Posts tagged ‘O Papa’

20 novembro, 2014

Panella, Scalfari e Bertinotti se converteram? Ou foi o contrário?

Por Antonio Socci | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: Junto a Fausto Bertinotti e Eugenio Scalfari, Marco Pannella é o fã mais eletrizado do Papa Bergoglio (“Viva o Papa!”, “Nós radicais o amamos muito”, “Eu quero me tornar um cidadão do Vaticano.”)

Uma conversão “incrível” ao “ópio do povo”, a religião, como último refúgio na velhice, porque — nunca se sabe – quem sabe ali se poderia achar até mesmo a surpresa de Deus?

Não. Não há o menor vestígio de retorno à Igreja Católica, nem de arrependimento, nem de uma mudança de vida, nessa “conversão-relâmpago” que atingiu o líder do Partido Refundação Comunista e os dois outros símbolos do anti-clericalismo e da descristianização da Itália.

Pelo contrário! É exatamente o oposto. Existe – da parte deles – a sensação de um triunfo inédito da cultura radical e secularista na sociedade italiana e até mesmo dentro da Igreja.

E da parte de Bertinotti, existe o entusiasmo por um papa que se coloca como o novo líder revolucionário e da anti-globalização no mundo.

Mas será que é realmente assim? Será que Scalfari e Marco Pannella são simplesmente gratificados com telefonemas e entrevistas, dado o seu ego sempre em brasa?

E Bertinotti não teria simplesmente entendido mal a convocação à “luta” feita por Bergoglio ao Centro Leoncavallo e seus companheiros [participantes do encontro dos movimentos sociais no Vaticano]?

Recordo-me de intelectuais, jornalistas ou políticos que nutriram profunda admiração por papas precedentes. Em particular, o carismático João Paulo II e o sábio Bento XVI.

Nesses casos, no entanto, se tratava de um autêntico retorno à fé católica ou de “conversões culturais ” que os levava no mínimo a aderir ao ensino cultural e ético da Igreja.

Em vez disso, explicou Sandro Magister, a popularidade de Francisco “não provoca ondas de convertidos. Na verdade, nele há uma certa complacência com a cultura estranha ou hostil ao Cristianismo “.

Em que sentido? “Ao ver que o chefe da Igreja é que se converte às suas posições, que parece entendê-las e até mesmo aceitá-las”. Portanto, a exultação dos vários Scalfari, Pannella e Bertinotti não é aquela de quem reencontrou a fé, mas que considera ter “conquistado” até mesmo o Vaticano.

Digo e desdigo 

No entanto, se dirá que ontem Bergoglio falou aos médicos católicos contra o aborto e a eutanásia. Então, como ele poderia ser aclamado por Pannella e Scalfari? Quer prova melhor de que eles se enganaram?

Na verdade, o discurso de ontem não esfriou o entusiasmo deles por Bergoglio.

Antes de mais nada, porque as intervenções de Francisco sobre esses temas são raríssimas, enquanto entre seus predecessores eram a ordem do dia, principalmente quando queriam soar o alarme para uma humanidade que – de acordo com a Igreja – se encontra num estado de emergência, ao esquecer (segundo Madre Teresa de Calcutá) até mesmo o ABC da humanidade.

Bergoglio avisou logo que não adere à batalha sobre os “princípios inegociáveis” (e isso foi uma ruptura de peso com o Magistério) chegando até mesmo a julgar como uma “obsessão” essa escolha do magistério precedente.

Mas,por que os discursos do Papa Bergoglio parecem tão contraditórios entre si?

No outono de 2013, uma conhecida intelectual sul-americana, docente universitária, Lucrecia Rego de Planas, que conhece bem Bergoglio e trabalhou com ele, fez um retrato do homem, onde, entre outras coisas, escreveu:

“(Bergoglio) ama ser amado por todos e agradar a todos. Neste sentido, ele poderia um dia fazer um discurso na TV contra o aborto e no dia seguinte, no mesmo programa de TV, abençoar as feministas pró-aborto na Plaza de Mayo; poderia fazer um discurso maravilhoso contra os maçons e, horas mais tarde, comer e beber com eles no Rotary Club. Esse é o Bergoglio que eu conheci de perto. Num dia ele estava conversando animadamente com Dom Duarte Aguer sobre a defesa da vida e da liturgia e no mesmo dia, durante o jantar, conversando animadamente com Dom Ysern e Dom Rosa Chávez sobre as comunidades de base e os terríveis obstáculos que representam ‘os ensinamentos dogmáticos’ da Igreja. Um dia, amigo do Cardeal Cipriani e do Cardeal Rodriguez Maradiaga falando sobre ética empresarial e contra as ideologias da Nova Era e, pouco mais tarde, como amigo de Casaldáliga e Boff, discorrendo sobre luta de classes e da ‘riqueza’ que as técnicas orientais poderiam doar à Igreja”.

Assim, um vácuo de pensamento teológico e filosófico? Uma espécie de peronismo pastoral que contém tudo e o seu oposto? Sua formação cultural é realmente muito pobre (que ele chama de “pensamento incompleto”), mas a estratégia pastoral de seu ministério é muito evidente.

Carnaval

A incoerência dos conteúdos é uma escolha política que serve para atingir um fim preciso. Os fãs o aclamam: finalmente um papa moderno e secular. Na verdade, a bússola estratégica deste pontificado parece ser a “dessacralização”.

E é isso que nos mostra – além do abandono dos “princípios inegociáveis” – muitas pequenas e grandes escolhas, aparentemente sem nexo lógico entre si. Desde a sua primeira aparição na sacada da Basílica de São Pedro, na noite de 13 de março de 2013, quando ele se recusou a usar a estola sacerdotal e a mozzeta vermelha (símbolo do martírio de Pedro e da sua jurisdição) chamando-os de “fantasia de carnaval.”

Subitamente a mídia elogiou a “dessacralização” da instituição do papado percebida também em outros sinais, como o “boa noite” ao invés de “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo” e as quatro vezes que se referiu a si mesmo como “Bispo de Roma” e nunca como papa.

A dessacralização do papado (enquanto começava a construção do mito em torno ao homem Bergoglio) continuou, em seguida, com outras pequenas escolhas (tais como a recusa de viver no apartamento pontifício) e atitudes mais cheias de repercussão e consequências (embora ambíguas), como a frase “quem sou eu para julgar?”, a condenação do proselitismo católico e da chamada “interferência espiritual” (isto é, a influência cristã no mundo).

E o Sínodo não é uma dessacralização flagrante da família? E o ato de não se ajoelhar mais diante do tabernáculo ou durante a consagração? E a admissão de todos à Eucaristia como ele já fazia em Buenos Aires?

E dizer aos cristãos que não existe  nenhuma “verdade absoluta”?

E as afirmações  sobre o Bem e o Mal como opiniões subjetivas feitas a Scalfari? Isso não “relativizaria” talvez a objetividade da moral?

E o seu anúncio inédito de que “não existe um Deus católico” não é relativizar a fé? E o discurso em Caserta?

E sugerir — como fez em sua homilia do dia 20 de dezembro de 2013 – que Nossa Senhora aos pés da cruz “talvez tenha tido vontade de dizer: me enganaram” porque naquele momento as promessas messiânicas lhe pareciam “mentiras”?

Não é uma dessacralização da figura da Mãe de Deus? A doutrina católica sempre afirmou que — como lemos no Catecismo — “a sua fé nunca vacilou, Maria nunca deixou de acreditar no cumprimento da Palavra de Deus. Eis porque a Igreja venera em Maria a realização mais pura da fé”.

E poderíamos continuar mencionando também as piadinhas e o tom sarcástico (e às vezes pejorativo) contra os cristãos que rezam o rosário, os padres de batina, as freiras que estão jejuando, a perspectiva de profanação da liturgia e da vida de clausura.

E depois tem também os “lugares”: o imã convidado a rezar no Vaticano (onde ele invocou Alá pedindo vitória sobre os infiéis), a Capela Sistina concedida à Porsche para um evento corporativo, o Leoncavallo (e outros grupos marxistas) recebidos e elogiados pelo Papa  no dia 28 de outubro (e convidados a voltar), Patty Smith contratada para o concerto de Natal no Vaticano. Falta apenas o ativista transexual Vladimir Luxuria que teve sua participação adiada na TV2000 (emissora da Conferencia Episcopal Italiana). E quando será a partida de basquete em São Pedro?

Naufrágio

Em vez disso, com Bergoglio o que se vê é uma sacralização de temas sociais, típicos da esquerda. É por isto que a Igreja na América Latina há décadas está um caos, é a igreja que possui a crise mais séria em todo o planeta: os últimos dados, que acabaram de ser divulgados pelo “Pew Research Center” confirmam esta queda vertiginosa de pertença à Igreja Católica na América Latina.

Agora essa mesma receita de fracasso está sendo aplicada a toda a Igreja. E em breve veremos as mesmas ruínas. Efeito Bergoglio.

Antonio Socci

16 de novembro de 2014

20 novembro, 2014

Cardeal Americano: Papa Francisco, “o que o senhor está fazendo aqui?”

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com – O Cardeal Francis George, OMI, arcebispo demissionário de Chicago, certamente não é considerado um tradicionalista, embora ele deva ser elogiado por restaurar alguma sanidade nos últimos 17 anos depois que seu predecessor se tornou um herói para os heterodoxos.

Sua Eminência é o último prelado a expressar receios com o Papa Francisco, conforme mostrado em uma nova entrevista do cardeal a John Allen. Perto do final da entrevista, o Cardeal George diz o seguinte sobre o Papa Francisco: “Certamente eu o respeito como papa, mas não há ainda um entendimento de ‘O que o senhor está fazendo aqui?’”

Como o Presidente da Conferência Episcopal Polonesa, o enfoque de George recai sobre verdadeiro/falso ao invés de “esquerda”/”direita”…

Para o registro dos eventos atuais, apresentamos abaixo alguns trechos da entrevista que tratam do atual Bispo de Roma:

* * *

Cardeal Francis George.

Cardeal Francis George.

Falemos sobre o Papa Francisco. Recentemente o veterano escritor italiano Sandro Magister disse que muitos americanos parecem “inquietos” com Francisco, e deu a entender que os bispos americanos talvez tenham se tornado defensores da tradição, em vez do Vaticano sob este papa. O que o senhor entende dessa afirmação?

Espero que ele esteja errado! Não é porque eu não confie nos bispos americanos, eu confio, mas essa é uma declaração muito abrangente sobre o papa e o Vaticano.

O senhor está preocupado de que haja um abandono geral da tradição?

Não acho que exista um abandono geral da tradição. O papa disse que ele quer que todas as perguntas sejam feitas e foram, assim ele tem conseguido o que quer, e agora ele tem que resolver o problema. Ele mesmo disse que papa tem o carisma da unidade, e ele sabe muito bem que é a unidade ao redor de Cristo, não ao redor dele. Portanto, a tradição que nos une a Cristo tem que ser a norma. A maneira como ele a interpreta, e como alguém talvez interprete, é o que você obtém em conversas que moldam um governo.

Posso ver por que algumas pessoas talvez estejam aflitas. Se você não pressionar, ele [o Papa] parece colocar em cheque o ensinamento doutrinal bem recebido. Mas quando você olha novamente para ele, especialmente quando você escuta as suas homilias em particular, você vê que não é o caso. Muito frequentemente quando ele diz aquelas coisas, ele as está colocando em um contexto pastoral de alguém que está preso em um tipo de armadilha. Talvez a afinidade esteja expressa de uma maneira que deixa as pessoas especulando se ele ainda defende a doutrina. Não tenho motivos para crer que ele não o faça.

Até o Sínodo dos Bispos, em outubro, boa parte das pessoas do que geralmente podemos chamar de campo “conservador” parecia inclinada a dar a Francisco o benefício da dúvida. Mais tarde isso pareceu ser menos o caso, com algumas pessoas atualmente vendo o papa sob uma luz mais crítica. O senhor também pensa assim?

Acho que provavelmente isso seja verdade. A questão é levantada: por que ele mesmo não esclarece essas coisas? Por que é necessário que apologistas tenham que arcar com a responsabilidade de tentar dar a melhor cara possível às declarações? Será que ele não percebe as consequências de algumas de suas declarações, ou até mesmo de suas ações? Será que ele não percebe as repercussões? Talvez não. Não sei se ele está ciente de todas as consequências de algumas das coisas que ele disse e fez que colocam essas dúvidas nas cabeças das pessoas.

Essa é uma das coisas que eu gostaria de ter a chance de perguntar a ele, se um dia eu conseguir. O senhor percebe o que aconteceu, apenas com aquela frase ‘Quem sou eu para julgar?’ Como ela tem sido usada e deturpada? Ela é muito deturpada, porque ele estava falando sobre alguém que já tinha pedido misericórdia e recebido a absolvição, uma pessoa que ele conhece bem. Isso é totalmente diferente de falar de alguém que exige aceitação ao invés de pedir perdão. Ela é deturpada constantemente.

Isso tem criado expectativas ao redor dele que possivelmente ele não pode satisfazer; é isso o que me preocupa. Em certo momento, as pessoas que o pintaram como uma peça chave em seus cenários sobre mudanças na Igreja descobrirão que ele não é assim. Ele não seguirá nessa direção. Então, talvez ele tenha não apenas desilusões, mas oposição que poderá ser prejudicial à eficácia de seu magistério.

Será que os bispos americanos não teriam a função de dar esse feedback, de ajudá-lo a compreender como essas coisas estão sendo recebidas?

Acho que esse é o papel dos bispos. Não acho que seria bom fazer isso como uma coisa nacional. Nunca somos uma Igreja nacional, nem neste país ou em algum outro lugar. Não seria bom dizer: “os bispos americanos versus o Vaticano”. Os bispos individualmente deveriam assumir a sua responsabilidade e fazer o que eles têm que fazer. Se existe algo que nos afeta coletivamente, então, talvez deveríamos falar coletivamente. Mas sobre algo como esse tópico, ou seja, as impressões deixadas por causa das declarações sem explicação do papa, não creio que uma conferência como um todo deveria fazê-lo por si para “corrigir” o papa ou para decidir que eles vão fazer isso. Podemos falar, e as pessoas o fazem, e então decidir individualmente se deveríamos encontrar alguns meios de chegar ao papa.

Penso que vários bispos tentaram fazer justamente isso. Se eles tiveram sucesso ou não, não sei, nem como ele mesmo recebe essas notícias. Isso é completamente desconhecido, não é mesmo? Ouvi dizer que às vezes quando você ia ao Papa Bento com notícias que ele não gostava de ouvir, ele não as ouvia muito bem.

Houve a famosa entrevista com o Cardeal [Joachim] Meisner, que disse que em 2009 ele foi até Bento em nome de vários cardeais para sugerir algumas mudanças de pessoal no Vaticano, e Bento não queria ouvir sobre isso.

Sim… Der mensch bleibt. [Nota: uma frase em alemão que diz mais ou menos que um cargo não tira a personalidade humana de uma pessoa.] Não sei como este papa reage a isso. Antes que tentasse fazer isso, seria conveniente dizer às pessoas muito próximas a ele que teriam alguma noção sobre isso ser útil ou prejudicial.

Você não quer incentivar qualquer tendência de ver os bispos americanos como um contrapeso para o Vaticano sob Francisco?

Não temos um mandato de Jesus para ser o contrapeso da Santa Sé!

Precisamente agora o seu enfoque reside na sua saúde. Se as coisas mudarem e o senhor tiver um tempo adicional, o senhor tem um próximo ato em mente?

Tenho um livro vindo da tradição intelectual católica, da Catholic University Press… você sabe, havia muitos tópicos importantes nos quais eu estava muito interessado em um momento ou outro. Alguns deles têm a ver com epistemologia, porque sempre fui fascinado pelo que podemos saber, e porque pensamos que podemos. Em teologia, sempre fui interessado em escatologia.

Para mim é interessante que este papa fale sobre esse romance, “Lord of the World” [“Senhor do Mundo”] Essa é uma pergunta que quero fazer-lhe. Como o senhor concilia o que o senhor está fazendo com o que o senhor diz ser a interpretação hermenêutica do seu ministério, que é esta visão escatológica de que o Anti-Cristo está entre nós? O senhor acredita nisso? Eu adoraria perguntar ao Santo Padre. O que isso significa? Em certo sentido, talvez isso explique porque ele parece estar com pressa. Ninguém parece interessado nisso, mas acho isso fascinante, porque achei o livro fascinante.

Li quase por acaso quando estava no ensino médio. Ele foi escrito em 1907, e ele tem viagens aéreas, ele tem tudo de moderno. Ele é realmente estranho porque parece como se estivesse olhando para os nossos tempos, significando exatamente agora. Será que o papa acredita nisso? Agora, isso é muito mais interessante do que minha fala de que o meu sucessor morrerá na prisão. O que o papa acredita sobre o fim dos tempos?

Escatologia deve ser um projeto que eu gostaria de continuar. Ratzinger, como vocês sabem, escreveu um livro sobre escatologia e provavelmente teria continuado se não fosse eleito papa. Li o livro dele, e gosto de todas as coisas, é útil e não depende dos seus próprios interesses.

Em relação ao papa, espero que antes e morrer eu tenha a chance e perguntar-lhe: como o senhor quer que compreendamos o seu ministério, quando o senhor colocou isso diante de nós como uma chave?

Agora o senhor mencionou duas vezes coisas que o senhor gostaria de perguntar ao papa. Parece-me como se o senhor realmente gostaria encontrar-se com ele pessoalmente.

Sim. Primeiramente, eu não o conhecia bem antes de sua eleição. Eu o conhecia através dos bispos brasileiros, que o conheciam bem, e fiz-lhes muitas perguntas. Desde a eleição, não tenho tido a oportunidade de ir a quaisquer das reuniões ou consistórios porque tenho feito tratamento e eles não querem que eu viagem. Eu não o vejo desde que ele foi eleito.

Eu gostaria apenas de conversar com ele. Agora é menos importante, porque não estarei no governo, mas deve-se deveria governar em comunicação com e sob o sucessor de Pedro, assim, é importante ter algum encontro de mentes, algum entendimento. Obviamente, penso que somos pessoas muito diferentes. Sempre senti uma afinidade natural com o Cardeal Wojtyla, João Paulo II… uma afinidade muito profunda, de  toda forma, da minha parte. Ele tinha a capacidade de fazer isso com milhares de pessoas. Com o Cardeal Ratzinger, havia uma distância, mas também um profundo respeito. Não conheço o Papa Francisco bem o suficiente. Certamente eu o respeito como papa, mas ainda não existe um entendimento sobre “O que o senhor está fazendo aqui?”.

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18 novembro, 2014

Fazendo uma limonada papal?

Por Rorate-Caeli | Tradução: Thiago Porto – Fratres in Unum.com: A reação ao rebaixamento do cardeal Raymond Burke pelo Papa Francisco tem gerado críticas por escritores e pelo clero considerados conservadores, mas não necessariamente tradicionalistas. A cadeia de críticas, algumas feitas até mesmo por bispos, arcebispos e cardeais após o recente sínodo, era impensável há um ano e meio, quando tradicionalistas eram condenados por anunciarem notícias, reproduzirem passagens e a realidade.

4 de novembro de 2014: Cardeal Burke celebra Missa Pontifical no Rito Tradicional na Áustria.

4 de novembro de 2014: Cardeal Burke celebra Missa Pontifical no Rito Tradicional na Áustria. Foto: Una Voce Áustria.

A última vem de uma publicação americana secular conservadora, National Review, cujo sítio eletrônico contém uma coluna do Reverendíssimo Padre Benedict C. Kiely, pároco da Igreja do Santíssimo Sacramento em Stowe, Vermont, e diretor de educação contínua para o clero na diocese de Burlington.

Aqui estão alguns excertos do texto do Padre Kiely sobre o Cardeal Burke. Atente-se à impressionante conclusão:

“Burke tem sido visto como o porta-voz da ‘oposição leal’ à liderança de algum modo frenética do querido da mídia: Papa Francisco. Após o recente sínodo sobre a família, quando tentativas de forçar dramáticas mudanças no ensinamento e a prática da Igreja por parte dos bastidores, aparentemente com a aprovação tácita de Francisco, sofreram resistência por ninguém menos que Burke e o ‘brutamontes’ australiano, cardeal George Pell, o entendimento de que os dias de Burke estavam contados foi totalmente confirmado. Seus comentários, algumas semanas depois, de que a Igreja sob Francisco parecia ser como um ‘navio sem leme de direção’ foi claramente o prego no caixão do cardeal.

Apesar da imagem de Francisco como o homem do diálogo e do compromisso, ele é considerado em Roma como o Papa mais autoritário em décadas. (…)

Seus (do cardeal Burke) crimes? Burke sustenta o ensinamento bíblico tradicional sobre o casamento e encoraja a devoção à tradicional Missa Latina. Ele é regularmente visto em diversos países celebrando a liturgia que Francisco considera como relíquia do passado, embora as Igrejas onde essas Missas são celebradas estejam repletas de jovens famílias numerosas, e elas produzem um grande número de vocações ao sacerdócio e à vida religiosa. (Buenos Aires era conhecida por dificilmente ter vocações no seminário durante o tempo em que Jorge Mario Bergoglio era arcebispo). Mas a maior ofensa talvez cometida pelo cardeal Burke foi declarar que aos políticos católicos que apoiam o aborto deve ser negada a comunhão. (…)

Há uma possível ironia final. Alguns têm especulado que o Papa Francisco, que fará 78 anos no próximo mês, irá seguir o exemplo de seu predecessor e eventualmente renunciar ao ministério Petrino, talvez aos 80 anos. Em todo caso, Raymond Burke será uma figura significativa no conclave que elegerá seu sucessor, e alguns observadores já estão prevendo que o inimigo do cortesão terminará como o próximo rei”.

Rei? Pode-se falar em fazer limonadas de limões.

*“Quando a vida lhe der limões, faça limonada”. É uma frase proverbial que encoraja o otimismo em face da adversidade e desfortuna. Limões sugerem o amargor, enquanto a limonada é uma deliciosa bebida.

14 novembro, 2014

A Crise “Williamson” do Papa Bergoglio.

Por Enrico – Messa in Latino, 20 de outubro de 2014 | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: Este mês de outubro pode ser considerado até agora como um mensis horribilis (mês horrível) para o Papa Francisco.

O Pontífice hosanado e bajulado por todo o sistema de mídia internacional, e ainda com mais entusiasmo por aqueles comentaristas que estão muito longe de serem chamados católicos (Scalfari – editor do jornal La Repubblica é um exemplo), foi obrigado a engolir sua primeira decepção naquele que é seu terreno favorito, o das relações públicas: ele não ganhou o Prêmio Nobel da Paz (cujo comitê já havia recusado reconhecer os méritos de João Paulo II, não obstante suas iniciativas contra as guerras do Golfo, e também por causa de seus ensinamentos sobre a contracepção). Isso deveria soar como um motivo de alívio; no entanto, não é assim para um homem que se preocupa muito com a construção de seu próprio estilo pessoal  e de como esse estilo se refletirá nos meios de comunicação, assim como gestos que estejam em harmonia com o sentimento comum. Tudo indica que ele chegou bem perto de obter o cobiçado prêmio, mas os suecos querem “ver o camelo antes” e esperam que Bergoglio concretize suas promessas de subverter a moral sexual da Igreja. Até agora só acenos, mas isso ele ainda não foi capaz de cumprir.

O segundo aborrecimento, ainda nesse mesmo mês, foi a publicação do livro de Antonio Socci, “Non é Francesco”. Certamente que esse livro não assusta Bergoglio (e nem convence o leitor de bom senso) no que diz respeito à parte daquele ensaio que se dedica às minúcias dos procedimentos para demonstrar a nulidade da eleição. Mas a parte da crítica cerrada ao modo de conduzir a barca de Pedro e em particular o exame dos muitos pontos de ruptura com seus predecessores, representa um pesado “J’accuse” que Bergoglio entende que isso já não é mais de competência exclusiva de “franjas isoladas” (mesmo porque Socci nunca foi um tradicionalista). O livro está na categoria de textos sobre religião e é um best-seller na Itália (não obstante o ostracismo das Editoras Paulinas que se recusam a vendê-lo em suas livrarias). Isto nos leva a intuir que nem todos formam o seu juízo só na base do número de deficientes que abraçaram o Papa em seus passeios e eventos.

Mas a verdadeira débâcle foi o Sínodo. Do ponto de vista da catequese, foi feito um dano irreparável ao Catolicismo com a publicação daquela primeira Relatio, pois conseguiram passar a mensagem de que agora todos podem fazer o que lhes é cômodo com as bênçãos da Igreja; e, de fato, a política italiana, sempre atenta aos ares que sopram do Vaticano, se encontra agora na urgência de regular as uniões civis entre homossexuais; algo que a bem poucos interessava até o mês passado. O Cardeal Napier falou de dano irremediável no sentido de que agora os bois já escaparam pela porteira aberta, e qualquer documento magisterial que tente reuni-los novamente no futuro encontrará dificuldade. E assim, sob este ponto de vista, a estratégia subversiva de Bergoglio (o homem que prefere jogar fora milhares de anos de doutrina sem argumentar em um corpo de encíclicas, mas com piadinhas em entrevistas) atingiu seu objetivo.

Tudo isso, no entanto, lhe custou um preço incalculável. O Papa perdeu a confiança do seu ‘parlamento’. Publicamente, abertamente, em alta voz alta, e até mesmo com veemência. E uma vez que, apesar de todo o seu discurso retórico sobre colegialidade e liberdade de expressão, ficou bem claro para todos que ele agiu de modo manipulativo para impor sua agenda, assim como todo mundo também sabe que o primeiro texto da Relatio foi combinado com ele, a revolta sequer respeitou a convenção hipócrita de acusar apenas os executores. Os cardeais acusaram na face, logo a ele, o mandante e não apenas os “capangas”, de ter causado grave dano à Igreja (Cardeal Burke), ou de precisar reler o Catecismo (Arcebispo de Kiev). Alguns, como Müller, Ruini e Burke, ainda evitaram saudá-lo, como foi relatado por todos os jornais de hoje. E, finalmente, como não ver uma indireta dirigida ao Papa, nesta frase de uma das comissões do sínodo (Italicus B): “Nós não estamos à procura de um populismo fácil que a tudo silencia e abafa”… (reação dura do círculo italiano moderado pelo cardeal Bagnasco, com o arcebispo Fisichella como relator: não ao “fácil populismo que tudo abafa”, a Igreja não deve ter medo de “expressar um juízo”, com muitas citações de Ezequiel sobre Deus que pede para que se “advirtam” os “malvados”).

Mas não é só. O erro de Bergoglio foi atacar um tema em particular, a família, que foi a mensagem central daquele Papa que moldou o modo de sentir dos católicos que vivem nos tempos de hoje: João Paulo II. Isso causou uma reação ultrajada que vai muito além, muito mais profundo do que teria acontecido, trocando em miúdos, com os temas do ecumenismo e liturgia. Se para os afastados e tíbios pode até ser bem vinda uma certa frouxidão moral, para os Católicos militantes (de cujas fileiras saem, evidentemente, os vocacionados e, portanto, aqueles que contam e contarão na Igreja) isso certamente não agrada, principalmente se tal relaxamento custar o preço de terem que renegar tudo o que lhes foi incutido nas últimas décadas.

Permanecem, portanto, ao lado de Francisco só o clero envelhecido, particularmente o clero da Alemanha, que são expressão de uma Igreja em ruínas, sustentada apenas pela enorme riqueza da Kirchensteur (imposto para entidades religiosas). Desta vez, até mesmo os  franceses se juntaram aos conservadores e o eixo do Reno, que tanto dano causou no Concílio Vaticano II, já não existe mais. Os sul-americanos (que sempre foram alimentados pela Igreja alemã e, portanto, poluídos há décadas por posições progressistas como a teologia da libertação) também estão com Bergoglio. Mas os norte-americanos, acostumados à luta política em favor da moral familiar, para não falar da África e da Ásia, muito conservadores sobre estas questões, estão em pé de guerra. Um caso especial é a Polônia, que agora vê Bergoglio como o anti-Wojtyla e treme de indignação; exacerbada, entre outras coisas, pelo fato de que nestes dias se marca o trigésimo aniversário do martírio do Padre Popieluzko nas mãos dos comunistas, enquanto que ao mesmo tempo, os ex-comunistas no Governo Polonês usam frases de Bergoglio para atacar o Episcopado daquele país e alavancar sua agenda sobre gênero e a legalização do incesto.

Uma rebelião dessa natureza, não em tom de represália, sugere uma considerável inquietação latente. Sabemos que o Papa Bergoglio, por trás da fachada que mostram na televisão, é humanamente desagradável pelos seus modos tirânicos. Ele próprio confessa que este lado de sua personalidade foi um defeito desde o início de sua carreira como Superior jesuíta. Talvez queriam alguém de pulso para reorganizar a Cúria, depois daquele santo homem, Bento XVI, que não tinha muita capacidade administrativa.  Mas o que se conta é que nos Sacros Palácios até os empregados se escondem nos elevadores, quando ouvem dizer que Bergoglio está chegando, para evitar repreensões e reprimendas. E isto na Cúria; porque nas Conferências Episcopais nacionais, basta ver as humilhações infligidas ao Cardeal Bagnasco ou a nomeação de um ultra progressista, odiado por quase todos os bispos norte-americanos, para a sede de Chicago sem pedir opinião de ninguém e aí se tem uma ideia do verdadeiro sentimento que boa parte dos  “irmãos no Episcopado” nutre contra ele.

Até mesmo as exibições de pauperismo do novo Pontífice não deixam de causar constrangimento entre os bispos, forçando-os a ter que fazer demonstrações semelhantes.

Papa Bergoglio é um guerreiro e um jesuíta astuto que não se deixará abater. Isso podemos ver a partir de sua reação muscular: no discurso final do Sínodo, denunciou “momentos de desolação, de tensão e de tentações” (será que alguma vez já se usou tais expressões, ao se mencionar uma assembléia da Igreja?) ao se referir, em primeiro lugar, ao “endurecimento hostil, isto é,  o desejo de querer se fechar no que está escrito (a letra) e não se deixar surpreender por Deus, pelo Deus das surpresas (o espírito), dentro da lei, dentro da certeza daquilo que conhecemos e não daquilo que ainda temos de aprender e alcançar. Desde os tempos de Jesus, existe a tentação dos fanáticos, dos escrupulosos, dos primorosos, dos considerados nos dias de hoje como – tradicionalistas e também os intelectualistas”. No mesmo discurso, ele descobriu que não é apenas o Bispo de Roma, como habitualmente gostava de se definir, mas sim o Papa, recordando a este propósito as suas prerrogativas canônicas como “Pastor e Doutor supremo de todos os fiéis” dotado “da potestade ordinária que é suprema, plena, imediata e universal na Igreja”. Uma mensagem claríssima para recordar quem é que manda. Em sua homilia de ontem, também reiterou suas intenções, citando, entre todas as frases do recém-beatificado Paulo VI, coincidentemente, apenas essa:  “perscrutando atentamente os sinais dos tempos, procuramos adaptar os meios e os métodos… às crescentes necessidades dos dias de hoje e às condições de mudança da sociedade”.

Mas, objetivamente, como escrevem até mesmo aqueles comentaristas que lhe são mais simpáticos, o resultado do Sínodo prefigura “um outono precoce e fresco de uma liderança que não consegue passar nem pelo teste dos votos para levar adiante a sua revolução de outubro”. Papa Bergoglio perdeu sua aura, não para o mundo secular, onde continua alta sua popularidade e nem provavelmente entre milhares de pessoas comuns que sentem aquela onda de calor até quando alguém lhes diz ‘bom apetite’. Mas não são esses que decidem o caminho da Igreja.

E assim como para o Papa Ratzinger o caso Williamson representou o momento decisivo do início do declínio de seu poder sobre o corpo eclesial (a rebelião aberta de muitos setores da Igreja contra ele, lamentada em sua Carta aos Bispos), do mesmo modo, os fatos desses dias provocaram uma análoga (e justificada) rebelião que tem toda a aparência de um ponto de freada deste pontificado.

Dado o programa revelado pelo próprio Papa Bergoglio, seríamos hipócritas se disséssemos que isso nos desagrada.

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13 novembro, 2014

A Itália se levanta. A colegialidade se volta contra Bergoglio.

Candidato Bergogliano perde, de lavada…

Por Pe. Cristóvão | Fratres in Unum.com

Nem tudo são flores para Bergoglio.

Depois da histórica derrota no sínodo dos bispos, em que, apesar de todas as arquitetadas manobras da dupla Bergoglio & Baldisseri, não se conseguiu a maioria qualitativa superior a dois terços para que se aprovassem as teses de sua “revolução de outubro”, agora aparece uma silenciosamente ensurdecedora manifestação de resistência.

unnamed (3)A Conferência Episcopal Italiana (CEI) rejeitou para a vice-presidência da Itália Central, nada mais, nada menos, que o badalado secretário do Sínodo dos Bispos, Mons. Bruno Forte, autor delatado da “apologia gay” no relatório preliminar do Sínodo, derrotado com 60 votos contra os 140 de Mons. Mario Meini, bispo diocesano de Fiesole.

Foi uma bela resposta dos bispos italianos!

Já o Cardeal Francis Georges, arcebispo emérito de Chicago, no contexto da recente nomeação de seu sucessor, um bispo progressista inexpressivo, declarou ao The New York Times: “Gostaria de me sentar com ele (Francisco) e dizer: ‘Santo Padre, primeiramente, obrigado por me deixar aposentar. Eu poderia fazer algumas questões sobre as suas intenções?”…

… E a Assembleia do Episcopado Americano está apenas começando.

Toda esta revolução propulsionada por Francisco está promovendo, na verdade, um grande efeito colateral: os mornos estão se esquentando, e aqueles que há muito tempo não defendiam com brios a fé e a disciplina da Igreja estão reagindo.

Bispos se levantando para defender a fé a custa de seus cargos e posições pessoais é coisa que não se via há muito tempo!!!! Cabeças rolando por todos os lados…, mas cabeças não vendidas!

Fingindo usar a estratégia da colegialidade, no final das contas, Bergoglio precisa cada vez mais deixar em evidência o seu absolutismo. Aquelas suas palavras conclusivas do sínodo dos bispos são cada vez menos “casuais”:

“O Papa não é o senhor supremo mas, ao contrário, o supremo servidor — o ‘servus servorum Dei’; o garante da obediência e da conformidade da Igreja com a vontade de Deus, o Evangelho de Cristo e a Tradição da Igreja, pondo de lado qualquer arbítrio pessoal, embora seja — por vontade do próprio Cristo — o ‘supremo Pastor e Doutor de todos os fiéis’ (cân. 749), e goze ‘na Igreja de poder ordinário, supremo, pleno, imediato e universal’ (cf. cânn. 331-334)”.

Não é que o “bispo de Roma” resolveu, de repente, mostrar que é “Papa”?… “Suspeitei desde o princípio!”.

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10 novembro, 2014

Dez dicas para sobreviver a um Papa calamitoso e continuar sendo católico.

Por Francisco José Soler Gil | Tradução: Alexandre Semedo – Fratres in Unum.com: Ah, mas … pode um católico pensar que um Papa é calamitoso? Claro que sim. Mas, então, um bom católico não deve acreditar que é o Espírito Santo que está por trás da escolha do Papa? Obviamente que não. Basta recordar a resposta que o então Cardeal Ratzinger deu a um seu entrevistador, Professor Augsto Everding, em uma famosa entrevista em 1997. Professor Everding tinha perguntado ao Cardeal se ele realmente acreditava que o Espírito Santo está envolvido em a eleição do Papa. A resposta de Ratzinger foi simples e esclarecedora, como de costume: “Eu diria que não no sentido de que o Espírito Santo escolha, em cada caso, o papa, uma vez que há muitas evidências contra isso, e vários Papas que evidentemente o Espírito Santo não teria escolhido. Mas diria que Ele, como um todo, não deixa as coisas inteiramente ao léo e, que, por assim dizer, como um bom professor, ainda que nos dê muita corda, deixando-nos muita liberdade, não permite que a corda se rompa completamente. Por isso, deve-se entender este assunto em um sentido muito mais amplo; não é que Ele diga (aos cardeais), ‘agora você tem que votar neste aqui’. Mas, possivelmente, Ele só permite (que se eleja) alguém que não destrua todo o edifício.”

Agora, ainda que um católico dê por certo que nenhum papa possa acabar destruindo toda a Igreja, a história mostra que, em termos de pontífices, houve de tudo: bons, regulares, ruins e solenemente maus, ou calamitosos.

Quando é que podemos dizer que um Papa é calamitoso? Certamente não basta para tanto que ele sustente falsos pontos de vista sobre tais e tais temas. O Papa, como qualquer outro homem, necessariamente, ignora muitos assuntos, e possui convicções errôneas em muitos outros. E por isso, pode ser que um Papa aficcionado em falar sobre filatelia ou numismática, diga asneiras sobre o valor ou a datação de certos selos ou moedas. Ao comentar sobre assuntos que não são da sua competência, é mais provável que um Papa erre do que acerte. Assim como eu e você, caro leitor. Portanto, se um Papa mostra uma propensão de tornar públicas as suas opiniões sobre pombos, ecologia, economia e astronomia, um erudito católico em tais assuntos faria bem em suportar com paciência as opiniões bizarras do Romano Pontífice sobre questões que, naturalmente, são alheias à sua cátedra. O especialista irá certamente lamentar os erros, e a falta de prudência que algumas declarações manifestam. Mas um Papa imprudente e falador não é, apenas por isto, um Papa calamitoso.

Mas pode haver um caso destes?… Bem, na verdade, já houve várias vezes na história da Igreja. Quando o Papa Libério (século IV) – o primeiro papa não canonizado – se curvou às fortes pressões arianas, aceitando uma posição ambígua sobre essa heresia e deixando em apuros os defensores do dogma trinitário como Santo Atanásio; quando o Papa Anastácio II (século V) flertou com os defensores cisma acaciano; quando o Papa João XXII (século XIV) ensinou que o acesso a Deus para os justos não acontece antes do Juízo Final; quando os papas do período conhecido como o “Grande Cisma” (entre os séculos XIV e XV) se excomungavam mutuamente; quando o Papa Leão X (século XVI) não só tinha a intenção de pagar seus luxos pessoais com a venda de indulgências, mas defendia teoricamente seu direito de fazê-lo, etc, etc.. Então, uma parte do legado da fé foi obscurecido por um longo tempo por suas ações e omissões, gerando momentos de grande tensão interna na Igreja. Os Papas responsáveis por tais atos podem ser chamados corretamente de “calamitosos”.

A questão então é o que pode ser feito em tempos de um Papa calamitoso? Que atitude deve ser adotada em tais ocasiões? Bem, uma vez que ultimamente virou moda publicar listas com dicas para a felicidade, para controlar o colesterol, para ser mais positivo, parar de fumar e perder peso, permito-me propor ao leitor também uma série de dicas para sobreviver a um Papa calamitoso e continuar católico. Desnecessário dizer que esta não é uma lista exaustiva. Mas ele pode ser útil de qualquer maneira.

Vamos começar:

(1) Manter a calma:

Em tempos de aflição, há uma tendência humana à histeria, mas ela em nada ajuda a resolver o problema. Calma! Apenas mantendo a paz é que se pode tomar decisões adequadas em cada caso, evitando palavras e atos de que você pode se arrepender mais tarde.

(2) Ler bons livros sobre a história da igreja e do papado:

Acostumados a uma série de grandes Papas, a experiência de um reinado calamitoso pode ser traumática caso não se consiga colocá-lo no contexto. Ler bons tratados de história da Igreja e do Papado ajuda a avaliar melhor a situação presente. Especialmente ao mostrar outros casos — vários, seja por desgraça seja pela própria natureza humana — em que as águas da fonte romana desciam enegrecidas. A Igreja sofre tais fraquezas, mas não afunda. Isso já aconteceu no passado e, por isso, é de se esperar que também aconteça no presente e no futuro.

(3) Não entrar em discurso apocalíptico:

Experimentando a devastação de um pontificado calamitoso, alguns a tomam como sinal do fim iminente dos tempos. Esta é uma ideia que sempre surge em tais circunstâncias: textos apocalípticos motivados por males semelhantes também podem ser lidos em autores medievais. Mas precisamente este fato deve ser um aviso. Faz pouco sentido interpretar cada tempestade como sendo a última tribulação. O fim dos tempos virá quando tiver que vir, não cabendo a nós descobrir o dia nem a hora. A nossa tarefa é combater as batalhas do nosso tempo, mas é um Outro a quem cabe a visão do todo.

(4) Não calar-se ou olhar para o lado:

Durante um pontificado calamitoso, o contrário de adotar a atitude de um profeta do Apocalipse, é adotar a atitude de minimizar os eventos, de silenciar sobre os abusos e de desviar o olhar. Alguns justificam essa atitude usando a imagem dos bons filhos que cobrem a nudez de Noé. Mas a verdade é que não há maneira de corrigir o rumo de um navio, se o desvio não é denunciado. Além disso, a Escritura tem um exemplo que calha muito mais para o caso do que o de Noé: as duras, mas justas e leais, críticas do Apóstolo Paulo ao Pontífice Pedro, quando ele se deixou levar por respeito humano. Esta cena dos Atos dos Apóstolos está lá para nos ensinar a distinguir lealdade do silêncio cúmplice. A Igreja não é um partido em que o presidente sempre recebe aplausos incondicionais. Também não é uma seita na qual o líder é saudado de qualquer maneira. O Papa não é o líder de uma seita, mas um servo do Evangelho e da Igreja; servo livre e humano e que, como tal, pode, por vezes, tomar decisões ou atitudes reprováveis. E as decisões e atitudes reprováveis devem ser reprovadas.

(5) Não generalizar:

O mau exemplo (de covardia, de carreirismo, etc.) de alguns bispos e cardeais durante um reinado calamitoso não deve levar-nos a desqualificar os bispos, os cardeais ou clero como um todo. Cada um é responsável por suas palavras e seus atos e omissões. Mas a estrutura hierárquica da Igreja foi instituída por seu Fundador e, por isso deve ser, apesar das críticas, respeitada. Também não se deve estender um protesto contra o Papa a todas as suas palavras e ações. Deve-se responder apenas àqueles casos em que ele se desvia da antiga doutrina da Igreja ou nos quais aponte para um curso que pode comprometer aspectos dela. E o julgamento sobre estes pontos não deve se fundar sobre ocorrências ou gostos particulares: o ensino da Igreja se resume em seu catecismo. No que dele um Papa se afasta, deve ser reprovado. No restante, não.

 (6) Não cooperar com as iniciativas para a glória do Papa calamitoso:

Se um Papa calamitoso pedir ajuda para atender boas obras, deve ser ouvido. Mas não se deve colaborar em outras iniciativas como, por exemplo, manifestações de massa, que apenas servem para mostrar o pontífice como popular. No caso de um Papa calamitoso, elogios não faltam. Então, inclinando-se sobre eles, poderia sentir-se apoiado para desviar ainda mais a Nave da Igreja. E não se diga que se aplaude não o papa enquanto tal, mas a Pedro. Isto porque o resultado será que os aplausos serão utilizados para os fins, não de Pedro, mas do pontífice calamitoso.

(7) Não seguir as instruções do Papa quando se desviam do legado da Igreja:

Se um papa ensinar doutrinas ou tentar impor práticas que não correspondam ao ensinamento perene da Igreja, resumido no Catecismo, não deve ser apoiado e obedecido em sua intenção. Isso significa, por exemplo, que os padres e bispos têm a obrigação de insistir na doutrina tradicional e na prática enraizada no depósito da fé, mesmo que se exponham a punições. Além disso leigos deve insistir em ensinar tais doutrinas e práticas na sua área de influência. Em qualquer caso, nem por obediência cega, nem por medo de represálias, é aceitável contribuir para a disseminação da heterodoxia ou da heteropraxis.

(8) Não apoiar financeiramente dioceses colaboracionistas:

Se um papa ensinar doutrinas ou tentar impor práticas que não correspondem ao ensinamento perene da Igreja, que é sintetizada no Catecismo, os pastores das dioceses devem atuar como um muro de contenção. Mas a história mostra que os bispos nem sempre reagem com força suficiente contra esses perigos. Além disso, às vezes, eles apóiam, seja por que razões forem, as intenções desastrosas do Pontífice. O cristão leigo que vive em uma diocese governada por um pastor destes deve retirar o apoio financeiro para a sua igreja local, enquanto a situação irregular se mantiver. Claro que isso não se aplica aos auxílios a serem dados diretamente para a caridade, mas apenas aos demais. E isso também se aplica a qualquer outro tipo de colaboração com a diocese em questão, por exemplo, em alguma forma de serviço voluntário ou institucional.

(9) Não apoiar qualquer cisma:

Diante de um Papa calamitoso, pode surgir a tentação de uma ruptura radical. Essa tentação deve ser resistida. O católico tem o dever de tentar minimizar, dentro da Igreja, os efeitos negativos de uma mau pontificado, mas sem quebrar a Igreja ou romper com ela. Isto significa que se, por exemplo, sua resistência em adotar determinadas teses ou práticas impliquem pena de excomunhão, não deve por isto incentivar um novo cisma, ou apoiar qualquer um dos já existentes. Temos que nos manter, com paciência, como católicos, em todas as circunstâncias.

 (10) Rezar:

A permanência e a salvação da Igreja não dependem, em última instância, de nós, mas dAquele que a desejou e que a fundou para o nosso bem. Em tempos de aflição, devemos rezar, rezar e rezar para que o Senhor acorde e acalme a tempestade. Este conselho foi colocado por último, não por ser o menor, mas por ser o mais importante de todos. Pois, ao final das contas, tudo se resume a realmente acreditar que a Igreja é sustentada por um Deus que a ama e que não a vai deixará ser destruída. Por isso, peçam pela conversão dos pontífices ruins, e peçam para que pontificados calamitosos sejam sucedidos por outros de paz e de restauração. Muitos ramos secos terão se quebrado durante a tempestade, mas os que se mantiveram unidos a Cristo florescerão novamente. Esperemos que isto também possa ser dito de nós.

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10 novembro, 2014

Entrevista completa do Cardeal Burke à revista espanhola Vida Nueva: “Muitos têm a impressão que a barca da Igreja perdeu sua bússola”.

Fonte: Rorate-Caeli | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com

A entrevista do Cardeal Burke ao semanário católico espanhol Vida Nueva tornou-se bem conhecida devido à expressão “um barco sem leme”, porém, retirada de seu contexto. Abaixo, você encontrará a tradução completa da entrevista (agradecemos aos parceiros do Rorate em língua espanhola em Adelante la Fe – Rorate en Español por nos fornecer o texto original)

Entrevista

Raymond Leo Burke

 “Muitos têm a impressão que a barca da Igreja perdeu sua bússola”

O cardeal americano Raymond Leo Burke é considerado um dos representantes do setor da Cúria mais resistente a mudanças, uma vez que ele demonstra considerar o momento atual como “crítico”, em que para “muitos” a Igreja está navegando “como um barco sem leme.” Contrário às testes do cardeal Walter Kasper sobre a admissão de divorciados recasados aos sacramentos – “o matrimônio é indissolúvel. Se eu me caso com alguém, não posso viver com outra pessoa” – ele chama o homossexualismo de “sofrimento” e considera que houve a intenção de conduzir o Sínodo sobre a Família em direção à posição de relaxamento. Ele denunciou até mesmo a “manipulação” feita com as informações que eram liberadas pela assembleia sinodal, ao mesmo em tempo que lamenta a “confusão” e as “dificuldades pastorais” causadas pelo debate sobre esses temas polêmicos. Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, a Suprema Corte do Vaticano, ele dá como certa sua transferência para o cargo de cardeal patrono da Ordem de Malta, um trabalho honorífico sem qualquer conteúdo.

Que sensação o senhor teve a respeito do Sínodo? Houve algum confronto?

Houve uma discussão forte e aberta. Antes, as intervenções dos Padres Sinodais eram sempre publicadas, mas agora não são mais. Todas as informações chegavam dos resumos do Pe. Lombardi e das conferências que ele organizava com a imprensa. Esses resumos me surpreenderam, pois não refletiam bem o conteúdo das discussões e davam a impressão de que tudo estava se movendo em favor da posição exposta pelo cardeal Kasper.

O choque real aconteceu com relação à Relatio post disceptationem [o resumo das intervenções da primeira semana do Sínodo]. Ela parecia um manifesto para alterar a disciplina da Igreja com relação às uniões irregulares. Ela oferecia uma abertura maior aos casais que coabitam sem o sacramento do matrimônio e às pessoas que sofrem com a condição homossexual.

Os demais Padres Sinodais partilham da sua rejeição?

Sem dúvida. Todos do meu Círculo Menor ficamos espantados. Passamos muito tempo para fundamentar o documento final nas Sagradas Escrituras e no Magistério. Era preciso corrigir os erros: por exemplo, aquele erro que dizia que elementos positivos podem ser encontrados em atos pecaminosos, como a coabitação, o adultério ou atos sexuais entre pessoas que sofrem da condição homossexual. Essa confusão era muito grave. Esforçamo-nos para que ressurgisse a beleza do estado matrimonial como união indissolúvel, fiel e destinada à procriação por Deus. Em face às situações difíceis, distinguimos entre o amor ao pecador e o ódio ao pecado. Nós, os moderadores e relatores dos Círculos Menores, pedimos que os nossos trabalhos fossem publicados. Até então, o público não sabia o que pensávamos. Tudo estava controlado e manipulado, se posso dizer assim.

GRANDES DIFICULDADES PASTORAIS

Havia uma intenção de conduzir o Sínodo em uma direção?

Sim. A partir do momento em que o Cardeal Kasper começou a apresentar a opinião dele [Nota do Rorate: no consistório de fevereiro], uma parte da imprensa interpretou que a Igreja tinha a intenção de mudar a sua disciplina. Isso gerou graves dificuldades pastorais. Muitos bispos e padres me contataram dizendo que pessoas em uniões irregulares iam às suas paróquias querendo receber os sacramentos. Eles diziam que o Papa queria isso. Não estamos falando de uma questão pequena, mas de uma questão fundamental. O pilar da Igreja é o matrimônio. Se não ensinarmos e vivermos bem a verdade, estamos perdidos. Deixamos de ser a Igreja. No Sínodo, os ensinamentos da Igreja e a posição que os contradiz não podem ser colocados no mesmo nível.

Será que a verdade sobre o matrimônio não é mais ensinada corretamente?

Há uma grande confusão sobre a indissolubilidade. Se a pessoa vive um relacionamento de adultério público, como é possível abordar a confissão com a resolução de não pecar mais? Como é possível receber a comunhão sem escandalizar a comunidade? Um dos pecados mais graves está sendo vivido publicamente.

O senhor não acha que é possível o caminho penitencial proposto por Kasper, de maneira que alguns divorciados recasados recebam os sacramentos?

Nesse caminho penitencial, as partes devem viver castamente. Se elas não puderem se separar, precisam viver como irmão e irmã. Essa é uma prática antiga. Eles falam da lei da gradualidade, mas a verdade não é gradual. Ela é objetiva. O matrimônio é indissolúvel. Se eu me caso com alguém, eu não posso viver com outra pessoa.

Outro tema candente é o dos homossexuais. O senhor os mencionou antes como “pessoas que sofrem da condição homossexual”. O senhor vê essa condição como enfermidade?

É um sofrimento. Deus não nos criou para que o homem esteja com [outro] homem e mulher com [outra] mulher. Isso fica claro a partir de nossa própria natureza. Fomos feitos para a união heterossexual, para o matrimônio. Recuso-me a falar de pessoas homossexuais, porque ninguém se identifica por essa tendência. Trata-se de uma pessoa que tem essa tendência, que é um sofrimento.

O que o senhor achou quando o Papa disse: “quem sou eu para julgar uma pessoa gay?”

Ele disse que não pode julgar a pessoa diante de Deus, seja qual for a sua culpabilidade. Porém, os atos em si devem ser julgados; não creio que o Papa pense de maneira diferente. Esses atos são pecaminosos e antinaturais. O Papa nunca disse que podemos encontrar elementos positivos neles. É impossível encontrar elementos positivos em um ato mau.

Francisco falou em sua mensagem final ao Sínodo de uma “rigidez hostil” e lamentou que algumas pessoas se fechem “dentro daquilo que está escrito” sem permitir-se ser “surpreendido por Deus”. Como o senhor interpreta as palavras dele?

É difícil. Elas podem ser interpretadas no sentido de que a doutrina e a disciplina são opostas à ação do Espírito Santo. Essa não é a maneira católica de pensar. A doutrina e a disciplina são condições para um encontro verdadeiro com Cristo. Tenho ouvido muitas pessoas dizerem que o Papa não quer insistir acerca da disciplina ou da doutrina. Essa não é a interpretação adequada das suas palavras.

Alguns fiéis estão preocupados com o rumo que a Igreja tomou. O que o senhor lhes diz?

Muitos me manifestaram essa preocupação. Em um momento tão delicado, em que existe um forte sentimento de que a Igreja está como um navio desgovernado, a razão não importa; é mais importante do que nunca estudar a nossa fé, ter orientação espiritual sã e dar um forte testemunho da fé. Algumas pessoas me dizem, por exemplo, que participar do movimento pró-vida não é mais importante. Eu lhes digo que essa participação é mais importante do que nunca.

O senhor acha que a Igreja está em um momento em que parece que não há ninguém no comando?

Tenho todo o respeito pelo Ministério Petrino, e não quero que isso dê a impressão que sou uma voz dissonante do Papa. Gostaria de ser um mestre da fé, com todas as minhas fraquezas, dizendo a verdade percebida por muitos hoje em dia. Eles se sentem um pouco enjoados, porque parece que o barco da Igreja perdeu sua bússola. A causa dessa desorientação deve ser deixada de lado. Temos a tradição constante da Igreja, os ensinamentos, a liturgia, a moral. O catecismo não muda.

ENCONTRO COM A CULTURA

Como esse pontificado se caracteriza?

O Papa, corretamente, fala da necessidade de ir às periferias. A resposta das pessoas tem sido muito calorosa. Mas não podemos ir às periferias de mãos vazias. Vamos com a Palavra de Cristo, com os sacramentos, com a vida virtuosa do Espírito Santo. Não digo que o Papa esteja fazendo isso, mas existe o risco de deturpar o encontro com a cultura [predominante]. A fé não pode se acomodar com a cultura, mas sim chamá-la à conversão. Somos um movimento contracultural, não um movimento popular.

O senhor disse que a Evangelii Gaudium não faz parte do Magistério. Por quê?

O próprio Papa diz no início do documento que ele não é magisterial, que ele somente oferece indicações da direção em que ele levará a Igreja.

Será que o católico médio faz essa distinção?

Não. Por isso, está faltando uma apresentação cuidadosa aos fiéis, explicando a natureza e o peso do documento. Há afirmações na Evangelii Gaudium que expressam o pensamento do Papa. Nós as recebemos com respeito, mas elas não ensinam uma doutrina oficial.

Vida Nueva

1-7 de novembro de 2014 edição (páginas 38-39)

 Texto: Darío Menor, Roma

5 novembro, 2014

Toni Negri no Vaticano, mas aos demitidos ninguém dá ouvidos.

Por Sandro Magister | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: Uma coisa é a doutrina social da Igreja. Porém, outra coisa é colocá-la em prática. Existe a afirmação apodítica do direito ao trabalho. Mas, logo em seguida se impõem decisões que dificultam o trabalho, mesmo quando santamente motivadas.

Nesses dias o Papa Francisco se encontra no centro dessas contradições.

A teoria, ele expôs naquele que está sendo considerado como o manifesto da sua doutrina social: o discurso de 28 de outubro aos participantes do encontro mundial de “movimentos populares“.

Mas, ao mesmo tempo estão batendo à porta do Papa – até agora sem sucesso – os quinhentos funcionários que perderam o trabalho porque foram demitidos da Esmolaria Apostólica, ou seja;  o Departamento da Santa Sé que tem a função de exercer a caridade para com os pobres em nome do Sumo Pontífice.

Aplaudindo o discurso de Francisco aos “movimentos populares” estava o centro social Leoncavallo, de Milão, como representante da Itália. E no jornal comunista “Il Manifesto“, Guido Viale  tributou ao papa um consentimento entusiasmado.

Mas o que mais nos chama atenção sobre esse discurso é a sua impressionante semelhança com as teorias sustentadas pelo filósofo Toni Negri e seu discípulo Michael Hardt em um livro de 2002 que marcou época: “Império”.

Tanto em seu discurso como no livro, a verdadeira soberania mundial é identificada por um “império” transnacional do dinheiro, que se baseia em um sistema permanente de desapropriação e destruição de homens e de coisas, e que adota como instrumento de regulamento a guerra, uma guerra não do tipo clássica, mas assimétrica, global, exatamente como explicou o Papa:

“Estamos vivendo a terceira guerra mundial, mas aos pedaços. Existem sistemas econômicos que para sobreviver devem fazer guerra. Então se fabricam e se vendem armas e assim o balanço das economias que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro são obviamente sanados. “

De frente a esse “império” se levanta aquilo que Toni Negri chama de “multidão”. Não mais a classe operária que trabalhava para a Ford, o trabalhador em massa que era precioso à primeira fase proletária do seu pensamento, mas sim inumeráveis e multiformes redes sociais que se rebelam contra a dominação global. Para o Papa Francisco esta, “multidão” são precisamente os “movimentos populares” compostos por “catadores de lixo, recicladores, vendedores ambulantes, alfaiates, artesãos, pescadores, agricultores, trabalhadores da construção, mineiros, trabalhadores de empresas recuperadas, membros de cooperativas de todos os tipos e pessoas que desenvolvem os trabalhos mais corriqueiros. “

A todos esses, o papa disse com emoção: “Tenham os pés na lama e as mãos na carne. Cheiro do bairro, de povo, de luta. “

Não à cidade-vitrine do Império, mas as sim às “periferias” que são para Francisco o lugar de florescimento natural das virtudes redentoras: “Nos bairros populares onde muitos de vocês vivem, subsistem valores que foram esquecidos nos centros mais enriquecidos. Esses assentamentos são abençoados com uma rica cultura popular, o espaço público não é um mero local de trânsito, mas uma extensão da sua própria casa, um lugar para se criar laços com a vizinhança”.

A partir deste “subsolo do planeta” – diz ainda Francesco – “jorra a torrente de energia moral que nasce do envolvimento dos excluídos na construção do destino comum”.

E é a esses excluídos que o papa confia o futuro da humanidade feita de terra, casa, trabalho para todos. Graças a um processo de ascensão ao poder por parte desses grupos que “transcende os procedimentos lógicos da democracia formal.”

Ouvindo o discurso do Papa estavam numerosos grupos da América Latina, entre os quais se destacava o presidente da Bolívia, Evo Morales como o líder dos “cocaleiros”.

Curiosamente, a universidade na qual o octogenário Toni Negri atualmente leciona está justamente na Argentina: é a Faculdade Livre de Rosario, Santa Fé.

* * *

Mas, se da poesia se passa à prosa, eis o protesto dos quinhentos funcionários da Esmolaria Apostólica recentemente demitidos pelo papa.

Trata-se de calígrafos, pintores, impressores, artesãos que a partir do dia 1 de janeiro de 2015 deixarão de produzir em nome do Vaticano os históricos pergaminhos para as bênçãos apostólicas “ad personam” reservados e vendidos nas livrarias e lojas convencionais, cujos rendimentos beneficiam a Esmolaria Apostólica por suas doações para caridade. (Note-se que a concessão da Bênção Papal é completamente gratuita e que os custos se referem unicamente ao pergaminho e aos gastos para a sua preparação e expedição, assim como de um contributo para o exercício da caridade Papal. Todas as entradas que chegam à Esmolaria Apostólica como contribuição para a emissão de diplomas de Bênçãos são inteiramente destinados à caridade que este Departamento exerce para com os desvalidos que todos os dias, nas suas necessidades, estendem as mãos pedindo adjutório ao Sucessor de Pedro.)

A partir do próximo ano, no entanto, a Esmolaria proverá por sua própria conta, com outros calígrafos e artesãos, a fabricação e venda dos pergaminhos, seja diretamente, através da internet ou através de nunciaturas em todo o mundo.

A notícia da iminente rescisão do contrato de cerca de quinhentos empregados para esse serviço foi dada pelo Esmoler de Sua Santidade: Exmo. Sr. Dom Konrad Krajewski, braço direito do Papa Francisco, em uma carta circular datada de 12 de abril de 2014.

No dia 29 de junho, os quinhentos trabalhadores enviaram uma carta ao Papa na qual suplicavam para que ele não “jogasse na pobreza econômica e na insegurança várias centenas de famílias.”

E concluíam:

“Nós colocamos o nosso futuro em suas santas mãos e nossa súplica para que revogue essa decisão, que diminuiria em muito a caridade realizada ao longo dos anos pela esmolaria apostólica e ainda hoje, através do trabalho dado a tantas pessoas.”

Já se passaram mais de quatro meses e até agora nenhuma resposta do Papa a essa súplica.

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1 novembro, 2014

Judas, pobrezinho.

Estejamos dentro da Igreja, não fiquemos na recepção – o Papa em Santa Marta

Rádio Vaticano – Na missa de terça-feira, dia 28 de outubro na Capela da Casa de Santa Marta o Papa Francisco exortou os cristãos a estarem dentro da Igreja e a não ficarem na entrada ou na receção. A Cristo interessa amar e curar os corações e não medir os pecados – afirmou o Papa Francisco refletindo sobre o Evangelho do dia que nos conta o nascimento da Igreja com o chamamento dos Apóstolos:

“Jesus reza, Jesus chama, Jesus escolhe, Jesus envia os discípulos, Jesus cura a multidão. Dentro deste templo, este Jesus que é a pedra angular faz todo este trabalho: é Ele que leva em frente a Igreja assim. Como dizia Paulo, esta Igreja está edificada sobre os fundamentos dos Apóstolos. Este que Ele escolheu, aqui: escolheu doze. Todos pecadores. Todos. Judas não era o mais pecador, não sei quem era… Judas pobrezinho, é aquele que se fechou ao amor e por isso se tornou traidor. Mas todos escaparam no momento difícil da Paixão e deixaram só Jesus. Todos são pecadores. Mas Ele escolheu.”

Jesus não nos quer dentro da Igreja como hóspedes ou estrangeiros mas com o direito de um cidadão.– disse ainda o Santo Padre, citando S. Paulo. Na Igreja não estamos de passagem, estamos radicados nela. A nossa vida está ali – afirmou o Papa Francisco:

“Nós somos cidadãos, concidadãos desta Igreja. Se nós não entrarmos neste templo e fizermos parte desta construção, para que o Espírito Santo habite em nós, nós não estaremos na Igreja. Nós estamos na porta e olhamos: ‘Que bonito… sim, isto é belo…’. Cristãos que não ultrapassam a recepção da Igreja; estão ali, na porta… ‘Mas sim, sou católico, mas não muito”.

O Papa Francisco concluiu a sua homilia realçando o valor da oração para o curar o pecado em cada um de nós:

“Jesus não se importou com o pecado de Pedro: buscava o coração. Mas para encontrar esse coração e para curá-lo, rezou. Jesus que reza e Jesus que cura, também por cada um de nós. Não podemos entender a Igreja sem este Jesus que reza e este Jesus que cura. Que o Espírito Santo nos faça entender, a todos nós, esta Igreja que tem a sua força na oração de Jesus por nós e que é capaz de curar a todos nós”. (RS

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31 outubro, 2014

Francisco: o diabo não é um mito, é preciso combatê-lo com a verdade.

Cidade do Vaticano (RV) - A vida cristã é uma “luta” contra o demônio, o mundo e as paixões da carne. Foi o que afirmou o Papa na Missa presidida esta manhã na Casa Santa Marta.

Na homilia, Francisco comentou as palavras de São Paulo que, dirigindo-se aos Efésios, “fala da vida cristã numa linguagem militar”. O Pontífice destacou que “a vida de Deus deve ser defendida, se deve lutar para levá-la avante”. Portanto, são necessários força e coragem “para resistir e para anunciar”.Para prosseguir na vida espiritual – reafirmou – é preciso lutar. Não se trata de um simples confronto, mas de uma luta contínua. Francisco identificou três inimigos da vida cristã: “o demônio, o mundo e a carne”, ou seja, as nossas paixões, “que são as feridas do pecado original”. Certamente, observou, “a salvação que Jesus nos dá é gratuita”, mas somos chamados a defendê-la:

“Do que me devo defender? Que devo fazer? ‘Revestir-nos da armadura de Deus’, nos diz Paulo, ou seja, aquilo que é de Deus nos defende para resistir às insídias do diabo. Não se pode pensar numa vida espiritual, numa vida cristã, sem resistir às tentações, sem lutar contra o diabo, sem vestir esta armadura de Deus que nos dá força e nos protege.”

São Paulo, prosseguiu o Papa, destaca que “a nossa batalha” não é contra pequenas coisas, “mas contra os principados e as potências, isto é, contra o diabo e seus aliados”.

“Mas, esta geração – e tantas outras – nos fez acreditar que o diabo fosse um mito, uma figura, uma ideia, a ideia do mal. Mas o diabo existe e nós devemos lutar contra ele. É o que diz Paulo, não eu! É a Palavra de Deus. Mas nós não estamos muito convencidos. E depois Paulo nos diz como é esta armadura de Deus, quais são os diversos tipos de armaduras, que formam esta grande armadura de Deus. E ele diz: ‘Sejais firmes e cingi os vossos rins com a verdade’. Esta é a armadura de Deus: a verdade.”

“O diabo – disse – é o mentiroso, é o pai dos mentirosos, o pai da mentira.” E com São Paulo, reiterou que é preciso cingir os nossos rins com a verdade, revestir-nos da couraça da justiça. “Não se pode ser cristãos sem trabalhar continuamente para ser justos. Não se pode”. Uma coisa que nos ajudaria muito, disse, seria nos perguntar se ‘acredito ou não?’. Ou acredito mais ou menos? E evidenciou que “sem fé não se pode prosseguir, não se pode defender a salvação de Jesus”. Precisamos “deste escudo da fé”, porque “o diabo não nos lança flores”, mas “flechas em chamas” para nos matar. Francisco então exortou a tomar o capacete da salvação e a espada do Espírito e a vigiar “com orações e súplicas”:

“A vida é uma milícia. A vida cristã é uma luta, uma luta belíssima, porque quando o Senhor vence em cada passo da nossa vida, nos dá uma alegria, uma felicidade grande: aquela alegria que o Senhor venceu em nós, com a sua gratuidade de salvação. Mas sim, somos um pouco preguiçosos na luta e nos deixamos levar avante pelas paixões, por algumas tentações. Isso porque somos todos pecadores. Mas não devemos nos desencorajar. Coragem e força, porque o Senhor está conosco”.
(BF)

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