Um alerta de Louis Salleron (22 de outubro de 1979)

Apresentamos o antigo artigo ‘O que é um cismático’ , do Professor Louis Salleron. A introdução é feita por Michael Davies, em sua excepcional obra em defesa de Dom Lefebvre.

Um alerta de Louis Salleron

O artigo que segue, do Professor Louis Salleron, apareceu em 25 de outubro de 1979, publicado no diário Francês L’Aurore. Ele parece mais pertinente hoje do que quando ele apareceu pela primeira vez. Professor Salleron nos adverte de um fenômeno sociológico que é extremamente relevante aos Católicos tradicionais. Eles são consistentemente rejeitados, denegridos e até mesmo ridicularizados por aqueles com autoridade na Igreja, e às vezes pelo clero paroquial e seus conhecidos católicos. Quando um grupo minoritário é tratado de tal forma, é longe de ser incomum que seus membros desenvolvam as características que eles foram falsamente acusados de possuir. Católicos tradicionais são frequentemente acusados de serem cismáticos e após anos de rejeição consistente pela Igreja oficial é dificilmente supreendente se, por propósitos práticos, alguns não continuarem mais sua luta pela tradição dentro da Igreja, mas como um grupo claramente definido fora dela.

A advertência do Professor Salleron foi confirmada dramaticamente em outubro de 1981 quando um grupo de tais católicos que declararam que a Santa Sé estava vacante tomou o último passo de ter seus próprios bispos “sedevacantistas” consagrados por um idoso arcebispo vietnamita, Mons. Pierre Martin Ngo-Dinh-Tuch. Esses “bispos” desde então consagraram outros, e agora na Europa, México e Estados Unidos existe um cisma de facto, o que pode ser designado de maneira acurada como uma seita sedevacantista. O fato de que aqueles que aderiram a essa seita possam ter sido provocados e escandalizados além do que eles poderiam humanamente suportar não altera a gravidade de sua ação. O arcebispo Lefebvre rejeitou o sedevacantismo firme e consistentemente e tomou o que deve ter sido para ele o mais triste passo de expulsar padres da Sociedade de São Pio X por aceitar as teses de que a Santa Sé está vacante. Uma declaração que ele fez sobre esse assunto está incluída no capítulo XL.

Segue o artigo do Professor Salleron:

O que é um cismático?

Em 16 de maio de 1965 — já quatorze anos atrás! — Mons. Pailler, o Arcebispo e Coadjuntor de Rouen, afirmou num encontro da Ação Católica: “Eu não penso que estou sendo pessimista quando digo que pelo fim desse ano, isso é dizer no fim do Vaticano II, especialmente depois da promulgação dos textos sobre a Liberdade Religiosa e o Schema XIII, existirá um grave risco de cisma dentro da Igreja”.

O schema XIII, deve ser lembrado, foi a primeira “semente” do que se tornaria a Constituição Pastoral Gaudium et Spes que trata da Igreja no mundo moderno.

Essa observação de Mons. Pailler foi saudada pelos progressistas e modernistas como uma condenação dos tradicionalistas. A maioria dos católicos estavam não menos abismados. O primeiro choque foi causado pela ambigüidade da observação, como o pessimismo de Mons. Pailler parecia dar boas vindas à completa extinção dos tradicionalistas: eles seriam excomungados proprio motu. Por outro lado, era difícil compreender como um Concílio que clamava ser pastoral e não doutrinário, um Concílio que proclamou liberdade para todos e o fim das condenações, poderia lançar à margem da Igreja aqueles católicos que desejavam manter-se fiéis tanto ao dogma como à Tradição.

De fato, a coisa toda era perfeitamente lógica. O Padre Congar descreveu o Vaticano II como a “Revolução de Outubro”. Com isso ele desejava que a liberdade dada pelo Vaticano II fosse a liberdade proclamada pela Revolução que significava, de fato, “nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade”. Isso rapidamente se tornaria evidente: a “Igreja Conciliar”, como era chamada por aqueles que a modelavam, provou ser mil vezes mais autoritária, mais sectária do que qualquer coisa vista anteriormente na Igreja tradicional. Nós ainda estavamos vivendo numa clima de perseguição e excomunhão de facto.

Enquanto lia o livro intitulado “Carta a João Paulo II, Papa do ano 2000“, me fez pensar uma observação penetrante feita por Saint Beuve e citada pelo pe. Bruckberger, autor do livro. A observação referia-se aos Jansenistas de Port Royal: “Muitas imputações e acusações provocadoras contra eles criaram, no longo caminho, os próprios males que elas supuseram existir”.

Essa é uma idéia súbita, mas completamente verdadeira. Pode ocorrer que, quando uma tendência, uma opinião religiosa perfeitamente legítima, é atacada ferozmente por um poderoso corpo dentro da Igreja, seus defensores se tornam tão endurecidos em sua defesa que eles justificam a acusação de cisma e de heresia lançada contra eles. Isso ocorreu com os Jansenistas. Hoje, certos grupos de tradicionalistas estão à beira de cometer o mesmo erro. É precisamente por causa disso que o Padre Bruckberger, sendo ele mesmo um tradicionalisa, cita Saint Beuve.

De fato, se alguém fosse levar em conta o que é dito e o que é escrito em certos círculos ou em algumas publicações, onde João Paulo II é quase denunciado como o Anti-Cristo, poderia se concluir que o cisma já existe.

Mas isso é apenas o resultado de irritação e irá, indubitavelmente, morrer no tempo, e, em todo caso, isso se aplica a apenas um número limitado de pessoas e não deve ser confundido com o vasto número de tradicionalistas feridos em sua fé e na prática de sua Religião pela violência destrutiva daqueles que se entrincheiraram dentro da Igreja na França, cujo poder é precisamente mais e mais cismático em vista de sua sistemática oposição tanto a Roma como ao Papa. É essa oficial ou oficiosa “Igreja da França” que tende a se tornar mãe e mestra — mater et magistra — daquilo que o Jansenismo, o Galicanismo e o recém Modernismo eram apenas uma leve sombra.

Se se pode falar de situação cismática, essa situação não é necessariamente um bombástico cisma, no sentido estrito da palavra, que implica um minimum de coerência e uma estrutura com um líder conhecido. Uma difusão de idéias cismáticas, uma proliferação de várias heresias, não constitui um cisma. Um enfraquecimento geral da Fé não pode levar a uma negação da crença que é a característica essencial de um cisma. Deve ser visto mais como um herético-cisma.

Entretanto, um aspirante à liderança da organização subversiva está se tornando cada vez mais claro. É Hans Küng, o teólogo Suíço que escreve sobre muitos assuntos e que há muito abandonou o papel de controversialista por aquele de professor magisterial a quem todos, começando pelo Papa, devem deferir com humildade porque a evidência do que ele diz é tão estupefante que deve nos convencer totalmente assim como o convenceu. Como “um ato de caridade” ele acabou de mandar a João Paulo II uma “repreensão fraterna” e não tem dúvidas de que o Papa irá recebê-la “sem idéias preconcebidas” (Le Monde, 17 de outubro).

O Papa de Roma, iluminado pelo Papa de Tübingen, irá então perceber que os direitos do homem devem ser respeitados por aqueles que estão nos altos cargos dentro da Igreja. E quais são, então, esses direitos? Bem! o direito dos padres se casarem e o direito de deixarem o ministério: o direito das mulheres serem ordenadas, etc. Tudo isso em nome do Evangelho e em nome da Verdade.

Nós não sabemos se os teólogos Franceses ficarão lisonjeados ou irritados pelo colega Suíço ter escolhido o idioma Francês e um jornal Francês para “repreender” o Papa de maneira fraterna e convidá-lo a se reconciliar com o progresso, com o Liberalismo e com a civilização moderna. Em todo caso, muitos deles compartilham suas idéias. Como ele, eles querem a destruição do Sacerdócio e a democratização da Igreja pelo Povo de Deus-estilo-soviético.

Tal é a Igreja Conciliar claramente definida por seu papa. João Paulo II se submeterá ou declarará Hans Küng um cismático?

(Apologia pro Marcel Lefebvre vol. II, Michael Davies, pp. 353-357, Angelus Press, 1983)