada-por-raios-o-negocio-foi-feio-ontem-la-1389986406957_956x500Recentemente, publicamos a matéria do jornalista Merval Pereira, do jornal O Globo, sobre a ameaça que a Ministra de Cultura Marta Suplicy teria feito de retirar da Igreja Católica a tutela sobre a imagem do Cristo Redentor. Mais tarde, o mesmo articulista escreveria que tanto a Ministra quanto o Cardeal do Rio de Janeiro Dom Orani Tempesta o teriam contatado cordialmente para dizer que não era bem assim, e que não havia qualquer ameaça nesse sentido.

Por outro lado, em seu perfil de Facebook, a própria Ministra da Cultura publicou a seguinte Nota de Esclarecimento:

Não procedem e nem são verdadeiros os fatos relatados na coluna do jornalista Merval Pereira no jornal O Globo de hoje. Jamais existiu nenhum tipo de ação ou pressão que tenha envolvido o governo brasileiro seja através do Ministério da Cultura ou de qualquer outra instância governamental, frente à questão da imagem do Cristo Redentor.

O único contato que mantive com o Cardeal Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, foi há três semanas quando lhe telefonei para saber como estava a situação sobre o uso da imagem do Cristo em filme do cineasta José Padilha. O Cardeal disse que já estava tudo resolvido, e toda conversa foi de forma amistosa. Marta Suplicy

Que conclusões poderíamos tirar de todas essas informações e contrainformações?

A primeira delas é que se essa nota no perfil de Facebook da ministra data de 1º de agosto e ela afirma que seu único contato com o Cardeal Orani Tempesta havia se dado há três semanas, temos um problema matemático sério e relativamente simples: a liberação do uso de imagem para o filme ocorreu no dia 21 de julho, conforme o comunicado da assessoria de imprensa da Conspiração Filmes. Três semanas equivaleria a apenas 1 ou 2 dias após a veemente proibição do uso da imagem, publicada no dia 9 de julho no site da Arquidiocese e atualizada no dia 10 de julho. Teria a Arquidiocese mudado da água para o vinho em apenas dois dias? Ou algo, digamos, muito convincente…, teria feito a Cúria mudar de ideia?

Em segundo lugar, assim como o jornalista Merval Pereira do O Globo checou suas fontes em Brasília, Fratres in Unum.com está em condições de afirmar que:

Algo entendido como uma ameaça vinda da Ministra Marta Suplicy teria efetivamente circulado pelo edifício João Paulo II, sede da Cúria Arquidiocesana. Podemos inclusive confirmar a ocorrência de uma reunião, convocada em caráter de emergência, na parte da tarde daquele dia 1º, dia da publicação da matéria de Merval Pereira. Dela teriam participado o Cardeal Dom Orani João Tempesta, grande parte de seus Bispos auxiliares, a assessoria de imprensa da Mitra e quatro padres que assessoram o alto clero do Rio. Um dos itens da agenda teria sido a investigação sobre a origem do vazamento de informações, ou seja, se ela tinha ocorrido nas dependências da Cúria ou em Brasília.

Afinal, o que haveria por trás dessa bizarra manobra para reverter decisões tomadas há tão pouco tempo e, em seguida, desmentir rumores de pressões por parte de um governo de comprovada inimizade com os interesses da Igreja Católica, sobretudo, na figura de uma ministra que sempre foi defensora ardorosa do aborto, do “casamento gay” e de toda sorte de perversões morais? Como pode a inteligência média entender que aquilo que no dia 9 de julho era um “atentado contra a Fé Católica e caracterizava crime de vilipêndio” deixa de sê-lo em cerca de apenas dez dias? Seria preciso um enorme malabarismo mental para compreender tamanha contradição, o que está fora do alcance de nossas pobres mentes. Ainda mais quando a Arquidiocese não faz questão alguma de explicar as razões de sua mudança.

E em meio a tanto caos, nos deparamos com um esdrúxulo editorial do jornal arquidiocesano Testemunho de Fé, de autoria do bispo auxiliar Dom Edson de Castro Homem, que transcrevemos abaixo integralmente:

“A polêmica, o diálogo, a balela

Não só o diálogo é frutuoso para o conhecimento e a existência. Também a polêmica. Inclusive para o debate cultural, filosófico e até religioso. Há quem viva dele e para ele.

Parece fácil definir a polêmica. Ao grosso modo, é o debate oral e escrito. Portanto, discursivo. Supõe e até exige controvérsia e questionamento. O mínimo de inteligência. Muitas vezes, réplica e tréplica, e por aí vai. Há quem polemize a vida toda até morrer. Com a morte, o silêncio.

É possível definir o diálogo, mesmo sem o recurso ao dicionário, enquanto fala ou escrita entre dois. É também discursivo. Sempre em conversação ou forma teatral. Difícil é o diálogo que coresponda à verdade em si, ou dos fatos, ou das intenções. Na filosofia parece que, desde o posicionamento dialogal platônico, se quer alcançar à presunção da verdade, seja ela qual for, através da polêmica. Dialogar não passaria de método dialético de expressão. Na conversação, até os sofistas são postos.

O século 20 foi marcado por duas grandes guerras e outras menores, inclusive a guerra fria. A primeira a cem anos atrás. Convivemos com duas ideologias que se opuseram e até influenciaram a Igreja Católica pós-conciliar, gerando sofrimentos. A do conflito a qualquer preço, baseada nas diversas formas de pensamento hegeliano e marxista e a do diálogo a todo custo, movida pelo ideal cooperativista. “A Igreja no Concílio Vaticano II optou pelo diálogo, motivada pelo Evangelho e o chamado “sinal dos tempos”. O problema é que o próprio amor é gerador de conflitos. Que o diga Jesus, profeta da paz, considerado “sinal de contradição” (Lc 2, 34), cuja mensagem é cheia de paradoxos linguísticos, nem sempre dialogantes, Ele disse: “Penais que vim para estabelecer a paz sobre a Terra? Não, eu vos digo, mas a divisão” (Lc 12, 49). Também suas atitudes foram polêmicas ou provocadoras. Geraram conflitos de interpretações. Em parte, conduziram-no à morte de cruz.

Tais reflexões ocorrem diante da polêmica, mais uma vez envolvendo a arquidiocese, o Cristo Redentor do Corcovado e a liberdade de expressão artística e cultural. Não precisamos entrar em detalhes conhecidos. Necessitamos, sim, ilustrar o que para muitos é ainda desconhecido. A Igreja, de fato, decidiu escolher o diálogo como atitude pastoral. Entretanto, só possui cerca de 50 anos de prática dialogante. Engatinha. O próprio diálogo, dentro e fora da Igreja, enquanto conteúdo teórico e prático ainda está se construindo. É pouco para uma instituição de dois mil anos. Isso explica, mas não justifica. Erros e acertos, idas e vindas, no ato de dialogar e até no modo de polemizar, quando precisa.

Verdade seja dita: antes do Concílio, a Igreja oficial polemizava contra os erros do mundo moderno. Sua posição era de ataque e de defesa. Apologética. Por usa vez, o mundo moderno inaugurara a polêmica contra ela, em todas as frentes de combate, desde o século das Luzes.

Houve quem estivesse determinado em destruí-la. A rejeição se tornara sistemática e implacável. Portanto, o estranhamento se fizera recíproco. Entende-se por que, quando hoje se discorda de ensinamentos da Igreja ou de atitudes de alguns de seus líderes, logo há quem se volte aos fatos de intolerância reprováveis de sua história, sem considerar o quanto a ela se deve de civilizatório e de humanitário.

Em muitos setores, no mundo contemporâneo retornam as suspeitas contra a Igreja, que se comprovam quando há discordâncias.  Abrem-se as feridas. O diálogo que ela propõe parece, então, ser mais estratégico do que verdadeiro. No entanto, a pastoral eclesial não vive de estratégias, mas de verdade de intenções e de ações, ainda que dependam do preparo, despreparo e limitação das pessoas. Quanto à polêmica, é claro que para o artista e o homem contemporâneo, a arte não pode ser censurada. É fina a sensibilidade do criador diante da obra. O belo toca e é tocado pelo sublime. Exige reverência, mais que aplauso. Também o religioso toca e é tocado pelo belo, sem o qual a mediação do Sagrado, que é inefável, ofusca-se. Pior, emudece. A beleza do Cristo resplandece também na arte sacra e litúrgica e devocional. Em Maria, nos anjos e santos. Na sagrada liturgia. Pela sutil diferença entre o artista e o religioso, é possível o reencontro no diálogo do mútuo reconhecimento desejável. Além da polêmica e a tempo. O resto é pura discussão e balela.” (Edição 856 do jornal Testemunho de Fé de 27/07/14 – os grifos são nossos)”

Caro leitor, você entendeu o que a Arquidiocese do Rio de Janeiro quer nos dizer com essas linhas? Que “fatos de intolerância reprováveis de sua história” seriam esses que o senhor bispo menciona? Seriam acaso os esforços missionários de incansáveis padres, religiosos e leigos que gastaram suas vidas na evangelização durante vinte séculos? Teria a Santa Igreja Católica errado ao condenar os erros do mundo moderno antes do Concílio? Será que a Igreja Dialogante dos últimos cinquenta anos é a única que conta? Não somos mais a Igreja Militante, que luta pela instauração do Reinado de Cristo em todos os âmbitos, defendendo nossa fé, nossos símbolos e valores religiosos em uma sociedade cada vez mais secularizada e materialista?

Questionamos ainda: a Arquidiocese do Rio, quando proibiu o uso da imagem do Cristo, promoveu a polêmica? Pouquíssimo tempo depois, converteu-se ao diálogo? Ou tudo isso é pura balela de gente que se move conforme interesses mesquinhos e mundanos, antepondo privilégios a Cristo e escondendo debaixo da bandeira do “diálogo” a sua própria pusilanimidade?

Roguemos ao Bom Deus, por intercessão de São João Maria Vianney e São Domingos de Gusmão, cujas festas celebramos neste mês, que nos dê pastores santos, corajosos e coerentes, que não tenham medo de denunciar os lobos e chamá-los pelo que realmente são, conduzindo-nos pelas veredas da fé e da verdade. Que o monumento do Cristo Redentor não seja reduzido a um mero ponto de encontro para o “diálogo entre culturas, religiões e diversidades”, mas continue sendo um belo e imponente símbolo de nossa fé, digno de respeito e proteção.

 

1 agosto, 2014

Cúria quase perde Cristo.

Por Merval Pereira – O Globo, 1 de agosto de 2014

Chega de Brasília uma informação que pode ser considerada bizarra, mas que também pode ter implicações mais graves. No impasse acerca do filme de José Padilha sobre o Rio, que a Cúria Metropolitana vetou inicialmente por considerar que a figura do Cristo Redentor havia sido desrespeitada, mas depois liberou, a ministra da Cultura Marta Suplicy fez chegar ao cardeal Dom Orani Tempesta uma ameaça de, através de um decreto presidencial que já estaria pronto, retirar da Igreja Católica a tutela sobre a imagem que está implantada no Parque Nacional da Tijuca, sob o controle da União.

Ministra da Cultura Marta Suplicy – Foto: Clayton de Souza / AE

O monumento foi erigido em área cedida pela União à Arquidiocese do Rio na década de 1930, mas o acesso à estátua é realizado pelo Parque Nacional da Tijuca, administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.

Recentemente, a imagem do Cristo Redentor foi eleita, em votação pela internet no mundo todo, uma das modernas Sete Maravilhas do Mundo. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, que também atuou para liberar o filme, disse que chegou a conversar com Dom Orani tentando mostrar que a imagem do Cristo Redentor é um ícone da cidade do Rio, e que como tal também deveria ser tratada e não apenas como um santuário religioso. Mas garante que em nenhum momento soube de qualquer tentativa de retirar da Igreja Católica os direitos sobre a imagem.

Os direitos de uso comercial do Cristo no Corcovado pertencem desde 1980 à Mitra Arquiepiscopal do Rio de Janeiro, e em outubro de 2006, para comemorar seus 75 anos, a estátua foi transformada num santuário católico. Há também, na base do monumento, uma capela católica devotada a Nossa Senhora Aparecida.

A Arquidiocese do Rio de Janeiro não autorizou o uso da imagem do Cristo no filme Inútil paisagem, dirigido por José Padilha, por considerá-lo inicialmente desrespeitoso. Ele é um dos dez curtas que compõem o longa-metragem Rio, eu te amo, da franquia Cities of love .

Em uma sequência do curta, o personagem interpretado por Wagner Moura, durante um voo de asa-delta, conversa com a estátua do Cristo reclamando da vida, dos seus dissabores e da violência da cidade que ele deveria proteger.

O filme foi enviado para a apreciação da arquidiocese em março, tendo sido vetado. Segundo a assessoria de imprensa da Arquidiocese do Rio na ocasião, há cenas no filme em questão que foram consideradas ofensivas à imagem do Cristo e, consequentemente, à casa dos católicos. É uma prática absolutamente normal da Arquidiocese a não autorização de qualquer produto audiovisual que avance nesse caminho .

Dias depois, diante da reação negativa à decisão, considerada uma censura artística, o Vicariato para a Comunicação Social e a Assessoria de Imprensa da Arquidiocese anunciaram em nota a reversão da medida, pois haviam chegado à conclusão de que o episódio não visou interesse religioso no trato à imagem do Cristo Redentor, e portanto não houve desrespeito ao Cristo ou à religião católica .

O excesso de zelo dos encarregados pela imagem do Cristo, sem levar em conta o lado icônico não religioso da estátua que representa a cidade do Rio de Janeiro no mundo, pode levar a uma excessiva intervenção governamental que seria muito bem recebida em setores da sociedade contrários a esse controle da Igreja Católica sobre o monumento.

30 maio, 2014

Depois de Dom Steiner, Dom Orani.

Leia também: Secretário geral da CNBB diz que uniões entre pessoas do mesmo sexo precisam de amparo legal.

Intolerância e discriminação são mote de campanha da Igreja no Rio

O Globo – Um dia depois de o secretário-geral e porta-voz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Leonardo Steiner, defender o amparo legal para pessoas do mesmo sexo que decidam viver juntas, a Igreja, a Organização das Nações Unidas (ONU) e diversas ONGs lançaram ontem aos pés do Cristo Redentor uma campanha contra a discriminação e a intolerância.

Preconceito de gênero, raça, idade e sexualidade estão entre os temas abordados pela campanha Zero Discriminação. À frente do encontro, o cardeal do Rio, Dom Orani Tempesta, lamentou que a discriminação prejudique até opções religiosas. Dentro da Igreja Católica, o debate sobre a união homossexual ainda é tímido, mas, segundo ele, fundamentado no respeito aos gays.

Orani defendeu o discurso de Leonardo Steiner.

— Dom Leonardo falou sobre o respeito a outras pessoas, à não-discriminação, e que, como qualquer outra associação civil, (os homossexuais) devem ter seus direitos garantidos — ressaltou Tempesta. — O que ele disse é o que tem sido sempre falado pela Igreja, que uma coisa (a união civil gay, do ponto de vista legal) não se confunde com matrimônio, mas que ao mesmo tempo deve haver respeito.

Para o cardeal, o preconceito ganhou força na sociedade, mesmo com o avanço do conhecimento humano.

Secretário-geral adjunto da ONU e diretor-executivo adjunto do Unaids, Luiz Loures alertou que a epidemia da Aids levantou muitos preconceitos, além da discriminação ao portador do HIV.

— A Aids mostrou diversos tipos de discriminação, como aquelas ligadas a gênero, raça, sexualidade, além da xenofobia — assinalou. — A única forma de responder a esta crise é em conjunto, porque a discriminação passa de uma minoria às outras.

Dois netos do líder sul-africano Nélson Mandela também participaram do evento.

— A discriminação, seja ela contra pobres, mulheres, negros, homossexuais ou soropositivos, segue o mesmo princípio: o do medo e da falta de conhecimento — afirmou Ndaba Mandela, coordenador da ONG Africa Rising Foundation.

Kweku Mandela, produtor de filmes, acrescentou:

— A discriminação por classe social é ainda mais grave.

3 fevereiro, 2014

‘Igreja de Francisco não é mais aquela que só se defendia’, diz dom Orani.

Folha de São Paulo – D. Orani Tempesta, 65, já tirou as medidas da roupa que vai usar no dia 22 de fevereiro, na Basília de São Pedro.

Nesse dia, sob as bençãos do papa Francisco, ele se tornará o mais novo cardeal brasileiro e passará a fazer parte do restrito grupo de 120 homens que, além de serem responsáveis por discutir os rumos da Igreja, têm o poder de escolher o ocupante do cargo máximo na hierarquia católica.

Anfitrião do papa em sua primeira viagem internacional – a ida ao Rio para participar da Jornada Mundial da Juventude, em junho de 2013– dom Orani diz que a Igreja mudou em menos de um ano de pontificado de Francisco.

“Ele procurou tornar a Igreja mais proativa, que toma a iniciativa. Não é mais aquela que só se defendia, respondendo às questões, mas sim a que propõe as questões”. Afirma também que as dívidas de cerca de R$ 90 milhões deixadas pela Jornada estão equacionadas e promete que em breve todos os fornecedores do evento serão pagos.

“A Jornada mostra que o bem que a Igreja faz vai além do interesse econômico. Fazemos o bem, mesmo que tenhamos que pagar por isso.”

Folha – Como o senhor recebeu a notícia de que seria cardeal?
Dom Orani - Tinha celebrado a missa das oito na TV Brasil e ia visitar várias paróquias. No celular tenho um aplicativo para seguir o papa. Estava no carro escutando o papa Francisco no aplicativo. Ele começou a falar do consistório [reunião de cardeais com o papa] e percebi que ele ia anunciar os novos cardeais. Ouvi meu nome e me deu um calafrio. ‘Meu Deus do céu, onde eu fui parar agora?’. É uma responsabilidade muito maior. Foi um dia inteiro de repórteres andando atrás de mim, subindo e descendo as ladeiras do Pavão-Pavãozinho [favela íngreme em Ipanema]. Dei uma canseira em todo mundo naquele dia.

Mas sua nomeação era tida como certa há algum tempo…
Falam desde que vim para o Rio [em 2009], por causa da tradição de se ter um cardeal na Arquidiocese. Mas o papa é livre para nomear quem ele quiser. Não é porque a cidade é sede cardinalícia, ou porque alguém já é bispo há muito tempo. Isso quem resolve é o papa, ainda mais o papa Francisco.

O que mudou na igreja nesse quase um ano do pontificado de Francisco?
É natural termos agora um papa mais aberto para o mundo. Bento 16 foi um professor, aprofundando questões teológicas. Agora temos um latino americano, jesuíta até no modo de falar, e que, imagino, esteja colocando em prática muitas coisas que ouviu no consistório e que a Igreja não sabia como fazer. Bento 16 teve um trabalho muito importante de reflexão e a Igreja precisa desse aprofundamento. Nesse ponto ele é imbatível. Já o papa Francisco, sem deixar de olhar a teologia, é mais da proximidade. Ele fala e faz. Fala dos problemas sociais e vai a Lampedusa ver os prófugos; chama o mundo inteiro para jejuar para que não se joguem mais bombas na Síria. Lida com as questões da Igreja e começa a atuar para sua reformulação, também com atitudes, como simplificar onde vai morar, o carro que vai usar…
O que ele põe em prática é o que está no documento da 5ª Conferência da Celam (Conselho Episcopal Latino-Americano) [a conferência aconteceu em Aparecida, em 2007, e o então cardeal Bergoglio foi o coordenador do texto final]. Foi esse documento que ele entregou para a presidente Dilma. Aliás, ela me contou que o papa entregou uma cópia para ela toda marcada com clipes e disse que ela não precisava ler tudo, só os pedacinhos marcados. Só não sei quais pedacinhos ele marcou.

A dedicação de Bento 16 às questões teológicas não tornou a Igreja mais distante dos católicos?
O papa Francisco procurou tornar a igreja mais proativa, que toma a iniciativa. Não é mais aquela que se defende respondendo às questões, mas sim a que propõe as questões. Quando vamos evangelizar, o primeiro anúncio, como chamamos, é o anúncio alegre, de perdão, de misericórdia, de que Deus te ama. Em qualquer curso de evangelização o esquema é esse. Bento 16, como teólogo, já tinha uma coisa mais fechada, de pensar nas questões teológicas, mas o papa Francisco tem um jeito mais pastoral, da Igreja que quer levar uma boa notícia para as pessoas. Uma vez que a pessoa percebe o quanto é amada por Deus, se começa a mudar a vida. Aí podem surgir os novos conceitos. Francisco pegou esse esquema de evangelização; Bento nem falava disso. É uma questão de jeito. Em seus escritos Bento 16 dizia a mesma coisa, mas ele é um intelectual e apresenta isso de outra forma.

A Jornada Mundial da Juventude, no Rio, foi o ponto de partida para essa mudança na forma de ação?
A Jornada foi uma apresentação do papa, de seu programa, para o mundo e para a Igreja. O que ele falou aqui para os bispos sobre teologia, para a sociedade sobre questões sociais, foram as linhas principais do que depois surgiu no documento que escreveu ["Alegria do Evangelho", divulgado em novembro de 2013]

Antes de o papa chegar ao Rio, houve vários problemas relativos à Jornada, como a mudança do lugar, a discussão sobre sua segurança…
Se você soubesse o trabalho que deu para convencer todo mundo que ele podia vir de carro sem blindagem, que podia andar com o papamóvel… Meu Deus do céu, não foi fácil. Diziam que ele não podia andar de carro aberto porque alguém em um prédio podia dar um tiro. Mas para ser do jeito que eles queriam, sem ver o povo, nem adiantava vir. Foi uma luta. Só conseguimos porque o papa quis assim e se responsabilizou. E quando ele chega, deu aquilo, por erro da Polícia Federal.

O sr. estava no carro com o papa quando ele foi cercado por populares no centro do Rio?
Estava no carro atrás. Não vi direito o que acontecia e não entendia porque, se tinha uma via livre no meio, enfiaram a gente no meio daquele povo todo. Quando o comboio parou, achei que o papa tinha pedido, mas meu celular começou a tocar e as pessoas diziam para eu mandar o papa fechar a janela. Que janela? O que está acontecendo? Ali foi o batismo. Depois daquilo, não precisava ter medo de mais nada. Imagina só, na apresentação do papa ao mundo me acontece um negócio daquele! Mas o papa tirou de dez a zero.

E naquela noite ainda houve uma manifestação violenta na porta do Palácio Guanabara, onde ele era recebido pela presidente Dilma e outras autoridades. Quais foram as impressões do papa?
Lá dentro não tínhamos dimensão do que acontecia, então queríamos que o papa fosse cumprimentar o pessoal lá fora. Mas a segurança brasileira não deixou. Quando voltamos para o Sumaré [residência oficial da Arquidiocese do Rio], ele estava muito contente, ria contando como o povo quase entrou pela janela do carro. Ele viu como uma bela manifestação, não como um erro da polícia. Então, por circunstâncias não pensadas e não desejadas tudo deu certo.

A interdição da área de Guaratiba por causa das chuvas e a transferência para a praia de Copacabana está nesse caso?
Claro que depois do fato concretizado ficou bonito, mas na cabeça da gente Guaratiba seria um apogeu, tudo muito planejado. Em Copacabana tivemos que arrumar tudo de última hora. Se tivesse dado muito certo em Guaratiba seria uma glória nossa, mas como foi em Copacabana, o que ficou foi que Deus fez as coisas porque não tínhamos planejado e pensado [dom Orani ri].

O evento deixou uma dívida em torno de R$ 90 milhões…
Quando planejamos tudo direitinho, não ficaria nenhuma dívida

O que causou a dívida, então?
Primeiro, a mudança do local inicialmente previsto, a Base Aérea de Santa Cruz, para Guaratiba. Na Base não teríamos que fazer terraplenagem, asfaltar. Mas por questões da presidência da República tivemos que mudar de lugar. Depois, tínhamos muita gente -no último dia eram 3,5 milhões de pessoas na praia-, mas o número de inscrições foi menor que o de Madri [em 2011]. Lá foram 500 mil inscritos, aqui tivemos pouco mais de 300 mil. Terceiro, tivemos que transferir tudo para Copacabana. A dívida está sendo negociada, mais um pouco e terminamos de pagar todos os fornecedores. Já pagamos todos os funcionários. Ainda estamos fazendo campanhas e o dinheiro está pingando. Quando chegar o dinheiro do papa [que doou R$ 11 milhões para ajudar a saldar a dívida], vamos ver quanto ainda fica faltando.

O papa já demonstrou ser muito preocupado com as finanças da Igreja. Ele deu algum puxão de orelha na Arquidiocese por causa do déficit da JMJ?
Não.

Como se chegou à decisão de ele contribuir?
Por iniciativa dele. Ainda aqui ele disse que queria contribuir porque a Jornada era um trabalho para o mundo inteiro. Dissemos que assim que tivéssemos uma visão de como ficariam as coisas, repassaríamos para ele. Quando a CNBB esteve lá, ele cobrou. Mandamos um relatório e ele nos disse que ia contribuir.

Como são as cobranças dele? Ele já ligou alguma vez para o sr.?
Não. A não ser que ele tenha ligado e eu não tenha atendido, como aconteceu com as freiras [no início do ano Francisco ligou para um convento. Não foi atendido e deixou um recado na secretária eletrônica].

O sr. é arcebispo de uma cidade que enfrentou um ano difícil, com uma série de manifestações violentas. Qual sua avaliação sobre esses movimentos?
Ao mesmo tempo que é positivo as pessoas se manifestarem, há grupos que nem sempre tem um objetivo. Um movimento que não tem uma cabeça e está cheio de ideias corre o risco de infiltrações. Reivindicação tem que ser feita de forma que se respeite o outro.

Nas missas o sr. fala sobre isso?
Dependo do tema que a palavra de Deus me coloca, não posso inventar um tema a meu bel prazer. Mas a palavra de Deus pode ser atualizada. Tem que falar da violência, da desagregação, saúde, transporte, habitação, mas não basta só ter bem estar social, é preciso amar um ao outro, cuidar da parte religiosa. Precisamos partir do amor ao próximo para ter um mundo diferente e a Jornada mostrou isso. Tivemos problemas, grupos que queriam cometer violências, blasfemaram contra imagens. Houve fila para ônibus, para comer, um frio danado Mas não houve violência. Claro que vamos lutar por questões sociais, mas é preciso desarmar os corações. A gente passa tão rápido pelo mundo, daqui a pouco somos só um monte de ossos, por que não passar para fazer o bem?

O que o sr. diria para os jovens que simularam atos sexuais e quebraram imagens sacras durante a Jornada?
Que, apesar do que fizeram, Deus os ama. O que eles fizeram é contra eles mesmos. No que essas imagens atrapalham a vida deles? Sabemos que são só representações, mas o que eles diriam se alguém pegasse a imagem da mãe ou do pai de um deles e fizesse a mesma coisa? Lamento que eles tenham perdido tempo fazendo isso. Tem tanta coisa importante para fazer no mundo.

O papa Francisco tem feito uma “faxina” no Vaticano, não só em questões financeiras, mas também com relação a problemas ligados a suspeitas de pedofilia, homossexualismo. O sr. enfrentou problemas semelhantes no Rio em algum momento?
Todo lugar onde chegamos tem sempre muita coisa para fazer. E quando eu deixar, quem vier também terá muito o que fazer. Nunca se chega à perfeição.

Qual a situação financeira da cúria, que mesmo tendo vários imóveis não parece passar por um momento confortável?
As pessoas misturam as coisas. O patrimônio não é da Arquidiocese. Tem as irmandades, casas religiosas que têm propriedades. Nem tudo que falam que é da Igreja é da Arquidiocese. Estamos fazendo levantamento para saber quais são nossos imóveis, como estão sendo
cuidados.

Mas a situação é difícil, péssima ou boa?
É equilibrada.

A Jornada foi um bom negócio?
Financeiro, não. Isso mostra que o bem que a Igreja faz vai além do interesse econômico. Fazemos o bem, mesmo que tenhamos que pagar por isso.

Qual sua avaliação sobre a substituição de dom Odilo Scherer na comissão que supervisiona o Banco do Vaticano?
Não vejo isso como nada contra dom Odilo ou sua capacidade. É como em qualquer empresa: você pode ser um ótimo chefe, mas mesmo assim resolvem trocar para mudar algum outro aspecto. De vez em quando é bom deixar que outras pessoas sintam o peso.

*

RAIO-X: DOM ORANI TEMPESTA

IDADE 65 anos

TRAJETÓRIA Bispo da diocese de São José do Rio Preto (1997-2004), arcebispo de Belém (2004- 2009) e do Rio (desde 2009)

FORMAÇÃO Filosofia no Mosteiro de São Bento e teologia no Instituto Pio 11, em São Paulo

6 setembro, 2013

Segundo Mônica Bergamo, Dom Orani teria almoçado com José Dirceu para pedir conselhos sobre dívidas da JMJ. De acordo com Veja, “Gilberto Carvalho também está se movimentando para ajudar a Igreja”.

Dívidas da Jornada Mundial da Juventude: A articulada colunista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo e da Band News FM, afirma que Dom Orani Tempesta, Arcebispo do Rio, contactou inclusive o lobista consultor (de grandes empresas que dependem do governo) José Dirceu, condenado à prisão por sua atuação no caso do Mensalão, para pedir ajuda. Seria importante que a Arquidiocese viesse a público esclarecer este fato.

Por dívidas, organizadores da Jornada Mundial da Juventude venderão cemitério

Por Mônica Bergamo | Folha de São Paulo – Depois de se desfazer do prédio do hospital Quinta D’Or, no Rio, para saldar dívidas da visita do papa Francisco ao Brasil, os religiosos que organizaram a Jornada Mundial da Juventude preparam outra tacada: vão colocar à venda o cemitério do Catumbi, na mesma cidade.

PAPA
O espaço é de uma ordem religiosa, que espera arrecadar cerca de R$ 80 milhões com o negócio. Os recursos seriam repassados como empréstimo para o Instituto Jornada Mundial da Juventude. Estima-se que o rombo da festa estrelada pelo pontífice ultrapasse os R$ 100 milhões.

PAPA 2
A venda do cemitério deve esbarrar em alguns percalços na atração de investidores. O local tem muitos jazigos eternos. E ainda precisa de autorização para construir crematório e cemitério vertical.

PAPA 3
O aperto é tão grande que dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio, pediu ajuda até a José Dirceu para resolver os problemas. O religioso é amigo de Evanise Santos, ex-mulher do petista, com quem almoçou recentemente e também conversou sobre o assunto. O ex-ministro aconselhou os religiosos justamente a vender patrimônio, escapando de juros de empréstimos bancários.

* * *

[Atualização - 6 de setembro de 2013, às 15:23]

José Dirceu e o vermelho da Igreja

Por Lauro Jardim – Veja | Além de José Dirceu, conforme Mônica Bergamo revelou hoje na Folha de S. Paulo, Gilberto Carvalho também está se movimentando para ajudar a Igreja, que tem dívidas de 100 milhões de reais deixadas pela Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

Entre os encontros que Dirceu teve para ajudar a  tirar o vermelho da JMJ, um foi com o advogado Sérgio Bermudes e outro com dom Orani Tempesta.

26 agosto, 2013

Para pagar dívidas da Jornada, igreja vende prédio no Rio.

Folha de São Paulo – A Arquidiocese do Rio está se desfazendo de parte do patrimônio da Igreja Católica para tentar saldar a dívida deixada pela Jornada Mundial da Juventude.

Um prédio em São Cristóvão, bairro da zona norte da cidade, está sendo vendido para a Rede D’Or de hospitais por R$ 46 milhões. No imóvel funciona, desde 2001, o hospital Quinta D’Or.
O prédio pertence à Casa do Pobre de Nossa Senhora de Copacabana, entidade ligada à igreja. Estava alugado à Rede D’Or desde a inauguração do hospital.

Com o fim da Jornada, em 28 de julho, o arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, procurou empresários para conversar, em busca de uma solução para a dívida –cujo montante não foi revelado.

Uma das ideias que surgiram dessas conversas foi a venda do prédio onde, até os anos 80, funcionou o Hospital São Francisco de Paula, da Ordem de São Francisco dos Mínimos.
Há duas semanas, foi assinada uma escritura de promessa de compra e venda entre a Casa do Pobre de Nossa Senhora de Copacabana e a Rede D’Or.

Procurado pela Folha, o vice-presidente do comitê organizador da Jornada, dom Paulo Cezar Costa, hesitou em dar detalhes sobre a negociação. “Isso não está totalmente concretizado.”
Mas o bispo reconheceu que está sendo feito um levantamento dos imóveis da igreja que poderão ser usados para quitar as dívidas.

“Não pensamos em vender muitos imóveis, até porque nem temos muitos imóveis para vender.” A direção da Rede D’Or confirmou à Folha a compra do prédio.

Pouco antes do início da Jornada Mundial da Juventude, o comitê organizador estimou que o custo do encontro internacional de jovens católicos, que teve a presença do papa Francisco, pudesse custar até R$ 350 milhões, dos quais pouco mais de R$ 100 milhões viriam dos governos federal, estadual e municipal.

Segundo a igreja, a principal fonte de receita da Jornada estaria nas inscrições de 427 mil peregrinos, que pagaram entre R$ 100 e R$ 600 para ter direito a pacotes que incluíam alimentação, transporte e hospedagem.

A Arquidiocese do Rio, no entanto, não informa qual foi o valor arrecadado.

“Ainda vai levar algum tempo para chegar aos números definitivos da Jornada”, disse dom Paulo Cezar.

19 julho, 2013

Ad limina Santanorum.

Da coluna de Sonia Racy no Estadão de 16 de julho de 2013: Orani Tempesta, arcebispo do Rio, recebeu ontem Luan Santana. Para conhecer melhor o cantor antes de sua apresentação, durante a Jornada Mundial da Juventude.

10 abril, 2013

Permanece a lenga-lenga: Dom Orani nega que JMJ pagará cachê, mas não desmente presença de quem quer que seja!

Arcebispo do Rio de Janeiro não desmente que organização tenha contactado, convidado ou negociado presença de cantores de músicas incompatíveis com a Moral Católica, nem rechaça suas eventuais participações na JMJ. “Se alguém for se apresentar, será como voluntário, pois a comissão da JMJ não vai pagar cachês”. Ótimo, avisem a Satanás que, se quiser vir ao Rio, nada de caixinha.

Estadão – Aparecida – O estilo e as primeiras orientações do papa Francisco, eleito sucessor de Bento XVI no dia 13 de março, prometem dar a tônica da 51ª Assembleia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), iniciada nesta quarta-feira em Aparecida (SP), com presença de 361 participantes. “Quais serão as consequências em nosso País das palavras de Francisco, quando ele diz que quer uma Igreja pobre para os pobres?”, perguntou no plenário o bispo de Jales (SP), d. Luiz Demétrio Valentini.

A resposta virá da definição, nos próximos dias, da discussão do tema central da assembleia, que busca um novo conceito de paróquia, apresentada como comunidade de comunidades, uma preocupação do documento da 5ª Conferência Geral do Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe, inaugurada por Bento XVI em Aparecida, em maio de 2007. “Igreja pobre para os pobres significa uma Igreja mais simples, mais presente, mais junto do povo e comprometida com a evangelização”, disse o franciscano d. Severino Clasen, bispo de Caçador (SC) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato. “E deve ter também um rosto alegre e uma palavra de alegria, de dignidade e de defesa do direito”, acrescentou.

A eleição de Francisco está mudando igualmente a programação da vinda do papa ao Rio para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), na segunda quinzena de julho. O reitor da Pontifícia Universidade Católica de Minas (PUC Minas), d. Joaquim Mol Guimarães, bispo auxiliar de Belo Horizonte, informou que Francisco será convidado para o encerramento do Congresso Mundial de Universidades Católicas, dia 21 de julho, em Belo Horizonte.

“O convite ainda não seguiu, mas está em processo de encaminhamento, prevê a antecipação da chegada do papa ao Brasil, prevista para 23 de julho”, adiantou d. Mol. O arcebispo do Rio de Janeiro, d. Orani João Tempesta, afirmou que não vê inconveniência no fato de a programação do papa começar por Minas, três dias antes do início da JMJ. “Vai depender dele, o papa faz o que acha melhor”, observou.

O cardeal-arcebispo de Aparecida e presidente da CNBB, d. Raymundo Damasceno Assis, informou aos bispos que provavelmente até o encerramento da assembleia, dia 19, o Vaticano divulgará a programação da viagem do papa, com locais e datas a serem visitados. O cardeal espera que Francisco inclua Aparecida no roteiro, atendendo a um convite seu, conforme ele adiantou à presidente Dilma Rousseff, ao recebê-la em audiência no dia 20 de março, em Roma.

Logística

Uma comissão encarregada da logística da viagem deverá vir ao Rio nas primeiras semanas de maio, dois meses antes da chegada do papa, informou d. Orani. Como tudo mudou após a renúncia de Bento XVI, cuja agenda seria mais restrita, por causa da idade e de seu estado de saúde, o arcebispo planeja ampliar os compromissos de Francisco dentro do novo contexto. “Gostaria que o papa visitasse uma favela, a ser ainda definida, e uma casa de jovens reclusos, além de rezar aos pés do Cristo Redentor, no Corcovado”, adiantou d. Orani, Tudo será submetido ao Vaticano e à análise da equipe do governo brasileiro responsável pelo planejamento da programação. “Nada ainda de oficial”, advertiu.

O arcebispo desmentiu informações divulgadas na imprensa de que a organização da JMJ teria contratado artistas famosos, entre os quais Michel Teló, para cantar nas celebrações do papa. “Se alguém for se apresentar, será como voluntário, pois a comissão da JMJ não vai pagar cachês”, disse d. Orani.

A Arquidiocese do Rio admite que haja uma participação de até 2 milhões de pessoas, contando-se os fiéis e curiosos que queiram ver o papa. “Não significa que todos sejam inscritos”, observou d. Orani. Até o fim da semana passada, havia 200 mil inscrições, um terço do total previsto. As vagas para hospedagem por enquanto superam as inscrições, mas o quadro deverá inverter-se, porque os interessados tendem a aumentar à medida que se aproxima a data da JMJ.

13 fevereiro, 2013

“Só podia ser a Canção Nova”.

29 janeiro, 2013

Gays “católicos praticantes” buscam seu espaço na Igreja. Sob o olhar “caridoso” da Arquidiocese do Rio e do Arcebispo de Maringá.

Você, caro leitor, costuma receber resposta aos e-mails enviados à sua diocese solicitando a Missa Tradicional, o uso do confessionário, a pregação da sã doutrina? Bem, no Rio de Janeiro e em Maringá as autoridades são muito solícitas, mas para outras questões.

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O Estado de São Paulo – A psicóloga Cristiana Serra, de 38 anos, brinca que deve sua união com a confeiteira Juliana Luvizaro, de 32, ao papa Bento XVI.

Não há nenhum tom desrespeitoso na brincadeira. É que, no Natal de 2008, o pontífice fez um pronunciamento em que considerou tão importante “salvar” a humanidade do comportamento gay quanto livrar as florestas do desmatamento. Indignada, Juliana mandou e-mail à Arquidiocese do Rio. Dizia que era gay e católica, mas que uma restrição da própria Igreja poderia fazê-la deixar a religião.

Juliana conta que recebeu de um padre da arquidiocese uma resposta “mais que amorosa” e a sugestão de entrar em contato com o padre Luís Corrêa Lima [notícia no Fratres aqui e aqui], que coordena um grupo de pesquisa sobre diversidade sexual na PUC-RJ. Esse contato a levou ao Diversidade Católica, um grupo leigo de reflexão, oração e debate formado por gays católicos, em que conheceu Cristiana.

As duas estão juntas desde março de 2009 e há três anos formalizaram em cartório a união estável. Têm expectativa de convertê-la em casamento civil.

Cristiana e Juliana fazem parte de um movimento de gays católicos praticantes que pretendem conciliar as duas identidades. Nos últimos anos, eles têm se reunido em espaços como o Diversidade Católica, no Rio, e a Pastoral da Diversidade, em São Paulo. Participam de celebrações, estudam, trocam experiências. No cotidiano, frequentam igrejas e muitas vezes participam das atividades paroquiais.

Os grupos têm o apoio de alguns padres, como d. Anuar Battisti (mais informações nesta pág.), que atuam com discrição para evitar sanções da hierarquia da Igreja, como o silêncio (restrição a entrevistas e pronunciamentos públicos), já imposto a alguns sacerdotes.

A doutrina católica, reforçada nos textos e discursos do papa Bento XVI, acolhe o homossexual, mas condena a prática da homossexualidade. E rejeita vigorosamente a união de pessoas do mesmo sexo e mais ainda a adoção de crianças por esses casais.

Para mostrar o outro lado da Igreja, os integrantes do Diversidade Católica recorrem a palavras do próprio Bento XVI: “A Igreja não é apenas os outros, não é apenas a hierarquia, o papa e os bispos; a Igreja somos nós todos, os batizados”. Como primeiro passo, eles querem participar da vida religiosa sem ter de esconder que são gays, como relatam terem feito durante anos.

Vivências. Após infância e adolescência vividas no ambiente católico, o empresário Arnaldo Adnet, um dos fundadores do Diversidade Católica, se afastou da Igreja no período em que assumiu ser gay. Anos depois, quando retornou à religião, ia discretamente à missa aos domingos, na Igreja da Ressurreição. Aos poucos, passou a participar da vida da paróquia. Foi chamado para cantar no coro e fez parte da coordenação pastoral. “Para mim, dizer que sou católico é que foi sair do armário“, diz Adnet, que vai às missas dominicais com o companheiro e a mãe.

Cristiana e Juliana frequentavam as missas de um padre “acolhedor” no bairro da Glória e, após se mudaram para Copacabana, também passaram a ir na Igreja da Ressurreição. “A gente vê gays antirreligiosos e, entre os religiosos, a homofobia é cada vez mais arraigada. Isso tende a obscurecer um campo intermediário que fica silencioso, por não ser tão extremista. A polarização impede o diálogo”, diz Cristiana.

Histórias de acolhimento e rejeição se alternam. Um rapaz que cumpria atividades em uma paróquia conta que, ao revelar ao padre que era homossexual, foi perdendo suas funções. Na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em Madri, em 2011, ele encaminhou por escrito, sem esperança de ser atendido, uma pergunta ao arcebispo do Rio, d. Orani Tempesta, sobre como a Igreja lida com a presença dos gays católicos. O rapaz se surpreendeu ao ver que sua pergunta foi respondida por d. Orani, que, segundo ele, pregou a existência de uma Igreja para todos. Hoje, o rapaz participa da organização da nova edição da JMJ, que ocorrerá em julho no Rio, com a presença de Bento XVI.

Em São Paulo, os integrantes Pastoral da Diversidade, que não tem vínculo com a arquidiocese, reúnem-se a cada 15 dias em uma missa comandada pelo padre inglês James Alison, na casa do sacerdote ou em espaços de ONGs.

Por ter deixado a ordem dominicana e não ser subordinado à hierarquia da Igreja, Alison fala sem restrições. Ele sustenta que a Igreja parte de um pressuposto equivocado ao considerar que a homossexualidade vai contra a natureza e, portanto, não pode ser aceita como prática.

“Será verdade que os gays são héteros defeituosos ou será que é uma variante minoritária e não patológica da condição humana? Na medida em que a sociedade se dá conta de que não é um defeito, a situação vai mudando, queira a hierarquia da Igreja ou não”, diz Alison. “Expus minha consciência há 17 anos e eles (autoridades do Vaticano) nunca me chamaram a dar explicações. Eles têm uma dificuldade sobre qual é o meu status canônico como padre. A única razão por que posso falar abertamente é que não tenho nada a perder”, afirma.

Créditos ao leitor Lucas Janusckiewicz Coletta.

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Ele já se desculpou por viver em um país católico, tomou cafézinho com líder homossexual e prometeu propor aos bispos do Brasil a criação da “Pastoral da Diversidade” e mobilizou toda uma arquidiocese contra uma usina de incineração de lixo. Entrevista com o Arcebispo de Maringá, PR, Dom Anuar Battisti.

“Uma conversão de todos nós se faz necessária”.

O Estado de São Paulo – Em meados do ano passado, o convite para a Passeata LGBT de Maringá (PR) trazia a imagem da catedral da cidade atingida por um facho de luz transformado em arco-íris. A Arquidiocese de Maringá protestou e o conflito se tornou diálogo. O arcebispo de Maringá, d. Anuar Battisti, convidou participantes de vários grupos para uma reunião. Nesta entrevista por e-mail, d. Anuar fala sobre essa experiência.

Como o episódio do convite para a Parada LGBT de maringá refletiu no seu ponto de vista em relação à comunidade homossexual?

Tudo começou com o cartaz. Esse fato abriu um caminho de diálogo no qual prevaleceu a compreensão e o respeito. Na oportunidade foi nos solicitada uma pastoral da diversidade.

É possível que católicos gays possam viver a vida religiosa, recebendo sacramentos, indo à missa e participando das atividades das paróquias sem terem de esconder que são gays?

Todos têm o direito de participar da sua comunidade religiosa, independentemente da sua orientação sexual. Nenhuma religião tem o direito de excluir. Diante do direito também temos os deveres. Por isso devemos fazer um longo caminho para acolher a todos plenamente. No caso da questão da homossexualidade, devemos acolher os que têm essa orientação, o que não significa que devemos concordar com a prática homossexual. As nossas comunidades ainda não estão preparadas para acolher essas pessoas. Uma conversão de todos nós se faz necessária, mesmo sabendo que a doutrina e as normas são para todos.

O diálogo entre Igreja e gays pode se intensificar?

Estamos longe de uma aproximação verdadeira. Algumas experiências isoladas estão acontecendo, mas não avançam como resposta efetiva.