Dom Bernard Fellay fala: Cardeal Castrillon Hoyos e o ‘ultimato’

O órgão de informação da casa geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, DICI, publicou a homilia do último 15 de agosto (em francês) de Sua Excelência Reverendíssima, Dom Bernard Fellay, superior geral da Sociedade. Traduzimos o excerto que comenta os acontecimentos que cercaram o ‘ultimato’ do último mês de junho.

Gostaria de aproveitar estes momentos para dar notícias sobre o que se passa agora em Roma com relação à Fraternidade. Vocês provavelmente ouviram que se falou de um ultimato. Onde estamos nós? Em primeiro lugar, é uma coisa esquisita esse ultimato, porque quando há esse tipo de demanda, há um objeto. No caso que nos concerne, pergunta-se bem qual seria o objeto. Fui convocado pelo Cardeal Castrillon Hoyos, no ínicio do mês de junho, porque a última Carta aos Amigos e Benfeitores da Fraternidade São Pio X fazia ponto em indicar claramente que não estávamos dispostos a engolir o veneno que se encontra no Concílio. Isso é que desagradou as autoridades romanas. O fato de dizer que não mudaríamos, que nos oporíamos, que não beberíamos esse veneno, isso que os desagradou. Por consegüinte, fui convocado a Roma, e lá me entregaram uma folha escrita. Estavam presentes nessa reunião que se realizou nos escritórios da Comissão Ecclesia Dei — essa foi, aliás, a primeira e única vez que encaminhei-me a estes escritórios — estando por consegüinte o Cardeal, o Vice-Presidente da Comissão, Mons. Perl, o secretário Mons. Marini e o secretário pessoal do Cardeal. Eu estava acompanhado pelo Abbé Nély.

Entregaram-nos uma nota escrita, e o Cardeal me pediu para lê-la diante de todos. Nesta carta que se assemelha realmente a um ultimato, é dito em substância: “Até agora afirmei que vocês não são cismáticos, mas doravante não poderei mais dizê-lo. Hoje é necessário que vocês aceitem as condições claras que vamos impô-los“. Após ter lido, perguntei ao Cardeal quais eram essas condições claras, pois não estavam escritas. E o Cardeal não me respondeu absolutamente nada. Coloquei a pergunta a ele interrogando: “O que espera de mim?”; neste momento, quase em voz baixa, ele respondeu: “Se você pensa em consciência que deve dizer aquilo aos vossos fiéis, que diga! Mas deve respeitar a pessoa do Papa“. Sobre isso lhe respondi que não havia problemas. E é assim que se terminou essa reunião. – Como posso afirmar que o motivo dessa reunião era realmente a última Carta aos Amigos e Benfeitores? É o que eu o perguntei, pois que ele fez referência: “Poderia você me dizer o que não vai nessa carta?”; ele então a releu diante de mim, e a única censura que pôde formular era o fato de eu ter escrito que os conventos estavam vazios , assim como os seminários. Disse-me: “Isso não é verdade”. Era a única censura.

Então, em que consiste o ultimato, qual o seu objeto? Na saída dessa entrevista, dizia eu ao Sr. Abbé Nély que eu estava muito frustrado porque havia assistido a uma encenação teatral, cheia de emoção, onde o Cardeal declarava: “Acabou! Convoco uma conferência de imprensa. Paro tudo!“. Mas o que se esperava de mim, eu ignorava. De modo que reenviei o Sr. Abbé Nély no dia seguinte para que fizesse a pergunta mais uma vez: “Que querem?”; então fizeram-no esperar uma meia-hora, o tempo para redigir os famosos cinco pontos que foram difundidos na internet.

O terceiro ponto é mais sensível, porque me pede não me erigir “em magistério superior ao do papa e não pôr a Fraternidade contraposição à Igreja”. Também aqui quer se dizer tudo isso e não quer dizer nada. Com esta frase aqui, sempre que pusermos uma objeção, nos dirão: “Colocam-se acima do Papa”. É bem neste ponto que se faz compreender que Roma não está de forma alguma de acordo com o fato de ousarmos dizer algo contra o Concílio. É aí que se faz problema.

Cinco pontos, cujo primeiro diz o seguinte: “É necessário que Mons. Fellay comprometa-se a dar uma resposta proporcional à generosidade do Papa.” O que isso quer dizer? É uma palavra extramamente leve que pode dizer tudo e nada. Estamos obrigados a supôr que essa generosidade do Papa era o Motu Proprio. E a resposta proporcional era agradecê-lo, reconhecendo ao mesmo tempo que não era para nós, mas para os todos os padres da Igreja. Senão, não se vê bem.

Seguidamente eu devia me comprometer, nesta carta, a respeitar a pessoa do papa. Suponho que isso quer dizer que não se deve insultá-lo, mas se considera-se como uma ofensa dizer que ele é perfeitamente liberal, logo depois de uma viagem aos Estados Unidos onde não fez nada a não ser louvar o Estado Americano declarando que a liberdade de todas as religiões era magnífica. Realmente não se pode encontrar declaração mais liberal que essa. Não vejo o que há de injurioso nas minhas palavras.

One Comment to “Dom Bernard Fellay fala: Cardeal Castrillon Hoyos e o ‘ultimato’”

  1. Sobre o último ponto, de afirmar que o papa é lberal.
    D. Fellay objetivamente falou o que a realidade mostra. Que o papa toma posicionamentos liberalizantes.
    E o Vaticano, no fundo, sabe que estas atitudes que o Santo Padre toma dão o flanco a este tipo de críticas.
    Creio que eles ficaram impacientes não tanto pela verdade em si, mas pelo fato de ela ter sido tornada pública.
    Acho que eles não se importariam com o juizo pessoal de D. Fellay, mas sim pelo fato dele ter PUBLICADO isso.
    Bem, não vamos provocar a paciência vaticana… D. Fellay não passaria por omisso em deixar de apontar os defeitos do Santo Padre, pois afinal de contas, eles são bem explícitos…

%d blogueiros gostam disto: