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6 outubro, 2014

Entrevista com Dom Fellay logo após seu encontro com o Cardeal Müller.

A pastoral deve necessariamente derivar da doutrina.

Por Dici | Tradução: Fratres in Unum.com 

mgr_fellay_1-300x206O senhor foi recebido pelo Cardeal Müller no dia 23 de setembro passado. O comunicado da sala de imprensa do Vaticano retoma os termos do comunicado de 2005, logo após o seu encontro com Bento XVI, no qual já se falava de “proceder por etapas e em um prazo razoável”, com “o desejo de chegar à plena comunhão”; – o comunicado de 2014 fala de “plena reconciliação”. Isso significa que se regressa ao ponto de partida?

Sim e não, segundo o ponto de vista no qual você se situe. Não há nada novo no sentido que temos verificado — nossos interlocutores e nós — que permanecem as divergências doutrinais que se haviam manifestado claramente com oportunidade das discussões teológicas de 2009-2011, e que, portanto, não podíamos assinar o Preâmbulo doutrinal que nos havia sido proposto pela Congregação para a Doutrina de a Fé desde 2011.

Porém, o que há de novo?

Há um novo Papa e um novo Prefeito à frente da Congregação para a Doutrina da Fé. E este encontro mostra que nem eles nem nós desejamos uma ruptura das relações: as duas partes insistem sobre a necessidade de esclarecer as questões doutrinais antes de um reconhecimento canônico. Por isso, da parte deles, as autoridades romanas reclamam a assinatura de um Preâmbulo doutrinal que, de nossa parte, não podemos firmar em razão de suas ambiguidades.

Entre as novidades encontra-se também o agravamento da crise na Igreja. Na véspera de um Sínodo sobre a família, manifestam-se críticas sérias e justificadas, da parte de vários cardeais, contra as proposições do Cardeal Kasper sobre a comunhão dos divorciados “recasados”. Desde as críticas dos cardeais Ottaviani e Bacci no Breve exame do Novus Ordo Missae, em 1969, isso não havia sido visto em Roma. Porém, o que não mudou é que as autoridades romanas continuam sem levar em conta nossas críticas do Concílio, porque lhes parece secundárias e também ilusórias, em face aos graves problemas que enfrentamos na Igreja hoje em dia. Estas autoridades comprovam claramente a crise que sacode a Igreja ao mais alto nível — agora entre cardeais —, porém não concebem que o Concílio mesmo possa ser a causa principal desta crise sem precedentes. Se parece a um diálogo de surdos.

O senhor poderia dar um exemplo concreto?

As proposições do Cardeal Kasper a favor da comunhão dos divorciados “recasados” são uma amostra do que reprovamos ao Concílio. Em seu discurso aos cardeais, no Consistório do dia 20 de fevereiro passado, ele propõe fazer novamente o que já se fez no Concílio, a saber: reafirmar a doutrina católica, oferecendo ao mesmo tempo aberturas pastorais. Em suas diversas entrevistas com os jornalistas, ele realiza esta distinção entre a doutrina e a pastoral: recorda em teoria que a doutrina não pode mudar, porém introduz a ideia que, na realidade concreta, há situações tais que a doutrina não pode ser aplicada. Então, segundo ele, somente a pastoral está em condições de encontrar soluções… em detrimento de a doutrina.

De nossa parte, reprovamos no Concílio esta distinção artificial entre a doutrina e a pastoral, porque a pastoral deve necessariamente derivar da doutrina. Graças às múltiplas aberturas pastorais se introduziram mudanças substanciais na Igreja e a doutrina se viu afetada. Isso foi o que aconteceu durante e depois do Concílio, e denunciamos a mesma estratégia utilizada agora contra a moral do matrimônio.

Acaso não houve somente mudanças pastorais no Concílio, que haviam afetado indiretamente a doutrina?

Não, nos vemos obligados a afirmar que se realizaram mudanças graves na própria doutrina: a liberdade religiosa, a colegialidade, o ecumenismo… Porém, é certo que essas mudanças aparecem de uma maneira mais clara e mais evidente em suas aplicações pastorais concretas, pois nos documentos conciliares são apresentados como simples aberturas, de maneira alusiva e com muito subentendidos… Isso faz deles, segundo a expressão de meu predecessor, o Revmo. Pe. Schmidberger, “bombas relógio”.

Nas proposições do Cardeal Kasper, onde o senhor vê uma aplicação pastoral que tornaria mais evidente uma mudança doutrinal introduzida no Concílio? Onde o senhor vê uma “bomba relógio”?

Na entrevista que concede ao vaticanista Andrea Tornielli, neste dia 18 de setembro, o Cardeal declara: “A doutrina de a Igreja não é um sistema fechado: o Concílio Vaticano II ensina que há um desenvolvimento no sentido de um possível aprofundamento. Indago-me se um aprofundamento semelhante ao que ocorreu com a eclesiologia não é possível neste caso (dos divorciados que voltaram a casar no civil, ndlr): incluindo se a Igreja católica é a verdadeira Igreja de Cristo, há elementos de eclesialidade também fora das fronteiras institucionais da Igreja católica. Em certos casos, não se poderia reconhecer igualmente em um matrimônio civil elementos do matrimonio sacramental? Por exemplo, o compromisso definitivo, o amor e o apoio mutuo, a vida cristã, o compromisso público, que não existe nas uniões de fato (i.e. as uniões livres)”.

O Cardeal Kasper é muito lógico, perfeitamente coerente: propõe que os novos princípios sobre a Igreja, que o Concílio enunciou em nome do ecumenismo — existem elementos de eclesialidade fora da Igreja—, se apliquem pastoralmente ao matrimônio. Passa logicamente do ecumenismo eclesial ao ecumenismo matrimonial. Nesse sentido, segundo ele, havia elementos do matrimônio cristão fora do sacramento. Para ver as coisas concretamente, indaga-se, pois, aos esposos, que pensariam sobre uma fidelidade conjugal “ecumênica” ou sobre uma fidelidade na diversidade! Paralelamente, o que devemos pensar de uma unidade doutrinal “ecumênica”, diversamente uma? Esta é a consequência que denunciamos, porém, que a Congregação para a Doutrina da Fé não vê ou não quer ver.

Como se deve entender a expressão do comunicado do Vaticano “proceder por etapas”?

Como o desejo recíproco, em Roma e na Fraternidade São Pio X, de manter conversações doutrinais em um marco amplio e menos formal que o dos precedentes intercâmbios.

Porém, se os intercâmbios doutrinais de 2009-2011 não aportaram nada, para que retomá-los, incluindo de maneira mais ampla?

Porque, seguindo o exemplo de Mons. Lefebvre, que nunca deixou de aceitar um convite das autoridades romanas, nós respondemos sempre a quem nos interrogam sobre as razões de nossa fidelidade à Tradição. Não podemos fugir desta obligação, e sempre a cumpriremos no espírito e com as obrigações que foram definidas no último Capítulo General.

Uma vez que o senhor mencionava a audiência que me concedeu Bento XVI em 2005, recordo que então dizia que queríamos mostrar que a Igreja seria mais forte no mundo de hoje se mantivesse a Tradição, — incluindo agregaria: se recordara com orgulho sua Tradição bimilenar. Repito hoje que queremos aportar nosso testemunho: se a Igreja quer sair da crise trágica que atravessa, a Tradição é a resposta a esta crise. Dessa maneira manifestamos nossa piedade filial para com a Roma eterna, para com a Igreja, Mãe e Mestra de verdade, a qual estamos profundamente unidos.

O senhor disse que se trata de um testemunho; não seria uma profissão de fé?

Uma coisa não exclui a outra. Nosso fundador gostava de dizer que os argumentos teológicos com os quais professamos a fé, nem sempre são compreendidos por nossos interlocutores romanos, porém, ele não nos dispensa de recordar-lhes. E, com o realismo sobrenatural que o caracterizava, Mons. Lefebvre acrescentava que as realizações concretas da Tradição: os seminários, os colégios, os priorados, o número de sacerdotes, de religiosos e religiosas, de seminaristas e fiéis… também tinham um grande valor demonstrativo. Contra esses fatos tangíveis, não há argumento especial que valha: contra factum non fit argumentum. No caso presente, se podia traduzir este adágio latino com a frase de nosso Senhor: “se julga a árvore por seus frutos”. Nesse sentido, ao mesmo tempo que professamos a fé, devemos dar testemunho a favor da vitalidade da Tradição.

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27 setembro, 2014

Foto da semana.

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Oklahoma City, domingo, 21 de setembro de 2014 – Clero e fiéis da Fraternidade Sacerdotal São Pio X realizam um ato público de reparação diante do Centro Cívico (área que reúne prédios de repartições e centros culturais públicos) da cidade.

Como noticiado amplamente, um grupo de satanistas liderado por um pervertido sexual alugou um pequeno teatro no Centro Cívico de Oklahoma City com o propósito de realizar uma missa negra. Apesar de insistentes pedidos de autoridades civis e religiosos, incluindo o Arcebispo de Oklahoma City e o governador do estado, as autoridades municipais se recusaram a cancelar o ultraje, que, desgraçadamente, ocorreu.

Tendo menos de duas semanas para agir desde o anúncio do sacrilégio, o superior do distrito norte-americano da Fraternidade esperava cerca de 300 fiéis para o ato público de reparação. No entanto, compareceram cerca de 1000, de todo o país! A pequena capela da Fraternidade na cidade não pôde ser usada, sendo necessário alugar um espaço em um hotel para comportar tamanho afluxo de pessoas.

Uma Missa Solene foi celebrada e, após, todos saíram em procissão, rezando o Rosário, até o Centro Cívico.

Embora a previsão do tempo indicasse 80% de chance de chuva forte, um sol flamenjante surgiu sobre a procissão enquanto ela percorria seu trajeto com as quinze dezenas do Rosário e o Christus Vincit ressoando pela cidade.

Informações: Catholic Family News

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23 setembro, 2014

Comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé sobre encontro entre Cardeal Muller e Dom Fellay.

Por Vatican Information Service | Tradução: Fratres in Unum.com – Na manhã de terça-feira, 23 de setembro, das 11 às 13 horas, ocorreu um encontro cordial nos escritórios da Congregação para a Doutrina da Fé entre o Cardeal Gerhard Ludwig Muller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e Sua Excelência Dom Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade São Pio X. Participaram também suas Excelências: Dom Luis Francisco Ladaria Ferrer, SJ, secretário da mesma congregação, Joseph Augustine Di Noia, OP, secretário adjunto, e Guido Pozzo, secretário da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, juntamente com dois assistentes da Fraternidade, Revmo. Niklaus Pfluger e Rev. Alain-Marc Nély.

Durante o encontro, vários problemas de natureza doutrinal e canônica foram examinados, e decidiu-se proceder gradualmente e dentro de um período de tempo razável, a fim de superar as dificuldades com vistas a uma esperada plena reconciliação.

21 setembro, 2014

Papa recebe o Secretário Guido Pozzo da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei – poucos dias antes da visita do Superior da FSSPX ao Vaticano.

Da agência católica de notícias suíça Apic/Kipa:

Roma, 19 de setembro de 2014 (Apic) – O Papa Francisco recebeu em audiência no dia 18 de setembro o Arcebispo Guido Pozzo, Secretário da Comissão Pontifícia “Ecclesia Dei”, encarregada das relações entre Roma e o meio tradicionalista.

O Superior da Fraternidade São Pio X, Bernard Fellay, de Valais, deve se encontrar pela primeira vez em um futuro próximo com o Cardeal Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) [e Presidente da Comissão Pontifícia "Ecclesia Dei"], ao passo que o diálogo entre Roma e os lefebvristas parecia estar paralisado por vários meses.

Dom Fellay esteve no Vaticano em dezembro de 2013 a fim de se encontrar com o Arcebispo Pozzo [Nota: ele também se encontrou com o Papa Francisco na ocasião]. Ele confirmou à Apic no início de setembro que se encontraria com o Cardeal Gerhard Ludwig Müller na segunda quinzena de setembro de 2014. Ele especificou que seria um encontro informal, com a finalidade de fazer um balanço das relações entre a Fraternidade e Roma, interrompidas desde a partida do Cardeal William Joseph Levada, predecessor do Cardeal Müller, e desde a renúncia de Bento XVI.

A audiência papal de ontem com o Arcebispo Pozzo, alguns dias antes da data prevista do encontro entre o cardeal Müller e Dom Fellay (seria uma grande surpresa se Pozzo também não estivesse presente no encontro), foi publicada hoje no Bollettino.

[Fonte original em francês.]

Créditos: Rorate-Caeli

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4 setembro, 2014

Encontro do Cardeal Müller com a FSSPX: confirmado.

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com - Rorate está em condições de confirmar que o Cardeal Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, receberá no gabinete de sua Congregação em Roma o Superior-Geral da Fraternidade de São Pio X (FSSPX / SSPX), Dom Bernard Fellay, no final deste mês (ou em outro dia no início do outono, a data é incerta). 

O modo como esse encontro de alto nível se tornou público é incomum e incompreensível como operação de mídia: há um fórum de discussão fundado e dirigido por uma senhora francesa (pseudônimo “Gentiloup”), que frequentemente vai à missa em capelas da FSSPX – é um fórum dedicado àqueles que se chamam “Resistência” (ou seja, aqueles dentro ou fora da FSSPX que são contra todos ou quase todos os contatos com a Santa Sé). No domingo, 31 de agosto de 2014, no priorado da FSSPX de Fabrègues (em Languedoc, sul da França), Pe. Louis-Marie Carlhian anunciou aos fiéis que um encontro assim ocorreria em 21 de setembro, e “Gentiloup” correu para anunciá-lo no Fórum “Resistance“. A data específica posteriormente foi modificada para um dia “incerto”. Dias mais tarde, ela foi postada no Tradinews, um blogue de notícias tradicional francês. Desde então, a notícia se espalhou. 

O que acontecerá? Quem sabe? Talvez seja apenas um primeiro encontro cordial (o primeiro encontro oficial) entre os dois homens desde que Müller foi nomeado Prefeito. Talvez ele encontre conversações adicionais. Talvez mais. Talvez todos os detalhes sejam estabelecidos de antemão. Ou não. Talvez ele eventualmente inclua uma reunião com alguém de nível hierárquico mais elevado. Talvez não. 

Então, talvez essa seja uma grande novidade. Ou talvez não… 

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2 setembro, 2014

Padre da FSSPX celebra Missa na Basílica de São Pedro.

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com – Por gentil permissão de uma autoridade superior da Basílica Papal de São Pedro no Vaticano, os fiéis da igreja de Saint-Martin-des-Gaules, Noisy-le-Grand (próxima à Paris) – que estavam em Roma em peregrinação de férias de verão dirigida pelo Padre Michel de Sivry, da Fraternidade São Pio X (SSPX) – puderam assistir à Missa no Altar de São Pio X, onde repousa o corpo do santo Papa.

A Missa na Basílica Vaticana foi celebrada pelo Pe. de Sivry, em 9 de agosto de 2014, durante o centenário especial do dies natalis de São Pio X. 

Vídeo abaixo:

Imagem e vídeo do site do Distrito da França da FSSPX.

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8 junho, 2014

Foto da semana.

“Meu irmão, toca a bola!”

Por Fabrice Coffrini – AFP | Tradução: Fratres in Unum.com – Riddes, Suíça, 3 de junho de 2014 – A Fraternidade Sacerdotal São Pio X é uma sociedade católica tradicionalista fundada por Dom Marcel Lefebvre. Ela se tornou conhecida mais por suas posições ultraconservadores e seus atritos com o Vaticano, e menos por seus talentos futebolísticos.

Seminaristas da fraternidade tradicionalista São Pio X jogam futebol no domingo, 25 de maio de 2014, em um campo em Riddes, próximo a Écône, Suíca (AFP - Fabrice Coffrini)

Seminaristas da fraternidade tradicionalista São Pio X jogam futebol no domingo, 25 de maio de 2014, em um campo em Riddes, próximo a Écône, Suíca (AFP – Fabrice Coffrini)

Todos os domingos, padres e futuros padres do seminário da Fraternidade em Ecône, na Suíça, relaxam ao fim de uma intensa semana de estudo e oração. Alguns fazem caminhada, outros jogam basquete, outros ainda futebol. Eles praticam sempre essas atividades esportivas de batina pois, para os tradicionalistas, um sacerdote deve manter seu hábito distintivo em todas as circunstâncias da vida em sociedade, a fim de mostrar que ele “vive no mundo sem ser do mundo”… Mas as chuteiras são toleradas.

(AFP / Fabrice Coffrini)

(AFP / Fabrice Coffrini)

Fazia vários anos que eu queria fotografá-los. Com a aproximação da Copa do Mundo, foi o momento perfeito. Após ter facilmente obtido a autorização do seminário, eu então me dirigi ao Valais para assistir à partida de domingo em Riddes, vilarejo vizinho a Écône.

O campo está localizado abaixo de uma ponte rodoviária. Muitos motoristas que passavam por lá buzinavam ao ver espetáculo incomum desses padres de batina disputando uma bola. Mas, além deles, não há público. Também não há árbitro (exceto Deus, é claro).

(AFP / Fabrice Coffrini)

(AFP / Fabrice Coffrini)

O jogo é muito físico, os jogadores dão carrinho e se colidem como em qualquer jogo de futebol. A única diferença, além da roupa, é a linguagem. Não há insultos, palavrões, não há controvérsia em impedimentos ou faltas. Os jogadores se tratam por vós [vous, 2ª pessoa do plural, isto é, se tratam respeitosamente] e permanecem muito polidos entre si: “Meu irmão, toca a bola!”

No intervalo, eu queria tirar uma foto de todos os seminaristas levantando os braços com entusiasmo, como um time comum. Mas eles se recusaram. Mesmo em um campo de futebol, a batina requer uma postura…

(AFP / Fabrice Coffrini)

(AFP / Fabrice Coffrini)

Fabrice Coffrini é repórter fotográfico da AFP em Genebra.

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6 junho, 2014

Dom Fellay (FSSPX) fala sobre o Papa Francisco: “Ele leu duas vezes a biografia do Arcebispo Lefebvre – e gostou.” E outras importantes revelações.

Por Rorate-Caeli| Tradução: Fratres in Unum.com* – Em visita à cidade francesa de Fabregues no dia 11 de maio (dia seguinte a esta postagem), o Superior Geral da Sociedade de São Pio X, Bispo Bernard Fellay, falou detalhadamente sobre diversos assuntos de relevância para a Fraternidade. A parte mais importante foi a relacionada à pessoa do Papa Francisco:

Marcel Lefebvre, the biography - Mons. Bernard T. de Mallerais

Marcel Lefebvre, the biography – Mons. Bernard T. de Mallerais

O papa atual, por ser um homem prático, olha as pessoas. O que uma pessoa pensa, em que acredita, é, no fim das contas, indiferente para ele. O que importa é que esta pessoa seja compreensiva de acordo com sua visão, ou, pode-se dizer, que pareça correto para ele.

Por essa razão, ele leu duas vezes o livro do Bispo Tissier de Mallerais sobre o Arcebispo Lefebvre, cujo conteúdo o agradou; ele é contrário a tudo o que representamos, mas sua vida, isso o agradou. Quando, enquanto Cardeal, ele estava na América do Sul, o Superior do Distrito [Pe. Christian Bouchacourt] veio solicitá-lo por causa de um favor de ordem administrativa, sem relação com a Igreja; um problema de visto, de residência permanente. O governo argentino, que é muito esquerdista, se vale do acordo estabelecido para proteger a Igreja, com a finalidade de contrariar-nos de maneira bastante séria, e nos diz, “vocês dizem ser católicos. Desse modo, vocês necessitam da assinatura do bispo, a fim de que possam residir no país.” O Superior do Distrito, então, veio apresentar-lhe o problema: havia uma solução simples, que seria declararmo-nos uma igreja independente [perante a lei civil], mas nós não queríamos, porque somos católicos. E o Cardeal disse-nos, “não, não, vocês são católicos, isto é evidente; eu os ajudarei;” ele escreveu uma carta ao governo em nosso favor, governo este tão esquerdista que fez a manobra de buscar uma carta de oposição por meio do núncio. Assim, empate de zero a zero. Agora ele é o papa, e nosso advogado teve a oportunidade de ter um encontro com o Papa. Ele lhe disse que o problema com a Fraternidade persistia, e pediu-lhe que benevolamente designasse um bispo na Argentina junto de quem poderíamos resolver o problema. O Papa disse-lhe, “Sim, o bispo sou eu, eu prometo ajudar, e eu o farei.”

Ainda estou esperando por isso, mas de qualquer modo ele o disse, da mesma forma que afirmou, “aquelas pessoas, elas acham que vou excomungá-las, mas estão enganadas;” ele disse outra coisa interessante: “Eu não vou condená-los, e eu não impedirei ninguém de visitá-los” [literalmente, “d’aller chez eux”.] Mais uma vez, quero esperar para ver.

* Nosso agradecimento a um gentil leitor pela tradução fornecida. A íntegra da conferência de Dom Fellay pode ser lida aqui.

12 maio, 2014

Papa Francisco e Dom Fellay, o encontro. Mais detalhes.

Andrea Tornielli traz mais detalhes sobre o encontro entre o Papa Francisco e Dom Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

“O encontro teria ocorrido nas primeiras semanas de 2014. Dom Fellay fora convidado para jantar em Santa Marta pelo bispo Guido Pozzo, secretário da Pontíficia Comissão “Ecclesia Dei” e pelo arcebispo Augustin Di Noia, vice-presidente da mesma comissão. Junto ao prelado tradicionalista estiveram presentes o padre Niklaus Pfluger e o padre Marc Nely (primeiro e segundo assistente do superior geral, que naquele dia assistiram à Missa celebrada pelo Papa em Santa Marta [mas não concelebraram], de acordo com o que noticiou a agência IMedia).

O Papa estava à mesa de costume no refeitório da Casa Santa Marta; Fellay, com seus dois assistentes, Pozzo e Di Noia, estavam numa outra mesa. Quando Francisco se levantou ao fim do jantar, o superior da Fraternidade São Pio X fez o mesmo e caminhou em direção ao Papa, ajoelhando-se para pedir uma benção. O encontro foi, portanto, breve, não se tratou de nenhum audiência, nem de um longo colóquio face a face. Viver em Santa Marta permite e facilita ao Papa Bergoglio esse tipo de contato, mais ou menos casul.

Com o retorno, no último mês de agosto, de Dom Pozzo à “Ecclesia Dei, depois de um parêntese de alguns meses na Esmolaria Apostólica, era esperado que se pudesse reatar o diálogo entre a Santa Sé e a Fraternidade São Pio X. Na Congregação para a Doutrina da Fé há, todavia, aqueles que reivindicam– depois de anos de diálogo e depois da não aceitação do preâmbulo doutrinal — um novo ato formal contra os lefebvrianos. No momento, parece, porém, prevalecer a linha de espera.

O jantar com Di Noia e Pozzo, e a benção papal, é um episódio certamente emblemático de acolhimento por Francisco. Seria, no entanto, um erro lhe atribuir excessiva importância em relação a eventuais desenvolvimentos sobre a posição dos lefebvrianos.

[Atualização - 12 de maio de 2014, às 12:35] A página oficial do Distrito da França da FSSPX faz o seguinte esclarecimento – tradução de Fratres in Unum.com:

Os Padres Pfluger e Nély nunca assistiram à missa privada do Papa e os jornalistas que o afirmam teriam muita dificuldade em indicar o dia dessa suposta assistência. Eis os fatos:

Em 13 de dezembro de 2013, Dom Fellay e seus assistentes foram a Roma, a pedido da Comissão Ecclesia Dei, para um encontro informal. Ao fim dessa reunião, Dom Guido Pozzo, Secretário da Comissão, convidou seus interlocutores para almoçar no refeitório da Casa Santa Marta, onde a eles se juntou Dom Augustin Di Noia, secretário adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé. É nesse amplo refeitório que o Papa faz suas refeições diárias, afastado de outros comensais.

Dom Pozzo apresentou Dom Fellay ao Papa no momento em que ele deixava o refeitório. Houve uma breve conversa onde Francisco disse a Dom Fellay, de acordo com a fórmula usual de polidez, “Estou muito feliz em conhecê-lo”; ao que Dom Fellay disse que rezava muito, e o papa lhe pediu para rezar por ele. Este foi o “encontro” que durou alguns segundos.

Na entrevista que concedeu a Rocher (abril-maio de 2014), Dom Fellay havia respondido à seguinte questão: Houve alguma aproximação oficial de Roma para retomar contato desde a eleição do Papa Francisco?  – “Houve uma aproximação ‘não-oficial’ de Roma para retomar contato conosco, mas nada mais e eu não solicitei uma audiência como eu pude fazer após a eleição de Bento XVI. Para mim, atualmente, as coisas são muito simples: nós permanecemos onde estamos. Alguns concluíram dos contatos realizados em 2012, que eu coloquei como princípio supremo a necessidade de um reconhecimento canônico. A preservação da fé e a nossa identidade católica tradicional é primordial e continua sendo nosso primeiro princípio”.

29 março, 2014

O testamento de Mario Palmaro.

A última entrevista de Mario Palmaro – A Mensagem aos Tradicionalistas: “Disseminem a Fé no Mundo”

A OPORTUNIDADE PERDIDA DOS LEFEBVRIANOS

Professor Palmaro, o senhor (e o mundo eclesial que de alguma maneira o senhor interpreta) justificadamente apoiou a tentativa do Papa Bento de trazer à [plena] comunhão o movimento “cismático” lefebvriano. Porém, em julho de 2012, quando o seu Capítulo Geral recusou o convite da Santa Sé, qual foi a sua opinião sobre essa questão? O que o senhor acha agora dessa atitude?

Embora eu nunca tenha feito parte da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), fundada por Monsenhor Marcel Lefebvre, tive a sorte de conhecê-los em primeira mão há alguns anos. Junto com o jornalista Alessandro Gnocchi, decidimos ver esse mundo com os nossos próprios olhos e também descrevê-lo em dois livros e alguns artigos. Devo dizer que muitos preconceitos que eu tinha se comprovaram infundados; encontrei vários bons padres, freiras e irmãos dedicados a uma experiência séria da vida católica, adornada com abertura e cordialidade. Tive uma impressão muito boa da figura de Dom Bernard Fellay, o bispo que lidera a FSSPX – um homem bom e com grande fé. Descobri um mundo de fiéis leigos e padres que rezam todos os dias pelo Papa, embora tenham se colocado em atitude definitiva de crítica, especialmente, com relação à liturgia, liberdade religiosa e ecumenismo. Vimos muitos jovens, muitas vocações religiosas, muitas famílias católicas “normais” que frequentam a Fraternidade. Padres de batina, que caminhavam pelas ruas de Paris ou Roma, eram abordados por pessoas que lhes pediam conforto e esperança.

Estamos bem familiarizados com o polimorfismo da Igreja contemporânea no mundo, o que significa que hoje em dia denominar-se católico não é a mesma coisa que seguir a mesma doutrina; a heterodoxia está amplamente difundida e há freiras, padres e teólogos que abertamente contestam ou negam partes da doutrina católica. Por essa razão, nos indagamos: Como é possível que haja espaço para todo mundo na Igreja, exceto para esses irmãos e irmãs que são católicos em cada aspecto e que são absolutamente fiéis a 20 de todos os 21 concílios que ocorreram no curso da história católica?

Enquanto escrevíamos o primeiro livro, chegaram notícias sobre o levantamento das excomunhões através da decisão histórica do Papa Bento XVI. O que permaneceu nesse ponto foi uma regularização canônica da Fraternidade. O Papa Bento acreditava nessa reconciliação ternamente e ela ainda precisa ser concretizada. Afirmo que o pontificado de Bento foi uma oportunidade histórica para a plena reconciliação e deixá-la passar foi uma verdadeira vergonha. Sempre afirmei que a FSSPX deve fazer tudo o que for possível para a sua regularização canônica, mas eu acrescentaria que Roma tem que dar a Monsenhor Fellay e a seus fiéis a garantia de respeito e liberdade, acima de tudo na celebração do Vetus Ordo e na doutrina que normalmente é ensinada dentro dos seminários da Fraternidade, a doutrina perene.

AGRESSIVIDADE DEFENSIVA

O apoio total em relação ao Papa Bento XVI não parece ocorrer com o Papa Francisco. Os papas são aceitos ou eles são “escolhidos”? O que o papado representa hoje em dia?

O fato de um papa ser “apreciado” pelas pessoas é completamente irrelevante à lógica de dois mil anos da Igreja: o papa é o Vigário de Cristo na Terra e ele tem que agradar a Nosso Senhor. Isso significa que o exercício do seu poder não é absoluto, mas está subordinado ao ensinamento de Cristo, que se encontra na Igreja Católica, em Sua Tradição, e é promovido pela vida da Graça através dos Sacramentos.

Agora, isso significa que o próprio papa pode ser julgado e criticado pelos católicos [ordinários], contanto que isso aconteça na perspectiva de amor pela verdade, e que a Tradição e o Magistério sejam utilizados como critério de referência. Um papa que contradiga um predecessor em questões de fé e moral, sem dúvida, tem de ser criticado.

Precisamos desconfiar tanto da lógica mundana, em que o papa é julgado pelos critérios democráticos que satisfaçam a maioria, quanto da tentação à “papolatria”, de acordo com a qual “o papa está sempre certo.” Além disso, há décadas nos acostumamos a criticar muitos papas do passado de maneira destrutiva, demonstrando uma parca seriedade historiográfica; bem, não vemos razão porque os papas reinantes ou os mais recentes tenham que ser poupados de qualquer tipo de crítica. Se Bonifácio VII ou Pio V são julgados, por que não julgar Paulo VI ou Francisco?

CONTRA O MODERNISMO

No mundo dos sites (internet) e revistas sobre a Tradição, nota-se uma frequente exibição de forte agressividade. É verdade? Quais são as causas? O que o senhor acha disso?

Os problemas comportamentais de algumas pessoas ou entidades relacionadas à Tradição é algo sério e não podem ser negados. Uma verdade apresentada ou proposta sem caridade é uma verdade traída. Cristo é o nosso caminho, verdade e vida; portanto, devemos sempre seguir o Seu exemplo, pois Ele sempre foi firme na verdade e invencível na caridade. Creio que o mundo da Tradição às vezes é mordaz e polêmico por três motivos: o primeiro é uma determinada síndrome de isolamento, que os torna desconfiados e vingativos, e se manifesta através de problemas de personalidade; o segundo é o escândalo genuíno que certas tendências do catolicismo contemporâneo causam naqueles que conhecem o ensinamento doutrinal dos papas e da Igreja antes do Vaticano II; o terceiro, pela falta de caridade que o catolicismo oficial tem demonstrado a esses irmãos, que são interpelados com desprezo como “tradicionalistas” ou “lefebvrianos”, olvidando que, de qualquer maneira, eles estão mais próximos da Igreja do que os membros de qualquer outra confissão cristã jamais puderam estar ou mesmo qualquer outra religião. A imprensa católica oficial não dedica nem sequer uma linha a essa realidade – que inclui centenas de padres e seminaristas – e ainda assim eles são capazes de oferecer páginas a pensadores que não têm nada, ainda que vagamente, do pensamento católico.

Ao comentar sobre a instrução do Vaticano com relação aos Franciscanos da Imaculada, o senhor invocou objeção de consciência para os religiosos quanto às indicações litúrgicas. De que maneira [então] os religiosos devem obedecer a sua família espiritual? Como o senhor coloca a objeção de consciência na tradição do Syllabus?

No meu ponto de vista, a questão dos Franciscanos da Imaculada é muito triste. Ela diz respeito às disposições tomadas por um comissário externo e decidida por Roma com pressa incomum e gravidade igualmente inexplicável. Uma vez que conheço essa família religiosa muito bem, acho que essa decisão é completamente injustificável e [assim] juntamente com outros três expoentes apresentei um pequeno apelo ao Vaticano.

Em suma, lembre-se que as disposições “destitua” o fundador e proíba a celebração do Rito Antigo a todos os sacerdotes da Congregação constitui uma flagrante contradição ao que foi estabelecido por Bento XVI em seu Motu Proprio, Summorum Pontificum. Você está certo: a resistência a uma ordem de autoridade legítima sempre cria um problema para o cristão, ainda mais se ele faz parte de uma família religiosa. Não obstante, nesse caso há alguns aspectos claramente inaceitáveis, e afirmo que os padres dos Franciscanos da Imaculada devem continuar celebrando a Missa na Forma Extraordinária do Vetus Ordo, assegurando que o birritualismo que conheço era a prática normal dos frades. Eu acrescentaria que, em uma Igreja sacudida por milhares de problemas e rebeliões, em que congregações gloriosas estão desaparecendo por falta de vocações, não é bom ver os Franciscanos da Imaculada sendo atingidos dessa maneira, uma vez que eles têm vocações abundantes em todo o mundo.

Em sua opinião, quais são os limites mais evidentes da sensibilidade católica “conciliar” (ou “liberal” se o senhor preferir)? Quais são as suas fragilidades mais evidentes?

Na minha opinião, o problema fundamental é o seu relacionamento com o mundo,  marcado por uma atitude de sujeição e dependência, quase como se a Igreja precisasse Ela mesma adaptar-se aos caprichos dos homens, quando, na verdade, sabemos que é o homem que precisa se adaptar à vontade de Cristo, o Rei da história e do universo. Quando Pio X atacou o Modernismo severamente, ele queria afastar essa tentação mortal do catolicismo: a mudança de doutrina para acompanhar o espírito do mundo. Uma vez que a humanidade tem sido presa do processo de dissolução que começou com a Revolução Francesa (seguida pela modernidade e pós-modernidade) a Igreja é mais do que chamada a resistir a esse espírito do mundo. Ao invés disso, muitas escolhas feitas pela Igreja nos últimos 50 anos são um sintoma de sujeição [a esse espírito do mundo]: a reforma litúrgica, que construiu a Missa para as sensibilidades contemporâneas pela destruição de um Rito em vigor há séculos, orientando tudo em direção à palavra, à assembleia, à participação, [e ao mesmo tempo] diminuindo a centralidade do Sacrifício; a insistência no sacerdócio universal, que tem desvalorizado o sacerdócio ministerial, desanimado gerações de padres e acarretado uma crise sem precedentes nas vocações; a arquitetura “sacra”, que construiu monstros antilitúrgicos; a abolição de facto dos Novíssimos, quando o tema da salvação de almas (e o risco de condenação eterna) é o único assunto sobrenatural que diferencia a Igreja de uma agência filantrópica; e daí por diante.

TORNAR-SE SANTOS

Os crentes estão unidos no essencial e estão divididos em questões controversas. Entretanto, todo mundo é chamado a respeitar e acompanhar àqueles que estão atribulados pelo sofrimento e pelas fatigas da vida. Como é que as sensibilidades espirituais de alguém se modificam quando essa pessoa experimenta o sofrimento ao longo dos dias com violência, como está acontecendo com o senhor?

A primeira coisa que nos abala a respeito da doença é que ela nos atinge sem qualquer aviso e em um momento que não decidimos. Ficamos à mercê dos acontecimentos e não podemos fazer nada a respeito, a não ser aceitá-los. A enfermidade grave nos obriga a estarmos cientes de que somos verdadeiramente mortais; mesmo se a morte é a coisa mais certa no mundo, o homem moderno tende a viver como se ele nunca fosse morrer.

Na doença você compreende pela primeira vez que a vida na Terra é apenas um sopro, você reconhece com amargor que você não se tornou aquela obra prima de santidade que Deus queria. Você experimenta uma profunda nostalgia pelo bem que poderia ter feito e pelo mal que poderia ter evitado. Você olha para o Crucifixo e compreende que este é o coração da Fé; sem sacrifício o catolicismo não existiria. Então, você agradece a Deus por tê-lo tornado um católico, um “pequeno” católico, um pecador, mas alguém que tem uma Mãe atenta na Igreja. Assim, a enfermidade grave é um tempo de graça, mas frequentemente os vícios e as misérias que nos acompanharam na vida permanecem ou até mesmo aumentam [durante ela]. É como se a agonia já tivesse começado, e existe uma batalha sendo travada pelo destino da minha alma, porque ninguém pode estar seguro da sua própria salvação.

Por outro lado, esta enfermidade permitiu que eu descobrisse uma quantidade impressionante de pessoas que me amam e que rezam por mim; famílias que recitam o Rosário à noite com os seus filhos pela minha recuperação. Não tenho palavras para descrever a beleza dessa experiência, que é uma antecipação do amor de Deus e da própria eternidade. O maior sofrimento que experimento é a ideia de ter de deixar este mundo que de tanto gosto e que é tão belo mesmo que também seja tão trágico; de ter que deixar muitos amigos e parentes; mas acima de tudo, de ter que deixar a minha esposa e meus filhos, que ainda estão em tenra idade.

Às vezes imagino meu lar, meu estudo vazio e a vida que continuarei lá, mesmo se não estiver presente. É uma cena que dói, mas é extremamente realista: ela me faz perceber a inutilidade do servo que tenho sido, e que todos os livros que escrevi, as conferências que proferi e os artigos que redigi são nada mais do que palha [NdT.: possível alusão a Santo Tomás de Aquino, que afirmara a mesma coisa após uma experiência mística ao final de sua vida]. Porém, minha esperança está firmada na misericórdia do Senhor e no fato de que outras pessoas recolham parte das minhas aspirações e batalhas e continuem o “antigo duelo”.

[Fonte original: Settimana (Ed. Dehoniane), 27 de outubro de 2013, edição nº 38/2013, p. 12-13. Tradução para o português de Fratres in Unum.com feita a partir da tradução para o inglês de Francesca Romana]