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28 agosto, 2015

As ordenações do IBP em São Paulo.

Por Manoel Gonzaga Castro* – FratresInUnum.com: No último sábado, 22 de agosto, na festa de Nossa Senhora Rainha, ocorreu em São Paulo um evento de grande importância para o avanço da Tradição litúrgica no Brasil: as ordenações presbiterais de Tomás Parra e de Pedro Gubitoso e diaconais de José Luiz Zucchi e Thiago Bonifácio pelo Instituto do Bom Pastor, todos eles sendo vocações oriundas da Associação Cultural Montfort, fundada pelo Professor Orlando Fedeli.

Esse tipo de ordenações realizadas segundo a forma extraordinária não ocorria há décadas na Arquidiocese de São Paulo, atualmente regida pelo Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer, o qual, por esta e outras, já começa a ser considerado pelos tradicionalistas paulistanos como um protetor silencioso da Tradição.

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Ordenandos prestam juramento anti-modernista diante do Pe. Philippe Laguérie, Superior do IBP

Segue abaixo um relato mais estendido desse evento, que foi transmitido ao vivo por Fratres in Unum (lamentavelmente, o vídeo foi retirado do ar posteriormente pelos seus proprietários). Aqui nos voltamos para o passado, recordamos os recentes acontecimentos e nos projetamos para o futuro da Missa Tridentina no Brasil.

A Associação Cultural Montfort e seus vocacionados

Fundada em 1983 como uma dissidência da TFP, a Montfort, à época, travou contato com grupos clericais tradicionalistas que estavam em situação canônica irregular – os antigos “Padres de Campos” e o Mosteiro de Nova Friburgo – para enviar suas vocações sacerdotais e religiosas. Porém, por circunstâncias diversas, essas vocações nunca conseguiram prosperar de forma permanente nesses ambientes, dados os conflitos que surgiram entre as lideranças religiosas dessas entidades e o Professor Fedeli.

Essa situação acabou bloqueando o desenvolvimento religioso da Montfort no panorama tradicionalista brasileiro e fez com que seus membros se dedicassem especialmente à formação de famílias numerosas ao longo dos anos 1990 e início dos anos 2000.

Qualquer alternativa – seja considerada irregular, como a FSSPX, seja legal, como a Fraternidade São Pedro ou a Administração Apostólica São João Maria Vianney – era terminantemente rechaçada por serem eivadas de erros graves, segundo a associação.

Isso levou, inclusive, a Montfort a buscar alternativas próprias, como a visita do Professor Orlando Fedeli ao Monsenhor do Opus Dei Antonio Livi, da Universidade Lateranense de Roma, com vistas a abrir um seminário no Brasil, ideia que, no entanto, não prosperou.

A fundação do IBP: novas esperanças para a Montfort.

Em 2006, com a fundação do Instituto do Bom Pastor, finalmente se abriu uma nova porta para as vocações do grupo Montfort, pois esse instituto teria como prerrogativa a oposição doutrinária ao Concílio Vaticano II e à Missa de Paulo VI.

Diferentemente da Administração Apostólica, o IBP não seria “traidor”, segundo o grupo — embora Dom Rifan, à época, tenha afirmado que sua ajuda foi solicitada pelos fundadores do IBP, o que ele prontamente correspondeu, indo a França interceder pelos padres junto ao Cardeal Ricard, com quem tinham uma relação muito conturbada, e a outros bispos; não é demais recordar que o Padre Paul Aulagnier, um dos fundadores do IBP, foi expulso da FSSPX justamente por ter apoiado a regularização canônica de Campos e por ter comparecido à sagração episcopal de Dom Rifan. Essa crença da Montfort no IBP acarretou inclusive um intenso debate com o site Veritatis Splendor naquela época.

Como que um golpe da Providência, no momento de fundação do IBP, os filhos dos casamentos dos anos 1980 e 1990 dos membros da associação já estavam maduros para um eventual seminário.

Dessa forma, em 2008, o IBP – graças à ligação entre o Pe. Rafael Navas Ortiz e o Professor Fedeli e os recursos de membros da associação – já tinha aberto uma casa em São Paulo, nas cercanias do Colégio São Mauro e da sede da Montfort. Essa aliança durou apenas alguns meses, vindo o Prof. Fedeli a entrar em conflito com as lideranças do IBP, que o acusavam de querer dominar a formação a ser dada a seus candidatos. Conforme justificou o Pe. Laguérie, na ocasição, o Professor Fedeli apresentava notoriamente a intenção de chegar ao núcleo do IBP por meio de seus candidatos.

Mais informações sobre a querela do IBP com a Montfort em 2008 podem ser consultadas nos arquivos de Fratres in Unum.

Nova fase: a nova liderança e o relacionamento com o IBP

Dessa forma, as relações entre o IBP e a Montfort não iam bem sob o polêmico Fedeli, tanto que elas ensejaram a dispensa do hoje Pe. Edivaldo Oliveira do instituto, em 2010.

Naquele mesmo ano, o Prof. Fedeli veio a falecer e foi substituído por Alberto Zucchi, pragmático, que afastou-se de confrontos com as lideranças do Bom Pastor, procurando apoiar sempre a corrente majoritária do já dividido instituto.

A prova de fogo dessa postura ocorreu durante a crise institucional do Bom Pastor, que se passou entre 2011 e 2013, com auge em 2012. Conforme Guilherme Chenta, nessa crise, enfrentaram-se duas alas: a dos fundadores do IBP e a dos jovens, sendo que a primeira era dócil às instruções de Mons. Guido Pozzo, de acordo com a hermenêutica da continuidade, e a segunda arredia.

Na disputa, a Montfort liderada por Alberto Zucchi inicialmente apoiou a ala dos jovens, capitaneada pelo Pe. Stefano Carusi (comprova-o os seguidos elogios da Montfort ao site do Padre Carusi, a participação dele em eventos da entidade e a carta-manifesto dos seminaristas, entre os quais os ordenados em São Paulo no último dia 22, defendendo uma não aceitação das indicações de Roma), mas no final acabou ficando com o vencedor Pe. Laguérie, mais maleável às exigências da Ecclesia Dei de Mons. Guido Pozzo.

Pe. Carusi, abandonado por seus antigos apoiadores, deixou o instituto e acabou fundado a Associação Clerical São Gregório Magno. Com isso, após essa crise, os fundadores do IBP puderam se certificar da lealdade de suas vocações montfortianas.

A preparação próxima para as ordenações

Passada a crise, a Montfort, finalmente, obteve do IBP que as ordenações de seus membros ocorressem em São Paulo, pois se tornava financeiramente inviável levar toda a comunidade para as cerimônias na França.

Com os ordenandos já no Brasil, em julho, iniciou-se uma intensa movimentação de preparação para o dia 22 de agosto, com vistas a facilitar a futura alocação dessas vocações brasileiras do IBP no território nacional, o que é atualmente uma das questões centrais relacionadas ao desenvolvimento do instituto, uma vez obtido o aval das autoridades.

Sendo assim, os futuros sacerdotes do Bom Pastor já foram apresentados ao público paulistano, em solene missa no Mosteiro de São Bento, no dia 19 de julho, por ocasião do encerramento da 4ª Oficina de Canto Gregoriano, organizada pelo regente Enio Liu.

O sermão ficou a cargo do diácono Pedro Gubitoso, ladeado pelo diácono Tomás Parra, todo o evento sendo registrado pelos membros da Montfort.

Sermão do diácono Pedro Gubitoso, registrado pelos membros da Associação Cultural Montfort (Mosteiro de São Bento, SP, 19 de julho de 2015)

Sermão do diácono Pedro Gubitoso, registrado pelos membros da Associação Cultural Montfort (Mosteiro de São Bento, SP, 19 de julho de 2015)

Além disso, apesar do alto custo financeiro com passagens e com hospedagens, estiveram presentes em Curitiba-PR, no último final de semana, 8 membros do IBP, entre os quais, o Padre Renato Coelho e os quatro ordenandos.

Como de costume, o presidente da Montfort, o Sr. Alberto Zucchi, também tomou parte na comitiva para auxiliar nas articulações.

Na ocasião, os membros do IBP Brasil palestraram em um congresso sobre a família, promovido pela associação de leigos São Pio V, e promoveram a sagrada liturgia tridentina em cerimônia ao longo do evento:

Palestra do Seminarista Ivan Chudzik

Palestra do Seminarista Ivan Chudzik

Missa durante o Congresso

Missa durante o Congresso

Apesar do número diminuto de participantes, essa ação foi importante devido ao fato de Curitiba estar sem missa na forma extraordinária, por conta do falecimento do Pe. Paulo Lubel, que era o responsável pela aplicação do Summorum Pontificum na capital paranaense.

Pe. Lubel faleceu aos 78 anos de idade, no dia 16 de junho. Por isso, há hoje em Curitiba um coetus fidelium organizado não atendido por nenhum sacerdote, e esse coetus poderia servir de base para a instalação do IBP no local.

Dado o vácuo que surgiu em Curitiba, Dom Fernando Rifan generosamente já decidiu colocar o Padre Jonas Lisboa à disposição dos fiéis curitibanos todo terceiro domingo do mês, apesar de o Pe. Jonas ter sido nomeado recentemente pelo cardeal de São Paulo, Dom Odilo, capelão da Igreja de Santa Luzia.

De Curitiba, a missão do IBP partiu para a cidade de Guarapuava, no interior do estado, onde permaneceu durante os dias 27, 28 e 29 de julho. A ida do Bom Pastor para Guarapuava teve como dificuldade o fato de o coetus fidelium local receber também visitas da FSSPX.

Outra movimentação importante pré-ordenações se deu em Belo Horizonte, no dia 1º de agosto, quando ocorreu o 1º Congresso Montfort de Minas Gerais, semelhante ao 1º Congresso Montfort do Nordeste, ocorrido em abril deste ano, e que contou com a presença do Pe. Luiz Fernando Pasquotto.

Por causa da proibição de Dom Walmor para o IBP em sua diocese, o Pe. Pasquotto, inicialmente cogitado para celebrar a missa de encerramento desse congresso, foi substituído pelo Padre Jefferson Pimenta, pároco na Diocese de Santo André e amigo da associação há algum tempo. Pe. Jefferson aproveitou a oportunidade em que estava na cidade para ordenação segundo a forma ordinária de um amigo.

Por outro lado, esse congresso teve como palestrante o então subdiácono Thiago Bonifácio, natural de Minas Gerais, o que lhe permitiu tentar manter unido o grupo de apoiadores do IBP na cidade, para momentos mais favoráveis.

Por ocasião do Congresso, participantes relataram que Alberto Zucchi se queixou a respeito da atuação de Dom Fernando Rifan, que, segundo ele, estaria minando a ação do IBP no Brasil.

Esperamos que essa rivalidade entre as partes seja superada em breve, evitando uma luta fratricida que só prejudica a difusão da Santa Missa tradicional.

Ainda, um último movimento da Montfort-IBP diz respeito à diocese de Limeira, que também ficou sem missa segunda a forma extraordinária por causa do adoecimento do Cônego Aldomiro, conforme noticiado por Fratres in Unum.

Por fim, no último dia 15 de agosto, houve a peregrinação da Montfort a Aparecida, assistida pelos clérigos do IBP, o que revela também uma abertura do Cardeal Dom Raymundo Damasceno, arcebispo local e ex-presidente da CNBB (2011 – 2015). É sempre gratificante ver a Missa na forma extraordinária ser celebrada no coração católico do Brasil:

Pe. Renato Coelho, IBP-SP, celebra a Santa Missa por ocasião da VI Peregrinação da Montfort à Aparecida

Pe. Renato Coelho, IBP-SP, celebra a Santa Missa por ocasião da VI Peregrinação da Montfort à Aparecida

Já no dia 21 de agosto, véspera das ordenações, houve uma apresentação musical no Mosteiro de São Bento, ocasião que se pôde ouvir o belo canto dos seminaristas do Bom Pastor.

Infelizmente, alguns ouvintes do concerto não ligados ao grupo Montfort, por não apoiarem sua linha de atuação, relataram à nossa reportagem que foram hostilizados, especialmente por presidente da instituição que, segundo afirmaram, em eventos do tipo costuma andar para todos os lados a vigiar tudo e todos.

Uma celebração da unidade e da paz litúrgica

A cerimônia de ordenação dos brasileiros do IBP transcorreu por mais de 4 horas, enchendo o coração dos fiéis e dos ordenandos.

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Conforme relatado no site do Pe. Daniel Pinheiro, superior do IBP no Brasil:

Os fiéis puderam seguir com grande fruto todas as cerimônias do rito de ordenação. Entre elas, destacam-se algumas. Primeiramente, a prostração, durante o canto das Ladainhas de Todos os Santos, dos que serão ordenados: reconhecem que nada são diante de Deus e imploram o auxílio de Deus, de Nossa Senhora, de todos os anjos e Santos. Depois a imposição das mãos e a as palavras da ordenação, que são a essência do sacramento, constituindo-os sacerdotes do Altíssimo. A consagração das mãos feita com o óleo sagrado, para que possa tocar no Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. A casula desdobrada no final da cerimônia, significando o poder de absolver os pecados. Enfim, todas as riquíssimas cerimônias da Igreja, que, ao mesmo tempo, explicam o que se está fazendo e merecem graças diante de Deus. Cerimônias em que o céu toca a terra.

Além da cerimônia em si, um traço realmente belo e marcante da cerimônia foi a grande manifestação de unidade do clero ligado à liturgia tradicional em São Paulo. Afora os padres estrangeiros (Pe. Philippe Laguérie e Pe. Paul Aulagnier, antigos cooperadores de Dom Marcel Lefebvre) e brasileiros do IBP (Daniel Pinheiro, Renato Coelho e Luiz Pasquotto), merece destaque as presenças do Pe. João Paulo Rizek, da Arquidiocese de São Paulo; do Pe Marcelo Tenório, da Arquidiocese de Campo Grande; do Pe. Jefferson Pimenta, da diocese de Santo André; do Pe. Roberto Miranda, de Mococa; além, é claro, do Pe. Edivaldo Oliveira, que atualmente está desenvolvendo seu apostolado em São Paulo, junto ao Colégio São Mauro. Estiveram presentes também seminaristas do Mater Ecclesiae.

Toda essa integração mostra uma busca de comunhão com a Igreja local e nacional, um caminho decidido em direção à paz litúrgica querida pelos últimos Papas no contexto da Nova Evangelização.

Pequenos desconfortos

Apesar da excelente notícia, causou desconforto nos ordenandos e no grupo Montfort o fato de Dom Schneider, bispo ordenante, revelar, frequente e publicamente, uma longa amizade a com a antiga TFP (hoje IPCO) e uma admiração por Plínio Corrêa de Oliveira.

Dom Schneider concede entrevista a Fratres in Unum, na sede do IPCO, em São Paulo.

Dom Schneider concede entrevista a Fratres in Unum, na sede do IPCO, em São Paulo.

A escolha inicial era Dom Fernando Guimarães, atual arcebispo do Ordinariato Militar do Brasil. Dom Guimarães é profundo conhecedor das posições e das questões tradicionalistas, visto que foi secretário pessoal do Cardeal Dario Castrillon Hoyos na Ecclesia Dei, quando foram celebrados os acordos de regularização da Administração Apostólica São João Maria Vianney e do Instituto do Bom Pastor. O então Pe. Guimarães também participou da preparação do Motu Proprio Summorum Pontificum. O arcebispo, todavia, viu-se impedido de atender ao convite por motivos médicos.

À esquerda, o então Pe. Fernando Guimarães com os fundadores do IBP e o Cardeal Hoyos. Roma, 2006.

À esquerda, o então Pe. Fernando Guimarães com os fundadores do IBP e o Cardeal Hoyos. Roma, 2006.

Atualmente, a Montfort tem adotado a política de rechaçar toda entidade ou indivíduo que tenha qualquer contato com o IPCO, ainda que meramente circunstancial. Já se tornou notório, nesse sentido, o caso da expulsão de Guilherme Chenta por ele ter participado da palestra do Prof. De Mattei em 2013.

Ainda recentemente, um importante sacerdotes paulista, ligado ao combate à ideologia de gênero no País, teve seu convite para palestrar sobre São Tomás no Colégio São Mauro cancelado, após ele ter sido questionado pela viúva Ivone Fedeli sobre seus contatos circunstanciais com o IPCO na luta em defesa da família tradicional.

Embora adote essa política, a Montfort optou, dessa vez, por não se manifestar contra a amizade de Dom Schneider com o IPCO, para não colocar em risco a ordenação de suas vocações. A mesma estratégia foi adotada em relação ao Cardeal Raymond Burke.

Outro pequeno desconforto para a Montfort foi a presença de Guilherme Chenta na cerimônia. Tido como proscrito pela associação pela denúncia daquilo que chama de tradirromantismo, isto é, a crença da Montfort de que uma posição anti-Vaticano II e anti-Missa de Paulo VI seja aprovada por Roma, ele desafiou recentemente Alberto Zucchi para um debate ao vivo via Youtube, mas não foi correspondido.

Ausências notáveis

Apesar da grande quantidade de clérigos na cerimônia, foram notáveis as ausências do Pe. Jonas Lisbôa, da Administração Apostólica São João Maria Vianney; do Pe. Almir de Andrade, hoje também na Administração; do Pe. Rafael Navas Ortiz; do Pe. Renato Leite, primeiro superior do IBP no Brasil; e do Pe. Rafael Scolaro, companheiro dos ordenados no seminário do IBP por muitos anos, mas que, ao fim, optou por se unir à Administração Apostólica.

Pe Almir de Andrade (à esquerda) recebe comitiva da Montfort junto com Dom Augustine Di Noia na Comissão Ecclesia Dei, 2012.

Pe Almir de Andrade (à esquerda) recebe comitiva da Montfort junto com Dom Augustine Di Noia na Comissão Ecclesia Dei, 2012.

Pe. Jonas, com efeito, em movimento positivamente surpreendente da Montfort, foi pessoalmente convidado para estar presente. Já o Pe. Almir, agora morando em Campos-RJ, já foi frequente palestrante nos Congressos Montfort e amigo íntimo do grupo. Pe. Navas, por sua vez, foi a primeira ponte entre as vocações da Montfort e o IBP.

Uma presença inusitada e bela

Chamou atenção, por fim, a presença de Wagner Zucchi, irmão de Alberto. Wagner havia sido proscrito do grupo no início dos anos 2000 por ter aceitado a hermenêutica da continuidade quanto ao Vaticano II e a Missa Nova e, assim, ter ficado ao lado de Dom Fernando Rifan.

Wagner, na época, contra-atacou, em carta que foi publicada no site Veritatis Splendor. Nela, Wagner disse duramente que a Montfort estava deixando de ser católica:

Não sei como o senhor me conheceu, mas suas informações são exatas: fui da TFP de 1974 a 1982 e da Montfort desde a fundação desta associação até 2002, quando me afastei devido a graves problemas doutrinários e morais desta associação.

Eles não são mais católicos que o próprio catolicismo, se me permite discordar. Eles estão lentamente e, em muitos casos, inconscientemente, deixando de ser católicos, criando uma igreja autocéfala. Eles ainda se dizem submissos à Hierarquia da Igreja, mas repare como eles escolhem nos documentos da Igreja aquilo que lhes convém aceitar e obedecer.

Apesar de tudo isso, Alberto colocou Wagner na primeira fileira a seu lado na cerimônia, em gesto de reconciliação, o que causou surpresa nos membros mais antigos da Montfort e que conhecem o histórico da briga entre os dois. Como bem disse o Papa Bento XVI a respeito do motu proprio, “trata-se de chegar a uma reconciliação interna no seio da Igreja”. E ela parece já ter surgido nas relações do grupo Montfort, e rezamos para que se estenda inclusive com aqueles que dela divergem, mas mantêm a mesma Fé.

Consequências para o movimento tradicional no Brasil

Todos esses elementos fazem das ordenações do IBP no Brasil em 22 de agosto um grande evento que terá consequências importantes para o movimento tradicional no país.

Há uma combinação de pacificação quase geral com o vigor da juventude dos novos sacerdotes. Com efeito, em 2016, o IBP Brasil já deverá contar com sete sacerdotes, cerca de um quarto dos membros da já estabelecida Administração Apostólica São João Maria Vianney, sendo eles todos jovens, com uma média de idade abaixo dos 30 anos. Tudo isso permitirá maior difusão da forma extraordinária.

O Pe. Pedro Gubitoso (direita) ficará em Bordeaux, França, ao passo que o Pe. Tomás Parra será alocado em Brasília (esquerda), junto ao Pe. Daniel Pinheiro.

O Pe. Pedro Gubitoso (direita) ficará em Bordeaux, França, ao passo que o Pe. Tomás Parra será alocado em Brasília (esquerda), junto ao Pe. Daniel Pinheiro.

Congresso Montfort 2015

Por fim, uma oportunidade para encontrar, entre outros, os padres do IBP é o próximo ciclo de conferências da Montfort 2015 – além da presença de vários deles, padre Gubitoso será um dos conferencistas.

Segundo informa a associação, o evento, anteriormente chamado congresso, não ocorrerá mais no Mosteiro de São Bento, conforme vinha acontecendo nos últimos anos, mas, em sua sede. A mudança teria sido decidida, afirmam fontes, pelo abade do Mosteiro, Dom Mathias.

Mais informações no site Montfort.

* Fale com o autor: manoelgonzagacastro@gmail.com

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10 agosto, 2015

Dom Athanasius Schneider: “Não há razões de peso para negar aos sacerdotes e fiéis da FSSPX um reconhecimento canônico oficial”.

A Santa Sé me pediu que visitasse os seminários da Fraternidade São Pio X com o objetivo de apoiar um debate sobre um tema teológico concreto com um grupo de teólogos da fraternidade e com Sua Excelência Dom Fellay. Isso me demonstra que para a Santa Sé a FSSPX não é uma realidade eclesial negligenciável, que é preciso levá-la a sério.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Santa Maria em Astana, Cazaquistão.

Guardo muito boa impressão de minhas visitas. O espírito do “sentire cum ecclesia” da FSSPX ficou claro quando me receberam como enviado da Santa Sá com verdadeiro respeito e muita cordialidade. Ainda, em ambos os seminários me alegrou ver na entrada a foto do Papa Francisco, o pontífice atualmente reinante. Nas sacristias havia placas com o nome de S.S. Francisco e do ordinário da diocese. Comoveu-me o cântico da oração tradicional pelo Papa (“Oremus pro pontifice nostro Francisco…”) durante a solene exposição do Santíssimo Sacramento.

Que eu saiba, não há razões de peso para negar aos sacerdotes e fiéis da FSSPX um reconhecimento canônico oficial, antes, deve-se aceitá-los como são por ora. Isso foi, na verdade, o que pediu o arcebispo Lefebvre à Santa Sé: “Que nos aceitem como somos”. A mim, parece que a questão do Concílio Vaticano II não deve ser considerada como uma condição sine qua non, já que se tratou de uma assembléia com fins e características primariamente pastorais. Parte das declarações conciliares reflete unicamente as circunstâncias do momento e teve um valor temporal, como ocorre de costume com os documentos disciplinares e pastorais.

Se nos fixarmos na perspectiva dos dois milênios da história da Igreja, podemos afirmar que por ambas as partes (a Santa Sé e a FSSPX) há uma sobrevalorização e sobrestimação de uma realidade pastoral da Igreja que é o Concílio Vaticano II. O fato de que a FSSPX acredite, celebre os ritos e leve uma vida moral como exigia e reconhecia o Magistério Supremo e como observou universalmente a Igreja durante séculos, e se, ademais, reconhece a legitimidade do Papa e dos bispos diocesanos e reza publicamente por eles, reconhecendo também a validade dos sacramentos segundo a editio typica dos novos livros litúrgicos, deveria ser suficiente para a Santa Sé reconhecer canonicamente a FSSPX. Do contrário, perderá obviamente credibilidade a tão batida abertura pastoral e ecumênica da Igreja de hoje, e um dia a história reprovará as autoridades eclesiásticas atuais por ter imposto mais peso do que necessário (cf. At 15:28), o que é contrário ao método pastoral dos apóstolos.

Da entrevista concedida por Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Santa Maria em Astana, Cazaquistão, em entrevista concedida a Adelante la Fe

2 julho, 2015

Ordenações para IBP e Administração Apostólica.

Por Manoel Gonzaga Castro* – FratresInUnum.com: No último sábado, 27 de junho, pela graça de Deus, foram ordenados diáconos no Instituto do Bom Pastor os seminaristas Guillaume Touche e Adolfo Andrés Hormazábal. Causou apreensão, no entanto, a não ordenação dos seminaristas brasileiros do Instituto, todos membros do grupo Montfort.

Com efeito, Guillaume Touche, Adolfo Andrés, José Luiz e Thiago Bonifácio, haviam sido ordenados subdiáconos no último 21 de março, e, seguindo a praxe do instituto, tinham já previstas suas ordenações diaconais para o final do primeiro semestre. Porém, tanto o subdiácono Thiago, quanto o subdiácono José Luiz ficaram de fora do cronograma normal das ordenações desta vez.

Da esq. para direita: seminaristas José Luiz, Adolfo Andrés, Guillaume Touche e Thiago Bonifácio, em sua ordenação subdiaconal (março de 2015).

Da esq. para direita: seminaristas José Luiz, Adolfo Andrés, Guillaume Touche e Thiago Bonifácio, em sua ordenação subdiaconal (março de 2015).

Além disso, também contrariando a praxe do IBP, não foram ordenados sacerdotes os seminaristas brasileiros Pedro Gubitoso e Tomás Parra, ordenados diáconos em junho de 2014, depois de terem recebido o subdiaconato em abril do mesmo ano, após a visita do Mons. Guido Pozzo ao seminário.

O receio se deve ao fato de, em março de 2012, o mesmo Mons. Pozzo ter admoestado o superior do Instituto nos seguintes termos: “É necessário desejar que um bom discernimento seja feito para as vocações provenientes do Brasil”.

Os subdiáconos Tomás Parra (esq.) e Pedro Gubitoso (dir.) recebem o diaconato

Os subdiáconos Tomás Parra (esq.) e Pedro Gubitoso (dir.) recebem o diaconato

Oxalá esses atrasos tenham sido ocasionados por questões meramente circunstanciais e que logo a Igreja no Brasil possa receber os reforços de mais essas vocações.

Em 2013, dois brasileiros da Montfort – os agora Padres Luiz Fernando Pasquotto e Renato Coelho – também tiveram suas ordenações sacerdotais atrasadas por causa da crise institucional que se abateu sobre o IBP naquele ano.

Enquanto isso, os reforços ao avanço da difusão da liturgia tradicional vêm da parte de Dom Fernando Rifan, que ordenou mais um diácono pela Administração Apostólica São João Maria Vianney em 21 de junho último: o seminarista Domingos Sávio Silva Ferreira.

Ordenação diaconal do seminarista Domingos Sávio, junho de 2015

Ordenação diaconal do seminarista Domingos Sávio, junho de 2015

A vocação do agora diácono Domingos Sávio é resultado de um longo apostolado da Administração, sendo ele proveniente da Paróquia Pessoal Nossa Senhora de Fátima e Santo António de Pádua. O diácono Domingos Sávio será ordenado sacerdote no próximo 12 de dezembro.

* Fale com o autor: manoelgonzagacastro@gmail.com

12 junho, 2015

Novidades dos tradicionalistas no Brasil.

Por Manoel Gonzaga Castro* – FratresInUnum.com: O mês de maio foi prenhe de boas notícias para os católicos ligados à liturgia tradicional do sistema Ecclesia Dei/Summorum Pontificum.

Conforme noticiado, 3 de maio foi de fato o último dia da Santa Missa em sua forma extraordinária na Capela do Colégio Monte Calvário em Belo Horizonte, porém Dom Fernando Rifan conseguiu obter do arcebispo Dom Walmor Oliveira de Azevedo um novo local para essas celebrações na capital mineira. Dessa forma, sem interrupção, já em 10 de maio, domingo, o excelso sacrifício foi oferecido na Capela do Colégio Santa Maria. Mais informações sobre o local e os horários das missas em: http://missatridentinabh.blogspot.com.br/

Essa é, sem dúvida, uma excelente notícia para todos os fiéis frequentadores da forma extraordinária em Belo Horizonte, ainda mais considerando a intensificação das visitas dos padres da Administração Apostólica São João Maria Vianney a essa cidade.

Proibido de atuar na capital mineira por Dom Walmor, também como  noticiado, o IBP tem estudado uma expansão para o Nordeste, em locais não atendidos pela Administração. Como palestrante do 1º Congresso Montfort do Nordeste, o Pe. Luiz Fernando Pasquotto esteve recentemente em Recife, onde pôde travar contato com algumas dezenas de fiéis interessados na liturgia tradicional.

Para o maior bem da Santa Igreja, tomara que o IBP consiga se expandir para o Nordeste, dado seu relativo insucesso no Sudeste, muitas vezes motivado por questões não eclesiais.

Bem articulado em todos os seguimentos de tradicionalistas regulares, finalmente, o Pe. Jefferson Pimenta foi nomeado pároco pela Diocese de Santo André. Sua via crucis foi longa. Em um período de cerca de um ano, Pe. Jefferson – que celebra obedientemente as duas formas do rito romano – foi removido duas vezes de posto. Primeiro, da Paróquia Nossa Senhora da Prosperidade, onde empreendia uma grande reforma arquitetônica, e depois da Paróquia São Francisco de Assis. Isso afetou o apostolado do Pe. Jefferson com a forma extraordinária, porque ele acabou afastado de sua base de fiéis desejosos dessa missa, quando foi finalmente transferido para a Paróquia São Judas Tadeu, que fica em Ribeirão Pires – distante cerca de 30Km.

Apesar das dificuldades, Pe. Jefferson iniciou corajosamente o apostolado da forma extraordinária na Paróquia São Judas e agora,  conforme noticiado por Fratres in Unum, terá um novo bispo que, esperamos e rezamos, apoiará suas iniciativas.

Por fim, surgem rumores fortíssimos de que o Pe. Edivaldo Oliveira, considerado filho do falecido e polêmico Professor Orlando Fedeli, está começando uma nova obra, a Fraternidade São Mauro. Segundo os rumores, a nova fraternidade gozará do privilégio de uso exclusivo do chamado Rito Tridentino e receberá vocações masculinas e femininas. A vida religiosa feminina seria comandada pela viúva Ivone Fedeli, segundo informações ainda não oficialmente confirmadas desta que seria uma grande notícia!

Por ora, não há nenhum comunicado público do Reverendíssimo Pe. Edivaldo Oliveira a respeito de qual bispo autorizaria a existência da Fraternidade São Mauro, quais seriam suas prerrogativas e sobre como ela funcionaria.

O Pe. Edivaldo permanece incardinado na Diocese de Ciudad del Este, onde foi ordenado, em em 17 de agosto de 2013, por Dom Rogelio Livieres, que foi vítima de uma dramática deposição em setembro de 2014. Apesar de diocesano de Ciudad del Este, Pe. Edivaldo tem intensa atuação no Brasil, onde permanece boa parte de seu tempo junto ao Colégio São Mauro, em São Paulo, e em Fortaleza.

No final de maio, Pe. Edivaldo celebrou a Santa Missa na Festa Anual da Montfort em Itapetininga, SP, e, com pompa e circunstância, liderou a peregrinação do Colégio São Mauro a Aparecida:

Padre Edivaldo com o Colégio São Mauro em Peregrinação à Aparecida, maio de 2015

Padre Edivaldo com o Colégio São Mauro em Peregrinação a Aparecida, maio de 2015

Rezemos para que a Santa Missa no rito tradicional, juntamente com uma sólida formação doutrinal e moral, seja sempre e cada dia mais difundida no Brasil!

* Fale com o autor: manoelgonzagacastro@gmail.com

5 junho, 2015

Santa Sé encarrega Fellay de julgar um de seus padres.

A Congregação para a Doutrina da Fé nomeou o Superior da Fraternidade São Pio X, fundada por Dom Lefebvre, para ser o juiz de primeira instância no caso de um padre lefebvrista acusado de um crime grave.

Por Andrea Tornielli – La Stampa | Tradução: FratresInUnum.com: Ele mesmo [Dom Fellay] anunciou durante um sermão na igreja Nossa Senhora dos Anjos, em Arcadia, Califórnia, no dia 10 de maio de 2015: a Congregação para a Doutrina da Fé nomeou o Superior Geral da Fraternidade São Pio X (FSSPX), Dom Bernard Fellay, como juiz de primeira instância em um caso envolvendo um padre lefebvrista. O antigo Santo Ofício tem a incumbência de tratar de uma série de “delicta graviora”. O que ocorre mais frequentemente é aquele que diz respeito a abuso sexual de menores. Fellay apresentou esse fato como um exemplo das “contradições” nas relações da Santa Sé com a Fraternidade.

Dom Bernard Fellay“Somos rotulados agora como irregulares, na melhor das hipótese. “Irregular” significa que você não pode fazer nada e, como exemplo, eles nos proibiram de celebrar Missa nas igrejas em Roma para as irmãs Dominicanas que peregrinaram a Roma em fevereiro. Eles dizem: “Não, vocês não podem [celebrar] por que são irregulares”. E os que disseram isso eram pessoas da [Pontifícia Comissão] Ecclesia Dei”.

“Agora, às vezes, infelizmente”, disse Dom Fellay, “também padres fazem coisas insensatas, e precisam ser punidos. E quando é algo muito, muito sério, temos que recorrer a Roma. E assim fazemos. E o que a Congregação para a Doutrina da Fé faz? Bem, eles nomearam a mim como juiz para esse caso. Então, eu fui incumbido por Roma, pela Congregação para a Doutrina da Fé, de fazer julgamentos, julgamentos canônicos da Igreja sobre alguns de nossos padres que pertencem a uma Fraternidade inexistente para eles (para Roma, ed.). E então, mais uma vez, realmente uma bela contradição”.

Essa não é a primeira vez  que a FSSPX recorre a Roma quando diz respeito a “delicta graviora” e dispensas das obrigações sacerdotais. O que é novo nesse caso é que o antigo Santo Ofício, chefiado pelo Cardeal Gerhard Ludwig Müller, decidiu confiar o caso ao próprio Dom Fellay, fazendo-o juiz do tribunal de primeira instância. Uma expressão de ateção. Um sinal de que o caminho em direção à plena comunhão com os lefebvristas continua,  como confirmou em uma declaração a Vatican Insider Dom Guido Pozzo. O arcebispo, que também é Secretário da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, disse: “A decisão da Congregação para a Doutrina da Fé não significa que os problemas existentes foram sanados, mas é um sinal de benevolência e magnanimidade. Não vejo contradição nisso, mas, antes, um passo em direção à reconciliação”.

Os leitores se recordarão que outro importante sinal veio no último mês de abril, quando o Arcebispo de Buenos Aires acendeu a luz verde para que os lefebvristas fossem reconhecidos pelo governo argentino como uma “associação diocesana”. Igualmente, um grande grupo de peregrinos da FSSPX foi autorizado a celebrar a eucaristia na Basílica de Lourdes.

Então, por que Fellay fala em uma contradição? Seu comentário se referia à peregrinação do último mês de fevereiro a Roma, que teve a participação de 1500 fiéis. A peregrinação foi organizada pelas irmãs Dominicanas ligadas à FSSPX. Um pedido foi feito à Pontifícia Comissão Ecclesia Dei para celebrar a Missa no altar da Basílica de São Pedro. Na ocasião, todavia, os responsáveis pela Comissão decidiram que a celebração por um sacerdote lefebvrista, antes que os problemas existentes sejam resolvidos com vistas à regularização canônica e a plena comunhão, lançaria um sinal equivocado. No entanto, o Papa Francisco deu sua aprovação à proposta de que a missa solicitada fosse celebrada na Basílica de São Pedro por um padre da Ecclesia Dei, segundo o rito antigo. Os líderes da Fraternidade recusaram a oferta.

Ainda, a nomeação de Fellay pela Congregação para a Doutrina da Fé como juiz de primeira instância, demonstra o progresso em termos de diálogo entre a Igreja e a FSSPX.

14 abril, 2015

A FSSPX reconhecida oficialmente na Argentina como parte da Igreja Católica.

Por Adelante la Fe | Tradução: Irmandade dos Defensores da Sagrada Cruz: Em Boletim Oficial da Republica Argentina encontramos a seguinte informação: A pedido do Arcebispo de Buenos Aires, Cardeal Poli, é concedido a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, FSSPX, fundada pelo Arcebispo Marcel Lefebvre, o estatuto de “Associação de Direito Diocesano. Sociedade de Vida Apostólica” e se reconhece “que a dita fraternidade, encontra-se credenciada com caráter de pessoa jurídica pública DENTRO DA IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA, conforme a norma do Código de Direito Canônico”.

Cardeal Poli

Com toda a prudência por não ter maiores informações para avaliar com precisão o alcance exato desta noticia, além das formalidades jurídicas, não se parece temerário para interpretar este importante gesto do Cardeal Poli como um grande movimento de aproximação, talvez a ponta do iceberg, que nos permite esperar com otimismo um desenlace feliz a curto prazo a nível global.

Reproduzimos a resolução oficial:

 Resolução 25/2015

Bs. As., 17/03/2015

VISTO o Arquivo No. 9028/2015 do registro do MINISTÉRIO DE RELAÇÕES EXTERIORES E CULTO, a Lei nº 24.483 e seu Decreto Regulamentar n.º 491 de 21 de setembro de 1995, e CONSIDERANDO:

Que, conforme o Protocolo nº 084/15 datado de 23 de fevereiro de 2015, o Arcebispo de Buenos Aires, Mario Aurelio Cardeal POLI solicita que a “FRATERNIDADE DOS APÓSTOLOS DE JESUS E DE MARIA” (Fraternidade Sacerdotal São Pio X) seja tida, até encontrar um definitivo enquadramento jurídico na Igreja Universal, como uma associação de direito diocesano, conforme regulamentado pelo cânone 298 do Código de Direito Canônico, in fieri de ser uma Sociedade de Vida Apostólica, com todos os benefícios que esta lhe corresponde e dando cumprimento com todas as obrigações a que a mesma refere, assumindo também as responsabilidades que competem ao bispo diocesano.

Que tal fraternidade é credenciada com caráter de pessoa jurídica pública dentro da IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA, conforme as normas do Código de Direito Canônico.

Que segundo seus estatutos, aprovados pela autoridade eclesiástica competente, a fraternidade é uma sociedade de vida sacerdotal comum sem votos, em imitação de sociedades para as Missões Estrangeiras (conf. Capítulo I, artigo 1º, Estatutos da Fraternidade dos Apóstolos Jesus e Maria).

Que o artigo 3º, inciso f do Decreto nº 491/95 que autoriza a inscrição no Registro criado pela Lei nº 24.483, as pessoas jurídicas reconhecidas pela autoridade eclesiástica, que guardam semelhanças ou analogia com os Institutos de Vida Consagrada e sociedades de vida apostólica.

Que a instituição requerente cumpriu todas as exigências da legislação em vigor, que acompanhando os seus estatutos, decreto de ereção e memória, de acordo com as disposições da Lei nº 24.483.

Correspondendo fazer lugar a presente inscrição todas as vezes que a requerente se enquadra nas condições previstas na Regra 3, inciso f) do Decreto nº 491/95.

Que a presente medida é emitida no exercício dos poderes conferidos pelo artigo 17 do Decreto nº 491/95.

Portanto,

O SECRETÁRIO

DE CULTO

RESOLVE:

ARTIGO 1 – reconhecido como uma pessoa jurídica a “FRATERNIDADE DOS APÓSTOLOS DE JESUS E DE MARIA” (Fraternidade sacerdotal São Pio X), Associação de direito diocesano, com sede legal e domicílio especial na rua Venezuela N° 1318, CIDADE AUTÔNOMA DE BUENOS AIRES, que está registrado sob o número de trezentos e oitenta e um (381) do Registro de Institutos de Vida Consagrada.

ARTIGO 2º – outorga-se a dita entidade o caráter de entidade de bom público para todos os efeitos, que correspondam.

ARTIGO 3º – Que seja sabido que a referida pessoa jurídica se encontra beneficiada pelo tratamento previsto pelo artigo 20, da Lei do Imposto de Renda (texto encomendado em 1997).

ARTIGO 4º – Comunique-se, publique-se, transmitindo a Direção Nacional de Registro Oficial e arquive-se. – Emb. GUILLERMO R. OLIVERI, Secretário de Adoração.

[Você pode verificar esta informação, entrando no site do Boletim Oficial Argentino indicando em seu navegador a resolução 25 de 2015]

* * *

Nota do Fratres: Procurado por Vatican Insider, Dom Guido Pozzo, secretário da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, declarou: “Fico contente que na Argentina foi possível encontrar esta solução que, sejamos precisos, não envolve a Santa Sé. Não se trata de um reconhecimento jurídico da Fraternidade São Pio X como sociedade clerical, permanecendo em aberto a questão da legitimidade do exercício do ministério sacerdotal de seus padres. Mas, certamente, é um sinal adicional de benevolência em relação a esta realidade por parte da Igreja Católica”.

Continua Pozzo: “Com sua decisão, o ordinário de Buenos Aires reconhece que os membros da Fraternidade são católicos, mesmo que ainda não estejam na plena comunhão com Roma. Nós continuamos a trabalhar para que se chegue à plena comunhão e ao enquadramento jurídico da Fraternidade na Igreja Católica”.

23 novembro, 2014

Conferência de Dom Guido Pozzo sobre o Vaticano II.

Importante texto de conferência do Arcebispo Secretário da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, uma vez que, recentemente, ele mesmo afirmou que “Roma não pretende impor uma capitulação à FSSPX”.

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Comentários e tradução por Guilherme Chenta, guilhermechenta.com

COMENTÁRIOS

Introdução

Em abril de 2014, o Arcebispo Dom Guido Pozzo, secretário da Pontifícia ComissãoEcclesia Dei, visitou o seminário do Instituto do Bom Pastor, com os seguintes objetivos: verificar a situação do instituto no pós-crise, dar duas conferências norteadoras da ação do IBP de acordo com a “hermenêutica da reforma na continuidade” e conferir ordens a alguns seminaristas.

3 agosto, 2013

A enigmática nomeação do novo (velho) Secretário da Ecclesia Dei.

Reconstruamos os fatos:

Mons. Guido Pozzo - JP Sonnen, Orbis Catholicus.

Mons. Guido Pozzo – JP Sonnen, Orbis Catholicus.

1) Monsenhor Guido Pozzo foi nomeado Secretário da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, encarregada de zelar pela “plena comunhão” dos “tradicionalistas”, em 8 de julho de 2009, na reestruturação que sofreu a Comissão após a aposentadoria do Cardeal Dario Castrillon Hoyos, então seu presidente.

2) Guido Pozzo foi, em novembro de 2012, promovido (a esmoleiro pontifício) para ser removido (das tratativas com os “tradicionalistas”). O Fratres anunciou a notícia com um mês de antecedência: “Monsenhor Guido Pozzo, até o momento Secretário da Comissão ‘Ecclesia Dei’, seria nomeado Esmoleiro de Sua Santidade, o Papa Bento XVI. Embora promovido à dignidade de Arcebispo, ele deixaria um cargo de importante influência na política eclesial para passar à função de burocrata de gabinete. Com pouco mais de três anos na Comissão Ecclesia Dei, Pozzo não foi muito bem avaliado em sua atuação no diálogo entre Santa Sé e Fraternidade São Pio X, sendo frequentemente acusado de intransigência na defesa de suas posições pessoais.

3) Quais posições? Pozzo se destacara por defender uma versão toda particular e feroz da “hermenêutica da continuidade”. O arquivo do blog está à disposição de quem quiser conferir, mas vale, como exemplo, citar sua carta ao Instituto do Bom Pastor, e que também Fratres divulgou com exclusividade.

4) Com a reorganização da Comissão Ecclesia Dei, que passou a ser subordinada à Congregação para a Doutrina da Fé, a nomeação do Arcebispo Gerhard Ludwig Müller para Prefeito desse mesmo dicastério caiu como uma bomba e teve que ser contrabalançada. Foi quando, em junho de 2012, o Papa Bento XVI designou vice-presidente da Comissão a Dom Joseph Augustine di Noia, OP, que iniciou seu trabalho dando entrevistas positivas e enviando uma carta toda simpática à FSSPX. Depois de causar um alvoroço no mundo tradicionalista com Müller, pretendia-se amenizar as coisas com Di Noia.

5) A abertura de Di Noia deveria, assim, substituir o fechamento de Pozzo, que alguns acusavam diretamente de ter minado as discussões teológicas entre Roma e Menzingen. Assim, Pozzo foi nomeado, em novembro de 2012, esmoleiro pontifício e elevado à dignidade de Arcebispo.

6) Pois bem: na manhã de hoje foi anunciado o retorno de Monsenhor Guido Pozzo à Secretaria de Comissão Ecclesia Dei. Uma nomeação enigmática: Pozzo não permaneceu sequer um ano como esmoleiro pontifício. Os motivos que o teriam retirado da Ecclesia Dei deixaram de ter fundamento em pouco mais de 6 meses? Não teria ele se desempenhado bem como esmoleiro pontifício? Mas, sendo este o caso, não seria natural na política eclesiástica uma transferência para um posto de igual prestígio? A devolução de Pozzo à secretaria da Ecclesia Dei surge, em uma primeira análise, como um rebaixamento — e isso só ocorre raramente, em casos gravíssimos. Para o lugar de Pozzo, como esmoleiro papal, foi designado o cerimoniário pontifício Mons. Konrad Krajewski.

7) Mas haveria ainda uma última pergunta: os promotores do retorno de Pozzo à Ecclesia Dei não desejariam vê-lo novamente por lá para fazer justamente o que estava fazendo quando foi “promovido”?

8) Comentava-se, logo após a promulgação do motu proprio Summorum Pontificum e com o boom de celebrações, congressos e cobertura midiática em torno do ressurgimento da missa tradicional, que crescia, igualmente, o descontentamento de um partido “montiniano”, que defendia não uma reabertura à missa antiga e muito menos uma crítíca textual ao Concílio, mas uma aplicação mais estrita e fiel do que eles consideravam os verdadeiros Novus Ordo e Vaticano II. Os “tradicionalistas”, rebeldes como sempre, deveriam ser sufocados pela aplicação das reais intenções do Papa Montini.

9) Com a intervenção nos Franciscanos da Imaculada, muito provavelmente, motivada sobretudo pela visão crítica ao Concílio que tomava corpo dentro da ordem (que exigia necessariamente a missa tradicional, daí a proibição de ser rezada por eles), o retorno de Mons. Guido Pozzo poderia ser interpretado como uma nova medida em prol da “intocabilidade do Concílio”?

PS.: o blog  continua em recesso.

14 fevereiro, 2013

Aos 45 do segundo tempo.

Fratres in Unum.comFontes seguras dão conta de que Dom Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, teria enviado, no início de janeiro, uma carta a Dom Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, instando-o a aceitar a última versão do “preâmbulo doutrinal”, aprovada em junho do ano passado — aquela com acréscimos de última hora e sem a anuência da Fraternidade, que fizeram com que ela, inclinada inicialmente a aceitar a proposta, revisse sua posição.

O “ultimato” de Dom Müller teria como data limite a festa da Cátedra de São Pedro, no próximo dia 22, e estaria recheado de duras ameaças. O tom conciliador da carta enviada em dezembro por Dom Joseph Augustine di Noia, que também assina o “ultimato”, não durou, portanto, mais do que um mês. Caso não houvesse aceitação por parte da FSSPX como um todo, a Santa Sé faria a proposta de regularização canônica a cada sacerdote pertencente à FSSPX individualmente.

A iniciativa de Müller e Di Noia não considerava, provavelmente, a súbita renúncia pontifícia, que coloca a FSSPX de sobreaviso — ainda mais — contra uma Cúria Romana dilacerada por intrigas.

Em entrevista à rede americana NBC, o irmão de Bento XVI, Monsenhor George Ratzinger, afirmou que dois assuntos em particular afligiam seu irmão: “Dentro da Igreja, muitas coisas aconteceram que geraram problemas, por exemplo, a relação com a Fraternidade Pio [X] ou as irregularidades dentro do Vaticano, onde o mordomo vazou indiscrições”.

Este talvez seja o contexto para interpretar apropriadamente as palavras do Papa em sua última homilia, pronunciada ontem, na Basílica de São Pedro: “Penso em particular nos pecados contra a unidade da Igreja, das divisões no corpo da Igreja. Viver a quaresma de maneira mais intensa e em evidente comunhão eclesial, superando o individualismo e a rivalidade é um sinal humilde e precioso”. ‘Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação’ (2 Cor 6:2). As palavras do Apóstolo Paulo aos cristãos de Corinto ressoam para nós com uma urgência que não permite ausência ou inércia. O termo ‘agora’ é repetido e não pode ser perdido, é oferecido como uma oportunidade única”.

7 fevereiro, 2013

Coando um mosquito e engolindo um camelo.

Suíça: calvinistas sim, lefebvristas não.

Por Padre Guillaume de Tanouarn | Tradução: Fratres in Unum.com – Charles Morerod é dominicano, participou das discussões doutrinais entre a FSSPX e Roma. Posteriormente, foi nomeado bispo de Lausana, Genebra e Friburgo.

Dom Charles Morerod, OP

Dom Charles Morerod

Ele acaba de publicar normas para admissão aos locais de culto, em nome dos “bispos e abades territoriais da Suíça”. Após ter recordado o direito da Igreja (ponto n° 1), ele declara que “outras Igrejas cristãs e comunidades eclesiais” poderão ter acesso aos locais de culto católicos “por razões de necessidade pastoral” (ponto nº 2). No entanto, “religiões não-cristãs” receberiam “uma resposta negativa” — este é o ponto n° 4.

Entre os pontos n° 2 e n° 4, há o ponto n°3 e é aí que mora o problema. Ele trata da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, da qual recorda a ausência de “posição canônica”, bem como de “ministérios legítimos” para seus membros. Logo, poderíamos imaginar que esta Fraternidade seria tratada como outra comunidade eclesial, ou como outra Igreja Cristã — e que seus sacerdotes se beneficiariam do ponto n° 2. Mas não é caso, eles são proibidos de « qualquer serviço sacerdotal » nas igrejas e capelas suíças.

Em termos gerais, Dom Morerod efetua uma hierarquia entre aqueles que não estão em comunhão com Roma. Os tradicionalistas da FSSPX vêm depois de outras comunidades (luteranos, ortodoxos, anglicanos, velhos católicos, calvinistas) e não têm o direito à mesma delicadeza. É o caso de tratá-los não como os irmãos separados, mas como os não-cristãos.

A mão estendida por Bento XVI é uma coisa. Mas na prática, esse desejo de acolher se mostra, de tempos em tempos, menos claro.