Posts tagged ‘Pio XII’

junho 2, 2011

In Ascensione Domini.

Não se julgue, porém, que o seu governo [de Cristo na Igreja] se limita a uma ação invisível, ou extraordinária. Ao contrário, o divino Redentor governa o seu corpo místico de modo visível e ordinário por meio do seu vigário na terra. Vós bem sabeis, veneráveis irmãos, que Cristo nosso Senhor, depois de ter, durante a sua carreira mortal, governado pessoalmente e de modo visível o seu “pequeno rebanho” (Lc 12,32), quando estava para deixar este mundo e voltar ao Pai, confiou ao príncipe dos apóstolos o governo visível de toda a sociedade que fundara. E realmente, sapientíssimo como era, não podia deixar sem cabeça visível o corpo social da Igreja que instituíra. Nem se objete que com o primado de jurisdição instituído na Igreja ficava o corpo místico com duas cabeças. Porque Pedro, em força do primado, não é senão vigário de Cristo, e por isso a cabeça principal deste corpo é uma só: Cristo; o qual, sem deixar de governar a Igreja misteriosamente por si mesmo, rege-a também de modo visível por meio daquele que faz as suas vezes na terra; e assim a Igreja, depois da gloriosa ascensão de Cristo ao céu não está edificada só sobre ele, senão também sobre Pedro, como fundamento visível. Que Cristo e o seu vigário formam uma só cabeça ensinou-o solenemente nosso predecessor de imortal memória Bonifácio VIII, na carta apostólica “Unam Sanctam” e seus sucessores não cessaram nunca de o repetir.

Pio XII, Carta Encíclica Mystici Corporis.

Tags:
janeiro 25, 2010

O milagre de Pio XII e o papel de João Paulo II.

Há um suposto milagre atribuído à intercessão de Pio XII que poderia levar, em tempo relativamente breve, à sua beatificação. Um milagre que veria implicado, de modo misterioso, também João Paulo II, cujo decreto sobre a heroicidade das virtudes foi promulgado por Bento XVI no mesmo dia que o do Papa Pacelli: a cura de uma jovem mãe de um linfoma maligno. Nestas circunstâncias o condicional é obrigatório, mas o caso está sendo atentamente analisado pela postulação da causa e por sua diocese de Sorrento-Castellammare di Stabia, onde ocorreu. A notícia foi  publicada pelo periódico online “Petrus”, sem nenhum detalhe, mas com a importante confirmação do vigário da mesma diocese. Il Giornale pode agora reconstruir o assunto, que será estudado nos próximos meses.

Estamos em 2005, pouco tempo depois da morte do Papa Wojtyla. Um jovem casal, que teve dois filhos, espera um terceiro. Para a mãe de trinta e um anos, que é professora, a gravidez se apresenta difícil: tem fortes dores e os médicos não conseguem inicialmente compreender a origem de seus incômodos. Finalmente, depois de muitas análises e uma biopsia, se diagnostica um linfoma de Burkitt, tumor maligno do tecido linfático bem agressivo, que frequentemente aparece nos ossos mandibulares e se estende às víceras do abdome e pélvis e ao sistema nervoso central. A espera da nova vida que a mulher traz em seu seio se transforma em um drama. O marido da mulher começa a rezar ao Papa Wojtyla, falecido há pouco tempo, para lhe pedir que interceda por sua família. Uma noite, o homem vê João Paulo II em sonhos. “Tinha um rosto sério. Me disse: «Eu não posso fazer nada, deveis rezar a este outro sacerdote… ».  Mostrou-me a imagem de um sacerdote magro, alto, fraco. Não o reconheci, não sabia quem era”. O homem permaneceu preocupado pelo sonho, mas não pôde identificar o sacerdote que Wojtyla lhe indicou. Poucos dias depois, abrindo casualmente uma revista, encontrou uma foto do jovem Eugenio Pacelli que chamou sua atenção. Era ele que havia visto retratado no sonho.

Põe-se em marcha uma corrente de oração para pedir a intercessão de Pio XII. E a mulher se curou, depois dos primeiros tratamentos. O resultado é considerado tão importante que os médicos pensam num possível erro no diagnóstico inicial. Mas os exames e os arquivos clínicos confirmam a exatidão dos resultados das primeiras análises. O tumor desapareceu, a mulher está bem, teve seu terceiro filho e voltou a seu trabalho e escola. Passado um pouco de tempo, é ela quem se dirige ao Vaticano para assinalar seu caso.

Uma confirmação do vigário geral da diocese de Sorrento-Castellammare di Stabia, dom Carmine Giudici: “É tudo verdade — declarou a Petrus –, a Santa Sé nos comunicou um milagre por intercessão de Pio XII. O Arcebispo Felice Cece decidiu, portanto, instituir em dias o correspondente Tribunal diocesano”. Este tribunal será o que examinará o caso para formular uma primeira sentença. Se for positiva, os documentos passarão a Roma, à Congregação para a Causa dos Santos: aqui deverão ser estudados primeiro pela Consulta médica, chamada a pronunciar-se sobre a impossibilidade de explicar a cura. Se também os médicos que colabora com a Santa Sé disserem sim, o caso da mãe curada será discutido primeiro pelos teólogos da Congregação, então pelos Cardeais e bispos. Só depois de ter superado estes três graus de juízo, o dossiê sobre o suposto milagre chegará ao escritório de Bento XVI, que decidirá sobre o reconhecimento final. Então, e só então, o Papa Pacelli poderá ser beatificado.

A instituição de um Tribunal diocesano e a eventual chegada da documentação ao dicastério que estuda os processos de beatificação e canonização não significam nenhum reconhecimento, mas apenas que o caso em questão é considerado interessante e digno de atenção. Portanto, é totalmente prematuro antecipar acontecimentos, ainda mais imaginar datas. O que impressiona, na história da família de Castellmmare di Stabia, é o papel que teve no assunto o Papa Wojtyla, que em sonhos teria sugerido ao marido da mulher rezar àqueles “sacerdote magro”, que logo se revelaria como Pacelli. Quase pareceria que João Paulo II teria desejado, de algum modo, ajudar à causa de seu predecessor. A notícia do suposto milagre chegou ao Vaticano poucos dias antes de que Bento XVI promulgasse o decreto sobre as virtudes heróicas de Wojtyla e, surpreendentemente, liberasse também a de Pio XII, que estava em espera por dois anos por motivo de ulteriores verificações nos arquivos vaticanos.

Fonte: Andrea Tornielli, Il Giornale; tradução a partir de versão de La Buhardilla de Jerónimo

dezembro 24, 2009

Um Santo e Feliz Natal!

É o que deseja o Fratres in Unum a seus leitores amigos!

Com sempre novo frescor de alegria e de piedade, diletos filhos do universo inteiro, cada ano, ao ocorrer o Santo Natal, ressoa do presépio de Belém aos ouvidos dos cristãos, repercutindo-se docemente nos seus corações, a mensagem de Jesus, que é luz no meio das trevas: uma mensagem que ilumina, com o esplendor de celestial verdade, um mundo obscurecido por erros trágicos, que infunde alegria exuberante e esperançosa à humanidade angustiada por profunda e amarga tristeza, proclama a liberdade aos filhos de Adão, constrangidos pelas cadeias do pecado e do erro, e promete misericórdia, amor e paz às multidões infinitas dos padecentes e atribulados, que vêem dissipada a sua felicidade e quebradas as suas energias sob a rajada das lutas e dos ódios, dos nossos dias borrascosos. [...]

Hoje, mais do que nunca, ressoa a hora de reparar, de sacudir a consciência do mundo do grave letargo em que o fizeram cair os tóxicos das falsas idéias, amplamente difundidas; tanto mais que, nesta hora de esfacelamento material e moral, o conhecimento da fragilidade e inconsistência de qualquer ordenação puramente humana está a desenganando ainda mesmo aqueles que, em dias aparentemente de felicidade, não sentiam, em si e na sociedade, a falta de contato com o eterno e não consideravam esta falta como um defeito essencial das suas construções. [...]

O preceito da hora presente não é lamento, mas ação; não lamento sobre o que foi ou o que é, mas reconstrução do que surgirá e deve surgir para o bem da sociedade. Pertence aos membros melhores e mais escolhidos da cristandade, penetrados por um entusiasmo de cruzados, reunirem-se em espírito de verdade, de justiça e de amor, ao grito de “Deus o quer”, prontos a servir, a sacrificar-se, como os antigos cruzados. Se então se tratava da libertação da terra santificada pela vida do Verbo de Deus encarnado, hoje trata-se, se assim podemos falar, de uma nova travessia, superando o mar dos erros do dia e do tempo, para libertar a terra santa espiritual, destinada a ser a base e o fundamento das normas e leis imutáveis para as construções sociais de interna e sólida consistência.

Para fim tão alto, nós, desde o presépio do Príncipe da paz, confiados em que a sua graça se difundirá em todos os corações, dirigimo-nos a vós, amados filhos, que reconheceis e adorais em Cristo o vosso Salvador, a todos aqueles que estão unidos conosco, ao menos pelo vínculo espiritual da fé em Deus, a todos finalmente quantos anelam por se libertarem das dúvidas e dos erros, ansiosos de luz e de guia; exortamo-vos com encarecida insistência paterna não só a compreender intimamente a seriedade angustiosa da hora presente, mas também a meditar as suas possíveis auroras benéficas e sobrenaturais, e a unir-vos e trabalhar juntos pela renovação da sociedade em espírito e em verdade.

Objeto essencial desta cruzada, necessária e santa, é que a estrela da paz, a estrela de Belém, desponte de novo sobre toda a humanidade, com o seu brilho rutilante, com a sua consolação pacificadora, como promessa e auspício de um futuro melhor, mais fecundo e mais feliz.

Venerável Pio XII, radiomensagem de Natal de 1942.

Tags:
dezembro 23, 2009

O ultimato das comunidades judaicas: “Aceite as reservas sobre Pacelli”.

(IHU) “Uma nota oficial, enviada às máximas autoridades, na qual se deverá considerar as reservas que os judeus ainda têm com relação aos fatos históricos de Pio XII, com particular referência aos seus silêncios sobre a Shoá”. Se não chegam, em curto tempo, sinais públicos do Vaticano nesse sentido, “poderiam surgir problemas posteriores, até se colocar em dúvida a própria visita papal à Sinagoga”.

É esse – substancialmente – o pedido que a Comunidade Judaica de Roma, com a “benção” da cúpula da Sinagoga, teria feito chegar reservadamente no Vaticano no dia seguinte ao anúncio oficial da assinatura das virtudes heroicas de Pio XII, assinadas por decreto, no sábado, por Bento XVI.

A reportagem é de Orazio La Rocca, publicada no jornal La Repubblica, 22-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A iniciativa papal – como se sabe – foi acolhida com “perturbação, desilusão e raiva” por quase todo o mundo judeu. E não só o romano. A tensão, dentro e fora da comunidade judaica, já está nos níveis máximos, razão pela qual, com o passar das horas, se multiplicam sempre mais as vozes de quem está pronto para colocar em dúvida até a esperada visita de Bento XVI à Sinagoga de Roma programada para o dia 17 de janeiro próximo.

Perigo temido – não por acaso – pelo presidente da Assembleia dos Rabinos Italianos, Giuseppe Laras, e que amanhã será certamente examinado em um ardente conselho da Comunidade Judaica Romana. A cúpula do “pequeno parlamento” judeu da capital italiana jura que “tudo está prosseguindo normalmente, e que a visita do Pontífice não sofrerá consequências”. Ninguém, portanto, entre os chefes dos judeus romanos quer ouvir falar de adiamento e muito menos de cancelamento, mesmo que o embaraço seja palpável.

A primeira reação oficial ao anúncio da assinatura do decreto sobre as virtudes heroicas de Pacelli foi um documento assinado pelo rabino chefe de Roma, Riccardo Di Segni, pelo presidente da União das Comunidades Judaicas Italianas, Renzo Gattegna, e pelo presidente da Comunidade Judaica Romana, Riccardo Pacifici. Um texto no qual – com extrema clareza – os três signatários reforçam as tradicionais reservas com relação aos supostos “silêncios” de Pacelli.

Mas, além do documento oficial de três dias atrás, está em curso entre as duas margens do Tibre uma força reservada para fazer todo o possível para evitar que a visita seja cancelada, mas ao mesmo tempo para fazer que as razões judaicas – isto é, as reservas históricas sobre o Papa Pacelli – sejam levadas em conta pelo Vaticano.

A partir daquilo que surge dos ambientes judeus romanos, esse é o tema sobre o qual Di Segni, Gattegna e Pacifici pretendem insistir em vista da visita papal à Sinagoga. Uma mensagem precisa nesse sentido chegou ao Vaticano por meio de “intermediários” apreciados tanto pela Comunidade Judaica quanto pelo Vaticano.

“Não nos servimos de nossos embaixadores, mas de pessoas amigas, representantes de notáveis instituições comprometidas com o diálogo inter-religioso, que logo se colocaram em ação”. Naturalmente, dar nomes é impossível, porque a marca do silêncio é total, mesmo que se fale com uma certa insistência de “homens daComunidade de Santo Egídio “, há muitos anos fortemente comprometidos com o diálogo, com atenção particular aos judeus, para os quais organizam todos os dias 16 de outubro a marcha em memória dos judeus romanos capturados no Gueto em 1943. Irá chegar ao Vaticano nos próximos dias um sinal “concreto e oficial” com mérito às reservas judaicas sobre os “silêncios” de Pacelli? Na cúpula da Sinagoga e da Comunidade Judaica, desejam “que sim, senão a situação se complica”.

Das mesmas autoridades, porém, surge ainda que o caso Pacelli “não poderá estar no centro da visita de Ratzinger à Sinagoga” no âmbito dos respectivos discursos. “Como é a nossa tradição – asseguram na Comunidade Judaica –, o hóspede é sagrado, e Bento XVI será acolhido com todas as honras devidas a um hóspede de respeito. Mas nem por isso ficaremos calados”.

Nada impede, portanto, que se imagine que, tanto do rabino chefe Riccardo Di Segni, como do presidente da Comunidade Judaica, Riccardo Pacifici (uma vida inteira comprometida com a defesa das raízes e da identidade judaica, neto do rabino chefe de Gênova, Riccardo Pacifici, morto em Auschwitz ), o discurso de saudação que no dia 17 de janeiro será dirigido a Ratzinger seja dedicado também à incômoda lembrança do Papa Pacelli. Se a visita ocorrer.

dezembro 21, 2009

Curtas da semana.

João Paulo II e Pio XII, veneráveis.

No último sábado, 19, o Santo Padre, o Papa Bento XVI, autorizou a Congregação para Causa dos Santos a promulgar vários decretos, dentre eles os relativos às virtudes heróicas de Pio XII (Eugenio Pacelli) e João Paulo II (Karol Wojtyła).

A estratégia.

Segundo Paolo Rodari, ‹‹ O Papa, de fato, escondendo suas intenções de todos (eu tenho minhas dúvidas de que mesmo o seu secretário particular não sabia de nada), promulgou o decreto sobre as virtudes heróicas de Pio XII com o de João Paulo II. De Wojtyla se sabia. De Pacelli, não. Neste ponto, a estratégia me parece clara: fazer avançar juntos os dois processos a fim de mover um pouco a atenção do controverso (segundo alguns) Pio XII ao unanimemente amado Wojtyla. O processo de Pacelli foi aberto ao fim do Concílio por vontade de Paulo VI. O decreto sobre as virtudes heróicas (é a penúltima etapa para a beatificação) havia sido aprovado pela congregação dos santos em 2007. Esperava-se apenas a assinatura de Ratzinger que, significativamente, ocorreu a cerca de um mês de sua visita à sinagoga de Roma.

Apesar dos lobos.

Excerto de artigo de Jean Madiran: ‹‹ Bento XVI passa, pois, por cima do insolente veto dos anti-papistas em frente ao qual primeiramente ele havia  parado. A pressão anti-papista exercida sobre a Igreja por meio de veto midiático é de um peso enorme. Ela impediu a beatificação de Isabel, a Católica. Tem retardado até agora a de Pio XII. E ela o faz de muitos outros. Seu peso não vem somente pelo fato dos anti-papistas ocuparem hoje um lugar frequentemente dominante na imprensa e na televisão, na edição, na vida política e no sistema bancário. Além disso, ele vem eco cúmplice que encontra, através de persuasão ou através de intimidação, numa parte notável do clero, de sua hierarquia e da opinião pública católica. Isso também é um resultado desastroso do “espírito do concílio” condenado por Bento XVI. [...] Le Figaro de segunda-feira acusa grosseiramente Bento XVI de ter desejado relançar “o debate sobre o Vaticano e o nazismo”. Isso manifesta como o ponto de vista católico é totalmente estranho ao Figaro. Pois do ponto de vista católico, Bento XVI não relançou este debate, ele o fechou ›› .

Fúria. Líderes judeus criticam declaração de virtudes heróicas de Pio XII.

(Catholic Culture) “Não quero crer que os católicos vejam em Pio XII um exemplo de moralidade para a humanidade”, disse o rabino francês Gilles Bernheim. “Dado o silêncio de Pio XII durante e depois da Shoah, espero que a Igreja irá renunciar a este plano de beatificação e então honrar sua mensagem e seus valores”. “É um claro rapto dos fatos históricos relativos à era Nazi”, disse Stephan Kramer, que chefia o Conselho Central Judaico da Alemanha. “Bento XVI reescreve a história sem ter permitido uma séria discussão científica. É isso que me deixa furioso”. Já o rabino chefe de Roma, Riccardo di Segni, é mais moderado: “Se a decisão de hoje [sábado] tivesse que implicar uma opinião definitiva e unilateral da obra histórica de Pio XII, reforçamos que a nossa avaliação permanece crítica”, mas indicando que não podem, “de nenhum modo, interferir em decisões internas da Igreja que se referem às suas livres expressões religiosas”. Por sua vez, o rabino David Rosen, responsável pelo diálogo inter-religioso do Grande Rabinato de Israel, lamenta a decisão que “não mostra grande sensibilidade com relação às preocupações da comunidade judaica”, tomada, além disso, “a apenas três semanas da visita programada pelo Papa à Sinagoga de Roma”.

Cardeal Danneels e a beatificação de João Paulo II: “criar uma beatificação por aclamação é inaceitável”.

“Eu penso que se deveria respeitar o procedimento normal. Se o processo, por si mesmo,  avança velozmente, tudo bem. Mas a santidade precisa passar por corredores preferenciais. O processo deve tomar todo o tempo que precisar, sem fazer exceções. O Papa é um batizado como todos os outros. Por isso, o procedimento de beatificação deveria ser o mesmo previsto para todos os batizados. Certamente, não gostei do grito ‘santo subito!’ [santo já] que se ouviu nos funerais, na Praça de São Pedro. Não se faz assim. Há algum tempo, disseram que se tratava de uma iniciativa organizada, e isso é inaceitável. Criar uma beatificação por aclamação, mas não espontânea, é uma coisa inaceitável”. Palavras do Cardeal Godfried Danneels, arcebispo de Bruxelas, à 30 Giorni.

A resposta do secretário de João Paulo II.

« Evidentemente, [Danneels] fala do que não sabe e de um processo que não conhece » , respondeu o cardeal de Cracóvia, Stanislao Dziwicsz, secretário do Papa Wojtyla.

Elefantes cruzados.

(The hermeneutic of continuity) ‹‹ No último mês de julho, como você deve se lembrar, os cristãos no estado indiano de Orissa foram submetidos a severa perseguição. Uma freira de 22 amos foi queimada até a morte, um orfanato em Khuntpali foi incendiado por uma multidão, outra freira foi violada por uma gangue em Kandhamal, multidões atacaram igrejas, queimaram veículos e destruíram casas de cristãos. Pe. Thomas Chellen, diretor do centor pastoral que foi destruído com uma bomba, escapou por pouco depois de uma multidão hindu incendiá-lo. Ao todo, mais de 500 cristãos foram assassinados e milhares de outros feridos. Num acontecimento extraordinário, uma manada de elefantes viajou uns 300 km para atacar as cidades que foram as piores perseguidoras dos cristãos, deixando as casas cristãs intactas ››.  A arquidiocese de Colobo (cujo arcebispo é Dom Ranjith) traz mais informações.

Novidades sobre as conversações teólogicas FSSPX x Santa Sé.

O site Panorama Católico Internacional traz algumas anotações ao sermão proferido por Sua Excelência Reverendíssima, Dom Alfonso de Galarreta, em 19 de dezembro, numa ordenação diaconal e sacerdotal: “O resultado da primeira reunião foi bom. Principalmente, se estabeleceu o tema e método da discussão. Os temas a discutir são de natureza doutrinal, com exclusão expressa de toda questão de ordem canônica relacionada à situação da FSSPX. O ponto de referência doutrinal comum será o Magistério anterior ao Concílio. As conversações seguem um método rigoroso: é apresentado um tema, a parte que questionada envia um trabalho fundamentando suas dúvidas. A Santa Sé responde por escrito, com intercâmbios prévios por email dos assessores técnicos. Na reunião se discute. Todas as reuniões são gravadas e filmadas por ambas as partes. As conclusões de cada tema subirão ao Santo Padre e ao Superior Geral da FSSPX. A cronologia destas reuniões dependem de se o tema é novo ou já vem sendo discutido. No primeiro caso, será aproximadamente a cada três meses. No segudo, a cada dois. A próxima reunião é prevista para meados de janeiro. Os representantes teológicos da Santa Sé “são pessoas com as quais se pode falar”, falam “nossa mesma linguagem” teológica (interpreto, são tomistas). [...] O bispo repitiu que os resultados da primeira reunião são bons, relativamente à situação anterior. Se falou com plena liberdade e somente de temas de doutrina num marco teológico tomista”.

agosto 10, 2009

Curtas da semana.

Publicação oficial da Santa Sé: DVD tutorial para a Missa Gregoriana.

ecclesiadei1WDTPRS: ‹‹ Algumas pessoas reclamam que, embora o Santo Padre tenha publicado Summorum Pontificum, não se supõe que alguém realmente use os livros antigos. Eles têm a mesma atitude com relação à missa tradicional como têm para com o canto Gregoriano: deve ser visto, mas não ouvido. Eis um anúncio interessante. A Pontifícia Comissão Ecclesia Dei publicou seu próprio material de auxílio para a antiga forma da missa, a Missa Extraordinaria, ou  Usus Antiquior, em linha com o próprio Summorum Pontificum do Sumo Pontífice. É um lançamento multimídia oficial em DVD, pela Santa Sé, em quatro línguas para padres e leigos aprenderem a antiga forma da Missa ›› .

Pedidos podem ser feitos a:
Pontificia Commissione Ecclesia Dei – Palazzo della Congregazione per la Dottrina della Fede
Piazza del Sant’Uffizio, 11 – 00193 ROMA – Tel. (Italia:39) 06/69885213 – 69885494 – Fax 69883412

Ainda o congresso na Itália.

Mais informações do congresso sobre Summorum Pontificum despoticamente proibido pelo senhor Arcebispo de Clagliari. Segundo Kreuz.net, “entre outros, o encontro foi organizado pelo pároco local, Pe. Pascal Manca. Cinqüenta sacerdotes e inúmeros leigos desejavam participar do mesmo”. Imaginemos o efeito que poderiam causar cinqüenta sacerdotes inflamados de amor pela liturgia católica tradicional após terem sido expostos durante 3 dias à doutrina, beleza, sacralidade e excelência da Missa de Sempre! Rezemos para que essas muralhas caiam e nossos irmãos da Sardenha consigam realizar essas jornadas e que um dia consigamos fazer a mesma coisa aqui no Brasil, por padres que verdadeiramente amem a Missa Tradicional e reconheçam sua importância para a restauração da vida católica.

Arquidiocese de Cali é “o closet dos gays”.

Padre GermánO padre Germán Robledo, ex presidente do Tribunal Eclesiástico de Cali, falou duro contra o clero e falou sobre o explosivo livro que está escrevendo, intitulado “Hacia um clero Gay” [“Em direção a um clero gay”]. Em entrevista à revista colombiana Semana, Pe. Germán conta que há dois anos fez “denúncias muito concretas ao arcebispo Juan Francisco Sarasty sobre fatos gravíssimos de indisciplina eclesiástica e que aumentaram durante seu governo por falta de controle e vigilância. Todas estas denúncias foram levadas pelo vento. Seu livro, que trás denúncias de “homossexualismo, pederastia; sacerdotes com filhos, com demandas ante o ICBF por alimentos, corrupção… enfim, toda classe de violações diretas ao celibato”, conta como nos últimos 30 anos a Igreja de Cali “se inclina por perfis de sacerdotes com traços efeminados, doces, obedientes, submissos, não críticos e que se protegem sempre no papel autoritário do bispo e demais superiores”. O Padre considera que na arquidiocese de Cali “30 por cento dos 120 sacerdotes que dela fazem parte sejam homossexuais”. Seu livro narra, sem citar nomes, casos de “sacerdotes que pediam dinheiro para os pobres e o entregavam a quem lhes acompanhavam em suas tendências homossexuais”.

Pio XII exorcizava Hittler a distância.

O historiador e jesuíta alemão Peter Gumpel, teólogo relator do processo de beatificação de Pio XII, revelou no transcurso de uma mesa redonda realizada em Roma em companhia do senador Giulio Andreotti acerca do tema «Pio XII, construtor da paz», que o Papa Pacelli exorcizou «várias vezes» e a distância Adolf Hittler, por considerá-lo uma pessoa possuída, um endemoninhado; assim declarou Sor Pascalina, secretária particular do Pontifíce.  No exorcismo, o Papa invocava a Deus para que libertasse da influência diabólica que sofria o Führer. A notícia completa pode ser encontrada em Religion en Libertad.

Freiras americanas preocupadas com investigação do Vaticano.

Irmã Sandra M. Schneiders encorajou suas companheiras freiras a não participar da investigação do Vaticano.

Irmã Sandra M. Schneiders encorajou suas companheiras freiras a não participar da investigação do Vaticano.

Robert Pigott, BBC Religious Affairs Correspondent – Quando o Vaticano iniciou uma investigação, há  sete meses, sobre a “qualidade” das religiosas americanas, adotou uma abordagem discreta. Mas assim que detalhes foram emergindo na investigação sobre idéias sustentadas pelas religiosas – e o modo como elas rezam – a inquietação e irritação sentidas nas comunidades religiosas começaram a transbordar para a arena pública. Um memorando entregue recentemente pelo Vaticano às líderes das religiosas americanas foi interpretado por muitos como um sinal de que a hierarquia em Roma está preocupada quanto à tendência liberal dentre elas. As irmãs estão mais e mais ansiosas sobre o que isso pode significar. Antigamente, as irmãs trabalhavam principalmente em escolas e hospitais católicos, mas desde às varredouras reformas do Concílio Vaticano Segundo na última década de 1960 elas decidiram por conta própria como melhor fazer bem ao mundo. […] Mas importantes figuras no Vaticano estão preocupadas de que as algumas irmãs, ao responder às variáveis necessidades da sociedade americana, se tornaram muito liberais. Orientações recentes sobre a investigação – conhecida como “visitação apostólica” – revelam questões sobre se as irmãs assistem a missa diariamente e sobre a “retidão da doutrina professada e ensinada” por elas. Tradicionalistas estão há muito preocupados de que algumas irmãs possam estar desprezando o ensinamento da Igreja em assuntos delicados como homossexualidade e ordenação de mulheres ao sacerdócio. A investigação também pedirá por uma descrição do “processo para responder as irmãs que pública ou privadamente dissentem de ensinamentos impositivos da Igreja”. O processo foi bem recebido por algumas ordens mais conservadoras. [...] Mas Francine Cardman, uma acadêmica na School of Theology and Ministry no Boston College, declarou que a investigação era um tentativa de estabelecer uma interpretação oficial dos ensinamentos do Concílio Vaticano Segundo.

novembro 29, 2008

Bento XVI, Pio XII e o Vaticano II.

Padre João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa

Associação Civil Santa Maria das Vitórias

Padres Conciliares Na linha da hermenêutica da continuidade, Bento XVI declarou que uma das fontes mais importantes do Vaticano II é o magistério de Pio XII. Disse que, depois da Sagrada Escritura, os textos mais citados pelos padres conciliares são os documentos do papa Pacelli.

É muito louvável o empenho de Bento XVI de promover uma leitura do Vaticano II à luz da tradição, desautorizando assim aqueles que pretendem transformar o Vaticano II no marco inaugural de uma nova Igreja Católica, um “super-concílio” criado ex nihilo.

No entanto, é preciso reconhecer que o Vaticano II apresenta sérias dificuldades para ser interpretado na linha de continuidade do magistério da Igreja, ainda que se admita um desenvolvimento orgânico na vida eclesiástica. A Igreja está na história, mas sua doutrina não pertence à história e sim ao Verbo Eterno. Com efeito, como diz Romano Amério em Stat Veritas, ao que vem depois compete demonstrar sua continuidade com o precedente. E para tanto, não bastam citações de autores antigos. Os protestantes e os jansenistas citam, em tom elogioso, a Santo Agostinho. Todavia, seria grosseiro equívoco dizer que pertencem à mesma estirpe doutrinária de Santo Agostinho. Apenas o citam para corromper-lhe o pensamento ou para se cobrirem com o prestigio de um autor universalmente acatado.

Quanto ao Vaticano II, são conhecidas as lutas internas, os episódios dramáticos dos embates entre os padres fiéis à tradição da Igreja e os inovadores. Estes, depois de fulminados por São Pio X, passaram a viver homiziados à espera de uma ocasião oportuna para dar um golpe e revolucionar a Igreja. Em 1923, Pio XI pensou em convocar um concílio que pudesse concluir os trabalhos do Vaticano I, suspenso em 1870, em virtude de problemas políticos. Foi desaconselhado pelo cardeal Billot que lhe disse:

Eis a razão mais grave, aquela que me parece militar absolutamente contra a convocação.

A retomada do Concílio é desejada pelos piores inimigos da Igreja, isto é, os modernistas, que já se apressam – como o atestam os indícios mais certos – a aproveitar os estados gerais da Igreja para fazer a revolução, o novo 1789, objeto dos seus sonhos e esperanças.

Inútil dizer que não o conseguirão, mas veremos dias tão tristes como os do final do pontificado de Leão XIII e do início de Pio X; veremos coisa ainda pior, e seria a destruição dos bons frutos da encíclica Pascendi que os reduzira ao silêncio.[1]

Mas, enfim, por um desígnio insondável da Providência, o concílio realizou-se. Os seus frutos não são os melhores. Os próprios entusiastas do Vaticano II reconhecem que a situação da Igreja, após o VII, não é brilhante. Há problemas de toda ordem. Reina uma confusão enorme entre os católicos, a corrupção doutrinal é espantosa. Paulo VI chegou a falar em auto-demolição da Igreja e na penetração da fumaça de Satanás no templo de Deus.

Quanto à existência de uma crise na Igreja após o concilio há um testemunho concorde e unânime dos católicos dotados de um mínimo senso critico. O problema está em estabelecer uma relação de causa e efeito entre a crise e o próprio VII. Alguns chegam a admitir que a crise resulta de um espírito revolucionário dos anos Sessenta que invadiu toda a sociedade, inclusive a Igreja. O problema não estaria no próprio concilio. Nas atas conciliares não haveria nenhum problema, nada que justificasse uma reviravolta na vida da Igreja, nenhuma concessão à heresia, ao espírito mundano anti-católico.

Ora, isto não corresponde à verdade dos fatos. Está solidamente documentado que durante o Concílio houve uma tentativa de harmonizar correntes teológicas antagônicas, um esforço de operar uma síntese que lançasse a Igreja a um patamar mais alto, permitindo-lhe descortinar novos horizontes para a humanidade. Esse problema nos levaria longe demais, porque envolve toda a questão do humanismo de Maritain e da negação da ordem sobrenatural na obra de de Henri de Lubac e karl Rahner.[2] A questão merece estudo mais aprofundado e excede o objetivo deste modesto artigo.

O famoso livro O Reno se lança no Tibre do padre Ralph Wiltgen SVD (Editora Permanência, Rio de Janeiro, 2007) faz uma reportagem interessante dos momentos críticos do VII, quando, em face de um confronto doutrinário, optava-se por uma solução de compromisso mediante a redação de textos ambíguos. Wiltgen cita o dominicano holandês Schillebeeckx que disse: “A maioria tinha recorrido a uma terminologia deliberadamente vaga e excessivamente diplomática e o próprio padre Congar tinha bem cedo protestado contra a redação deliberadamente ambígua de um texto conciliar.” (o.c. p. 245)

Um concílio que não lança anátemas, não define pontos doutrinários, é algo inédito na história da Igreja. Um concílio que tenta ignorar o principio de não contradição para formular uma teologia à maneira hegeliana não pode prosperar. Se chegasse a uma síntese resultante de um compromisso de todos os envolvidos em tal concilio, essa síntese seria uma ruína geral.

Portanto, não causa admiração que o VII cite com profusão o magistério de Pio XII. Isto, porém, não significa que o VII esteja na linha de continuidade do magistério do grande papa. Com efeito, Pio XII na Mystici Corporis, aprofundando a doutrina perene dos papas sobre a constituição da Igreja, sobretudo a Satis Cognitum de Leão XIII, diz: “Afastam-se da verdade divina aqueles que imaginam a Igreja como se não pudesse ser alcançada nem vista, como se fosse uma coisa “pneumática” (como de fato o dizem), pela qual muitas comunidades de cristãos, se bem que separados entre si pela fé, todavia seriam entre si unidos por um vínculo invisível.”

Ora, é fato irrefragável que a Lumen Gentium atenta contra essa doutrina com sua tristemente célebre expressão subsistit e seus desdobramentos no campo da “política ecumênica” pós-conciliar, tais como os jargões “comunhão imperfeita entre as igrejas irmãs” Que significa isso? Para onde nos querem conduzir?

Igualmente, Pio XII reitera solenemente na encíclica Divino Afflante Spiritu, de 30 de setembro de 1943, a doutrina tradicional da Igreja sobre a inerrância absoluta da Sagrada Escritura como decorrência necessária da sua inspiração divina. Ao contrário, o VII se exprime em termos dúbios a respeito e o Catecismo pós-conciliar categórico ao reduzir a inerrância bíblica à verdade salvífca. (Cf. CIC nº 136).[3]

Concilio Vaticano IIOutrossim, o Santo Oficio, sob o pontificado de Pio XII, condenou a doutrina que equipara os fins do matrimônio: o auxílio mútuo não se subordinaria ao fim primário, o bem da prole (Cf. DS. Nº 3838). Ao contrário, a Gaudium et Spes do VII ignora essa hierarquia de fins. O Código de Direito Canônico de 1917, no cânon 1013, era claríssimo nessa matéria. O novo Código, de 1983, no cânon 1055, diz simplesmente que o matrimônio está ordenado ao bem dos cônjuges e à geração e educação da prole.

As conseqüências de todas essa inovações doutrinárias, de todas essas reformas, são desastrosas e estão aí para quem quiser ver. A grande maioria dos católicos hoje são ecumenistas radicais, irenistas ou quase sincretistas. Dizem com todas as letras, com a consciência tranqüila, que todas as religiões são boas. Que “o importante é o amor”. Que o importante é que haja paz para que a gente tenha vida boa aqui na terra. No campo da moral familiar, o que existe é um verdadeiro escândalo, consentido e apoiado por grande parcela do clero e do episcopado. Diz-se abertamente que se pode evitar filho por qualquer meio. A família católica tradicional está praticamente liquidada. É uma vergonha o que se vê!

Na verdade, esta questão é perfeitamente esclarecida pela desolação litúrgica vivida pela Igreja após o VII. A liturgia é a expressão da doutrina da fé. Ela não pode sofrer dilacerações, rupturas sem que o dogma seja ferido. A doutrina não pode ser alterada sem que a liturgia seja desfigurada. Após a reforma litúrgica o cardeal Benelli, de Florença, declarou que a missa tradicional não podia ser autorizada porque ela traduzia uma eclesiologia ultrapassada. Quer dizer, a Igreja da democracia e da colegialidade, na qual se obscurece o sacerdócio hierárquico e se corrói a autoridade suprema do Vigário de Cristo, é incompatível com a liturgia tradicional que se opõe a essas heresias.

Ora, o cardeal Ratzinger prefaciou a obra de Mons. Klaus Gamber La Réforme Liturgique en question (Édition Sainte-Madeleine, 1992). Ratzinger diz que a reforma litúrgica foi uma devastação, sustentando assim a tese do autor que diz que a reforma litúrgica de Paulo foi mais radical que a de Lutero.

Como se vê, é muito dificultoso, para não dizer impossível, pretender que o VII não ofereça nenhum problema de interpretação dos seus documentos ou simplesmente pretender que todos seus ensinamentos estão na linha da tradição. Há, sim, uma ruptura, que é urgente sanar. Como fazê-lo? Roma tem sabedoria milenar e a assistência do Espírito Santo para encontrar a forma adequada. Confiando ao Instituto do Bom Pastor a missão de fazer uma crítica construtiva ao VII, a Santa Sé admite a existência do problema e dá um passo importante na busca de um remédio. No momento, basta verificar que o VII é um concílio atípico.

Ademais, todo o espírito pós-conciliar é completamente oposto ao espírito de Pio XII. João Paulo II, por ocasião do Jubileu do Ano 2000, promoveu aquele infeliz e controvertido pedido de perdão por supostos pecados cometidos pelos filhos da Igreja que lhe teriam desfigurado o rosto.[4] Denegriu assim a história da Igreja. Consta que o cardeal Ratzinger foi contra esse pedido de perdão. Pio XII, ao contrário, lamentava: “Ouço em torno de mim inovadores que querem desmantelar a Sagrada Capela, destruir a flâmula universal da Igreja, rejeitar seus ornamentos, dar-lhe remorsos de seu passado histórico. Eu, meu caro amigo, tenho a convicção de que a Igreja de Pedro deve assumir seu passado ou ela cavará a sua sepultura.”[5]

Cardeal discutem no Concilio.

Pio XII, como bem o reconheceu o papa Bento XVI, foi, sem dúvida, um grande papa. Governou a Igreja em período de grande turbulência, não só durante a segunda guerra mundial, mas arrostou os desafios do pós-guerra, quando no mundo ocidental começava a acentuar-se a tendência laicista da sociedade contemporânea, de uma democracia atéia universal. Não cedeu um milímetro em matéria doutrinal, não negou um artigo do direito público eclesiástico. As várias concordatas assinadas pela Santa Sé em seu tempo são provas históricas da sua fidelidade.[6] Além disso, salvou a Itália da ameaça comunista em 1946. Até hoje os católicos italianos recordam com grande veneração o trabalho de mobilização, verdadeira cruzada, contra o comunismo, encetada por Pio XII.

Seria uma bênção para toda a Igreja a elevação de Pio XII à honra dos altares. Eu mesmo, segundo testemunho de minha mãe, fui salvo quando bebê por sua intercessão. Uma asma fortíssima e renitente me deixou à beira da morte e minha mãe invocou o papa Eugênio Pacelli. Desde pequeno o cultuo privadamente como um santo. Não é justo dizer que ele está para o VII assim como, por exemplo, um São Leão Magno, um São Gregório Magno, um São Bernardo de Claraval, um Santo Tomás de Aquino estão para Trento ou para o Vaticano I.



[1] Apud Spadafora, Francesco, La tradizione contro il Concilio, Roma, 1989.

[2] Aos interessados em aprofundar o tema recomenda-se a leitura de De Lamennais a Maritain, de Julio Meinvielle, Buenos Aires, 1945; Getsemani, Cardinale Giusppe Siri, Roma, 1987. Para uma leitura propedêutica, O humanismo integral de Jacques Maritain, disponível em www.santamariadasvitorias.com.br. Cf. Documentos.

[3] O cardeal Albert Vanhoye, ex-secretário da Pontifícia Comissão Bíblica, em entrevista à revista 30 Dias, confirmou a novidade exegética. (Cf. ano XXVI, n.6/7 -2008).

[4] Cf. João Paulo II, Carta Apostólica, Tertio Millennio Adveniente, § 35.

[5] Mgr. Roche, Pie XII devant l’histoire, p. 52-53.

[6] A propósito, recordo um interessante artigo do jornalista Fernando Pedreira, um verdadeiro trabalho de filosofia da cultura, em que o articulista de formação liberal dizia que o grande derrotada da Segunda Grande Guerra Mundial não foi o nazifascismo mas a Europa tradicional representada por Pio XII, pela Espanha de Franco e o Portugal de Salazar.

novembro 24, 2008

Pio XII e os problemas modernos (VI): A mulher moderna.

O caráter da vida da mulher e a iniciação da cultura feminina eram inspirados, conforme a mais antiga tradição, pelo seu instinto natural que lhe atribuía como reino próprio de atividade a família, a não ser no caso de, por amor de Cristo, preferir a virgindade. Retirada da vida pública e à margem das profissões públicas, a jovem, como flor que cresce guardada e reservada, estava destinada por sua vocação a ser esposa e mãe. Junto da mãe aprendia os labores femininos, os cuidados e negócios da casa e tomava parte na vigilância dos irmãos e irmãs menores, desenvolvendo assim as forças, o engenho, e instruindo-se na arte e no governo do lar. [...] Hoje, pelo contrário, a antiga figura feminina está em rápida transformação. Podeis ver que a mulher, e, sobretudo a jovem, sai de seu retiro e entra em quase todas as profissões, até aqui exclusivo campo de ação e vida do homem. [1]

Pio XII

Digamos imediatamente que para Nós o problema feminino, tanto em seu complexo, como em cada um de seus múltiplos aspectos particulares, consiste todo na conservação e no incremento da dignidade que a mulher recebeu de Deus. [...] Em que consiste, portanto esta dignidade que a mulher tem de Deus?

Em sua dignidade de filhos de Deus, o homem e a mulher são absolutamente iguais, como também a respeito do fim último da vida humana, que é a eterna união com Deus na felicidade do céu. É glória imortal da Igreja ter colocado em luz e em honra esta verdade e haver livrado a mulher de uma degradante servidão contrária à natureza. Mas o homem e a mulher não podem manter e aperfeiçoar esta sua igual dignidade, senão respeitando e colocando em ato as qualidades particulares, que a natureza lhes concedeu a um e a outra, qualidades físicas e espirituais indestrutíveis, das quais não é possível mudar a ordem sem que a própria natureza sempre novamente a restabeleça. [...] Ainda mais. Os dois sexos, por sua própria qualidade particular, são ordenados um para o outro de tal modo que esta mútua coordenação exercita seu influxo em todas as múltiplas manifestações da vida humana social.

[...]

Em um como em outro estado [matrimônio ou vida religiosa] o dever da mulher aparece nitidamente traçado pelos lineamentos, pelas atitudes, pelas faculdades peculiares ao seu sexo. Colabora com o homem, mas no modo que lhe é próprio, segundo sua natural tendência. Ora, o ofício da mulher, sua maneira, sua inclinação inata, é a maternidade. Toda mulher é destinada a ser mãe; mãe no sentido físico da palavra, ou em um significado mais espiritual e elevado, mas não menos real.

Reação à morte do Papa Pio - New York, 1958.

Que desde muito tempo os acontecimentos públicos tenham-se desenvolvido de modo não favorável ao bem real da família e da mulher é um fato inegável. E para a mulher, voltam-se vários movimentos políticos, para ganhá-la à sua causa. Alguns sistemas totalitários colocam diante de seus olhos magníficas promessas; igualdade de direitos com os homens, proteção das gestantes e das parturientes, cozinha e outros serviços públicos comuns que libertarão do peso das obrigações domésticas. [...] Permanece, porém, o ponto essencial da questão, a que já acenamos: a condição da mulher com isto se tornou melhor? A igualdade de direitos com o homem, trazendo o abandono da casa onde ela era Rainha, sujeita a mulher ao mesmo peso e tempo de trabalho. Desprestigiou-se a sua verdadeira dignidade e o sólido fundamento de todos seus direitos, quer dizer, perdeu-se de vista o fim desejado pelo Criador para o bem da sociedade humana e sobretudo pela família. Nas concessões feitas à mulher é fácil de perceber, mais que o respeito de sua dignidade e de sua missão, a mira de promover a potência econômica e militar do Estado totalitário, do qual tudo deve inexoravelmente ser subordinado.

[...]

Observemos a realidade das coisas.

Eis a mulher que, para aumentar o salário do marido, vai ela também trabalhar na fábrica, deixando durante sua ausência a casa no abandono, e esta, talvez já suja e pequena, torna-se também mais miserável pela falta de cuidado; os membros da família trabalham cada um separadamente, nos quatro ângulos da cidade e em horas diversas: quase nunca se encontram juntos, nem para o jantar, nem para o repouso depois das fadigas do dia, ainda menos para as orações em comum. Que permanece da vida de família? E quais atrativos que podem ser oferecidos aos filhos?

A estas penosas conseqüências da falta da mulher e da mãe no lar, ajunta-se outra ainda mais deplorável: ela diz respeito à educação, sobretudo da jovem e sua preparação para a vida real. Habituada a ver a mãe sempre fora de casa e a própria casa tão triste no seu abandono, ela será incapaz de encontrar aí qualquer fascínio, não provará o mínimo gosto pelas austeras ocupações domesticas, não saberá compreender a nobreza e a beleza das mesmas, nem desejará um dia dedicar-se a isso, como esposa e mãe.

Senhoras rezam pela alma do Papa Pio XII.

Isto é real em todos os graus sociais, em todas as condições de vida. A filha da mulher mundana, que vê todo governo da casa deixado nas mãos de pessoas estranhas e a mãe ocupada em ocupações frívolas, em fúteis divertimentos, seguirá seu exemplo, quererá emancipar-se o quanto antes, e segundo uma bem triste expressão, “viver a sua vida”. Como poderia ela conceber o desejo de se tornar um dia uma verdadeira “domina”, isto é, uma senhora da casa em uma família feliz, próspera e digna? Quanto às classes trabalhadoras, obrigadas a ganhar o pão cotidiano, a mulher, se bem refletisse, compreenderia talvez como não poucas vezes o suplemento de ganho, que ela obtém trabalhando fora de casa, é facilmente devorado pelas despesas ou também pelos desperdícios ruinosos para a economia familiar. A filha, que vai também ela trabalhar em uma fábrica, em uma empresa ou em um escritório, perturbada pelo mundo agitado em meio ao qual vive, cegada pelo ouropel do falso luxo, desejosa de tristes prazeres, que distraem mas não saciam nem repousam, naquelas salas de “revistas” ou de danças, que pululam em todo lugar, muitas vezes com intentos de propaganda de parte e corrompem a juventude, tornando-se “mulher de classe”, desprezadora das velhas normas “oitocentescas” de vida, como poderia ela não encontrar a modesta moradia doméstica inóspita e mais tetra daquilo que na realidade é? Para torná-la agradável, para desejar estabelecer um dia a dela própria, deveria saber compensar a impressão natural com a seriedade da vida intelectual e moral, com o vigor da educação religiosa e do ideal sobrenatural. Mas qual formação religiosa recebeu ela em tais condições?

E não é tudo. Quando, com o transcorrer dos anos, sua mãe, envelhecida pelo tempo, enfraquecida e desgastada pelas fadigas superiores às suas forças, pelas lágrimas, pelas angústias, a verá voltar à casa à tarde, em horas talvez bem avançadas, longe de ter nela um auxílio, um sustentáculo, deverá ela mesma cumprir junto da filha incapaz e não habituada às obras femininas e domésticas, todas as obrigações de uma serva. Nem mais feliz será a sorte do pai, quando a idade avançada, as doenças, os achaques, as desocupações obrigarão a depender para seu mesquinho sustento da boa ou má vontade dos filhos. A augusta, a santa autoridade do pai e da mãe, ei-las descoroadas de sua majestade. Diante das teorias e dos métodos que, por diferentes caminhos, arrancam a mulher de sua missão, e com a lisonja de uma emancipação desenfreada, ou na realidade de uma miséria sem esperança, nós ouvimos o grito de apreensão que invoca, o mais possível, sua presença ativa no lar. [...] A sorte da família, a sorte da convivência humana, estão em jogo; estão em vossas mãos, “tua res agitur!”. Toda mulher, portanto, sem exceção, tem o dever, o estrito dever de consciência, de não permanecer ausente, de entrar em ação (nas formas e nos modos condizentes às condições de cada qual), para conter toda a corrente que ameaça o lar, para combater as doutrinas que lhe corroem os fundamentos, para preparar, organizar e cumprir sua restauração.

Fiéis rezam pela alma do Papa Pio XII

[...] Ela tem de concorrer com o homem para o bem da civilização, na qual está em dignidade igual a ele. Cada um dos dois sexos tem o dever de tomar a parte que lhe cabe segundo sua natureza, seus caracteres, suas atitudes físicas, intelectuais e morais. Ambos os sexos tem o dever e o direito de cooperar para o bem total da sociedade, da pátria, mas está claro que, se o homem é por temperamento mais levado a tratar dos negócios externos, os negócios públicos, a mulher tem, geralmente falando, maior perspicácia, tato mais fino para conhecer e resolver os problemas delicados da vida doméstica e familiar, base de toda a vida social, o que não tolhe que algumas saibam realmente dar demonstração de grande perícia também no campo da atividade pública. [2]

[1] Discurso à Juventude Feminina de Ação Católica, 24 de abril de 1943.

[2] Discurso às mulheres de Ação Católica, 21 de outubro de 1945.

outubro 23, 2008

Entraves no relacionamento entre Santa Sé e Israel.

Nota: A mera publicação da notícia não significa adesão a todas as idéias nela expostas.

A decisão do Papa Bento XVI de cancelar uma viagem a Israel lança nova luz numa crescente controvérsia sobre se o finado o Papa Pio XII deve ser beatificado. O atual Papa expressou apoio à beatificação, mas colocou esse plano em espera, já que o Papa Pio encontra-se sob pesadas críticas por fazer muito pouco para salvar Judeus durante a segunda guerra mundial.

Uma diretíssima acusação contra o Papa Pio e sua falha em socorrer os Judeus é encontrada no museu israelense Yad Vashem, que recorda o Holocausto. O Vaticano expressou seu descontentamento sobre uma exposição particular no museu, e um oficial papal diz que isso está ligado ao cancelamento da viagem. Outro oficial do Vaticano diz que o problema é mais complicado que um título numa parede de museu. Israel, que notou o ‘papel histórico controverso’ do Papa Pio, encorajou o Papa Bento a fazer a visita, apesar da controvérsia.

Emoções correm profundamente em ambos os lados do assunto. O Papa Bento sustentou que o Papa Pio ajudou os Judeus em face das ameaças Nazistas e Fascistas num “modo discreto e silencioso”, a fim de evitar tornar a situação deles pior. O Papa Pio tem outros defensores também. Como reportou o The Times:

Paolo Mieli, o historiador e editor de Corriere della Sera, que é Judeu, também defendeu Pio XII como um ‘grande Papa’ numa entrevista ao jornal do Vaticano L’Osservatore Romano. Ele disse que pessoas vêm procurando evidências de que Pio foi culpado por se manter calado durante o Holocausto desde 1960 e nada veio à tona”.

Ainda La Repubblica, um jornal Italiano, noticiou no fim de semana que uma nova evidência vinda de arquivos Britânicos e Americanos apóia as críticas Israelenses ao Papa Pio. Jornais Italianos também trouxeram importantes entrevistas com o antigo chefe da comunidade Judia Italiana, que declara que beatificar o antigo Papa seria “abrir uma ferida que seria difícil curar”.

A poeira não dá sinais que abaixará logo e ameaça desatar as ligações estreitas entre o Vaticano e os Judeus, que o predecessor do atual Papa, João Paulo II, estimulou durante seu reino. Mas o Papa Bento não é alheio a controvérsias, tendo magoado Muçulmanos há poucos anos, quando citou uma polêmica passagem sobre Muhammad. Deveria o corrente golpe demovê-lo de viajar a Israel, para não mencionar a aspiração de beatificar o Papa Pio?

outubro 23, 2008

Pio XII e os problemas modernos (V): Os fins do matrimônio.

Os “valores da pessoa” e a necessidade de respeitá-los é um tema que desde dois decênios ocupa sempre mais os escritores. Em muitas de suas elucubrações também o ato especificamente sexual tem seu lugar assinalado para fazê-lo servir à pessoa dos cônjuges. O sentido próprio e mais profundo do exercício do direito conjugal deveria consistir nisto: que a união dos corpos fosse expressão e atuação da união pessoal e afetiva.

Artigos, capítulos, livros inteiros, conferências, especialmente sobre a “técnica do amor”, difundem estas idéias e as ilustram com advertência aos jovens esposos como guia no matrimônio, para que eles não descurem, por estultice ou pudor mal entendido ou por infundado escrúpulo, aquilo que Deus, criador também das inclinações naturais, lhes oferece. Se deste completo dom recíproco dos cônjuges surge uma vida nova, ela é um resultado que fica fora ou ao máximo à periferia dos “valores da pessoa”, resultado que não se nega, mas não se quer que esteja no centro das relações conjugais.

Ora, se esta apreciação relativa não fizesse senão acentuar o valor da pessoa dos esposos, mais do que o valor da prole, poder-se-ia a rigor deixar de parte tal problema; mas aqui se trata pelo contrário de uma grave inversão da ordem dos valores e dos fins colocados pelo próprio Criador. Encontramo-nos diante da propagação de um complexo de idéias e de afetos, diretamente opostos à clareza, à profundidade e à seriedade do pensamento cristão.

Ora, a verdade é que o matrimônio, como instituição natural, em virtude da vontade do Criador, não tem como fim primário e íntimo o aperfeiçoamento pessoal dos esposos, mas a procriação e a educação da nova vida. Outros fins, embora também esses visados pela natureza, não se encontram no mesmo grau do primeiro, e de modo algum lhe são superiores, mas, pelo contrário, são essencialmente subordinados ao mesmo. Isto vale para cada matrimônio, ainda que infecundo; como de cada olho podemos dizer que foi destinado e formado para ver, ainda que em casos anormais, por especiais condições internas e externas, não é mais apto para a percepção visual.

[...] Para corrigir as opiniões contrastantes, a Santa Sé com um Decreto público pronunciou não se poder admitir a sentença de alguns autores recentes, os quais negam que o fim primário do matrimônio seja a procriação e a educação da prole, ou ensinam que os fins secundários não são essencialmente subordinados ao fim primário, mas equivalentes e dele independentes.

Pio XII, Discurso aos Esposos – 29 de outubro de 1951

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 810 other followers