Roma e FSSPX, em direção ao levantamento das excomunhões?

3 de Novembro 2008 – Claire Thomas – monde-vie.com

FSSPX em Lourdes

A Fraternidade São Pio X mais forte do que nunca: este é o diagnóstico que se tem desejo de fazer após a manifestação feita em Lourdes. A mensagem visa certamente Roma e o Papa Bento XVI, que pode muito bem vir a se engajar mais face a face com os tradicionalistas da FSSPX num futuro próximo.

A já tradicional peregrinação à Lourdes da Fraternidade Sacerdotal São Pio X por ocasião da Festa de Cristo Rei realizou-se este ano com uma excepcional solenidade, marcando tanto o 150º aniversário da aparição da Virgem Maria em Lourdes e, como recordou Mons. Fellay, o vigésimo aniversário das ordenações episcopais em Ecône em 1988: “O milagre é que estamos aqui sem ter mudado o rumo”, afirmou logo de cara durante o sermão de domingo.

“Nós estamos aqui.” Esta é a primeira mensagem. Simples. Eficaz. 18 000 peregrinos tinham viajado, da França e do mundo inteiro. Havia também 163 freiras, 275 sacerdotes e seminaristas e os quatro bispos sagrados por Mons. Lefebvre, presentes todos!

Monsenhor Perrier, bispo de Lourdes, deixou à disposição dos peregrinos toda a infra-estrutura do santuário, com uma condição que será escrupulosamente respeitada: nenhuma Missa pública será celebrada por um bispo.

Claro, como não deixou de lembrar Mons. Fellay, “vivemos tempos indescritíveis”, mas “não rompemos a linha” de possíveis acordos com Roma. Linha “tênue”. Linha subsistente, no entanto, ligando esses milhares de tradicionalistas à Sé de Pedro.

E Mons. Fellay se lança numa retrospectiva dos acontecimentos recentes, salientando que o Papa, conforme o pedido que se fez de liberar o rito tradicional, reconheceu a plena legitimidade da sua celebração por todos os padres. “Gesto pessoal”, diz ele de passagem. Gesto que permanece cheio de esperança para todas as pessoas presentes.

O Papa levantará as excomunhões que pesam sobre os quatro bispos?

Mons. Fellay pede aos seus fiéis que recitem um milhão de terços entre 1º de Novembro e 25 de dezembro para que esta perspectiva de paz finalmente se concretize. Aposta maluca? Ou melhor, como murmuram alguns, gesto puramente teatral de alguém que já alcançou o que ele disse para rezar? Garantem que a verdade não está nem um lado e nem de outro. Uma coisa é certa, porém, ao tempo de nossa redação: o texto latino do levantamento das excomunhões já foi redigido, e podemos confiar na administração Vaticana, pois que as palavras são pesadas ao extremo na teologia mais estrita. Mas está longe de ser assinado!

Anticristos e concelebração

Do lado de Monsenhor Fellay, o tom é freqüentemente muito mais combativo que em Lourdes. Testemunha-se que em 11 de outubro último, em Villepreux, perto de Paris, o bispo tradicionalista tenha endurecido a sua linguagem, mesmo incorporando os termos de uma carta de Monsenhor Lefebvre datada de 29 de agosto de 1987, e taxando o Papa de “Anticristo”. Assim ele explicou sua violência: “Nós não temos o direito de massacrar Nosso Senhor e mais ainda em nome da obediência, e é isso que vivemos, o que vamos continuar a viver.”

Do mesmo modo que essa palavra extremamente forte, “Anticristo”, não tinha impedido Monsenhor Lefebvre de reentrar num processo de negociação e assinar um protocolo de acordo alguns meses depois (5 de maio 1988), assim Mons. Fellay se concede tempo para unificar suas tropas, parecendo disposto a reentrar num um processo irreversível de retorno à normalidade jurídica. É o que parece indicar este buquê espiritual que pretende entregar à Roma no Natal.

Na frente dele, seu antigo parceiro neste jogo diplomático, o Cardeal Sul-americano Dario Castrillón Hoyos não é necessariamente muito mais legível que ele. Embora ele desdobre um manancial de atividades para reaproximar a Fraternidade São Pio X das posições da Santa Sé, se dirigindo a uma Comunidade Ecclesia Dei como a Fraternidade São Pedro durante a ordenação sacerdotal que ele conferiu a quatro seminaristas em Nebraska, nos Estados Unidos, em 31 de maio, ele é capaz de, sem mostrar grande espírito séqüito, exortar os jovens a concelebrar a Missa dita de Paulo VI. Mons. Fellay não se furtou de apontar esta incoerência durante sua conferência de Villepreux.

O que surtirá de tal confronto? O agito de uma daquelas banais tempestades numa fonte que se acalma tão bruscamente quando ela acaba de começar? Amor e desamor têm a dianteira da cena, mas o verdadeiro problema é mais profundo: quais garantias reais Roma pode dar hoje à Fraternidade São Pio X assinando um acordo? Os fiéis que seguem a missa do lado fora em Amiens sem obter um gesto do bispo, Monsenhor Bouillerais, podem atestar que as condições psicológicas de um acordo bem sucedido ainda não estão reunidas.

O que incomoda, com símbolos como Amiens, é que eles banalizam a falta de caridade entre os protagonistas, a maior detrimento da própria Igreja. É todo o contrário do que se viu em Lourdres no fim de semana de Cristo Rei.

E então os bispos franceses vão se reunir – é em Lourdes justamente que se realiza – no início do mês de novembro, se espera que façam uma escolha clara, condenando o escândalo das divisões pregado em boa consciência por parte de alguns deles, e façam, como o Papa lhes pediu (ele já estava em Lourdes em setembro), a escolha da paz.

Que repitam então, depois do Vigário de Cristo e no mesmo local que ele, que “nenhuma pessoa deve se sentir excluída da Igreja”. A verdadeira solução está em suas mãos hoje.

Claire Thomas

Fonte: QIEN

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