Posts tagged ‘Monsenhor Brunero Gherardini’

dezembro 16, 2011

Excomunhão de Gherardini?

Uma postagem do colunista convidado Côme de Prévigny

Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com

Mons. Brunero Gherardini no Congresso dos Franciscanos da Imaculada. Na mesma foto (à direita), Dom Luigi Negri, bispo de San Marino.

Mons. Brunero Gherardini no Congresso dos Franciscanos da Imaculada. Na mesma foto (à direita), Dom Luigi Negri, bispo de San Marino.

Dom Bernard Fellay, o Superior Geral da Fraternidade de São Pio X (FSSPX / SSPX), disse em seu sermão de 8 de dezembro que: as propostas romanas estão cada vez mais interessantes, mas em suas formulações permanece um ponto com gosto amargo, que exige antes de mais nada a admissão de que o Vaticano II é compatível com a Tradição da Igreja.

Após as declarações de Sua Excelência suíça, a pressão aumenta, as mentes estão inflamadas. Agora que as sirenes familiares soam novamente o sinal de alerta de cisma definitivo, que o vaticanista Tornielli se deixa tomar pelo sentimento – ao imaginar o que o Arcebispo Lefebvre faria em circunstâncias semelhantes (ao falar que ele acha que ele “diria sim”), as exigências romanas parecem receber, no mesmíssimo coração da Cidade Eterna, um sério golpe. Por 25 anos, a Santa Sé não arredou o pé dos famosos textos conciliares, e, no exato momento em que o Superior Geral da Fraternidade de São Pio X entrega a sua nota ao Vaticano, um dos melhores alunos, dentre os mais fiéis e mais eruditos, se levanta para dizer que as exigências do mestre não resistem a exame.

Monsenhor Gherardini é decano dos teólogos da Universidade de Latrão, uma das instituições romanas mais veneráveis. Por meio século, ele tem formado centenas de bispos e padres, tentando apresentar-lhes o Concílio Vaticano II em continuidade com o magistério da Igreja. Ao final de uma longa e séria carreira, ele faz essa terrível confissão: a tentativa incansável não funciona. Falando do Concílio, ele descreve a sua continuidade com a Tradição como “problemática”: “não porque ele não tivesse declarado tal continuidade, mas sim porque, especialmente, naqueles pontos chave onde era necessário que essa continuidade fosse evidenciada, a declaração continuou sem comprovação.”

Em outras palavras, o teólogo diz que todas as demonstrações que tentam apresentar o Vaticano II em continuação com o magistério da Igreja são aos seus olhos nada mais que argumentos pouco convincentes.

No momento em que um dos teólogos vivos mais notáveis declara ter sérias dúvidas sobre os méritos dos textos conciliares, no momento em que ele pede um “exame crítico” desses textos, como a Santa Sé pode exigir o seu reconhecimento prévio como uma condição indispensável para a regularização da Fraternidade? Como se pode brincar com a esperança de milhares de fiéis ao redor do mundo, fazendo-os crer que a bola está do lado de Écône? A competente congregação [para a Doutrina da Fé] tem toda a capacidade de reconhecer, ao final de minuciosas discussões doutrinais, a catolicidade perfeita da Fraternidade e conceder-lhe a regularização que merece cada trabalho feito fielmente com o seu zelo pelas almas. Enquanto a Sagrada Liturgia e mesmo as verdades mais elementares (a Ressurreição de Cristo, a Presença Real, a universalidade salvífica de Jesus Cristo) são desprezadas por um bom número de bispos que não precisam assinar qualquer condição para serem nomeados e mantidos em exercício, será que esse reconhecimento realmente se revelaria uma aposta de alto risco?

Se afirmar que os textos do Concílio estão desconectados da Tradição torna a Fraternidade digna de ser considerada fora da Igreja, deve-se pensar que Monsenhor Gherardini merece excomunhão por ter ousado afirmar publicamente aquilo que outros nunca terão a coragem de dizer?

dezembro 11, 2011

Gherardini responde a Ocariz. E o debate sobre o Vaticano II prossegue.

Por Disputationes Theologicae | Tradução: Fratres in Unum.com

Disputationes Theologicae solicitou a Monsenhor Brunero Gherardini uma contribuição sobre a noção de Magistério Autêntico e seus eventuais limites. O ilustre professor emérito da Universidade do Papa, decano da faculdade de teologia, que já interveio nestas colunas para qualificar o ensinamento constituído pelo Concílio Vaticano II, traz agora, com maior amplitude, de maneira ágil e profunda, certas precisões, chamando a atenção para distinções freqüentemente omitidas. Tal recordação está em consonância com o que havia sido observado a respeito da liberdade religiosa durante os anos 70 por Sua Excelência Reverendíssima Dom Antonio de Castro Mayer, à época Ordinário de Campos, na conclusão do estudo teológico sobre a liberdade religiosa enviado ao Papa Paulo VI (que não o condenou): há um caso específico no qual um ensinamento não é vinculante em consciência, embora sendo um ato do Magistério Autêntico:  quando há uma dissonância em relação ao que a Igreja já ensinou longamente.

A Redação

* * *

Igreja-Tradição-Magistério

Por Monsenhor Brunero Gherardini

Começou a grande celebração cinqüentenária. Ainda não se ouve os tambores, mas percebe-se no ar. O cinqüentenário do Vaticano II deixará o caminho aberto ao que se poderá inventar de mais grandioso em matéria de juízos elogiosos. Da sobriedade que havia sido pedida como momento de reflexão e de análise para uma avaliação crítica e mais aprofundada do acontecimento conciliar, não se vê sequer a sombra. Já se atua desenfreadamente dizendo e repetindo o que se diz e repete há cinqüenta anos: o Vaticano II é o ponto culminante da Tradição e a sua própria síntese. Congressos internacionais sobre o maior e mais significante dentre todos os Concílios ecumênicos já estão programados; outros, de maior ou menor alcance, sê-lo-ão durante o período, e as publicações sobre o assunto crescem a cada dia. O Osservatore Romano, sem dúvida, faz a sua parte e insiste, sobretudo, na adesão devida ao Magistério (2/12/2011, p. 6): o Vaticano II é um ato do Magistério, logo… A razão aduzida é a de que qualquer ato do Magistério deve ser recebido como proveniente de pastores que, em razão da sucessão apostólica, falam com o carisma de verdade (DV 8), com a autoridade de Cristo (LG 25), à luz do Espírito Santo (ibid.).

Fora o fato de provar o Magistério do Vaticano II pelo Vaticano II, o que outrora se chamava petitio principia [ndr: “petição de princípio”: demonstrar uma tese partindo do princípio de que ela já é válida], parece evidente que tal maneira de proceder parte da premissa de um Magistério considerado absoluto, sujeito independente de tudo e de todos, exceto da sucessão apostólica e da assistência do Espírito Santo. Ora, se a sucessão apostólica é garantida pelo critério da legitimidade da sagrada ordenação, parece, em contrapartida, mais difícil estabelecer um critério que garanta a intervenção do Espírito Santo nos termos evocados.

Uma coisa, entre outras, está fora de discussão: nada no mundo, receptáculo das coisas criadas, tem o dom do absoluto. Tudo está em movimento, num circuito de interdependências recíprocas, e, por conseguinte, tudo é dependente; tudo teve um começo, tudo terá um fim: “Mutantur enim — dizia o grande Agostinho — ergo creata sunt”. A Igreja não é exceção; a sua Tradição e o seu Magistério também não. Certamente são realidades sublimes, situadas no topo da escala de todos os valores que pertencem à ordem criada, dotadas de qualidades que dão vertigens; mas permanecerão sempre “realidades penúltimas”. O eschaton, a realidade final, é Deus e só Ele. Com frequência se recorre a uma linguagem que abala este dado certo, e se atribui a essas sublimes realidades um alcance e um significado para além de seus confins: se lhes absolutiza. A conseqüência é que elas são expropriadas de seu estatuto ôntico, fazendo-se delas um pressuposto irreal, o que lhes faz perder a sublime grandeza de sua “realidade penúltima”.

Imersa no movimento trinitário que está na origem de sua estrutura, a Igreja é e opera no tempo como sacramento de salvação. O teandrismo, que dela faz uma continuação misteriosa de Cristo, não se discute; suas propriedades constitutivas (unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade) também não, nem mesmo sua estrutura e seu serviço; mas tudo isso permanece dentro de uma realidade deste mundo; qualificada para mediar sacramentalmente a presença divina, mas sempre como e enquanto realidade deste mundo, que, por definição,  exclui o absoluto.

De tal modo que Ela se identifica em sua Tradição, da qual extrai a continuidade consigo mesma, à qual deve a sua respiração vital, e pela qual é garantida de que o seu “ontem” se torne sempre o seu “hoje”, para preparar o seu “amanhã”. A Tradição, portanto, dá a ela o movimento interior que a impulsiona em direção ao futuro, salvaguardando o seu presente e o seu passado. Mas nem mesmo a Tradição é um absoluto: ela começou com a Igreja, terminará com ela. Só Deus permanece.

A Igreja exerce um verdadeiro controle sobre a Tradição: um discernimento que distingue o autêntico do não autêntico. Ela o faz com um instrumento, ao qual não falta “o carisma da verdade”, desde que não se deixe levar pela tentação do absoluto. Este instrumento é o Magistério, do qual são titulares o Papa, como sucessor do primeiro Papa (o apóstolo São Pedro) sobre a cátedra romana; e os bispos, como sucessores dos Doze no ministério ou serviço da Igreja, por toda a parte onde são a sua expressão local. Recordar as distinções do Magistério — solene, se for do Concílio Ecumênico ou do Papa, quando um ou outro define verdades de fé ou de moral; ordinário, se do Papa em sua função específica, ou dos bispos como um todo e em comunhão com o Papa — é coisa supérflua; bem mais importante é precisar em quais limites “o carisma da verdade” é garantido ao Magistério.

É necessário dizer, em primeiro lugar, que o Magistério não é uma super-igreja que imporia seus juízos e comportamentos à própria Igreja, nem uma casta privilegiada acima do povo de Deus, uma espécie de poder forte ao qual se deveria obedecer e ponto final. Ele é um serviço, uma diakonìa, mas é também um dever a cumprir, um múnus, o munus docendi, que não pode nem deve se sobrepor à Igreja, da qual nasce e pela qual trabalha. Do ponto de vista subjetivo, coincide com a Igreja docente (o Papa e os bispos a ele unidos), em vista da proposição oficial da Fé. Do ponto de vista operativo, é o instrumento pelo qual esta função é realizada.

No entanto, muito freqüentemente se faz do instrumento um valor em si, independente, e se recorre a ele para cortar toda discussão desde sua origem, como se ele estivesse acima da Igreja e como se  não houvesse diante de si o peso enorme da Tradição a acolher, interpretar e retransmitir em sua integridade e fidelidade. É precisamente aí que aparecem com evidência os limites que o salvaguardam da elefantíase e da tentação absolutista.

Não é o caso de nos determos sobre o primeiro desses limites, a sucessão apostólica. Não deveria ser difícil a ninguém demonstrar, caso a caso, a legitimidade e, portanto, a sucessão na posse do carisma próprio dos Apóstolos que dela decorre. É necessário, ao invés, dizer algumas palavras sobre o segundo, ou seja, sobre a assistência do Espírito Santo. O método apressado hoje estabelecido é mais ou menos o seguinte: Cristo prometeu aos Apóstolos, e, conseqüentemente, aos seus sucessores, ou seja, à Igreja docente, o envio do Espírito Santo e a sua assistência para um exercício do munus docendi na verdade; o erro, assim, estaria prevenido desde o início. Certamente, Cristo fez tal promessa, mas também indicou as condições de seu cumprimento. Ora, o que se passa é que nesta maneira de reivindicar a promessa se entrevê uma grave adulteração desta: ou não se cita as palavras de Cristo, ou, se são citadas, não se lhes dá o significado que têm. Vejamos do que se trata.

A promessa é relatada principalmente em dois textos do quarto evangelista: Jo 14, 16.26 e 16,13-14. Já no primeiro, um dos limites que mencionamos ressoa com extrema clareza: Jesus, com efeito, não pára na promessa “do Espírito da verdade” – destacado em itálico por causa do artigo “especificativo” thV, que se continua, de qualquer forma, a traduzir “de”, como se a verdade fosse um atributo opcional do Espírito Santo, quando é Ele quem a personifica –, mas anuncia sua função: recordar tudo que Ele, Jesus, havia antes ensinado. Trata-se, portanto, de uma assistência conservadora da verdade revelada, e não de uma integração nela de verdades outras ou diferentes das que foram reveladas, nem de verdades presumidas tais.

O segundo dos dois textos de São João, confirmando o primeiro, desce a precisões ulteriores: o Espírito Santo, com efeito, “ensinar-vos-á toda a verdade”; mesmo as verdades das quais Jesus não fala naquele momento, porque estavam acima da capacidade dos seus (16,12). Ao fazê-lo, o Espírito “não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir […] receberá do que é meu, e vo-lo anunciará”. Não haverá, portanto, outras revelações. A única Revelação se encerra com aqueles aos quais Jesus falava naquele momento. As suas palavras se apresentam com um significado unívoco, relativo ao ensinamento fixado por Ele, e apenas este ensinamento. Linguagem esta que não é codificada nem cifrada, mas límpida como o sol. Poder-se-ia levantar uma objeção sobre a perspectiva da aparente novidade em relação ao que Jesus não fala no momento e que será anunciado pelo Espírito Santo, mas a delimitação de sua assistência a uma ação de guia em direção à posse de toda a verdade revelada por Cristo exclui toda novidade substancial. Emergindo novidades, tratar-se-ão de significações novas e não verdades novas; de onde o justíssimo “eodem sensu eademque sententia” de S. Vincent de Lérins. Em suma, a pretensão de forçar à assistência do Espírito Santo não importa que farfalho, quero dizer, não importante que novidade, e especialmente as que querem redimensionar a Igreja às medidas da cultura dominante e da suposta dignidade da pessoa humana, não somente é um distúrbio estrutural da própria Igreja, mas é também uma formidável rejeição dos textos acima indicados.

E isso não é tudo. O limite da intervenção magisterial está também na sua própria formulação técnica. Para que ela seja realmente magisterial, em sentido definitório ou não, é necessário que a intervenção recorra a um conjunto de fórmulas já consagrado, do qual emerge, sem nenhuma incerteza, a vontade de falar como “Pastor e Doutor de todos os cristãos em matéria de Fé e Moral, em virtude de sua Autoridade Apostólica”, se aquele que fala é o Papa; ou que emerge com similar certeza, por parte do Concílio Ecumênico, por exemplo, através das fórmulas habituais da asserção dogmática, a vontade dos Padres Conciliares de ligar a Fé cristã com a Revelação divina e a sua transmissão ininterrupta. Na ausência de tais premissas, somente se poderá falar de Magistério em sentido lato: nem toda palavra do Papa, escrita ou pronunciada, é necessariamente Magistério; diga-se o mesmo dos Concílios Ecumênicos, dentre os quais um bom número não falou de dogma, ou não falaram dele exclusivamente; por vezes, alguns até enxertaram o dogma num contexto de diatribes internas e de litígios pessoais ou partidários, e uma pretensão magisterial dentro de tal contexto seria absurda. Ainda, um Concílio de indiscutível importância dogmático-cristológica como foi de Calcedônia, que dispensou a maior parte de seu tempo numa vergonhosa luta de personalismos, de precedências, de deposições e de reabilitações, suscita uma impressão claramente negativa; não é nisso que Calcedônia é um dogma. Assim como não o é a palavra do Papa quando declara de maneira privada que “Paulo não entendia a Igreja como instituição, como organização, mas como organismo vivo, no qual todos operam um para o outro e um com o outro, estando todos unidos a partir de Cristo”; é exatamente o contrário que é verdadeiro, e sabe-se que a primeira forma institucional, exatamente para favorecer o organismo vivo, foi estruturada por Paulo de maneira piramidal; o apóstolo no topo, e depois os episcopoi-presbuteroi, os hgoumenoi, os proistamenoi, os nouqetounteV, os diakonoi: trata-se de distinções de encargos e de ofícios ainda não exatamente definidos, mas são já as distinções de um organismo institucionalizado. Mesmo neste caso, que isso fique bem claro, a atitude do cristão é de respeito e, ao menos em linha de princípio, de adesão. Mas se a consciência de um crente não puder dar sua adesão à afirmação exposta acima, isso não comporta uma rebelião contra o Papa ou uma negação de seu Magistério: significa apenas que esta afirmação não é do Magistério.

Por fim, retornemos agora ao Vaticano II para nos pronunciarmos, se possível de modo definitivo, sobre a sua pertença ou não à Tradição e sobre a sua qualidade magisterial. Sobre esta última, não cabe nenhum questionamento, e esses laudatores que não se cansam nunca, há cinqüenta anos, de sustentar a identidade magisterial do Vaticano II, perdem seu tempo e fazem com que os outros percam o deles: ninguém o nega. Contudo, observadas as suas exuberâncias acríticas, um problema se impõe quanto à qualidade: de que Magistério se trata? O artigo de “L’Osservatore Romano” que citei acima, fala de Magistério doutrinal: e quem alguma vez o negou? Mesmo uma afirmação meramente pastoral pode ser doutrinal, no sentido em que pertence a uma dada doutrina. Mas se enganaria quem dissesse doutrinal no sentido de dogmático: nenhum dogma é creditado ao Vaticano II que, se tem um valor dogmático, apenas o tem por modo de reflexo, onde ele se refere a dogmas previamente definidos. Resumidamente, o magistério do Vaticano II, como se diz e rediz a todos os que têm ouvidos para ouvir, é um Magistério solene e supremo. Mais problemática é a sua continuidade com a Tradição: não porque não a tenha afirmado; mas porque, sobretudo, nos pontos chaves onde era necessário que tal continuidade fosse evidente, esta afirmação permaneceu sem demonstração.

novembro 17, 2011

“Sentinela, quanto resta da noite?” (Isaías 21,11). Reflexões sobre o livro de Lorenzo Bertocchi e Francesco Agnoli.

por Dom Massimo Vacchetti [1] – 30/09/2011

Esperei o lançamento deste livro por quase cinquenta anos. Conheço os autores e sei do amor pela verdade que os anima. No entanto, não é por eles que desejei ter em minhas mãos este ágil texto. ‘Sentinelas no pós-concílio’ (p. 156, Ed. Cantagalli) recolhe, pelas mãos de diferentes autores, o perfil de “dez testemunhas contracorrente”, como diz o subtítulo, dez protagonistas da vida e do pensamento católico nos anos pós-conciliares.

O ‘atraso da publicação’ se deve, entre outras coisas, a uma infeliz expressão do Beato João XXIII, quando na abertura do Concílio, proclamou que: “não sem ofensa aos Nossos ouvidos, nos são reportadas vozes de alguns que, embora acesos de zelo pela religião, avaliam, no entanto, os fatos sem uma suficiente objetividade nem prudente juízo. (…) Nos parece de ter que resolutamente dissentir de tais profetas de desgraça, que anunciam sempre o pior, como se fosse iminente o fim do mundo. No atual estado dos acontecimentos humanos, no qual a humanidade parece entrar em uma nova ordem de coisas, precisam, mais, ser vistos os misteriosos planos da Divina Providência que (…)com sabedoria dispõem tudo, mesmo os adversos acontecimentos humanos, pelo bem da Igreja” (Discurso de abertura do Concílio, 11 de Outubro de 1962).

Continue lendo…

setembro 22, 2011

“Concílio Vaticano II: um Debate que não aconteceu”, por Monsenhor Brunero Gherardini.

Por DICI | Tradução: Fratres in Unum.com

Este livro é uma continuação do Concilio Ecumenico Vaticano II, un discorso da fare, que surgiu em italiano em 2009, e desde então foi traduzido para o francês, inglês, alemão, português e espanhol. Nesta obra, Monsenhor Brunero Gherardini, cônego da arqui-basílica vaticana e diretor do periódico teológico internacional Divinitas, não pára de lamentar que o debate sobre o Concílio Vaticano II não tenha ocorrido, chegando até mesmo a mostrar o porque este seria mais indispensável do que nunca hoje em dia. E acima de tudo, ele indica como este debate poderia ser aberto, dando ao leitor os primeiros elementos de uma análise rigorosa, longe de injúrias estéreis e elogios cegos.

Com a autorização amigável das edições do Courrier de Rome, publicamos aqui de antemão alguns textos particularmente esclarecedores sobre o “espírito do Concílio” e sobre o seu “contra-espírito”. Monsenhor Gherardini mostra que não se trata apenas do pós-Concílio que é responsável pela crise atual na Igreja, mas o próprio Concílio, cujo espírito continha a semente de seu “contra espírito” (gegen-Geist), que Bento XVI denuncia, atribuindo-o apenas ao pós-concílio.

O professor emérito da pontifícia Universidade de Latrão indica no que ele está próximo e no que ele se distancia da hermenêutica proposta por aquele que foi o então Cardeal Ratzinger, em sua Entrevista sobre Fé com Vittorio Messori (Fayard, 1985):

“Minhas duas publicações têm em comum com a hermenêutica de Ratzinger, e ressaltando uma rejeição do gegen-Geist (o contra-espírito do Concílio), ou seja, este julgamento absurdo do Vaticano II que deixou de levar em consideração mais de vinte séculos de história e impôs uma maneira de ver as coisas que é radicalmente diferente de toda a Tradição eclesiástica e de seu conteúdo integral”.

“Minhas duas obras não falam que este gegen-Geist apagou, ou tentou apagar, o verdadeiro ‘espírito’ do Concílio. Elas até mesmo fazem a pergunta paradoxal e provocante de se o autêntico ‘espírito’ do Concílio não está, depois de tudo, aliado ao “contra-espírito’. (p. 24)

“Assim com relação a valores tradicionais, o ‘espírito do Concílio’ foi em si mesmo um gegen-Geist, antes que isso mesmo fosse difundido pelos respectivos comentadores. O ‘espírito do Concílio’ em geral colocou o Concílio em oposição mesmo com tudo o que a Igreja até então tinha acreditado como o seu pão diário, especialmente, os Concílios de Trento e Vaticano I. Não podemos deixar de ficar impactados pela presença de várias frases, espalhadas aqui e acolá em determinados documentos, especialmente, nos parágrafos estratégicos da inovação introduzida, com o simples objetivo de garantir entre ontem e hoje uma correspondência que de fato não existe.” (p. 30)

“Não devemos imaginar que houve uma reviravolta. O Concílio Vaticano II não inovou no que tange a todas as verdades contidas no Credo e definidas pelos Concílios precedentes. O problema não está na quantidade, mas na qualidade. Não é por nada que falamos do ‘espírito’ e do ‘contra espírito’ dentro do Concílio”.

“A ruptura, antes de recair sobre determinada questões, recaiu sobre a inspiração fundamental. Um certo ostracismo havia sido decretado, mas não em direção a uma ou outra das verdades reveladas propostas como tal pela Igreja. Este novo ostracismo atacou uma certa maneira de apresentar essas verdades. Assim ele atacou um método teológico, o escolasticismo, que não é mais tolerado. Com a energia particular contra o Tomismo, considerado por muitos como ultrapassado e atualmente muito distante da sensibilidade e problemas do homem moderno”.

“Não se percebeu, nem se quis acreditar, que a rejeição de Santo Tomás de Aquino e o seu método implicaria um colapso doutrinal. O ostracismo havia começado por se fazer sutil, penetrante e envolvente. Ele não jogou ninguém ou qualquer teoria teológica porta à fora, e muito menos certos dogmas. O que ele evidenciou foi a mentalidade que em seu tempo havia definido e promulgado esses dogmas”.

“Assim ele foi uma verdadeira ruptura porque ela foi fortemente desejada, como uma condição necessária, como a única maneira que permitiria uma resposta a esperanças e indagações que até então – desde o iluminismo, ou seja – haviam permanecido sem resposta”.

“Perguntei-me se verdadeiramente todos os Padres conciliares perceberam que eles estavam objetivamente no processo de se afastarem desta mentalidade multi-secular que até então havia expresso a motivação fundamental de vida, de oração, do ensino e governo da Igreja”.

“No todo, eles propunham novamente a mentalidade modernista, aquela contra a qual São Pio X havia tomado uma posição muito clara, expressando a sua intenção de ‘instaurare omnia in Christo’, restaurando todas as coisas em Cristo’ (Efe 1:10). Assim esta foi claramente uma manifestação do gegen-Geist.” (p. 31-32)

“A mesma coisa, é difícil ignorar que tudo começou precisamente com o Concílio Vaticano II. Alguém observou que o Concílio Vaticano II poderia ser comparado ao Aeolus’ goatskin (que na lenda grega detém todos os ventos contrários). É desde o Vaticano II que este furacão a que chamamos de “o espírito do Concílio” foi deixado solto, um espírito no qual reconheci sem problema a presença de ‘contra’”.

“Sim, ‘contra’:

- contra a espiritualidade que guiou a Igreja de sua origem até 1963;

- contra os seus dogmas, reinterpretados não teologicamente, mas de uma maneira historicista;

- contra a sua Tradição, suprimida como uma fonte de Revelação e reinterpretada como a aceitação daquilo que alguém encontra no seu caminho, acima de tudo no pluralismo cultural moderno, seja ele homogêneo ou não em relação ao seu status ontológico”.

“Se somente desejamos culpar o pós-Concílio, então que seja, porque ele não é de jeito algum todo livre de erros. Mas também, não devemos nos esquecer que ele é o filho natural do Concílio, e que ele está inserido no Concílio, que nele achou os princípios nos quais então encontrou os seus conteúdos mais devastadores, ao ponto de esgotá-los”.

“Entretanto, devemos dizer algumas palavras com relação a um aspecto do aggiornamento conciliar. Isso é particularmente importante para mim, porque é uma parte da tradição Tridentina e porque está em conformidade com a realidade sacramental do sacerdote. É dele que desejo falar agora”.

“Tanto na Lumen gentium 28/1, que diz textualmente: “Os sacerdotes [...] são consagrados para pregar o Evangelho,” quanto na Presbyterorum Ordinis 13/2, que voluntariamente coloca o ministério da Palavra no mais alto lugar nas funções do sacerdote, vemos uma modificação clara da tradição Tridentina, de acordo com a qual o sacerdote é ‘ad conficiendam eucharistiam.’ Evidentemente, ele está destinado a outras finalidades, mas tudo está colocado depois do sacrifício Eucarístico”.

“Porém, nos textos do Vaticano II, tudo o que não está em relação ao ministério da Palavra se torna secundário, esquecendo-se da condição do sacerdote como uma continuação mística de Cristo e, assim, a base crística do sacrificante e glorificador do Pai, que se reflete nos sacerdotes e forma a sua primeira característica”.

“Conseqüentemente, como pode ser coerente declarar que tal reviravolta radical da tradição Tridentina também é perfeitamente coerente com o magistério precedente, e constitui o material de validade infalível, irreformável e dogmática? Admito candidamente que não compreendo.” (p. 82-83)

Então, Monsenhor Gherardini oferece ao teólogo que aceitaria “abrir o debate” um método de trabalho, e ele o convida a começar com a distinção dos quatro níveis nos documentos conciliares:

“Parece-me que para começar, e sempre depois de ter considerado todas as implicações, um bom crítico deveria considerar o Concílio Vaticano II nos quatro níveis distintos:

a)      o nível genérico do concílio ecumênico como um concílio ecumênico;

b)      o nível específico como pastoral;

c)      o nível de referência a outros concílios;

d)     o nível de inovações.” (p. 84)

“O Concílio Vaticano (…) apresenta um quarto nível, o de suas inovações. Se não olharmos para cada ensinamento, mas para o espírito que os concebeu e produziu todos, poderíamos sustentar que o Concílio foi inteiramente no nível “quarto”, ou que todos podem ser encontrados neste nível. O ‘contra’, de que falei nesse lugar, posiciona o Concílio Vaticano II, quer gostemos ou não dele, no nível de inovação; e mesmo de uma inovação singular, a mais radical, que, antes de olhar para as coisas, tomou um “Garibaldi”, ou seja, uma fascinação revolucionária; e digamos que antes de chegar concretamente a rupturas surpreendentes e manifestas, o ‘contra’ foi um “não em voz alta e decidida à inspiração fundamental do magistério anterior. As inovações que foram decididas sucessivamente foram a conseqüência lógica”.

“Um leitor que não necessariamente seria um especialista, mas que teria algumas noções histórico-teológicas, será capaz de distinguir entre elas sem problema. Tomemos um ponto de vista formal, o novo conceito de ‘constitutio‘: é nesse novo ponto de que ele engendrou cópias de constituições nas quais o modo constitutivo desapareceu atrás de uma linguagem imprópria e vaga, voluntariamente privada de intenções definitórias, e freqüentemente substituída por linguagem profana; e isso, a convite do Papa Roncalli, repetidas em seguida por seus sucessores. O que é mais, este conceito abriu as portas dos elementos “constitutivos” mesmo para elementos estrangeiros. Você precisa ler Gaudium et Spes atentamente e sem idéias pré-concebidas: alguém poderá perguntar, em suma, que elo poderá existir entre a grande maioria de temas tratados, não somente na segunda parte, mas também na primeira parte deste texto, com a natureza e a atividade apostólica específica da Igreja. A novidade coloca a Igreja no nível dos Estados e suas instituições; ela torna a Igreja uma parte interveniente dentre outras, e a despe não tanto de sua função como crítica conscienciosa da história, mas sim de sua natureza de ‘sacramentum Christi‘ e da responsabilidade que segue disso com relação à salvação eterna. A Igreja assim se torna uma entidade, em diálogo com outras entidades. A Igreja promove diálogo para realizar fins que indubitavelmente são sublimes – progresso, paz – que a afasta de sua tarefa específica que é a de pregar o Evangelho, tornar real e aplicar os méritos da Redenção, e propagar o reino de Deus: em tudo, tudo que tem a ver com a vida da graça até o momento da Parusia” (p. 87-88)

Monsenhor Brunero Gherardini, Vatican Council II: a Debate That Has Not Taken Place, Ed. Courrier de Rome, 112p. A tradução francesa pode ser encomendada no início de outubro da Courrier de Rome – B.P.156 – F – 78001 Versailles ou através do e-mail courrierderome@wanadoo.fr

abril 8, 2011

Os grandes desiludidos pelo Papa Bento XVI.

São alguns dos maiores pensadores tradicionalistas. Haviam apostado nele e agora se sentem traídos. As últimas decepções: o Pátio dos Gentis e o encontro de Assis. A acusação que fazem contra Ratzinger é a mesma que fazem ao Concílio: ter substituído o anátema pelo diálogo.

por Sandro Magister

Tradução: Fratres in Unum.com

ROMA, 8 de abril de 2011 – A Santa Sé confirmou oficialmente que no próximo dia 27 de outubro, em Assis, Bento XVI presidirá uma jornada de “reflexão, diálogo e oração” junto a cristãos de outras confissões, expoentes de outras religiões e “homens de boa vontade”.

O encontro se dará vinte e cinco anos depois daquele primeiro que se tornou célebre, desejado por João Paulo II. Joseph Ratzinger, na época cardeal, não participou dele. E já deu a entender que, com ele como Papa, o próximo encontro de Assis será revisado e corrigido, purificado de toda sombra de assimilação da Igreja Católica às outras confissões de fé.

Mas, da mesma forma, os tradicionalistas não o perdoaram. Alguns deles assinaram um apelo crítico. O “espírito de Assis”, segundo eles, é parte da confusão mais geral que está desintegrando a doutrina católica e que teve origem a partir do Concílio Vaticano II.

Uma confusão contra a qual Bento XVI não reagiu como deveria.

* * *

Nestes últimos tempos, no campo tradicionalista, as críticas contra o Papa Ratzinger não diminuíram, mas antes cresceram em intensidade. Refletem uma crescente desilusão com relação às esperanças inicialmente renovadas na ação restauradora do atual pontificado.

As críticas de alguns tradicionalistas se concentram, em particular, no modo com que Bento XVI interpreta o Concílio Vaticano II e o pós-concílio.

Segundo eles, o Papa se equivoca quando limita sua crítica às deteriorações do pós-concílio. Com efeito, o Vaticano II – sempre segundo o juízo deles – não foi apenas mal-interpretado e aplicado: ele mesmo foi portador de erros, o primeiro dos quais a renúncia das autoridades da Igreja a exercer, quando necessário, um magistério de definição e de condenação: isto é, a renúncia ao anátema para privilegiar o diálogo.

No plano histórico, tende a convalidar esta tese o volume recentemente publicado pelo Professor Roberto de Mattei: “Il Concilio Vaticano II. Una storia mai scritta” [O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita]. Segundo de Mattei, não se pode isolar os documentos conciliares dos homens e das vicissitudes que os produziram: desses homens e dessas manobras, cuja intenção deliberada — muito bem sucedida —  era romper com a doutrina tradicionalista da Igreja Católica, nos pontos mais essenciais.

No plano teológico, um conhecido crítico tradicionalista de Bento XVI é Brunero Gherardini, com 85 anos vigorosamente vividos, cônego da basílica de São Pedro, professor emérito da Pontifícia Universidade Lateranense e diretor da revista de teologia tomista “Divinitas”.

No ano de 2009, Gherardini publicou um volume intitulado: “Concilio Vaticano II. Un discorso da fare” [Concílio Vaticano II. Um debate a se realizar], que concluía com uma “Súplica ao Santo Padre”, na qual pedia que se submetesse a um exame os documentos do Concílio e se esclarecesse, de forma definitória e definitiva, “se, em que sentido e até que ponto” o Vaticano II esteve ou não em continuidade com o magistério anterior da Igreja.

Agora, dois anos depois desse livro, Gherardini lança um novo, intitulado: “Concilio Vaticano II. Il discorso mancato” [Concílio Vaticano II. O debate ausente], no qual lamenta o silêncio com que as autoridades da Igreja responderam a sua publicação anterior. E leva sua crítica mais a fundo.

Escreve Gherardini:

“Se desejam continuar culpando apenas o pós-concílio, podem, de fato, fazê-lo, porque, efetivamente, ele não é absolutamente isento de culpa. Mas seria necessário também não se esquecer que ele é o filho natural do Concílio, e extraiu do Concílio esses princípios sobre os quais, exasperando-os, basearam seus conteúdos mais devastadores”.

Na visão de Gherardini, pelo contrário, predomina nos altos poderes da Igreja uma cega exaltação do Concílio, que “corta as asas da análise crítica” e “impede de ver o Concílio com um olhar mais agudo e menos ofuscado”.

E os primeiros responsáveis por esta exaltação acrítica seriam justamente os últimos Papas: desde João XXIII, passando por Paulo VI até João Paulo II. Quanto ao pontífice reinante – observa Gherardini –, “até agora não corrigiu nem um ponto nem uma vírgula dessa ‘Vulgata’ que foi patrocinada pelos predecessores”: ele, que também “como outros poucos oficiais católicos rugiram realmente contra as deformações do pós-concílio, jamais deixou nem de entoar o hosana ao Concílio nem de afirmar a continuidade com todo o magistério anterior a ele”.

* * *

Outro grande decepcionado com Bento XVI é Enrico Maria Radaelli, filósofo e teológo, discípulo do maior pensador tradicionalista do século XX, Romano Amerio.

A principal obra de Radaelli é o ensaio “Ingresso alla bellezza”, de 2007, tendo nestes dias publicado a edição – no momento “pro manuscripto” e impressa em pouquíssimas cópias – de um segundo ensaio, também notável, intitulado: “La bellezza che ci salva”.

O subtítulo do novo ensaio de Radaelli sintetiza assim o conteúdo:

“A força do ‘Imago’, o segundo nome do Unigênito de Deus, que com o ‘Logos’ pode dar vida a uma nova civilização, fundada na beleza”.

E, com efeito, é este o coração do ensaio, como enfatiza no prefácio Antonio Livi, sacerdote do Opus Dei e filósofo metafísico de primeiro nível, docente na Pontifícia Universidade Lateranense.

Porém, nas cultas e vibrantes páginas de seu novo livro, Radaelli não deixa de submeter à crítica, em sua quase totalidade, a atual hierarquia da Igreja Católica, inclusive o Papa.

As decepções pelas ações de Bento XVI deriva – para Radaelli como para outros tradicionalistas – não só por ter convocado um novo encontro interreligioso em Assis, ou por ter dado vida ao “Pátio dos Gentis”, ambas iniciativas julgadas como fonte de confusão.

A maior culpa apontada ao Papa Ratzinger é a de ter renunciado a ensinar com “a força de um cetro que governa”. Em vez de definir a verdade e condenar os erros, “colocou-se dramaticamente disponível a ser também criticado, não pretendendo nenhuma infalibilidade”, como escreveu ele mesmo no prefácio de seus livros sobre Jesus.

Conseqüentemente, Bento XVI teria também ele se dobrado ao erro capital do Vaticano II: a renúncia às definições dogmáticas, em prol de uma linguagem “pastoral” e, portanto, inevitavelmente equívoca.

* * *

De Mattei, Gherardini e Radaelli não estão sós.

O livro de Gherardini, de 2007, tem o prefácio do Arcebispo de Colombo, hoje Cardeal, Albert Malcolm Ranjith. E outro bispo, Mario Oliveri, de Albenga-Imperia, escreveu que teve de se unir “toto corde” à súplica ao Papa, com a qual termina o volume, para reexaminar os documentos do Vaticano II.

Radaelli escreve em “L’Osservatore Romano”. E tanto Gherardini como de Mattei tomaram a palavra, em dezembro passado, em um congresso, a poucos passos da basílica de São Pedro, “para uma justa hermenêutica do Concílio à luz da Tradição da Igreja”.

Neste congresso discursaram também o Cardeal Velasio de Paolis, o bispo Luigi Negri, de San Marino e Montefeltro, e Monsenhor Florian Kolfhaus, da Secretaria de Estado vaticana.

E outro bispo muito estimado, o auxiliar de Astana, no Cazaquistão, Athanasius Schneider, concluiu sua intervenção com a proposta ao Papa de elaborar um “Syllabus” contra os erros doutrinais de interpretação do Concílio Vaticano II.

Mas Dom Schneider, assim como quase todos os participantes do congresso de dezembro, organizado pelos Franciscanos da Imaculada, não considera que nos documentos do Vaticano II haja efetivos pontos de ruptura com a grande tradição da Igreja.

A hermenêutica com a qual [Dom Scheneider] interpreta os documentos do Concílio é a definida por Bento XVI em seu memorável discurso à cúria romana de 22 de dezembro de 2005: “a hermenêutica da reforma, da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja”.

É uma hermenêutica seguramente compatível com o apego à tradição da Igreja. E é também a única capaz de vencer a contrariedade de alguns tradicionalistas acerca das “novidades” do Concílio Vaticano II, como Francesco Arzillo mostra na seguinte nota [leia a nota em espanhol aqui].

Com efeito, a linguagem “pastoral” do Vaticano II, precisamente por sua natureza não definitória, exige, com maior razão, ser compreendida à luz da tradição da Igreja, tal como o fez o próprio Bento XVI no discurso supracitado, a respeito de uma das “novidades” conciliares mais impopulares para muitos tradicionalistas, a da liberdade de religião.

dezembro 18, 2010

Dom Schneider pede ao Papa um novo Syllabus.

Por Osservatore Vaticano – Vini Ganimara

Ciclo de conferências sobre o Vaticano II organizado pelos Franciscanos da Imaculada, em Roma, reúne expoentes da crítica ao Concílio. Dentre eles, Mons. Gherardini e Prof. Roberto de Mattei.

Ciclo de conferências sobre o Vaticano II organizado pelos Franciscanos da Imaculada, em Roma, reúne expoentes da crítica ao Concílio. Dentre eles, Mons. Gherardini e Prof. Roberto de Mattei.

Um verdadeiro furacão passou ontem, 17 de Dezembro de 2010, por Roma, a dois passos da basílica de São Pedro: um bispo propôs, nada mais nada menos, que… recolocar em prática o magistério infalível da Igreja.

Com efeito, desde 16 de dezembro, realiza-se em Roma um importante colóquio intitulado “Concílio Vaticano II, um concílio pastoral – Análise histórica, filosófica e teológica”. Organizado pelos corajosos Franciscanos da Imaculada, este colóquio se realiza nas salas de conferência de Santa Maria Bambina, atrás da colunata de Bernini, próximo ao Palácio do Santo Ofício, num quase silêncio midiático, apesar da atualidade do tema com relação ao pontificado de Bento XVI e da qualidade dos intervenientes.

Duas intervenções esperadas marcaram o primeiro dia: a de Mons. Gherardini, autor do livro Concilio Vaticano II, un discorso da fare, e a do professor Roberto de Mattei, historiador italiano, autor de um recente livro sobre o concílio, intitulado Il Concilio Vaticano II. Una storia mai scritta (disponível por ora apenas em italiano, edições Lindau). Ambos responderam às críticas que os seus trabalhos levantaram, aliás, muito paradoxalmente, do meio conservador, em cujo seio há alguns raros defensores da infalibilidade do Concílio.

Ontem, 17 de dezembro, Dom Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, causou alvoroço com sua conferência sobre o tema do culto a Deus como fundamento teológico da pastoral conciliar. Propondo um longa coletânea de citações, teologicamente muito ortodoxas, extraídas dos textos conciliares, apresentou à assistência textos escolhidos de um Vaticano II, de certo modo, “mais ortodoxo que Trento”. A captatio benevolentiae foi particularmente eficaz: a assistência esperava o que estava por vir, suspenso nos lábios do bispo.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

É então que, denunciando a interpretação errônea deste concílio no período pós-conciliar, o bispo conclui a sua intervenção sugerindo… a redação de um Syllabus que condene infalivelmente “os erros de interpretação do Concílio Vaticano II”.

Pois, segundo Dom Schneider, só o magistério supremo da Igreja (do Papa ou de um novo concílio ecumênico) pode corrigir os abusos e os erros nascidos do Concílio e retificar sua compreensão e sua recepção à luz da tradição católica. Respondendo um pedido de esclarecimento, fez a sua douta assistência cair no riso ao considerar que não era possível reunir um concílio em menos de 500 anos. Cabe, portanto, ao magistério supremo do Papa. Daí seu pedido por um novo Syllabus, onde figurariam face à face os erros condenados e a sua interpretação ortodoxa.

Como tantos e tantos outros há 40 anos, é, pois, ao juízo infalível do Papa “reformulando” o Vaticano II que se está apelando. Com exceção de que, desde a “liberação da palavra” operada por Bento XVI, são doravante os personagens oficiais que interpõe o pedido.

Tradução: Fratres in Unum.com

dezembro 17, 2010

Yves Chiron e a hermenêutica do Vaticano II.

(Summorum Pontificum Observatus – Tradução: Fratres in Unum.com) Observador atento da atualidade religiosa, o historiador Yves Chiron acaba de consagrar o último número de sua “carta de informações religiosas” Aletheia à “’recepção’ do Vaticano II ou hermenêutica de uma hermenêutica”. Ele ressalta, em primeiro lugar, várias obras que tratam da “recepção” do Vaticano II, como La Réception du deuxième concile du Vatican dans l’Église catholique allemande sous le pontificat de Paul VI, et plus particulièrement dans le diocèse de Limbourg [A Recepção do Segundo Concílio do Vaticano na Igreja católica alemã sob o pontificado de Paulo VI, mais particularmente na diocese de Limbourg], de Olaf Hahn, ou La réception du concile Vatican II [A recepção do concílio Vaticano II], do jesuíta canadense Christoph Theobald. Assinala os diferentes trabalhos de Joseph Ratzinger até o seu célebre discurso à cúria romana de 22 de dezembro de 2005. Por último, apresenta também a publicação das atas, na Revue thomiste, de um colóquio organizado pelos Dominicanos de Toulouse sobre “Vatican II, rupture ou continuité ? Les herméneutiques en présence” [Vaticano II, ruptura ou continuidade? As hermenêuticas envolvidas] .

A este respeito, indica o longo prefácio do Padre Emmanuel Perrier que considera que o Vaticano II “não apenas foi a ocasião que mais verdadeiramente esteve na origem do conflito entre ‘ruptura’ e ‘continuidade’”, análise desenvolvida por Mons. Francis Frost que mostra que, com o Vaticano II, “passou-se de uma problemática de ‘desenvolvimento da doutrina’ (no sentido que Newman dava a esta expressão) a uma diligência hermenêutica, um ‘processo de reformulação do que já estava formulado’”.

Finalmente, Yves Chiron aborda o livro de Mons. Gherardini, observando que este livro “levantou diferentes interrogações relativas a certos textos conciliares. [Gherardini] concluía seu estudo crítico com uma ‘súplica’ ao Papa, onde pedia ‘um solene e, se possível, definitivo, esclarecimento sobre o último Concílio”. Ele nota a este respeito a publicação de “um estudo crítico” desse livro pelo Padre Basile Valuet [da abadia beneditina do Barroux] em La Nef, cuja  “versão completa” publicada na Internet é qualificada por Yves Chiron de “muito agressiva”.

O Concílio Vaticano II, portanto, gera debate ainda hoje e alguns consideram necessária ao menos uma reavaliação desses textos ou um esclarecimento da autoridade suprema que lhes dizem respeito. Paradoxalmente, o texto do Padre Basile é uma prova de que em certos meios considerados tradicionalistas a desconfiança em relação ao debate sobre Vaticano II é muito grande. Entretanto, como nota Yves Chiron ao apresentar o congresso que se realizará em breve em Roma [ndr: na realidade, começou ontem e vai até o dia 18] sobre esse assunto (e do qual já falamos), que “reunirá teólogos, alguns dos quais são muito próximos do Papa, membros da cúria e historiadores”, inclusive o próprio Yves Chiron: a hermenêutica do Vaticano II, tabu na França e possível em Roma? A pergunta: até quando?

outubro 29, 2010

O Concílio [Pastoral] em questão.

Clique para ampliar

Clique para ampliar

(Summorum Pontificum Observatus) De 16 a 18 de dezembro próximo, os Franciscanos da Imaculada organizam um colóquio de estudos em Roma sobre o Concílio Vaticano II (Concilio Ecumenico Vaticano II, Un Concilio Pastorale — Analise Storico-Filosofico-Teologica), no Instituto “Maria S.S. Bambina” (via Paolo VI, 21).

Apoiando-se sobre o histórico discurso do Papa sobre as duas hermenêuticas relativas ao Concílio Vaticano II, de 22 de dezembro de 2005, os Franciscanos da Imaculado se propõem a examinar o Vaticano II,  sua natureza e seu objetivo. Trata-se de estudar esta radical novidade que quis que, pela primeira vez, um concílio não proclamasse novos dogmas e ensinamentos definitivos, nem condenações, mas se apresentasse com uma finalidade meramente pastoral.

Notamos que a versão italiana da agência Zenit, sob o título ‹‹ Il Vaticano II, un Concilio “Rivoluzionario”? ›› publicou um artigo do Padre Serafino M. Lanzetta, padre professo do Instituto dos Franciscanos da Imaculada e cura da Igreja São Salvador em Ognissanti (Florença) desde 2004. Ele ensina teologia dogmática no Instituto Teológico “Imaculada Medianeira” (Cassino – Frosinone). Desde 2006, é diretor da revista teológica Fides Catholica. Colabora com diversas revistas de caráter cultural e teológico e dirigiu a realização de dois colóquios teológicos no Cenáculo do Ghirlandaio, Florença, bem como as publicações a respeito.

Observem que Dom Velasis de Paolis, já evocado neste blog a propósito da recente ordenação diaconal nos Franciscanos da Imaculada, encerrará este colóquio onde intervirão particularmente Mons. Gherardini, o professor Roberto de Mattei, Yves Chiron, Dom Schneider, Dom Marchetto, Mons. Nicola Bux, vários membros dos Franciscanos da Imaculada de universidades pontifícias e da cúria.

outubro 8, 2010

Entrevista com Dom Bernard Fellay: frutos das discussões teológicas poderiam ser promissores. “O nosso vínculo a Roma não deve ser simbólico, mas sim concreto”.

Publicamos um importante trecho da entrevista concedida por Sua Excelência Reverendíssima, Dom Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, ao site La Porte Latine:

O senhor percebe igualmente mudanças em Roma? A ação da obra de Dom Lefebvre teve um efeito sobre as altas instâncias da Igreja?

Percebe-se uma certa mudança em Roma a nosso respeito, embora ela não tenha ainda grande efeito. Tenho a impressão que o nosso trabalho é apreciado por alguns, enquanto odiado por outros. As reações a nosso respeito são muito contrastantes. Vê-se  realmente que existem dois campos, um favorável e outro hostil, o que torna as relações bastante difíceis, pois nos indagamos sempre quem terá a última palavra. Permanece, no entanto, que aqueles que querem ser fiéis ao Papa nos consideram com respeito e esperam muito de nós para a Igreja. Mas daí a ver efeitos concretos, será necessário ainda ter paciência!

Quarenta anos são ao mesmo tempo muito e pouco tempo para que um grande número de fiéis não tenham nenhuma lembrança do Vaticano II. Não se corre o risco, à medida que se distancia do Concílio, de viver num certo conforto, entre padres ou fiéis se satisfazendo com a nossa situação?

Existe, sem dúvida, o perigo de acabar por se confinar numa certa autonomia prática. Uma grande parte desta atitude deve ser atribuída à situação na qual nos encontramos, a de uma Tradição rejeitada. É por isso que tentamos expandir a visão e a preocupação dos fiéis falando-lhes da Igreja e de Roma. É muito importante conservar um espírito romano. O nosso vínculo a Roma não deve ser simbólico, mas sim concreto. Esta situação é também uma prova para a nossa fé na Igreja.

Há um ano abriam-se as discussões doutrinais entre os peritos da Santa Sé e da Fraternidade. Sabemos bem que uma grande discrição rodeia essas relações e os fiéis rezam para o seu final feliz. Sem  abordarmos os assuntos de fundo, devemos esperar para um futuro próximo um inevitável fracasso ou, pelo contrário, uma incontestável restauração?

Dado a forma dessas discussões, não penso que elas resultarão em uma ruptura brusca ou em uma solução súbita. Duas mentalidades se colidem, mas a vontade de entrar em discussão — a nível teológico — é bem real. É por isso que, ainda que o desenvolvimento corra o risco de ser longo, mesmo assim os frutos poderiam ser promissores.

Por essas discussões, deve-se esperar uma firme condenação do Concílio por parte de Roma ou, pelo contrário, será necessário enfim aceitá-lo sem torcer o nariz? Como imaginar a saída de tal crise magisterial?

Parece-me que, se uma condenação do concílio ocorrer um dia, não será amanhã. Desenha-se muito claramente uma vontade de correção da situação atual. Sobre o estado presente da Igreja, particularmente grave, as nossas apreciações convergem em numerosos pontos, tanto sobre a doutrina como sobre a moral e a disciplina. Contudo, a tendência dominante em Roma consiste ainda em eximir o concílio: não se quer chegar até o concílio, procura-se outras causas, mas, sobretudo, não o concílio! Tendo em conta a psicologia do ambiente, parece-me que seria mais fácil superá-lo recordando simplesmente o ensinamento irrefutável da Igreja, deixando para mais tarde a condenação direta. Creio que, no contexto atual, uma condenação simplesmente não seria compreendida.

Em uma obra recente, Vaticano II, un discorso da fare, um teólogo romano, Monsenhor Gherardini, elabora uma constatação bastante alarmante da Igreja. Ele deixa a entender que uma leitura do Concílio na continuidade da Tradição não se depreende manifestamente dele e lança um apelo solene ao Papa para que seja efetuado um grande trabalho de esclarecimento magisterial. Como se deve acolher este escrito?

Não é necessário tomá-lo como um escrito que venha de nós ou que nos seja destinado. Não, é dirigido aos católicos “do outro lado” e à hierarquia atual. Visto nesta perspectiva, esta obra se reveste de uma grande importância, pois introduz a questão de como o concílio foi recebido. Toca-se num tabu. Quando o fazemos, desencadeamos nos nossos interlocutores uma reação de defesa que bloqueia qualquer discussão. Mas quando o golpe parte de seu próprio seio, muitas coisas são postas em xeque. Cheguei à conclusão de que esse livro é objetivamente importante e que poderia ser uma destas faíscas suscetíveis de acender um grande incêndio.

setembro 30, 2010

O futuro FSSPX: nem concessão, nem “statu quo” confortável.

FONTE – Monsenhor Brunero Gherardini – tradução de Fratres in Unum a partir da versão francesa do Padre Matthieu Raffray, do Instituto do Bom Pastor – 29 de setembro de 2010

 

Cônego da Basílica de São Pedro e postulante da causa de canonização do Beato Pio IX, Mons. Gherardini é padre da diocese de Prato (Itália) e está a serviço da Santa Sé desde 1965, especialmente como professor de eclesiologia e ecumenismo na Pontifícia Universidade Lateranense até 1995.

Cônego da Basílica de São Pedro e postulante da canonização do Beato Pio IX, Monsenhor Gherardini é padre da diocese de Prato (Itália) e está a serviço da Santa Sé desde 1965, especialmente como professor na Universidade Lateranense.

 

Propomos aqui um texto sobre o futuro da Fraternidade São X que Monsenhor Brunero Gherardini nos pediu que traduzisse para o francês e publicássemos. Sua perspectiva realista, fundada sobre circunstâncias históricas que conhece bem por vários motivos, dá lugar a uma síntese teológica que novamente enfoca a vexata quaestio sobre a noção de “Tradição”.

Ele convida a trabalhar lucidamente na clareza teológica, sem temer iniciar um duro e longo trabalho, aberto às grandes colaborações e investigações aprofundadas sobre os documentos conciliares controversos, como já havia convidado em sua já famosa obra, Vaticano II, um discorso da fare. Nesta perspectiva, o acordo canônico desejado não seria o resultado de uma rápida confrontação ponto a ponto sobre o Vaticano II, mas, pelo contrário, o ponto de partida de um vasto programa de análises e de estudos que contaria com “a colaboração dos especialistas mais prestigiosos, seguros e reconhecidos de cada um dos âmbitos sobre os quais se articula o Vaticano II [e que daria lugar] a uma série de congressos ou a uma série de publicações sobre cada um dos diversos documentos conciliares” (B. Gherardini, “Súplica ao Santo Padre”, Ibid., ed. fr., p. 262).

Também nós nos inserimos nessa ótica, em especial, no que diz respeito a um sério renascimento do debate teológico, que deve comportar dos dois lados a revisão de “sensos comuns” não dogmáticos, no interesse supremo da Igreja universal, e não na busca de um statu quo que não visaria mais que cultivar os interesses particulares.

Padre Matthieu Raffray, IBP


 

Por ocasião de um encontro entre amigos, alguns deles me perguntaram qual poderia ser o futuro próximo da Fraternidade São X, ao fim das discussões em curso entre a referida fraternidade e a Santa Sé. Discutimos longamente e os pareceres estavam divididos. Por isso, expresso o meu por escrito, na esperança — sem nenhuma pretensão, Deus me livre — que possa ser útil não somente aos meus amigos, mas também aos que participam neste diálogo.

Tenho que dizer, antes de tudo, que ninguém é profeta, nem filho de profeta. O futuro está nas mãos de Deus. Às vezes é possível organizá-lo antecipadamente, ao menos em parte; noutros casos, ele nos escapa totalmente. É necessário, além disso, reconhecer às duas partes, que estão afinal trabalhando para encontrar uma solução ao problema dos “lefebvristas” que já durou muito, que elas, até agora, têm tido êxito em manter admirável e exemplarmente o silêncio que haviam prometido sobre os seus colóquios. Tal silêncio, no entanto, não ajuda a prever as saídas possíveis.

“Rumores”, em contrapartida, se fazem ouvir; e não pouco. Saber qual o seu fundamento é um enigma. Examinarei, então, algumas das opiniões expressas por ocasião da discussão mencionada, para posteriormente dar, de maneira clara, a minha.

 

Dom Fellay, Cardeal Hoyos e Papa - setembro de 2005

Dom Fellay, Cardeal Hoyos e Papa - setembro de 2005

 

1 – Durante a discussão, alguns julgaram positivo o recente convite feito à Fraternidade de “sair do bunker [refúgio, abrigo] no qual se trancou durante o pós-concílio para defender a Fé contra os ataques do neomodernismo”. Era claro que dar uma opinião a esse respeito não era coisa fácil. Que a Fraternidade, durante algumas décadas, esteve fechada num bunker, é evidente; e, infelizmente, ainda permanece. Menos evidente é saber se ela entrou sozinha, se fizeram-na entrar, ou se os acontecimentos a empurraram para lá. Parece-me que, se realmente se quer falar de bunker, Monsenhor Lefebvre mesmo foi quem encarcerou a sua Fraternidade, em 30 de junho de 1988, quando — após duas advertências de João Paulo II e uma admoestação formal para que renunciasse ao ato “cismático” que planejava realizar — ordenou bispos quatro dos seus padres. O bunker foi isso: não o de um cisma formal, dado que se tratou apenas de uma “recusa de submissão ao Soberano Pontífice” (CIC 751, §2), não havia dolo nem intenção de criar uma anti-igreja; pelo contrário, este ato foi determinado mesmo pelo amor à Igreja e por uma espécie de “necessidade” urgente de assegurar a continuidade da verdadeira Tradição católica, seriamente comprometida pelo neomodernismo pós-conciliar. Mas foi um bunker: o de uma desobediência aos limites do desafio, uma via sem saída e sem a perspectiva de nenhuma abertura possível. E não aquele de salvaguardar valores comprometidos.

É difícil compreender em que sentido se possa propriamente dizer necessário “trancar-se num bunker” “para defender a Fé contra os ataques do neomodernismo”. Isso seria dizer: deixar o campo livre à invasão da heresia modernista? Não, dado que, de fato, a passagem da heresia foi incessantemente posta em dificuldade. Pois, embora numa situação de condenação canônica, e, portanto, fora das fileiras oficiais, mas com consciência segura de trabalhar por Cristo e a sua Igreja, una, santa, católica, apostólica e romana, a Fraternidade se ateve acima de tudo à formação dos padres, já que aí está o seu propósito específico; fundou e dirigiu seminários; promoveu e apoiou debates teológicos às vezes de alto nível; publicou livros de um valor eclesiológico notável; prestou contas de si mesma, publicando folhetos de informação internos e externos; e tudo isso às claras, demonstrando assim de qual força — infelizmente deixada à margem — a Igreja poderia se prevalecer para realizar a sua obra de evangelização universal. O fato de que os efeitos da presença ativa lefebvrista possam parecer modestos, ou que, realmente, não sejam muito aparentes, pode depender de dois motivos: por um lado, da condição canônica anormal na qual evolui; por outro, das suas dimensões: sabemos que “la mosca tira il calcio che può” (“a mosca dá o pontapé que pode”).

Mas estou profundamente convencido que é precisamente por isso que se faz necessário agradecer a Fraternidade: por ter mantido, e por manter ainda, bem alta a tocha da Fé e da Tradição, num contexto de secularização que já chega à beira de uma era pós-cristã, e isso apesar de uma antipatia não dissimulada para com a mesma.

2 – Por ocasião do debate em questão no início, alguém fez referência a uma conferência na qual a Fraternidade foi convidada a ter uma confiança maior no mundo eclesial contemporâneo, recorrendo, se necessário, a certas concessões, dado que a “salus animarum” exige — é um lefebvrista que teria dito – que se corra até esse risco. Sim, mas certamente não o risco “comprometer” sua salvação eterna, nem a de outro.

É provável que as palavras tenham traído as intenções. Ou que não se tenha atentado ao valor das palavras. Pois se há uma coisa que se deve evitar em matéria de fé é fazer concessões. E para a Fraternidade, o recordar para si  o  “sim, sim, não, não” de Mt. 5, 37, como todo fiel autêntico de Cristo,  é a única resposta válida à perspectiva de concessão. O texto citado continua afirmando que “todo o resto vem do maligno”: portanto, também, e mais precisamente, a concessão. Pelo menos quando por ela se entende o renunciar aos seus próprios princípios morais e às suas próprias razões de ser.

Para dizer a verdade, desde que as discussões entre a Santa Sé e a Fraternidade começaram, chegou, também a mim, o rumor da possibilidade de uma concessão. Ou seja, de um comportamento indigno, ao qual o primeiro a recusar, imagino, seja a Santa Sé. Uma concessão sobre algo que não implique a autêntica confissão da Fé é possível, e mesmo plausível; mas nunca às custas de valores inegociáveis. Seria isso, sobretudo, uma contradição nos termos, pois que a concessão ela mesma é objeto de um “negotium” — e uma negociação de risco: risco do naufrágio da Fé. A própria idéia de que a Santa Sé possa propor e aceitar uma concessão me repugna: seria obter muito menos que um prato de lentilhas e endossaria então a responsabilidade de um delito gravíssimo. Igualmente, me repugna a idéia de que a Fraternidade, após ter feito da Fé sem concessões a bandeira da sua própria existência, possa escorregar na casca de banana da renúncia de sua razão de ser.

Acrescento que, a julgar por alguns indícios que talvez não sejam totalmente infundados, a metodologia colocada em ato por ambos os lados não parece abrir grandes perspectivas. É a metodologia do ponto contra ponto: Vaticano II “sim”, Vaticano II “não”, ou a rigor “sim, se…”. A condição de tal método é que de um lado ou do outro, ou dos dois, baixa-se a guarda. Uma capitulação sem condição? Para a Fraternidade, entregar-se nas mãos da Igreja seria o único comportamento verdadeiramente cristão, se não existisse a razão pela qual ela nasceu e que a levou a se retirar para o Aventin [ndt: uma das sete colinas de Roma]. A saber, este Concílio Vaticano II que, particularmente em alguns de seus documentos, é literalmente o oposto daquilo que ela crê e pelo que ela age. Com tal metodologia, nenhuma via média pode, então, ser entrevista: ou a capitulação, ou a concessão.

 

Bispos da Fraternidade nas exéquias de Dom Lefebvre

Bispos da Fraternidade nas exéquias de Dom Lefebvre

 

Tal saída poderia ser evitada se outra metodologia fosse seguida. O “punctum dolens” de todo o contencioso se chama Tradição. Uma e a outra parte não cessam de recordá-la, embora tenham uma noção claramente distinta. Em 1988, o Papa João Paulo II declarou oficialmente que a noção de Tradição defendida pela Fraternidade era “incompleta e contraditória”. Restaria demonstrar a razão de tal incompletude e contradição, mas o mais urgente é a necessidade de se chegar, para ambas as partes, a um conceito comum, isto é, bilateralmente compartilhado. Tal conceito se tornaria então o instrumento que permite desvendar o labirinto dos problemas. Não há questão teológica ou de problema eclesial que não encontre em tal conceito a sua solução. Se, então, continuarem a dialogar mantendo, de um lado e de outro, o seu ponto de partida, ou se dará lugar um diálogo de surdos, ou, para tentar provar que não se dialogou em vão, se dará livre acesso à concessão. Em particular, se fosse aceita a tese dos “contrastes aparentes”, que reduz as oposições não a causas de caráter dogmático, mas à interpretação sempre nova de fatos históricos, então a Fraternidade declararia o seu próprio fim, substituindo miseravelmente a sua noção de Tradição, que é a dos Apóstolos, pela noção vaga, inconsistente e heterogênea de Tradição viva dos neomodernistas.

3 – Em nosso colóquio amigável, abordamos enfim uma última questão, exprimindo aí mais esperança que previsões concretamente fundadas: a questão do futuro da Fraternidade. Sobre este assunto, já se inclinou o sítio http://cordialiter.blogspot.com, com uma antecipação idílica do feliz amanhã que poderia ocorrer à Fraternidade: um novo estatuto canônico — novo? Sim, porque por ora, nunca existiu –, significando o início do fim do modernismo, priorados abarrotados de fiéis, e pela Fraternidade transformada em “super-diocese autônoma”. Da minha parte, espero também muito da aproximação esperada e que está atualmente em curso, mas mantendo um pouco mais os pés no chão.

Tento lançar sobre essas coisas um olhar mais aguçado a fim de ver o que poderia ocorrer. A especificidade da Fraternidade, como já recordei, é a preparação ao sacerdócio e o cuidado das vocações sacerdotais. Portanto, não deveria se abrir para ela um terreno diferente do dos seminários, que é o seu verdadeiro campo de batalha: nos seus próprios seminários ou nos dos outros, aí, mais que em qualquer outro lugar, poderão se exprimir a natureza e a finalidade da Fraternidade.

Sob qual perfil canônico? Não é fácil prevê-lo. Parece-me, no entanto, que o fato de se tratar de uma fraternidade sacerdotal deveria sugerir o aspecto canônico sob forma de uma “sociedade sacerdotal”, colocada sob o governo supremo da “Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida apostólica”. Além disso, o fato de já possuir quatro bispos poderia sugerir, como solução, uma “Prelazia” que a Santa Sé, no momento oportuno, poderá precisar a configuração jurídica exata. Tudo isso não me parece, todavia, ser o problema principal. O que é bem mais importante, sem dúvida, é tanto a resolução dentro da Igreja de um contencioso incompreensível na época do diálogo com todos, como a liberação de uma força compacta unida à idéia e ao ideal da Tradição, para que possa operar não desde um bunker, mas à luz do sol e como expressão viva e autêntica da Igreja.

Brunero Gherardini

Roma, 27 de setembro de 2010

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 514 other followers