Posts tagged ‘Vaticano II’

maio 16, 2012

Um momento no Espírito do Concílio na Espanha: Padres Rockeiros iniciam turnê pela América.

Por Rome Reports – Após levar suas canções a diferentes cidades da Espanha e Portugal, e fazer vários concertos durante a Jornada Mundial da Juventude de Madri, em 2011, no próximo mês de agosto este grupo de sacerdotes rockeiros atuará pela primeira vez na América. Será no festival Rock’n Rieles, na Costa Rica e Guatemala. Chamam-se “A Voz do Deserto”. É um grupo musical nascido em Alcalá de Henares, Madri (Espanha). É formado por três sacerdotes e quatro leigos, cujo único objetivo é evangelizar através da música.

Deixemos que fale a Constituição Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, sobre a Igreja no mundo moderno, em seu nº 62:

A literatura e as artes são também, segundo a maneira que lhes é própria, de grande importância para a vida da Igreja. [...] Por conseguinte, deve trabalhar-se por que os artistas se sintam compreendidos, na sua actividade, pela Igreja e que, gozando duma conveniente liberdade, tenham mais facilidade de contactos com a comunidade cristã. A Igreja deve também reconhecer as novas formas artísticas, que segundo o génio próprio das várias nações e regiões se adaptam às exigências dos nossos contemporâneos. Sejam admitidas nos templos quando, com linguagem conveniente e conforme às exigências litúrgicas, levantam o espírito a Deus.

Deste modo, o conhecimento de Deus é mais perfeitamente manifestado; a pregação evangélica torna-se mais compreensível ao espírito dos homens e aparece como integrada nas suas condições normais de vida.

Vivam, pois, os fiéis em estreita união com os demais homens do seu tempo e procurem compreender perfeitamente o seu modo de pensar e sentir, qual se exprime pela cultura.

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maio 15, 2012

“O Vaticano II – Às raízes de um equívoco”. Resenha de Cristina Siccardi ao novo livro de Monsenhor Gherardini.

Por Cristina Siccardi | Corrispondenza Romana

“O Vaticano II ensina realmente e apenas aquilo que foi revelado e transmitido?”. E “o significado objetivo das palavras usadas pelo Concílio Vaticano II corresponde ao do Magistério precedente e, em última análise, ao da divina Revelação?”.

Duas perguntas “de supetão” que são dirigidas por Monsenhor Brunero Gherardini a todos aqueles que terão a sorte de ler o seu livro mais recente, que brilha com clareza linguística e teológica, intitulado O Vaticano II às raízes de um equívoco (Lindau , pp. 410, € 26,00).

Cinquenta anos se passaram (1962-2012) desde a abertura de um Concílio que cada vez mais se torna protagonista de um verdadeiro processo. Finalmente, o tribunal foi aberto, graças, em particular, ao próprio teólogo Gherardini (com seu famoso Concílio Vaticano II, um discurso a ser feito) e ao historiador Roberto de Mattei (com o seu Vaticano II, uma história nunca escrita) para fazer entrar o réu: o Concílio Vaticano II.

Apesar de os conteúdos deste escrupuloso volume serem bastante profundos e complexos, o seu autor, como é próprio de seu estilo “gherardiniano“, torna a análise fresca, vibrante e bem sucedida. Esta obra nasce de uma inspiração polêmica, ou seja, para responder à má fé de alguns estudiosos e jornalistas em relação aos aprofundamentos que o teólogo vem realizando com rigor, há alguns anos. Algumas pinceladas irônicas, aqui e ali, lembram o humor ferino do Beato John Henry Newman, em sua obra-prima Apologia Pro Vita Sua, onde, ele também, como Gherardini, àqueles que o acusavam, respondia com a coragem própria de quem sabe, como Santo Tomás de Aquino, de estar possuído pela verdade.

Gherardini não engrossou as fileiras do comum, ou seja, de todos aqueles que continuam a exaltar o Vaticano II de uma forma apriorística e sem aceitar uma análise do mérito, mas foi ao âmago do problema, observando de perto a mudança radical de curso da Igreja pós-conciliar e identificando a causa dessa mudança nas atas da Assembleia Conciliar. E aqui está o grande ‘equívoco’, “que pouco levaram em consideração”, matriz dos muitos equívocos e dos muito erros que surgiram em cascata:

O antropocentrismo.

O homem moderno, para o qual tende o antropocentrismo conciliar, deste absorve a ideias que subvertem as relações naturais e reveladas entre a criatura e o Criador, torna-se o porta-bandeira e o arauto destas ideias, e por elas resta, por assim dizer, pregado em um estado de inconciliabilidade com as verdades da doutrina e da Tradição”. Estes são os desvios da Nouvelle Théologie e da Teologia da Libertação.

O equívoco antropocêntrico encontra suas raízes, segundo Gherardini, na declaração conciliar sobre a liberdade religiosa (Dignitatis Humanae), na declaração sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs (Nostra Aetate) e no decreto sobre o diálogo ecumênico (Unitatis redintegratio).

O antropocentrismo contaminou toda a cultura moderna e o pensamento majoritário conciliar, e nada, “no modernismo e em sua endemoninhada revivescência neomodernista, é poupado do tesouro de verdades recebidas e transmitidas”, ou seja, a Sagrada Escritura, os dogmas, a Liturgia, a moral. Hoje, aquele verme modernista que corroía por dentro eclodiu vigorosamente, mas a assembleia conciliar já havia testemunhado isso quando foram tratadas temáticas nodais, que se distanciavam, em sua elaboração, da Tradição.

Gherardini, por causa de sua postura diante do Concílio, foi acusado de ser um ‘lefebvriano’, dando-se à palavra, como sempre, uma acepção meramente negativa. Ele, a este respeito disso, afirma que, mesmo não pertencendo à Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, compartilha as linhas de construtiva crítica ao Vaticano II.

Além disso, o autor concentra sua atenção na linguagem conciliar e pós-conciliar, totalmente diferente, no geral, da patrística e da Tradição; dá, também, nome e sobrenome aos protagonistas das modernas filosofias e teologias, porém não as interpreta, mas faz a radiografia das ideias; ideias que envenenaram o espírito da Assembleia Conciliar e, “se a sagrada hierarquia não parar este desvio antropocêntrico, o futuro da Igreja não será mais o da Igreja Una Santa Católica Apostólica em sua gloriosa e universalista configuração romana”.

maio 14, 2012

CNBB quer revitalizar Concílio Vaticano II.

José Maria Mayrink – O Estado de S.Paulo, 4 de maio de 2012.

Assembléia geral da CNBB de 2012.

Assembléia geral da CNBB de 2012.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) decidiu, em sua última assembleia-geral, reunida em Aparecida na segunda quinzena de abril, aproveitar a comemoração dos 50 anos do Concílio Vaticano II para revitalizar as reformas que, sob a liderança dos papas João XXIII e Paulo VI, revolucionaram a vida da Igreja no século 20.

Em vez de apoiar a proposta de convocação de um novo concílio, o Vaticano III, objeto de uma petição com mais de 10 mil assinaturas, enviada a João Paulo II em 2002, os bispos preferem refletir sobre os documentos do Vaticano II, para corrigir eventuais exageros e adaptar a legislação da Igreja às circunstâncias e exigências do mundo de hoje.

“Não é o caso de reunir um novo concílio, mas sim de retomar e viver em profundidade o Vaticano II, aquilo que propôs Bento XVI, que foi teólogo perito do concílio”, disse o cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, coordenador do grupo de trabalho para as comemorações do cinquentenário.

Reviver o concílio, observou o cardeal, significa “progredir na determinação e na aplicação de suas decisões“, em sintonia com a visão do papa.

O arcebispo da Paraíba, d. Aldo Pagotto, também contrário à proposta de um novo concílio, afirma que é necessário voltar à fonte, para valorizar as riquezas do Vaticano II e combater os excessos que surgiram em nome da modernidade, como, por exemplo, a “politização da liturgia”. Questões como o celibato dos padres, a ordenação de mulheres e o acesso dos recasados à participação plena na eucaristia não justificariam um novo concílio, “porque essas são questões já dirimidas por João Paulo II e Bento XVI e estão fora de discussão“.

Mesmo bispos que assinaram a petição de 2002 – foram 25 no Brasil, entre eles o cardeal d. Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo – descartam a necessidade de um novo concílio nos moldes do Vaticano II. “Receio que um concílio formal agora, na conjuntura atual, leve a posições mais retrógradas“, disse o bispo de Jales (SP), d. Demétrio Valentini. Dez anos atrás, ele aderiu ao movimento internacional Proconcil, que nasceu na Espanha e ganhou milhares de adesões pelo mundo afora.

Tendência. D. Demétrio defende uma posição que coincide com a do Proconcil atualmente – a recuperação da “conciliaridade”, que significa valorização das conferências episcopais. As conferências, argumenta, tornaram-se instrumentos de retransmissão do governo central da Igreja, em vez de serem agentes de adaptação, para darem respostas adequadas às necessidades do mundo. “Isso implicaria em incentivar as dioceses a abrir as portas para a participação dos leigos e particularmente das mulheres“, observou d. Demétrio.

É um campo de ação que, segundo o bispo de Jales, não depende de um concílio formal. “Pode-se ouvir os bispos pela internet, pois a tecnologia abre a possibilidade, para a prática eclesial, de envolver todos os católicos na participação da vida da Igreja”, explicou.

Membro do conselho do Sínodo da América, que reuniu bispos do continente com João Paulo II em Roma, em 1997, ele propõe que o sínodo – “uma miniatura de concílio” – seja deliberativo, em vez de só oferecer subsídios para o papa.

A coordenadora internacional do Proconcil, Emilia Robles, esclareceu, respondendo ao Estado por e-mail, que o movimento não está pedindo ao papa a convocação de um concílio tradicional. “Não o propomos agora como uma panaceia, mas também não nos assustaremos se ele vier a ocorrer”, afirmou.

Mais que um evento, o Proconcil sugere um processo que supõe a participação de toda a Igreja, o desenvolvimento da conciliaridade ou valorização de espaços como conferências de bispos, sínodos, assembleias e conselhos paroquiais.

Dois bispos brasileiros, hoje eméritos, que assinaram a petição por um novo concílio em 2002, desistiram da ideia, porque o atual episcopado, de perfil conservador e submisso à Cúria Romana, levaria a um retrocesso em relação às conquistas do Vaticano II. Os dois pediram para não serem identificados, “para não magoar os irmãos” que estão na ativa. “Melhor não inventar moda”, comentou o arcebispo emérito de Porto Velho (RO), d. Moacyr Grechi, outro signatário da petição que agora apoia a proposta da CNBB.

A sugestão de convocação de um novo concílio foi feita pela primeira vez pelo cardeal Carlo Maria Martini, então arcebispo de Milão, no sínodo dos bispos europeus, em 1999.

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maio 12, 2012

Sob o estandarte da Imaculada.

Padre Serafino M. Lanzetta, professor de teologia dogmática no Instituto Teológico Imaculada Medianeira, dos Franciscanos da Imaculada, é, desde 2006, diretor da revista teológica Fides Catholica. Em dezembro de 2010, organizou o Congresso ‘Concilio Ecumenico Vaticano II – Un Concilio Pastorale. Analisi Storico-Filosofico-Teologica’ em Roma, e já apareceu em nosso blog em mais de uma oportunidade [aqui e aqui]. Justamente sobre o seu instituto religioso, a Missa Tradicional e o Concílio Vaticano II, cujos 50 anos estão sendo comemorados, é que o Padre Lanzetta aceitou conversar com Fratres in Unum.

Primeiramente, Reverendíssimo Pe. Lanzetta, muito obrigado por aceitar o nosso convite. Por favor, apresente-se a nossos leitores. De onde o senhor é? Conte-nos sobre sua família e seu discernimento vocacional.

Padre Serafino Lanzetta é sacerdote professo do Instituto dos Franciscanos da Imaculada e pároco da Igreja São Salvador em Ognissanti,  Florença, desde 2004.

Padre Serafino Lanzetta é sacerdote professo do Instituto dos Franciscanos da Imaculada e pároco da Igreja São Salvador em Ognissanti, Florença, desde 2004.

Obrigado por me convidar para a entrevista e, sobretudo,  poder apresentar meu Instituto Religioso. Venho de uma cidade em Salerno, Campania (Itália). Esta cidade é Sarno. Graças a Deus, fui criado em uma família cristã. Desde os meus 6 anos, comecei a participar em um grupo paroquial, a “Azione Cattolica”. Recordo, sobretudo, o cuidado de minha mãe em me ensinar a fé e em me impulsionar a ir à Missa dominical. Infelizmente, quando fiquei mais velho, aos 14 anos, deixei os sacramentos e a Santa Missa, atraído e seduzido pelo mundo. Desse jeito, aprendi — depois — que o mundo nem sempre é um amigo verdadeiro. Foi a oração de meus pais, especialmente de minha mãe, que me trouxe de volta à fé. Alguns anos mais tarde descobri, pela graça da oração, a beleza da Fé Católica e tentei me aprofundar nela, fazendo-me muitas perguntas que só poderiam ser respondidas através da Verdade de Cristo. Desde criança perguntava a mim mesmo o que significava uma vocação. Finalmente, senti este chamado em minha alma: em minha inteligência e em minha vontade. Eu deveria obedecê-lo a fim de ser verdadeiramente feliz. Desejei dar minha vida a Cristo e à Sua Igreja. Encontrei os Franciscanos da Imaculada em Frigento (nossa Casa Mãe na Itália) e disse: “Esta é a minha família”.

E por que os Franciscanos da Imaculada? O senhor tem alguma função específica na ordem?

Escolhi este Instituto, primeiramente, porque procurava uma vida religiosa muito fiel ao carisma de São Francisco. A idéia de escolher uma vida religiosa muito similiar à minha vida passada me feria demais. Seria melhor permanecer no mundo. Encontrei nos Franciscanos da Imaculada o rigor da pobreza e de penitência, como descritas nas Fontes Franciscanas, e, ao mesmo tempo, um espírito de grande abertura aos novos desafios do mundo: difundir o Evangelho com todos os meios possíveis, mesmo os mais sofisticados.

Atualmente, sou pároco em Florença (Ognissanti), professor de dogmática em nosso próprio Seminário Teológico (Seminario Teologico “Immacolata Mediatrice”), e também vigário de nossa Delegação Italiana.

Qual é a principal mensagem de São Maximiliano Kolbe, um grande apóstolo dos tempos modernos, aos nossos dias?

São Maximiliano Maria Kolbe.

São Maximiliano Maria Kolbe.

São Maximiliano Maria Kolbe é um grande santo e, por isso, um apóstolo da Imaculada pelo Reinado de Cristo. São Maximiliano compreendeu que o próprio centro da Ordem Franciscana é a Imaculada. Ela é nossa padroeira e advogada, a “Virgo Ecclesia facta”, “Aquela em quem esteve e está toda graça e virtude“, como disse o Pai Seráfico. Segundo São Francisco, devemos viver sob o Seu manto. E podemos acrescentar também: nela e com Ela alcançar a meta: sermos semelhantes a Cristo, Seu FIlho. São Maximiliano leu toda a história da Ordem através da Imaculada. Agora, após a proclamação do dogma da Imaculada Conceição, é hora de difundir esta verdade entre os povos, a fim de levar todos eles a vivê-lo em suas vidas. Por esta razão, o Santo da Imaculada escolheu tudo o que era possível para difundir a devoção a Nossa Senhora pelo fundo: imprensa, televisão, rádio, internet, etc. Todos os meios de comunicação são instrumentos importantes para fazer a Imaculada conhecida. Deus quer salvar o mundo por Ela. Seguimos precisamente este carisma. Podemos dizer: São Maximiliano é um exemplo para compreender corretamente a Tradição da Igreja: sempre fiel às origens (as Fontes), mas em constante processo de compreensão e vivência da mesma mensagem, atualizando-a hoje. Isso é, acima de tudo, a Igreja.

Tem havido cada vez mais notícias sobre o grande trabalho na promoção da Missa Tradicional pelos Franciscanos da Imaculada, inclusive com alguns setores de sua ordem optando por ela como seu rito próprio. Sabemos que os Franciscanos da Imaculada não surgiram de meios já ligados à Missa Tridentina. Como ocorreu esta descoberta, tanto ao senhor individualmente como à congregação?

Dom Manoel Pestana, finado bispo de Anápolis, e o fundador dos Franciscanos da Imaculada, Pe. Stefano Manelli. A ordem foi a responsável pela publicação da obra de Mons. Brunero Gherardini.

Dom Manoel Pestana, finado bispo de Anápolis, e o fundador dos Franciscanos da Imaculada, Pe. Stefano Manelli (à direita do bispo).

Sim, nós não surgimos da Missa Tridentina, embora sempre a tenhamos apreciado, por ser um tesouro da Igreja. Nosso fundadores (Pe. Stefano M. Manelli e Pe. Gabriele M. Pellettieri), após o Concílio Vaticano II, sentiram um chamado, como que uma obrigação, de renovar a vida religiosa — segundo o desejo do Concílio na Perfectae caritatis –, retornando às fontes de São Francisco, lendo-as através dos Santos Franciscanos modernos, como São Pio de Pietrelcina, Ven. Gabriele Allegra, São Maximiliano M. Kolbe e diversos outros. Os Santos do século XX foram uma inspiração para uma renovação segundo a Tradição Franciscana. Tudo isso para dizer que a Missa Tridentina, que descobrimos e celebramos graças ao [motu proprio] Summorum Pontificum, do Papa Bento XVI, não era para nós uma “novidade”, mas simplesmente uma possibilidade de manter a tradição litúrgica ininterrupta do Santo Sacrifício da Missa, desde São Gregório Magno até João XXIII. Nós celebramos ambas as Missas, isto é, na forma ordinária e extraordinária, e tentamos, na medida do possível, ter a forma extraordinária como a Missa própria de nossa vida comunitária. Eu mesmo celebro esta Missa todos os dias e, para mim, esta descobertura foi uma grande graça. Esta Santa Missa me ajuda a viver o mistério que celebro, por causa da beleza e da profunda teologia que está por trás dela.

A sua ordem também está presente no Brasil. O senhor já esteve por aqui?

Sim, estamos em Anápolis, tanto irmãos como irmãs. Infelizmente, ainda não estive no Brasil. Conheço esta majestosa terra apenas do mapa. Espero visitá-la um dia.

Tanto o senhor como sua congregação, que publicou o livro “Vaticano II, un discorso da fare”, de Monsenhor Gherardini, fizeram um forte trabalho de estudo teológico sobre o Concílio Vaticano II. O que os senhores pretendem com esta iniciativa?

Nós estamos só tentando, por amor à Igreja e pelo futuro do Evangelho no mundo, examinar as causas da “crise profunda” que afeta nossa Igreja hoje, como o Papa Bento XVI repetiu várias vezes (ultimamente na Alemanha). Claro que não dizemos — porque não é verdade — que todo o problema ou a causa da crise é o Vaticano II. Os problemas são mais extensos que o Concílio. Basta apenas lembrar do modernismo e do neomodernismo, ou seja, uma forma de unir fé e sentimento e, por último, natureza e graça, causando sua mistura. Hoje a graça tem sido quase absorvida na natureza e, assim, tem desaparecido. Isso era até justificado por algumas teologias errôneas. Freqüentemente ouvimos que só se pode viver a Fé como homens deste mundo. Viver como um homem real já seria, de certa forma, acreditar. Um exemplo: o conceito de pecado mortal enquanto grave ofensa a Deus está quase abandonado. Isso é a secularização. De toda forma, a crise de fé atual também tem algumas ligações com o Concílio. Após quase 50 anos, nós ainda nos perguntamos qual é a verdadeira hermenêutica do Vaticano II!

Vaticano II: ruptura ou continuidade? Problema de recepção e interpretação ou os próprios documentos conciliares são em si problemáticos?

Um católico nunca pode ver um concílio como ruptura. Este é o caminho para justificar o sedevacantismo ou para ver o Vaticano II como um novo início da Igreja. É claro que há continuidade dentro da Tradição como um todo. O problema reside em outro lugar. O Concílio, de fato, é um verdadeiro concílio ecumênico. O problema na minha opinião é o seguinte: o Vaticano II inaugurou uma nova forma de ensinar em um concílio, uma maneira pastoral de dizer a doutrina. Este mesmo significado de “ensino pastoral”, mesmo durante o Concílio, não estava claro. Surgiram muitas interpretações. A teologia neste momento não tem uma categoria suficiente para compreender e qualificar este nível de ensinamento. Mas, de certa forma, os próprios documentos também são problemáticos. Evitando o modo de ensinar com censuras e definições, escolheram a forma descritiva, como uma catequese ou uma homilia. Ambas as formas de ler o Concílio, tanto a forma da continuidade como a da descontinuidade, normalmente citam os textos do Concílio. Os textos são, portanto, suscetíveis a ambas as leituras. Qual é a única correta? Aquela iluminada pela Tradição. Portanto, o Vaticano II precisam de um a priori que é a Tradição da Igreja. E apenas com a Tradição nós podemos examinar os novos documentos. Podemos ler o Vaticano II apenas à luz do Vaticano I, Trento, etc, e nunca o contrário. O mistério da Igreja vem primeiro.

A Itália tem sido palco de um grande debate sobre o Concílio. Monsenhor Gherardini e Roberto de Mattei alcançaram grande sucesso com suas obras. Há esperança de que o Concílio possa ser objeto de um estudo sério e não mais um “super dogma” intocável?

Padre Lanzetta ao lado de Cristina Siccardi e Monsenhor Brunero Gherardini.

Padre Lanzetta ao lado de Cristina Siccardi e Monsenhor Brunero Gherardini.

Creio que o primeiro passo a ser dado neste debate é apresentar o Vaticano II não como um “super dogma”, segundo a significativa expressão do Cardeal Ratzinger. O Vaticano II não é o universo da Fé Católica. Nossos dogmas são muito mais abrangentes que o último concílio, que foi uma tentativa, não de reescrever a doutrina, mas apenas de difundi-la de uma nova maneira ao mundo moderno. Os efeitos destes 50 anos podem nos ajudar a verificar o que deu errado, o que não estava funcionando. Creio que o espírito todo otimista que acompanhou estes anos, a esperança de ser muito amigável com o mundo a fim de conquistá-lo, absolutamente não está funcionando. O mundo conquistou os católicos. Não devemos nunca esquecer a Cruz de Cristo, sua Paixão e Morte. Só após a morte é que vem a ressurreição.

O segundo passo desse estudo deveria aperfeiçoar uma análise crítica para verificar como as novas doutrinas estão em continuidade com a Tradição. Isso é muito delicado, mas não basta proclamar a continuidade. Ela deve ser verificada. O problema principal do Vaticano II é sua interpretação. Então, o Sujeito mais adequado para realizar este trabalho é o próprio Magistério. É por isso que ambos os autores, Gherardini e De Mattei, pedem uma intervenção do Papa para resolver essa questão tão problemática.

Há aqueles que, em nome do que chamam “Magistério vivo da Igreja”, justificam todo e qualquer ato aprovado pelas autoridades da Igreja no período pós-conciliar. O que o senhor pensa a respeito?

Temos sempre que respeitar o Magistério da Igreja, mesmo as iniciativas pastorais dos Papas. Eles são sempre os Vigários de Cristo. Porém, respeito e reverência não significam cegueira, mas antes uma possibilidade real de mostrar desaprovação pelas escolhas pastorais, o que poderia ser um grito de Fé. Elas podem ser verificadas e corrigidas. Recordemos a desaprovação de Ratzinger a Assis I.

Por fim, Padre: um jovem que discerniu sua vocação ao sacerdócio e está ligado ao rito Tridentino, desejando se engajar em um estudo sério e crítico do Concílio, encontraria boas-vindas e portas abertas nos Franciscanos da Imaculada?

Sim, é claro. Esperamos por muitas vocações brasileiras.

maio 8, 2012

O Concílio Vaticano II e a liberdade religiosa.

O prof. Philippe Chenaux conta a história e a importância da Declaração “Dignitatis Humanae”

Por Antonio Gaspari

ROMA, sexta-feira, 4 de maio de 2012 (ZENIT.org) – De acordo com Philippe Chenaux, Diretor do Centro de Estudos sobre o Concílio Vaticano da Pontifícia Universidade Lateranense, a declaração Dignitatis Humanae (DH) sobre a liberdade religiosa, é um documento de importância histórica “dos maiores documentos do Concílio”.

Falando no dia 3 de maio para o ciclo de conferências organizado pelo Centro de Estudos e Pesquisas sobre o Concílio Vaticano II da Lateranense em colaboração com o Centre Culturel Saint Louis de France sobre o tema “Revisar o Concílio, Historiadores e teólogos confrontando-se, “o professor de História da Igreja Moderna e Contemporânea contou o trabalho que deu esta declaração e como os padres conciliares embora partindo de posições diferentes e em alguns casos opostas chegaram a votar com grande maioria a Dignitatis Humanae.

A declaração sobre a liberdade religiosa era considerada pelo Papa Paulo VI como um dos grandes documentos do Concílio, não tanto pelo seu tamanho (trata-se de um dos textos mais curtos), e nem sequer pela forma (é uma declaração simples), mas sim pelo seu conteúdo.

Para o prof. Chenaux a DH “resolvia dois dos problemas mais difíceis com que a Igreja se enfrentava há pelo menos dois séculos: o problema da relação entre liberdade e verdade, a nível teórico ou teológico, e aquele das relações entre a Igreja e o Estado moderno, a nível político-eclesiástico”.

O debate sobre a liberdade religiosa tem sido controverso, porque “apesar da Igreja sempre ter afirmado a liberdade do ato de fé”, ou seja,  que “ninguém pode ser forçado a abraçar a fé contra a sua vontade”, era necessário superar o legado da aliança institucional dos poderes espirituais e temporais, da intolerância religiosa subsequente à reforma e contrareforma e uma certa intransigência durante o século XIX.

O professor da Lateranense explicou que “A tese intransigente do Estado Católico tinha permanecido oficial pela Igreja, pelo menos, até o final do pontificado de Pio XII” quando ”A dolorosa experiência dos totalitarismos (o comunismo, o nazismo, o fascismo) tinham contribuído para uma redescoberta pelo Magistério da Igreja da eminente dignidade da pessoa humana e dos seus direitos fundamentais“.

Em mensagens de rádio no tempo de guerra, em Natal de 1942 e no Natal de 1944, Pio XII enfatizou a dignidade da pessoa humana e a importância de uma democracia saudável.

Para Chenaux já antes da Segunda Guerra Mundial, a Igreja era incapaz de conformar os poderes do Estado com o reconhecimento de Deus e da Igreja. Nos Pactos de Latrão com a Itália fascista (1929); o Reichskonkordat com a Alemanha nazista (1933); e o Concordato com a Espanha de Franco, em 53, a Igreja adotou uma política de defender o “mal menor”, a fim de garantir a liberdade da Igreja, do clero, dos católicos e de todos os cidadãos.

No concílio as duas posições, a mais ortodoxa e a outra que abria para o mundo tendo em conta a mudança dos tempos, se confrontaram, ao ponto de que a elaboração da DH “foi até o último momento trabalhosa e difícil“.

Chenaux disse que, mesmo em maio de ’64, “O debate entre apoiantes e opositores do texto (da DH) foi muito amargo“. Os bispos norte-americanos e muitos bispos da Europa do Leste (especialmente poloneses) “afirmaram a necessidade de reconhecer um direito com base na natureza da pessoa humana. Os segundos, ou seja, os adversários, expressaram a convicção de que não se podia separar a liberdade religiosa da verdade e dos seus direitos”.

No debate interveio o então Arcebispo de Cracóvia, monsenhor Karol Wojtyla, que propôs preparar duas declarações: “uma dirigida aos cristãos não-católicos com um espírito ecumênico, para dizer que a verdade cristã nos torna livres, e outro dirigida aos governos, uma declaração ad Extra, que servia  aos interesses da Igreja nos países comunistas”.

Em dezembro de 1964, a pedido do Papa Paulo VI, também foi consultado o filósofo Jacques Maritain, que em um memorando entregue ao papa em março de 1965, lembrou com vigor que “a liberdade religiosa deve ser proclamada e mantida como um dos direitos humanos fundamentais da pessoa humana“.

Acontece assim que no dia 7 de dezembro de 1965, com 2308 placet e 70 non placet, a declaração DH foi aprovada e promulgada pelo Papa Paulo VI.

A DH diz: “Este Concílio declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa, esta liberdade consiste no fato de que todos os homens devem estar livres de coação por parte de indivíduos e grupos sociais e de todo poder humano para que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a sua consciência, nem impedido dentro dos devidos limites a agir de acordo com sua consciência, em particular, publicamente, sozinho ou associados com outros“.

O jesuíta José Leclerc, professor de eclesiologia no Institut Catholique de Paris e autor de uma obra sobre a história da tolerância na idade moderna, escreveu na revista Etudes em Abril de 1966, que foi um “acontecimento extraordinário” na história dos Concílios.

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maio 8, 2012

Mesmo os amigos do Papa desconfiam um pouco dos “lefebvristas”.

Por John L. Allen Jr. | Tradução: Fratres in Unum.com

Roma – Mesmo nos círculos mais simpáticos à leitura do Concílio Vaticano II feita pelo Papa Bento XVI, parece haver um pouco de ansiedade rondando o que pode significar trazer à comunhão os maiores críticos do Concílio, a tradicionalista FSSPX.

Ao menos, alguns dos defensores do papa parecem acreditar que um claro sinal de adesão ao CVII deve ser o preço do retorno.

Recentemente, esta impressão veio à tona durante uma conferência sobre o 50º aniversário do CVII realizada nos dias 3 e 4 de maio na Universidade Santa Cruz, dirigida pelo Opus Dei.

Após o CVII, a fraternidade tradicionalista – popularmente conhecida como “lefevristas” por causa do fundador, o finado arcebispo francês Marcel Lefebvre – rompeu com Roma em função das mudanças na liturgia e dos ensinamentos do Concílio a respeito do ecumenismo, do diálogo inter-religioso e da liberdade religiosa.

Em meados de abril, porém, a FSSPX assinou um preâmbulo doutrinal submetido pelo Vaticano como pré-condição para a reintegração. Isso poderia abrir o caminho para findar o único cisma formal ocorrido depois do Vaticano II, talvez como uma prelazia pessoal ou outra estrutura eclesial que permita aos lefevristas certa autonomia.

A conferência na Universidade Santa Cruz, com o tema “Vaticano II: o valor permanente de uma reforma para a nova evangelização” foi, em grande parte, uma reunião de pensadores vigorosamente empenhados na “hermenêutica da continuidade” do Papa Bento XVI para a interpretação do Concílio, notoriamente delineada em seu discurso de dezembro de 2005 à Cúria Romana.

Como o papa, vários palestrantes se distanciaram de leituras opostas que colocam, de acordo com eles, demasiada ênfase no CVII como algo que deixou de lado, ou modificou, práticas ou ensinamentos católicos anteriores.

Porém, na medida em que estes temas foram se desenvolvendo, certa ansiedade em relação aos lefevristas veio à tona. Isso de deu de forma indireta, certamente nunca tomando uma posição de oposição à reintegração [da FSSPX], mas tal ansiedade foi inequívoca.

O padre da Opus Dei, pe. Johanner Grohe, um historiador eclesiástico da Universidade Santa Cruz, pesquisou vários esforços feitos durante e após o CVII para colocar em dúvida a autoridade do concílio tanto por parte de teólogos progressistas – que argumentavam que  o CVII não era verdadeiramente “ecumênico”, pois os Ortodoxos e os Protestantes não foram representados – quanto de  críticos tradicionalistas – que apresentavam o CVII como meramente “pastoral” e, portanto, sem caráter obrigatório nas questões de fé.

De maneira ampla, pe. Grohe defendeu a autoridade do CVII, insistindo que seu ensinamento é “obrigatório” e “deve ser aceito por aqueles que querem entrar em comunhão com a Igreja Católica”.

Grahe finalizou sua palestra com um chamado a uma “profissão de fé” que explicitamente inclua os ensinamentos do CVII para qualquer pessoa que queira unir-se à Igreja.

“No diálogo com aqueles que gostariam de entrar na Igreja Católica, é impossível não pedir ‘uma adesão de fé teológica às afirmações do CVII que lembram as verdades da fé’,” afirmou Grohe, citando uma frase de outro padre da Opus Dei, monsenhor Fernando Ocáriz, que fez parte do time de negociação com os Lefevristas.

Os Lefevristas, evidentemente, são o grupo mais famoso que atualmente está envolvido num diálogo sobre sua entrada na Igreja.

Grohe argumentou que uma “profissão de fé”, um modo histórico de encapsular o cerne das crenças que alguém deve possuir para ser considerado católico, poderia ser atualizada com uma referência ao CVII.

“Uma profissão de fé que abarque uma tradição conciliar desde Nicéia até o CVII deixaria claro que os ensinamentos do último concílio estão inseridos da longa e frutífera história do magistério da Igreja”, afirmou Grohe.

Uma defesa ainda mais radical de parte do legado do CVII veio do padre franciscano David Maria Jaeger, ao falar sobre o documento conciliar Nostra Aetate, a respeito das religiões não cristãs.

Um veterano das negociações vaticanas com Israel sobre os impostos e a situação jurídica das propriedades da Igreja, Jaeger hoje atua como juiz na Rota Romana, a principal corte do Vaticano.

Jaeger lembrou do ensinamento do documento sobre o judaísmo, incluindo sua feroz rejeição ao anti-semitismo. Este também tem sido um ponto de discordância com os lefevristas; quando Bento XVI levantou as excomunhões dos quatro bispos tradicionalistas em janeiro de 2009, houve uma comoção mundial relacionada com os comentários feitos por um destes bispos em que questionava a realidade do Holocausto.

Jaeger afirmou, na conferência da Universidade Santa Cruz, que “um real e preocupante” problema com a recepção da Nostra Aetate tem sido “uma tendência, aqui e ali dentro do Catolicismo, de olhar com tolerância grupos marginais de exagerada visibilidade midiática que verdadeiramente denunciam a doutrina do concílio”, afirmou Jaeger.

Apesar de Jaeger não ter mencionado os Lefebvristas, ele expressou preocupação sobre as condições sob as quais qualquer pessoa que tenha dúvidas sobre o CVII possa achar o caminho de volta à Igreja.

“É obrigatório aqui expressar a viva esperança de que tal tolerância seja sempre firmemente rejeitada”, disse, “e que nós não nos contentemos com uma quase-adesão que é somente um engodo, acompanhada por óbvias reservas mentais e verbais ao ensinamento do CVII em geral e do Nostra Aetate em particular”.

No resto de seu discurso, Jaeger rejeitou várias leituras da Nostra Aetate, populares entre os teólogos católicos progressistas – por exemplo, que ela reconheceria a revelação em outras religiões como “paralela ou complementar” ao Cristianismo, ou que apresentaria o Judaísmo como um “meio paralelo de salvação para os judeus”, enquanto o Cristianismo seria somente para “os gentios”.

Espalhar tais idéias, argumentou Jaeger, torna inevitável que sempre que líderes da Igreja lembrem a doutrina oficial nestes pontos, muitos judeus vejam isso como um recuo à Nostra Aetate – que, insistiu, não seria o caso pois, de acordo com ele, o documento nunca desejou propor estes dois pontos.

Neste contexto, o evento da Santa Cruz sugere que não são somente os suspeitos de sempre, ou seja, os críticos do Vaticano ou do papado de Bento XVI , que se perguntam sobre o preço que poderia ser pago para receber os Lefebvristas de volta. Também aí se incluem alguns amigos de Bento XVI.

maio 4, 2012

Cardeal Koch acusa Küng de desorientar fiéis sobre o Vaticano II.

The Tablet, 4 de maio de 2012 | Tradução: Fratres in Unum.com - O Cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, culpou o Professor Hans Küng por criar sentimentos anti-romanos entre os católicos de língüa alemã e pela difusão de uma má interpretação sobre o Concílio Vaticano II.

“No mundo de língüa alemã tem havido, acima de tudo, a difusão da idéia de Küng de que o Concílio constituiu uma ruptura com a tradição da Igreja, e não uma evolução dela”, disse o Cardeal suíço em uma entrevista à revista italiana I Tempi. “Na minha opinião, esta interpretação causou a atual inquietação [na Igreja]“, afirmou.

O teólogo de 84 anos rejeitou a hipótese. “Eu nunca afirmei que o Vaticano II fosse um ato de ruptura com a Tradição”, disse o Pe. Kung nesta semana ao The Tablet. “Ele foi uma mudança epocal de paradigma que envolveu tanto continuidade como descontinuidade”, afirmou.

maio 1, 2012

Provando do próprio veneno.

Triste constatação: a obediência que se pede hoje não foi respeitada nos tempos de Pio XII pelos mentores do Vaticano II. Uma resposta do teólogo italiano dissidente Vito Mancuso em entrevista a Vatican Insider:

Portanto, a desobediência pode ser um caminho para renovar a Igreja?

O próprio papa, na sua homilia, se perguntou se a desobediência é uma via para renovar a Igreja. A pergunta, obviamente, era retórica, porque, para ele, a resposta é um explícito “não”. A mim, parece que também pode ser “sim”, na medida em que a desobediência exterior tem como fim uma maior obediência interior à lógica evangélica que se diz como bem concreto dos indivíduos concretos. Sem a desobediência da teologia na primeira metade do século XX (um nome dentre todos, Teilhard de Chardin), não teríamos tido o Vaticano II e a reviravolta radical acerca da liberdade religiosa, ecumenismo, relação com os judeus e as outras religiões, apenas para citar as inovações mais marcantes. É preciso continuar nesse caminho profético.

abril 30, 2012

“A Revolução dentro da Igreja Católica foi da parte do clero”.

Palavras do Padre Joseph Kramer, FSSP, pároco da Igreja Santissima Trinitá dei Pellegrini, em Roma.

Créditos: Una Voce Brasil

abril 21, 2012

“Igreja do Vaticano II”, o “endless love” do episcopado brasileiro.

Embora os fatos demonstrem escancaradamente a falência de seus ideais modernizantes, a hierarquia católica continua vivendo em uma eterna década de 60.

O Concílio Vaticano II mereceu grande destaque porque a Igreja vivia, nas décadas que o antecederam, um clima de criatividade e de liberdade para novas experiências. Legitimadas pelo Concílio, essas experiências alcançaram dimensão universal.

O Brasil, desde os anos 50, passava por grande ebulição política, uma fase que desembocou numa ditadura militar, a partir de 1964, com consequências complexas. No entanto, a Igreja Católica no Brasil, no mesmo período, experimentava forte dinâmica evangelizadora. Ela levou ao Concílio Vaticano II experiências significativas nos campos da Bíblia, da catequese, da liturgia, do social, do laicato.

Durante o período conciliar e nos anos subsequentes, a Igreja Católica no Brasil, como em quase toda a América Latina, tinha um duplo desafio missionário: ser fiel aos ditames da Igreja em Concílio, marcando a renovação eclesial, e ser fiel à missão profética ao denunciar abusos contra os direitos humanos.

A evangélica opção preferencial pelos pobres, integrante do Objetivo Geral da nossa Igreja, desde seus primeiros planos pastorais, exigiu, nesses anos cruciais, uma mística ainda mais evangélica, uma maturidade maior na sua ação apostólica.

Contávamos com a Constituição Lumen Gentium, que registrara: “…assim como Cristo consumou a obra da redenção na pobreza e na perseguição, assim a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho, a fim de comunicar aos homens os frutos da salvação…” (nº 8). Nesse contexto, nossas Igrejas acolheram com o maior entusiasmo a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, em 1965, e a concretização da promessa do Papa  Paulo VI, na Exortação Apostólica Populorum Progresso, em 1967, que ofereceu elementos novos para a doutrina social da Igreja,com o conceito de “desenvolvimento integral – do homem todo e de todos os homens”.

A Populorum Progressio iluminou a prática dos cristãos e deu novo alento em épocas tão desafiantes para a nossa Igreja; perpassou também o Documento de Medellín (1968), intitulado “A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concilio, que visava a proporcionar uma evangelização latino-americana inculturada, levando em consideração os desafios sociopolíticos, a religiosidade profunda do nosso povo, sua espiritualidade e sede de Deus.

Alguns eventos marcantes estiveram presentes à Igreja Católica no Continente no período pré-conciliar. Destacamos o apelo do Papa João XXIII aos bispos da América Latina por uma pastoral planejada. O Santo Padre João XXIII explicitou uma preocupação com o conjunto do Continente diante da situação de Cuba, tão católica quanto os outros países, e que passava por momentos desafiadores para a Igreja.

Daí nasceu entre nós, em 1962, o primeiro Plano de Pastoral, denominado Plano de Emergência para a Igreja do Brasil.

A recepção do Concílio Vaticano II propunha, no entanto, um passo adiante ao Plano de Emergência (1962-1965).  O passo seguinte foi o Plano de Pastoral de Conjunto (PPC), relativo ao período 1966-1970.

O Objetivo Geral do Plano estava assim formulado: “Criar meios e condições para que a Igreja no Brasil se ajuste o mais rápida e plenamente possível, à imagem de Igreja do Vaticano II”.O Brasil foi um dos primeiros países a formular propostas de renovação eclesial à luz do Concílio, por meio de um Plano de Pastoral de Conjunto (PPC). Nossos bispos, reunidos em assembleia, em Roma, trouxeram, na bagagem e no coração, as orientações básicas para a renovação conciliar em nosso país. Tínhamos terreno adubado para que as sementes conciliares caíssem em solo bom.

Do discurso do Cardeal Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida, na cerimônia em homenagem aos 60 anos de fundação da CNBB e de 50ª edição da Assembleia Geral dos Bispos da CNBB – 19 de abril de 2012.

Se em Portugal cantam um “As tears go by” penitencial, seria demais imaginar o Cardeal Damasceno e seus confrades da CNBB, todos de mãozinhas dadas, cantando este meloso sucesso da década de 80 para declarar o seu “amor sem fim” à “Igreja do Vaticano II”? Aquela à qual o Papa rejeitou quando se referiu a uma “ruptura entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar“… Sim, o “endless love” da CNBB:

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