Posts tagged ‘Hagiografia’

outubro 4, 2011

O verdadeiro Espírito de Assis.

Por Padre Elcio Murucci

São Francisco, instigado pelo zelo da fé cristã e pelo desejo do martírio, atravessou uma vez o mar com doze de seus companheiros santíssimos, para ir diretamente ao sultão de Babilônia. E chegou a uma região de sarracenos, onde certos homens cruéis guardavam as passagens, que nenhum cristão que ali passasse podia escapar sem ser morto; como aprouve a Deus, não foram mortos, mas presos, batidos e amarrados foram levados diante do sultão. E estando diante dele São Francisco, ensinado pelo Espírito Santo, pregou tão divinamente sobre a fé cristã, que mesmo por ela queria entrar no fogo. Pelo que o sultão começou a ter grandíssima devoção por ele, tanto pela constância de sua fé, como pelo desprezo do mundo que nele via; porque nenhum dom queria dele receber, sendo pobríssimo; e também pelo fervor do martírio que nele via. E deste ponto em diante o sultão o ouvia com boa vontade e pediu-lhe que freqüentemente voltasse à sua presença, concedendo livremente a ele e aos seus companheiros que podiam pregar onde quisessem. E deu-lhes um sinal com o qual não podiam ser ofendidos por ninguém. Obtida esta licença tão generosa, São Francisco mandou aqueles seus eleitos companheiros, dois a dois, por diversas terras de sarracenos, a pregar a fé cristã; e ele com um deles escolheu um lugar… Vendo São Francisco que não podia obter mais fruto naquelas partes, por divina revelação se dispôs com todos os seus companheiros a retornar aos fiéis; e reunindo todos os seus voltou ao sultão e despediu-se. E então lhe disse o sultão: Frei Francisco, de boa vontade me converteria à fé cristã, mas temo fazê-lo agora, porque se esses homens o descobrissem matariam a mim e a ti com todos os teus companheiros: mas, porque tu podes fazer muito bem, e eu tenho de resolver certas coisas de muito peso, não quero agora causar a tua morte e a minha, mas ensina-me como me poderei salvar, e estou pronto a fazer o que me impuseres. Disse então São Francisco: senhor, separar-me-ei de vós, mas depois de chegar ao meu país e ir ao céu pela graça de Deus, depois de minha morte, conforme a vontade de Deus, enviar-te-ei dois dos meus irmãos, dos quais receberás o santo batismo de Cristo e serás salvo, como me revelou meu Senhor Jesus Cristo. E tu, neste espaço, desliga-te de todo impedimento, a fim de que, quando chegar a ti a graça de Deus, te encontre preparado em fé e devoção. E assim prometeu fazer e fez. Isto feito, São Francisco retornou com aquele venerável colégio de seus santos companheiros: e depois de alguns anos São Francisco, pela morte corporal, restituiu a alma a Deus. E o sultão adoecendo espera a promessa de São Francisco e faz postar guardas em certas passagens, ordenando que, se dois frades aparecessem com o hábito de São Francisco, imediatamente fossem conduzidos a ele. Naquele tempo apareceu São Francisco a dois frades e ordenou-lhes que sem demora fossem ao sultão e procurassem a salvação dele, segundo lhe havia prometido. Os quais frades imediatamente partiram e, atravessando o mar, pelos ditos guardas foram levados ao sultão. E vendo-os, o sultão teve grandíssima alegria e disse: Agora sei, na verdade, que Deus mandou os seus servos para a minha salvação, conforme a promessa que me fez São Francisco por divina revelação. Recebendo, pois, a informação de fé cristã, e o santo batismo dos ditos frades, assim regenerado em Cristo, morreu daquela enfermidade, e sua alma foi salva pelos méritos e operação de São Francisco.

Hoje, festa de São Francisco de Assis, peçamos a Deus por intercessão dele, a conversão dos hereges, cismáticos, ateus e dos católicos que vivem no pecado. Hoje, mas do que na  época do Poverello, se faz mister amparar a Santa Madre Igreja que está auto se demolindo, sobretudo por causa do ecumenismo. Vendo o verdadeiro espírito de São Francisco de Assis, não temos dificuldade em perceber que não se poderia escolher lugar menos indicado para os tristemente famigerados “Encontros Ecumênicos” do que a cidade natal deste grande Missionário e de Santa Clara.

* * *

Carta de São Francisco aos governantes dos povos

A todos os potentados e conselheiros, juízes e governadores no mundo inteiro, e a todos quantos receberem esta carta, Frei Francisco, mísero e pequenino servo do Senhor, deseja saúde e paz.

Considerai e vede que “se aproxima o dia da morte” (Gn 47, 29). Peço-vos pois com todo o respeito de que sou capaz que, no meio dos cuidados e solicitudes que tendes neste século, não esqueçais o Senhor nem vos afasteis dos Seus mandamentos. Pois todos aquele que O deixam cair no esquecimento e “se afastam dos Seus mandamentos” são amaldiçoados” (Sl 118, 21) e serão por Ele entregues ao esquecimento” (Ez 33, 13). E quando chegar o dia da morte, “tudo o que entendiam possuir ser-lhes-á tirado” (Lc 8, 18). E quanto mais sábios e poderosos houverem sido neste mundo, tanto maiores “tormentos padecerão no inferno” (Sab. 6, 7).

Por isso aconselho-vos encarecidamente, meus senhores, que deixeis de lado todos os cuidados e solicitudes e recebais com amor o santíssimo Corpo e o santíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, por ocasião de Sua santa memória.

E rendei tão grande homenagem ao Senhor com o povo a vós confiado, que todas as tardes, que façais anunciar por um pregoeiro ou por outro qualquer sinal que todo o povo deverá render graças e louvores ao Senhor Deus todo-poderoso. E se o não fizerdes, sabei que haveis de dar conta perante Vosso Senhor Jesus Cristo no dia do Juízo.

Os que levarem consigo este escrito e o observarem saibam que serão abençoados por Deus Nosso Senhor.

outubro 3, 2011

Traçar um caminho, um ‘caminhozinho’.

Há um terceiro templo, uma terceira casa de Deus entre os homens que, certamente, não nos cabe dedicar ou consagrar a Deus, já que Ele mesmo o fez, mas exaltar e glorificar no dia de hoje. Essa casa de Deus é a alma de vossa encantadora Santa Teresa do Menino Jesus. Por humilde que fosse, por pequenina que desejasse ser, a alma da Santa Teresa foi um imenso e magnífico templo.

[...] Deus hoje habita em seus templos, dizíamos há pouco, não como naqueles em que outrora repousavam insensíveis e inertes as tábuas da lei antiga – mas pelos ministros do seu poder, pelos mandatários de sua jurisdição que em nossas igrejas promulgam sua Lei e sancionam sua observância. Assim essa lei divina aí permanece viva e atuante guiando as almas no caminho da retidão e da pureza fora dos quais a natureza fraca e corrompida não conhece senão descaminhos e vergonhas.

A Lei de Deus assim foi, viva e ativa, na alma de Teresa. Como a outra Virgem, de quem nos falam os Atos “que trazia sempre no peito o Evangelho do Senhor” Teresa trazia sempre presente em sua alma e seu coração, a Lei e os conselhos divinos de seu bem amado Jesus Cristo.

[...] Traçar um caminho, um “caminhozinho”. Sua ciência das coisas divinas, em parte adquirida, em parte infusa, ela não a guardou para si. Disse: “Minha missão é de ensinar a amar a Deus como eu O amo e de entregar meu ‘caminhozinho’ às almas”. É este um dos mais maravilhosos ângulos dessa figura tão atraente: a carmelitazinha, que do fundo do seu convento dá lições ao mundo do nosso século tão orgulhoso de sua ciência. Ela tem uma missão; tem uma doutrina. Mas sua doutrina, como ela mesma, é humilde e simples; resume-se em duas palavras: “Infância espiritual” ou em sua equivalente: “Caminhozinho”.

Cardeal Eugênio Pacelli, discurso de 11 de julho de 1937, por ocasião da Consagração da Basílica dedicada a Santa Teresinha, no 11º Congresso Eucarístico Nacional da França.

Publicado originalmente em 3 de outubro, festa de Santa Teresinha do Menino Jesus, de 2008.

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setembro 3, 2011

A atitude pessoal de São Pio X para com os modernistas.

Na festa de São Pio X, pedimos a intercessão de tão insígne Pontífice para que imitemos o seu exemplo de caridade e zelo.

Desde sua primeira encíclica, Pio X urgia por caridade mesmo para com “aqueles que se nos opõe e persegue, vistos, talvez, como piores do que realmente são”. Esta caridade não era um sinal de fraqueza, mas estava fundamentada na esperança: “a esperança”, escreveu o Papa, “de que a chama da caridade Cristã, paciente e afável, dissipará as trevas de suas almas e trará a luz e a paz de Deus”.

Pio X também tinha sua esperança – de ver os adversários da Igreja emendando seus caminhos e renunciando seus erros – no que diz respeito aos modernistas.

Os testemunhos que citaremos o provarão de maneira incontestável. Mas Pio X fez mais: discretamente  deu assistência financeira a alguns deles ou lhes arranjou outros ofícios; em outros casos, mostrou-se prudente antes de condená-los. Era esta generosidade, nada excepcional, incompatível com sua determinação na luta contra o modernismo? Como pode o mesmo homem que impõe sanções, depõe clérigos, excomunga, simultaneamente mostrar-se caridoso e contido? Durante o processo de beatificação, o Promotor da Fé apresentou uma série de objeções; uma delas era: “Sejamos francos: a questão, a única questão que, a meu ver, parece se levantar neste grande inquérito, é saber se Pio X, em sua luta contra o modernismo, ultrapassou as fronteiras da prudência e da justiça, particularmente em seus últimos anos…” [Novae Animadversiones, citado em Conduite de s. Pie X, p. 14] A isso, o Postulador da Causa respondeu com um volumoso dossiê de mais de 300 páginas no qual mostrava que Pio X era “firme em seus princípios, correto em suas intenções e paciente e afável com aqueles com quem lidava, mesmo se tivesse razões justas para expressar sua angústia por causa deles”. [Ibid., p. 20]

Voltamo-nos a esta questão da atitude pessoal de Pio X para com os modernistas e citaremos vários casos. Os contemporâneos de Pio X talvez desconhecessem esses gestos de caridade e justiça da parte do Pontífice. No dia seguinte à morte do Papa, Mons. Mignot, que era próximo dos modernistas, repreendeu o falecido nos seguintes termos: “Pio X era um santo, com um desinteresse raro para um italiano, mas suas idéias absolutas paralisavam seu coração… Ele esmagou muitas almas, a quem um pouco de ternura teria mantido no caminho correto”. [Carta de Mons. Mignot a Hügel, 9 de setembro de 1914, citado por Poulat, Histoire, dogma et critique, p. 480] Os historiadores do modernismo não mencionam os gestos de caridade ou justiça de Pio X, ou o fazem apenas de passagem. O número e a consistência destes atos mostram, todavia, que não foram resultados de decisões excepcionais de sua parte, mas manifestavam uma disposição intelectual e uma atitude espiritual. Na luta contra o fenômeno do modernismo, todos os métodos eram usados, e sem piedade, pois Pio X considerava que a fé dos fiéis estava em perigo e que o futuro da Igreja estava em jogo; por outro lado, quando se tratava da sorte dos modernistas, Pio X, sabendo-o, fazia grande esforço para ser o mais justo, prudente e caridoso possível.

Um exame das relações de Pio X com Loisy, o mais famoso dos modernistas, dá-nos uma boa idéia de seus profundos sentimentos. Como já vimos, quando Loisy manifestou sua disposição de se submeter, Pio X exigia, insistia que o exegeta francês devesse fazer uma completa e sincera submissão “com seu coração”. Loisy, que persistiu em seus erros após a Pascendi, acabou excomungado. Viveu em retiro em Ceffonds, Haute-Marne, e logo seria eleito para o Collège de France. No entanto, Pio X não o via como um filho perdido da Igreja. Em 1908, recebendo o novo bispo de Châlons, Dom Sevin, Pio X recomendou-lhe Loisy (a quem ele havia excomungado há pouco tempo). As palavras do Papa foram relatadas pelo próprio Loisy: “O senhor será o bispo do Pe. Loisy. Se tiver a oportunidade, trate-o com gentileza; e se ele der um passo em sua direção, dê dois na direção dele”. [Loisy, Mémoires, vol. III, p. 27. Pe. Lagrange dá outra versão destas palavras, versão que ouviu da boca de Dom Sevin; quando o bispo de Châlons perguntara ao Papa que atitude deveria adotar com relação a Loisy se este demonstrasse arrependimento, o Papa respondeu: Recebei-o de braços abertos. Digo ao senhor que ele, meu filho, irá voltar” (Lagrange, M. Loisy et le modernisme, p. 138)]

Outro caso é o do Pe. Murri. Como veremos, a Liga Nacional Democrática que fundara foi condenada pelo Papa. Ele tinha conhecidos laços com modernistas. Em abril de 1907, no despertar de uma série de artigos nos quais Murri amargamente criticava a política do Vaticano na França, Pio X enviou uma carta ao bispo da diocese deste líder democrático, instruindo-o a informar a este último que estava suspenso a divinis. Quando, alguns meses depois, a Encíclica Pascendi estava prestes a ser publicada, havia uma certa expectativa de que Murri fosse imediatamente excomungado, dado que estava absolutamente claro que o turbulento líder democrata cristão se oporia à Encíclica. O problema foi colocado a Pio X, que preferiu ser paciente. Em 25 de agosto de 1907, escreveu à Congregação do Santo Ofício: “Se tudo estiver em ordem com o celebret do Pe. Romolo Murri, ele não pode, sem grave injustiça, ser proibido de rezar Missa, na medida em que não realizou qualquer ato condenado pela Encíclica”. [Citado por Dal-Gal, Pie X, p. 404] Murri, contudo, persistiu publicamente em suas posições e foi, ao fim, excomungado em 1909. Posteriormente, ele experimentou graves dificuldades financeiras; Pio X soube disso e pagou-lhe uma pensão mensal.[Depoimento do Cardeal Merry del Val, Summarium, p. 195]

[…]

Pio X tinha de levar muitas coisas em consideração: a salvaguarda da fé e do bem da Igreja, a necessidade e a legitimidade de estudos em matérias de religião, o bem pessoal e a boa fé das pessoas envolvidas, assim como as manobras, as ambições e o zelo das partes. Enquanto Papa, seu dever eram aqueles primeiros; como cristão, estava obrigado a seguir a caridade, prudência e justiça. [...] Pio X sentia como seu dever, enquanto guardião da fé, combater o modernismo, e fazê-lo usando os mais variados métodos e sem fraqueza, pois, como via, a própria existência da Igreja estava ameaçada. Ao mesmo tempo, sem fazer qualquer concessão ao erro, esforçava-se por ajudar os culpados ou suspeitos, e tomava grande cuidado em limitar os excessos dos anti-modernistas. Uma de suas máximas favoritas era: “devemos combater o erro sem ferir as pessoas envolvidas”.

Saint Pius X, Restorer of the Church – Yves Chiron, Angelus Press, 2002, pp. 236-237;241-242. Tradução: Fratres in Unum.com.

agosto 25, 2011

Na festa de São Luís, Rei de França.

Ensinamentos de São Luis, Rei de França, a seu filho, o princípe Filipe.

Caro filho, antes de tudo começo por ensinar-te a amar o Senhor, teu Deus, com todo o coração, com todas as tuas forças, porque sem isso ninguém tem valor.

Filho, deves evitar tudo quando sabes desagradar a Deus, quer dizer, o pecado mortal, de tal forma que prefiras ser atormentado por toda sorte de martírios a cometer um pecado mortal.

Ademais, se o Senhor permitir que te advenha alguma tribulação, deves suportá-la com serenidade e ação de graças. Considera suceder tal coisa em teu proveito e que, talvez, a tenhas merecido. Além disso, se o Senhor te conceder a prosperidade, tens de agradecer-lhe humildemente, tomando cuidado para que nesta circunstância não te tornes pior, por vanglória ou outro modo qualquer, porque não deves ir contra Deus ou ofendê-lo valendo-se de seus dons.

Ouve com boa disposição e piedade o ofício da Igreja e enquanto estiveres no templo, cuida de não vagueares os olhos ao redor, de não falar sem necessidade, mas roga ao Senhor devotamente quer pelos lábios quer pelo coração.

Guarda um coração compassivo para com os pobres, infelizes e aflitos e, quando puderes, auxilia-os e consola-os. Por todos os benefícios que te foram dados por Deus, rende-lhe graças para te tornares digno de receberes maiores. Em relação a teus súditos, sê justo até ao extremo da justiça sem de te desviares para a direita nem para  esquerda: e põe-te sempre de preferência da parte do pobre mais do que do rico, até estares bem certo da verdade. Procura com empenho que todos os seus súditos sejam protegidos  pela justiça e pela paz, principalmente as pessoas eclesiásticas e religiosas.

Sê delicado e obediente  à nossa mãe, a Igreja Romana, ao Sumo Pontífice, como pai espiritual.  Esforça-te por remover de teu país todo pecado, sobretudo o das blasfêmia e da heresia.

Ó filho muito amado, dou-te enfim, toda bênção que um pai pode dar a um filho; e toda a Trindade e todos os santos te guardem do mal. Que o Senhor conceda a graça de fazer sua vontade de forma a ser servido e honrado por ti. E assim depois desta vida, iremos juntos vê-lo, amá-lo, louvá-lo sem fim. Amém.

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agosto 8, 2011

Sancti Ioannis Mariae Vianney, ora pro nobis!

São João Maria Vianney, rogai por nós

O Santo Cura d’Ars sempre manifestou a mais alta consideração pelo dom recebido. Afirmava: “Ó, que grandioso é o sacerdócio! Só se compreende bem no Céu… mas se o compreendesse sobre a terra, morrer-se-ia, não de temor, mas de amor” (Abbé Monnin, Esprit du Curé d’Ars, p. 113). Além disso, quando criança, tinha confiado a sua mãe: “Se eu fosse padre, conquistaria muitas almas” (Abbé Monnin, Procès de l’Ordinaire, p. 1.064). E assim foi. No serviço pastoral, tão simples como extraordinariamente fecundo, este anônimo pároco de uma distante aldeia do sul da França conseguiu de tal modo identificar-se com o seu ministério que se tornou, de uma maneira visivelmente reconhecível, alter Christus, imagem do Bom Pastor, que, diferentemente dos mercenários, dá a vida por suas ovelhas (cf. Jo 10:11). A exemplo do Bom Pastor, ele deu a vida nos decênios de seu serviço pastoral. Sua existência foi uma catequese viva que adquiria uma eficácia particularíssima quando as pessoas o viam celebrar a missa, deter-se em adoração diante do sacrário ou passar muitas horas no confessionário. [...] Os métodos pastorais de São João Maria Vianney poderiam parecer um pouco distantes das atuais condições sociais e culturais. Como poderia imitá-lo um sacerdote hoje, em um mundo tão mudado? Se é verdade que mudam os tempos e muitas características são típicas de cada pessoa, às vezes irrepetíveis, há no entanto um estilo de vida e um alento fundamental que todos somos chamados a cultivar. Na verdade, o que fez santo o Cura d’Ars foi a sua humilde fidelidade à missão a que Deus o chamou, foi seu constante abandono, cheio de confiança, nas mãos da Divina Providência. Ele conseguiu tocar o coração das pessoas não com a força de seus talentos humanos, ou através de um louvável esforço da vontade; conquistou as almas, mesmo as mais resistentes, comunicando-lhes aquilo que vivia internamente, que era a sua amizade com Cristo. [...]

Longe de diminuir a figura de São João Maria Vianney a um exemplo, embora louvável, da espiritualidade devocional do século XIX, é necessário, por outro lado, compreender a força profética que marca sua personalidade humana e sacerdotal de uma altíssima atualidade. Na França pós-revolucionária, que experimentava uma espécie de “ditadura do racionalismo”, empenhada em apagar a presença dos padres e da Igreja na sociedade, ele tinha vivido anteriormente –nos anos de juventude– uma heróica clandestinidade percorrendo quilômetros pela noite para participar da Santa Missa. Depois –como sacerdote– distingue-se por uma singular e fecunda criatividade pastoral, pronta a demonstrar que o racionalismo, então imperante, era na realidade distante de satisfazer as necessidades autênticas do homem.

Queridos irmãos e irmãs, 150 anos após a morte do Santo Cura d’Ars, os desafios da sociedade moderna não são menos exigentes, talvez até se tornaram mais complexos. Se naquele tempo havia a “ditadura do racionalismo”, hoje se registra em muitos ambientes uma espécie de “ditadura do relativismo”. Ambas lançam respostas inadequadas à justa procura do homem por usar de modo pleno a razão como elemento distintivo e constitutivo da própria identidade. O racionalismo foi inadequado porque não levou em conta os limites humanos e aspirou a elevar apenas à razão a mistura de todas as coisas, transformando-as em uma ideia; o relativismo contemporâneo mortifica a razão, porque de fato chega a afirmar que o ser humano não pode conhecer nada com certeza além do campo científico positivo. Hoje, como então, o homem, “mendicante de significado e completude”, sai em contínua busca das respostas exaustivas às questões de fundo que não cessam de se colocar.

Audiência Geral do Papa Bento XVI aos peregrinos em Castel Gandolfo, 04 de agosto de 2009.

No Rito Romano Tradicional, a festa de São João Maria Vianney é celebrada em 8 de agosto.

Post publicado originalmente em 2009.

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fevereiro 23, 2011

“Portanto, deves concluir: quem encontra Deus encontra tudo, quem perde Deus perde tudo”.

São Roberto Bellarmino desempenhou um papel importante na Igreja nos últimos decênios do século XVI e nos primeiros do século sucessivo. As suas Controversiae constituíram um ponto de referência, ainda válido, para a eclesiologia católica sobre questões acerca da revelação, a natureza da Igreja, os Sacramentos e a antropologia teológica. Nesses, aparece acentuado o aspecto institucional da Igreja, motivado por erros que então circulavam sobre tais questões. Todavia, Bellarmino esclareceu também os aspectos invisíveis da Igreja como Corpo Místico e ilustrou-o com a analogia do corpo e da alma, a fim de descrever a relação entre as riquezas interiores da Igreja e os aspectos exteriores que as tornam perceptíveis. Nessa obra monumental, que busca sistematizar as várias controvérsias teológicas da época, ele evita todo o enfoque polêmico e agressivo nos confrontos com as ideias da Reforma, mas, utilizando os argumentos da razão e da Tradição da Igreja, ilustra de modo claro e eficaz a doutrina católica.

[...]

No seu livro De ascensione mentis in Deum – Elevação da mente a Deus – composto sobre o esquema do Itinerarium de São Boaventura, exclama: “Ó alma, o teu exemplo é Deus, beleza infinita, luz sem sombras, esplendor que supera aquele da lua e do sol. Levanta os olhos a Deus, no qual se encontram os arquétipos de todas as coisas, e do qual, como uma fonte de infinita fecundidade, deriva essa variedade quase infinita das coisas. Portanto, deves concluir: quem encontra Deus encontra tudo, quem perde Deus perde tudo”.

Nesse texto, sente-se o eco da célebre contemplatio ad amorem obtineundum – contemplação para obter o amor – dos Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola. Bellarmino, que vive na pródiga e muitas vezes doente sociedade do fim do século XV e início do XVI, dessa contemplação buscava aplicações práticas e ali projeta a situação da Igreja do seu tempo com viva inspiração pastoral. No livro De arte bene moriendi – a arte de morrer bem – por exemplo, indica como norma segura do bom viver, e também do bom morrer, o meditar frequentemente e seriamente que se deverá prestar contas a Deus das próprias ações e do próprio modo de viver, bem como não buscar acumular riquezas nesta terra, mas viver de modo simples e com caridade, de modo a acumular bens no Céu. No livro De gemitu columbae – o gemido da pomba, onde a pomba representa a Igreja – exorta com força ao clero e a todos os fiéis a uma reforma pessoal e concreta da própria vida seguindo aquilo que ensinam a Sagrada Escritura e os Santos, entre os quais cita, particularmente, São Gregório Nazianzeno, São João Crisóstomo, São Jerônimo e Santo Agostinho, além dos grandes Fundadores de Ordens Religiosas, como São Bento, São Domingos e São Francisco. Bellarmino ensina com grande clareza e com exemplo da sua vida que não se pode exercer verdadeira reforma da Igreja se antes não há reforma pessoal e a conversão do nosso coração.

Excerto da catequese de hoje do Papa Bento XVI sobre S. Roberto Bellarmino

fevereiro 19, 2011

Santa Catarina de Sena – carta 16: A sede de almas nos pastores.

Para um importante prelado

1. Saudação e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, reverendo e caríssimo pai [1] no Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo crucificado, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver sedento da salvação das almas para a glória de Deus.

2. A sede das almas em Jesus

O primeiro mestre neste assunto é Jesus Cristo, que por sua sede da nossa salvação morreu na cruz. Nisto, o Cordeiro imaculado parece insaciável. Saturado de dores, clamou na cruz: “Tenho sede” (Jo. 19,28). Sem dúvida ele estava com sede corporalmente, mas bem maior era sua sede da salvação das almas. Ó inestimável caridade! Embora sofrendo muito, até parece que não sofres o suficiente; parece que não esgotas o desejo que tens de padecer. E de tudo, o impulso vem do amor! Já não me maravilho disso, pois teu amor era infinito, ao passo que a dor era finita. Eis por que o desejo de sofrer superava o martírio do corpo.

janeiro 26, 2011

Íntegra da catequese do Papa Bento XVI sobre Santa Joana D’arc.

Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé
(tradução de Mirticeli Medeiros – equipe CN Notícias)

Caros irmãos e irmãs,

Hoje gostaria de falar sobre Joana D´Arc, uma jovem santa do final do período medieval, que morreu aos 19 anos, em 1431. Esta santa francesa citada muitas vezes no Catecismo da Igreja Católica, está particularmente ligada a Santa Catarina de Sena, patrona da Itália e da Europa, da qual falei recentemente em um das minhas recentes catequeses.

De fato, são duas jovens mulheres do povo, leigas e consagradas na virgindade; duas misticas comprometidas, não na clausura, mas em meio as realidades mais dramáticas da Igreja e do mundo no tempo delas. Elas são talvez as figuras mais características entre aquelas mulheres fortes que, no fim da era medieval levaram sem medo a grande luz do Evangelho para as complexas situações da história. Poderemos colocá-las ao lado das santas mulheres que permaneceram no Calvário aos pés de Jesus crucificado e Maria sua mãe, enquanto que os apóstolos tinham fugido  e até Pedro o havia traído três vezes.

A igreja naquele período vivia a profunda crise do grande cisma do Ocidente que durou quase 40 anos. Quando Catarina de Sena morre, em 1380, existia um papa e um antipapa; quando Joana nasce, em 1412, existia um papa e dois antipapas. Junto a esta dilaceração no interior da Igreja, aconteciam continuas guerras fratricidas  entre os povos cristãos da Europa, entre as quais a mais dramática foi a interminável “Guerra dos cem anos”, entre França e Inglaterra.

janeiro 26, 2011

Bento XVI sobre Santa Joana D’arc: “verdadeira paz com justiça entre os povos cristãos, à luz dos nomes de Jesus e Maria”.

Nicole Melhado
Da Redação, com Rádio Vaticano (Tradução equipe CN Notícias)

Ao dedicar a Catequese desta quarta-feira, 26, a Joana D’Arc, o Papa Bento XVI destacou seu “belo exemplo de santidade para os leigos empenhados na vida política, sobretudo nas situações de maior dificuldade”.

Catarina de Siena, patrona da Europa, e Joana D’Arc são as figuras mais características daquelas “mulheres fortes” que, no fim da Idade Média, levaram sem medo a grande luz do Evangelho nos momentos complexos da história.  Salientando a força das mulheres, o Santo Padre recordou também o exemplo da Virgem Maria e Maria Madalena. “Podemos escutar as santas mulheres que permaneceram no Calvário, próximas a Jesus crucificado e a Maria, Sua mãe, enquanto os apóstolos fugiram e o próprio Pedro negou Jesus três vezes.

Joana D’Arc nasce num período conturbado na Igreja e na França, em 1412, quando existia um Papa e dois anti-papa. Junto com este cisma na Igreja, contínuas guerras aconteciam entre as nações cristãs da Europa. A mais dramática foi a “Guerra dos Cem Anos”, entre França e Inglaterra. “A compaixão e o empenho da jovem camponesa francesa diante do sofrimento do seu povo tornou mais intenso o seu relacionamento místico com Deus”, explica Bento XVI.

O Pontífice recorda que um dos aspectos mais originais da santidade desta jovem é justamente esta ligação entre a experiência mística e a missão política. “Depois dos anos de vida oculta e crescimento interior, seguem dois anos, curtos, mas intensos, de sua vida pública: um ano de ação e um ano de paixão”, conta.

Depois de Joana D’Arc passar por alguns exames realizados por teólogos, o futuro Rei da França, Carlos VII, se rende aos seus conselhos. A sua proposta é de verdadeira paz com justiça entre os povos cristãos, à luz dos nomes de Jesus e Maria, mas esta proposta foi rejeitada e Joana se engaja na luta pela libertação da cidade em 8 de maio 1429.

“Joana vive com os soldados, levando a eles uma verdadeira missão de evangelização. Muitos testemunham sua bondade, sua coragem e sua extraordinária pureza. É chamado por todos, como ela mesma se definia,  ‘la pulzella’, a virgem”, conta o Papa.

Mas em 1430, ela é presa por seus inimigos, que a levaram a um processo eclesial. Ela é acusada e julgada até ser condenada como herege e levada à morte na fogueira.  Segundo o Papa, este juízes são teólogos sem caridade e humildade que não viram nesta jovem a ação de Deus. “Os juízes de Joana radicalmente incapazes de compreender, de ver a beleza de sua alma, não sabiam que condenavam uma santa”.

Na manhã do dia 30 de maio, recebe pela última vez a Comunhão na prisão e, em seguida, é conduzida à praça do velho mercado. Pede a um dos sacerdotes de ter diante de si uma cruz de procissão e, assim, morre “olhando Jesus Crucificado e pronuncia mais vezes e em alta voz o Nome de Jesus”.

Cerca de 25 anos depois, o Processo de Nulidade, sob a autoridade do Papa Calisto III, é concluido com uma solene sentença que declara nula a condenação. Bento XVI recorda que este longo processo recolheu testemunhos que colocaram em luz a inocência e a perfeita fidelidade de Joana D’Arc, que depois foi canonizada pelo Papa Bento XV, em 1920.

“O Nome de Jesus, invocado por essa santa até os últimos momentos de sua vida terrena, era como o contínuo respiro da sua alma, como um hábito do seu coração, o centro da sua vida”, ressalta o Santo Padre.

Para o Pontífice, o “mistério da caridade de Joana D’Arc é aquele total amor de Jesus que está sempre em primeiro lugar na sua vida. “Amá-lo significa obedecer sempre a sua vontade. Ela afirmava com total confiança e abandono: ‘Confio-me a Deus, meu Criador, amo-o com todo meu coração’”,  destacou o Papa.

Esta santa viveu a oração como um diálogo contínuo com Deus que iluminava também seu diálogo com os juízes e dava paz e segurança. Jesus se revela a ela como o “Rei do Céu e da Terra”, e segundo Bento XVI, a liberdade do seu povo era uma obra de justiça humana, que Joana cumpre na caridade, por amor a Jesus.

“Em Jesus, Joana contempla também a realidade da Igreja, a ‘Igreja triunfante’ do Céu, como a ‘Igreja militante’ da Terra. Segundo suas palavras, ‘é tudo uma coisa só: o Nosso Senhor e a Igreja’. E no amor de Jesus, Joana encontra a força para amar a Igreja até o fim, também no momento de sua condenação”, enfatiza o Santo Padre.

Por fim, Bento XVI disse que o luminoso testemunho de Santa Joana D’ Arc convida a um alto padrão de vida cristã: “fazer da oração o fio condutor dos nossos dias, tendo plena confiança no cumprimento da vontade de Deus, seja ele qual for; viver a caridade sem favoritismos, sem limites, e atingindo, como ela, no Amor de Jesus, um profundo amor pela Igreja”, conclui o Papa.

Saudação aos peregrinos de língua portuguesa

Aos peregrinos de língua portuguesa, o Papa destacou esta “mulher forte” que levou sem medo a luz do Evangelho às complexas vicissitudes da história: Santa Joana d’Arc. “Desde a infância, mostra grande compaixão pelos pobres e atribulados no contexto de uma guerra sem fim entre a França e a Inglaterra”.

A compaixão e o empenho dela em favor do seu povo, recordou o Pontífice, intensificaram-se ainda mais com sua maturação mística, que teve lugar aos treze anos.

“Saúdo, com afeto, a todos vós, amados peregrinos de língua portuguesa, desejando que esta peregrinação a Roma vos encha de luz e fortaleza no vosso testemunho cristão, para confessares Jesus Cristo como único Salvador e Senhor da vossa vida: fora Dele, não há vida nem esperança de a ter. Com Cristo, ganha sentido a vida que Deus vos confiou. Para cada um de vós e vossa família, a minha Bênção!”, exaltou Bento XVI.

novembro 27, 2010

Vídeo com imagens raras de São Pio de Pietrelcina.

Nossos agradecimentos ao amigo Marcos V. Mattke pelo envio.

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