Posts tagged ‘Roberto de Mattei’

dezembro 5, 2011

A Tradição é a resposta, desde sempre, aos problemas da Igreja.

O Concílio Vaticano II produziu documentos, mas não é, ele mesmo, um documento: como todo Concílio é, antes de tudo, um evento, um momento da história da Igreja que, como tal, se coloca em um nível factual e não veritativo 1. Enquanto o dogma formula uma verdade que, uma vez formulada, transcende, por assim dizer, a história, o Concílio, ou melhor, os Concílios nascem e morrem na história, e pelos historiadores podem ser julgados”. (R. de Mattei)

Na capa do último livro de Roberto de Mattei 2 está São Jerônimo 3 (347-419/420); trata-se do célebre afresco ‘São Jerônimo em seu estúdio’ (c. 1480), de Domenico Ghirlandaio 4 (1449-1494), guardado na Igreja de Todos os Santos, em Florença. Os livros abertos e os pergaminhos, com escritas em grego e hebraico, remetem à sua atividade: foi o primeiro tradutor da Bíblia do grego e do hebraico para o latim, conhecida como Vulgata. Ghirlandaio quis representá-lo absorto em pensamentos, enquanto dirige seu olhar para quem o observa. Este Doutor da Igreja, garante da Tradição Católica, olha para nós, nos perscruta e, com o rosto apoiado na mão esquerda, enquanto a outra mão está em atitude de escrever, parece dizer: “mas o que fizeram da Tradição que vos entregamos?”.

O livro traz um título decididamente interessante: Apologia da Tradição. Pós-escrito em O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita (Lindau, pp 164, € 16,00). Com base na teologia mais segura, como o é aquela da Escolástica (e de São Tomás de Aquino em particular), da Contrarreforma e da Escola Romana dos séculos XIX e XX, a qual se estende até o XXI graças à extraordinária figura de Monsenhor Brunero Gherardini5, e com base no Magistério dos Sumos Pontífices, de Mattei se faz repetidor da posição da Tradição da Igreja, aquela que a torna Santa e Imaculada. Este estudo é a melhor resposta para aqueles que buscaram confutar, com argumentos pobres e às vezes mesquinhos, a obra O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita (Lindau), que valeu ao seu autor o Prêmio Acqui Storia 2011.

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novembro 9, 2011

Depois de Assis III. Algumas reflexões.

por Roberto de Mattei

Como signatário de um apelo a Sua Santidade Bento XVI para que voltasse atrás da decisão de celebrar o 25º aniversário do primeiro encontro inter-religioso de Assis, havida a reunião, não posso deixar de manifestar algumas reflexões a respeito.

Seja qual for o juízo que se queira dar sobre a terceira reunião de Assis, deve-se enfatizar que esta representou uma objetiva correção de rota em relação às duas reuniões precedentes, especialmente quanto ao perigo de sincretismo. Deve ser lido, a este respeito, com atenção, o discurso do Cardeal Raymond Leo Burke ao ‘Congresso Peregrinos da Verdade para Assis’, realizado no dia 1º de outubro passado em Roma, o qual oferece uma confiável chave para a interpretação do evento.

Na ‘jornada de reflexão, diálogo e oração pela paz e a justiça no mundo’, que ocorreu em 27 de outubro, não houve nenhum momento de oração por parte dos presentes, nem em comum nem em paralelo, como ocorrera em 1986 com os vários grupos religiosos reunidos em diversos lugares da cidade de São Francisco. É sabido, em qualquer caso, que o então cardeal Ratzinger evitou participar da reunião, e a sua ausência foi interpretada como uma tomada de distância dos equívocos que a iniciativa era destinada a produzir.

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novembro 3, 2011

Prof. Roberto de Mattei, “… ‘regra da fé’ não é nem o Concílio Vaticano II, nem o Magistério vivo contemporâneo, mas a Tradição, ou seja, o Magistério perene”.

Entrevista com o professor Roberto de Mattei – Um docente católico é ‘indigno’ de ser premiado

Na atual cultura europeia, o conceito de liberdade de opinião adquiriu, também, infelizmente, em campo católico, matizes tipicamente iluministas e ideológicos. Em nome da defesa da liberdade “de todos” se procura impedir que aqueles que defendem ideias consideradas incompatíveis com esta liberdade as possam expressar. Isto tem uma inata valência antirreligiosa e principalmente anticatólica, já que a Fé romana tem a certeza das Verdades que proclama, e isto é percebido pelos relativistas como dogmatismo intolerante, a ser combatido em todas as suas expressões.

Neste quadro se insere o caso “de Mattei – Acqui Storia”, que apareceu nos principais jornais italianos: desde o “Corriere della Sera” ao “Il Giornale”, de “la República” ao “Libero”. O Prêmio Acqui Storia, chegado este ano à 44ª edição (a cerimônia de premiação será realizada em Acqui Terme, em 22 de outubro próximo), tornou-se o mais importante reconhecimento dedicado à História, não apenas em nível nacional, mas na Europa, e está dividido em três seções: histórico-científica, histórico-divulgadora e romance histórico. O Presidente do Prêmio, Guido Pescosolido, demitiu-se de forma polêmica contra a escolha de premiar o ensaio histórico-científico O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita (Lindau Ed.) do Professor Roberto de Mattei, Católico com C maiúsculo e vice-presidente do CNR (Conselho Nacional de Pesquisas). Motivo: “Trata-se da obra de um militante”, no entanto havia declarado: “respeito todas as ideias”… Rocco Buttiglione, ex-ministro da Cultura, acusou Pescosolido de continuar uma ‘perseguição pessoal’ contra de Mattei. Cada estudioso lê e interpreta os eventos com base em sua própria bagagem cultural; mas isto não exclui de realizar obras sérias e rigorosas, sem manipulações, respeitando a objetividade dos fatos.

No ‘Corriere della Sera’ (3-10-2011) de Mattei escreveu: “Estou muito longe de Giuseppe Alberigo e de Alberto Melloni como orientação cultural, mas reconheço que desenvolveram sobre o Vaticano II um trabalho científico de primeira categoria. Depois, o juízo deles sobre o Concílio é oposto ao meu, mas isso é dialética normal entre históricos de diferentes procedências”. Justamente Melloni, no ‘Corriere della Sera’, reconheceu o valor historiográfico e crítico da obra do de Mattei. Declarou (‘Il Giornale’, 3-10-2011) o assessor de Cultura de Acqui Terme, ao qual compete a organização do Prêmio: “O ensaio de de Mattei não foi escolhido com base em considerações ideológicas, tanto é verdade que os jurados do prêmio pertencem a diferentes escolas científicas e tradições culturais”.

Nós entrevistamos o Professor Roberto de Mattei.

Professor, depois de estar entre os finalistas do prêmio PEN Club, seu livro ‘O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita’ ganhou o Premio Acqui, o prêmio histórico italiano de maior prestígio. Até mesmo neste caso, não faltaram as polêmicas, inclusive com a renúncia do Presidente do Júri…

O Prêmio Acqui Storia foi atribuído ao meu livro exclusivamente pelo seu valor científico, independentemente de valorações ideológicas de qualquer natureza, como explicou o assessor Carlos Sburlati, mas o prof. Guido Pescosolido, presidente do júri, tão logo se esboçou a possibilidade de meu sucesso, pediu demissão. Poderia ter expressado um voto contrário, como se costuma fazer neste tipo de premiação, mas com sua demissão e as sucessivas declarações à imprensa quis dar a seu gesto o significado de um protesto contra a minha posição de ‘católico militante’ (assim me definiu no ‘Corriere della Sera’). Observo que qualquer católico é, ou deveria ser, ‘militante’, como membro da Igreja, que assim se define justamente porque aqui na terra combate. Mas o que os ‘liberais’ como Pescosolido não aceitam, a ponto de ‘virar a mesa em que se joga’, é que ‘católicos militantes’ possam obter públicos reconhecimentos ou estar em instituições de relevo. Pode-se conceder a eles a liberdade de expressão somente sob a condição de que a exprimam na semi-clandestinade dos círculos tradicionalistas, em um estado de substancial dhimmitude[1]. Estamos diante de uma clara expressão do ‘totalitarismo liberal’.

Em que sentido o senhor fala de ‘totalitarismo’?

O totalitarismo é caracterizado pela proibição de fazer pergunta, porque exige não homens, mas máquinas, que ajam de modo mecânico, privados de critérios de juízo, de acordo com a vontade de seus superiores, nos quais se anulam. O totalitarismo é estranho ao Cristianismo, que certamente conhece a obediência ao superior, mas sempre escolhida, nunca imposta, como acontece nos regimes totalitários. A Idade Média nunca foi totalitária porque o soberano se curvava à lei natural e divina, e às tradições e aos costumes do reino. Foi a Revolução Francesa que impôs a todo cidadão uma obediência à Revolução desvinculada de qualquer critério transcendente. Foi a Revolução Francesa que introduziu a lei dos ‘suspeitos’, matriz de todos os totalitarismos. De acordo com essa lei, as pessoas eram presas e condenadas, não por crimes objetivos, mas por aqueles que o suspeito poderia ter cometido como resultado de sua educação, de suas amizades, de suas simpatias ideológicas. O mesmo princípio guiou os “expurgos” de Stalin: a condenação era decretada não contra quem tivesse violado a lei, mas contra quem quer que não manifestasse plena adesão, cego entusiasmo, obediência servil à Revolução Comunista e a seu líder. Esta mentalidade totalitária inspira a prática do ‘politicamente correto’ das sociedades democráticas. Existem alguns temas que não podem ser tratados, sob pena não de prisão física, mas do isolamento psicológico e moral do ‘suspeito’. A mesma mentalidade tem penetrado no seio da Igreja, em alguns de seus expoentes, laicos e eclesiásticos: ela se manifesta, hoje, através da proibição de colocar questionamentos sobre o Concílio Vaticano II.

O senhor se refere às críticas feitas a seu livro também em alguns círculos católicos?

Nenhum historiador pode imaginar que seu trabalho seja recebido sem discussão ou controvérsias, mas essas discussões acontecem, geralmente, no plano em que o historiador se situa: o dos fatos que narra. Não teria imaginado que meu livro fosse, no entanto, rejeitado por alguns em nome desses mesmos preconceitos ideológicos dos quais Bento XVI nos convida a nos livrarmos. Assim foi: em alguns jornais católicos meu livro foi acusado de ser ‘tendencioso’ e, portanto, inaceitável, porque dele parece emergir um juízo negativo em relação ao Concílio Vaticano II. O Concílio, tem sido escrito e repetido, é um ato supremo e infalível da Igreja e como tal não pode ser colocado em discussão: quem o discute se coloca, por isso mesmo, fora da Igreja.

Com esse incrível sofisma não só o meu estudo, mas qualquer livro, artigo ou afirmação que, respondendo ao chamado do Papa Bento XVI, no seu discurso de 20 de dezembro de 2005, queira colocar questionamentos sobre o Concílio, ou ao pós-Concílio, é imediatamente silenciado sob pena de excomunhão, se não canônica, ao menos psicológica, moral e midiática. Quem levanta questões sobre o Vaticano II é ‘suspeito’ de cisma e heresias, excluído dos salões eclesiásticos, isolado nas dioceses, nas paróquias, nas associações. Pelo contrário, aqueles que, em nome do Concílio Vaticano II, avançam teses ousadas e sem escrúpulos, às vezes heréticas ou perto da heresia, é convidado à mesa eclesiástica, tratado com o máximo respeito, considerado um interlocutor digno de atenção.

Não lhe surpreende que essas críticas tenham vindo sobretudo de católicos ‘neoconservadores’?

É verdade. As mais fortes críticas, de fato, vieram de círculos católicos que eu não gostaria de chamar de ‘neoconservadores’ porque me pareceria errado em relação aos verdadeiros conservadores, mas sim ‘neocentristas’ ou ‘neoconciliares’. São aqueles católicos que, para impor a própria hegemonia, brandem o ‘Magistério’ contra a Tradição da Igreja, propondo-se, em seguida, como os únicos intérpretes deste efêmero e magmático Magistério, mesmo que nunca infalível e nunca de definição. Outra característica deles é o complexo de inferioridade para com a cultura secular, que consideram sempre mais ‘respeitável’ e ‘científica’ do que aquela ‘tradicionalista’. São minimalistas, ou se se preferir ‘catacumbalistas’, porque aceitam, em última instância, seu destino catacumbal.

A Sua obra parece contrapor-se de maneira clara também ao clichê ‘tradicional’ sobre o Concílio Vaticano II, encarnada pela chamada Escola de Bolonha. Pode-se falar de uma fenda definitiva na homogeneidade quase absoluta da leitura ‘bolognese’ da Assis[2] pastoral?

A ‘Escola de Bologna’, depois da morte de Giuseppe Alberigo, é representada hoje por Alberto Melloni e alguns outros poucos alunos, enquanto se está formando uma nova escola em vez disso, que gosto de chamar de ‘romana’, em homenagem à grande escola teológica de que Mons. Brunero Gherardini é hoje ilustre representante. O termo Roma obviamente não é geográfico, ao contrário do de Bolonha, mas expressa a fidelidade destes autores ao perene ensinamento da Cátedra de Pedro. A esta escola ‘romana’ atribuiria o excelente livro recém publicado por Alessandro Gnocchi e Palmaro Mario: A Bela Adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque despertará (Vallecchi Ed.), um livro que tem o mérito de desenvolver, em um modo brilhante e acessível ao grande público, questões importantes, tais como a Revolução da linguagem do Vaticano II.

Como reagem os estudantes universitários a essas novas pesquisas historiográficas? Há alunos laureados e laureandos que desejam aprofundar o sulco traçado pelo senhor?

Serão sobretudo os jovens a desenvolver e aprofundar os temas levantados pelo meu livro. Há ainda muitos arquivos para explorar, penso principalmente nos dos Países do Leste, e muitos diários para trazer à luz, tais como os dos Cardeais Felici e Ottaviani, cuja existência é certa, mas ainda mantidos em segredo. O problema real, no entanto, mais do que a aquisição de novos documentos é a discussão sobre o que é já conhecido. Esta discussão o Papa a abriu, a solicitou, a apreciou, como o confirmaram seus atos depois do discurso de 2005: refiro-me ao Motu Proprio Summorum Pontificum, com a qual devolveu a livre cidadania ao Rito Romano antigo, e à remissão da excomunhão aos quatro bispos consagrados por Mons. Marcel Lefebvre. A esta discussão eu pretendi dar uma contribuição, escrevendo uma história que, como tal, se colocasse ao nível dos fatos, buscasse a verdade do que houve no Concílio, para que, finalmente, discutindo-se isso, se soubesse do que fala, e o soubessem principalmente os jovens, aqueles que nasceram depois do Concílio Vaticano II e que o consideram muitas vezes um evento mítico, mais do que um fato histórico. É sobretudo para os jovens que o meu livro foi escrito, para ajudá-los a pensar, a discutir, a se situar na perspectiva sugerida por Bento XVI.

O senhor pensa em dedicar outros estudos ao XXI Concílio ecumênico da Igreja Católica?

Será lançado em novembro, pela Lindau editora, um novo livro meu sobre a Tradição da Igreja, no qual não deixarei de responder aos problemas historiográficos e teológicos levantados pelos críticos da minha história do Concílio.

Esta fissura no edifício conciliar, que alguns definiram o triunfo da Revolução na Igreja, preludia, em sua opinião, a um seu colapso? E, em caso afirmativo, quando?

O Concílio Vaticano II, considerado como evento histórico, e para além até mesmo de uma necessária valoração teológica de seus documentos, foi uma verdadeira revolução, não por acaso definida o ‘89 [3] da Igreja Católica. Como qualquer revolução, ele construiu um edifício destinado a ruir. Isto será feito abruptamente, e o nosso trabalho é o de não nos deixar esmagar pelas ruínas, que não serão as da Igreja, mas de homens e de estruturas de Igreja.

O senhor acredita que a Tradição, após a embriaguez do mito do aggiornamento [4], possa retornar a ter seu lugar de direito na Igreja?

A Tradição não é o passado, é o Depósito perene e sempre vivo da Fé e dos costumes da Igreja. Seu papel reemergirá, em minha opinião, com força sempre maior, como é natural que aconteça nos tempos de crise. A ‘hermenêutica da continuidade’, evocada por Bento XVI, não pode ser entendida se não como uma interpretação do Concílio Vaticano II à luz da Tradição, ou à luz do ensinamento divino-apostólico que perdura em todos os tempos e nunca se interrompe. Na Igreja, de fato, a ‘regra da Fé’ não é nem o Concílio Vaticano II nem o Magistério vivo contemporâneo, mas a Tradição, ou seja o Magistério perene, que constitui, com a Sagrada Escritura, uma das duas fontes da Palavra de Deus e usufrui da especial assistência sobrenatural do Espírito Santo.

Cristina Siccardi

Fonte: MessaInLatino.it via Una Fides

Tradução: Giulia d’Amore di Ugento.

* * *

[1] NdTª.: Neologismo francês derivado do árabe dhimmi e se refere ao status jurídico reconhecido aos não-muçulmanos em um país governado pelo direito muçulmano. Aqui quer expressar que os católicos, no mundo moderno, estão em uma relação de inferioridade em relação aos modernistas; reconhece-se-lhes o direito, mas devem exercê-lo quase que clandestinamente.

[2] NdTª.: Assis, aqui se refere à sessão conciliar. Houve quatro assises.

[3] NdTª.: Referência a 1789, ano da Revolução Francesa.

[4] NdTª.: Aggiornamento (atualização) é um termo italiano utilizado durante o Concílio Vaticano II e que o Papa João XXIII popularizou como expressão do desejo de que a Igreja Católica saísse atualizada do Concílio Vaticano II. Em outras palavras, o aggiornamento é a adaptação e a nova apresentação dos princípios católicos ao mundo atual e moderno, sendo por isso um objetivo fundamental do Concílio Vaticano II. O documento conciliar Sacrosanctum Concilium resume o espírito do aggiornamento da seguinte maneira: “fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja“.

maio 10, 2011

“Um Concílio também pode cometer erros”.

Resposta às críticas de “Avvenire” e de “L’Osservatore Romano”

por Roberto de Mattei

Tradução: Fratres in Unum.com

O discurso de Bento XVI à Cúria Romana, em 22 de dezembro de 2005, abriu um debate sobre o Concílio Vaticano II, do qual são expressões recentes os livros de Mons. Brunero Gherardini e o importante congresso dos Franciscanos da Imaculada, ocorrido em Roma, de 16 a 18 de dezembro de 2010, além do meu estudo “O Concílio Vaticano II. Uma história jamais escrita”. (Lindau, Turim 2010).

O convite do Papa de interpretar os documentos do Vaticano II de acordo com uma “hermenêutica da continuidade”, de fato, estimulou de maneira decisiva o debate sobre o Concílio de modo diferente de como fez a “escola de Bolonha”, que o apresentou em termos de ruptura e descontinuidade com os dois milênios de tradição da Igreja.

Esperava que nossas contribuições, motivadas unicamente por um sincero desejo de responder ao chamado do Santo Padre, fossem acolhidas, se não com entusiasmo, ao menos com interesse, que fossem discutidas cientificamente e não rechaçadas a priori. No que diz respeito ao meu livro, por exemplo, esperava uma discussão histórica séria nas revistas especializadas.

Em vez disso, nos diários ligados às instituições católicas me respondem Massimo Introvigne, membro da Firma de Advocacia Jacobacci Associados, sociólogo das minorias religiosas, hoje representante do governo italiano na OCSE, e o arcebispo Agostino Marchetto, 30 anos de carreira diplomática sobre os ombros, e, ademais, na primeira fila por quase dez anos na defesa dos migrantes, dos ciganos, clandestinos, como secretário para a pastoral dos migrantes.

Nem Mons. Marchetto, nem o Dr. Introvigne, apesar de seus méritos eclesiásticos ou profissionais, tiveram o tempo de ir a bibliotecas ou arquivos históricos; nenhum dos dois é historiador por profissão. E ambos, em seus artigos, publicados, respectivamente, em “Avvenire” de 1 de dezembro de 2010 e em “L´Osservatore Romano” de 14 de abril de 2011, rechaçam meu livro de um ponto de vista histórico, mas ideológico.

Introvigne define meu livro como “uma autêntica suma das teses anticonciliaristas”, que “lamentavelmente volta a propor, uma vez mais, a hermenêutica da ruptura que Bento XVI denuncia como danosa”. Marchetto o define como uma história “ideológica”, “de tendência extremista”, “polarizada e partidária” como a orquestrada pela escola de Bolonha, se bem que de tendência contrária.

A crítica de Marchetto e Introvigne parece ter uma só finalidade: encerrar antecipadamente o debate que Bento XVI abriu e convidou a desenvolver. [...]

Creio, ao contrário, que se possa discutir o Concílio Vaticano II no plano histórico, da mesma maneira que discutiram sempre os historiadores da Igreja.

Dirigindo-se a eles, em 1889, Leão XIII escrevia que “aqueles que a estudam não devem nunca perder de vista que a Igreja encerra um conjunto de fatos dogmáticos cuja fé é obrigatória, e que ninguém pode pôr em dúvida [...]. Não obstante, já que é a Igreja, que prossegue em meio aos homens a vida do Verbo Encarnado, compõe-se de um elemento divino e de um elemento humano, este último deve ser exposto por mestres e estudado pelos discípulos com grande probidade. Como diz o livro de Jó: “Acaso Deus tem necessidade de nossas mentiras?” (Jo 13, 7)

O historiador da Igreja — prossegue Leão XIII — será mais eficaz em fazer ressaltar sua origem divina, superior a todo conceito de ordem puramente terrestre e natural, na medida em que mais tiver sido leal em não dissimular nada dos sofrimentos que os erros de seus filhos e, às vezes, também de seus ministros, causaram no curso dos séculos a esta Esposa de Cristo. Estudada assim, a história da Igreja também por si só constitui uma magnífica e convincente demonstração da verdade e do aspecto único do cristianismo“.

A Igreja é indefectível e, no entanto, em sua parte humana, pode cometer erros e estes erros, estes sofrimentos, podem ser provocados, diz Leão XIII, por seus filhos e também por seus ministros. Mas isso não diminui a grandeza e a indefectibilidade da Igreja. A Igreja, diz Leão XIII, abrindo aos estudiosos os arquivos vaticanos, não teme a verdade.

Uma verdade que o historiador busca no âmbito dos fatos, enquanto o teólogo a busca nos princípios: mas não existe uma verdade histórica que se oponha a uma verdade teológica. Há uma única verdade, que é Cristo mesmo, fundador e cabeça do Corpo Místico que é a Igreja; e a verdade sobre a Igreja é a verdade sobre Cristo e de Cristo, no encontro com Ele, que é sempre o mesmo, ontem, hoje e sempre.

Meu livro nasce de um profundo amor à Igreja, a seu magistério e a suas instituições, “in primis” ao papado. E meu amor pelo papado quer ser tão grande de modo a não se deter no Papa atual, Bento XVI, a quem me sinto profundamente ligado, mas a buscar por detrás do homem a instituição que ele representa. É um amor que quer abraçar, com este Papa, a todos os Papas em sua continuidade histórica e ideal, porque o Papa, para um católico, não é um homem, é uma instituição de mais de dois milênios; não é aquele Papa, mas o Papado, é a série ininterrupta dos vigários de Cristo, desde São Pedro ao pontífice reinante.

E então, não há melhor modo de expressar a própria adesão ao Papa e à Igreja que servir, em todos os campos, à verdade, porque não há nenhuma verdade, histórica, científica, política, filosófica que possam jamais ser impugnada contra a Igreja.

Não devemos, pois, temer dizer a verdade sobre o Concílio Vaticano II, vigésimo primeiro da história da Igreja. Enfatizo: “vigésimo primeiro”. O Concílio Vaticano II não foi nem o primeiro nem o último Concílio na história da Igreja: foi um ponto, foi um momento da história da Igreja.

Nesta história houve vinte e um Concílios, hoje considerados ecumênicos. Alguns destes são inesquecíveis: o primeiro, de Nicéia, que definiu nosso “Credo”, depois o Concílio de Trento, o Concílio Vaticano I. Hoje se esquecem outros Concílios, o que não significa que não tenham sido Concílios autênticos, supremas expressões do magistério da Igreja.

Mas um Concílio entra na história pelos documentos que produz. No século XVI houve dois Concílios: o V Concílio Lateranense (1512-1517) e o Concílio de Trento.  A única definição dogmática do Concílio Lateranense foi aquela segundo a qual a alma humana é imortal; o Lateranense foi, sob certos aspectos, um Concílio falido: porque não conseguiu lançar a grande reforma da qual necessitava a Igreja, e tampouco pôde prever e deter a pseudo-reforma que explodiria, com as 95 teses de Lutero, precisamente no ano em que se concluía o Concílio.

Todos recordam o grande Concílio de Trento; poucos recordam o V Concílio Lateranense; quiçá se recorde o IV Concílio, que definiu que “fora da Igreja Católica não há salvação”: uma verdade que passou a ser parte da infalível Tradição da Igreja.

Os Concílios podem promulgar dogmas, verdades, decretos, cânones, que são emanados do Concílio, mas que não são o Concílio. Enquanto o dogma formula uma verdade, que uma vez formulada transcende – por assim dizer – a história, os Concílios nascem e morrem na história. O Concílio é diferente de suas decisões. As decisões do Concílio se são infalivelmente promulgadas passam a ser parte da Tradição.

Nenhum Concílio, nem sequer o de Trento ou o Vaticano I, e menos ainda o Vaticano II, é mais que a Tradição. Bento XVI afirma que os documentos do Concílio Vaticano II devem ser lidos em sua continuidade com a Tradição da Igreja. A Tradição não é um evento, não é uma parte, é o todo. A Tradição é como a Sagrada Escritura: uma fonte de Revelação, divinamente assistida pelo Espírito Santo.

Carece de sentido lógico, antes mesmo de sentido teológico, querer opor, como fazem alguns, a Tradição e o magistério chamado “vivo”, como se a Tradição fosse o passado e o Magistério Vivo fosse o presente. A Tradição é o magistério presente, passado e, poderíamos dizer, futuro.

O magistério da Igreja não é o fruto da vontade definitória do Papa e dos bispos, mas depende e não pode ser separado da Tradição. Antes do Magistério da Igreja está a Tradição, antes da Tradição está a Revelação e antes da Revelação está o Revelador, que é Cristo.

Reprovaram-me por descuidar dos documentos do Concílio ou por interpretá-los em chave de descontinuidade com a Tradição da Igreja. Não é verdade nem a primeira nem a segunda afirmação. A interpretação dos documentos do Concílio não me diz respeito e nem a nenhum aspirante a intérprete do Concílio, mas sim ao magistério da Igreja, e ao magistério me atenho. O que narro são os fatos, o que reconstruo é o contexto histórico no qual aqueles documentos vieram à luz.

E afirmo que os fatos, o evento, o contexto histórico, tiveram um influxo na história da Igreja não menor que o magistério conciliar e pós-conciliar: puseram-se a si mesmos como magistério paralelo, condicionando os fatos.

Afirmo que, no plano histórico, o pós-Concilio não pode ser explicado sem o Concílio, assim como o Concílio não pode ser explicado sem o pré-Concílio, pois na história cada efeito tem uma causa e o que ocorre se enquadra em um processo, que freqüentemente é inclusive plurissecular e toca não apenas o campo das idéias, mas o da mentalidade e dos costumes.

Não nego, com isso, a suprema autoridade do Concílio e a autenticidade e validez de seus atos. Mas isso não significa infalibilidade. A Igreja certamente é infalível, mas não o são todas as expressões de seus representantes, inclusive os supremos; e não é necessariamente nem santo, nem infalível um Concílio: porque se é verdade que o Espírito Santo nunca deixa de assisti-los, é também verdade que é necessário corresponder à graça do Espírito Santo, que não produz automaticamente nem santidade, nem infalibilidade. Se é verdade que todo Concílio pode exercer, em união com o Papa, um magistério infalível, um Concílio pode também renunciar a exercer esse magistério, para colocar-se em um plano totalmente pastoral e, ali, cometer erros, como ocorre, segundo me parece, quando o Concílio Vaticano II omite condenar o comunismo.

O Concílio Vaticano II, não nos esqueçamos, não foi um Concílio dogmático, mas pastoral, o que não significa que esteve privado de magistério, mas que seu magistério pode ser considerado definitivo e infalível apenas quando repropõe e explicita, como freqüente o faz, verdades já definidas pelo magistério ordinário e extraordinário da Igreja.

Mas o problema que me interessa não é a discussão sobre os textos do Concílio; deixo esta exegese aos teólogos e, antes de tudo, ao Papa. O problema que me interessa, como membro da Igreja, é entender as raízes históricas da crise que atravessamos. Raízes remotas, porque a crise pela qual passamos é plurissecular, porém também próxima, pois ela remonta antes de 1968, da época do Concílio Vaticano, que não são necessariamente os 16 documentos que são suas conclusões, mas as palavras, os gestos, as omissões, durante e depois do Concílio, dos padres conciliares e, por outro lado, o magistério paralelo, sobretudo midiático, que se colocou junto ao magistério autêntico do Papa e dos bispos.

E como não se pode separar o pós-Concílio do Concílio, igualmente não se pode separar o Concílio do pré-Concílio, dado que a crise não nasce em 11 de outubro de 1962, quando o Concílio foi aberto, mas fermenta nos pontificados anteriores, inclusive o de Pio XII.

Acusam-me de ser contra Pio XII, a quem tenho a mais elevada estima, sobretudo no que se refere a seu monumental “corpus” doutrinal. Porém, não sou o postulante de sua causa de beatificação, sou um historiador e como tal não posso negar que Pio XII tenha sofrido por parte de certos colaboradores seus uma influência negativa em alguns campos, como o litúrgico ou exegético. Não se pode negar que sua encíclica “Humani Generis”, que considero um documento excelente, seja carente da força teórica e prática da “Pascendi” de São Pio X. Podemos dizê-lo e permanecer incansáveis defensores do primado romano e grandes admiradores de Pio XII, pois a Igreja não tem medo da verdade e o amor à verdade nasce da santa liberdade dos filhos de Deus (Rom 8, 21). De outra maneira, não compreenderíamos a vida tempestuosa da Igreja no curso dos séculos até os dias de hoje.

Não há tempestade, midiática ou cruenta, que nos assuste, pois a Igreja está sempre de pé nas tempestades:  as heresias, os escândalos, as revoluções não sacudiram nem detiveram sua marcha na história.

E um grande historiador da Igreja que não teve medo de dizer a verdade, Ludwig von Pastor, escreve como conclusão de sua “História dos Papas” estas palavras que faço minhas:

“A rocha de Pedro supera as tempestades de todos os séculos. O maior dos fatos, o mais inconcebível na história da Igreja de Cristo, é que as idades de sua mais profunda humilhação são ao mesmo tempo as de sua maior energia e força invencível, que morte e sepulcro não são para ela sinais do fim, mas símbolos de ressurreição, que as catacumbas da idade primitiva como as perseguições anticristãs da idade contemporânea não podem resultar para ela senão em glória [...]. Cristo, de fato, caminha ainda hoje com Pedro sobre as ondas oscilantes e, portanto, vale também para os sucessores deste a seguinte palavra: ‘tu es Petrus et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam, et portae inferi non praevalebunt adversum eam’”.

Roma, 5 de maio de 2011

abril 8, 2011

Os grandes desiludidos pelo Papa Bento XVI.

São alguns dos maiores pensadores tradicionalistas. Haviam apostado nele e agora se sentem traídos. As últimas decepções: o Pátio dos Gentis e o encontro de Assis. A acusação que fazem contra Ratzinger é a mesma que fazem ao Concílio: ter substituído o anátema pelo diálogo.

por Sandro Magister

Tradução: Fratres in Unum.com

ROMA, 8 de abril de 2011 – A Santa Sé confirmou oficialmente que no próximo dia 27 de outubro, em Assis, Bento XVI presidirá uma jornada de “reflexão, diálogo e oração” junto a cristãos de outras confissões, expoentes de outras religiões e “homens de boa vontade”.

O encontro se dará vinte e cinco anos depois daquele primeiro que se tornou célebre, desejado por João Paulo II. Joseph Ratzinger, na época cardeal, não participou dele. E já deu a entender que, com ele como Papa, o próximo encontro de Assis será revisado e corrigido, purificado de toda sombra de assimilação da Igreja Católica às outras confissões de fé.

Mas, da mesma forma, os tradicionalistas não o perdoaram. Alguns deles assinaram um apelo crítico. O “espírito de Assis”, segundo eles, é parte da confusão mais geral que está desintegrando a doutrina católica e que teve origem a partir do Concílio Vaticano II.

Uma confusão contra a qual Bento XVI não reagiu como deveria.

* * *

Nestes últimos tempos, no campo tradicionalista, as críticas contra o Papa Ratzinger não diminuíram, mas antes cresceram em intensidade. Refletem uma crescente desilusão com relação às esperanças inicialmente renovadas na ação restauradora do atual pontificado.

As críticas de alguns tradicionalistas se concentram, em particular, no modo com que Bento XVI interpreta o Concílio Vaticano II e o pós-concílio.

Segundo eles, o Papa se equivoca quando limita sua crítica às deteriorações do pós-concílio. Com efeito, o Vaticano II – sempre segundo o juízo deles – não foi apenas mal-interpretado e aplicado: ele mesmo foi portador de erros, o primeiro dos quais a renúncia das autoridades da Igreja a exercer, quando necessário, um magistério de definição e de condenação: isto é, a renúncia ao anátema para privilegiar o diálogo.

No plano histórico, tende a convalidar esta tese o volume recentemente publicado pelo Professor Roberto de Mattei: “Il Concilio Vaticano II. Una storia mai scritta” [O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita]. Segundo de Mattei, não se pode isolar os documentos conciliares dos homens e das vicissitudes que os produziram: desses homens e dessas manobras, cuja intenção deliberada — muito bem sucedida —  era romper com a doutrina tradicionalista da Igreja Católica, nos pontos mais essenciais.

No plano teológico, um conhecido crítico tradicionalista de Bento XVI é Brunero Gherardini, com 85 anos vigorosamente vividos, cônego da basílica de São Pedro, professor emérito da Pontifícia Universidade Lateranense e diretor da revista de teologia tomista “Divinitas”.

No ano de 2009, Gherardini publicou um volume intitulado: “Concilio Vaticano II. Un discorso da fare” [Concílio Vaticano II. Um debate a se realizar], que concluía com uma “Súplica ao Santo Padre”, na qual pedia que se submetesse a um exame os documentos do Concílio e se esclarecesse, de forma definitória e definitiva, “se, em que sentido e até que ponto” o Vaticano II esteve ou não em continuidade com o magistério anterior da Igreja.

Agora, dois anos depois desse livro, Gherardini lança um novo, intitulado: “Concilio Vaticano II. Il discorso mancato” [Concílio Vaticano II. O debate ausente], no qual lamenta o silêncio com que as autoridades da Igreja responderam a sua publicação anterior. E leva sua crítica mais a fundo.

Escreve Gherardini:

“Se desejam continuar culpando apenas o pós-concílio, podem, de fato, fazê-lo, porque, efetivamente, ele não é absolutamente isento de culpa. Mas seria necessário também não se esquecer que ele é o filho natural do Concílio, e extraiu do Concílio esses princípios sobre os quais, exasperando-os, basearam seus conteúdos mais devastadores”.

Na visão de Gherardini, pelo contrário, predomina nos altos poderes da Igreja uma cega exaltação do Concílio, que “corta as asas da análise crítica” e “impede de ver o Concílio com um olhar mais agudo e menos ofuscado”.

E os primeiros responsáveis por esta exaltação acrítica seriam justamente os últimos Papas: desde João XXIII, passando por Paulo VI até João Paulo II. Quanto ao pontífice reinante – observa Gherardini –, “até agora não corrigiu nem um ponto nem uma vírgula dessa ‘Vulgata’ que foi patrocinada pelos predecessores”: ele, que também “como outros poucos oficiais católicos rugiram realmente contra as deformações do pós-concílio, jamais deixou nem de entoar o hosana ao Concílio nem de afirmar a continuidade com todo o magistério anterior a ele”.

* * *

Outro grande decepcionado com Bento XVI é Enrico Maria Radaelli, filósofo e teológo, discípulo do maior pensador tradicionalista do século XX, Romano Amerio.

A principal obra de Radaelli é o ensaio “Ingresso alla bellezza”, de 2007, tendo nestes dias publicado a edição – no momento “pro manuscripto” e impressa em pouquíssimas cópias – de um segundo ensaio, também notável, intitulado: “La bellezza che ci salva”.

O subtítulo do novo ensaio de Radaelli sintetiza assim o conteúdo:

“A força do ‘Imago’, o segundo nome do Unigênito de Deus, que com o ‘Logos’ pode dar vida a uma nova civilização, fundada na beleza”.

E, com efeito, é este o coração do ensaio, como enfatiza no prefácio Antonio Livi, sacerdote do Opus Dei e filósofo metafísico de primeiro nível, docente na Pontifícia Universidade Lateranense.

Porém, nas cultas e vibrantes páginas de seu novo livro, Radaelli não deixa de submeter à crítica, em sua quase totalidade, a atual hierarquia da Igreja Católica, inclusive o Papa.

As decepções pelas ações de Bento XVI deriva – para Radaelli como para outros tradicionalistas – não só por ter convocado um novo encontro interreligioso em Assis, ou por ter dado vida ao “Pátio dos Gentis”, ambas iniciativas julgadas como fonte de confusão.

A maior culpa apontada ao Papa Ratzinger é a de ter renunciado a ensinar com “a força de um cetro que governa”. Em vez de definir a verdade e condenar os erros, “colocou-se dramaticamente disponível a ser também criticado, não pretendendo nenhuma infalibilidade”, como escreveu ele mesmo no prefácio de seus livros sobre Jesus.

Conseqüentemente, Bento XVI teria também ele se dobrado ao erro capital do Vaticano II: a renúncia às definições dogmáticas, em prol de uma linguagem “pastoral” e, portanto, inevitavelmente equívoca.

* * *

De Mattei, Gherardini e Radaelli não estão sós.

O livro de Gherardini, de 2007, tem o prefácio do Arcebispo de Colombo, hoje Cardeal, Albert Malcolm Ranjith. E outro bispo, Mario Oliveri, de Albenga-Imperia, escreveu que teve de se unir “toto corde” à súplica ao Papa, com a qual termina o volume, para reexaminar os documentos do Vaticano II.

Radaelli escreve em “L’Osservatore Romano”. E tanto Gherardini como de Mattei tomaram a palavra, em dezembro passado, em um congresso, a poucos passos da basílica de São Pedro, “para uma justa hermenêutica do Concílio à luz da Tradição da Igreja”.

Neste congresso discursaram também o Cardeal Velasio de Paolis, o bispo Luigi Negri, de San Marino e Montefeltro, e Monsenhor Florian Kolfhaus, da Secretaria de Estado vaticana.

E outro bispo muito estimado, o auxiliar de Astana, no Cazaquistão, Athanasius Schneider, concluiu sua intervenção com a proposta ao Papa de elaborar um “Syllabus” contra os erros doutrinais de interpretação do Concílio Vaticano II.

Mas Dom Schneider, assim como quase todos os participantes do congresso de dezembro, organizado pelos Franciscanos da Imaculada, não considera que nos documentos do Vaticano II haja efetivos pontos de ruptura com a grande tradição da Igreja.

A hermenêutica com a qual [Dom Scheneider] interpreta os documentos do Concílio é a definida por Bento XVI em seu memorável discurso à cúria romana de 22 de dezembro de 2005: “a hermenêutica da reforma, da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja”.

É uma hermenêutica seguramente compatível com o apego à tradição da Igreja. E é também a única capaz de vencer a contrariedade de alguns tradicionalistas acerca das “novidades” do Concílio Vaticano II, como Francesco Arzillo mostra na seguinte nota [leia a nota em espanhol aqui].

Com efeito, a linguagem “pastoral” do Vaticano II, precisamente por sua natureza não definitória, exige, com maior razão, ser compreendida à luz da tradição da Igreja, tal como o fez o próprio Bento XVI no discurso supracitado, a respeito de uma das “novidades” conciliares mais impopulares para muitos tradicionalistas, a da liberdade de religião.

fevereiro 7, 2011

Sensus fidei e o espírito de Assis.

Fonte: Messa in Latino

Tradução: Fratres in Unum.com

O pedido de alguns católicos italianos a Bento XVI para que não vá a Assis, em outubro próximo, suscitou um acalorado debate em que, juntamente com avaliações até mesmo abalizadas, não faltaram, como esperado, críticas e perplexidades. Parece-me inútil responder às acusações de progressistas, que vêem nesse evento uma ocasião para relançar um ecumenismo sincretista: tais críticas são, na realidade, a melhor confirmação de que nosso apelo era oportuno. Considero necessário, por sua vez, responder às críticas de setores conservadores, movidas por irmãos na fé que têm, presume-se, o mesmo amor à Igreja.

Tais críticas podem ser resumidas nestes termos: o Encontro de Assis anunciado por Bento XVI pode até mesmo não agradar; todavia, não se pode criticar um Papa por aquilo que fez (João Paulo II, em 1986) ou por aquilo que tem intenção de fazer (Bento XVI, em 2011), pretendendo explicar aquilo que é bom para a Igreja. Dos fiéis, sobretudo dos leigos, exige-se um assentimento religioso a toda iniciativa e decisão do Sumo Pontífice.

A resposta a esta crítica nos vem do Catecismo, da tradição teológica, da história da Igreja e do magistério pontifício. O Catecismo nos ensina que o sacramento do Batismo nos incorpora à Igreja, fazendo-nos participantes de sua missão (n. 1213) e que a Confirmação obriga a todos os batizados a “difundir e a defender a fé, com palavras e obras, como verdadeiras testemunhas de Cristo” (n. 1285). A promessa da divina assistência do Espírito Santo, muitas vezes repetida pelo Senhor aos Apóstolos (cf. Jo 14, 16-17, 26-26), não se manifesta apenas através do Magistério, mas também através do consenso  do “universitas fidelium”, como explicaram contra os protestantes o grande teólogo dominicano Melchior Cano em De Locis theologicis e São Roberto Belarmino em De Ecclesia Militante. Os sucessivos teólogos têm feito distinção entre a infallibilitas in docendo e a infallibilitas in credendo da Igreja, esta última baseada sobre o senso da fé, isto é, sobre a capacidade do fiel de discernir aquilo que é conforme a fé do que não o é, não pela via do raciocínio teológico, mas por uma espécie de conhecimento por conaturalidade. A virtude da fé (habitus fidei), recebida com o Batismo, na realidade, explica Santo Tomás de Aquino, produz uma conaturalidade do espírito humano com os mistérios revelados, de modo que faz com que o intelecto de cada batizado seja, como que por instinto, impulsionado para as verdades sobrenaturais e aderido a elas.

Ao longo da história da Igreja, o sensus fidei dos simples fiéis esteve muitas vezes mais conforme à Tradiçao Apostólica do que o dos Pastores, como ocorreu durante  a crise ariana do século IV, quando a fé foi mantida por uma minoria de santos e bispos imbatíveis, como Atanásio, Hilário de Poitiers, Eusébio de Vercelli e, sobretudo, pelo povo fiel,  que não acompanhavam a crítica teológica, mas conservavam, por simples instinto sobrenatural, a sã doutrina. O Beato Newman escreve que “naquele tempo de imensa confusão, o sagrado dogma da divindade de Nosso Senhor foi proclamado, infundido, conservado e (humanamente falando)  preservado muito mais pela Ecclesia docta do que pela Ecclesia docens“.

O papel de cada batizado na história da Igreja foi recordado por Bento XVI em seu discurso de 26 de janeiro de 2011, em que o Papa recordou a missão de “duas jovens mulheres do povo, leigas e consagradas à virgindade; duas místicas empenhadas, não no claustro, mas no meio da realidade mais dramática da Igreja e do mundo de seu tempo”. São Santa Catarina de Sena e Santa Joana D’Arc, “quiçá as figuras mais característica daquelas ‘mulheres fortes’ que, ao final da Idade Média, levaram sem medo a grande luz do Evangelho nos complexos acontecimentos da história. Poderíamos compará-las às santas mulheres que permaneceram no Calvário, próximas a Jesus crucificado e a Maria sua mãe, enquanto os Apóstolos tinham fugido e o próprio Pedro havia negado três vezes”. A Igreja naquele período vivia a profunda crise do grande cisma do Ocidente, que durou quase 40 anos. Naquela época, tão dramática quanto à da crise ariana, as duas santas foram guiadas pela luz da Fé mais do ocorria aos teólogos e  eclesiásticos da época, e o Papa aplica às duas leigas a palavra de Jesus, segundo a qual os mistérios de Deus são revelados aos que têm o coração dos pequenos, enquanto mantêm-se escondidos aos doutos e sábios que não têm a humildade (cfr. Lc. 10, 21).

É neste espírito que expressamos toda a nossa perplexidade e reserva diante do encontro inter-confessional de Assis, de 27 de outubro de 1986, que não foi um ato magisterial, mas um gesto simbólico, cuja mensagem vem transmitida não por escritos ou palavras, mas pelo fato mesmo e por sua imagem. Um semanário italiano resumiu, então, seu significado com a palavra do Padre Marie-Dominique Chenu: “É a rejeição oficial do axioma que outrora foi ensinado: fora da Igreja não há salvação” (“Panorama”, 02 de novembro de 1986). Eu estava em Assis naquele dia e tenho uma documentação fotográfica de tudo que ocorreu, por exemplo, na igreja de San Pietro, onde, na presença do Santíssimo Sacramento, uma pequena estátua de Buda foi entronizada no altar que guarda as relíquias do mártir Vittorino, enquanto em uma faixa colocada diante do mesmo altar se lia: “Me dedico à lei de Buda”. Como católico, tive e continuo a ter repugnância por esse evento, que não merecia, em minha opinião, ser recordado, mas, antes, merecia distância. Estou certo que Bento XVI não tem nenhuma intenção de que se repitam os abusos daquela época, mas vivemos em uma sociedade midiática e o novo encontro de Assis corre o risco de ter o mesmo significado que foi atribuído, primeiramente pelos meios de comunicação, e conseqüentemente, pelos meios de opinião pública mundial, como já está ocorrendo.

Hoje vivemos uma época dramática em que todo batizado deve ter a coragem sobrenatural e franqueza apostólica de defender em voz alta sua própria fé, seguindo o exemplo dos santos e sem  se deixar influenciar pela “razão política”, como muito freqüentemente ocorre no campo eclesiástico. Essa é a consciência da nossa fé e nenhuma outra consideração que nos impulsionou a rejeitar Assis I e a exprimir ao Santo Padre, com reverente respeito, todas as nossas preocupações diante do anúncio de um futuro Assis III.

Roberto de Mattei

janeiro 13, 2011

Apelo ao Santo Padre.

Encontro de Assis - 27 de Outubro de 1986

Encontro de Assis - 27 de Outubro de 1986

Santo Padre Bento XVI,

Somos alguns católicos  extremamente gratos pela obra feita por Vossa Santidade como pastor da Igreja Universal nos últimos anos, reconhecidos pela sua grande valorização da razão humana, pela concessão do Motu Proprio Summorum Pontificum, por seu fecundo relacionamento com os anglicanos que retornam à unidade, e por muito mais ainda.

Nós tomamos a coragem de escrever-lhe depois de ouvir, no próprio dia do massacre de cristãos coptas no Egito, sobre a intenção de reunir em Assis, para o mês de outubro, um encontro inter-religioso de grande porte, 25 anos depois de “Assis 1986.”

Todos nós lembramos daquele evento de tantos anos atrás.

Um evento midiático como poucos, que, independentemente das intenções e declarações daquele que o convocou, teve um inegável efeito contrário, aumentando, no interior mesmo do mundo católico, a indiferentismo e o relativismo religioso.

Foi a partir desse evento que cresceu, junto ao povo cristão, a idéia de que o ensino secular da Igreja “una, santa, católica e apostólica”, sobre a unicidade do Salvador, deveria ser de alguma forma, arquivado.

Todos nos lembramos dos representantes de todas as religiões em uma igreja católica, a Igreja de Santa Maria degli Angeli, alinhados com um ramo de oliveira na mão: como que a significar que a paz não passa por Cristo, mas igualmente por todos os fundadores de um credo, qualquer que seja este (Maomé, Buda, Confúcio, Kali, Cristo …)

Lembramo-nos da oração dos muçulmanos em Assis, isto é, na cidade de um santo que tinha feito da conversão dos islâmicos um dos seus objetivos.

Recordamos a oração dos animistas, sua invocação dos espíritos elementares, e daquela de outros credos ou de representantes de religiões atéias como o jainismo.

Aquele rezar “juntos”, fosse qual fosse a sua finalidade, querendo-se ou não, teve o efeito de fazer crer a muitos que todos rezamos “ao mesmo Deus”, apenas com nomes diferentes.

Em vez disso, a Sagrada Escritura é clara: “Não terás outros deuses diante de mim” (1º. mandamento), “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida: ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14, 6).

Aqueles que escrevem certamente não recusam o diálogo, com qualquer pessoa, independente da religião que tenha.

Nós vivemos no mundo, e todos os dias nós conversamos, discutimos, amamos, mesmo aqueles que não são cristãos, porque ateus, céticos, ou de outras religiões. Mas isso não nos impede de acreditar que o próprio Deus tenha vindo sobre a terra, e tenha morrido para ensinar, de fato, o Caminho, a Verdade, e não apenas um dos muitos e possíveis caminhos e verdades. Cristo é, para nós cristãos, o Salvador, o Único Salvador do mundo.

Lembramos com tristeza, portanto, retornando a este evento de 25 anos atrás, os frangos abatidos no altar de Santa Clara, segundo rituais tribais e da redoma com uma estátua de Buda colocada sobre o altar da igreja de São Pedro, sobre as relíquias do mártir Vitorino, morto, 400 anos depois de Cristo, para testemunhar a sua fé.

Recordamos os padres católicos que se submeteram a ritos iniciáticos de outras religiões: uma cena horrível, pois, se é um “disparate” batizar na fé católica um adulto que não acredita nela, mais ainda é absurdo o fato de que um padre católico se submeta a um rito ao qual não reconhece nenhuma validade ou utilidade. Fazendo isso se acaba, de fato,  passando uma única idéia: que os ritos, todos, não são nada além de vazios gestos humanos. Que todas as concepções do divino se equivalem. Que todas as morais, que emanam de todas as religiões, são intercambiáveis.

Eis aí o “espírito de Assis”, sobre o qual a mídia e os setores mais relativistas da Igreja trabalharam longamente, lançando a confusão. Parecia alheio ao Evangelho e à Igreja de Cristo, que nunca, em dois mil anos, tinha escolhido fazer o mesmo. Gostaríamos de transcrever aqui essas observações irônicas de um jornalista francês: “Na presença de tantas religiões, se acreditará mais facilmente ou que todas elas são válidas ou que são todas indiferentes, vendo assim tantos deuses, se perguntará se todos não são equivalentes ou se há apenas um verdadeiro. O “parisiense zombeteiro”  (cético e ateu, n.d.r.) imitará aquele colecionador cético, cujo amigo tinha acabado de derrubar um ídolo de uma mesa:. ‘Ah desgraçado, talvez seja esse o verdadeiro Deus ” .

Nós encontramos consolo, então, em nossas perplexidades, em muitíssimas declarações dos papas, que tinham sempre condenado tais “diálogos”.

Um congresso de todas as religiões já tinha sido organizado, de fato, em Chicago, em 1893, e em Paris, em 1900. Mas o Papa Leão XIII interveio para proibir qualquer participação católica.

A mesma atitude tomou Pio XI, o papa que condenou o ateísmo comunista e o nazista, mas lamentou ao mesmo tempo a tentativa de unir os homens em nome de um vago e indistinto senso religioso, sem Cristo.

Escreveu aquele Papa em sua “Mortalium Animos” (Epifania de 1928), exatamente a respeito dos congressos ecumênicos: Pois, tendo como certo que rarissimamente se encontram homens privados de todo sentimento religioso, por isto, parece, passaram a ter a esperança de que, sem dificuldade, ocorrerá que os povos, embora cada um sustente sentença diferente sobre as coisas divinas, concordarão fraternalmente na profissão de algumas doutrinas como que em um fundamento comum da vida espiritual. Por isto costumam realizar por si mesmos convenções, assembléias e pregações, com não medíocre frequência de ouvintes e para elas convocam, para debates, promiscuamente, a todos: pagãos de todas as espécies, fiéis de Cristo, os que infelizmente se afastaram de Cristo e os que obstinada e pertinazmente contradizem à sua natureza divina e à sua missão. Sem dúvida, estes esforços não podem, de nenhum modo, ser aprovados pelos católicos, pois eles se fundamentam na falsa opinião dos que julgam que quaisquer religiões são, mais ou menos, boas e louváveis, pois, embora não de uma única maneira, elas alargam e significam de modo igual aquele sentido ingênito e nativo em nós, pelo qual somos levados para Deus e reconhecemos obsequiosamente o seu império.  Erram e estão enganados, portanto, os que possuem esta opinião: pervertendo o conceito da verdadeira religião, eles repudiam-na e gradualmente inclinam-se para o chamado Naturalismo e para o Ateísmo…”[tradução portuguesa vaticana]

Em retrospectiva, podemos dizer que o Papa Pio XI estava certo, ainda que fosse  apenas ao nível de mero acaso. Qual foi, de fato, o efeito de “Assis 1986″, apesar das corretas declarações do próprio Papa João Paulo II, destinadas a impedir tal interpretação?

Qual é a mensagem que lançaram na ocasião os próprios organizadores, a mídia, e até mesmo não poucos eclesiásticos modernistas, ansiosos por derrubarem a Tradição da Igreja?

Aquilo que se passou, junto a muitíssimos cristãos, através de imagens, que são sempre mais evocativas, e através dos jornais e da televisão, é muito claro: o relativismo religioso, que é depois o equivalente do ateísmo.

Se todos rezam “juntos”, muitos já concluíram, então todas as religiões são “iguais”: mas se assim for, isso significa que nenhuma delas é verdadeira.

Naquela época, Vossa Santidade era Cardeal e Prefeito da Congregação da Fé, junto com o Cardeal Giacomo Biffi, e com muitos outros, foi um dos que manifestou sérias perplexidades. Por esta razão, nos anos sucessivos, nunca mais participou da repetição proposta anualmente pela Comunidade de Santo Egídio.

De fato, como escreveu Vossa Santidade em “Fé, Verdade e Tolerância: o Cristianismo e as religiões do mundo” (Cantagalli, 2005), criticando exatamente o  ecumenismo indiferentista, para o católico, “deve estar muito claro que não existem ‘as religiões’ em geral , que não existe uma idéia comum de Deus e uma fé comum nEle, que a diferença não afeta apenas o âmbito das imagens e formas conceituais mutáveis, mas as próprias escolhas últimas. “

Vossa Santidade concorda perfeitamente, portanto, com Leão XIII e Pio XI sobre o perigo de contribuir, através de gestos como o de “Assis 1986”, com o sincretismo e a indiferentismo religioso.

Risco destacado até mesmo pelos Padres Conciliares do Vaticano II, que na Unitatis Redintegratio, a propósito, se falhavam em relação ao ecumenismo com outras religiões, com os outros “cristãos”, porém, convidavam à prudência: “No entanto, a comunicação nas coisas sagradas, não deve ser considerada como um meio a ser usado indiscriminadamente para a restauração da unidade dos cristãos…”. Vossa Santidade tem ensinado, nos últimos anos, nem sempre compreendido até mesmo pelos católicos, que o diálogo ocorre e  pode acontecer não entre diferentes teologias, mas entre as diferentes culturas, e não entre as religiões, mas entre os homens, à luz daquilo que nos distingue de tudo: a razão humana.

Sem recriar o antigo Panteão pagão, sem que a integridade da Fé venha a ser posta em causa pelo amor ao compromisso teológico, sem que a Revelação, que não é propriedade nossa, venha a ser alterada pelos homens e pelos teólogos, decididos a conciliar o inconciliável, sem que Cristo  “sinal de contradição”, venha a ser posto sobre o mesmo plano de Buda ou Confúcio que, entre outras coisas,  nunca disseram ser Deus…

Por esta razão, estamos aqui para expor a nossa preocupação.

Tememos que tudo que Vossa Santidade disser, a televisão, os jornais e muitos católicos interpretarão à luz do passado e do indiferentismo imperante; que não importa o que Vossa Santidade afirmar, o evento vai ser lido como uma continuação da manipulação da figura de Francisco, transformado pelos ecumenistas modernos, em um irenista e em um sincretista sem fé. Isso já está acontecendo …

Temos medo de que não importa o que Vossa Santidade disser esclarecer, os simples fiéis, tal como somos nós também, em todo o mundo, não verão (e não lhes será mostrado, por exemplo, na TV) nada além de um fato: o Vigário de Cristo não falando, debatendo, dialogando com representantes de outras religiões, mas orando com eles. Como se a forma e o objetivo da oração fossem indiferentes.

E muitos, erroneamente, pensarão que a Igreja agora capitulou e reconheceu, em consonância com a mentalidade da Nova Era, que rezar a Cristo, Alá, Buda, ou Manitou seja a mesma coisa. Que a poligamia islâmica e animista, as castas hindus ou o espírito politeísta animista…  podem estar juntos com a monogamia cristã, com a lei do amor e do perdão e com o Deus Uno e Trino.

Mas como ainda Vossa Santidade  escreveu no livro citado: “Com a indiferenciação das religiões e com a idéia de que todas elas são, sim, distinguíveis, mas no fundo iguais, não se avança.”  Santo Padre, nós pensamos que com uma nova “Assis 1986″ nenhum cristão das terras do Oriente será salvo: nem na China comunista nem na Coréia do Norte, nem no Paquistão ou no Iraque … tantos fiéis, ao contrário, não entenderão porque, justamente naqueles países, há ainda hoje aqueles que morrem mártires por não renegarem  seu encontro não com uma religião, mas com Cristo. Como foram mortos os próprios apóstolos.

Diante da perseguição, existem vias políticas, diplomáticas, diálogos pessoais e de Estado: que todos eles continuem, da melhor forma possível. Com Sua bondade e Seu desejo de paz para todos os homens.

Mas sem que seja possível para aqueles que querem confundir as águas e relançar o relativismo religioso, antecâmara de todo relativismo, terem uma oportunidade, ainda que midiática, tão apetitosa como a “reedição” de “Assis 1986″.

Com devoção filial

Francesco Agnoli, Lorenzo Bertocchi,

Roberto de Mattei, Corrado Gnerre,

Alessandro Gnocchi, Camillo Langone,

Mario Palmaro, Luisella Scrosati,

Katharina Stolz

(Il Foglio del 11/01/2011)

Fonte: Pe. Marcelo Tenório

dezembro 18, 2010

Dom Schneider pede ao Papa um novo Syllabus.

Por Osservatore Vaticano – Vini Ganimara

Ciclo de conferências sobre o Vaticano II organizado pelos Franciscanos da Imaculada, em Roma, reúne expoentes da crítica ao Concílio. Dentre eles, Mons. Gherardini e Prof. Roberto de Mattei.

Ciclo de conferências sobre o Vaticano II organizado pelos Franciscanos da Imaculada, em Roma, reúne expoentes da crítica ao Concílio. Dentre eles, Mons. Gherardini e Prof. Roberto de Mattei.

Um verdadeiro furacão passou ontem, 17 de Dezembro de 2010, por Roma, a dois passos da basílica de São Pedro: um bispo propôs, nada mais nada menos, que… recolocar em prática o magistério infalível da Igreja.

Com efeito, desde 16 de dezembro, realiza-se em Roma um importante colóquio intitulado “Concílio Vaticano II, um concílio pastoral – Análise histórica, filosófica e teológica”. Organizado pelos corajosos Franciscanos da Imaculada, este colóquio se realiza nas salas de conferência de Santa Maria Bambina, atrás da colunata de Bernini, próximo ao Palácio do Santo Ofício, num quase silêncio midiático, apesar da atualidade do tema com relação ao pontificado de Bento XVI e da qualidade dos intervenientes.

Duas intervenções esperadas marcaram o primeiro dia: a de Mons. Gherardini, autor do livro Concilio Vaticano II, un discorso da fare, e a do professor Roberto de Mattei, historiador italiano, autor de um recente livro sobre o concílio, intitulado Il Concilio Vaticano II. Una storia mai scritta (disponível por ora apenas em italiano, edições Lindau). Ambos responderam às críticas que os seus trabalhos levantaram, aliás, muito paradoxalmente, do meio conservador, em cujo seio há alguns raros defensores da infalibilidade do Concílio.

Ontem, 17 de dezembro, Dom Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, causou alvoroço com sua conferência sobre o tema do culto a Deus como fundamento teológico da pastoral conciliar. Propondo um longa coletânea de citações, teologicamente muito ortodoxas, extraídas dos textos conciliares, apresentou à assistência textos escolhidos de um Vaticano II, de certo modo, “mais ortodoxo que Trento”. A captatio benevolentiae foi particularmente eficaz: a assistência esperava o que estava por vir, suspenso nos lábios do bispo.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

É então que, denunciando a interpretação errônea deste concílio no período pós-conciliar, o bispo conclui a sua intervenção sugerindo… a redação de um Syllabus que condene infalivelmente “os erros de interpretação do Concílio Vaticano II”.

Pois, segundo Dom Schneider, só o magistério supremo da Igreja (do Papa ou de um novo concílio ecumênico) pode corrigir os abusos e os erros nascidos do Concílio e retificar sua compreensão e sua recepção à luz da tradição católica. Respondendo um pedido de esclarecimento, fez a sua douta assistência cair no riso ao considerar que não era possível reunir um concílio em menos de 500 anos. Cabe, portanto, ao magistério supremo do Papa. Daí seu pedido por um novo Syllabus, onde figurariam face à face os erros condenados e a sua interpretação ortodoxa.

Como tantos e tantos outros há 40 anos, é, pois, ao juízo infalível do Papa “reformulando” o Vaticano II que se está apelando. Com exceção de que, desde a “liberação da palavra” operada por Bento XVI, são doravante os personagens oficiais que interpõe o pedido.

Tradução: Fratres in Unum.com

dezembro 15, 2010

Concílio Vaticano II: a história jamais contada sobre os tradicionalistas e sua derrota.

(IHU) Do Concílio Vaticano II, o evento que marcou a história da Igreja do século passado, já não existe mais apenas uma única história. Existem mais de uma história. Chega nestes dias às livrarias o livro do historiador Roberto De Mattei, “Il Concilio Vaticano II. Una storia mai scritta” (Ed. Lindau, 632 páginas), que visa oferecer uma reconstrução documentada da grande cúpula, a partir do ponto de vista da chamada “minoria” conciliar, isto é, daqueles que se consideraram derrotados.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no jornal Il Giornale, 05-12-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Até agora, apenas a escola bolonhesa de Giuseppe Alberigo e do seu sucessor Alberto Melloni havia produzido uma ampla e documentada história do Vaticano II, referência quase imprescindível, escrita do ponto de vista dos reformadores e considerada o exemplo daquela “hermenêutica da ruptura”, segundo a qual o Concílio teria marcado uma inegável descontinuidade com o passado. A obra de Alberigo foi submetida a críticas e a um significativo contraponto, escrito pelo arcebispo Agostino Marchetto. Sem, porém, que uma história se contrapusesse à outra com a pretensão de completude.

O livro de De Mattei, que nos últimos dias recebeu a cortês crítica de Massimo Introvigne nas páginas do jornal Avvenire, atravessa todas as fases do Vaticano II, da preparação à crise do pós-Concílio. O autor prefere a análise das discussões na Aula conciliar, escolhendo não se deter, ao invés, no trabalho das comissões preparatórias.

Um espaço notável é dedicado ao papel desempenhado pelos ambientes mais conservadores, como o do leigo brasileiro Plinio Corrêa de Oliveira, que organizou em Roma uma rede de apoio para os bispos do “Coetus Internationalis Patrum”, no qual Lefebvre também trabalhou. Há uma história totalmente brasileira do Concílio, que viu enfrentarem-se, de um lado, dois bispos tradicionalistas como De Castro Mayer e Proença Sigaud; de outro, Hélder Câmara, um dos inspiradores do grupo reformador.

Segundo De Mattei, os grupos de pressão progressistas – minoritários – influenciaram os conclaves de João XXIII e de Paulo VI, como também os trabalhos do Concílio, acabando por impôr, com várias escamotagens, a sua linha em toda a cúpula. Certamente, o leitor fica tocado ao ver Pio XII apresentado como um Pontífice flexível às instâncias progressistas e “neomodernistas”, frágil e até incapaz de contrastá-las.

Assim como chama a atenção a inserção do cardeal Giuseppe Siri, o expoente mais notável do antiprogressismo italiano, no chamado “terceiro partido”, aquele dos que não se oporiam a dever aos progressistas, acabando por fazer o seu jogo.

A leitura do Concílio proposta por De Mattei acaba se unindo à de Alberigo e assim toma distância – respeitosamente – daquela “hermenêutica da reforma”, proposta por Bento XVI como chave de leitura do Vaticano II. Para o Papa Ratzinger, a justa interpretação do Concílio é aquela que o lê na continuidade de uma tradição que se reforma para poder melhor responder às exigências da modernidade, mas sem rupturas com o passado. Uma interpretação que separa os textos promulgados pelo chamado “espírito do Concílio”, em cujo nome, durante décadas, se quis ir além da letra daquilo que os documentos estabeleceram.

Para a escola bolonhesa, ao contrário, a novidade mais significativa do Vaticano II não é constituída pelas suas formulações, mas sim “pelo próprio fato de ter sido convocado e celebrado”. Para De Mattei, também não se pode separar os textos do “evento”, e assim o Vaticano II representaria uma ruptura da tradição. A sua “história jamais escrita” do Concílio propõe a tese do tradicionalismo segundo a qual, no começo dos anos 1960, teria sido, sim, necessário convocar um Concílio, mas para publicar uma reedição atualizada do Sílabo de Pio IX, condenando os erros da época moderna.

outubro 29, 2010

O Concílio [Pastoral] em questão.

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(Summorum Pontificum Observatus) De 16 a 18 de dezembro próximo, os Franciscanos da Imaculada organizam um colóquio de estudos em Roma sobre o Concílio Vaticano II (Concilio Ecumenico Vaticano II, Un Concilio Pastorale — Analise Storico-Filosofico-Teologica), no Instituto “Maria S.S. Bambina” (via Paolo VI, 21).

Apoiando-se sobre o histórico discurso do Papa sobre as duas hermenêuticas relativas ao Concílio Vaticano II, de 22 de dezembro de 2005, os Franciscanos da Imaculado se propõem a examinar o Vaticano II,  sua natureza e seu objetivo. Trata-se de estudar esta radical novidade que quis que, pela primeira vez, um concílio não proclamasse novos dogmas e ensinamentos definitivos, nem condenações, mas se apresentasse com uma finalidade meramente pastoral.

Notamos que a versão italiana da agência Zenit, sob o título ‹‹ Il Vaticano II, un Concilio “Rivoluzionario”? ›› publicou um artigo do Padre Serafino M. Lanzetta, padre professo do Instituto dos Franciscanos da Imaculada e cura da Igreja São Salvador em Ognissanti (Florença) desde 2004. Ele ensina teologia dogmática no Instituto Teológico “Imaculada Medianeira” (Cassino – Frosinone). Desde 2006, é diretor da revista teológica Fides Catholica. Colabora com diversas revistas de caráter cultural e teológico e dirigiu a realização de dois colóquios teológicos no Cenáculo do Ghirlandaio, Florença, bem como as publicações a respeito.

Observem que Dom Velasis de Paolis, já evocado neste blog a propósito da recente ordenação diaconal nos Franciscanos da Imaculada, encerrará este colóquio onde intervirão particularmente Mons. Gherardini, o professor Roberto de Mattei, Yves Chiron, Dom Schneider, Dom Marchetto, Mons. Nicola Bux, vários membros dos Franciscanos da Imaculada de universidades pontifícias e da cúria.

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