Summorum Pontificum, um ano depois: O dever do Católico.

Michael Davies e Cardeal Ratzinger
Michael Davies e o então Cardeal Ratzinger

A doutrina da indefectibilidade não nos protege do dano causado por fraqueza, julgamentos infelizes ou falta de sensibilidade litúrgica por parte de um Papa. Na presente crise nós podemos ver que o Espírito Santo fez o suficiente para evitar que a Igreja falhasse em sua constituição divina, e nada mais. Isso deve tanto confortar e fortalecer a fé dos Católicos tradicionais como inspirá-los a tomar sua plena parte como membros do Corpo Místico para restaurar àquele Corpo a completa saúde novamente. O primeiro requisito para se alcançar isso deve ser obter o máximo de celebrações da Missa tradicional possível. O número de tais celebrações está crescendo diariamente. O segundo é trabalhar respeitosamente, como expressa Mons. Gamber, para a eventual restauração do Missal de 1962 como “a forma litúrgica principal para a celebração da Missa”.

Dietrich von Hildebrand, descrito pelo Papa Pio XII como o doutor da Igreja do século vinte, nos lembra que:

 

Os fiéis não estão obrigados a ter todas as ordens como boas e desejáveis. Eles podem lamentá-las e rezar para que elas sejam revogadas; realmente, eles podem trabalhar, com todo respeito devido ao Papa, para sua eliminação.

O fato de que o Missal Latino do Papa Paulo VI não possa ser descrito como mau, pernicioso ou instrínsecamente corrompido não significa que nós devemos considerá-lo um substituto aceitável para o Missal Tradicional. A crítica devastadora do Missal Latino de 1970 enviada ao Papa Paulo VI pelos Cardeais Ottaviani e Bacci deixa isso muito claro. Em sua carta de apresentação eles explicam ao Papa que:

 

O Novus Ordo Missae – considerando-se os novos elementos amplamente suscetíveis a muitas interpretações diferentes que estão nela implícitos ou são tomados como certos — representa, tanto em seu todo como nos detalhes, um surpreendente afastamento da teologia católica da Missa tal qual formulada na sessão 22 do Concílio de Trento. Os “cânones” do rito definitivamente fixado naquele tempo constituíam uma barreira intransponível contra qualquer tipo de heresia que pudesse atacar a integridade do Mistério.

Mons. Klaus Gamber pôde contemplar apenas uma solução realista para a presente crise na liturgia:

 

Em última análise, isso significa que no futuro o rito tradicional da Missa deve ser mantido na Igreja Católica Romana… como a principal forma litúrgica para a celebração da Missa. Ele deve tornar-se uma vez mais a norma de nossa fé e o símbolo da unidade Católica por todo o mundo, uma rocha de estabilidade num período de reviravoltas e mudanças intermináveis.

Tal dia uma vez virá? Quem pode dizer? Pode muito bem ser que agora estejamos nos últimos dias. O que nós podemos estar certos é que é nosso dever trabalhar por essa restauração por menores que nossas chances de sucesso possam parecer no momento. Nos dias da perseguição Ariana, quando Santo Atanásio era um fugitivo caçado excomungado pelo Papa, quem poderia sequer imaginar que se aproximava o dia quando os verdadeiros católicos que foram forçados a rezar fora de suas paróquias poderiam retornar a elas em triunfo? Nós devemos rezar por um Papa como Paulo IV, São Pio V ou São Pio X, que não recuará ao tomar as medidas necessárias para restaurar a ortodoxia,  sejam quais forem as consequências. Seria realmente preferível ter uma Igreja reduzida a uma fração de seu tamanho atual, mas composta de verdadeiros Católicos, do que uma Igreja composta de centenas de milhões de Católicos com uma larga proporção que não tem direito a esse nome. O Cardeal Newman escreveu:

 

Possa Deus levantar-se e tremer terrivelmente a terra (apesar de ser uma oração terrível) do que homens de dúplo pensamento mintam às ocultas entre nós e as almas se percam pela presente tranqüilidade… Que Ele nos separe, até que o joio seja plenamente removido: de qualquer forma, ao invocá-lo, nós não sabemos o que pedimos e sentindo que o fim em si mesmo é bom, ainda não podemos merecidamente estimar o temor de tal castigo do qual falamos tão livremente.

Qual seja o estado lamentável da Igreja no momento, quais sejam as terríveis provações e tribulações que nós tenhamos que encarar — Nossa Senhora de Fátima nos alertou sobre elas — nós devemos sob todas as circunstâncias permanecer na barca de Pedro que é a única Arca da Salvação. O Papa Leão XIII nos advertiu na Satis Cognitum:

 

A Igreja de Cristo, portanto, é una e a mesma para sempre: aqueles que a deixam afastam-se da vontade e do mandamento de Cristo Senhor. Deixando o caminho da salvação,  entram no caminho da perdição.

(I am with you always, Michael Davies, The Neumann Press, 1997, pp.74-75)