Primeira referência pública de Bento XVI a Summorum Pontificum

É um temor absolutamente infundado. O motu proprio é sobretudo um ato de tolerância e de amor pastoral pelas pessoas que foram formadas nessa liturgia e a amam, conhecem e desejam viver com essa liturgia. É um grupo pequeno, porque pressupõe uma formação no latim e uma certa cultura. Mas da parte dos bispos e da nossa Igreja parece uma exigência normal ser tolerante diante dessas pessoas. Não é alguma oposição entre a liturgia renovada do Concílio Vaticano II e essa liturgia. Os padres conciliares todo dia celebravam com o rito antigo e ao mesmo tempo haviam concebido uma liturgia desenvolvida. São acentos diversos mas uma identidade comum que exclui uma oposição. Penso que seja possível um enriquecimento das duas partes: os amigos da antiga liturgia devem conhecer os salmos e prefácios da nova, enquanto a nova liturgia, que muito sublinha a participação comunitária, não seja considerada apenas uma assembléia de uma certa comunidade, mas sempre um ato universal. É liturgia renovada é a liturgia ordinária.

(Resposta do Papa Bento XVI, no avião, ao ser questionado se o Motu Proprio era um passo atrás com relação ao Concílio, pouco depois de decolocar em direção à França.  Fontes: Per fas et per nefas e Andrea Tornielli)

Atualização (12 de setembro de 2008, 23:58): o leitor Felipe Coelho nos alertou para um erro de Andrea Tornielli em sua tradução para o italiano da resposta dada pelo Papa que, ao se referir ao enriquecimento do Vetus Ordo pelo novo, teria dito que os tradicionalistas deveriam aceitar os novos “santos”, e não “salmos”, como publicamos. É muito provável que a versão apontada por Felipe seja realmente a correta, afinal, o Papa se pronunciou em francês; exatamente por isso publicamos esta nota. Contudo, certamente a Sala de Imprensa da Santa Sé publicará a versão oficial das respostas dadas na entrevista feita no avião, tal como fez nas viagens do Papa ao Brasil e aos Estados Unidos, e aí sim nossa dúvida será sanada.

7 Comentários to “Primeira referência pública de Bento XVI a Summorum Pontificum”

  1. Indiretamente as palavras do Papa, remetem ao estado de necessidade alegado por Dom Lefebvre e Dom Mayer. Ora, se o Motu Propio é sobretudo um ato de tolerância e de amor pastoral, antes de sua promulgação imperava (E ainda impera) a intolerância contra estas mesmas pessoas. Aqui em Belo Horizonte, por exemplo, temos apenas uma aplicação parcial do Motu Própio. Temos a Santa Missa apenas dois Sábados por mês, celebrada pelos Padres de Campos e a maioria dos Padres tem medo de celebrá-la, um chegou a dizer que não queria deixar a comunhão com a Igreja e a Arquidiocese…

    Nosso Arcebispo, já ouviu 3 Bispos, 3 Padres de Campos e 1 Padre da diocese, mas até agora não fez nada. Também tentamos ser ouvidos por Nosso Arcebispo, enviamos uma carta a mais de dois meses sem nenhuma resposta, um amigo conversou com o Monsenhor da cúria arquidiocesana no final do ano passado para tratar do assunto, não tivemos nenhum retorno e por fim este mesmo amigo conversou com a secretária de nosso Arcebispo e espera resposta a quatro meses.

    A tolerância em nosso caso aqui é uma exigência que não é cumprida, uma vez que nosso Arcebispo sequer nos recebeu. Enquanto na Igreja do Carmo, (uma das maiores de nossa cidade) é uma Igreja de Comunistas, que tem Rito e Credo Própio. Talvez possa se dizer que neste caso específico, o temor é análogo aos que assombram os tiranos…

  2. Evidentemente, Bento XVI falou em francês. Essa tradução da tradução italiana não parece nada fiel, caso a transcrição abaixo estiver correta. Nesse caso, o francês deixa claro que Bento diz três coisas novas, a meu ver, dignas de nota (além de reafirmar que o NOM é a Missa do Vaticano II [contra Gamber] e que o NOM não contradiz o “VOM”):

    (1) “o Motu Proprio foi um ato de TOLERÂNCIA” para com os tradicionalistas (por definição, só se tolera um mal, e somente enquanto for conveniente; aliás, foi por isso que a revolucionária Dignitatis Humanae abandonou esse termo, que reflete a doutrina Católica sobre como o Estado Católico deve tratar as falsas religiões quando o bem comum não lhe permite simplesmente suprimi-las, o que seria o ideal);

    (2) o Motu Proprio visa uma minoria já formada no rito tridentino, e não a expansão apostólica da Missa de Sempre, a adoção do rito tridentino pelas pessoas imersas na religião conciliar;

    (3) Os que aceitam o Motu Proprio deverão aceitar também os “novos SANTOS” (i.e., “Escribá et Edith Stein orate pro nobis”!…), não os “novos salmos”, como diz o vaticanista italiano e essa tradução da tradução.

    Por favor, você que tem mais tempo, não deixe de conferir quem está com a razão, se a transcrição abaixo, com todas essas enormidades, ou a versão light/kosher da tradução italiana que você traduziu para o português e publicou.

    * * *

    Que dites-vous à ceux qui, en France, craignent que le Motu proprio ‘Summorum pontificum’ marque un retour en arrière sur les grandes intuitions du Concile Vatican II ?
    [B16:] C’est une peur infondée parce que ce Motu proprio est simplement un acte de tolérance, dans un but pastoral pour des personnes qui ont été formées dans cette liturgie, l’aiment, la connaissent, et veulent vivre avec cette liturgie. C’est un petit groupe parce que cela suppose une formation en latin, une formation dans une certaine culture. Mais il me semble que c’est exigence normale de la foi et de pastorale pour un évêque de notre Eglise d’avoir de l’amour et de la tolérance pour ces personnes et de leur permettre de vivre avec cette liturgie. Il n’y a aucune opposition entre la liturgie renouvelée par le Concile Vatican II et cette liturgie. Chaque jour (du Concile, ndlr), les pères conciliaires ont célébré la messe selon l’ancien rite et, en même temps, ils ont conçu un développement naturel pour la liturgie dans tout ce siècle car la liturgie est une réalité vivante qui se développe et conserve dans son développement son identité. Il y a donc certainement des accents différents, mais quand même une identité fondamentale qui exclue une contradiction, une opposition entre la liturgie renouvelée et la liturgie précédente. Je pense quand même qu’il y a une possibilité d’un enrichissement des deux parties. D’un côté les amis de l’ancienne liturgie peuvent et doivent connaître les nouveaux saints, les nouvelles préfaces de la liturgie, etc… d’autre part, la liturgie nouvelle souligne plus la participation commune mais, toujours, n’est pas seulement l’assemblée d’une seule communauté mais un acte de l’Eglise universelle, en communion avec tous les croyants de tous les temps, et un acte d’adoration. Dans ce sens, il me semble qu’il y a un enrichissement réciproque et il est clair que la liturgie renouvelée est la liturgie ordinaire de notre temps.

    http://www.leforumcatholique.org/message.php?num=430208

  3. PS: Vejo agora que a tradução não é sua, mas do blog Perfas, e que o erro não é de nenhum dos dois, mas do Tornelli. Aliás, nos comentários do blog deste, alguns leitores já apontaram os absurdos desvios de tradução (salmos em vez de santos, etc.), faltando apenas, a quem tenha mais interesse nesses assuntos da igreja conciliar e lazer para se dedicar a eles, verificar se o tal Tornelli, que tem fama de ser bem-informado, teve alguma razão especial para isso ou foi pressa ou mistificação pura e simples mesmo. AMDGVM, FC

  4. Prezado sr. Felipe, Salve Maria.

    Das três enormidades que o senhor expõe em seu primeiro comentário, apenas a última é realmente nova; os pontos 1 e 2 que o senhor citou estão em nosso post e o senhor não ter notado me faz, pela primeira vez, desconfiar que não leu com muita calma.

    E a desconfiança de que o senhor não leu com atenção o que foi publicado aumenta ainda mais com seu segundo comentário, depois — nada menos — de duas horas, percebendo que citamos duas fontes no fim do artigo (os blogs Per fas e o Andrea Tornielli). Teria o senhor, no ímpeto de escrever rapidamente alguma crítica, se esquecido de ler o nosso post por inteiro?

    O interessante é ver alguém que, afinal, não tem tanto tempo como nós e nem desfruta seu lazer nas fofocas movidas pela curiosidade sobre a igreja conciliar, durante duas horas poder se dedicar a caçar erros de tradução e postar imediatamente suas indiretas, quase que nos alfinetando por maliciosamente — certamente para fazer uma boa imagem de Bento XVI ! Esses curiosos de blogs… — ter errado em nossa tradução.

    Ainda bem que lhe sobraram duas horas para poder rever seu primeiro comentário e visitar novamente nosso blog! Mas evidentemente, essa revisão foi obra de sua virtude e não de sua curiosidade em blogs fofoqueiros da igreja conciliar…

    De toda forma, agradeço seu alerta sobre o erro de Tornielli. Se foi intencional ou não, pouco importa: não temos tempo para coisa tão fútil, não é mesmo? Mas lhe garanto que, saindo a transcrição oficial dessa resposta do PAPA BENTO XVI e estando a versão de Tornielli errada, farei o reparo e ainda darei o crédito a você, nosso caro leitor que não perde seu tempo e não dedica seu lazer às mesquinharias da igreja conciliar.

  5. A reflexão das palavras do Santo Padre, remeteu me a uma pergunta que compartilho com vocês:

    A tolerância para conosco, não seria em si mesma, fruto da hermenêutica da ruptura?

  6. De fato, a tradução de Tornielli foi equivocada nesse ponto…Que tal Felipe Coelho traduzir para todos direto do francês?
    Obrigado!