A crise, a guerra, a apostasia – Dom Bernard Tissier de Mallerais

 

Traduzimos trechos seletos da entrevista concedida pelos três bispos da FSSPX à Angelus Magazine. Desta vez quem fala é Dom Bernard Tissier de Mallerais:

[…] João Paulo II não fez nada para reconstruir a fé. A grande apostasia vem crescendo; os jovens estão quase completamente perdidos na impureza e nas drogas. O reinado social de Cristo está completamente destruído pela liberdade religiosa e pelos direitos do homem. Estamos vivendo a grande apostasia da qual fala São Paulo aos Tessalonicenses: “venerit dicessio primum”.

Q: O que lhe impressionou quanto aos fiéis em suas muitas viagens para confirmação?

Tissier de Mallerais: Claro, as famílias com muitos filhos — maravilhoso! Isso é efeito da graça do Santo Sacrifício da Missa. Também, com isso vieram muitas novas escolas para meninos e meninas, escolas primárias além dos nossos priorados em muitos lugares. Portanto, igreja, priorado e escola são agora a unidade normal.

[…]

Q: A situação com Roma está mais encorajante após 20 anos?

Tissier de Mallerais: Não, nada mudou. Apenas o motu proprio de 7 de julho de 2007 foi um milagre inesperado, e isso muda radicalmente a prática da Santa Sé com relação à missa tradicional. Mas, praticamente, o retorno à Tradição é pequeno entre os padres. Apenas jovens padres, poucos deles, estão interessados. Mas quanto a liberdade religiosa, os direitos dos homens, o interesse de Roma em nosso trabalho: nada mudou – induratio cordium! Um endurecimento dos corações, uma cegueira das mentes.

Q: O que você diria àqueles que em 1988 previram que a Fraternidade de São Pio X estava criando uma Igreja paralela? A história não os provou que estavam errados?

Tissier de Mallerais: Eu respondo. Aonde está a Igreja, meus caros? Reconhece-se a árvore pelos frutos. Onde estão os frutos, aí está a Igreja. Eu não quero dizer que a Igreja está reduzida à Fraternidade, mas que seu coração é a Fraternidade. A verdadeira Fé, o verdadeiro ensinamento, os sacramentos não-bastardos, tudo isso está na Fraternidade. Em todos os outros lugares existe uma mistura cheia de compromissos por causa do liberalismo e da fraqueza dos espíritos. A Igreja paralela é a do Vaticano II – Nova Igreja: seu espírito, sua nova religião ou não-religião.

Q: O que permanece como o mais importante desenvolvimento dos últimos 20 anos? A morte do Arcebispo? A eleiçã de Bento XVI? O Motu Proprio?

Tissier de Mallerais: A resposta é a nossa perseverança, nossa existência. O milagre da continuação da Tradição. A consagração dos bispos foi apenas um meio para esse fim. Não, a morte de Mons. Lefebvre, a eleição de Bento XVI, então não foram eventos de significância. Realmente, nenhum evento particular aconteceu nos últimos 20 anos, mas apenas o milagre da sobrevivência da Tradição.

Mons. Bernard Tissier de Mallerais

Mons. Bernard Tissier de Mallerais

Q: Muitos Católicos que começaram ao lado do Arcebispo anos atrás agora sentem-se inclinados a unir forças com uma Roma aparentemente mais conservadora ao aliarem-se com organizações com mais “status regular” dentro da Igreja.

Tissier de Mallerais: Sim, muitas perdas. Por causa da falta de princípios, infidelidade à luta da Fraternidade, procurando compromissos, desejando paz, desejando vitória antes do tempo previsto por Deus. Essas pobres pessoas (padres, religiosos, leigos) são liberais e pragmáticos. Seduzidos por sorrisos de pessoas no Vaticano, e quero dizer prelados da Cúria Romana. Pessoas que se cansaram pelo longo, longo combate pela Fé: “Quarenta anos é o suficiente!”. Mas isso vai durar mais 30 anos. Então, não parem, não procurem “reconciliação”, mas lutem!

Q: Qual é a sua mais memorável recordação do Arcebispo?

Tissier de Mallerais: Quando, em 13 de outubro de 1969, ele nos abriu as portas da route de Marly, 106, Fribourg, Suíça, sozinho, sem qualquer padre, recebendo-nos, nove seminaristas nos dois apartamentos que ele alugou dos padres Salesianos. Sozinho e aos 63 anos de idade, e começando tudo conosco, pobres jovens! Isso foi comovedor, ver como ele tomou conta de nós, dando-nos conferências espirituais, muito simples, teológicas, com Santo Tomás de Aquino e sua experiência como um missionário. Um arcebispo, antigo superior geral de 3000 membros, antigo Delegado Apostólico, e agora sozinho com nove seminaristas para começar algo pela causa do sacerdócio, algo do qual ele nem mesmo sabia do futuro. Percebam essa fé!

[…]

Conseqüentemente, a luta contra a liberdade religiosa não pode ser separada da luta pela Missa. O mesmo vale para a luta contra o ecumenismo, pois se Cristo é Deus, então Ele é capaz de expiar e satisfazer por Sua Paixão todos os pecados; também, apenas Ele tem o direito de reger as leis civis conforme o Evangelho. Eu nãovejo separação entre a luta pela Missa, a luta pelo espírito cristão de sacrifício e a luta pelo reinado social de Cristo. Os modernistas não vêem diferença entre a sua Nova Missa, sua recusa ao mistério da Redenção e sua negação do reinado social de Jesus Cristo.

[…]

Q: Como você pensa que seria a avaliação do Arcebispo Lefebvre sobre a crise conforme as coisas estão em 2008?

Tissier de Mallerais: Ele denunciaria não apenas o liberalismo — que era o caso de Paulo VI — mas o modernismo, que é o caso de Bento XVI: um verdadeiro modernista com uma teoria completa de modernismo atualizado! É tão sério que eu não posso expressar meu horror. Eu mantenho silêncio. Então, Arcebispo Lefebvre gritaria: “Seus hereges, vocês pervertem a Fé!”

[…]

Q: Que livros você pensa ser mais essenciais aos fiéis nesses dias?

Tissier de Mallerais: Para todos, seu Missal e seu catecismo. Para moços, livros sobre o reinado social de Cristo. Para moças, livros sobre culinária, costura e de como mobiliar uma casa.

 

3 Responses to “A crise, a guerra, a apostasia – Dom Bernard Tissier de Mallerais”

  1. Caro amigo,

    Em princípio, eu acho teu blog por boa qualidade, com fatos, traduções interessantes, enfim, favoráveis a Tradição. Continue assim – resolvir tirar o meu por questão de falta de tempo.

    Sobre Dom Tissier, eu achei uma postagem interessante.

    Ele vai da linha de raciocínio de Dom Fellay, superior da Fraternidade, cuja afirmação diz que Bento XVI busca colocar a Tradição aliada com o modernismo conservador. Algo que é impossível, quer dizer, o plano de Sua Santidade da “herméutica da continuidade”. Portanto, o Papa tenta salvar algo do Vaticano II e isso é perigoso.

    Porém, tudo indica, o Papa leva a minar essa mentalidade acima com o “antigo” (expressão de desprezo dos modernistas a era pré-conciliar), pois deixa o Vaticano II em perigo.

    Quer dizer, historicamente é importante citar que algo acontece no Vaticano; o Papa faz algo, porém tudo leva a pensar que o mesmo não tenha consciência que essas novidades conciliares não tenham salvação.

    Só nisso que não concordo muito com Dom Tissier, pois acontece alguma coisa boa: a fumaça de Satánas perde a força continuamente.

    Mas não significa que que deva optar a um “acordo prático” ou algo semelhante. Ele, como a Fraternidade, têm razão de ficar como está.

    Pode ser que futuramente a Fraternidade possa regularizar seus estatutos e sejam aprovados pelo Papa.

    Mas a preocupação da mesma sempre foi mais uma questão de manter o estado de necessidade e guardar a Fé. Isso sim que é fundamental. Ela tem razão.

    Ela está certa de não deixar perde isso acima, por uma aventura como foi o I.B.P. O mesmo calou-se e, deste modo, ela foi coerente com outras fundações tradicionais de sacerdotes que antes dela optaram ao mesmo silêncio. Aliás, não lembro que houve indicação a bispos dos mesmos a fim de alguém seja cardeal.

    Embora uma fundação, a proposta da Ecclesia Dei a mesma, seja algo semelhante a Opus Dei, seja ainda um ponto de discursão mais profunda. Nada posso afirmar. Porém, é bom lembrar que vivemos em tempos conciliares…

    Além do mais, é fundamental denúnciar o erro, sem querer ser sedevacantista, pois esse erro é não recolhecer o Papa. Bento XVI sempre será Papa, como foi João XXIII até hoje.

    Deste modo, ela não pode omitir a este tempo. Faz como Santo Inácio. São tempos nada comuns.

    Porque, até hoje, a mensagem de Fátima foi colocada ao silèncio, até nesse pontificado. Todos os pontificados silenciaram, pois, isso é muito grave. Até que poderia ser tolerante em não relevar isso, mas não deixaram de lado o erro do pós-concílio. Ao contrário colocavam aos berros isso com entusiasmo.

    Assim, tudo indica que Deus castigará este tempo, pois foi avisado como algo grave em Fátima este tempo.

    Se, optarem que o Papa faz um regresso a Tradição, ele deve colocar às claras.

    Creio que esse último “ultimatum” foi péssimo para piorar mais isso acima. A Ecclesia Dei não foi clara e, além disso, foi confusa e vaga.

    O que o Vaticano queria dizer?… só restou novamente o silêncio.

    E não podemos silenciar mais.

    O mundo acaba-se aos nossos olhos…

    Os católicos devem fazer alguma coisa. Usem o Motu Proprio da Missa de sempre.

    A Fraternidade não será problema, como diz Dom Fellay, ao Vaticano quando sairmos deste tempo.

    Mas o Papa deve fazer essa consagração à Russia, isso sim, ele demonstrará que, claramente, quer a vontade de Deus retorne a Roma.

    O mundo poderá se converter e deixar esses vícios que vemos na mídia.

    A Fraternidade, repito, não será mais problema.

    Caso não faça, como foi os outros pontificados, infelizmente, o castigo virá, para o bem de todos os católicos e para a própria humanidade.

    Como diz um provérbio, “Deus escreve certo em linhas tortas”. Portanto, até esse plano de Sua Santidade ele tirará proveito. Mas, provavelmente, não será como os imediatistas. Será como diz Fatima.

    Será através da cruz (não será diferente), pois não é nada fácil. Aliás, será uma enorme Cruz onde haverá o martírio e, deste modo, a Tradição retornará.

    E muitos, até os bons, terão que sofrer…

    André.

  2. Monsenhor Bernard Tissier de Mallerais é um Bispo muito zelozo pelo bem das almas. Não quero entrar em nenhuma questão doutrinal, teológica, enfim, só achei estranho Dom Bernard Tissier de Mallerais revestir-se da Casula imediatamente por cima da batina roxa, na foto acima, durante a Consagração. é, dá para notar que falta a Alva, achei estranhíssimo que Dom Tissier não tenha usado alva. Um paramento indispensável. Se eu estou errada, se alva está por baixo daquela batina, me corrijam, vejoa apenas renda branca na barra, não vejo a alva. Geralmente a alva deve vestir-se por cima da batina e do amito, não entendi a foto. Alguém pode expplicar?! salve Maria!

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