Posts tagged ‘Moral’

16 dezembro, 2014

Cardeal De Paolis sobre a comunhão a recasados: “Se for aprovada, as consequências seriam de uma gravidade inédita”.

A proposição 52 do Sínodo Extraordinário sobre a família. Artigo de Velasio De Paolis

IHU – O cardeal Velasio De Paolis reabre o fogo contra a comunhão aos divorciados em segunda união: “Se for aprovada, as consequências seriam de uma gravidade inédita”.

A nota é publicada pelo sítio Chiesa.it, 09-12-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O texto que segue – parte final de uma conferência proferida pelo cardeal no dia 26 de novembro na faculdade de direito canônico da Universidade San Dámaso, de Madri, Espanha – é uma prova de que o debate sobre a comunhão aos divorciados em segunda união continua vivo.

De Paolis, 79 anos, missionário scalabriniano, ilustre canonista, presidente emérito da Prefeitura dos Assuntos Econômicos da Santa , volta sobre o assunto tomando como objeto das suas críticas o parágrafo 52 da Relatio finaldo Sínodo de outubro passado, referente aos prós e os contras da comunhão aos divorciados em segunda união.

As considerações de De Paolis contra a comunhão aos divorciados em segunda união são aplicadas por ele também a todas as outras situações irregulares de coabitação, como explicado na primeira parte da conferência.

16 dezembro, 2014

México consagrado ao Imaculado Coração de Maria e ao Sagrado Coração de Jesus.

Por Alberto Villasana | Tradução: Airton Vieira de Souza – Fratres in Unum.com: Em 12 de dezembro, na Catedral Metropolitana da Arquidiocese do México, às 12h, o Cardeal Juan Sandoval Íñiguez consagrou a nação mexicana ao Imaculado Coração de Maria e ao Sagrado Coração de Jesus.

Em sua homilia destacou que o aborto e o culto à “santa” morte, têm provocado uma infestação satânica que está provocando descontrolada violência em todo o território.

A batalha é espiritual, assinalou, pelo que não servirão de nada cárceres nem investidas policiais. Há que afrontar esse mal se voltando a Deus com as armas da oração, o Rosário e a Eucaristia. Cada pessoa e cada família têm que consagrar-se e entronizar ao Sagrado Coração em seu lugar.

O Cardeal Sandoval pronunciou sobre o México a Consagração à Virgem de Fátima pronunciada pelo Papa São João Paulo II em 2004, e a Consagração ao Sagrado Coração de Santa Margarida Maria de Alacoque.

Sandoval Íñiguez recebeu a delegação para celebrar esta Consagração de parte do Cardeal Norberto Rivera, quem foi convidado nesses dias a celebrar as festas guadalupanas no Vaticano.

Em diversas dioceses do país se celebraram grandes exorcismos e consagrações sobre a nação mexicana.

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15 dezembro, 2014

Totalitarismo de gênero.

No Brasil e no exterior, ideologia de gênero causa perseguição

Por Padre Luiz Carlos Lodi da Cruz – Por ocasião da Jornada Mundial da Juventude Rio 2013, foi distribuída aos jovens uma cartilha intitulada “Keys to Bioethics” (Chaves para a Bioética). Produzida pela Fundação Jéròme Lejeune e traduzida em diversas línguas, ela pretendeu ser um manual de Bioética para jovens, respondendo a questões atuais de maneira direta, objetiva e repleta de ilustrações. Um apêndice de oito páginas foi dedicado a explicar e refutar a “teoria do gênero”. A cartilha explica que, segundo essa ideologia, “a identidade sexual do ser humano depende do ambiente sociocultural e não do sexo – menino ou menina – que caracteriza cada ser humano desde o instante da concepção. […] A nossa identidade feminina ou masculina teria muito pouco a ver com a realidade do nosso corpo, e de fato nos seria imposta pela sociedade. Sem outra escolha, desde a mais tenra infância cada pessoa interiorizaria o papel que supostamente deve desempenhar na sociedade na condição de mulher ou de homem”. Após a explicação, vem a crítica: “A teoria de gênero subestima a realidade biológica do ser humano. Reducionista, supervaloriza a construção sociocultural da identidade sexual, opondo-a à natureza”.

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12 dezembro, 2014

Papa volta a pedir opinião aos católicos sobre os desafios que a família enfrenta.

Novo questionário a enviar às dioceses mostra que Francisco quer prosseguir caminho de abertura iniciado com o sínodo de Outubro. Perguntas servirão de base à reunião prevista para o próximo ano.

Por Público – Pela segunda vez, o Papa volta a pedir a opinião dos católicos para o debate sobre as questões da família, enviando um novo inquérito às dioceses que servirá de base ao sínodo dos bispos marcado para Outubro de 2015. Mas o Vaticano deixa claro que a discussão não deve começar do zero, antes prosseguir o caminho de abertura iniciado na reunião deste ano, em que a resistência dos sectores mais conservadores travou as propostas mais polémicas sem conseguir fechar a porta à renovação pastoral defendida por Francisco.

Francisco não esconde que continua apostado em promover uma mudança na forma como a Igreja lida com os católicos que se divorciaram e voltaram a casar-se, os que vivem em uniões civis ou os homossexuais. Deixou-o claro na entrevista ao jornal argentino La Nación, publicada no fim-de-semana, em que lamentou a situação de exclusão em que vivem os fiéis recasados. “Não estão excomungados, é verdade. Mas não podem ser padrinhos de baptismo, não podem ler nas missas, não podem dar a comunhão, não podem ensinar catequese (…). Se começarmos a contar, parecem estar excomungados de facto”, disse Bergoglio, insistindo que a Igreja tem de encontrar formas de os integrar, mesmo que o sínodo de Outubro não tenha aprovado a proposta para que fossem autorizados a comungar.

Na mesma entrevista, o Papa assegurou que os bispos não debateram o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tão-só o apoio que a Igreja deve dar às famílias católicas confrontadas com a homossexualidade de um filho. Também o parágrafo relativo à necessidade de acolher “com respeito e delicadeza” os gays não obteve a maioria de dois terços necessária à aprovação, mas, ao decidir divulgar na íntegra as propostas votadas pelo sínodo, Francisco abriu a porta à mudança e deixou claro que pretende manter o debate em aberto, apesar das críticas proferidas pelos bispos mais conservadores.

A confirmação chegou terça-feira, quando o Vaticano anunciou o envio de um novo questionário às dioceses para preparar a segunda parte dos trabalhos que, depois do sínodo sobre “Desafios pastorais da família”, terá como lema “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”. E se o inquérito sublinha que é necessário encontrar formas de valorizar o casamento católico e “a dignidade da família”, fica também claro que o Vaticano espera “que sejam as dioceses e os católicos a outorgarem, ou não, um impulso ao Papa no seu espírito reformista”, escreveu o diário espanhol El País, recordando que o primeiro inquérito confirmou o grande hiato existente entre as opiniões e práticas dos crentes e aquela que é a doutrina oficial da Igreja.

Na introdução que antecede as 46 perguntas agora enviadas, o Vaticano pede aos bispos para evitarem respostas baseadas unicamente na doutrina oficial e se “deixem guiar pela viragem pastoral que o sínodo extraordinário começou a traçar”. Exortando as dioceses a envolverem na discussão movimentos laicos, organizações académicas e associações religiosas, o documento insiste que no debate sobre os desafios que a família enfrenta “é necessário tudo fazer para que não se recomece do zero, mas se assuma como ponto de partida o caminho já feito”. Além da “viragem pastoral” iniciada em Outubro, o inquérito aponta como guias o Concílio Vaticano II e “o magistério do Papa Francisco”.

E, apesar do incómodo dos conservadores, o Vaticano volta a pedir a opinião dos crentes sobre o apoio a dar às “famílias feridas”: pergunta como deve a Igreja acolher os católicos que voltaram a casar-se, se os processos para a anulação do matrimónio devem ser agilizados e mais acessíveis, ou como pode contribuir para o fim da “injusta discriminação” dos homossexuais.

Mas Francisco sabe que tem de equilibrar o impulso de abertura com a necessidade de evitar rupturas. Por isso, na audiência geral desta quarta-feira, voltou a dizer que, em nenhum momento, foram postos em causa “os verdadeiros fundamentos do sacramento do matrimónio, seja a indissolubilidade, a unidade, a fidelidade e a abertura ao dom da vida”. “Tudo acontece na presença do Papa, o garante da ortodoxia [da discussão]”, sublinhou perante 13 mil fiéis reunidos em S. Pedro.

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12 dezembro, 2014

O Sínodo e o Magistério ordinário da Igreja.

Por Roberto de Mattei – Corrispondenza Romana | Tradução: Fratres in Unum.com - Enquanto o Sínodo de 2015 se aproxima, carregado de incógnitas e de problemas, levanta-se uma questão fundamental: – Qual é a autoridade dos documentos eclesiásticos produzidos pelo magistério ordinário de um Papa ou de um Sínodo?

Os progressistas – ou, melhor dizendo, os neo-modernistas – atribuem um caráter infalível a todos os atos do atual Pontífice e aos resultados do próximo Sínodo, sejam eles quais forem. A esses atos  – dizem – devemos obedecer, porque, como no caso do Concílio Vaticano II, o Papa, ou os bispos unidos a ele, não podem errar. Por outro lado, esses mesmos progressistas negam valor infalível aos ensinamentos da encíclica Humanae Vitae de Paulo VI e afirmam que a moral tradicional no campo conjugal deve ser atualizada, adequando-se às “convicções vividas” por aqueles católicos que praticam a contracepção, a fecundação artificial ou formas de convivência extraconjugal.

No primeiro caso eles parecem admitir a infalibilidade do Magistério ordinário universal, identificando-o com o Magistério vivo do Papa e dos bispos depois do Vaticano II; no segundo caso, negam a infalibilidade do verdadeiro conceito de Magistério ordinário universal, expresso pela Tradição da Igreja segundo a conhecida fórmula de Vicente de Lerins: quod semper, quod ubique, quod ab omnibus.

Estamos diante de uma evidente inversão da verdade de fé sobre o Magistério eclesiástico. Com efeito, a doutrina da Igreja ensina que quando o Papa, sozinho ou em união com os bispos, fala ex cathedra, ele é certamente infalível. Mas, para que um seu pronunciamento possa ser considerado ex cathedra, são necessários alguns requisitos: 1) ele deve falar como Papa e pastor da Igreja universal; 2) a matéria sobre a qual se expressa deve dizer respeito à fé ou aos costumes; 3) ele deve pronunciar sobre esse objeto um juízo solene e definitivo, com a intenção de obrigar todos os fiéis.

Se faltar uma só dessas condições, o Magistério pontifício (ou conciliar) continua autêntico, mas não é infalível. Isso não quer dizer que ele seja errado, mas apenas que não está imune de erro: é, em uma palavra, falível.

Importa entretanto acrescentar que a infalibilidade da Igreja não se limita ao caso extraordinário do Papa que, sozinho ou em união com os bispos, fala ex cathedra, mas estende-se também ao Magistério ordinário universal.

Para esclarecer esse ponto, recorremos a um escrito do padre Marcelino Zalba (1908-2009), intitulado Infallibilità del Magistero ordinario universale e contraccezione (Infalibilidade do Magistério ordinário universal e contracepção), publicado na edição de janeiro-março de 1979 da revista “Renovatio” (pp. 79-90), do Cardeal Giuseppe Siri.

O autor, considerado um dos moralistas mais seguros de seu tempo, recordava que dois outros conhecidos teólogos norte-americanos, John C. Ford e Gerald Kelly, tinham estudado em 1963, cinco anos antes da promulgação da encíclica Humanae Vitae de Paulo VI, o grau de certeza e de verdade que se deveria atribuir, no campo teológico, à doutrina católica tradicional sobre a imoralidade intrínseca e grave da contracepção (John C. Ford SJ, Gerald Kelly, SJ, Contemporary Moral Theology, vol. 2, Marriage Questions, Newman, Westminster 1964, pp. 263-271).

De acordo com os dois teólogos jesuítas, tratava-se de uma doutrina que devia ser considerada normativa para a conduta dos fiéis. Seria de fato inconcebível que a Igreja Católica, assistida pelo Espírito Santo para a preservação da doutrina e da moral evangélicas, afirmasse explicitamente em numerosas intervenções que os atos anticonceptivos são uma violação objetiva e grave da lei de Deus, se realmente eles não o fossem. Por sua errônea intervenção, a Igreja teria dado origem a inúmeros pecados mortais, contradizendo a promessa da assistência divina de Jesus Cristo.

Um dos dois moralistas, o padre Ford, em colaboração com o filósofo Germain Grisez, aprofundou esse problema em um posterior escrito: Contraception and the Infallibility of the Ordinary Magisterium, (“Theological Studies”, 39 [1978], pp. 258-312). Eles concluíram que a doutrina da Humanae Vitae poderia ser considerada como infalivelmente ensinada, não em virtude de seu ato de promulgação (que foi menos solene e categórico, por exemplo, do que o da Casti Connubii de Pio XI), mas porque confirmou o Magistério ordinário universal dos Papas e dos bispos no mundo. Embora não fosse em si mesma infalível, a Humanae Vitae o tornou-se quando, ao condenar a contracepção, reafirmou uma doutrina proposta desde sempre pelo Magistério ordinário universal da Igreja.

A constituição Dei Filius, do Concílio Vaticano I, em seu terceiro capítulo, estabeleceu que há verdades que devem ser cridas na Igreja com fé divina e católica, sem necessidade de uma definição solene, por terem sido ensinadas pelo Magistério ordinário universal. As condições necessárias à infalibilidade do Magistério ordinário universal se dão quando se trata de uma doutrina relacionada com a fé ou a moral, ensinada com autoridade em repetidas declarações pelos Papas e pelos bispos com um caráter indubitável e obrigatório.

A palavra universal deve ser entendida não no sentido sincrônico de uma extensão no espaço num período histórico específico, mas no sentido diacrônico de uma continuidade do tempo, para exprimir um consenso que abraça todas as épocas da Igreja (Card. Joseph Ratzinger, Nota dottrinale illustrativa della formula conclusiva della Professio fidei del 29 giugno 1998, nota 17).

No caso, por exemplo, da regulação dos nascimentos, desde o século III a Igreja condenou os métodos artificiais. Quando, no início do século XIX, este problema começou novamente a se manifestar, as declarações dos bispos em comunhão com o Papa propuseram sempre, como doutrina definitiva e vinculante da Igreja, que a contracepção é pecado mortal. As declarações explícitas de Pio XI, de Pio XII e de todos os seus sucessores confirmaram o ensinamento tradicional. Paulo VI reafirmou na Humanae Vitae esta doutrina do Magistério ordinário “fundada sobre a lei natural, iluminada e enriquecida pela revelação divina” (n. 4), refutando as conclusões da Comissão Pontifícia que havia estudado este problema, porque elas “se afastavam da doutrina moral sobre o matrimônio, proposta com firmeza constante, pelo Magistério da Igreja” (n. 6).

A argumentação que o padre Zalba, o padre Kelly, o padre Ford e o professor Grisez desenvolveram sobre a contracepção pode estender-se à inseminação artificial, às uniões de fato ou aos divorciados recasados. Mesmo na ausência de pronunciamentos extraordinários da Igreja sobre estes problemas morais, o Magistério ordinário universal da Igreja tem-se pronunciado no decurso dos séculos de forma coerente, constante e cogente: ele pode ser considerado infalível. E, no campo moral, a prática jamais poderá estar em contradição com aquilo que foi estabelecido definitivamente pela doutrina do Magistério universal da Igreja.

Bem diversa é a conclusão relativa às novidades doutrinárias incluídas nos documentos do Vaticano II. Nesse caso, não só faltou um ato ex cathedra do Pontífice em união com os bispos, mas nenhum dos documentos foi exposto de forma dogmática, com a intenção de definir uma verdade de fé ou de moral, de obrigar os fiéis ao assentimento.

De infalível nesses documentos não pode haver senão algumas passagens nas quais se confirma a doutrina de sempre da Igreja. De fato, católico – ou seja, universal – não é aquilo que é crido “em todo lugar” e por todos, em dado momento, como pode acontecer durante um Concílio ou um Sínodo; mas é aquilo que sempre e em todo lugar foi crido por todos, sem equívocos nem contradições. O debate hermenêutico ora em curso sobre as novidades dos textos do Concílio Vaticano II confirma o seu caráter provisório e discutível, de nenhum modo vinculante.

Como podem, então, exigir uma obediência cega e incondicional às novidades falíveis do Concílio Vaticano II e do Sínodo sobre a família, aqueles mesmos que pretendem contradizer os ensinamentos infalíveis do Magistério ordinário universal da Igreja em matéria de moral conjugal?

5 dezembro, 2014

Bento XVI desautoriza Kasper.

Sua Santidade Bento XVI, papa emérito, redigiu novamente as conclusões de um artigo que escreveu em 1972 e que o cardeal Kasper havia citado em apoio a suas próprias teses sobre a comunhão dos divorciados recasados. Dessa maneira, desautoriza ao cardeal alemão que pretendia usar sua figura para sustentar uma postura contrária ao magistério da Igreja, que Joseph Ratzinger defendeu como cardeal e como Papa.

Por Sandro Magister/Chiesa.espresso/InfoCatólica | Tradução: Airton Vieira de Souza – Fratres in Unum.com: Na Opera Omnia, Ratzinger está voltando a publicar – com a ajuda do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Ludwig Müller – todos seus escritos teológicos, agrupados por tema. No último dos nove volumes publicados até agora em alemão, de quase 1000 páginas e intitulado «Introdução ao cristianismo. Profissão, batismo, seguimento» encontra-se um artigo de 1972 sobre a questão da indissolubilidade do matrimônio, publicado esse ano na Alemanha em um livro escrito por vários autores sobre matrimônio e divórcio.

Esse artigo de Ratzinger de 1972 foi desempoeirado no mês de fevereiro passado pelo cardeal Walter Kasper no informe com o que introduziu o consistório dos cardeais convocado pelo papa Francisco para debater sobre o tema da família, em vista do sínodo dos bispos programado para outubro.

Apoiando a admissão à comunhão eucarística dos divorciados que se recasam, Kasper disse:

«A Igreja das origens nos dá uma indicação que pode servir, à que já fez menção o professor Joseph Ratzinger em 1972. […] Ratzinger sugeriu retomar de maneira nova a posição de Basílio. Pareceria uma solução apropriada, que está também na base de minhas reflexões». Efetivamente, nesse artigo de 1972, o então professor de teologia de Ratisbona, que contava quarenta e cinco anos de idade, sustentava que dar a comunhão aos divorciados recasados, em condições particulares, parecia estar «plenamente em linha com a tradição da Igreja» e em particular com «esse tipo de indulgência que surge em Basílio onde, depois de um período contínuo de penitência, ao ‘bigamus’ (isto é, a quem vive em um segundo matrimônio) se lhe concede a comunhão sem a anulação do segundo matrimônio: com a confiança na misericórdia de Deus, que não deixa sem resposta a penitência».

Defendeu a fé da Igreja como cardeal e Papa

Nesse artigo de 1972 foi a primeira e a última vez que Ratzinger se «abriu» à comunhão aos divorciados e recasados. De fato, seguidamente não só aderiu plenamente à posição de proibição da comunhão, reafirmada pelo magistério da Igreja durante o pontificado de são João Paulo II, senão que contribuiu de maneira determinante, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, também à argumentação de dita proibição.

Contribuiu sobretudo assinando a carta aos bispos em 14 de setembro de 1994, com a qual a Santa Sé rejeitava as teses favoráveis à comunhão aos divorciados recasados sustentadas nos anos precedentes por alguns bispos alemães, entre eles Kasper.

E, seguidamente, com un texto de 1998 publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé e tornado a publicar pelo «L’Osservatore Romano» em 30 de novembro de 2011: A pastoral do matrimônio deve fundar-se na verdade.

Sem contar que sucessivamente, como Papa, tornou a confirmar e motivou várias vezes a proibição da comunhão no marco da pastoral para os divorciados recasados.

Desautorização ao cardeal Kasper

Por conseguinte, não é causa de assombro que Ratzinger tenha considerado inapropiada a citação que de seu artigo de 1972 fez em fevereiro passado o cardeal Kasper para apoiar suas teses, como se nada houvesse sucedido depois desse ano.

Daí a decisão tomada por Ratzinger, ao tornar a publicar seu artigo de 1972 na Opera Omnia, de reescrever e ampliar a parte final do mesmo, alinhando-a com seu pensamento sucessivo e atual.

Abaixo, pode-se ler a tradução da nova parte final do artigo, tal como aparece no volume da Opera Omnia, há pouco nas livrarias, entregue à imprensa pelo Papa emérito Bento XVI em março de 2014. Na reedição de 2014, precisa-se que «a contribuição foi totalmente revisada pelo autor».

* * *

Novo final do artigo de 1972, redigido novamente por Joseph Ratzinger em 2014

A Igreja é A Igreja da Nova Aliança, mas vive em um mundo no qual segue existindo imutável essa «dureza do […] coração» (Mt 19, 8) que empurrou a Moisés a legislar. Portanto, que pode fazer concretamente, sobretudo em um tempo em que a fé se dilui sempre mais, até o interior da Igreja, e no que as «coisas das que se preocupam os pagãos», contra as quais o Senhor alerta aos discípulos (cfr. Mt 6, 32), ameaçam com converter-se cada vez mais na norma?

Primeiro de tudo, e essencialmente, deve anunciar de maneira convincente e compreensível a mensagem da fé, tentando abrir espaços onde possa ser vivida verdadeiramente. A cura da «dureza do coração» só pode chegar da fé e só onde ela está viva é possível viver o que o Criador havia destinado ao homem antes do pecado. Por isso, o principal e verdadeiramente fundamental é que a Igreja faça que a fé seja viva e forte.

Ao mesmo tempo, a Igreja deve seguir tentando sondar os confins e a amplitude das palavras de Jesus. Deve permanecer fiel ao mandato do Senhor e tampouco pode ampliá-lo demais. Parece-me que as denominadas «cláusulas da fornicação» que Mateus acrescentou às palavras do Senhor transmitidas por Marcos refletem já dito esforço. Se menciona um caso que as palavras de Jesus não tocam.

Este esforço há continuado no arco de toda a história. A Igreja do Ocidente, sob a guia do sucessor de Pedro, não há podido seguir o caminho da Igreja do império bizantino, que se há acercado cada vez mais ao direito temporal, debilitando assim a especificidade da vida na fé. Não obstante, a sua maneira há sacado à luz os confins da pertinência das palavras do Senhor, definindo assim de maneira mais concreta seu alcance. Hão surgido, sobretudo, dois âmbitos que estão abertos a uma solução particular por parte da autoridade eclesiástica.

  1. Em 1 Cor 7, 12-16, São Paulo – como indicação pessoal que não provém do Senhor, mas a que sabe estar autorizado – diz aos Coríntios, e através deles à Igreja de todos os tempos, que no caso de matrimônio entre um cristão e um não cristão este pode ser dissolvido sempre que o não cristão obstaculize ao cristão em sua fé. Disso a Igreja há derivado o denominado «privilegium paulinum», que continua sendo interpretado em sua tradição jurídica (cfr. CIC, can. 1143-1150).

Das palavras de São Paulo a tradição da Igreja há deduzido que só o matrimônio entre dois batizados é um sacramento autêntico e, por conseguinte, absolutamente indissolúvel. Os matrimônios entre um não cristão e um cristão sim que são matrimônios segundo a ordem da criação e, portanto, definitivos de por si. Não obstante, podem ser dissolvidos em favor da fé e de um matrimônio sacramental.

Ao final, a tradição há ampliado este «privilégio paulino», convertendo-o em «privilegium petrinum». Isto significa que o sucessor de Pedro tem o mandato de decidir, no âmbito dos matrimônios não sacramentais, quando está justificada a separação. Entretanto, este denominado «privilégio petrino» não há sido acolhido no novo Código, como era em câmbio a intenção inicial.

O motivo há sido o dissenso entre dois grupos de expertos. O primeiro há sublinhado que o fim de todo o direito da Igreja, seu metro interior, é a salvação das almas. Disso se deduz que a Igreja pode e está autorizada a fazer o que serve para conseguir este fim. O outro grupo, ao contrário, defende a ideia de que os mandatos do ministério petrino não devem ampliar-se demais e que é necessário permanecer dentro dos limites reconhecidos pela fé da Igreja.

Devido à falta de acordo entre estes dois grupos, o Papa João Paulo II decidiu não acolher no Código esta parte dos costumes jurídicos da Igreja e seguiu confiando-a à congregação para a doutrina da fé que, junto com a práxis concreta, deve examinar continuamente as bases e los limites do mandato da Igreja neste âmbito.

  1. No tempo se há desenvolvido de maneira cada vez mais clara a consciência de que um matrimônio contraído aparentemente de maneira válida, a causa de vícios jurídicos ou efetivos pode não haver-se concretizado realmente e, portanto, pode ser nulo. Na medida em que a Igreja há desenvolvido o próprio direito matrimonial, ela há elaborado também de maneira detalhada as condições para a validez e os motivos de (uma) possível nulidade.

A nulidade do matrimônio pode derivar de erros na forma jurídica, mas também, e, sobretudo de uma insuficiente consciência. Com respeito à realidade do matrimônio, a Igreja mui pronto reconheceu que o matrimônio se constitui como tal mediante o consentimento dos dois cônjuges, que deve expressar-se também publicamente em uma forma definida pelo direito (CIC, can. 1057 § 1). O conteúdo desta decisão comum é o dom recíproco através de um vínculo irrevogável (CIC, can. 1057 § 2; can. 1096 § 1). O direito canônico pressupõe que as pessoas adultas saibam elas somente, partindo de sua natureza, que é o matrimônio e, por conseguinte, que saibam também que é definitivo; o contrário deveria ser demonstrado expressamente (CIC, can. 1096 § 1 e § 2).

Sobre este ponto, nos últimos decênios hão nascido novos interrogantes. Se pode presumir hoje que as pessoas saibam «por natureza» sobre o definitivo e a indissolubilidade do matrimônio, assentindo com seu sim? Ou acaso não se há verificado na sociedade atual, ao menos nos países ocidentais, um câmbio na consciência que faz presumir mais bem o contrário? Se pode dar por descontada a vontade do sim definitivo ou não se deve mais bem esperar o contrário, isto é, que já desde antes se está predisposto ao divórcio? Ali onde o aspecto definitivo seja excluído conscientemente não se levaria a cabo realmente o matrimônio no sentido da vontade do Criador e da interpretação de Cristo. Disto se percebe a importância que tem hoje uma correta preparação ao sacramento.

A Igreja não conhece o divórcio. Não obstante, depois do apenas indicado, ela não pode excluir a possibilidade de matrimônios nulos. Os processos de anulação devem ser levados em duas direções e com grande atenção: não devem converter-se em um divórcio camuflado. Seria desonesto e contrário à seriedade do sacramento. Por outra parte, devem examinar com a necessária retidão as problemáticas da possível nulidade e, ali onde haja motivos justos em favor da anulação, expressar a sentença correspondente, abrindo assim a estas pessoas uma nova porta.

Em nosso tempo hão surgido novos aspectos do problema da validez. Já hei indicado antes que a consciência natural sobre a indissolubilidade do matrimônio é agora problemática e que disso derivam novas tarefas para o procedimento processual. Quisera indicar brevemente outros dois novos elementos:

  1. O can. 1095 n. 3 há inscrito a problemática moderna no direito canônico ali donde diz que não são capazes de contrair matrimônio as pessoas que «não podem assumir as obrigações essenciais do matrimônio por causas de natureza psíquica». Hoje, os problemas psíquicos das pessoas, precisamente ante uma realidade tão grande como o matrimônio, se percebem mais claramente que no passado. Não obstante, é bom pôr em guarda sobre edificar a nulidade, de maneira imprudente, a partir dos problemas psíquicos; fazendo isto se estaria pronunciando facilmente um divórcio sob a aparência da nulidade.
  2. Hoje se impõe, com grande seriedade, outra pergunta. Atualmente há cada vez mais pagãos batizados, ou seja, pessoas que se convertem em cristãs por meio do batismo, mas que não creem e que nunca hão conhecido a fé. Trata-se de uma situação paradoxal: o batismo faz que a pessoa seja cristã, mas sem fé esta é só, apesar de tudo, um pagão batizado. O can. 1055 § 2 diz que «entre batizados, não pode haver contrato matrimonial válido que não seja por isso mesmo sacramento». Mas, que sucede se um batizado não crente não conhece para nada o sacramento? Poderia também ter a vontade da indissolubilidade, mas não vê a novidade da fé cristã. O aspecto trágico desta situação se faz evidente, sobretudo quando batizados pagãos se convertem à fé e iniciam uma vida totalmente nova. Surgem aqui perguntas para as quais não temos, todavia uma resposta. É, portanto, mais urgente ainda aprofundar sobre elas.
  3. De quanto dito até agora surge que a Igreja do Ocidente – A Igreja católica –, sob a guia do sucessor de Pedro, por um lado sabe que está estreitamente vinculada à palavra do Senhor sobre a indissolubilidade do matrimônio; não obstante, por outro há tentado também reconhecer os limites desta indicação para não impor às pessoas mais do que é necessário.

Assim, partindo da sugestão do apóstolo Paulo e apoiando-se ao mesmo tempo na autoridade do ministério petrino, para os matrimônios não sacramentais há elaborado ulteriormente a possibilidade do divórcio em favor da fé. Da mesma maneira, há examinado em todos os aspectos a nulidade de um matrimônio.

A exortação apostólica «Famíliaris consortio» de João Paulo II, de 1981, há levado a cabo um passo ulterior. No número 84 está escrito: «Em união com o Sínodo exorto vivamente aos pastores e a toda a comunidade dos fiéis para que ajudem aos divorciados, procurando com solícita caridade que não se considerem separados da Igreja […]. A Igreja reze por eles, os anime, se apresente como mãe misericordiosa e assim os sustente na fé e na esperança».

Com isto, à pastoral se lhe confia uma tarefa importante, que talvez não há sido suficientemente transposta na vida cotidiana da Igreja. Alguns detalhes estão indicados na própria exortação. Diz-se que estas pessoas, enquanto batizadas, podem participar na vida da Igreja, que inclusive devem fazê-lo. Enumeram-se as atividades cristãs que para eles são possíveis e necessárias. Entretanto, talvez fosse necessário sublinhar com maior claridade que podem fazer os pastores e os irmãos na fé para que elas possam sentir de verdade o amor da Igreja. Penso que seria necessário reconhecer-le a possibilidade de comprometer-se nas associações eclesiais e também que aceitem ser padrinhos ou madrinhas, algo que por agora não está previsto pelo direito.

Há outro ponto de vista que se difunde. A impossibilidade de receber a santa eucaristia é percebida de uma maneira tão dolorosa, sobretudo porque, atualmente, quase todos os que participam na missa se acercam também à mesa do Senhor. Assim, as pessoas afetadas aparecem também publicamente desqualificadas como cristãs.

Considero que a advertência de São Paulo a auto-examinar-se e à reflexão sobre o fato de que se trata do Corpo do Senhor deveria tomar-se outra vez a sério: «Examine-se, pois, cada qual, e coma assim o pão e beba da copa. Pois quem come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe seu próprio castigo» (1 Cor 11, 28 s.) Um exame sério de si mesmo, que pode também levar a renunciar à comunhão, nos faria ademais sentir de maneira nova a grandeza do dom da eucaristia e, por acréscimo, representaria uma forma de solidariedade com as pessoas divorciadas que se casam novamente.

Quisera acrescentar outra sugestão prática. Em muitos países se há convertido em um costume que as pessoas que não podem comungar (por exemplo, as pessoas pertencentes a outras confissões) se acerquem ao altar, mas mantenham as mãos sobre o peito, fazendo entender deste modo que não recebem o Santíssimo Sacramento, mas que pedem uma benção, que se lhes dá como sinal do amor de Cristo e da Igreja. Esta forma certamente poderia ser eleita também pelas pessoas que vivem em um segundo matrimônio e que por isso não estão admitidas à mesa do Senhor. O fato que isto faça possível uma comunhão espiritual intensa com o Senhor, com todo seu Corpo, com a Igreja, poderia ser para eles uma experiência espiritual que lhes reforce e lhes ajude.

26 novembro, 2014

Avança a Ditadura do Gênero.

Por ordem do MP, Governo do Rio recolhe cartilhas ‘homofóbicas’ e suspende fóruns religiosos.

Ações foram determinadas pelo Ministério Público após denúncia de grupo de pesquisa da Uerj

Por Lauro Neto – O Globo: RIO – Por determinação do Ministério Público, a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc-RJ) recolheu as cartilhas católicas “Chaves para a bioética” distribuídas a professores da rede estadual durante o X Fórum de Ensino Religioso, realizado no fim de março. O material, que, segundo o MP, contém conteúdo homofóbico e machista, é o mesmo entregue a milhares de participantes da Jornada Mundial da Juventude de 2013, realizada no Rio. Na ocasião, foram impressos cerca de 2 milhões de exemplares do guia em quatro idiomas – 900 mil apenas em português -, com produção da fundação católica Jérôme Lejeune e da Comissão Nacional da Pastoral Familiar da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A denúncia foi feita pelo grupo de pesquisa da diversidade Ilè Obà Òyó, do programa de pós-graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Os pontos mais polêmicos da cartilha estão num anexo escrito sob preceitos difundidos pelo Vaticano, que ataca a chamada “teoria de gênero”. Para a Igreja, a ideia de que o gênero deve ser autodeterminado e tem ligação com a orientação sexual (heterossexual, homossexual, bissexual, transgênero etc.) é condenável. De acordo com o material, “a teoria de gênero subestima a realidade biológica do ser humano. Reducionista, supervaloriza a construção sociocultural da identidade sexual, opondo-a à natureza”. Algumas ilustrações também ironizam a orientação sexual, e “reflexões éticas” sugerem que recusar a adoção aos homossexuais não representa homofobia e que “ninguém pode decidir se transformar em homem ou em mulher”.

Uma das recomendações da 2ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Proteção à Educação da Capital — que considerou “o conteúdo discriminatório (homofóbico e machista)”, além de vinculado a religiões — determinou a realização de campanhas de esclarecimento em toda a rede estadual sobre a necessidade de respeito a todos modelos familiares e orientações sexuais. A ideia do Ministério Público é “neutralizar qualquer conteúdo eminentemente religioso nas cartilhas (em especial a fim de repudiar o conteúdo descrito como ‘Teoria do gênero’)”.

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19 novembro, 2014

Pais são presos por não enviar sua filha à aula de educação sexual.

ROMA, 16 Nov. 14 / 06:14 pm (ACI/EWTN Notícias).- Um pai de família foi detido na Alemanha por negar-se a enviar sua filha à aula de educação sexual com ideologia de gênero nas que, entre outras coisas, se ensina às crianças pequenas a “tocar-se e conhecer-se”, que sua identidade sexual é “algo que devem refletir” e que diversas perversões sexuais são “normais”.

Em declarações à Rádio Vaticano, um professor italiano que trabalha há 27 anos na Alemanha, Andrea Rebeggiani, explica que o que há ocorrido com este pai de família, Eugene Martens, “não é novo. Já ocorreu há alguns anos com outras famílias de confissão batista cujos filhos recebiam estas aulas de educação sexual e que escolheram que seus pequenos recebessem esta formação em casa”.

Em 24 de outubro, um oficial de polícia se apresentou à porta da família Martens em Eslohe, um pequeno município da Renania do Norte-Westfalia. A autoridade chegou a deter a sua esposa e mãe de seus nove filhos, Luise. Já sabia que chegavam para isso porque ele mesmo havia sido detido pela mesma razão, em 15 de agosto de 2013.

A ordem de detenção chegava por não enviar em duas oportunidades a sua filha à lição de educação sexual prevista para a escola primária.

No ano passado, Luise não foi encarcerada junto a seu marido porque estava grávida. Este ano, o oficial de polícia não a “levou a força, como deveria” porque segue amamentando o último filho. “Não obstante, isto não acaba aqui. O escritório da fiscalização fará aplicar a decisão do juiz”.

Na Alemanha, estes casos são cada vez mais comuns e, em algumas oportunidades, chegaram até à Corte Europeia de Estrasburgo para exigir que se respeite o direito dos pais de escolher a maneira e o conteúdo para a educação de seus filhos.

Andrea Rebeggiani explica que a oposição dos pais se dá porque consideram que a educação sexual baseada na “ideologia de gênero” prejudica a seus filhos, uma perspectiva que o governo alenta em todos os níveis educativos de maneira obrigatória.

A ideologia de gênero pretende afirmar que no mundo atual a diferença entre homem e mulher é um feito social (uma construção) antes que algo biológico. Com essa perspectiva, a chamada “orientação sexual” tem mais peso que o sexo biológico das pessoas.

Rebeggiani explica que na Alemanha “a ideologia de gênero entrou em todos os âmbitos e é aceita acriticamente como verdade e como uma boa base para liberar a personalidade dos filhos, fazendo-a crescer ‘melhor, mais livre e autônoma’”.

A detenção do pai de família, prossegue o professor, se dá porque existe uma lei que proibe a possibilidade de instruir aos filhos em casa. “Esta lei prevê a multa ou a detenção para os pais que recusem enviar à escola aos filhos para estas lições”.

Neste caso, precisa Rebeggiani, “não se trata de pais que não mandam a seus filhos à escola mas que não os mandam a estas aulas” de educação sexual com ideologia de gênero.

O professor recorda em seguida o caso de uma pequena menina de menos de cinco anos que “retornava à casa confundida. Após informar-se, os pais descobriram que as crianças de sua classe eram educadas sexualmente para tocar-se e conhecer-se. Protestaram antes os professores e retiraram das aulas sua menina”.

* Nosso agradecimento ao leitor Airton Vieira de Souza pela tradução fornecida.

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23 outubro, 2014

Escândalo no Céu: João Baptista descanonizado!

A principal queixa contra o dito Baptista prende-se com a sua ausência de sentido pastoral e a sua falta de misericórdia para com o rei Herodes Antipas, a quem acusou de viver em adultério.

Por Pe.  – Observador: Graças à grande trapalhada informática com o Citius, veio ter ao meu computador, procedente do Supremo Tribunal de Justiça do Céu, uma cópia da acção de descanonização de São João Baptista, intentada por alguns católicos, que se fizeram representar pelo seu advogado. Alega o causídico que o dito João, filho de Zacarias e de Isabel, foi precipitadamente elevado às honras dos altares e que, à luz da misericórdia pastoral, recentemente descoberta pelos referidos fiéis, é muito duvidosa a sua santidade.

A verdade é que a dita mãe do referido João, Isabel, era prima de Maria e, portanto, o filho desta, Jesus, era parente próximo do Baptista, o que indicia favorecimento na sua canonização, cujo processo, por sinal, não consta nos arquivos da congregação para as causas dos santos. Também se teme que o alegado santo tenha sido ilicitamente beneficiado pelo facto de dois dos seus discípulos, André e João, terem depois seguido Cristo (tráfico de influências?). Por outro lado, não se conhece nenhum milagre, comprovado científica e canonicamente, que seja devido à sua intercessão. Acresce o facto de viver nas dunas, de se cobrir com peles de animais (quiçá de espécies protegidas), comer gafanhotos (que, desde as pragas do Egipto, estão em vias extinção) e de se alimentar de mel silvestre (produto não autorizado pela ASAE), o que indicia comportamentos anti-ecológicos e, em consequência, dignos de grave censura social e eclesial.

Contudo, a principal queixa contra o dito Baptista prende-se com a sua ausência de sentido pastoral e a sua falta de misericórdia para com o rei Herodes Antipas, a quem, publicamente, acusou de viver em adultério com a sua sobrinha, Herodíade, mulher de seu irmão Filipe e mãe de Salomé. Ainda que os autos provem ser verdadeira essa convivência marital, é absolutamente lamentável que, em vez de acolher misericordiosamente o simpático governante, João o tenha condenado eticamente, incorrendo assim na santa ira de Herodíade. Ora, numa perspectiva mais inclusiva e gradual, não só se deveria ter abstido de tais pronunciamentos moralistas, como deveria ter participado misericordiosamente no banquete natalício de Herodes Antipas, segundo a famosa tese que afirma que nenhum convidado para uma ceia pode ser legitimamente impedido de nela comer.

Embora os exegetas discutam se este princípio teológico-gastronómico, muito em voga em certos jornais, já constava nas tábuas da Lei, dadas por Deus a Moisés, ou se decorre de algum sermão de Santo Agostinho, ou ainda se se encontra na Suma Teológica, ninguém duvida de que é de fé divina e católica.

Por outro lado, a união de Herodes com a cunhada era, indiscutivelmente, uma relação amorosa e, sendo a caridade a principal virtude cristã, deve prevalecer a atitude pastoral de valorizar esse amor, tendo também em conta o bem da jovem e bela Salomé, que de tão amorosa mãe e do seu extremoso consorte recebia, como bailarina, uma esmerada educação artística, que deve ser também estimulada.

Por último, a forma rude como o dito João tinha por costume dirigir-se às autoridades eclesiásticas, como os fariseus e os doutores da lei, não condiz com o estilo pastoral pós-conciliar, o qual, em vez de apelar à conversão, ou julgar, proibir ou condenar actos objectivamente contrários à doutrina cristã, acolhe, abençoa e louva todas as atitudes de quaisquer seres humanos.

Por tudo isto e o mais que fica por dizer, entendem os queixosos que a sentença não pode ser outra senão a da descanonização de João Baptista, correndo a cargo do demandado as custas processuais, sem hipótese de recurso nem apelo, excepto em sede de juízo final.

À margem, lê-se ainda nos autos: aconselha-se vivamente que seja também revisto o processo de um tal Tomás More, que se opôs ao divórcio de Henrique VIII e foi, por esse motivo, executado, sendo portanto igualmente suspeito de atitudes contrárias à misericórdia cristã. Recomenda-se ainda a abertura dos processos de canonização de Herodes Antipas, de Salomé e de Herodíade, padroeiros do amor livre, bem como de Henrique VIII, vítima do fundamentalismo católico. Assinado: o advogado do diabo, bastante procurador e representante dos referidos católicos*.

*Aviso à navegação: com este texto irónico não se pretende negar a prática da misericórdia em relação a todos os homens e, por maioria de razão, a todos os fiéis cristãos, quaisquer que sejam as suas circunstâncias pessoais e familiares, mas apenas recordar que a caridade pressupõe a justiça e que não há pior injustiça do que a de tratar todos por igual. O acolhimento misericordioso que a todos os cristãos, sem excepção, deve ser dispensado, não pode ser feito à custa da verdade moral objectiva, nem do propósito de conversão, que a Igreja a todos convida, como requisito necessário para a salvação.

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3 outubro, 2014

O Pastelão Kasper.

As fontes filosóficas de erros “bergoglianos”. Para eles, o Cristianismo é a história, mas não a justiça.

Por Roberto de Mattei – Il Foglio | Tradução: Fratres in Unum.com – O próximo Sínodo dos Bispos foi precedido por um alvoroço da mídia que lhe atribui um significado histórico maior do que o seu âmbito eclesiológico de mera assembléia consultiva da Igreja. Alguns lamentam pela guerra teológica que o Sínodo anuncia, mas a história de todos os encontros episcopais (este é o significado etimológico do termo e do seu sinônimo “concílio”) sempre foi marcada por conflitos teológicos e debates ásperos sobre erros e divisões que ameaçavam a comunidade cristã desde o seu início.

Hoje a questão da comunhão para divorciados é só mais uma vertente de uma discussão que abrange conceitos doutrinários muito mais complexos, como o da natureza humana e da lei natural. Esse debate parece refletir na esfera antropológica, as especulações trinitárias e cristológicas que abalaram a Igreja durante o Concílio de Nicéia (325) e da Calcedônia (451). Naquela época se discutia para determinar a natureza da Santíssima Trindade, que é um só Deus em três Pessoas, e para definir em Jesus Cristo a Pessoa do Verbo, que subsiste em duas naturezas, a divina e a humana. A adoção por parte do Concílio de Nicéia, do termo grego homoousios, que em latim foi traduzido como consubstantialis e, logo após com o Concílio de Calcedônia, com as palavras “da mesma natureza” da substância divina, para afirmar a perfeita igualdade entre o Verbo e o Pai, marcou uma data memorável na história do Cristianismo e encerrou uma era de perplexidade, confusão, e drama de consciência semelhante àquela em que estamos inseridos. Naqueles anos, a igreja estava dividida entre a “direita” de Santo Atanásio e a “esquerda” dos seguidores de Ário (a definição é do historiador dos Concílios Karl Joseph von HEFELE). Entre os dois polos oscilava o terceiro partido dos semi-arianos, divididos em várias facções. Ao homoousios de Nicéia, que significa “da mesma substância” foi contraposto o termo homoiousios que significa “de substância semelhante”. Não se tratava de uma mera questão de terminologia. A diferença entre essas duas palavras, aparentemente insignificante, esconde um abismo: de uma parte a identidade com Deus, e da outra, uma certa analogia ou semelhança, o que faz de Jesus Cristo um simples homem.

 A melhor reconstrução histórica deste período é a do cardeal John Henry Newman, em seu livro “Os arianos do IV século”(tr. Ele. Jaca Book, Milano 1981), um estudo aprofundado, que destaca a responsabilidade do clero e a coragem do “povo” na manutenção da fé ortodoxa. O diácono Atanásio, campeão da ortodoxia, ao ser eleito bispo, foi forçado por bem cinco vezes a abandonar sua diocese para percorrer o caminho do exílio. No ano 357 o Papa Libério excomungou Atanásio e dois anos mais tarde, os Concílios de Rimini e Selêucia, que constituíam uma espécie de grande concílio ecumênico representando o Ocidente e o Oriente, abandonaram o termo “consubstancial” de Nicéia e estabeleceram um equivocado meio-termo entre Santo Atanásio e os Arianos. Foi então que São Jerônimo cunhou a frase segundo a qual  “o mundo gemeu e percebeu com espanto que tinha se tornado Ariano”.

Atanásio e os defensores da fé ortodoxa foram acusados de ficarem presos a questões de palavras e de serem encrenqueiros e intolerantes. As mesmas acusações que agora são dirigidas àqueles que dentro e fora dos debates sinodais levantam uma voz de intransigente firmeza na defesa do ensinamento perene da Igreja sobre o matrimônio cristão, como é o caso dos cinco cardeais (Burke, Brandmüller, Caffara De Paolis e Müller) os quais, depois de terem se manifestado individualmente, reuniram suas ações em defesa da família em um livro que se tornou um manifesto, “Permanecer na verdade de Cristo: o casamento e a Comunhão na Igreja Católica”, que acaba de ser publicado pelas Edições Cantagalli Siena. A mesma editora Cantagalli foi responsável pela publicação de mais um texto fundamental, “Divorciados recasados. A práxis da Igreja primitiva” do jesuíta Henri CROUZEL.

Os comentaristas dos jornais Corriere della Sera e Repubblica rasgaram as vestes pela rixa teológica em curso. O mesmo Papa Francisco, no dia 18 de setembro, recomendou aos bispos recém-nomeados que “não desperdicem energia se opondo ou se confrontando uns aos outros”, esquecendo-se da sua responsabilidade pessoal pelo confronto, quando ele próprio decidiu confiar a tarefa de abrir os trabalhos sinodais ao Cardeal Walter Kasper. Como bem observou Sandro Magister, foi o cardeal Kasper, com a sua relação secreta de 20 de fevereiro de 2014, documentada pelo jornal Il Foglio, que deu início às hostilidades e desencadeou o debate doutrinário, tornando-se assim, para muito além de suas intenções, o porta-estandarte de um partido. A fórmula repetidamente reafirmada pelo cardeal alemão, segundo a qual o que tem que mudar não é a doutrina da indissolubilidade, mas o cuidado pastoral pelos divorciados novamente casados, tem em si a capacidade de provocar ruptura e é a expressão de um conceito teológico envenenado desde os seus fundamentos.

Para compreender melhor o pensamento de Kasper, é necessário voltar a uma de suas primeiras obras, que é talvez a principal: “O absoluto na história segundo a filosofia de Schelling”, publicada em 1965 e traduzida por Jaca Book, em 1986. Walter Kasper, de fato, pertence à escola de Tübingen, que, como ele descreve neste estudo, “começou uma renovação da teologia e de todo o catolicismo alemão ao promover o encontro entre Schelling e Hegel” (p. 53).  A metafísica é a de Friedrich Schelling (1775-1854), “gigante solitário” (p. 90), de cujo caráter gnóstico e panteísta o teólogo alemão tenta em vão libertar-se. Na sua última obra, “Philosophie der Offenbarung” (Filosofia da Revelação), de 1854, Schelling contrapõe ao Cristianismo dogmático, o cristianismo da história. “Schelling – comenta Kasper – não concebe de forma estática, metafísica e sobretemporal o relacionamento entre o natural e o sobrenatural, mas de um modo dinâmico e histórico. O essencial da revelação cristã é propriamente isso, que essa é a história”(p. 206).

Também para Kasper, o Cristianismo antes de ser doutrina é história ou praxis. Em sua obra mais famosa, “Gesù il Cristo” (Queriniana, Brescia 1974), ele desenvolve uma cristologia em chave histórica que depende da filosofia da revelação do seu mentor alemão. A concepção trinitária de Schelling é aquela dos heréticos sabelianos e modalistas, precursores do Arianismo. As três Pessoas divinas são reduzidas de três modos de “sub-existência” a uma única natureza-pessoa (modalismo), enquanto a essência da Trindade se resolve com sua sua manifestação no mundo. Cristo não é um intermediário entre Deus e o homem, mas a realização histórica da divindade no processo trinitário.

Coerente com a cristologia de Kasper é também sua eclesiologia. A Igreja é antes de tudo “pneuma”, “o sacramento do Espírito Santo”, uma definição que, para o cardeal alemão, “corrige” o estatuto jurídico de Pio XII na encíclica Mystici Corporis (“A Igreja, lugar do Espírito”, Queriniana, Brescia 1980, p. 91 ). O campo de ação do Espírito Santo não coincide, como ditado pela Tradição, com aquele da Igreja Católica Romana, mas estende-se a uma realidade ecumênica muito mais ampla, a “Igreja de Cristo”, da qual a Igreja Católica é apenas uma parte. Para Kasper, o Decreto sobre o ecumenismo do Concílio Vaticano II nos leva a reconhecer que a única igreja de Cristo não se limita à Igreja Católica, mas é dividida em igrejas e comunidades eclesiais separadas (ibid, p. 94). A Igreja Católica é “onde não há algum evangelho seletivo”, mas tudo se expande de maneira inclusiva, no tempo e no espaço (“a Igreja Católica – Essência, realidade, missão”. Queriniana, Brescia 2012, p 289). A missão da Igreja é “sair de si mesma” para recuperar uma dimensão que a torne verdadeiramente universal. Eugenio Scalfari, que se apresenta como um terceiro papa, logo após o emérito e o reinante, embora totalmente ignorante em matéria de teologia, atribui a mesmíssima concepção ao Papa Francisco, afirmando que para ele, a igreja missionária é aquela que “tem que sair de si mesma e ir para o mundo” realizando o cristianismo na história (Repubblica, 21 de setembro de 2014).

Estas teses estão refletidas na teologia moral de Kasper, segundo a qual a experiência do encontro com Cristo dissolve a lei, ou melhor, a lei é um impedimento do qual o homem deve libertar-se para encontrar a misericórdia de Cristo. Schelling em sua filosofia panteísta absorve em Deus até o mal. Kasper absorve o mal no mistério da Cruz, na qual ele vê a negação da metafísica tradicional e da lei natural que vem em seguida. “A passagem da filosofia negativa à filosofia positiva é para Schelling, ao mesmo tempo a passagem da lei ao evangelho” (“O absoluto na história”, p. 178), assim escreve o cardeal alemão, que por sua vez, vê a passagem da lei para o evangelho na primazia da praxis pastoral sobre uma doutrina abstrata.

A este respeito, o ensinamento moral do Cardeal Kasper é, pelo menos implicitamente, antinomista. O antinomismo é um termo cunhado por Lutero contra o seu adversário na esquerda, Johann Agricola (1494-1566), mas que tem suas reminiscências em heresias antigas e medievais para indicar a rejeição do Antigo Testamento e sua lei, que eram vistos como mera proibição e obrigações, em contraste com o Novo Testamento, que é a nova economia da graça e da liberdade. Em termos gerais, o Antinomismo é visto como a rejeição da lei moral e natural que tem suas raízes na rejeição da idéia da natureza. Para os “antinomistas cristãos” não existe lei porque não existe uma natureza humana objetiva e universal. A consequência é a evaporação do sentido do pecado, a negação dos absolutos morais, a revolução sexual dentro da Igreja.

A partir dessa perspectiva, é possível compreender como o Cardeal Kasper em seu recente livro: “Misericórdia. Conceito fundamental do Evangelho – Chave da vida”,  publicado em alemão em 2012 e traduzido para o italiano pela editora Queriniana em 2013, se propõe a romper com o tradicional equilíbrio entre justiça e misericórdia, fazendo desta última, contra tudo que ensina a Tradição, o principal atributo de Deus. No entanto, como observou Padre Serafino Lanzetta em uma excelente análise do seu volume, publicado pela www.chiesa.espressonline.it, “a misericórdia aperfeiçoa e cumpre a justiça, mas não a anula e sim a pressupõe, caso contrário ela não teria razão de existir”. O desaparecimento da justiça e da lei torna ininteligível o conceito de pecado e o mistério do mal, a menos que se queira reintegrá-los em uma perspectiva teosófica e gnóstica.

Encontramos esse erro no postulado Luterano da “sola misericordia.” Abolida a mediação da razão e da natureza, para Lutero o único caminho de volta para Deus é a “fé fiducial”, que tem seu preâmbulo não na razão metafísica, da qual deve ser totalmente desvinculada, mas num sentimento de profundo desespero que tem por sua vez seu próprio objeto na “misericórdia” de Deus, ao invés da verdade revelada por Ele. Este princípio, como foi demonstrado por Silvana Seidel Menchi em sua obra “Erasmus na Itália 1520-1580″ (La Costa Basic Books, Turim, 1987), desenvolveu-se na literatura herética do século XVI graças à influência do Tratado de Erasmus, “De imensos misericórdia de Deus” (1524), que escancarava as portas do céu para os “homens de boa vontade” (ibid, p. 143-167). Nas seitas de origem erasmiana e luterana que compõem a extrema esquerda da Reforma Protestante refloresceram além dos erros anti-trinitários do século IV, o arianismo, modalismo, sabelianismo, com base na negação ou perversão da idéia de natureza.

O único percurso penitencial possível para se conhecer o abraço da Divina Misericórdia é a rejeição do pecado em que estamos imersos e o reconhecimento de uma lei divina que deve ser amada e observada. Esta lei está enraizada na natureza humana e está gravada no coração de cada homem “pelo dedo do Criador” (Rm 2, 14-15). Esse é o supremo critério de julgamento de cada ação e de todas as relações humanas como um todo ou na história.

O termo natureza não é algo abstrato. A natureza humana é a essência do homem, tudo aquilo que ele é antes mesmo de se tornar uma pessoa. O homem é uma pessoa, titular de direitos inalienáveis, porque ele tem uma alma. Ele tem uma alma, porque, diferente de qualquer outro ser vivo, tem uma natureza racional. Natural não é o que nasce dos instintos e desejos do homem, mas o que corresponde às regras da razão, que por sua vez tem de obedecer a uma ordem de princípios objetivos e imutáveis. A lei natural é uma lei racional e imutável, porque imutável enquanto espiritual é a natureza do homem. Todos os indivíduos que pertencem a uma mesma natureza ou espécie agirão ou deverão agir da mesma maneira, porque a lei natural está inscrita na natureza não deste ou daquele homem, mas na natureza humana considerada em si mesma, em sua permanência e estabilidade.

O Cardeal Kasper não crê na existência de uma lei natural universal e absoluta, e no Instrumentum laboris, ou seja, o documento oficial do Vaticano que prepara o Sínodo de outubro, este repúdio da lei natural transparece com evidência, mesmo quando apresentado em termos mais sociológicos do que teológicos. “O conceito de lei natural acaba por ser como tal, hoje em diferentes contextos culturais, altamente problemático, se não completamente incompreensível” (21 n.) – se diz – mesmo porque “hoje em dia, não só no Ocidente, mas cada vez mais em todas as partes da Terra, a pesquisa científica representa um sério desafio ao conceito de natureza. A evolução, a biologia e neurociência, confrontando-se com a idéia tradicional de lei natural, chegaram à conclusão de que essa não pode ser considerada ‘científica'” (n. 22). Ainda segundo o programa kasperiano, contra a lei natural é necessário contrapor o “espírito do Evangelho, que deve comunicar os valores “de um modo compreensível aos homens de hoje”. Se torna portanto necessário “dar uma ênfase muito maior sobre o papel da Palavra de Deus como um instrumento privilegiado na concepção da vida conjugal e familiar. Recomenda-se que se faça maior referência ao mundo bíblico, sua linguagem e formas narrativas. Neste sentido, destaca-se a proposta de tematizar e aprofundar o conceito de inspiração bíblica, da ‘ordem da criação’, como a possibilidade de reler de modo existencialmente mais significativo a ‘lei natural’ (…) Também se recomenda atenção para que se faça com que a juventude assuma o papel de interlocutores diretos das propostas sobre esses temas ” (30 n.).

As consequências inevitáveis dessa nova concepção de moralidade, que serão discutidas pelos participantes do Sínodo, foram tratadas por Vito Mancuso, no jornal Repubblica de 18 de Setembro. A lei natural “é um fardo pesado demais para suportar”; é necessário, portanto, apontar para “um profundo processo de renovação em matéria de ética sexual” que possa levar às seguintes e necessárias aberturas: sim à contracepção; sim ao sexo antes do casamento e sim o reconhecimento de casais homossexuais”.

De frente a esse catastrófico itinerário em direção à imoralidade, como não causaria admiração o fato de cinco cardeais publicarem um livro em defesa da moral tradicional e que outros cardeais, bispos e teólogos, também tenham se associado a esta posição? Contra quem advoga uma nova disciplina doutrinal e pastoral, — escreveu o cardeal Pell — se levanta “uma barreira intransponível”, baseada “na quase completa unanimidade sobre este ponto do qual a  história da Igreja Católica dá provas de mais de dois mil anos” (Prefácio de Juan José Pérez-Soba, Stephen Kampowski, “Além da proposta de Kasper”, Ignatius Press, San 2014, p. 7).

É de se esperar que o confronto seja livre e transparente, sem a imposição de cima para baixo de regras que distorçam ou falsifiquem o jogo. O que está em jogo não é uma simples divergência de opiniões, mas a clarificação da missão da igreja. Há que se rezar para que os bispos fiéis à Tradição não se deixem intimidar e que sejam  capazes de suportar com paciência a virulência dos ataques da mídia e as censuras eclesiais, ainda que sejam injustas e pesadas, que podem vir a ocorrer. “A melhor canção continua a ser a nossa” (p. 8), escreve ainda o Cardeal Pell e Atanásio continua a ser um modelo, em nosso tempo, para aqueles que não se retraem diante do justo combate em defesa da verdade.