Abbé Aulagnier: “Não é no momento em que o direito ao uso da missa ‘tridentina’ finalmente é legalmente reconhecido que vou celebrar a nova missa”.

Publicamos alguns excertos da entrevista concedida pelo Padre Paul Aulagnier a Yves Chiron. Como este último apresenta, “O Abbé Paul Aulagnier foi o primeiro padre francês ordenado por Mons. Lefebvre. Esteve durante três anos como professor e subdiretor no seminário de Ecône. Seguidamente, de 1976 a 1994, foi superior do Distrito da França da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Durante estes dezoito anos fundou um número considerável de priorados, capelas e escolas, uma revista e uma editora. Durante este período, e até em 2002, foi Assistente Geral da FSSPX. Quando os tradicionalistas brasileiros em torno de Mons. [Licínio] Rangel reconciliaram-se com a Santa Sé e obtiveram, pelo Acordo de Campos (2002), a criação de uma Administração Apostólica Pessoal, o Abbé Aulagnier pensou que a FSSPX devia seguir a mesmo caminho. A FSSPX, nas suas instâncias dirigentes, – e permanece – era contrária a um acordo com Roma. O Abbé Aulagnier, por conseguinte, foi excluído da FSSPX”.

A íntegra pode ser lida aqui.

Mons. Lefebvre, de fato, sempre pediu, de uma maneira intuitiva, às autoridades romanas: “Deixem-nos fazer a experiência da Tradição”. Após o Concílio do Vaticano II, todas as experiências são autorizadas, toleradas pela hierarquia, tanto em matéria litúrgica, como em matéria pastoral, tanto no domínio do ensino catequético como no domínio social e político… o sucesso destas experiências está longe de ser convincente. As igrejas se esvaziam. Os seminaristas deixam os seminários, os que ficam abandonam os seus atributos, estão à procura de novidades. É necessário rejeitar todas as “tradições”. Conheci isso no Seminário francês de Roma… nos anos 1964-1968. Nessa situação completamente revolucionária, Mons. Lefebvre, a pedido de alguns jovens estudantes e sobretudo preocupado ele mesmo pela crise sacerdotal, organiza, a partir de 1969, um seminário em Fribourg e depois em Ecône, em Valais, na Suíça. É, então, imediatamente, – se pode ver a mão da Providência -, um franco sucesso… à escala mundial. As vocações vêm de todos os continentes. Lá, o sacerdócio é amado. A santa liturgia antiga também. Quer-se apenas ela! Casas são criadas, escolas católicas se abrem. Também por causa desse sucesso Mons. Lefebvre lança às autoridades da Igreja: “Deixem-nos, por conseguinte, fazer a experiência da Tradição. Concedam-nos a liturgia antiga da Igreja”. Pelo momento, está fora de cogitação. Procura-se antes suprimi-la indevidamente. Particularmente empregaram-se os seus ex-confrades do seminário francês, nos idos 1925, como o cardeal Garonne, o cardeal Villot (ninguém menos que Secretário de Estado), para citar apenas os conhecidos. E quando Mons. Lefebvre, nessa época, pede “deixem-nos fazer a experiência da Tradição”, está nessa atmosfera muito conflituosa. Roma não pretende de modo algum deixar fazer esta experiência no âmbito jurídico preciso de uma obra sacerdotal, a FSSPX. Não! Roma quer suprimir o que aparece como um obstáculo ao “aggiornamento conciliare”. Mas o tempo passa, os homens também. A revolução conciliar mostra cada dia mais o seu fracasso… Roma começa a pôr um olhar novo sobre o problema da reforma litúrgica, sobre o problema da missa. Estamos em 1988, exatamente após sagrações feitas por Mons. Lefebvre sem a autorização romana. Esta abolição da missa dita de São Pio V, razão essencial do combate de Mons. Lefebvre, retém enfim a inteligência dos prelados. O Cardeal Ratzinger, apoiado pelo Cardeal Stickler, hoje falecido, mostra, em várias obras, que essa proibição é injusta, anti-canônica, que é necessário fazer justiça ao pedido dos “tradicionalistas”. Ao mesmo tempo, as obras sacerdotais dessa “corrente tradicionalista” ficam mais estáveis, mais fortes. Pode-se então pretender dar-lhes uma estrutura jurídica no seio da Igreja fazendo justiça ao seu legítimo pedido em matéria litúrgica.

Chega o ano jubilar. Estamos no ano 2000. Roma, a esta ocasião, retoma contato com os Padres de Campos, do Brasil, [e] com os bispos da FSSPX. Estes não continuarão, infelizmente. Mas a união dos corações e das inteligências pôde ser feita com os Padres de Campos, e sobre a liturgia e a interpretação do Concílio. Roma concede-lhes uma forma canônica que considero como formidável. Dá-lhes toda liberdade em matéria de governo, apostolado e liturgia, pela concessão de uma Administração Apostólica. Dentro dessa Administração, todos os padres podem fazer realmente “a experiência da Tradição”, como Mons. Castro Mayer desejava.

Mas você pode ver a diferença entre o pedido de Mons. Lefebvre em 1969 e a resposta de Roma em 2002, data da reconciliação dos Padres de Campos com Roma. Essa experiência se faz num quadro legal, numa situação apaziguada. E é assim que todas as comunidades “tradicionalistas”, a FSSP, o Instituto Cristo Rei, a comunidade de Chemeré-le-Roi, o mosteiro de Dom Gérard… obtêm, em tempos históricos diferentes e de maneira diferente, um estatuto canônico e o direito legítimo ao uso de todos os sacramentos na sua forma antiga. “Deixem-nos fazer a experiência da Tradição”, “o slogan” de Mons. Lefebvre, ontem, torna-se muitíssimo uma realidade. Foi necessário  esperar quase quarenta anos para obter isso. Graças à determinação de Mons. Lefebvre. Será efetivamente necessário que esteja um dia sobre os altares… é também o que obteve, em 2006, o Instituto Bom Pasteur: o uso exclusivo da missa tridentina… a nós também é dado esta liberdade… ainda que a nossa liberdade de ação seja bem menor que a dos Padres de Campos na sua Administração Apostólica. Porque uma é Administração Apostólica, o outro um simples Instituto de Direito Pontifício. As nossas implantações – mas não o nosso direito à liturgia “antiga”, a nuance é capital – são dependentes da autoridade do ordinário do lugar, o bispo, enquanto que é suficiente à autoridade de uma Administração Apostólica que avise o bispo residente de uma nova criação ou fundação… vocês podem medir a diferença. É o que se chama de isenção. Para mim, esta estrutura é essencial ao regresso da ordem eclesial. Poucos bispos pensam assim… Mas é nessa única condição que a expressão de Mons. Lefebvre “deixem-nos fazer a experiência da Tradição” tomará todo seu valor e o seu alcance. Aí está o que Mons. Fellay deveria pedir em Roma. É bem mais importante que de querer debater sobre a doutrina, como parece sempre querê-lo. Numa “guerra”, ocupar o terreno é mais importante que “palavrear”. Não crê que a reforma de Cluny triunfou graças à isenção dos monges no que diz respeito aos bispos residentes? Você que é historiador, poderia, penso, confirmá-lo. E então, como que para coroar esses trinta e seis anos de combate e conflito litúrgico, Bento VI publica, em 7 de Julho de 2007, o Motu Proprio Summorum Pontificum que reconhece o direito e a legitimidade da celebração do rito tridentino na Igreja, para todos os padres, sem outra autorização específica a pedir. Dá a paz à Igreja em matéria litúrgica e pede aos bispos: “deixem, portanto, fazer a experiência da Tradição” mesmo para os vossos padres diocesanos. Será necessário certamente tempo a fim de que as coisas façam-se assim, mas o princípio está afirmado. É o essencial. O resto é acidental. Espero com muita impaciência o dia em que o próprio Bento XVI, em Roma, “ad caput”, celebrará essa missa nesse rito. Isso virá bem.

[…]

Em matéria litúrgica, continuo a ser, com efeito, sempre unido à posição de Mons. Lefebvre e a posição do cardeal Ottaviani expressa na sua carta de apresentação a Paulo VI do Breve Exame Crítico: “Sempre os sujeitos, para o bem dos quais é feita a lei, tiveram o direito e mais que o direito, o dever, se a lei revela-se pelo contrário nociva, de pedir ao legislador, com uma confiança filial, a sua ab-rogação. É por isso que suplicamos urgentemente a Vossa Santidade não permitir que – num momento em que a pureza da fé e a unidade da Igreja sofrem tão cruéis lacerações e os perigos sempre maiores que encontram cada dia um eco afligido nas palavras do Pai comum – nos seja retirada a possibilidade de continuar a recorrer ao integral e fecundo Missal Romano de São Pio V, tão louvado por Vossa Santidade e profundamente venerado e amado por todo o mundo católico”. Não é no momento em que o direito ao uso da missa “tridentina” finalmente é legalmente reconhecido que vou celebrar a nova missa. Continua a ser, para mim, sempre equívoca. Favorece sempre a heresia protestante. Enquanto for celebrada “tal como é” na Igreja, é inútil esperar uma restauração do sacerdócio, é inútil esperar, apesar todos os apelos, as orações, um regresso da juventude nos seminários. Para subir ao “altar de Deus” é necessário um ideal forte, é necessário uma compreensão do verdadeiro sacerdócio católico. É necessário que seja recordada a distinção essencial entre o sacerdócio dos fiéis e o sacerdócio hierárquico. Ora, o rito novo, este rito “moderno”, para falar como Mons. Gamber, – expressão que eu preferiria encontrar no § 1 do Motu Proprio de Bento XVI – mantém sempre a confusão do sacerdócio dos fiéis com o sacerdócio ministerial. É necessário uma real confissão da Santa Eucaristia, o santo sacrifício propiciatório da Cruz, renovado sobre o altar. Este sacrifício, sua atualidade, é a razão do padre. É por isso que se faz necessário proceder a “reforma da reforma”. Essa é idéia de Bento XVI. Falou muito freqüentemente enquanto era ainda cardeal. Rezo de modo que a Providência lhe dê tempo de levar ao fim essa obra.

4 Comentários to “Abbé Aulagnier: “Não é no momento em que o direito ao uso da missa ‘tridentina’ finalmente é legalmente reconhecido que vou celebrar a nova missa”.”

  1. Entendo a posição do Abbé Aulagnier, mas creio que a FSSPX faz bem em permanecer resistindo até o presente momento.
    Afinal, o motu proprio foi um ato voltado para toda a Igreja… Mas foi pensando em solucionar a situação com a FSSPX que o papa arranjou um bom pretexto para aplicá-lo. Louvado seja Deus!
    Que a FSSPX continue mais um pouco como está. Quem sabe o Santo Padre não termine por dar mais concessões deste tipo, para o bem de toda a Santa Igreja? A FSSPX continua sendo um sucesso, o número de seminaristas jovens aumenta, ao passo que a Europa (a França) vê os modernistas envelhecerem e os mosteiros e seminários esvaziarem.
    Neste passo, a médio prazo teremos uma quantidade incrível de padres intransigentes na fé… Uma pressão benéfica para a Santa Igreja.
    Só peço que rezem para a FSSPX não se cristalizar em sua posição por simples teimosia, afinal é um grande risco o manter-se acostumado a passar sem Roma.

  2. Por favor, queiram fazer um reparo na citação da carta dos cardeais Ottaviani e Bacci: ““Sempre os sujeitos, para o bem dos quais é feita a lei, tiveram o direito e mais que o direito, o dever, se a lei revela-se pelo contrário nociva, de pedir ao legislador, com uma confiança filial, a sua ab-rogação. É por isso que suplicamos urgentemente a Vossa Santidade não permitir que – num momento em que a pureza da fé e a unidade da Igreja sofrem tão cruéis lacerações e os perigos sempre maiores que encontram cada dia um eco afligido nas palavras do Pai comum –[ NÃO] nos seja retirada a possibilidade de continuar a recorrer ao integral e fecundo Missal Romano de São Pio V, tão louvado por Vossa Santidade e profundamente venerado e amado por todo o mundo católico”. Faltou o NÃO, que altera todo o sentido da carta dos Eminentíssimos cardeais.

    Grato

  3. Prezado Sr. Antonio,

    Obrigado pela colaboração. Entretanto, o texto publicado está correto: “[…] suplicamos urgentemente a Vossa Santidade NÃO PERMITIR QUE — num momento […] — NOS SEJA RETIRADA a possibilidade de continuar…”

  4. Prezado webmaster

    Realmente não prestei atenção (o período longo do aposto me confundiu).
    Parabéns pelo site.