Posts tagged ‘O Papa’

1 julho, 2015

Roma: a era do vazio.

Por Padre Pio Pace – Rorate Caeli | Tradução: FratresInUnum.comO mundo todo pôde ver em suas telas, na viagem papal recente para Saraievo, que a cruz pontifical, que havia quebrado, foi remendada com esparadrapo: “Um símbolo completo!”, disseram, com ironia, os prelados em torno do pontífice. Sim, um símbolo completo. A Igreja de Pedro, no século XXI, aguarda uma encíclica… sobre o meio ambiente. É mau que uma ou duas pessoas estejam sós em um carro porque isso aumenta a quantidade de gases de efeito estufa, assim disse o Magistério da Santa Igreja Católica…

O título que dei a este artigo veio do ensaio A Era do Vazio (em italiano, L’era del vuoto, Luni, 1995), o qual foi escrito, aliás, com um objetivo completamente diferente do meu, pelo pensador francês Gilles Lipovetski. Mas, parece-me expressar bem a impressão mais ou menos compartilhada por todos hoje sobre o atual pontífice, agora que o impressionante “estado de graça” do qual ele gozou por um tempo diminuiu e as massas nas audiências gerais de quarta-feira voltaram aos níveis normais.

Um artigo de Julius Müller-Meininger, no Die Zeit (o jornal de Helmuth Schmidt, que é algo como o nosso Reppublica, só que do Reno), de 30 de abril de 2015, Jetzt hat es auch ihn erwischt, expressa bem o que os jornalistas que eram mais favoráveis a Francisco sentem agora: “O que ele quer, afinal de contas?” Müller-Meininger, que cruelmente ressalta, aliás, que a inconsistência das afirmações pontifícias são cada vez mais abertamente zombadas (“Estar doente é ter uma experiência da nossa fragilidade”), explica porque a mídia está inquieta com relação ao papa. Ele cita o ativista transsexual Vladimir Luxuria: “Eu não o entendo. Ele segue agora uma política da cenoura na vara. Primeiro, as palavras são de abertura e, depois, um ataque contra a ideologia de gênero. Francisco é um impasse. Estou desapontado.”

O impasse é o de uma abertura moral, num sentido liberal ao qual se deve, ao final, ou satisfazer ou negar. A questão que preocupa particularmente Müller-Meiningen é a da proposta feita pelo governo francês de nomear Laurent Stéfanini embaixador para a Santa Sé. Alguém que é muito competente em questões religiosas, um católico praticante, mas um homossexual. Assim como outros embaixadores perante a Santa Sé e membros do próprio corpo diplomático da Santa Sé… exceto pelo fato de que Stéfanini não vive escandalosamente como casal. Ele apenas é conhecido por ter más tendências nas quais – só seu confessor pode dizer, e nunca o fará – ele, às vezes, talvez caia.

Contudo, contra seus assessores na Secretaria de Estado, que observaram que há embaixadores muçulmanos ou comunistas perante a Santa Sé, ou ainda, freqüentadores de diversões sensuais, etc., e que mesmo assim foram aceitos como embaixadores, Francisco decidiu, por sua própria conta, que Stéfanini não receberia o aval da Sé Apostólica. É sem dúvida sua animosidade contra François Hollande, que se equipara à que ele tem por Cristina Kirchner, presidente da Argentina, que explica essa tirada de autoritarismo, típica dele: está convencido que François Hollande nomeou Stéfanini por provocação anticlerical – o que não é impossível. Mas, no mesmo momento em que tem esse ataque de “rigorismo”, Francisco retirou a suspensão da ajuda dada pela Santa Sé à UNICEF, uma suspensão decidida por João Paulo II devido às fortes campanhas em favor da contracepção organizadas ou financiadas pela UNICEF.

É verdade que o bispo Marcelo Sanchez Sorondo, Chanceler da Academia Pontifícia de Ciências Sociais e a mente por trás dessa reaproximação com a UNICEF, é um dos amigos do Papa – o que, na Roma de hoje, que se tronou uma corte mais do nunca, permite todas as coisas e acoberta todos os pecados. Também um amigo do Papa, o secretário da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica, o franciscano José Rodriguez Carballo, que era superior dos Franciscanos de 2003 a 2013, tempo durante o qual questões financeiras impressionantes levaram a Ordem à beira da falência. Também um amigo do Papa, Monsenhor Battista Ricca, a cargo de todas as grandes casas sacerdotais em Roma (via della Scroffa, via della Traspontina, Casa Santa Marta…), nomeado prelado do Banco Vaticano, e que fez uma reputação escandalosa como diplomata no Uruguai. Também um amigo do Papa, o Arcebispo Vincenzo Paglia, presidente do Conselho para a Família, que esteve sob investigação policial por conspiração criminal, obstrução e fraude contra o município de Narni, improbidade administrativa e desvio durante o tempo em que era bispo de Terni. “Quem sou eu para julgar?”

O ponto mais incômodo disso tudo é que não se pode ver uma linha clara de governo. Tem-se a impressão de ensaios – para não dizer teimosia – de um homem que, apesar de sua idade, exerce sua autoridade com paixão, emitindo decisões para todas as direções. Como explicar, por exemplo, o tom aparentemente positivo para com a Fraternidade São Pio X e, por outro lado, o não para os Franciscanos da Imaculada? A atividade é barulhenta e ainda assim confusa; e os grandes pronunciamentos acabam morrendo na praia: ninguém mais acredita numa verdadeira reforma da Cúria, considerando a maneira totalmente ineficiente pela qual o grupo de nove cardeais encarregados trabalha. E com mais razão ainda quando ouvimos o seu presidente, o indescritível cardeal Maradiaga, anunciar, por exemplo, que todas as cortes da Sé Apostólica podem ser unidas em um único corpo…

Sob essas condições, o Sínodo de Outubro poderia parecer como uma Epifania… de vazio. É bem provável que Francisco já tenha descoberto que as teses das quais o Cardeal Kasper fora um dos maiores defensores não podem levar a uma modificação da doutrina da Igreja sem provocar divisões significativas. Alguns acham que ele acreditava, a seu modo teológico impressionista, que fórmulas poderiam ser encontradas, as quais poderiam abrir a porta para uma permissão, em certo número de casos, para que pessoas divorciadas e recasadas acedessem aos Sacramentos da Igreja, usando de misericórida versus “rigorismo”, “pastoralidade” versus dogma.

Mas é muito mais provável que o Papa tenha calculado precisamente, desde o início, o que ele deveria essencialmente esperar dessa imensa empreitada: barulho, muito barulho, uma quantidade imensa de barulho. Muito barulho para nada. Porque, se o Sínodo pura e simplesmente confirmar a doutrina tradicional da Igreja, a imagem de um pontificado que levaria a grandes mudanças irá colapsar. Se, ao contrário, o sínodo agradar os Kasperianos, irá provocar um non possumus da parte de um número considerável de cardeais e bispos. Assim, teríamos duas assembléias do Sínodo dos Bispos, uma considerável massa de literatura eclesiástica, de declarações, de pronunciamentos de imprensa em todos os sentidos, um burburinho não visto desde o último Concílio – tudo para nada. Para nada? Exceto que o ensinamento da Igreja em nome do Evangelho é deixado praticamente em silêncio.  Exceto em que o rebanho é deixado desorientado: em campo, os padres que desejarem, darão os Sacramentos calmamente para adúlteros e casais homossexuais e até os abençoarão na igreja.

Podemos, assim, falar de um pontificado de revelação, de consecução. 2015 é o ano do jubileu do Concílio, que terminou em 1965. Já percebeu que não mencionamos mais o Concílio em Roma? Sem dúvida é porque, 50 anos depois, o Concílio Vaticano II foi agora plenamente realizado, encarnado.

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18 junho, 2015

Carta da Terra é mencionada em Laudato Si’.

Por Hermes Rodrigues Nery | FratresInUnum.com

Sabendo que “os postulados agnósticos e panteístas da Carta da Terra seriam a base da nova sociedade” reengenheirada, causa realmente preocupação o fato da própria menção da Carta da Terra na encíclica ecológica de Francisco.

Por que Laudato Sii se tornou uma encíclica tão aguardada, causando também apreensão? Talvez só mesmo, no passado recente, a Humanae Vitae tenha suscitado tanta expectativa. E evidentemente se decepcionaram os que esperavam na encíclica de Paulo VI uma flexbilização da moral católica, para atender os que queriam mudanças.

Mas “no mundo de hoje, sujeito a rápidas transformações e sacudido por questões de grande relevo para a vida da fé”, como escreveu Bento XVI em sua carta de renúncia, os católicos são desafiados pelo estilo Francisco, até o momento inclassificável, sem que se saiba, exatamente, que revolução espera fazer Mário Jorge Bergoglio. A jornalista argentina Elizabetta Piqué, biografa do Papa, diz em seu “Francisco, vida e revolução”, que, “apesar dos ínfimos grupelhos que resistem”, Francisco está determinado a “consolidar e aprofundar essa revolução de forma e de conteúdo em andamento para reformar a Igreja”; Francisco parece ansioso por “uma nova fase na recepção e atualização do Concílio Vaticano II até agora não cumpridas”.

Muitos católicos continuam apreensivos em meio a algumas de suas declarações, ambíguas às vezes, e algumas até desconcertantes, como quando insinuou ou deu a entender como ideal o número de três filhos apenas por casal, para que não precisem procriar como coelhos.

Com o seu hiperativismo incomum, o Papa chega a comover em ocasiões quando, por exemplo, desejoso de repetir o gesto de São Francisco beijando o leproso, abraçou o homem desfigurado, com neurofibromatose. Mas, muitas vezes  traz “um balde de água fria” nos setores mais conservadores. Parece não se incomodar em receber João Pedro Stédile, Jeffrey Sachs, o próprio Gustavo Gutierrez, sem parecer se preocupar com o que significam essas presenças no Vaticano, sabendo das ideologias e forças que representam. Foi direto em declarar ao Padre Spadaro, da La Civiltà Cattolica: “nunca fui de direita!” E como afirmou Piqué: “Não é uma pessoa que negocie. Ele vai levar até o fim no que enxerga e sente ser o que Deus lhe pede!”, a começar pelo nome que escolheu: “Francisco, uma revolução.”

Um programa de Boff exposto em 1986

No capítulo XI do livro de Leonardo Boff, “E a Igreja se fez Povo” (1986), intitulado “São Francisco, patrono da opção pelos pobres”, emerge todo o programa colocado hoje em execução pelo grupo capitaneado pelo Cardeal Maradiaga, estimulado por Francisco. “Não bastam mais as soluções tradicionais, derivadas da fé cristã – diz Boff – socorrer paternalisticamente o pobre Lázaro e fazer do rico epulão um bom rico. Importa ir além das reformas sociais, embora estas devam sempre ser cobradas; urge caminhar na direção da libertação deste tipo de sociedade em vista de uma sociedade mais circular e igualitária”. Boff reconhece naquele capítulo XI que “as comunidades eclesiais de base ajudaram a grande Igreja e a vida religiosa, também franciscana, a deslocar-se do centro para a periferia“. Diz que foi Dom Hélder Câmara quem considerou São Francisco “o patrono da opção preferencial da Igreja pelos pobres”. O programa de Boff, exposto naquele texto, parece ressurgir em Bergoglio que “denuncia o capitalismo selvagem” – como ressalta Piqué –  tom esse que reaparece agora em sua encíclica ecológica.

Para executar o programa de Francisco, já delineado por Boff em 1986, seria preciso mais do que uma revolução social, mas uma mudança profunda de paradigma – ético e religioso –  expresso, por exemplo, no ecologismo, que o próprio Boff passou a difundir, com o eufemismo da “ética do cuidado”, principalmente a partir das grandes conferências internacionais promovidas pela ONU, nos anos 90.

É evidente que tudo isso preocupa, porque o Papa Bergoglio parece mesmo disposto a permitir a execução daquele programa. A mesma “ética do cuidado”, que aparece no subtítulo da Encíclica, é mencionada sutilmente em sua homilia inaugural. Seriam suas palavras e gestos, manifestadas até agora em seu pontificado, uma simpatia pela utopia revolucionária de Leonardo Boff? A encíclica ecológica tem a ver com essa simpatia? Até que ponto Bergoglio está comprometido – consciente ou inconscientemente – com o que Boff, Stédile, Sachs ou Gutierrez desejam? Certamente a encíclica sinaliza o grau desse comprometimento.

O paradigma da Carta da Terra

A “ética do cuidado” de Boff, na verdade, oculta as intenções de “um projeto de poder global, um projeto de poder totalitário” elaborado pela ONU, como tão bem explica monsenhor Juan Cláudio Sanahuja, dizendo que os projetos de reengenharia social, a partir das conferências internacionais, “se põem em marcha na tentativa de construir uma nova sociedade com bases totalmente diferentes das que conhecemos, tratando de neutralizar e anular lenta e discretamente toda visão transcendente do homem para substitui-la por um novo sistema de valores”. Nesta tentativa, “se enquadram projetos como o da Carta da Terra, o ‘novo paradigma ético da Nova Era’, e o da Ética Planetária de Hans Kung, que visa ‘dar sustentação ética à Nova Ordem Mundial’”.

Sanahuja ainda ressalta que “a legítima preocupação com o meio ambiente, que faz parte da doutrina católica – expressa, entre muitos outros documentos, nas Encíclicas Sollicitudo Rei Socialis e Centesimus Annus, nada tem a ver com o paradigma ecologista da nova ética ou religião universal, no qual se entrelaçam o relativismo moral, o sincretismo religioso e o panteísmo”, contidos na Carta da Terra. E que “o disfarce espiritualista do ecologismo permite que aquilo que para alguns pode parecer um espaço de diálogo inter-religioso responda, na verdade, à tentativa de impor um dogma da nova religião sincrética universal”.

Em relação ao aquecimento global, por exemplo, Sanahuja afirma que “a maneira como está posta a questão do aquecimento global é uma desculpa para limitar a população mundial, bem como exigir que os países pobres, em vias de desenvolvimento, implementem arrecadações altíssimas para impedir a contaminação ambiental – isto é – para condená-los ao subdesenvolvimento”. Sabendo, portanto, que “os postulados agnósticos e panteístas da Carta da Terra seriam a base da nova sociedade”, causa realmente muita preocupação o fato da própria menção da Carta da Terra na encíclica ecológica de Francisco. Sanahuja é enfático em dizer que “a visão cristã é inconciliável com o imanentismo panteísta da Carta”.

Mas, Boff – um dos mais ardorosos defensores da Carta da Terra [ver vídeo abaixo] chegando inclusive a defendê-la na assembleia geral da ONU — está convencido de que a encíclica ecológica reforça a disposição de Bergoglio em permitir aspectos do que vislumbrou em seu programa de 1986, exposto em “E a Igreja se fez Povo”.

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18 junho, 2015

Carta Encíclica Laudato Si’.

CARTA ENCÍCLICA
LAUDATO SI’
DO SANTO PADRE
FRANCISCO
SOBRE O CUIDADO DA CASA COMUM

1. «LAUDATO SI’, mi’ Signore – Louvado sejas, meu Senhor», cantava São Francisco de Assis. Neste gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços: «Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras».[1]

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17 junho, 2015

Nenhuma misericórdia para Magister.

Por Riccardo Cascioli – La Nuova Bussola Quotidiana | Tradução: FratresInUnum.com – Um vazamento de documento jamais é algo agradável, mas é difícil entender porque a publicação com dois dias de antecedência da encíclica Laudato si’, do Papa, pelo site do L’Espresso, tenha levado a Santa Sé à beira de uma crise nervos, e alguns vaticanistas a perder o senso do ridículo indicando um complô contra o Papa Francisco.

Que complô haveria em revelar com dois dias de antecedência o conteúdo de uma encíclica? Na verdade, a iniciativa do L’Espresso gera o risco de chamar ainda mais atenção em torno da conferência de imprensa oficial de apresentação da encíclica – na quinta-feira, 18, às 11 horas -, mesmo que apenas para verificar as diferenças entre a versão online e a versão definitiva.

E no entanto, foi tratado como complô, tanto que a sala de imprensa tomou a decisão drástica de suspender por tempo indeterminado o credenciamento do experiente vaticanista Sandro Magister, considerado o culpado do crime. Mas não só: a carta a Magister, na qual se lhe dá ciência da decisão, foi exposta publicamente na sala de imprensa do Vaticano e publicada com grande alarde pelo blog oficioso Il Sismografo. E isso não é tudo: não batasse a execração pública, floresceram na internet comentários mordazes contra Magister da parte de colegas e de personalidades do Vaticano.

Magister é um vaticanista muito conhecido, tem um site (chiesa.espresso) e um blog (Settimo cielo) que são muito seguidos e um porto seguro de referência para aqueles que querem notícias e análises mais profundas sobre a Igreja, para além das declarações oficiais. Obviamente, então, que ao longo do tempo também tenha feito alguns “inimigos”, mas o tratamento que lhe foi reservado levanta várias questões.

Também porque nada disso foi visto, apenas para citar um exemplo, no momento dos Vatileaks, quando uma enorme quantidade de documentos roubados do apartamento do Papa Bento XVI foi publicada, criando um escândalo que, em comparação, torna a publicação antecipada da encíclica risível. Ademais, Magister é responsável pelo incidente somente de modo indireto, pois – como foi explicado desde o início – a cópia pirata da encíclica chegou à mesa do diretor de L’Espresso [nota do Fratres: cujo chefe último é, não nos esqueçamos, o amicíssimo do Papa… Eugenio Scalfari], que decidiu publicá-la, pedindo Magister uma breve apresentação.

Além disso, tecnicamente, não se pode nem mesmo falar de embargo violado, como salientou com justiça o vaticanista americano John Allen. O embargo existe quando um documento é entregue aos jornalistas com antecedência, para lhes dar tempo de lê-lo e prepará-lo para publicação. Na prática, eu lhe dou o documento com antecedência, você concorda em não falar sobre ele antes da data fixada. Mas, neste caso, a Santa Sé havia decidido – algo incomum e desagradável – entregar a encíclica apenas algumas pouquíssimas horas antes da conferência de imprensa e, portanto, ninguém a recebeu ainda através dos canais oficiais. Um compromisso moral do Diretor de L’Espresso existiria apenas se a mão que lhe entregou o texto da encíclica clandestinamente pedisse para respeitar a data de 18 de junho, mas isso é altamente improvável.

Apesar de tudo isso, sobre Magister caiu a ira do Vaticano: para ele, nenhum atenuante, nem misericórdia – apenas a vergonha pública e a caçada do Olimpo dos vaticanistas. Bem diferentemente do tratamento dado à velha raposa Eugenio Scalfari, quando publicou duas entrevistas com o Papa Francisco – outubro 2013 e julho de 2014 -, o que gerou não pouca confusão na Igreja: mais tarde, descobriu-se que à primeira entrevista havia sido acrescentadas frases por Scalfari, e a segunda sequer deveria ter sido publicada, porque Scalfari tinha prometido não falar sobre aquela conversa pessoal que teve com o Papa. Um comunicado de esclarecimento, embora duro, foi a única medida; mais tarde, Scalfari foi, apesar de tudo, homenageado, pois suas entrevistas aparecem no livro “Entrevistas e conversas com repórteres” (LEV – Librevia Editrice Vaticana, a editora oficial da Santa Sé), publicado nos últimos meses.

Pode-se, portanto, razoavelmente pensar que Magister paga não tanto pela antecipação da encíclica, mas pelo trabalho contínuo de informações com o propósito de noticiar ou destacar fatos fora de sintonia com o coro de adulação que circunda – e danifica – esse pontificado. O incidente da encíclica é apenas um pretexto para acertar as contas com um repórter abalizado, mas pintado como um ponto de referência para a dissidência. Um sinal bem preciso dado pelos novos cortesões a quem quiser levantar questões, segundo a velha estratégia: bater em um para educar cem.

Não surpreende, como foi dito, que os que lançam veneno contra ele estejam entre os mais entusiasmados apoiadores da nova era da misericórdia. Mesmo aqueles que por posições institucionais deveriam, pelo menos, abster-se de certos excessos. Como a especialista em comunicação empresarial Francesca Imaculada Chaoqui, contratada pela Pontifícia Comissão responsável pela estrutura econômica e administrativa da Santa Sé, que nunca perdoou Magister por ter revelado sua tendência de falar demais. Assim, logo após a notícia da suspensão de Magister, eis o que ela escreveu em sua página no Facebook:

Todo comentário é supérfluo e só testemunha que a estação venenosa no Vaticano está longe de passar. Outro sinal o demonstra: o [jornal] Fatto Quotidiano indicou, com segurança, à Secretaria de Estado, a fonte da cópia que fizeram chegar ao L’Espresso e de uma suposta sabotagem contra o Papa Francisco (clique aqui). Uma informação certamente não lançada a esmo, o que prenuncia que em breve veremos novidades.

PS: O porta-voz do Vaticano, padre Lombardi, declarou que o texto publicado pelo L’Espresso é só um rascunho da encíclica, não a versão final, o que sugere que o texto sofreu novas modificações. Mas, pelo contrário, nós apostamos que o texto da encíclica já publicado online é o definitivo. Quinta-feira vamos ver.

15 junho, 2015

Muy amigo.

FratresInUnum.com – O jornal italiano La Repubblica, dirigido pelo ateu Eugenio Scalfari, com quem o Papa Francisco se entretém em frequentes entrevistas, geralmente polêmicas, mas cujo conteúdo nunca são oficialmente confirmados, acaba de vazar a Encíclica Laudato Si.

O documento pontifício, a ser publicado oficialmente somente na próxima quinta-feira, dia 18, foi disponibilizado para download pelo jornal aqui.

A razão para o vazamento, não se sabe.

Mas isso mostra como, realmente, as relações entre Scalfari e Francisco andam de vento em popa, pois até encíclica antecipadamente o jornalista recebe.

Se alguém pensou que as controversas entrevistas abalaram o prestígio de Scalfari, acusado pelos neo-papistas de deturpar o pensamento de Francisco, bem…

ATUALIZAÇÃO – 18:35. Segundo o blog Rorate Caeli, citando fontes do Vaticano, esta não seria a versão final do documento. Aguardemos até quinta.

Neste caso, não se poderia nem alegar quebra de embargo, relativo ao documento final, por parte da imprensa, mas o fato indicaria que certos jornalistas privilegiados recebem rascunhos de documentos pontifícios.

 ATUALIZAÇÃO – 16/06/2015, às 12:43. A Sala de Imprensa da Santa Sé suspendeu o credenciamento do vaticanista Sandro Magister, da revista L’Espresso, pertencente a La Repubblica, atribuindo a ele o vazamento. O jornal Il Messaggero comenta: “A decisão imediatamente gerou polêmica entre os vaticanistas, porque comprometida por uma interpretação arbitrária: o Vaticano, na verdade, jamais consignou aos jornalistas o rascunho da encíclica, sob o qual, portanto, não poderia pesar qualquer embargo. Magister, em suma, publicou o documento depois que o obteve graças a fontes próprias, permanecendo, logo, na plena retidão de um trabalho jornalístico”.

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7 junho, 2015

Foto da semana.

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“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!” (Mt, 5, 8) – do Evangelho da Santa Missa no Rito Tradicional do dia 5 de junho, festa de São Bonifácio.

Papa Francisco assiste filhos de prisioneiros italianos “empinando pipas” (em outros lugares, conhecidas como “papagaio”) antes de conceder-lhes audiência na sala Paulo VI no Vaticano, 30 de maio de 2015.

Foto: CNS – Paul Haring

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5 junho, 2015

Santa Sé encarrega Fellay de julgar um de seus padres.

A Congregação para a Doutrina da Fé nomeou o Superior da Fraternidade São Pio X, fundada por Dom Lefebvre, para ser o juiz de primeira instância no caso de um padre lefebvrista acusado de um crime grave.

Por Andrea Tornielli – La Stampa | Tradução: FratresInUnum.com: Ele mesmo [Dom Fellay] anunciou durante um sermão na igreja Nossa Senhora dos Anjos, em Arcadia, Califórnia, no dia 10 de maio de 2015: a Congregação para a Doutrina da Fé nomeou o Superior Geral da Fraternidade São Pio X (FSSPX), Dom Bernard Fellay, como juiz de primeira instância em um caso envolvendo um padre lefebvrista. O antigo Santo Ofício tem a incumbência de tratar de uma série de “delicta graviora”. O que ocorre mais frequentemente é aquele que diz respeito a abuso sexual de menores. Fellay apresentou esse fato como um exemplo das “contradições” nas relações da Santa Sé com a Fraternidade.

Dom Bernard Fellay“Somos rotulados agora como irregulares, na melhor das hipótese. “Irregular” significa que você não pode fazer nada e, como exemplo, eles nos proibiram de celebrar Missa nas igrejas em Roma para as irmãs Dominicanas que peregrinaram a Roma em fevereiro. Eles dizem: “Não, vocês não podem [celebrar] por que são irregulares”. E os que disseram isso eram pessoas da [Pontifícia Comissão] Ecclesia Dei”.

“Agora, às vezes, infelizmente”, disse Dom Fellay, “também padres fazem coisas insensatas, e precisam ser punidos. E quando é algo muito, muito sério, temos que recorrer a Roma. E assim fazemos. E o que a Congregação para a Doutrina da Fé faz? Bem, eles nomearam a mim como juiz para esse caso. Então, eu fui incumbido por Roma, pela Congregação para a Doutrina da Fé, de fazer julgamentos, julgamentos canônicos da Igreja sobre alguns de nossos padres que pertencem a uma Fraternidade inexistente para eles (para Roma, ed.). E então, mais uma vez, realmente uma bela contradição”.

Essa não é a primeira vez  que a FSSPX recorre a Roma quando diz respeito a “delicta graviora” e dispensas das obrigações sacerdotais. O que é novo nesse caso é que o antigo Santo Ofício, chefiado pelo Cardeal Gerhard Ludwig Müller, decidiu confiar o caso ao próprio Dom Fellay, fazendo-o juiz do tribunal de primeira instância. Uma expressão de ateção. Um sinal de que o caminho em direção à plena comunhão com os lefebvristas continua,  como confirmou em uma declaração a Vatican Insider Dom Guido Pozzo. O arcebispo, que também é Secretário da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, disse: “A decisão da Congregação para a Doutrina da Fé não significa que os problemas existentes foram sanados, mas é um sinal de benevolência e magnanimidade. Não vejo contradição nisso, mas, antes, um passo em direção à reconciliação”.

Os leitores se recordarão que outro importante sinal veio no último mês de abril, quando o Arcebispo de Buenos Aires acendeu a luz verde para que os lefebvristas fossem reconhecidos pelo governo argentino como uma “associação diocesana”. Igualmente, um grande grupo de peregrinos da FSSPX foi autorizado a celebrar a eucaristia na Basílica de Lourdes.

Então, por que Fellay fala em uma contradição? Seu comentário se referia à peregrinação do último mês de fevereiro a Roma, que teve a participação de 1500 fiéis. A peregrinação foi organizada pelas irmãs Dominicanas ligadas à FSSPX. Um pedido foi feito à Pontifícia Comissão Ecclesia Dei para celebrar a Missa no altar da Basílica de São Pedro. Na ocasião, todavia, os responsáveis pela Comissão decidiram que a celebração por um sacerdote lefebvrista, antes que os problemas existentes sejam resolvidos com vistas à regularização canônica e a plena comunhão, lançaria um sinal equivocado. No entanto, o Papa Francisco deu sua aprovação à proposta de que a missa solicitada fosse celebrada na Basílica de São Pedro por um padre da Ecclesia Dei, segundo o rito antigo. Os líderes da Fraternidade recusaram a oferta.

Ainda, a nomeação de Fellay pela Congregação para a Doutrina da Fé como juiz de primeira instância, demonstra o progresso em termos de diálogo entre a Igreja e a FSSPX.

2 junho, 2015

Papa Francisco: “Continue o bom trabalho na liturgia iniciado pelo Papa Bento XVI”.

Por Rorate-Caeli | Tradução: FratresInUnum.com: Ontem teve início a tão aguardada Conferência Sacra Liturgia EUA, em Nova York. Seus trabalhos podem ser acompanhados na página oficial do Facebook para o evento.

Essa página também postou a Mensagem do Cardeal Robert Sarah para a Conferência (link), na qual ele argumenta fortemente a favor da importância da sanidade litúrgica para que haja qualquer renovação na Igreja:

Porque a Sagrada Liturgia é verdadeiramente a fonte a partir da qual emana todo a força da Igreja, como insiste o Concílio Vaticano II (cf. Sacrosanctum Concilium, 10), devemos fazer tudo o que pudermos para trazer a Sagrada Liturgia de volta ao coração da relação entre Deus e o homem, reconhecendo a primazia de Deus Todo-Poderoso neste fórum único e privilegiado, em que nós, na esfera pessoal e eclesial, encontramos Deus no trabalho em nosso mundo. Não se pode encontrar Deus, meus irmãos e irmãs, sem tremer, sem assombro, sem profundo respeito e santo temor. É por isso que temos de classificar o que o Cardeal Ratzinger chamou de “a maneira certa de celebrar a Liturgia, interna e externamente”, primeiro entre as nossas preocupações (Cardeal Joseph Ratzinger, O Espírito da Liturgia, Ignatius Press, San Francisco 2000, p. 9).

O Cardeal Sarah prossegue com uma importante revelação:

Quando o Santo Padre Papa Francisco me pediu que aceitasse o ministério de Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, eu perguntei: “Sua Santidade, como o senhor quer que eu exerça esse ministério? O que o senhor quer que eu faça como Prefeito desta Congregação? ” A resposta do Santo Padre foi clara: “Eu quero que o senhor continue implementando a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II”, ele disse, “e quero que o senhor continue o bom trabalho na liturgia iniciado pelo Papa Bento XVI.”

Meus amigos, eu quero que vocês me ajudem nesta tarefa. Peço-lhes que continuem trabalhando para alcançar os objetivos litúrgicos do Concílio Vaticano II (cf. Sacrosanctum Concilium, I) e trabalhem para continuar a renovação litúrgica promovida pelo Papa Bento XVI, especialmente, através da Exortação Pós-sinodal Sacramentum caritatis, de 22 Fevereiro 2007, e do Motu Proprio Summorum Pontificum, de 7 de Julho de 2007. Peço-lhes que sejam sábios, como o dono da casa no Evangelho de São Mateus, que sabe quando tirar para fora do seu tesouro coisas novas e velhas (cf. Mtt: 13: 52), de modo que a Sagrada Liturgia como ela é celebrada e vivida hoje em dia não perca nada das riquezas estimadas da tradição litúrgica da Igreja, enquanto permanece sempre aberta para o desenvolvimento legítimo (cf. Sacrosanctum Concilium, 23).

No final de sua mensagem, o Cardeal Sarah manifesta a esperança de que ele possa estar presente na próxima reunião Sacra Liturgia, a ser realizada em julho 2016, em Londres. Ele também pede orações para que possa exercer fielmente o serviço para o qual foi chamado.

22 abril, 2015

“A frieza de Francisco” ou “Como não ter cheiro de ovelha”.

Por Fratres in Unum.com: Papa Bergoglio é conhecido por sua genialidade em telefonemas e em receber gente da mais alta categoria, como aquela transexual espanhola e sua, digamos, “namorada”, que vieram queixar-se de seu pároco.

Desta vez, esteve em Roma a família de Asia Bibi, a paquistanesa que há seis anos está encarcerada por causa de um único crime: ser cristã.

O patriarca de Moscou se comoveu, e pediu sua libertação. O governo da França, laicista e anticatólico, se comoveu, e concedeu-lhe uma cidadania de honra.

Papa Francisco, porém, não se comove. Nenhuma palavra, nenhuma defesa.

Agora, reparem bem no modo como, em 15 segundos, fala en passant com a filha e o marido de Asia Bibi, que ficam completamente perplexos ante a frieza de seu pastor. Queriam contar-lhe seu sofrimento, queriam uma palavra de consolo, mas encontram apenas o sorriso apressando de Bergoglio que, insensível e alegremente, os desconsidera. Seria este o modo bergogliano de ter “cheiro de ovelha”?…

Parece mesmo que as tristezas de nosso tempo são de dimensões oceânicas.

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16 abril, 2015

Papa: ser obediente é estar aberto à vontade de Deus.

Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Francisco celebrou a missa matutina desta quinta-feira (16/04) na intenção do seu predecessor, Bento XVI, que completa 88 anos. “Gostaria de lembrar que hoje é o aniversário de Bento XVI. Ofereci a missa para ele (Bento XVI) e também convido todos a rezarem por ele, para que o Senhor o sustente e lhe dê tantas alegrias e felicidades”, disse Francisco. Na homilia, o Pontífice comentou a liturgia do dia, que fala da obediência.

Sinal de coragem

A obediência – observou o Papa – “tantas vezes nos leva a um caminho que não é o que eu penso que deve ser, é outro”. Obedecer é “ter a coragem de mudar de rumo quando o Senhor nos pede”. “Quem obedece tem a vida eterna”, enquanto para “quem não obedece, a ira de Deus permanece sobre ele”. Assim, na primeira leitura extraída dos Atos dos Apóstolos, os sacerdotes e os chefes ordenam aos discípulos de Jesus que não preguem mais o Evangelho ao povo: estão enfuriados, com ciúme, porque na presença deles ocorrem milagres, o povo os segue e “o número de fiéis aumentava”. Os discípulos são encarcerados, mas à noite, o Anjo de Deus os liberta e voltam a anunciar o Evangelho. Presos e interrogados novamente, Pedro responde às ameaças do sumo sacerdote: “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens”. Os sacerdotes não entendiam:

Teimosia

“Mas estes eram doutores, tinham estudado a história do povo, tinham estudado as profecias, a lei, conheciam assim toda a teologia do povo de Israel, a revelação de Deus, sabiam tudo, eram doutores, e foram incapazes de reconhecer a salvação de Deus. Mas como é possível essa dureza de coração? Porque não é dureza de cabeça, não é simples ‘teimosia”. É a dureza… E pode-se perguntar: como é o percurso desta teimosia, que é total, de cabeça e de coração?”.

“A história desta teimosia, o itinerário – destacou o Papa – é o fechar-se em si mesmo, não dialogar, é a falta de diálogo”:

“Eles não sabiam dialogar, não sabiam dialogar com Deus, porque não sabiam rezar e ouvir a voz do Senhor, e não sabiam dialogar com os outros. ‘Mas por que esta interpretação?’. Somente interpretavam como era a lei para fazê-la mais precisa, mas estavam fechados aos sinais de Deus na história, estavam fechados ao seu povo. Estavam fechados, fechados. E a falta de diálogo, este fechamento do coração, os levou a não obedecer a Deus. Este é o drama desses doutores de Israel, desses teólogos do povo de Deus: não sabiam ouvir, não sabiam dialogar. O diálogo se faz com Deus e com os irmãos”.

Diálogo

E o sinal que revela que uma pessoa “não sabe dialogar”, “não está aberta à voz do Senhor, aos sinais que o Senhor faz no povo”  é a “fúria e a vontade de calar os que pregam, neste caso, a novidade de Deus, isto é, Jesus ressuscitado. Não têm razão, mas chegam a isso. É um itinerário doloroso. Estes são os mesmos que pagaram os guardiões do sepulcro para dizer que os discípulos tinham roubado o corpo de Jesus. Fazem de tudo para não abrirem-se à voz de Deus”:

E nesta Missa rezemos pelos mestres, pelos doutores, por aqueles que ensinam ao povo sobre Deus, para que não se fechem, para que dialoguem e, assim, se salvem da ira de Deus que, se não mudarem atitude, permanecerá sobre eles”.

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Nota do Fratres em uma só imagem:

Franciscanos da Imaculada

Santidade, os Franciscanos da Imaculada concordam plenamente!

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