Por Joseph Shaw – Latin Mass Society *
Tradução: Fratres in Unum.com

Asperges (na missa tridentina): não é algo que você deixaria de perceber.
Acabei de ler em algum lugar sobre alguém ter sido mencionado por ter dito que, a não ser que você seja um perito litúrgico, dificilmente, você seria capaz de dizer a diferença entre a Forma Ordinária em Latim – o Missal de 1970 – e a Forma Extraordinária – o Missal de 1962. Não importa onde li isso ou quem estava sendo mencionado, porque já ouvi isso dezenas de vezes. E não faz mais sentido repetir essa alegação pela enésima vez.

O Evangelho: proclamado do lado norte do santuário em uma Missa Solene, neste caso, ou da extremidade norte do Altar, em uma Missa Cantata, e não a partir de um púlpito ou ambão (como na missa nova).
Então, você vai para a sua paróquia local onde eles sempre celebram a Missa em Latim na Forma Ordinária (eu sei, elas são cifras isoladas no Reino Unido, mas siga comigo) e, quando o sacerdote entra, ao invés de dar a volta no altar e dizer a antífona de entrada (provavelmente, após esperar o término de um cântico no vernáculo) ele inicia um cântico que você nunca ouviu antes e asperge as pessoas com água benta. Oh, e ele está vestindo uma vestimenta completamente diferente, que em seguida ele retira muito publicamente a fim de colocar as suas vestes habituais, mas você ainda não tem a antífona de entrada; em vez disso, ele inicia um longo diálogo com os acólitos, e quando este chega ao fim, ao invés de dar a volta sobre o altar [e ficar de frente para o povo] ele permanece do lado designado ao sacerdote [i.e., versus Deum]. Então, você percebe que o altar está configurado de maneira diferente, com velas e um crucifixo na parte de trás, e que não há coroinhas meninas. E a música é completamente diferente, com o coral cantando o intróito e o Kyrie sem intervalo.

Comunhão distribuída aos fiéis ajoelhados e na língua. E olha lá a mantilha!
Epa! Você não percebe nada disso porque você não é um perito litúrgico. Mas talvez você perceba que o Evangelho é cantado em latim – sim, eu sei que você pode fazer isso e algumas das outras coisas que mencionei na Forma Ordinária, mas isso é tão comum quanto ter o sermão em latim, e se estivermos falando do que as pessoas percebem deveríamos ficar com o que realmente acontece, e não com o que é teoricamente possível. Bem como ter as leituras cantadas em latim, o púlpito não é usado. Caso você ainda não tenha percebido como as coisas são diferentes hoje em dia, o cânon da Missa é dito silenciosamente. Oh pare com isso, se você não percebe isso, então você é surdo ou dorminhoco. Talvez você acorde a tempo para o Último Evangelho.
Acabei de usar o exemplo de Missa Cantada em um domingo. Diz-se comumente que o contraste entre Forma Extraordinária-Forma Ordinária é menos visível com a Missa Cantada e isso é verdade, especialmente por causa da maneira que a congregação pode se unir em algumas das respostas, provavelmente, usando os mesmos tons. Em ocasiões onde há mais clérigos presentes, a diferença entre uma Missa Solene, com diácono e subdiácono, por um lado, e um grupo de padres concelebrando, do outro lado, é tão evidente que dificilmente precisarei explicá-la.

A consagração em uma Missa Solene.
Se eu tivesse que comparar a Missa Tradicional Rezada com a Missa na Forma Ordinária em Latim sem música, as diferenças seriam ainda mais evidentes. As orações ao Pé do Altar dominam a seqüência de abertura dos eventos e as respostas sendo dadas pelo acólito sozinho conferem à Missa um sentimento muito diferente, da mesma forma que o padre celebrando ad orientem. E sim, eu sei que em alguns poucos lugares a Forma Ordinária é celebrada ad orientem, mas isso não é nem costumeiro nem recomendado pelas “regras”, a edição atual da Instrução Geral do Missal Romano. Se estivermos falando sobre um padre que siga “as regras”, então, devemos ser coerentes. (Para uma comparação lado-a-lado dos textos, veja aqui.)

Uma foto aleatória de uma Missa concelebrada. Não é algo facilmente confundível com a Missa Solene de 1962.
Quando vejo uma alegação realmente tola como essa, repetida muitas vezes por pessoas aparentemente sãs, eu quero saber qual é a motivação por trás disso. Por que tantas pessoas querem minimizar a diferença entre as diferentes formas do Rito Romano? Talvez seja porque eles pensam que isso seja necessário para sustentar a alegação de que as duas celebrações do Sacramento da Santa Eucaristia são válidas (em todos os sentidos da palavra), mas eu não ouço eles alegarem que somente um perito perceberia que ele havia entrado em uma igreja de Rito Bizantino em uma manhã de domingo.
Então, mais uma vez, pode ser que o argumento seja mais ou menos esse: há diferenças superficiais e há diferenças profundas. O não perito não perceberá as profundas, e as superficiais são apenas superficiais, portanto, elas não contam. Sem dúvida isso pode estar no fundo das mentes das pessoas que dizem que as diferenças dificilmente são percebidas, especialmente, se elas negaram de antemão o Asperges e as Orações ao Pé do Altar como não essenciais, como não sendo realmente parte da Missa. Bem, talvez, mas isso não é a mesma coisa que dizer que as pessoas não as perceberão. De qualquer maneira, este argumento falha, e por um motivo importante.
Certamente, há muitas diferenças entre os Missais de 1962 e 1970 que são significativas, mas que não seriam percebidas, ou não entendidas plenamente, por um não perito, a maior parte, obviamente, mudanças das orações próprias [ndr: i.e., orações do próprio de cada missa]. Voltando à Missa Tradicional em Latim inesperada que eu estava descrevendo, o camarada nos bancos, caso esteja equipado com a tradução, talvez se surpreenda ao ouvir, por exemplo, a coleta do 4º domingo da Quaresma:
‘Concedei, Vos rogamos, ó Deus onipotente, a nós que somos afligidos por causa de nossas obras, respiremos aliviados pela consolação de vossa graça.’
O que ele não saberá, salvo se ele tiver lido sobre o assunto, é que para criar o Missal de 1970 centenas de coletas foram editadas ou reescritas para retirar as referências a pecado, punição, mérito, graça e intercessão dos santos. O que uma pessoa que freqüenta a Missa Tradicional em Latim há pouco tempo irá perceber, entretanto, é outras diferenças com uma explicação semelhante, como, por exemplo, na Forma Extraordinária, o uso de preto para Missas de Requiem, e o Confiteor do sacerdote antes do que é dito pelo acólito.
Novamente, alguém seguindo a tradução para a Forma Extraordinária poderá ficar ligeiramente surpreso com a referência a “oblação” no Ofertório, e refletir que ele não lê muito aquela palavra na tradução da Forma Ordinária em Latim. O que ele não sabe, salvo se ele tiver lido sobre esse assunto, é o esforço consistente pelos reformadores da liturgia para retirar elementos que criam uma barreira ecumênica, dos quais a noção de oblação é um primeiro exemplo. Todavia, o que ele notará serão outras coisas que servem para enfatizar doutrinas católicas distintas, como, por exemplo, a Presença Real, incluindo a genuflexão do padre antes de pegar as Espécies Sagradas, e a comunhão de joelhos e sobre a língua.
Em suma, uma vez que a reforma seguiu uma política consistente, as diferenças superficiais não são um mau guia para diferenças profundas. As coisas que as pessoas pegam (e às vezes reclamam) quando estão habituadas à Missa em uma forma e então são expostas a outra forma, talvez não sejam de enorme importância em si mesmas, mas em geral elas são ilustrativas das diferenças profundas de real importância teológica.
O maior paradoxo de todos com a alegação de que não peritos não perceberão a diferença é que ela tende a ser usada por pessoas que efetivamente são bastante sensíveis ao que os féis percebem quando a liturgia é alterada, e estão preocupadas com isso. A alegação é sempre a mesma: a fim de minimizar aborrecimentos e reclamações, se quisermos melhorar a liturgia deveríamos introduzir a Missa Nova em Latim em nossas paróquias, e não dar o grande salto para a Missa Tradicional em Latim.
Assim, o argumento é mais ou menos esse:
1. As pessoas dificilmente perceberão a diferença entre a Forma Ordinária em Latim e a Forma Extraordinária.
2. As pessoas que aceitarem com contentamento a Forma Ordinária em Latim ficarão muito aborrecidas por ter a Forma Extraordinária imposta sobre elas.
3. A diferença entre a Forma Ordinária e a Forma Extraordinária não tem importância real (conclusão do item 1).
4. Não vale à pena causar uma confusão na paróquia por utilizar a Forma Extraordinária quando você pode trazer a Forma Ordinária em Latim (conclusão dos itens 2 e 3).
O problema é que as alegações 1 e 2 são mutuamente contraditórias. (O item 3 não segue do 1)
Assim, esta confusão tem tudo a ver com o debate da “Reforma da Reforma” e a melhor maneira na prática para melhorar liturgia paroquial: algo que postarei amanhã.
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Joseph Shawn é presidente da Latin Mass Society da Inglaterra e País da Gales, afiliada da Una Voce. Portanto, não se pode lançar qualquer suspeita de “lefebvrismo” sobre o autor.










1 – A “Confissão de Augsburgo”, protestante, viu bem o novo rito da Missa, ao declarar: “Nós fazemos uso das novas preces eucarísticas (católicas) que têm a vantagem de pulverizar (reduzir a pó) a teologia do Sacrifício” (L’Eglise d’Alsace, dez/73 e Jan/74, apud “La Messa di Lutero” por Dom Lefebvre).
…quando Lutero e seus seguidores primeiramente descartaram o Cânon da Missa, tal mudança não era comumente notada pelo povo pois, como sabemos, o padre dizia o cânon em voz baixa, como uma oração privada. Mas Lutero propositalmente não dispensava a elevação da Hóstia e do Cálice, ao menos não inicialmente, porque o povo notaria a mudança. Ademais, nas maiores igrejas luteranas, o latim continuou a ser usado, assim como o canto gregoriano. Hinos alemães existiam antes da Reforma e às vezes eram cantados durante a liturgia, logo não era uma grande mudança. Mais radical do que qualquer mudança litúrgica introduzida por Lutero, ao menos no que concerne o rito, foi a reorganização de nossa própria liturgia – acima de tudo, as mudanças fundamentais que foram feitas na liturgia da Missa. Isso também demonstra muito menos compreensão dos laços emocionais que os fiéis tinham com o rito litúrgico tradicional.
Nosso leitor Thales Pissolato nos informa sobre a Santa Missa em seu Rito Romano tradicional a ser celebrada em Brotas, SP:
Cinco e meia da manhã e lá estava Padre José Leite colocando os cartões de orações em latim no altar de Nossa Senhora das Dores, onde em poucos minutos celebraria a Missa Tradicional. Todas as manhãs era essa a rotina a seguir – acordar bem cedo, cuidar da higiene pessoal, fazer as orações da manhã e celebrar a Missa de Sempre quando ainda a igreja estava fechada aos fiéis, tudo para não criar atritos com o pároco. Às vezes, Dr. Oswaldo e mais dois ou três membros madrugadores da Confraria de Santa Gertrudes assistiam à missa. Entravam de fininho pela sacristia e saíam do mesmo jeito. Durante a semana não tinha sermão, mas isso não lhes tirava a alegria de assistir ao Santo Sacrifício celebrado de maneira tão piedosa e reverente. Hoje a data era especialíssima: 14 de setembro – Dia da Exaltação da Santa Cruz e dois anos da promulgação do Motu Proprio Summorum Pontificum. Todos os sacerdotes podiam celebrar a Missa Tradicional sem precisar pedir autorização a quem quer que fosse. Tecnicamente falando, padre José Leite não precisava se preocupar porque não estava fazendo nada errado. Na prática, no entanto, o jovem padre era apenas um vigário, recém instalado na paróquia, e não queria entrar em confronto com o Padre Costa de Mello. Tentaria falar com ele novamente naquela noite e convencê-lo a permitir que oferecesse a Missa Tradicional aos domingos.
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"... muitos dos que se dizem católicos ajudam os «revolucionários» . São esses, sempre «moderados», que estimam a «tranquilidade pública» como o bem supremo. Esses católicos tolerantes, condescendentes, brandos, doces, amáveis ao extremo com os maçons e furiosos inimigos de Jesus Cristo, guardam todo seu mal humor para os que gritam «Viva a Religião!» e a defendem sofrendo contínuas penalidades e expondo suas vidas. Para eles, esses últimos são «exagerados e imprudentes, que tudo comprometem com prejuízo dos interesses da Igreja» ".
Que tenho eu, Senhor Jesus, que não me tenhais dado?… Que sei eu que Vós não me tenhais ensinado?… Que valho eu se não estou ao vosso lado? Que mereço eu, se a Vós não estou unido?… Perdoai-me os erros que contra Vós tenho cometido. Pois me criastes sem que o merecesse… E me redimistes sem que Vo-lo pedisse… Muito fizestes ao me criar, muito em me redimir, e não sereis menos generoso em perdoar-me. Pois o muito sangue que derramastes e a acerba morte que padecestes não foram pelos anjos que Vos louvam, senão por mim e demais pecadores que Vos ofendem… Se Vos tenho negado, deixai-me reconhecer-Vos; Se Vos tenho injuriado, deixai-me louvar-Vos; Se Vos tenho ofendido, deixai-me servir-Vos. Porque é mais morte que vida, a que não empregada em vosso santo serviço… - Padre Mateo Crawley-Boevey