Por Fratres in Unum.com
PRIMEIRO ATO: Ignorância técnica ou ingenuidade?
Declaração do Cardeal Joachim Meisner, que gerou toda a polêmica.
SEGUNDO ATO: Corporativismo ou mera desinformação?
Declaração do presidente da Conferência Episcopal Alemã em apoio às palavras de seu colega no episcopado.
TERCEIRO ATO: Até tu, Brutus?
Entrevista do Presidente da Pontifícia Academia pela Vida [PAV], Monsenhor Ignacio Carrasco de Paula, ao Vatican Insider sobre a recente polêmica causada pelas declarações dos bispos alemães a respeito da chamada pílula do dia seguinte. Embora confirmando a doutrina católica sobre o uso de fármacos abortivos, o Presidente da PAV demonstra total desconhecimento dos efeitos abortivos das chamadas pílulas do dia seguinte e atribui a polêmica a uma dicotomia entre “linguagem jornalística e má interpretação”.
A seguir, nossa tradução da matéria:
Monsenhor, sobre o que estamos realmente falando neste caso?

Monsenhor Ignacio Carrasco de Paula.
Os bispos alemães decidiram apoiar o seu colega, o Cardeal Meisner (arcebispo de Colônia, Ed.), na introdução de uma lei que seria implementada nos hospitais católicos de sua diocese. Ela é uma lei exemplar, que reitera aquilo que a Igreja Católica tem proposto nos últimos 50 anos – porém, uma lei que foi mal interpretada.
Por que ela foi mal interpretada?
Porque a linguagem jornalística é diferente da linguagem teológica ou clínica. O termo “pílula do dia seguinte” é um termo jornalístico, não um termo médico. Ele não aparece em nenhum bloco de receitas médicas ou prescrições. Essa é a razão pela qual o Cardeal Meisner enfatizou que o termo “pílula do dia seguinte” pode se referir a uma série de coisas e instou as pessoas a não utilizá-lo. Tudo o que ele fez foi dizer aos doutores que critérios eles deveriam seguir: Penso que seja aceitável que as mulheres que foram vítimas de estupro recebem medicamentos com princípio ativo contraceptivo. Entretanto, ele não concorda que um medicamento abortivo seja disponibilizado.
Por que a medicação contraceptiva é aceitável em casos de estupro, mas não em outras circunstâncias?
Os critérios que a Igreja segue em sua recusa dos contraceptivos podem ser encontrados na Humanae Vitae e mesmo antes dela, na Casti Connubii. Eles se referem ao ato conjugal que consolida um vínculo conjugal, tem uma finalidade procriativa e etc. O estupro, por outro lado, é um ato sexual cujo significado foi destruído pela violência. Portanto, neste caso, as implicações morais da contracepção estão perdidas. Um ato violento não pode ser considerado uma demonstração de abertura à vida.
Por que as pessoas, incluindo muitos católicos, são incapazes de perceber este princípio e por que esse assunto é polêmico?
Esses são casos extremos. As pessoas estão mais habituadas a ouvir falar em casos comuns ao invés de casos excepcionais. Mas depois do que aconteceu no Congo, durante a guerra, essa lei foi implementada em hospitais católicos há cinquenta anos. Alguns hospitais católicos como os de Colônia obviamente não estão cientes desses critérios.
Os críticos dizem que este tipo de medicamento pode causar um aborto, ainda que de maneira não intencional, e que não podemos correr esse risco. O que o senhor acha disso?
A Igreja precisa formar a consciência das pessoas. O que o ensinamento da Igreja diz neste caso é: em casos de estupro toda a ação possível deve ser tomada a fim de impedir uma gravidez, mas não para interrompê-la. A classificação de um determinado medicamento como contraceptivo ou abortivo compete aos médicos e cientistas, não à Igreja.
Então, essa é apenas uma tempestade em um copo d’água?
Essa questão precisa ser cuidadosamente analisada, uma resposta genérica que se aplica a todo mundo não é suficiente. Portanto, é absurdo que haja uma lei (como a da Alemanha, Ed.), que prescreve que qualquer mulher que vá a um hospital e diga que foi estuprada receba qualquer pílula antiga. Esta decisão precisa ser tomada pelo médico, com base em seu conhecimento e experiência. Muito frequentemente, entretanto, a pílula é apenas ministrada, sem a demonstração de qualquer interesse na pessoa como indivíduo.
QUARTO ATO: Colocando os pingos nos ‘is”.
O blog Rorate Caeli fala sobre a verdadeira posição dos bispos espanhóis sobre o tema e analisa a questão do fortalecimento das Comissões Episcopais em detrimento do poder da Cúria Romana. A seguir, a tradução de Fratres in Unum.
Bispos Espanhóis mostram o erro na decisão de seus colegas alemães simpáticos às pílulas abortivas e os perigos do enfraquecimento da Cúria Romana a favor das Conferências Episcopais
Algumas fontes de notícias maliciosas estão dizendo hoje que “os bispos espanhóis” “seguiram a liderança” dos bispos alemães e autorizaram o uso da “pílula do dia seguinte” em caso de estupro.
Porém, isso não foi de modo algum o que aconteceu. Em primeiro lugar, não foram os “os bispos espanhóis”, mas o secretário da Conferência Episcopal Espanhola, Dom Juan Antonio Martínez Camino. Em segundo lugar, isso foi o que ele disse, com clara ironia em relação aos bispos simpáticos ao uso de pílulas abortivas da Alemanha, e isso faz toda a diferença:
“Se houver uma pílula que impeça a concepção em caso de estupro, então, é lícito impedi-la.” [Entretanto,] “Não temos conhecimento de uma pílula do dia seguinte sem efeitos abortivos. Se ela realmente existir, ela poderá ser usada, com a doutrina que temos.” “Se ela realmente existir, certamente, a conheceremos …. todas as pílulas do dia seguinte têm este possível efeito abortivo. Portanto, o seu uso é ilícito. Se ela realmente existe na Alemanha, não temos conhecimento. Não temos conhecimento da existência dessa possibilidade técnica.” (Fontes diversas, incluindo El Mundo)
E obviamente não existe tal pílula mágica. Em poucas palavras, a charada da Conferência Episcopal Alemã, apoiada pela declaração ignorante de Dom Carrasco, contra a visão oficial e formal de sua própria Academia Pontifícia pela Vida, é apropriadamente desmontada.
_________________________
Isso apenas demonstra que, apesar de todas as conversas sobre a necessidade de “reformar” a Cúria Romana, não existe uma divisão maior na Igreja do que aquela causada pela existência de visões “nacionais” diferentes naquilo que é doutrina universal, exposta por cada Conferência Episcopal diferente. Uma reforma da Cúria Romana sem uma reforma das posições desconexas e contraditórias das Conferências Episcopais está fadada ao fracasso. Ou ainda, parece que há no ar nesses dias perigosos apelos de reforma com a clara tentativa de enfraquecer a Santa Sé (através do enfraquecimento da Cúria Romana) a fim de submeter esta mesma Sé Apostólica, de Constituição Divina suprema, aos caprichos das Conferências Episcopais, “igrejas nacionais” que não são de origem apostólica. Dom Carrasco, um espanhol, que abriu as trincheiras da opinião formal do respectivo dicastério da Cúria Romana (o seu próprio) para expressar aquilo que é, na prática, uma visão favorável aos fármacos abortivos pela Conferência Episcopal Alemã, é um exemplo vivo disso.
Não devemos esquecer que, assim como a Cúria Romana existe para auxiliar a Sé Apostólica “no exercício da [sua] missão para o bem da Igreja universal,” (Pastor bonus, introdução), também “[o] efeito vinculativo dos atos do ministério episcopal exercido em conjunto dentro das Conferências Episcopais e em comunhão com a Sé Apostólica resulta do fato de que a última constituiu a primeira e confiou-lhes, com base no poder sagrado dos bispos individuais, áreas específicas de competência.” (Apostolos suos, 13) Quando uma Conferência Episcopal individual destorce a doutrina universal, as consequências para a unidade doutrinal fundamental da Igreja pode ser grave (cf. Apostolos suos, 22: “Por esse motivo os bispos devem ser cuidadosos a fim de evitar interferir no trabalho doutrinal dos bispos de outros territórios, tendo em mente a ressonância mais ampla, até mesmo mundial, que os meios de comunicação social dão aos eventos de uma região particular.”) É exatamente por essa razão que uma Sé Romana firme e forte é mais necessária agora do que nunca.
GRAND FINALE: Atualmente, ao que se saiba nos meios acadêmicos especializados, não existem pílulas do dia seguinte sem efeitos abortivos