Entrevista com Padre Navas (parte II): A restauração da liturgia prepara o caminho para a restauração da Tradição.

Fratres in Unum: Qual o papel dos institutos dedicados ao rito gregoriano neste período de restauração da liturgia pelo Papa Bento XVI?

Padre Navas: Servir a Deus e às almas através de sua fidelidade à vontade do Santo Padre, manifestada tanto no Motu Proprio como na expressão dos diversos carismas que estão na origem de cada uma destas comunidades, afirmados com a aprovação de seus estatutos por parte de Roma.
Se pode dizer que são a ponta de lança nas mãos do Santo Padre para incentivar e colaborar com os bispos, na ótica da hermenêutica da continuidade, a colocar em prática os diversos decretos originados da Santa Sé com relação a este tema.

Ademais, estes novos Institutos são vistos como uma ajuda valiosa para remediar a hemorragia de vocações e para, na medida do possível, conter a ‘apostasia silenciosa’ de que nos falava o Papa João Paulo II.

Permita-me adicionar uma hipótese: o que você denomina justamente ‘restauração da liturgia‘, atualmente muitos não a identificam como a restauração (desejada ou não) da Tradição; mas, se é que se deve dar algum dia tal restauração, ela, a ‘restauração da liturgia‘, certamente é o fundamento que lhe prepara o caminho necessário; Talvez seja esta a origem remota de tantas dificuldades, ao simples olhar incompreensíveis, que se apresentam, na prática, para os ‘institutos dedicados ao rito gregoriano neste período de restauração da liturgia pelo Papa Bento XVI‘. Deus verá.

Fratres in Unum: Em que consiste precisamente a missão de criticar de maneira construtiva o Concílio Vaticano II? O objeto de críticas são os textos do Concílio ou apenas o seu ‘espírito’?

Padre Navas: Este aspecto da missão encarregada ao IBP também poderia  servir a tergiversações, visando querer impedir a existência do Instituto… apresentando-o como se ele pretendesse criar nas dioceses uma instância de controvérsia pública que poderia escandalizar a mais de um. A realidade é bem diferente: se trata mais, a outro nível, de orientar o debate que já existe, em direção a uma instância de reflexão teológica séria sobre alguns textos, cujas interpretações se tem usado para favorecer uma visão de ruptura e de descontinuidade com a Tradição doutrinária própria da Igreja que a teologia clássica e o Papa condenam, seja como a chamada ‘nova teologia‘ (cfr. Humani Generis de Pio XII) ou como o chamado espírito do Concílio (cfr. Alocução do Papa Bento XVI à Cúria Romana no Natal de 2005). Os textos que no dizer do Papa tem criado dificuldades à ‘recepção autêntica do Concílio‘ e suas possíveis interpretações se devem analisar entre teólogos, evitando todo espírito de polêmica pública de maneira que finalmente determine o sentido verdadeiro dos mesmos por parte do único que tem autoridade para fazê-lo: o Papa. Esta missão é uma ajuda e um serviço à Unidade da Igreja pedido pelo Papa e viria a ser como uma extensão do que por outra parte é dado e garantido aos simples fiéis pelo próprio Código de Direito Canônico (cfr. canon 212 nº 3)… e com maior razão se trata de sacerdotes e teólogos inteirados no tema. Desta maneira, o Santo Padre busca desativar uma das fontes de conflito que tem afetado nas últimas décadas, queira ou não, a normal convivência eclesiástica.

Cardeal Ratzinger e bispos do Chile - 13 de julho de 1988

Cardeal Ratzinger e bispos do Chile, julho de 1988

Trata-se, portanto, da forma e do fundo: a forma, abrindo uma instância a nível teológico, evitando todo espírito de polêmica; e do fundo, reconhecendo a Suprema instância, garantia da Verdade, na autoridade magisterial de Pedro, que sempre é o mesmo. Recordemos, sobre este tema do Concílio, o discurso do Cardeal Ratzinger aos bispos do Chile, em 13 de julho de 1988: “A verdade é que o mesmo Concílio não definiu nenhum dogma e, de modo consciente, desejou expressar-se num nível mais modesto, meramente como Concílio Pastoral…“.

Dito isso, permita-me concluir com uma citação a respeito deste ponto do Padre Guillaume de Tanoüarn: ‘temos recebido o direito (e o dever) de expressar uma ‘crítica construtiva do Vaticano II’ e das reformas que saíram em conseqüência, dentre as quais, a reforma litúrgica. Não temos ocultado nunca que temos críticas respeitosas que enunciar quanto à teologia da nova forma do rito, as mesmas que formularam em seu tempo os Cardeais Ottaviani e Bacci, em seu Breve Exame Crítico. Certamente que através da encíclica Ecclesia de Eucharistia, como também no documento Redemptionis Sacramentum, o magistério empreende uma reavaliação de largo alcance da obra litúrgica do Vaticano II. Pensamos que nossa própria ‘crítica construtiva’ se inscreve neste grande movimento eclesial. A apresentamos com humildade, mas também com um grande desejo de verdade. Se é certo que a barca de Pedro faz água por todas as partes, não poderá endireitar-se senão na medida em que encontrar a estrela polar de sua Tradição‘.

Fratres in Unum: Como é o relacionamento do IBP com os institutos tradicionais presentes na América Latina, especialmente a Fraternidade São Pedro e a Administração Apostólica São João Maria Vianney?


Padre Navas
: O único contato que tive foi com um representante da Fraternidade de São Pedro que encontrei em Guadalajara durante o primeiro semestre deste ano. Nossas relações foram muito cordiais e esclarecedoras dentro da caridade fraterna, coincidindo nos aspectos fundamentais da situação atual.
Com a Administração Apostólica São João Maria Vianney pessoalmente não tive nenhum contato. Na França há uns dois anos houve uma visita do Superior ao IBP.

Fratres in Unum: Quais os projetos do IBP na América Latina?

Padre Navas
: Sobrenaturalmente existem muitos projetos, mas é forçoso reconhecer que o tratamento que nos é dado não tem sido, digamos, o mais favorável. Como nos recorda o Pe. Laguérie, em sua recente intervenção, estamos num período em que a Divina Providência nos exige, em exercício do dom da fortaleza, nos centrarmos mais no sutinere… (manter-se): ‘plus dans le « sustinere» plus que l’ « aggredi .

Suas palavras exatas são: ‘Procuremos simplesmente estar ao pé da obra para esses tempos inelutáveis, na qualidade mais que na quantidade, no« sustinere» mais que no « aggredi », na fidelidade ativa mais que na satisfação passiva. Que estes anos de trabalhos e plantios não nos sejam reprovados quando vier a hora da colheita‘.

No natural, continuar enviando vocações ao seminário e ajudando a vários sacerdotes que se aproximam de nós visando aprender a celebrar na forma extraordinária do rito. Existem outros projetos importantes que por ora me exigem discrição ao me referir a eles. Está tudo nas mãos de Deus. Recorde que apenas temos dois anos de existência e na América Latina menos.

Por outro lado, na medida do possível, seguiremos insistindo junto às autoridades, mas sobretudo pela oração, para que se nos permita fazer o bem para o qual fomos criados como Instituto de Direito Pontifício. Dom Bosco dizia: ‘fazei o bem e que cantem os passarinhos’. Deus quer que, com sua graça, suscitemos um grande concerto de passarinhos.

Fratres in Unum: Por fim, o IBP tem planos de retornar no futuro ao Brasil?

Padre Navas: Creio que tarde ou cedo teremos que voltar. O faremos quando se derem as condições necessárias por parte da hierarquia e na medida em que possamos dispor de sacerdotes, já que no seminário se estão formando vários seminaristas brasileiros; esperamos e confiamos às suas orações e às de nossos amáveis leitores por sua fidelidade à vocação do IBP.

Espero que esta entrevista contribua em algo para a paz de e entre os fiéis, dissipando os motivos de confusões existentes. Encomendo todas estas intenções, uma vez mais, às suas orações; recebam minha benção sacerdotal em J., M. e J.

Atenção: leia 1ª parte da entrevista aqui.