O milagre de Saint Nicholas du Chardonnet (VIII)

A Tradição Restaurada e a Nova Missa

Por Louis Salleron

O jornal Francês Le Monde de 22 de abril de 1977 publicou esta entre outras cartas que diz ter recebido a respeito da “ocupação” da Igreja St. Nicholas du Chardonnet, em Paris. Le Monde disse que estas cartas “são particularmente reveladoras do ponto de vista de certos Católicos que até agora tiveram pouca oportunidade de expressar-se em público“. Segue a carta do Professor Salleron:

Saint Nicholas du Chardonnet

Os argumentos trazido pelos opositores da Missa de São Pio V podem ser reduzidos, em última análise, a um único ponto: São Pio V, dizem, estabeleceu um rito por sua Bula Quo Primum de 1570. O que um Papa fez um outro pode desfazer; conseqüentemente, o novo rito aprovado por Paulo VI em sua Constituição Missale Romamum de 1969 ab-rogou o rito anterior.

Apresentar a questão dessa forma é estar errado desde o começo. Para começar, existe uma diferença essencial entre a Bula de São Pio V e a Constituição de Paulo VI. Pio VI não criou um novo rito. O que ele fez foi autorizar um texto baseado em pesquisas de estudiosos de muitos anos, e que então lhe parecia carregar a melhor garantia de autenticidade. Era o rito tradicional em toda a sua pureza que ele restaurou, depois séculos durante os quais versões defeituosas se tornaram comuns num número de dioceses. Tão grande era seu respeito pela tradição que, apesar de sua Bula formalmente proibir o uso dos ritos defeituosos, ele expressamente reconheceu e permitiu o uso de qualquer rito que pudesse provar uma certa tradição de, no mínimo, 200 anos. Numa palavra, sua intenção e sua realização era a restauração dos ritos de Missa tradicionais e, em particular, do primeiro dentre eles, o rito Romano. Por contraste, o que Paulo VI fez foi dar sua aprovação a um novo rito – Novus Ordo Missae – o que é uma coisa totalmente diferente.

Paulo VI, é dito, tinha o direito de fazer isso. É claro que tinha. E então (o argumento continua) o rito antigo foi abolido. Não é assim. Pois em sua Constituição o Papa não ab-roga o rito tradicional; ele não proíbe seu uso muito mais do que ele faz o novo rito obrigatório.

É a vontade do Papa de que o novo rito deva substituir o antigo e que este deva desaparecer? Não há dúvidas de que este é o seu próprio desejo, mas não é (no sentido legal) sua VONTADE como Papa, que ele poderia apenas expressar em uma e através de uma Constituição solene, tal como Missale Romanum. Ademais, mesmo no mais urgente de seus discursos (Alocuções), ele nunca invocou sua autoridade como supremo legislador, nem a aplicou para dar efeito à sua vontade a respeito da Missa; tal exercício iria requerer, em todo caso, uma forma diferente daquela de um Discurso. O mais “imperioso” de seus textos sobre o assunto é sua Alocução Consistorial de 24 de maio de 1976, e esta meramente se refere a uma Instrução (ou melhor, Notificação) de 14 de junho de 1971. Agora, neste contexto, uma Instrução não tem maior peso que uma Notificação ou mandado; nenhuma delas tem a autoridade de uma “Constituição Apostólica” ou poder para modificá-la. (Agir assim seria como se, em termos políticos Franceses, um decreto executivo ou mesmo uma Lei aprovada pelo Parlamento modificasse a Constituição da República).

Pode-se acrescentar que na Bula Quo Primum, São Pio V concedeu um indulto individual para todos os padres, permitindo-lhes celebrar o rito que ele acabara de autorizar, acima de qualquer decisão em contrário, mesmo das autoridades judiciais competentes. Este indulto perpétuo pode apenas ser ab-rogado por um novo e de igual autoridade especificamente dirigido a este fim.

O Cardeal Ottaviani estava então plenamente justificado quando me disse pessoalmente em Whitsun, em 1971 – muitos meses depois da promulgação do novo rito: “O rito tradicional da Missa, conforme o Ordo de São Pio V, não foi, de meu conhecimento, abolido. Conseqüentemente, os ordinários locais (i.e., os bispos), especialmente se estão preocupados em proteger o rito e sua pureza, e até para garantir que ele continue a ser entendido pelo corpo daqueles que assistem Missa, faria bem, em minha humilde opinião, de encorajar a permanente conservação do rito de São Pio V…”. Note que ele não diz “faria bem… em autorizar o rito”, mas “encorajar a… conservação do rito”; o rito, não tendo sido nem abolido nem proibido, não tem necessidade de autorização.

Na prática atual, os bispos de fato proíbem o uso do rito de São Pio V. Mas sua proibição é em si mesma ilegal, e esta ilegalidade seria proclamada abertamente como tal não estivessem as estruturas legais Romanas em total decomposição.

Padres e pessoas leigas comuns não olham tão longe. O que eles podem ver é que qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, é permitida no modo das “celebrações” – qualquer coisa, exceto a Missa de São Pio V. Como eles sabem, também, ou como seus instintos lhes contam, que a nova Missa foi construída numa intenção ecumênica: isso é dizer que nela a noção de Sacrifício Eucarístico é diminuída o máximo possível, a fim de fazê-la aceitável aos Protestantes, que estão em revolta.

Por detrás do affair de St. Nicholas du Chardonnet (em Paris) aparece gradualmente todo o problema da Missa Católica. Este problema ainda está para ser resolvido.

Continua.